A ÉTICA E A ESTÉTICA DA DOR: um olhar para Fogo Morto, de José Lins do Rego Natasha Alves Carvalho de Castro Rüb Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro como quesito para a obtenção do Título de Mestre em Ciência da Literatura (Literatura Comparada) Orientador: Prof. Dr. Ronaldo Lima Lins Rio de Janeiro Junho de 2009 2 A ÉTICA E A ESTÉTICA DA DOR: um olhar para Fogo Morto, de José Lins do Rego Natasha Alves Carvalho de Castro Rüb Orientador: Professor Doutor Ronaldo Lima Lins Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pósgraduação em Ciência da Literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Ciência da Literatura (Literatura Comparada). Examinada por: ___________________________________________ Presidente, Prof. Dr. Ronaldo Lima Lins ___________________________________________ Prof. Dr. Luiz Edmundo Bouças Coutinho - UFRJ ___________________________________________ Profa. Dra. Iza Terezinha Gonçalves Quelhas - UERJ ___________________________________________ Prof. Dra. Teresa Cristina Meireles de Oliveira – UFRJ, Suplente ___________________________________________ Prof. Dr. Mario Cesar Newman de Queiroz – FAETEC, Suplente Rio de Janeiro Junho de 2009 3 Rüb, Natasha Alves Carvalho de Castro. A ética e a estética da dor: um olhar para Fogo Morto, de José Lins do Rego/ Natasha Alves Carvalho de Castro Rüb. - Rio de Janeiro: UFRJ/ CLA, 2009. xi, 150f. Orientador: Ronaldo Lima Lins Dissertação (mestrado) – UFRJ/ CLA/ Programa de Pósgraduação em Ciência da Literatura, 2009. Referências Bibliográficas: f. 136-150. 1. Ética 2. Estética 3. Dor 4. José Lins do Rego I. Lins, Ronaldo Lima. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Departamento de Ciência da Literatura (Literatura Comparada). III. A ética e a estética da dor: um olhar para Fogo Morto, de José Lins do Rego. 4 RESUMO A ÉTICA E A ESTÉTICA DA DOR: um olhar para Fogo Morto, de José Lins do Rego Natasha Alves Carvalho de Castro Rüb Ronaldo Lima Lins Resumo Programa de (Literatura da Dissertação Pós-graduação Comparada), de Mestrado em Ciência Faculdade de submetida da ao Literatura Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Ciência da Literatura (Literatura Comparada). A partir dos conceitos de ética e estética podemos delinear as representações da dor na arte. A ética é estudada e por vezes entendida como “moral”. Essa mesma, representada na arte, delineia o conceito de estética, que vem sofrendo grandes transformações ao longo dos séculos. A experiência estética que valorizava o belo, como valores morais e físicos, agora, concerne tudo que suscite algum tipo de epifania ao sujeito receptor. Em meio a essas definições, no romance Fogo Morto, de José Lins do Rego, podemos ver as formas de dor e de sublimação de seus personagens mergulhados na paisagem e na condição de vida precárias. Palavras-chave: ética; estética; dor; Fogo Morto Rio de Janeiro Junho de 2009 5 RÉSUMÉ L’ÉTHIQUE ET L’ESTHÉTIQUE DE LA DOLEUR: um regard sur Fogo Morto, de José Lins do Rego Natasha Alves Carvalho de Castro Rüb Ronaldo Lima Lins Résumé Programa da de (Literatura Dissertação Pós-graduação Comparada), de Mestrado em Ciência Faculdade submetida da de ao Literatura Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Ciência da Literatura (Literatura Comparada). À partir des concepts de l’éthique et de l’esthétique nous pouvons tracer les représentations de la doleur dans l’art. L´éthique est étudié et par fois comprise comme “le moral”. Celle-ci, représentée dans l’art, trace le concept de l’esthétique, qui est en train de souffrir grandes tranformations pendant les siècles. L’expérience esthétique qui valorisait le beau, comme des valeurs moraux et physiques, de nos jours, concerne tout qui suscite quelque type d’épiphanie à l’individu récepteur. Dans ces définitions, dans le roman Fogo Morto, de José Lins do Rego, nous pouvons apercevoir les façons de la douleur et de la sublimation de ses personnages plongés paysage et dans la condition de vie précaires. Mots-clés: éthique; estéthique; douleur; Fogo Morto Rio de Janeiro Junho de 2009 dans le 6 À minha mãe que me ensinou a viver socialmente e ao meu pai que me deseducou e me ensinou a sonhar. 7 Agradecimentos Agradeço: Primeiramente a Deus, que, com certeza, ouviu minhas preces e concedeu-me muita serenidade. Ao Ronaldo Lins, meu orientador querido - por vezes pai - pela insistência em mim, por sempre acreditar no meu potencial. Pela paciência, compreensão, pelas broncas muito necessárias, pelas palavras confortadoras e pelas mais duras nas horas em que pensei que nada fosse pra frente. Pelas indicações bibliográficas, pelos encontros de estudo. E, principalmente, pela amizade. Ao Capes, que me concedeu uma bolsa de estudos, ajudando-me muito na compra de livros e no desenvolvimento do meu trabalho. Aos meus pais, que mesmo sem compreenderem a totalidade do meu esforço, sempre me apoiaram, do jeito deles. Amo-os muito, do meu jeito. 8 A minha família, que mesmo que não entendam nada do que estudo, apóiam-me em tudo que eu fizer, simplesmente por me amar. A todos meus amigos, sem exceção, que me escutaram por longas noites, longos dias, meses e anos. A meus amigos, mais caros, que me ouviram chorar nos prazos finais, me deram apoio e sempre acreditaram em mim. Aos que entenderam minha ausência, que me fizeram sorrir quando precisei e me fizeram retomar a confiança em mim mesmo, quando achei que não mais conseguiria. A todos que passaram na minha vida, durante esse tempo de dissertação. Todos que puderam ver minhas transformações, meus problemas e ainda assim continuaram do meu lado. 9 “Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma.”1 1 PESSOA, Fernando. Fernando Pessoa – Antologia Poética. TUTIKIAN, Jane (org.). Porto Alegre: Leitura XXI, 2006. 10 SUMÁRIO 1 - Introdução ---------------------------------------- 12 2 – A estética e a ética no campo filosófico ---------- 22 2.1 – A ética ------------------------------------ 22 2.1.2 – As concepções da ética -------------- 24 2.2 – A estética --------------------------------- 29 2.2.1 – A história da estética -------------- 31 3 – A dor --------------------------------------------- 43 3.1 - A ética da dor ----------------------------- 46 3.1.1 - O sujeito e sua vontade ------------- 50 3.1.2 - O mal-estar ------------------------- 52 3.1.3 - Do Tabu ao Totem -------------------- 55 3.2 – A estética da dor -------------------------- 58 3.2.1 – A dor sem o belo -------------------- 62 3.2.2 - As implicações do feio -------------- 64 3.2.3 - Traçando um paralelo entre Lessing e Dostoiévski ------------------------------- 68 3.2.3.1 – Crime e Castigo -------------- 68 3.2.3.2 – Lessing e Dostoiévski -------- 74 4 - Fogo Morto, de José Lins do Rego ------------------ 81 4.1 - O movimento modernista --------------------- 81 4.2 - Fogo Morto e José Lins do Rego ------------- 84 4.2.1 – Sobre José Lins do Rego ------------- 85 4.2.2 – O ciclo da cana-de-açúcar ----------- 88 11 4.2.3 – Fogo Morto -------------------------- 92 4.3 – A dor entre o regional e o psicológico ----- 94 4.4 – O paralelo da dor de Lessing e de Fogo Morto --------------------------------------- 96 5 - A estrutura de Fogo Morto ------------------------- 99 5.1 - Os anti-heróis ---------------------------- 100 5.2 - Primeira parte – O mestre José Amaro ------ 102 5.3 - Segunda parte – O engenho de Seu Lula ----- 107 5.4 - Terceira parte – O capitão Vitorino ------- 114 5.5 – As mulheres do romance -------------------- 119 5.5 - A ética e a estética em Fogo Morto -------- 121 6 - Conclusão ---------------------------------------- 124 7 – Bibliografia ------------------------------------- 136 12 1 - Introdução “O começo da elaboração crítica é a consciência do que realmente somos, quer dizer, um conhece-te a ti mesmo como produto do processo histórico desenvolvido até agora, e que deixou em ti uma infinidade de marcas recebidas, sem benefício do inventário. É preciso efetuar, inicialmente, esse inventário.”2 No limite entre os conceitos de estética e ética, a dor aparece na literatura com suas inúmeras formas possíveis de representação. Cabe definir os valores da estética e a definição ética na construção subjetiva da arte e de seus receptores. Os valores representados morais de e os acordo subjetivos com as são concepções definidos de e beleza vigentes em dado período. A arte concebe toda a natureza do real e do fantástico, importa saber o que vale em sua exposição. O desconforto catártico traz algum tipo de satisfação ao receptor da arte. Não vale só acompanhar os sentimentos que circunscrevem a obra, mas aprendê-los. A construção dessas sensações provoca o interesse pela psicologia do indivíduo e suas formas de representação. Como a dor nasce, desenvolve-se e por que sua apreensão suscita qualquer coisa de interessante para nós? 2 GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 2004. 