A PECUÁRIA LEITEIRA NO DISTRITO DE SANTANA DA SERRA – CAPITÃO
ENÉAS – MG: UMA ANÁLISE DE SUA RELAÇÃO COM A INSTALAÇÃO DA
INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS NESTLÉ EM MONTES CLAROS/MG
Fabiana Pereira dos Santos – UNIMONTES
[email protected]
Priscilla Caires Santana Afonso – UNIMONTES
[email protected]
RESUMO
A pecuária é uma atividade tradicional no Brasil e no Norte de Minas, ela representa a
colonização regional. Historicamente essa região demonstra uma vocação natural para o
segmento de corte. Entretanto, a instalação da empresa de laticínios Nestlé/SA na cidade de
Montes Claros/MG modifica esse cenário. Atualmente (2011) a região conta com um
considerável número de pecuaristas no segmento de leite. Essa transformação pode ser percebida
no Distrito de Santana da Serra - Capitão Enéias/MG, espaço que também foi influenciado pelas
demandas capitalistas do setor. O presente trabalho tem como objetivo estudar o processo de
transformação do espaço rural do Distrito de Santana da Serra – Capitão Enéias/MG,
relacionando a estrutura de gestão empresarial das indústrias de laticínios a produção leiteira.
Apesar do baixo valor pago pelo litro de leite aos produtores, a venda do mesmo oferece uma
renda segura para os pequenos e médios proprietários rurais na região. Esse é um dos motivos
que levam os produtores a vendem seu leite a tão baixo custo para essas empresas.
Palavras-chave: Santana da Serra. Pecuária leiteira. Indústria de Laticínios. Produtor Rural. Norte
de Minas.
INTRODUÇÃO
A escolha do tema do presente trabalho se deve ao fato de eu ser filha de um ex-produtor de leite
que vendia seu produto para empresa Nestlé/SA. Com isso, meu pai participou de grande parte do
processo de modernização da pecuária leiteira inserido por essa empresa no distrito de Santana da
Serra – Capitão Enéas/MG. No entanto, depois de anos de dívida com o Banco Bradesco S/A,
para o pagamento do tanque de resfriamento, a referida empresa fez novas imposições, como a
implantação do sistema de ordenha mecânica que deveria substituir a manual buscando melhorar
a qualidade do leite. Isto resultou na decisão do meu pai em parar com a produção. Um ano e
meio depois, ele se aposentou pelo Instituto Nacional de Previdência e Seguridade Social – INSS.
Atualmente (2011), produz pouco leite, o suficiente para fazer o queijo e o requeijão que é
vendido no mercado de Santana da Serra. O soro, subproduto do processo, serve aos porcos que
junto à renda dos produtos citados garantem a subsistência da família.
O fato de meu pai ter participado desse processo junto a muitos vizinhos inspirou-me o presente
trabalho, que tem como objetivo estudar o processo de transformação do espaço rural do Distrito
de Santana da Serra – Capitão Enéas/MG, relacionando a estrutura de gestão empresarial das
indústrias de laticínios a produção leiteira.
Tendo em vista esse objetivo, foi construída uma metodologia embasada em três etapas. Na
primeira, diz respeito a revisão bibliográfica. Na segunda etapa, foram coletados dados de fontes
secundárias, para levantamento de informações referentes à pecuária leiteira no Brasil, no Estado
de Minas Gerais, no Norte de Minas Gerais e em Santana da Serra. Na terceira fase, realizamos
entrevistas semi-estruturadas junto a 15 produtores de leite do distrito, em um universo de 17
agropecuaristas.
Pudemos constatar que a instalação da empresa de laticínios em Montes Claros/MG resultou no
“desenvolvimento” e na modernização da pecuária leiteira no Norte de Minas, principalmente no
distrito de Santana da Serra. O objetivo desse processo era a ampliação da produção de leite in
natura para o abastecimento da Nestlé/SA.
A introdução da referida empresa como agente econômico que incentiva a produção de leite o
transforma em um produto de baixo valor. Já o produto derivado (industrializado) em mercadoria
de alto valor agregado que é comercializado em diferentes mercados nacionais e internacionais.
O resultado da modernização de pecuária leiteira no Norte de Minas é a punição do pequeno
produtor que se vê forçado a diversos sacrifícios financeiros, além de enfrentar muita pressão
para adaptar-se ao modelo de gestão empresarial destes lacticínios.
1. A PECUÁRIA LEITEIRA NO NORTE DE MINAS GERAIS: UMA
CARACTERIZAÇÃO HISTÓRICA
O Norte de Minas tem sua história marcada pela pecuária. Nesse sentido, o rio São Francisco, por
ser perene, teve um importante papel: o de orientar a penetração dos colonizadores. Estes fixaram
fazendas de gado que foram implantadas devido às pastagens naturais que eram propicias à
criação de rebanho bovino (RODRIGUES, 1996).
Prado-Junior (1994, p. 197) destaca
Parte de Minas é, geográfica e historicamente, um prolongamento da Bahia. Foi
povoada pelas fazendas de gado que subiram no século XVII as margens do Rio São
Francisco, alcançando [...] seu afluente Rio das Velhas [...] O Norte já se achava
ocupado por baianos.
Analisando a obra de Prado-Junior (1994), percebemos que a região Norte de Minas foi ocupada
por expedições de bandeiras, que tinham como objetivo povoar o território brasileiro com intuito
de explorar e extrair riquezas. Foi a partir daí que se abriram estradas e se fortaleceram as
criações de gado na região.
A pecuária de corte é destaque na economia regional norte-mineira. Pereira (2010) destaca sua
importância a partir da implantação da Estada de Ferro Central do Brasil, que instalou nas
proximidades das suas estações os chamados currais de embarques ou “currais de ferro”, que
eram usados como ponto de embarque de bovinos comercializados com outras regiões de Minas
Gerais e do Brasil. Assim, ainda segundo a autora, podemos elencar os currais de embarque em
Pirapora, Buritizeiro, Engenheiro Navarro, Montes Claros, Capitão Enéas (estação Engenheiro
Zander), Caçarema (estação Messias Lopes), Janaúba, Tocandira, Catuti e Monte Azul.
Posteriormente, os currais de ferro foram extintos devido à expansão do rodoviarismo, e o gado
passou a ser transportado por caminhões-gaiolas (transboi).
Na atualidade (2011), a pecuária de corte ainda é uma importante atividade econômica regional,
mas o segmento leiteiro também vem ganhando espaço nos últimos anos. Historicamente, o
arranjo espacial da pecuária leiteira, no âmbito regional, foi formado junto à pecuária de corte
que perde espaço, principalmente em pequenas propriedades. Isso se deve a um crescente
mercado consumidor que surgiu a partir dos anos 1950 voltado para o leite in natura e seus
derivados. Segundo Brasil (1983) em 1955 foi inaugurada na cidade de Montes Claros a
Cooperativa Regional de Montes Claros – COOPRAGRO, que foi a primeira responsável pela
comercialização do leite na região. Esta o comprava dos pequenos produtores e revendia os
produtos derivados regionalmente.
Além da contribuição dada pela COOPRAGRO para a mudança da pecuária do segmento de
corte para o de leite no âmbito regional, os incentivos fiscais cedidos pela Superintendência de
Desenvolvimento do Nordeste - SUDENE permitiram a instalação do grupo Nestlé. Rodrigues
(1996) destaca esse grupo como outra importante influência.
A Nestlé identificou nesse novo segmento uma oportunidade para expansão dos seus negócios,
uma vez que a região demonstrava significativa potencialidade para a produção leiteira,
principalmente após a implantação da Assistência Nestlé aos Produtores de Leite – ANPL. Esta
atuava na área de assistência técnica aos produtores fazendo o melhoramento genético do rebanho
que tinha o objetivo de aumentar a produção em pequenas propriedades.
Podemos analisar que a atuação conjunta da Nestlé na linha de produção e comercialização e da
ANPL na área de assistência técnica, são os principais responsáveis pela expansão da pecuária
leiteira na região. Isso acontece porque os pequenos proprietários acreditaram que essa seria uma
forma de se modernizar para continuar no mercado, uma vez que o Estado não cumpriu seu papel
de promover políticas públicas para o setor que diminuiriam os impactos sobre os pecuaristas
familiares.
A partir da década de 1980, a pecuária leiteira já constituía uma das principais atividades da
região Norte de Minas, graças aos avanços mundiais em nível tecnológico e aos incentivos
industriais. A modernização provocou mudanças no rebanho e na estrutura das propriedades, e
conseqüentemente na quantidade e qualidade da produção de leite. Em contra partida a
inexistência de políticas públicas e planejamento por parte do Estado causou profunda
desigualdade entre os produtores que não contavam com financiamentos voltados para o setor e
principalmente orientações técnicas para tais investimentos. Isto ocasionou a baixa produtividade
do leite na mesorregião Norte, como atestada por Tanure (1999, p. 25):
A pecuária de leite no norte de Minas passa por dificuldades, essa afirmativa comprova
que a maior parte dos produtores trabalha de forma tradicional, investem pouco no
melhoramento genético e na alimentação do rebanho, estes são fatores importantes na
produção leiteira, especialmente numa região que passa por um longo período de
estiagem e chuvas concentradas nos meses de novembro, dezembro, janeiro e fevereiro.
Aliada aos problemas de ordem político, o clima do Norte de Minas repercute na produção do
leite, pois nos meses secos do ano as pastagens degradam-se e há a necessidade de uma
suplementação da alimentação do rebanho com ração (produto de alto custo). Essa nem sempre é
oferecida em quantidade suficiente para manter a qualidade e a quantidade do leite. Há, assim,
uma conseqüente diminuição da produção e aumento dos custos.
Os reflexos econômicos negativos na exploração da atividade são agravados pelo baixo nível de
especialização do produtor. O resultado é um baixo preço pago pela indústria por litro de leite,
mesmo que no período de entressafra do mesmo.
Entretanto, não podemos deixar de avaliar que existem produtores de leite na região nortemineira que vêm se adaptando a estrutura de produção das indústrias de lacticínios, e mantendo
sua produção linear ao longo de todo ano. Isso só foi possível através do melhoramento genético,
investimento em uma alimentação equilibrada do rebanho e do preço escalonado do leite
(regulado de acordo com a quantidade diária produzida), entre outros. O GRÁFICO I demonstra
a evolução continua da produção leiteira na região no período de 2003 a 2007.