13 Embora o sentimento de dor seja inerente à criação do Homem, desde o mito do pecado original, a boa forma de representá-lo artisticamente é permanente motivo de discussão ainda nos dias de hoje. A interpretação de suas dimensões momento varia de histórico acordo em que com se cada sociedade encontra. Apesar e com de o estar inserida em uma categoria universal, a dor não é expressa do mesmo modo em todas as culturas e talvez não seja sentida de forma idêntica por todos os indivíduos. Seu limiar varia não somente de um indivíduo para outro, mas também de acordo com sua cultura, ou seja, independentemente de suas bases anatômicas e fisiológicas. A dor parece ter fundamento cultural e social. A partir dessa concepção, é pertinente a investigação de suas formas de representação e aparição na arte, aliada às normas estéticas. Contudo, o conceito de estética constituiu-se sempre em uma questão polêmica, sofrendo, de maneira progressiva, grandes mudanças ao longo de sua história. Este, sempre correlacionado às postulações éticas, dita as formas da arte e da representação de todos seus elementos. O belo era matéria fácil a retratar, mas a dor, como forma trato. inconveniente Esse foi o à beleza, olhar dos precisava artistas de regras, durante de muitos 14 séculos: o fazer a dor não doer na arte. Sua forma expressa deveria ser compensada por algo para que a tornasse bela, como, por exemplo, as características virtuosas dos heróis. Dessa forma, a beleza deveria traçar um paralelo com os valores morais. No entanto, com o Renascimento, a figura de Deus atada a ela desfez-se e deu-se relevo ao relativismo estético, à concepção da geometria e das formas perfeitas. Diversas descrição das modernidade. cultural, são A as diferenças personagens partir pensemos da um dessa que tanto constante pouco concepção sobre inquietam evolução a para social necessidade a a e da transformação dessa forma de expressão. O crítico Lessing desenvolve seus conceitos estéticos baseado nessa concepção de belo. A beleza das formas perfeitas aliada aos valores morais. Contudo, devemos entender a distância entre a concepção de Lessing com a arte plástica e a poesia, para a prosa – motivo de nossa discussão – dos dias atuais. Suas teorias funcionam como base para o entendimento de nossas inquietações. Em seu livro Laocoonte ou sobre as fronteiras da pintura e da poesia, o crítico elabora suas discussões sobre a representação de Laocoonte no mármore e na poesia de Virgílio. O que está em pauta para ele é a representação do seu sofrimento. Lessing aborda a forma que este pode ser 15 transposto para a arte sem afetar a beleza estética. Para o crítico o belo consiste em representar a verdade da natureza. Mas a dor e o sofrimento só se tornarão belos se vierem acompanhados da virtude. O feio, para o crítico, está fora dos domínios da arte. Contudo, Lessing só abrange a pintura e pouco da poesia. Para termos uma maior dimensão da teoria da dor na literatura, citamos Fogo Morto, de José Lins do Rego, como exemplo. Seus personagens passam por uma contaminação da dor e da angústia, durante sua existência precária. Suas representações, antes esculpidas no mármore, em Laocoonte, são as mesmas que encontramos na consciência das personagens. Considerando a prosa como forte manifestação de arte nos dias de hoje, o conceito do belo e de suas representações muda bastante em relação ao Lacoonte. Os valores morais ligados à beleza nos trazem a atenção para outro ponto pertinente de pesquisa: o conceito de ética. Seus primeiros estudos, com Aristóteles, trouxeram à tona o conceito de homem virtuoso, aquele que deveria ser bom, mostrando-se forte e cheio de virtudes. Contudo, os valores éticos também sofreram transformações ao longo de séculos. Kant e sua filosofia do “agir moral” nos deram uma nova perspectiva de interpretação do homem, agora, completa, entendido como sujeito dotado não só de racionalidade, mas também de sentimento. Vemos-nos, então, 16 inseridos em uma sociedade legisladora de sua ética, ao mesmo tempo em que somos empreendedores dessa mesma. O estudo das diversas formas de composição do conceito ético, desde seus primórdios até os dias atuais, encaminhanos certamente a uma definição segura. Dessa forma, torna-se fundamental convergir os conceitos propostos, pois a estética e a ética nos parecem indissociáveis, na medida em que se complementam em suas formulações. Porém, nossa matéria de estudo pertinente são as formas de representação da dor, desde seu início até seu desejo de sublimação. Sendo assim, cabe-nos elaborar uma ética da dor, pautados na idéia da noção de dever, para podermos analisar suas representações estéticas. Em meio ao nosso estudo da definição de moral, surge o pensamento singular existencialistas. O de Sartre filósofo e começa suas por formulações ressaltar a importância da alteridade e seu reconhecimento, mediante a explicação angústia. dos conceitos de liberdade, o de La Para autor Nausée, de dor somos e de todos responsáveis pela existência do outro, e, da admissão dessa responsabilidade, nasce a angústia da preocupação sobre nossos atos. Essa angústia, advinda da identificação e incorporação da alteridade, é gerada também, e principalmente, pela castração dos desejos do sujeito. Os interesses pragmáticos 17 da vontade são teorizados por Schopenhauer e seu Mundo como vontade e representação. Ele defende o indivíduo como produto unicamente de seus desejos, capaz de passar sua vida atrás de algo que julga bom para si. Entretanto, mediante a conquista desse bem, o mesmo tende a cair na insatisfação do tédio, consumindo-se na dor do nada, do objeto conquistado, na satisfação finita. Esse desejo permanente, defendido por Schopenhauer, é mostrado também nos estudos de Freud sobre as pulsões do subconsciente Civilização, recalque, do o indivíduo. psicanalista castração, id, Em define ego e seu Mal-estar conceitos superego, de na pulsão, delineando o comportamento do homem inserido e perante um dado meio social. O processo civilizatório provoca o tolhimento dos desejos inerentes ao indivíduo, causando uma dor dilacerante. A realização e satisfação das pulsões ficam divididas entre consciente e inconsciente, moral e instinto, causa da angústia insuportável da existência do Homem. Portanto, o indivíduo necessita criar caminhos que levem à sublimação da dor, à amenização de sua existência. O conceito de tabu e totem, discutido também por Freud, nos ajuda a entender alguns dos processos de libertação tão buscados por todo indivíduo. Ao mesmo tempo em que o Homem se sente acuado em meio ao dever e ao instinto, ele deve 18 buscar formas de canalizar seus recalques, suas dores latentes, para que possa encontrar-se em uma unidade como indivíduo. A partir de críticas expostas latentes em todas e da nossos as hipóteses convergência estudos – ética, levantadas, dos três estética das conceitos e dor – voltamos o olhar para o romance Fogo Morto, de José Lins do Rego, como corpus, motivo de análise e texto comprobatório de nossas discussões. Romance que se destaca em meio à obra regionalista de Lins do Rego, Fogo Morto é concebido como obra prima por muitos críticos. Dentro das concepções inovadoras do Modernismo, José Lins do Rego conquista seu lugar em meio à vertente intimista com seu romance. O Modernismo foi o momento em que demos “nova cara” à tão buscada nacionalidade brasileira. Movimento, advindo de influências culturais e revolucionárias da Europa, impulsionou uma vasta produção artística de qualidade no Brasil do início do século XX. Em meio às produções da época, podemos dividir as obras e seus autores em duas linhas: uma regionalista e outra intimista. José Lins do Rego enquadra-se, primeiramente, na vertente regionalista e retrata o sertão nordestino em seus textos. O autor classifica seus romances em ciclos, e Fogo Morto está inserido no da cana-de-açúcar. 19 O cultivo da cana era de grande importância para a economia brasileira da época, que exportava o açúcar como produto valioso, de enriquecimento do país e de seus senhores de engenho. Contudo, com a implementação, cada vez maior, das indústrias no Brasil, os engenhos foram perdendo sua força e tradição, até sucumbirem. Em sua série de romances do ciclo da cana, José Lins do Rego descreve a história do país. Contudo, Fogo Morto apresenta-se de maneira diferente ao restante da obra. Sua aura subjetiva o classifica como um romance ímpar dentre os textos do escritor e a literatura brasileira. Fogo Morto é dividido em três capítulos e apresenta três personagens principais, que os nomeiam. O primeiro mostra a história de José Amaro, seleiro pobre, insatisfeito com a mesmice de sua vida pacata. Sua esposa, Sinhá e sua filha convivem com a degradação desse homem, que tenta de todas as formas mudar sua realidade e destino. O segundo fala do coronel Lula de Holanda, dono do engenho de Santa Fé e frustrado devido a sua falta de garra em gerir seus negócios. Sua mulher e filha sofrem com castrações impostas pelo coronel, como única maneira que este encontrou para mostrar sua força. Por fim, o terceiro capítulo trata do capitão Vitorino da Cunha, o “papa-rabo”. Figura caricata e de força no 20 romance. Embora considerado louco, Vitorino é o personagem mais importante da obra, pois consegue sublimar sua condição precária. Assim, devemos analisar separadamente cada capítulo e convergi-los em uma análise maior: a representação da dor em suas diferentes formas, pautadas nos conceitos vigentes e estudados de ética e estética. Os personagens principais e secundários têm sua importância bem definida e mostram seus diferentes caminhos em direção a uma sublimação, como única forma de amenizar sua existência dilacerante. Diante destas formas de dor e sublimação distintas, alcançadas pelos personagens, podemos costurar os conceitos e hipóteses apresentados, baseados no estudo dos caminhos até suas conquistas, degradações e loucuras. Seguiremos mergulhados na literatura de José Lins do Rego e guiados pela filosofia do indivíduo, da angústia e da alteridade. Em meio à evolução textual, observamos claramente, em Fogo Morto, o conceito de anti-héroi, tão discutido pela modernidade. Os personagens não possuem mais a capa do homem virtuoso colocada por preceitos aristotélicos. Eles, agora, mostram-se como indivíduos mesma humanidade que nós. precários, Deparamo-nos dotados com da sujeitos semelhantes à nossa existência, e o que nos importa, no momento, é a forma de passagem, de cada um, por todas as crises e mazelas da individualidade e do ser social. 21 Sendo assim, a estética comporta, nos dias de hoje, a mais completa definição do belo. A arte deve ter por objetivo nos suscitar algum tipo de catarse, e para isso deverá representar o mais íntimo de nossos sentimentos. Não se repugna mais experiência o choque, artística. A é ele que nos descoberta da envolve pela ética do caleidoscópio humano, do mosaico de caracteres e vozes que compõem o indivíduo, não nos permite mais repugnar o feio. Nossas formas devem coexistir na arte. Através desse inventário, pautados em nossas hipóteses e caminhos a serem investigados, pretendemos dar relevância à importância melhor dos compreensão conceitos das estéticos veredas da e arte. éticos E, para a mergulhados nessas concepções, delinear a representação das formas da dor, perpassando Fogo Morto, de José Lins do Rego, como obra prima da subjetividade nos meandros do Modernismo. 22 2 – A estética e a ética no campo filosófico 2.1 – A ética A palavra “ética” é originada do grego ethos, e possui duas variantes possíveis. Com o e curto pode ser traduzida por costume, com o e longo, significa modo de ser, caráter. A primeira serviu de base para a tradução latina “moral”, enquanto que a segunda, de alguma forma, orienta a utilização atual que damos à palavra. Em filosofia, ética significa o que é bom para determinado indivíduo e sociedade, e seu estudo contribui para estabelecer a natureza de deveres no relacionamento entre esses. Enquanto buscando a Moral e primeira explicar ética é e não normativa, justificar devem a os ser segunda confundidos. é costumes teórica, de uma determinada sociedade, bem como fornecer subsídios para a solução de seus dilemas mais comuns. A ética também não deve ser confundida com lei, embora com certa freqüência a lei tenha como base princípios éticos. Ao contrário do que ocorre com esta, nenhum indivíduo pode ser compelido, pelo Estado ou por outros, a cumprir as normas éticas, nem 23 sofrer qualquer sanção pela sua desobediência; por outro lado, a lei pode ser omissa quanto a questões compreendidas em seu propósito. O Homem vive em sociedade, convive com outros indivíduos e, portanto, cabe-lhe pensar sobre sua conduta perante estes. A ética é o julgamento do caráter moral de uma determinada pessoa. Como doutrina filosófica, é essencialmente especulativa e, a não ser quanto ao seu método analítico, jamais será normativa, característica esta, exclusiva do seu objeto de estudo, a moral. Portanto, a ética Antiga, mostra o que era possibilitando uma moralmente aceito comparação com na os Grécia valores atuais. O que indica, através da comparação, mudanças no comportamento humano, nas conseqüências, detectando, regras a partir sociais daí, e problemas suas e/ou indicando caminhos. Ao contrário da moral, que delimita o que é bom e o que é ruim no comportamento dos indivíduos para uma convivência civilizada, a ética é o indicativo do que é mais justo ou menos injusto diante de possíveis escolhas que afetam terceiros. A partir dessa definição inicial sobre ética, faremos um estudo sobre as concepções desta no campo filosófico. Para tal, passaremos utilitarista e por Kant. por Aristóteles, pela concepção 24 2.1.2 – As concepções da ética No campo da reflexão sobre o agir humano, destacam-se hoje três grandes tradições filosóficas. A primeira reporta-se aos escritos de Aristóteles que situou a sua “ciência das virtudes” entre a Física e a Política. A rigor, as ciências filosóficas da práxis deveriam ser três: a Ética, centrada no agir individual, a Economia, que deveria estar voltada para a práxis doméstica ou familiar, e a Política, idealizando as relações humanas dentro do universo da cidade/Estado e das cidades entre si. O que caracteriza a ética aristotélica, e a dos seus seguidores, é o estudo do agir a partir de uma concepção do homem como um animal político logicamente, que necessitando possui linguagem desenvolver-se e dentro que age de uma sociedade concreta - num dado período de tempo e dentro das formas do governo de uma cidade. O ideal de Aristóteles é o do homem virtuoso, dotado de força, valores de vigor, práticos e de uma excelência intelectuais da relacionada existência. O aos mais virtuoso seria o mais capaz de realizar-se como indivíduo, atingindo assim a felicidade, meta procurada por todos. 25 Esta felicidade supõe certo equilíbrio de bens, pois o homem, ser Precisa de complexo, ar para não busca respirar, simplesmente de comida, um de único. saúde, de dinheiro, de amigos, de reconhecimento público e respeito por parte da sociedade, e precisa também ter algum tempo para poder metafísicas. dedicar-se Como podemos às reflexões ver, o filosóficas, comportamento ético, estudado pela filosofia da práxis dos aristotélicos, inclui não somente as reflexões especificamente “morais”, mas supõe também certa sabedoria ou prudência para o trato com o mundo. A segunda grande tradição ética, de estilo mais anglosaxônico, é a corrente do utilitarismo. Os seguidores deste modo de pensar imediatistas são muito pragmáticos, (contentando-se com uma de moral certo modo provisória). Menos especulativos, seu maior valor ético deve consistir em procurar o maior bem possível para o maior número possível de homens. Esta formulação é útil e prática, pois tem a vantagem de não perder tempo em especulações que acabam atrapalhando, ou mesmo substituindo, o agir. Entretanto, não há dúvidas de que no campo da moral ou da ética as palavras jamais conseguem substituir as ações. Porém, pode-se objetar que a corrente utilitarista não 26 define exatamente o que seria este bem final para os homens. A terceira grande tradição filosófica, que atua e vigora até hoje, é a da linha kantiana, centrada sobre a noção de dever. Parte das idéias da vontade e do dever discorre sobre a liberdade do homem, cujo conceito não pode ser definido cientificamente, mas postulado sob pena do homem rebaixar-se a um simples ser da natureza. Kant também reflete sobre a felicidade e a virtude, mas sempre em função do conceito de dever. É famosa, em sua obra, a formulação do chamado “imperativo categórico”, que conduz o indivíduo a agir de maneira que sua vontade possa valer como princípio de uma legislação universal. Kant estava apenas preocupado em fornecer-nos uma forma segura de