350
308
Milhões de litros
300
250
255
259
262
2004
2005
2006
234
200
150
100
50
0
2003
2007
Período
GRÁFICO I: Evolução da produção de leite no Norte de Minas Gerais no período de 2003 – 2007 (milhões
de litros).
Fonte: IBGE, 2009. Embrapa Gado de Leite, 2009. Org. SANTOS, F. P., 2011.
O GRAFICO I exemplifica como a produção deu um salto quantitativo no Norte de Minas, o que
não significou uma melhora substancial na estrutura das propriedades que praticam essa
atividade. Podemos inferir, entretanto, que se a tecnologia alcançasse mais produtores o
desempenho da mesorregião seria notadamente alterado. No entanto, como os interesses que
aparecem com mais força são os econômicos, muito ainda deve ser feito para a inclusão dos
pequenos produtores no setor de forma a promover uma concorrência mais equânime.
Podemos ponderar que o local está permanente ligado ao mundo globalizado1, ou seja, o
desenvolvimento da pecuária leiteira no âmbito regional veio a atender os interesses econômicos
das indústrias que atuam globalmente sem levar em considerações os atores regionais. Esse é o
caso das indústrias de laticínios instaladas no Brasil que, devido aos incentivos fiscais e aos
fatores locacionais, elegeram Minas Gerais um lugar propício para seus investimentos. Dentro
dessa mesma análise, entendemos que foram também os incentivos fiscais, esses da SUDENE,
1
O termo Globalização está sendo usado nesse trabalho de acordo com a definição do professor Milton Santos que
acredita ser tal processo iniciado na década de 1970 trazendo a união entre a ciência e a técnica com o intuito de
transformar o espaço geográfico a partir dos recursos da informação. Este último sob a égide do mercado. E o
“mercado graças exatamente à ciência, à técnica e à informação torna-se um mercado global”. (SANTOS e
SILVEIRA, 2003, p. 52)
que permitiram que essas passassem a compor e redefinir o arranjo espacial do Norte de Minas,
influenciando o distrito de Santana da Serra em Capitão Enéas que está localizado a cerca de 100
km de distância do centro regional onde algumas dessas empresas se instalaram - Montes Claros.
Dentro deste contexto, discutiremos o surgimento e o processo de modernização da pecuária
leiteira em Santana da Serra, buscando analisar como as empresas de lacticínios influenciaram o
processo de modernização econômica na área rural e como os produtores de leite foram e/ou
estão inseridos neste processo produtivo.
2. O
DISTRITO
DE
SANTANA
DA
SERRA
-
CAPITÃO
ENÉAS/MG:
CARACTERIZAÇÃO HISTÓRICO-GEOGRÁFICA
O Norte de Minas é uma região composta por oitenta e nove municípios distribuídos em sete
microrregiões: Bocaiúva, Grão-Mogol, Januária, Montes Claros, Pirapora e Salinas. Cabe
ressaltar que a região de Montes Claros se destaca como o centro urbano mais importante destas.
(PEREIRA, 2004)
Essa região é banhada pela bacia hidrográfica do São Francisco, que como já exposto, orientou a
penetração de colonizadores para o interior e a implantação de fazendas de criação de gado. Sua
vegetação é caracterizada como área de transição entre domínio do cerrado para o da caatinga. O
clima predominante na região é o Tropical semi-úmido, com incidência de aridez em
determinados trechos. Do ponto de vista socioeconômico, é reconhecida pelos baixos indicadores
que apresenta, sendo considerada uma área de fronteira entre o Sudeste e o Nordeste (PEREIRA,
2004).
Seus aspectos naturais permitiram que essa parte do estado de Minas fosse inserida na área do
polígono da seca e mais tarde passasse a ser parte da SUDENE.
Os incentivos fiscais concedidos pela SUDENE e seu posicionamento geográfico (limitada-se ao
norte com o estado da Bahia, ao oeste com o rio São Francisco e rio das Velhas e ao sul com rio
Jequitaí), foram fatores importantes para a implantação de projetos industriais e agropecuários,
que segundo Rodrigues (1996) balizaram a modernização regional.
Capitão Enéas participa dessa realidade. Esse município faz parte da microrregião de Montes
Claros, fator que ajuda a explicar a presença de indústrias na área urbana do mesmo.
Segundo dados da prefeitura, o município de Capitão Enéas está posicionado nas coordenadas
16º, 42’, 08’’ de Latitude ao Sul da linha do Equador e, Longitude 43º, 42’, 03’’ ao oeste de
Greenwich, com uma superfície de 973 km². Esse faz limite com São João da Ponte, Montes
Claros, Francisco Sá e Janaúba (MAPA I) e sua população estimada em 2004 era de 13.822
habitantes.
MAPA I: Localizaçao do município de Capitão Enéas e do Distrito de Santana da Serra/MG
Fundado por Enéas Mineiro de Sousa em 1946, um desbravador pernambucano, empreendedor
que tomou como desafio a construção de longos trechos ferroviários para a Estrada de Ferro
Central do Brasil de Minas Gerais, ligando São Paulo à Bahia, adentrou-se nas matas entre os rios
Verde, São Domingos e Quem Quem, ocupou vasto território e próximo ao de Sapé, estabeleceu
a Fazenda Burarama, onde foram construídos casas, serraria, algodoeira, matadouro, salgadeira e
os diversos escritórios da administração dos negócios, todos pertencentes ao empresário Capitão
Enéas. De fazenda, passou a cidade, nunca se intitulou povoado, nem ganhou foro da vila. Era
fazenda Burarama, que logo com a morte do capitao Enéas Mineiro de Sousa a antiga Burarama
de Minas passou ase chamar Capitão Enéas.