agir. Sua ética é formal, também chamada por alguns como formalista. Kant nos forneceu, na prática, um critério para o “agir moral”. Se a intenção é agir moralmente (isto é, racionalmente), o homem deve agir então de uma maneira realmente universalizável. Este é o cerne da ética kantiana: a universalização das nossas máximas - em si subjetivas. A moral kantiana, de certo modo, pressupõe um conceito de homem como um ser não somente racional. Este se constitui, portanto, em um ser livre, ao mesmo tempo que 27 perturbado por inclinações sensíveis, que fazem com que o “agir bom” se apresente ao indivíduo como uma obrigação que a sua parte racional terá de exercer sobre a sensível, como certa coação. O dever obriga, força-nos a fazer o que talvez não quiséssemos ou o que, pelo menos, não nos agradaria, porque o Homem não é perfeito, e sim dual. Mas o dever, quando nos força, obriga a fazer aquilo que favorece a liberdade do indivíduo, pois, também, somos seres autônomos. A liberdade humana, no sentido positivo, consiste em poder realizar o que vemos ser o melhor, o mais racional. Essa realização significa causar por vontade própria um efeito no mundo, ao lado das causas naturais que pertencem ao mecanismo da natureza. O Homem, neste sentido, é legislador e membro de uma sociedade ética. Legislador porque é ele que vê o que deve ser feito, e membro ou súdito, pois obedece aos deveres que a sua própria razão lhe formula. Neste sentido, o indivíduo não tem um preço, mas uma dignidade, e é por isso que a segunda fórmula do imperativo categórico diz para agirmos de modo a não tratar jamais a humanidade tão somente como um meio, mas também como um fim em si. A corrente kantiana é extremamente atual. A ética do dever é moderna porque confia no homem, na sua razão e na sua liberdade. Mostra-o como empreendedor, o que coincide 28 com o surgimento e a ascensão da sociedade industrial e capitalista. De certo modo, esta corrente é estranha ao capitalismo consumista, na medida em que não dá grande valor ao gozo dos prazeres, acentuando privilegiadamente os deveres. A felicidade de que Kant fala é a da consciência do dever cumprido, a tranqüilidade da boa consciência. Em relação à busca dos bens materiais, o filósofo considera que ser feliz, neste aspecto, é um dever do homem, uma vez que frustrado ele faz mal a si e aos outros. Temos, pois, obrigação de fazermos tudo para sermos felizes, desde que seja tudo o que poderia ser universalizável, dentro do respeito aos demais. Não é a felicidade a qualquer preço. A ética, enquanto moral fundamentada por uma reflexão - seja ela mais espontânea ou mais sistematizada -, sempre tem um racional, respaldo sempre interesses, segundo quer máximas universais. extremamente A argumentativo. em busca de uma que busca da importante comum, ou constituir-se argumentação numa procura mostrar-se universalização, natureza possam da Ela situação de quer um em dos agir leis fundamentadora de pluralismo é de valores e de globalização da sociedade. Os interesses do grupo, do clã, ou da família ou corporação não podem mais dizer a última palavra, assim como a moral de uma confissão 29 religiosa não pode ser imposta aos que não compartilham desta. 2.2 – A estética O conceito de estética vem da palavra grega aisthésis ou percepção, sensação. Constitui-se em um ramo da filosofia que tem como objeto o estudo da natureza do belo e dos fundamentos da arte. Estuda o julgamento e a percepção do que é considerado belo, o conceito de obra de arte e de criação, suas diferentes formas bem como do trabalho artístico. Na antigüidade, especialmente com Platão e Aristóteles, o conceito estético3 era estudado juntamente com a lógica e a ética. O belo, o bom e o verdadeiro formavam uma unidade com a obra. A essência do belo só seria alcançada criando um paralelo com o que seria bom, tendo em conta os valores morais. Porém, na Idade Média, surgiu a intenção de estudar os conceitos estéticos independentes de outros ramos filosóficos. 3 Digo conceito, pois a palavra “Estética” só seria usada séculos mais tarde. 30 Estes conceitos adquiriram autonomia como ciência, destacando-se da metafísica, da lógica e da ética, com a publicação da obra Aesthetica do educador e filósofo alemão Alexander Gottlieb Baumgarten. Foi a primeira vez que se usou a denominação Ética. Baumgarten traz uma nova abordagem ao estudo da obra de arte, considerando que os artistas deliberadamente alteram a Natureza, adicionando elementos de sentimento a realidade percebida. Assim, o processo criativo estaria espelhado na própria atividade artística. Compreendendo então, de outra forma, o conceito grego que entendia a arte como mímesis da realidade. “Quando os alemães criaram o conceito de estética, estavam, como uma boa parte dos intelectuais de sua época, interessados no saber. Queriam instrumentos que agilizassem e aprofundassem os conhecimentos, acreditando que, com eles, criariam um mundo melhor.”4 A estética assumiu características de uma metafísica do belo, que se esforçava para desvendar a fonte original de todas as belezas sensíveis: reflexo do inteligível na matéria (para Platão), manifestação sensível da idéia (para Hegel), o belo natural e o belo arbitrário, dentre outras. Mas, este caráter metafísico e conseqüentemente dogmático da estética transformou-se posteriormente em uma filosofia 4 LINS, Ronaldo Lima. A construção e a destruição do conhecimento. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009, p.49. 31 da arte, onde se procurou descobrir as regras da arte na própria ação criadora (Poética) e em sua recepção, sob o risco de impor construções a priori sobre o que é o belo. Neste caso, a filosofia da arte tornou-se uma reflexão sobre os procedimentos técnicos elaborados pelo homem, e sobre as condições sociais que fazem certo tipo de ação ser considerada artística. A partir do estudo proposto sobre estética, delinearemos sua história e nos pautaremos, nos capítulos seguintes, na obra de fronteiras da pintura Lessing, e da Laocoonte poesia, com ou o sobre as objetivo de colocar em pauta a representação da dor na arte, passando por suas diversas formas. 2.2.1 – A história da estética Podemos dividir a história da estética em três fases. Primeiramente caracterizou-se pela sua compreensão como a teoria do belo, em seguida, como a teoria do gosto e atualmente pode ser identificada como a filosofia da arte. Platão preocupou-se em formular um conceito sobre o belo para um melhor entendimento da estética. Para ele era 32 impossível desvinculá-lo do mundo das idéias, ou seja, o belo existe num plano superior e não no mundo físico. A arte limitava-se a ser uma cópia imperfeita da natureza e o belo transcendia o homem. Este era o bem, a verdade e a pura perfeição. Aristóteles, apesar de seguir a doutrina platônica, foi mais longe em sua definição. Ele concebeu a arte como uma criação especificamente humana, acreditando que o belo era inerente ao Homem. Todavia, separou a beleza da arte. Isto porque, muitas vezes o feio, o estranho ou o surpreendente converte-se no principal objetivo da criação artística. Assim, o filósofo separou a arte em dois tipos: a que possui uma utilidade prática, que completa o que falta na natureza; e a que imita a natureza, mas que também pode abordar o que é impossível e irracional. Aristóteles introduz, então, as regras da ordem, de grandeza, de simetria, de determinação e de unidade. Durante a Idade Média, o cristianismo, difundiu uma concepção de beleza que se fundamentava na identificação de Deus, o bem e a verdade. Dois nomes que se destacam nessa época é o de Santo Agostinho e de São Tomás de Aquino. Santo Agostinho concebia a beleza como a harmonia do todo, ou seja, com unidade, número, igualdade, proporção e ordem. A beleza do mundo não era mais do que o reflexo da suprema 33 beleza de Deus, de onde tudo emana. A partir da beleza das coisas poderíamos chegar à suprema. Já para São Tomás de Aquino esta era identificada com o bem. As coisas belas deveriam possuir três características: a perfeição, a harmonia e a luminosidade. No Renascimento os artistas adquirem a dimensão de verdadeiros criadores e começa-se a desenvolver uma concepção elitista da obra de arte. Entre as novas idéias estéticas que relativismo geométrica então se estético: e aos desenvolvem a beleza números, podemos ligada inspirada no destacar à o simbologia pitagorismo e neoplatonismo, e o estabelecimento de normas e regras fixas para a produção e apreciação de arte. Na segunda metade do século XVIII, a sociedade européia atravessa uma profunda convulsão. Por sua vez, o começo da revolução industrial, a guerra da independência Americana e a revolução Francesa, criaram um clima propício ao aparecimento de novas idéias sobre o belo. O Neoclassicismo foi o principal movimento artístico deste período, inspirado na Grécia antiga e em Roma. A arte neoclássica foi usada de forma propagandística durante a revolução Francesa e no Império napoleônico. 34 É neste contexto que o conceito de estética passa a ser entendido como teoria do gosto. Para os filósofos do século XVIII é no campo do subjetivismo que vamos encontrar resposta para o problema do belo. A teoria do gosto nos atenta ao fato de que o que é belo para uns pode não significar nada para outros. Assim, o problema central passou a ser o de saber como justificar os nossos gostos. Kant, Descartes, Leibniz e Burke tornaram-se alguns dos mais importantes seguidores dessa teoria. “É um período marcado pela preocupação com a cultura clássica, como atesta o livro de Lessing, o Laocoonte, no qual o mesmo efetua um trabalho de definição dos terrenos da expressão humana. Pensava-se na arte como uma forma de harmonizar diferenças, dado que a beleza constituía, na mentalidade dominante, a diretriz principal na criação. A idéia de perfeição, junto com o entendimento do Belo, implicava em algo semelhante a uma proposta à gravidade dos problemas e dos conflitos.”5 Kant foi considerado como o último grande filósofo do início da era moderna. É famoso, sobretudo, pela sua concepção conhecida como idealismo transcendental, ou seja, todos nós experiência trazemos do normas mundo, os e conceitos quais seriam a de priori outra para a forma, impossíveis de determinar. A filosofia da natureza humana de Kant é historicamente uma das mais determinantes fontes 5 LINS, Ronaldo Lima. A construção e a destruição do conhecimento. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009, p.49. 35 do relativismo conceitual que dominou a vida intelectual do século XX. Para o filósofo, os nossos juízos estéticos têm um fundamento subjetivo, não se podem apoiar em conceitos determinados. O critério de beleza que neles se exprime é o do prazer. Apesar de subjetivo, o juízo estético, aspira à universalidade. Nos últimos dois séculos, ocorreram importantes mudanças no entendimento da própria arte, em resultado de múltiplos fatores, como a integração no domínio da arte de novas manifestações criativas, que permitiu atenuar as fronteiras entre arte erudita e arte para grandes massas. Todos os conceitos são contestados e todas as fronteiras entre artes são postas em causa. Ocorre uma dessacralização da arte, tornando-se freqüentemente um mero produto de consumo. Com isso, apareceram inúmeras teorias que defendem novos critérios para sua apreciação. A estética passou a ser então identificada como filosofia da arte, o que levou ao questionamento do que seria esta e do seu valor. Quando classificamos determinada obra como arte, não temos em conta sua qualidade ou nosso gosto, apenas pretendemos dizer que ela cabe na extensão de um conceito pré-determinado. Com isso, nascem duas definições: as implícitas e as explícitas. A primeira é as que estão subentendidas no próprio conceito, que mais 36 facilmente se definem com atos do que com palavras. Mas muitas das nossas definições implícitas deixam-nos insatisfeitos. Temos a necessidade de saber mais acerca dos conceitos definidos, algo que seja relevante para a compreensão deste e que nos informe acerca das propriedades mais importantes extensão. Para dos objetos satisfazer que este fazem desejo, parte da recorremos sua às definições explícitas. Estas, ou teorias essencialistas, são as que defendem que existem propriedades comuns a todas as obras de arte e que só nelas se encontram. A teoria da arte como imitação é uma das mais antigas. Segundo esta, uma obra é arte somente se produzida pelo homem e ter por função imitar algo. Sua característica própria não reside no fato de defender que uma obra de arte deve ser produzida pelo homem, mas na idéia de que para ser arte deve partir da mímeses. Contudo, esse conceito nos levaria à exclusão de inúmeras expressões artísticas, pois apesar de muitas obras serem imitações, inúmeras são aquelas que não se incluem nesse conceito. Ficamos, deste modo, com uma teoria que não responde aos requisitos anteriormente expostos acerca do que deve ser uma definição explícita, pois defende necessária para a arte. a mímesis como única condição 37 Insatisfeitos muitos filósofos propuseram uma limitações da deslocava e a teoria da o teoria artistas definição para compreensão com obra. arte como românticos que procurava anterior, artista, da ao ou Trata-se do se mesmo século XIX libertar das tempo criador, a teoria da da imitação, em que chave da arte como expressão. Segundo esta, uma obra só é arte se exprime sentimentos e emoções do artista. São muitos os testemunhos destes que reconhecem a importância de emoções sem as quais as suas obras não teriam certamente existido. Mais do que isso, se é verdade que a arte provoca em nós determinadas emoções, então é porque estas existiram no seu criador e deram origem a tais obras. Em relação ao critério de classificação temos os mesmos problemas dos da teoria da mímesis, a diferença é que, neste caso, uma maior quantidade de obras pode ser classificada como arte, mas continuamos a não abranger todas. Verificando que a diversidade de obras é bem maior do que as teorias da imitação e da expressão, uma mais elaborada e também mais recente, conhecida como teoria da forma significante ou formalista, decidiu abandonar a idéia de que existe uma característica comum que possa ser encontrada em todas as obras de arte. Esta, defendida, 38 entre outros, pelo filósofo Clive Bell, considera que não se deve começar a procurar aquilo que define a arte na própria obra, mas sim no sujeito que a aprecia. Isto não significa que não haja uma característica comum a todas, mas que podemos identificá-la apenas por intermédio de um tipo de emoção peculiar, a que chama emoção estética, que elas e só elas, provocam em nós. Uma obra é arte se provoca nas pessoas emoções estéticas. Segundo emoções, mas expressão. A esta teoria, as diferentemente formalista obras da centra de teoria as arte da atenções provocam arte em como quem as aprecia e nos seus sentimentos. Tendo em conta a definição dada, reparamos que a característica de provocar emoções estéticas constitui, simultaneamente, a condição necessária e suficiente para que um objeto seja uma obra de arte. Mas se essa emoção peculiar chamada “emoção estética” é provocada pelas obras, e só por elas, então deve haver alguma propriedade também peculiar a todas elas, que seja capaz de provocar tal emoção nas pessoas. Segundo Clive Bell essa característica é a forma significante. Mesmo sendo abrangente, esta teoria apresenta muitos problemas. Uma dificuldade é a de conseguir explicar em que se consiste responsável realmente pelas a emoções tal que “forma sentimos. significante”, Clive Bell, 39 referindo-se apenas ao caso da pintura, diz que a forma significante reside numa determinada combinação de linhas e cores, mas não a refere especificamente. A idéia que fica é que a forma significante não serve para identificar nada, e mesmo que na pintura seja a combinação de cores e linhas, nas restantes formas de arte teria obrigatoriamente de ser outra coisa, e então não temos uma propriedade comum, mas várias propriedades. Podemos concluir que nenhuma destas teorias responde de forma satisfatória à definição de arte. Alguns filósofos optaram então por outras não essencialistas e alguns decidiram simplesmente abandonar a idéia de que esta pode ser definida. Observemos que há uma dificuldade em definir a arte por métodos objetivos, o que nos leva a entrar em sua psicologia, no intuito de direcionar nossa atenção para a sensibilidade estética. O caráter estético de um objeto não é a sua qualidade, mas sim a atitude que assumimos em face desse, a relação subjetiva entre o expectador e o objeto. As representações artísticas são tão diversas que não podem ser estudadas em sua unidade. Só o conhecimento do espírito, da consciência estética face à obra, permite atingir a universalidade 40 necessária. Os momentos estéticos podem ser divididos em três partes: a contemplação, a criação e a interpretação. Proust e sua literatura defendem que o verdadeiro sentido do prazer diante de uma obra dá-se quando esta pode suscitar impressões em seu receptor, capáveis de fazê-lo reestruturar o sentido de sua existência. As conclusões do autor não