Atualmente (2011) o setor primário e secundário são responsáveis pela geração de emprego e
renda no município. Merece destaque nesse contexto a agropecuária, atividade realizada em seus
distritos como Orion, Caçarema e Santana da Serra, objeto de nosso estudo.
Santana da Serra é composta por um pequeno núcleo urbano e várias comunidades rurais. A
vegetação da região apresenta composição fisiográfica complexa, envolvendo várias espécies da
Caatinga e Matas Secas, que propiciam a criação de gado no distrito (DUQUE-BRASIL, et AL.,
2007). Nos próximos subitens destacaremos o processo de modernização da pecuária leiteira
nesse espaço.
3. A MODERNIZAÇÃO DO ESPAÇO RURAL NO DISTRITO DE SANTANA DA
SERRA: O PAPEL DAS INDÚSTRIAS DE LATICÍNIO
A modernização agrícola regional, a exemplo do que aconteceu em todo o mundo e no Brasil,
está associada à expansão do capital e a subordinação do campo à cidade (lê-se indústria). Isso
ocorreu com a implantação de novas tecnologias sob a égide do pacote tecnológico da Revolução
Verde e inserção da industrialização no campo. A modernização agrícola é explicada por Silva
(1998, p. 25) nos seguintes termos:
A industrialização da agricultura representa não apenas as mudanças nas relações
do Homem com a Natureza, mas também nas relações sociais de produção e com
seus instrumentos de trabalho (ferramentas, máquinas e equipamentos, insumos e
matérias-primas etc.).
A modernização na agricultura brasileira modificou o padrão de crescimento do setor agrícola
que passou a estar embasado em atividades intensivas. As atividades agrícolas que eram
praticadas nos moldes tradicionais, com técnicas que representavam o antigo modelo vigente
foram “desprezadas” e interpretadas como um modelo falido e atrasado. Para Fajardo (2007), as
empresas tiveram um importante papel no tocante a essas transformações do espaço rural. Essas
são as grandes beneficiadas de um mercado consumidor em franca expansão, pois, vendiam todo
o tipo de insumos e maquinário que sustenta o “novo” modelo agrícola moderno.
Na medida em que o processo de modernização da agricultura evoluía, o pequeno produtor era
cada vez mais excluído. Esses foram “obrigados” a incorporar um determinado padrão de
tecnologia na sua produção para atender as exigências da indústria (BALSAN, 2006). O resultado
foi à transformação do espaço rural e conseqüentemente da pecuária leiteira. Essa última, vale
ressaltar, veio a ocupar o espaço do tradicional segmento de corte na região, para atender a
demanda de matéria-prima dos laticínios instalados em Montes Claros/MG.
Sobre a questão, Santos (1997) destaca que a Divisão Territorial do Trabalho é a responsável
pelas transformações no espaço geográfico
A cada divisão do trabalho, muda o uso do território em virtude dos tipos de
produção e das formas como se exercem as diversas instâncias de produção,
exigindo novos objetos geográficos (casas, silos etc.) e atribuindo valores novos
aos objetos preexistentes. (SANTOS, 1997, p. 114-115).
Conforme Santos (1977), o espaço é produzido e organizado por meio das relações capitalistas.
Nesse sentido, os encadeamentos setoriais são responsáveis pela produção do espaço geográfico.
Sua funcionalidade, em especial do espaço agrário, se constitui na divisão territorial do trabalho.
A “nova” divisão do trabalho entre a indústria e os produtores de leite em Santana da Serra
provocou novos arranjos espaciais que se manifestam de forma mais visível na estrutura das
propriedades. Essas conseqüentemente aumentaram à quantidade e a qualidade do leite in natura
vendido as empresas. Como descrito anteriormente, isso só foi possível através da introdução das
novas tecnologias, oriundas no processo de modernização em curso em várias partes do mundo
(RODRIGUES, 1996).
Em 1983 a empresa de laticínios Nestlé passou comprar o leite dos produtores rurais do Distrito
de Santana da Serra. Em 2011, além da Nestlé, os produtores de leite também vendem a sua
produção para a COOPAGRO. A Nestlé, entretanto possui o maior número de fornecedores. Esse
grupo é formado principalmente por aqueles que têm uma maior produção, utilizam tanques de
expansão individual e uma boa parte já utilizam ordenha mecânica. Já a Cooperativa conta com
um grupo menor de fornecedores os quais têm uma baixa produção e investem pouco em novas
tecnologias. A COOPAGRO fornece um tanque de expansão comum a seus fornecedores e
nenhum deles possui ordenha mecânica.
Percebemos que os produtores fornecedores da multinacional Nestlé têm investindo em
tecnologias e adequando cada vez mais o seu sistema de produção por exigência desta empresa
aos moldes mundiais. Isso acontece via melhoramento do rebanho leiteiro, instalação de tanque
de expansão/resfriamento nas fazendas e implantando a ordenha mecânica.
4. Afinal, como fica a pecuária no âmbito familiar?
Para discutirmos e entendermos o que é pecuária familiar em Santana da Serra, torna-se
necessária a discussão sobre a difícil conceituação do que é a agricultura familiar, pois
entendemos que para se tornar um pecuarista os produtores do lugar praticam a agricultura como
forma de subsistência. Silva et al., (2008, p. 135) afirma que:
Tanto na agricultura quanto na agropecuária familiar a gestão da unidade produtiva e os
instrumentos nela realizado é feita por indivíduos que mantêm entre si laços de sangue
ou de casamento; a maior parte do trabalho é igualmente fornecida pelos membros da
família.
Para Carneiro (2008), no mundo, a agricultura familiar é tratada por diversas abordagens entre os
diferentes países, principalmente levando em consideração a história de cada nação e suas
características sócio-econômicas. Também na obra de Abramovay (1998) observa-se que em
vários países desenvolvidos há diferentes conceitos sobre o que é agricultura familiar e quem são
os atores envolvidos no processo, sendo que na maioria dos casos, essa discussão é reduzida aos
estudos das estruturas fundiárias.
Em países como o Brasil, onde se tem um grande território com diferentes características e um
processo de modernização da agricultura que influiu de forma desigual e em níveis díspares, essa
conceituação é um desafio para os geógrafos que estudam o tema.
Como não é nossa intenção esgotar o assunto, devemos deixar claro nosso entendimento sobre a
questão. Nossa opinião está em consonância com os estudos de Silva (2003), já citado. Em sua
obra o autor esclarece que entende a pecuária e a agricultura familiar como atividades balizadas
nos laços familiares que estão presentes nas estruturas produtivas. A aquisição das propriedades
ocorre, em grande parte das vezes, por meio de herança. É preciso entender ainda que, o produtor
trabalha para a subsistência da família diferente da agropecuária em grandes propriedades
caracterizadas pela grande mecanização e pela presença de um maior número de mão de obra
assalariada.
Em Santana da Serra todas as características da pecuária (agricultura) familiar estão presentes.
Exemplo disso, é a forma como os pecuaristas adquiriram as suas propriedades. A maioria dos
proprietários, 73% (11) adquiriram as suas terras herdando-as dos seus pais. Enquanto 11% deles
(dois) as adquiriram através de herança das esposas. Apenas 7% (um) comprou a terra e outros
7% (um) afirmou ter recebido uma parte como herança e outra por via de compra.
Portanto, a maioria das propriedades foi herdada e esse é um dos motivos que leva a permanência
nas terras. Para Lamarche (1998) a família tem um peso importante na permanecia dos herdeiros
nas propriedades, mesmo nas mais adversas situações. Observamos que em Santana da Serra não
é diferente.
Quanto ao tamanho das propriedades, optamos por nos apoiar na metodologia de classificação de
Queiroz (2000) que elege a pequena propriedade com o tamanho equivale de 01 a 04 módulos
fiscais (até 48 hectares), a propriedade média é aquela com 05 a 15 módulos fiscais (49 a 180
hectares) e por último a grande propriedade a de 16 módulos fiscais ou mais (acima de 181
hectares). Reafirmamos que apesar de levarmos em consideração o tamanho da propriedade, esse
não é o único critério elegível para classificar a produção como familiar.
Podemos perceber que a maioria das propriedades, 54% são pequenas. Outras 33% são médias e
apenas duas ou 13% são classificadas como grandes. Entretanto, apesar das proporções não há no
distrito a agropecuária patronal2 (empresários especializados), pois o nível de mecanização, o uso
de mão de obra externa e a própria relação entre o produtor e a terra, não caracterizam atividade
nesse nível. Esse dado nos ajuda a entender que na área estudada é formada por grupos de
pecuaristas familiares de pequeno e médio porte.
2
O termo agricultura patronal é utilizada por Silva (1998) para se referir a agricultura nos moldes modernos em
grandes proporções, ou seja, os latifúndios que modernamente são definidos por termos como agronegócio.
Interessa ressaltar que as idades dos produtores que permanecem no lugar variam de 25 a 68
anos, sendo que apenas dois deles são solteiros e ainda residem na propriedade. Isso aponta para
uma renovação no segmento na região apesar dos problemas enfrentados. Do universo
pesquisado, 13 são casados e possuem dependentes. A maioria deles nasceu no local. Aqueles
naturais de outras partes do país possuem algum tipo de ligação com o lugar, como a residência
de familiares. Os mais velhos relatam que os filhos em idade produtiva residem em outras
cidades próximas como Janaúba, Montes Claros e Capitão Enéas devido à busca por melhores
empregos. Aqueles que moram nas propriedades ainda são crianças e muitos ainda não iniciaram
seus estudos. Outros possuem filhos em idade escolar. Esses estudam no distrito que oferece
ensino até o nível médio.
Seis produtores possuem o ensino fundamental incompleto, dois possuem o ensino fundamental
completo, outros cinco concluíram o ensino médio e dois cursaram o ensino superior na área de
Zootecnia. É importante destacar que os dois produtores (um com 25 anos e outro com 29 anos)
formados em nível superior investiram na re-estruturação das suas propriedades e na
modernização da pecuária leiteira (rebanho leiteiro, tanque e ordenha mecânica), e atualmente
são os dois maiores produtores de leite no distrito de Santana da Serra.