representam um trabalho pronto para o receptor, elas são somente ferramentas para sua própria experiência existencial. Às impressões que movem nossos sentimentos convencionou-se chamar de sentimentos estéticos. Cada um de nós sente o seu prazer estético onde o encontra, de acordo com o gosto pessoal. A contemplação não é exclusiva do receptor, o artista contempla a obra antes sequer de criála. O artista começa por observar, por idealizar, antes de conceber, sendo assim o primeiro a passar pela experiência da observação. Tendo por base a subjetividade estética, podemos dizer que existem três maneiras de reagir diante da arte, ou seja, de ter uma consciência desta. A primeira faz com que o objeto apenas provoque indiferença ou um simples agrado; a segunda com que provoque um prazer real, mas extremamente subjetivo, que depende da nossa disposição e predisposição; 41 e a terceira com que nos faça sentir uma alegria interior ao ser contemplado, que nos oferece a arte como êxtase. Contudo, o homem não se limita a contemplar, ele também cria, procura não só expressar as suas emoções, como as mostra de forma com que os outros as possam experimentar quando as contemplam. Esta predisposição para produzir e também para valorizar em termos emotivos os objetos e as situações, constitui o que se designa por atitude estética. A função social da estética ocupa uma posição importante na vida do indivíduo e da sociedade. Qualquer objeto ou qualquer ação, seja um processo natural ou uma atividade humana, podem chegar a serem portadores da função estética, não precisando por isso ser arte. Sabemos também que os limites que separam o estético do extra-estético variam de um indivíduo para outro. Mas quando substituímos o ponto de vista individual pelo do contexto social, verificamos que apesar de todos os matizes individuais e fugazes, existe uma localização consideravelmente generalizada da função estética no mundo dos objetos e dos processos. Quando pensamos quer no tempo, quer no espaço, ou mesmo de uma formação social para a outra, chegamos à conclusão de que com estas transformações muda também a localização esfera. da função estética e a delimitação da sua 42 Como já foi dito, o belo e o gosto são conceitos muito subjetivos. Mesmo que existam normas e regras, elas são frágeis e podem ser quebradas. Apesar do estudo da estética implicar teorias e argumentos, cada um de nós avalia, julga e sente de formas diferentes, e, no final, aquilo que nos une é o prazer estético que sentimos. As ambigüidades estéticas são provocadas no sujeito quando suscitados sentimentos contraditórios, como o prazer e o desconforto, atração e repúdio, tristeza e êxtase. Estes podem ser provocados simplesmente pela desordem ou pelo conteúdo da mensagem que a obra nos transmite. Na pintura podemos observar obras belas e ao mesmo tempo desconfortáveis, assim como na fotografia as imagens de catástrofes não deixam de ser belas, como a erupção de um vulcão ou imagens de pobreza ou sofrimento. Na literatura, também, e, sobretudo, nos deparamos muitas vezes com esse desconforto ambíguo. 43 3 – A dor Do latim dolore, dor significa sensação desagradável, variável em intensidade estimulação de e terminações em extensão, nervosas ou produzida por pela sofrimento moral, mágoa, aflição. A dor pode ser provocada por agentes externos ao corpo ou internos à consciência. Sendo que, por muitas vezes, a dor física parte de uma dor moral. A dor convencional faz parte de um sistema de alarme do corpo. Ela nos alerta para o fato de que alguma coisa está nos machucando, nos compelindo a solicitar ajuda. Sua definição nem sempre é feita de forma satisfatória. Alguns a definem estímulo como que a lesa experiência os tecidos sensitiva ou provocada ameaça pelo destruí-los, experiência definida introspectivamente por cada um. Essa definição é insatisfatória, pois a relação entre a dor e a lesão é tão variável que não se poderia definir a primeira exclusivamente em termos de lesão. Com isso, estaríamos ignorando a maior parte dos fatos clínicos e psicológicos conhecidos motivação e e não a considerando cognição, como a dimensão partes afetiva, integrantes a da experiência. A noção de dor como resultante e causadora de uma perturbação global do indivíduo está presente na cultura 44 Oriental, enquanto no Ocidente esta visão foi esquecida até recentemente. A medicina chinesa, através da Acupuntura, guarda fortemente desde sua origem o princípio que, para ser eficaz ao se tratar a dor, é necessário reconhecer, considerar e tratar o indivíduo em sua totalidade. Outra definição a apresenta como uma sensação pessoal íntima do mal, ou até mesmo como um estímulo nocivo que assinala uma lesão atual ou eminente. Porém, esse tipo de definição confunde a causa e a experiência, o fato físico e o processo psicológico complexo. Uma melhor apresentação seria baseada no reconhecimento explícito do caráter antes flutuante da relação entre dor e lesão, e na integração da dimensão afetiva da experiência dolorosa, que se junta à sensorial. Temos que pensar na dor como algo que implica não só o campo físico, mas a miséria, a angústia, o desespero e o sentimento de urgência que fazem parte de certas experiências. Pelo fato de ser uma sensação íntima e pessoal, impossível conhecer com exatidão a dor do outro. Assim pela diversidade das experiências dolorosas, explica-se porque tem sido impossível, até hoje, encontrar uma definição satisfatória. A palavra “dor” representa uma categoria de fenômenos, compreendendo únicas, tendo uma multidão causas de experiências diversas e diferentes caracterizadas e por 45 qualidades distintas, critérios: culturais variando segundo somato-sensoriais, e cognitivos. Ela certo viscerais, possui várias número de afetivos, intensidades, denominadas pelo próprio indivíduo. Esta sensação pode ser rápida, desconfortante, desolante, horrível e atroz. Para algumas culturas, este sintoma também pode ser associado à expiação de culpa. “(...) o mundo interior depende do exterior, numa espécie de influência mútua (...) Se a destruição se proclama fora, terá lugar na interioridade de cada um, determinando atitudes que a pessoa, diante de si mesma, custa a reconhecer.”6 A dor física, muitas vezes, caracteriza-se num prolongamento da psicológica. Ela é gerada no inconsciente do sujeito e sem encontrar nenhum ponto de fuga, é somatizada pelo corpo. A dor da alma nasce da angústia do sujeito, esta advinda de algum sentimento de culpa. A expiação, que gera o transtorno, é principalmente advinda dos cânones religiosos ou familiares. Uma pessoa sofre não apenas pelos danos físicos que possui, mas também pelas conseqüências emocionais, sociais e espirituais que a vida as submete. 6 LINS, Ronaldo Lima. A construção e a destruição do conhecimento. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009, p.21. 46 3.1 - A ética da dor Vimos no estudo anterior que a ética kantiana é pautada sobre a noção de dever. Podemos concluir que o “agir de forma boa” do indivíduo é baseado nesse dever, e que isso pode significar certa castração da parte racional à sensível. refletida A busca por e Kant, o alcance devem, da felicidade, assim, passar também pelo reconhecimento da alteridade. Sendo assim, veremos o que Sartre diz sobre a felicidade e a responsabilidade perante os outros indivíduos. “O outro é o estranho, o desconhecido, a ameaça constante, o risco, a impossibilidade da paz. É o motivo que nos leva a desejar conhecê-lo, considerando o conhecimento uma forma de domínio capaz de espantar fantasias de insegurança e construir (quem sabe?) um mundo interior menos inquieto.”7 Muitas teorias mostram a questão da dor, alimentada por uma angústia da condição humana que nos é refletida na literatura. Dentre outras, optamos por levantar as questões de Sartre e do existencialismo. Em O Existencialismo é um Humanismo vemos o homem como único responsável por suas ações. Sartre defende que o sujeito primeiramente existe, se descobre, surge no mundo, 7 LINS, Ronaldo Lima. A construção e a destruição do conhecimento. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009, p.31. 