Quanto ao tempo de atuação dos produtores no setor leiteiro, pudemos perceber que cinco
produtores atuam na pecuária leiteira entre três e seis anos. Outros três atuam no segmento entre
17 e 20 anos, e sete produtores (quase metade deles) atuam na pecuária leiteira há 28 anos, desde
a implantação da Nestlé em Montes Claros/MG.
Dos 15 produtores, cinco sobrevivem na atualidade apenas da produção de leite. Outros 10
afirmaram que o leite não é sua principal fonte de renda, pois além dessa produção, atuam
também em outras atividades, como no segmento de corte, criação de aves e a importante e
unânime atividade agrícola (roças de milho, feijão, sorgo, entre outros). Outros segmentos
também são citados e esses caracterizam o novo rural brasileiro3 como discute Silva (1998) que
afirma ter o campo brasileiro atividades características do urbano que complementam a renda dos
3
Para uma melhor compreensão sobre o tema ver Graziano da Silva (1998) e Wanderley (2000) que discutem em sua
obra o RURBANO brasileiro, projeto que tem como objetivo discutir novas ruralidades que surgem no espaço
agrário no Brasil e no mundo.
produtores. Dentre essas podemos destacar em Santana da Serra a atividade do setor público
(parte do tempo é dedicada à agropecuária e outra ao funcionalismo público), atividade de
locação de tratores e a aposentadoria.
Quanto à produção de leite in natura, destacamos a TABELA I que esclarece a média diária de
leite em litros de cada produtor do distrito.
TABELA I: Classificação dos produtores de leite: produção leiteira média diária (litros/dia)
Produção total de litros de leite/dia
Número de produtores
Até 100
101 a 300
301 a mais
6
6
3
Fonte: pesquisa de campo - agosto/2010
Org.: SANTOS, F. P.
A TABELA I demonstra que em Santana da Serra há uma predominância de estabelecimentos
com uma pequena a média produção diária. Apenas três propriedades produzem 301 a mais litros
de leite/dia. Considerando essa produção esclarecemos que mesmo aqueles que possuem menor
capacidade produtiva possuem tanques de resfriamento por ser essa uma exigência da Nestlé e da
COOPAGRO.
Todos os produtores 73% (11 deles) que fornecem leite para a Nestlé têm tanque de resfriamento
individual. Os 27% (três deles) fornecedores da COOPAGRO usam o tanque de resfriamento
cedido pela própria cooperativa. Há apenas uma exceção, um produtor conta com o tanque
individual (comprado por ele) e vende sua produção para a mesma, produzindo diariamente cerca
de 250 litros de leite.
Do ponto de vista mercadológico, todos os produtores vendem seu leite de forma individual para
as empresas de laticínios. Também existe a variação no preço do leite in natura pago ao produtor.
O preço pago pela Nestlé varia de R$ 0,40 a 0,65 de acordo com a quantidade e a qualidade do
leite. Já a Cooperativa paga um valor fixo pelo litro de R$ 0,60. Os produtores, que vendem seu
produto para a Nestlé, afirmaram que só o vendem para a empresa devido à “confiabilidade”
desta no mercado. Para eles essa “confiabilidade” se traduz no não atraso no pagamento do leite e
na comprar de qualquer quantidade do mesmo. No próximo sub-item discutiremos os problemas
e os desafios produtores em Santana da Serra já desenhados aqui, de acordo com nossas
pesquisas de campo.
4.1 Os problemas e desafios na pecuária de leite em Santana da Serra
Percebemos que os problemas enfrentados pelos proprietários (pequenos e médios) no local de
estudo são semelhantes. Todos procuraram se adequar a modernização imposta pela Nestlé e pela
Cooperativa. Entretanto, são os pequenos as maiores “vítimas” do processo por não ter
capacidade financeira para se adequar as transformações. Para Oliveira (2006, p. 38)
O agronegócio moderniza o país, já não dependemos apenas da importação do trigo, mas
agora também, do leite. Estamos, pois diante de uma terrível contradição. Quem produz,
produz para quem paga mais, não importa onde ele esteja na face do planeta.
Podemos perceber que a agropecuária familiar vem sendo transformada em agronegócio4;
segmento do setor caracterizado pelos altos índices de exclusão social, pois, o mesmo Brasil
moderno que exporta milhões em grãos é também o que importa alimentos básicos que abastece a
mesa dos cidadãos5.
Sabemos também que os problemas gerados pela agricultura moderna extrapolam o espaço rural.
Para Vargas (2010) os agricultores expulsos de suas propriedades pelo estrangulamento do
agronegócio provoca o crescimento desordenado das cidades. Entendemos que a luta contra a
pobreza e por melhores condições de vida resume os objetivos atuais do pequeno produtor
também no contexto regional.
Nos estudos de Silva (2004) a situação do pecuarista familiar não é diferente, pois a renda gerada
pelo incremento de produtividade oriunda da modernização da atividade acaba sendo apropriada
pelas empresas que passaram a atuar no mercado de leite. Isso nos leva a análise de que o
produtor adotou novas tecnologias para viabilizar a produção com o incremento de raças leiteiras
melhoradas, à utilização de insumos, máquinas agrícolas entre outros, e não obteve nenhuma (ou
pouca) melhora de sua qualidade de vida. Clemente e Hespanhol (2009, p. 204) também
defendem esse argumento
4
Agronegócio é entendido nesse trabalho como uma relação comercial e industrial envolvendo a cadeia produtiva
agrícola ou pecuária.