47 e só depois se define. Ele é como se concebe, como se deseja, não é nada mais do que o que faz. Para o filósofo, nada existe anteriormente a este projeto, o homem será o que tiver projetado ser. Assim, o indivíduo tem a total responsabilidade pela sua existência. A escolha do homem implica numa escolha coletiva, o reconhecimento do outro. O sujeito não é responsável pela sua restrita individualidade, mas também por todos os outros indivíduos. A partir do momento que ele escolhe um parâmetro, uma moral para si, está de alguma forma pormenorizando o que encontrar fora disso. É a criação de uma imagem do homem como julgamos que ele deve ser. Dessas questões existenciais, Sartre define o conceito de angústia, ou seja, o reconhecimento da alteridade e da responsabilidade perante o outro. Sendo esta última em proporções muito maiores do que podemos supor, pois ela envolve toda a humanidade. O homem torna-se angustiado quando se vê ligado a um compromisso, que não é apenas o de escolher ser, mas também o de legislar, pronto para escolher a humanidade inteira. Segundo essa filosofia, a angústia não leva jamais ao quietismo ou à inação. Ela é a condição de sua ação. Numa pluralidade de possibilidades deve-se fazer uma escolha, a angústia faz parte da ação. O existencialismo é justamente oposto ao quietismo, visto que declara que só há realidade 48 na ação. O homem não é senão o seu projeto, só existe na medida em que se realiza, não é, portanto, nada mais do que o conjunto dos seus atos. A descoberta da alteridade e a condição angustiante desta levam à dor dilacerante, que implica sua responsabilidade não somente com suas escolhas e fracassos, mas perante opressão todos que interior o cercam. advinda do A angústia surge como reconhecimento da responsabilidade de construir não apenas a si, mas também a toda humanidade. Eu, como um prolongamento da sociedade e de seus participantes, não posso me preocupar somente com minha individualidade. É a inquietação conseqüente da escolha projetada no nada. "A angústia é de fato a experiência do Nada e, portanto, ela não é um fenômeno psicológico. É uma estrutura existencial da realidade-humana, nada mais do que a liberdade tomando consciência de si mesma, como sendo seu próprio Nada." 8 Cito também Kierkegaard como complemento das idéias anteriores: "A relação da angústia com seu objeto, com uma coisa que não é nada (e dizemos também de um modo 9 tópico que estamos angustiados por nada)" 8 SARTRE, Jean-Paul. Diário de uma Guerra Estranha: novembro 1939, março de 1940/ Jean-Paul Sartre; tradução Aulyde Soares Rodrigues e Guilherme João de Freitas Teixeira. – 2 ed. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005, p.357. 9 KIERKEGAARD, S. O conceito de angústia/ Sören Kierkegaard; tradução Torrieri Guimarães. – São Paulo: Hemus, 1968, p.85. 49 A Náusea10, romance de Sartre - como exemplo ao que discutimos -, nos apresenta um personagem central que mergulha em angústias originadas no desconforto com o "eu", sofrendo com suas atitudes ou falta das mesmas. Escrito em forma de diário, o romance, através de seu narrador, nos oferece um discurso suturado por conceitos existenciais que apresenta a angústia como a incessante reflexão humana sobre o agir, através de atitudes gratuitas, em direção ao Nada. A solidão de Roquentin frente à responsabilidade de suas escolhas faz com que a presença do outro e o seu reconhecimento seja objeto fundamental para impedir sua queda no abismo existencial. Podemos conceber o romance de Sartre como uma apresentação da dupla face da angústia: o mostrar do ser abandonado no mundo, responsável pela suas decisões; e do temor, que se reflete como essa angústia. As opções ultrapassam o limite do sujeito, atingem conseqüências, que escapam do nosso controle e trazem a inquietação pelo futuro vazio que anuncia. Podemos observar em romances de Sartre a preocupação em apresentar um enredo que não apenas leitor, ao mostrar também um laboratório 10 provoque uma filosófico o pensamento simples em que ficção, do mas personagens SARTRE, Jean-Paul. A Náusea. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 50 constroem o discurso do mundo e revelam em ações as necessidade da principais discussões do autor. 3.1.1 - O sujeito e sua vontade O reconhecimento convivência com o da outro alteridade num âmbito e a social preconiza o seguimento de regras e tabus que geram cada vez mais dor, na medida em que castram, de alguma forma, a realização do desejo do indivíduo. “O sentido mais próximo e imediato de nossa vida é o sofrimento, e se não fosse assim, nossa existência seria o maior dos contra-sensos, pois é um absurdo imaginar que a dor infinita, que nasce da necessidade essencial à vida, da qual o mundo está pleno, é meramente acidental e sem sentido. Nossa receptividade para a dor é quase infinita, mas o mesmo não ocorre com a nossa receptividade para o prazer, que tem limites estreitos. É a infelicidade geral que é a regra.”11 Schopenhauer é o filósofo que afirma que o princípio metafísico passa a ser regido por um poder completamente irracional. Este criou uma filosofia baseada no irracionalismo sistemático, onde sua teoria baseia-se na máxima de que a inteligência humana é essencialmente um instrumento dos interesses pragmáticos da vontade. O mundo, na sua essência, independente da consciência, é vontade. O 11 SCHOPENHAUER, Arthur. Da morte/ Metafísica do amor/ Do Sofrimento do Mundo. São Paulo: Editora Martin Claret, 2004, p.113. 51 conhecimento imediato do meu corpo, a minha intimidade, revela-se a mim como vontade. Meu corpo me é concebido de duas maneiras diversas, uma como representação, submetido às leis de todos os fenômenos que me aparecem; e como algo imediatamente conhecido que se define por meio do termo "vontade". Ele nada é senão a vontade que me aparece exteriormente em forma de corpo. Sei-me, intimamente, como um ser que quer, que deseja, e que nunca deixa de querer e de desejar. O mundo, como Vontade e Representação, é um só, visto de dois lados: um, pela intimidade real, como ela me é dada na intuição imediata exterioridade do fenomenal meu ou próprio aparente, corpo, segundo outro, as da formas subjetivas da minha inteligência. O mundo é, portanto, na sua essência, vontade. Porém, irracional e cega, pois a inteligência é só uma manifestação tardia dessa. Um mundo que, na sua essência, é vontade de viver, é também de sofrimento e dores, pois essa vontade irracional não encontra, fora de si, nada que seja último fim onde pudesse cessar. O próprio ser da vontade é um querer incessante e eterno, um ansiar que nunca pode ser satisfeito, pois a satisfação seria a própria contradição lógica desta. Todo desejo é sofrimento, pois é a expressão de algo que nos falta. E enquanto esse desejo é infinito e eterno, a satisfação é limitada e breve. Do desejo satisfeito já 52 nasce outro, e uma vez que alcançamos um estado de saciedade, surge o tédio, tortura de igual grandeza. A teoria de Schopenhauer demonstra um grande pessimismo, já que a vontade não possui metas e gera dor. A felicidade seria apenas uma interrupção temporária de um processo de infelicidade maior, pois não existe satisfação durável. Dentro de nossa linha de pesquisa, podemos dizer que essa vontade e sua satisfação encontram barreiras na vida social do sujeito, que as deve reprimir em vista a sua responsabilidade em relação ao outro. A castração gera dor e conseqüente angústia nas escolhas diárias do indivíduo em direção à liberdade e a conseqüente premonição do Nada. A fuga necessária dessa dilaceração anunciada é a busca de uma forma de sublimação dessas rupturas do desejo. Essa sublimação é oferecida de diferentes formas por essa mesma sociedade castradora ou pelo subconsciente do próprio indivíduo. 