5
Uma discussão mais ampla sobre o assunto está em Oliveira (2000, 2001).
Percebe-se, que as incertezas e os baixos preços pagos pelo leite aos produtores, a
especialização não é a solução mais apropriada, pois os altos investimentos na produção
podem não ser compensatórios nesta realidade brasileira.
Percebemos desta forma que o agronegócio do leite passou por grandes transformações nas
últimas décadas, saindo da exploração de subsistência para a profissionalização, com enfoque
para a produção em escala, com qualidade, agregação de valor e industrialização de produtos
diferenciados. Entretanto, verifica-se que grande parte dos produtores de leite ainda não estão
preparados para enfrentar essa realidade e passam por grandes dificuldades. Percebe-se que há
necessidade de políticas que fomentem o setor.
Os 15 proprietários entrevistados durante nossa pesquisa, afirmaram por unanimidade que os
preços do leite pago pelas industriais de laticínios é insuficiente para cobrir gastos com a
produção e obter lucro. Eles consideram que o setor lácteo tem grandes desvantagens e destacam
os baixos valores pago pelo leite como o principal deles. Dessa forma o produtor J.S.F.R.
(entrevista realizada em fevereiro de 2011, Santana da Serra/MG) afirma que “para o produtor a
política tá ruim, mas dá para sobreviver, por enquanto o produtor ainda tem crédito vai
endividado e sobrevivendo [sic]”.
A maioria dos produtores afirma ter se endividado para adaptar-se as exigências das indústrias de
laticínios. Constatamos que 93% (14) dos entrevistados utilizam de algum tipo de financiamento
do Banco do Nordeste Brasileiro - BNB ou Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar
– PRONAF para modernizar sua propriedade. Contudo, apenas 7% (um) disse não utilizar
financiamentos, pois por ser funcionário do estado esse não tem direito a empréstimos
subsidiados pelo governo. Todos os proprietários que possuem financiamento afirmam que o
dinheiro é totalmente aplicado na propriedade.
Quanto às linhas de créditos utilizadas pelos produtores do distrito, devemos evidenciar que
nenhum deles tem como objetivo financiar a pecuária. Todos têm como intuito fomentar o
empreendedorismo ou apoiar a agricultura familiar. Dessa forma, a exemplo do que já foi
discutido, não houve nenhum tipo de preocupação por parte do governo em se criar políticas
públicas para o setor que atendesse a agropecuária familiar.
Um dos sistemas de crédito utilizado pelos produtores foi financiamento do BNB que funciona
como programa que atua de maneira rápida na concessão de créditos em grupo solidário ou
individual. O Grupo solidário consiste na união de pessoas interessadas em obter o crédito,
assumindo a responsabilidade conjunta no pagamento das prestações.
Quanto ao PRONAF, criado em 1995 como uma linha de crédito de custeio, tem como finalidade
promover o desenvolvimento sustentável do meio rural, por intermédio de ações destinadas a
implementar o aumento da capacidade produtiva do agricultor (CARNEIRO, 2008). Afirma
Pereira (2006) que o PRONAF é a única linha de crédito rural estatal disponível aos pequenos
produtores rurais do Brasil, geralmente beneficiam os agricultores familiares integrados as
cadeias produtivas agroindustriais. Esse vem experimentado modificações e aprimoramentos em
suas diretrizes e processos operacionais redefinindo públicos alvos classificando os produtores
familiares em categorias.
A partir do PRONAF, desmembram-se vários outros sub-programas que buscam alcançar
diversos grupos no campo. Dentro do programa as famílias são enquadradas nos Grupos A, B, C,
D e E, ou em outros tipos de programas, sendo que cada qual financia um determinado valor com
taxas de juros específicos (TEIXEIRA, NAGABE, 2010). Em Santana da Serra os produtores
rurais são enquadrados no grupo do PRONAF D6 e E7. Todos eles afirmam que os empréstimos
feitos vêm sendo quitados em dia.
Quanto questionados sobre os problemas enfrentados para a produção de leite no lugar, são
unânimes em elencar: a falta de incentivo por parte do governo municipal, as estradas ruins que
dificultam o escoamento do produto, o baixo preço do leite, o longo período de estiagem que
prejudica a produção, a mão de obra e maquinários caros e a falta de assistência. Em resumo um
dos produtores, o senhor R.P.N (entrevista realizada em fevereiro/2011, Santana da Serra/MG)
disse: “são muitas despesas sem retorno[sic]”.
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PRONAF Grupo D – Beneficia, através do crédito de custeio e investimentos, os agricultores com renda bruta
anual familiar superior a R$ 14 mil e inferior a R$ 40 mil (CARNEIRO, 2008).
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PRONAF Grupo E – Abrange os agricultores com renda familiar anual bruta entre R$ 40 mil e R$ 60 mil, para
financiamento do custeio das atividades agropecuárias e não-agropecuárias, bem como financiamento da
implantação, ampliação ou modernização da infra-estruturade produção (CARNEIRO, 2008).
Além dessas dificuldades enfrentadas pelos produtores, as empresas exigem higiene, tanque de
resfriamento e uma qualidade do leite o que só pode ser alcançada com investimentos no setor.
Nos últimos anos a Nestlé vem impondo aos produtores a substituição da ordenha manual pela
ordenha mecânica e alguns produtores já se adequaram.
Pudemos observar que 67% (dez) dos produtores ainda utilizam a ordenha manual, e outros 33%
(cinco) já implantaram a ordenha mecânica em suas propriedades. Aqueles que ainda não se
modernizaram nesse quesito afirmam que não implantaram o novo sistema de ordenha devido ao
alto valor da máquina e pela pouca produção que para eles dispensa a mecanização.
Foi questionado aos entrevistados se seria possível sobreviver somente com a renda do leite.
Esses responderam que não seria possível, como é demonstrado na fala do senhor A.G.B
(entrevista realizada em fevereiro/2011, Santana da Serra/MG) “o dinheiro do leite dá apenas
para sustentar as próprias vacas, o leite é muito barato[sic]”. O senhor M.S.B (entrevista
realizada em fevereiro/2011, Santana da Serra/MG) responde que:
“agente paga para trabalhar, o leite não te oferece renda. A Nestlé é uma multinacional e
aqui existe uma malandragem de firma. Essas firmas fazem do produtor o que quer, na
verdade elas são quem controla o produtor, devido ter muito dinheiro. Nós produtores
temos que nos unir para conseguir alguma coisa, porque essas empresas exploram de
mais os produtores [sic].”
O produtor L.S.B (entrevista realizada em fevereiro/2011, Santana da Serra/MG) acrescenta que
o preço básico pelo litro de leite em nível nacional é de R$ 0,258 e o valor de mercado varia de
acordo com a qualidade do mesmo, que como discutimos anteriormente depende do tipo de
tecnologias empregadas na ordenha, no local de armazenagem, entre outros.
Outro questionamento feito durante a pesquisa diz respeito aos motivos que levam a persistência
em se atuar na pecuária leiteira. Os entrevistados afirmam que é melhor se atuar nesse segmento
do que na pecuária de corte. Isso porque a pecuária leiteira oferece garantia de uma renda mensal.
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Isso significa que nenhuma empresa poderá pagar um valor inferior a esse. A Cooperativa paga um valor fixo R$
0,60 centavos, mas a Nestlé a base do litro de leite e de R$ 0,25, o valor recebido a mais pelos produtores é pago pela
qualidade do leite.
Já no segmento de corte, a renda é anual e a propriedade são demasiadamente pequenas para a
criação dos animais. Muitos dos produtores afirmam ainda, que já atuaram na pecuária de corte.
Pudemos observar que 67% (dez) deles nunca atuaram na pecuária de corte, outros 27% (quatro)
deles dizem já ter atuado nesse segmento, mas atualmente só atuam na pecuária leiteira porque a
renda é mensal. Apenas 6% (um) afirma que atua em ambos os segmentos porque “o dinheiro do
leite muitas vezes não sobra e o a venda do gado de corte ajuda a segurar as pontas. O produtor
sobrevive com essa renda porque não tem outra opção[sic].”
Pelo exposto, entendemos que os produtores de leite em Santana da Serra enfrentam diversos
desafios (problemas) para se adaptar as modificações impostas pelas indústrias de laticínios no
lugar. Isso pode ser percebido pelos relatos transcritos nesse capítulo.
CONSIDERAÇÕES
No presente trabalho buscamos compreender as transformações que vêm ocorrendo no espaço de
Santana da Serra - Capitão Enéas/ MG, através da análise da cadeia produtiva do leite no distrito.
Pudemos concluir que todas as mudanças detectadas durante a pesquisa (inclusive a disseminação
dessa atividade) derivam da instalação da indústria de laticínios Nestlé no município de Montes
Claros/MG, no ano de 1983.
Pudemos notar que os produtores não vivem somente da renda do leite. Estes afirmam em
entrevista que outras atividades como a pecuária de corte, a criação de aves (principalmente
galinhas), o aluguel de trator, o salário como funcionário público e as aposentadorias,
complementam tal renda. É unânime também o plantio de roças (feijão) para o sustento da
família e para a suplementação alimentar dos animais que criam (milho e sorgo).
Em campo, pudemos identificar as dificuldades enfrentadas pelos produtores de leite, mas, apesar
delas o segmento leiteiro é a atividade que garante um fluxo regular de renda mensal (um dos
fatores que os leva a permanecer na atividade). Os pecuaristas familiares afirmam que a renda do
leite é utilizada para cobrir despesas da família, o que tem contribuído para a viabilização de sua
reprodução social.
É preciso lembrar que no Brasil, os preços do leite variam de forma abrupta, o que dificulta a
geração do lucro para o produtor, mesmo que esses invistam na atividade. Pensamos que esse
quadro só seria revertido se houvesse a atuação do poder público, no sentido de formular políticas
que valorizem os produtores e que amenize os efeitos perversos do processo de reestruturação do
segmento. Também é importante atenuar a subordinação destes aos ditames do capital industrial.
Neste contexto podemos considerar que não importa o tamanho da produção, seja ela média ou
pequena, não há uma condição financeira mínima que possibilite a sobrevivência dos pecuaristas
familiares. Esses estão acostumados a lidar com restrições e não abandonam a atividade
facilmente. Essa situação vai além da dimensão econômica perpassando pela dimensão social.
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Pecuária Leiteira em Santana da Serra