3.1.2 - O mal-estar Em Mal-estar na Civilização, Freud mostra os vários aspectos psicológicos processo civilizatório trazidos que o ao torna ser selvagem Homem. O pelo delírio coletivo que introduz a cultura ao selvagem, por meio do 53 que hoje se pode reconhecer como aparelhos ideológicos de Estado, priva o homem da satisfação de parte dos desejos e pulsões. Ao mesmo tempo, gera satisfação ou mal-estar pela identificação (ou não) com o outro, o reconhecimento de si como sujeito e a preservação da própria vida e da dos demais da espécie. A cultura, que dá ao bicho o nome de humano, leva o ex-selvagem à noção de si (sujeito) e do outro (objeto). Cria-se o desejo - no lugar das pulsões instintivas - e seus objetos, como o amor, a felicidade, a tristeza, a frustração, a doença, a saúde, dentre outros. Reprime a agressividade, inventa a culpa, e gera doenças na alma e no corpo. Destrói e constrói dando sentido à vida, já que dela passa a ter consciência. Daí é formado, então, o aparelho psíquico: introduz o o superego, princípio consciência de da realidade; lei o externa, ego, que que faz a mediação entre os mundos externo e interno; e o id, mundo instintivo das pulsões, mediado pelo segundo e reprimido pelo primeiro. O custo do processo civilizatório, portanto, é o sofrimento do dar-se conta dos sentimentos, sem dar conta necessariamente de todos eles. Evitar o sofrimento ou o que o gera coloca o alcance do prazer em plano inferior. A energia investida pelo ego à satisfação de seus desejos, ao encontrar a interdição do mundo externo, é reinvestida na 54 busca de medidas paliativas e construções auxiliares. Dessas podemos citar, como exemplo, o otimismo da religião; satisfações substitutivas, como a sublimação oferecida pela arte; e o uso de substâncias tóxicas, que dão acesso a um mundo fantástico e prazeroso, em lugar do mal-estar ao qual provocado pelo princípio de realidade. A civilização é um delírio involuntariamente ao constituídos fragmentos eterna e pelos que causa nascermos. dor está dos no aderimos Portanto, outros. que somos Nossa nos busca constitui de verdade, e o que é a noção de verdade e do real. Vimos em Schopenhauer que o homem vive enquanto deseja, e que se a conquista dessa paixão a faz findar, logo esta deverá ser substituída por outra. Em Mal-estar na Civilização, Freud desenvolve a teoria da relação entre pulsão e civilização, delineando assim, os destinos do desejo na modernidade. O filósofo preocupou-se em estudar o estatuto do sujeito nela, circunscrevendo seu mal-estar. Ao pensar nas ameaças naturais sofridas pelo homem e nos horrores que podem ser gerados nas suas relações com os outros, podemos sujeito que delinear leva ao uma imagem desamparo. de Esse fragilidade sentimento, do para Birman, é algo de ordem originária para o indivíduo, o que marca para sempre a subjetividade humana de maneira 55 “indelével e insofismável”12. O desamparo seria aquilo que instaura Medéia, o mal-estar que mata e na modernidade, engole os como próprios a figura filhos. Sob de sua força, o indivíduo se encontra diante da pressão constante das forças pulsionais, que o perpassam de diferentes formas. Para suportar tanta dor advinda da angústia das pulsões e do desamparo, o sujeito é obrigado a constituir um campo de objetos capazes horizonte de satisfação, efetivas possibilidades ou de oferecer seja, de ele um deve sublimação, possível constituir através da construção de uma forma singular de existência. 3.1.3 - Do Tabu ao Totem Partiremos dos conceitos de Tabu e Totem, também preconizados por Freud, para entender melhor o caminho da libertação buscada por todos nós. “O apagamento da angústia não se consuma por inteiro. Sobram bordas de inquietação e de susto, levando-nos à sensação de que seguimos à beira de um abismo, num equilíbrio que tem os dias contados.”13 Para proibições 12 Freud, as religiosas restrições ou do morais. tabu Não diferem-se são baseadas das em Denominações dadas por Birman. LINS, Ronaldo Lima. A construção e a destruição do conhecimento. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009, p.18. 13 56 nenhuma ordem divina, mas impõem-se por sua própria conta. As proibições não têm fundamento e são de origem desconhecida. Embora sejam ininteligíveis para nós, para aqueles que por elas são dominados são aceitas como coisa natural. O tabu, em sua tradição, nada mais é que o temor objetivado do poder demoníaco que se esconde em um objeto, fazendo-se proibido qualquer ato que possa provocar esse poder. Ao que tudo indica, o tabu foi, gradativamente, transformando-se numa força com uma base própria, independente da crença em demônios. “Peu à peu le tabou devient une puissance indépendante, distincte du démonisme. Il devient la contrainte imposée par la tradition et la coutume et, en dernier lieu, par la loi.”14 O tabu consiste nas coisas e acontecimentos que nós não soubemos “digerir”, por algum motivo desconhecido à consciência, e que permaneceu recalcado no inconsciente, podendo, em muitas vezes, ser trazido à tona por acontecimentos cotidianos. Também pode caracterizar-se - e agora fazendo uma analogia à idéia dos demônios – em certos medos “canonizados” pela sociedade, que infere na vida de cada indivíduo participante dela. Outro conceito também usado por Freud e que funcionaria como a “cura”, a libertação do tabu, é o totem. 14 FREUD, Sigmund. Totem et Tabou. Paris: Éditions Payot, 1980. p.35. 57 Culturalmente, o totemismo caracteriza-se como um sistema que ocupa o lugar da religião entre certos povos primitivos da Austrália, da América e da África, provendo a base de sua organização social. Freud acredita que, provavelmente, em alguma ocasião, a cultura totêmica em toda parte preparou o caminho para uma civilização mais adiantada, representando, assim, uma fase de transição entre a era dos homens primitivos e a era dos heróis e deuses. O totem constituía-se numa classe de objetos materiais que indivíduos de determinada crença encaravam com supersticioso respeito, acreditando existir entre ele e todos os membros da classe uma relação íntima e inteiramente especial. A vinculação entre um homem e seu totem é mutuamente benéfica, o totem protege o homem e este mostra seu respeito por aquele de diversas maneiras. Essa idéia religioso, cultural, transformou-se tanto para como algo Freud em material seu ou conceito psicanalítico de sublimação. Chegar ao totem é transpor as barreiras do tabu através da canalização das energias por outra via, que seria o processo da sublimação de algum recalque inconsciente, de algum tolhimento sofrido pelo indivíduo. Através desses conceitos freudianos que permeiam a psicanálise, podemos dar um novo olhar ao conceito de dor e angústia, antes perpassado pela teoria de Sartre e o 58 existencialismo. Há grandes tabus em nossa sociedade e cada indivíduo precisa passar por eles da forma mais amena que lhe é possível. A sublimação das castrações do nosso desejo pode tomar diferentes formas em nossa sociedade atual. A busca pela religião, a devoção a certo tipo de atividade, a total entrega ao trabalho e até mesmo a loucura são opções de desvio do desejo. A busca incessante do indivíduo é pelo desprendimento da dor insuportável da existência, e passar desta à liberdade da alma. Valemo-nos Laocoonte, da para teoria de exemplificar Lessing, a em figuração sua da obra dor nas representações da arte. Sua crítica envolve a escultura grega, em um episódio da guerra de Tróia, e as teorias estéticas sobre a beleza e o feio. 3.2 – A estética da dor Diante do conceito de estética, posteriormente apresentado e da concepção de belo, discorreremos, agora, sobre a teoria de Lessing, a propósito da representação da dor na poesia e nas artes em geral, baseada na sua comparação entre as duas representações de Laocoonte - no mármore e Laocoonte, no papel. Lessing representada pela se utiliza poesia de da imagem Virgílio e de pela 59 escultura, para traçar uma analogia entre essas duas últimas manifestações da arte. O grupo de Laocoonte é uma escultura em mármore, hoje em dia exposta no Museu do Vaticano, em Roma. A estátua representa Laocoonte e seus dois filhos, Antiphantes e Thymbraeus, sendo estrangulados por duas serpentes. Esse episódio dramático da Guerra de Tróia é também relatado na Ilíada, de Homero e na Eneida, de Virgílio. Laocoonte, pressentindo o perigo que o cavalo de madeira representava para a cidade, protestou contra a idéia de levá-lo para dentro das muralhas. Sua desconfiança atrai a cólera de Minerva que o lança uma dor horrível, fazendo-o ficar cego. Já que, mesmo cego, ele não pára de aconselhar a destruição do cavalo, a deusa envia duas serpentes que atacam apenas os dois filhos de Laocoonte, que, estando cego, não os pode ajudar. As serpentes dilaceram as crianças e enfiam-se de volta na terra. Em seu prefácio, o autor fala de um efeito semelhante entre a pintura e a poesia, quando ambas representam para nós tanto a aparência como a efetividade, elas nos iludem e a ilusão gera prazer. Ao penetrar no interior desse prazer, descobrimos que elas fluem da mesma fonte: a beleza, que abarca regras gerais. Refletindo sobre o valor e a repartição dessas regras, podemos notar que umas competem mais à pintura e outras à poesia. Devemos, aqui, ressaltar 60 que Lessing compreende sob o nome de pintura as artes plásticas em geral. O autor utiliza-se de uma definição de Voltaire que diz que a pintura seria uma poesia muda e a poesia uma pintura falada, para apontar o erro de muitos críticos de arte quando tentam encaixar a poesia nas fronteiras estreitas da pintura, ou deixam esta preencher toda a larga esfera da poesia. O equívoco está em compreender a mesma concepção de certo e errado para ambas. Em seu livro, Lessing pretende trabalhar esses juízos, que em sua concepção, são infundados e errôneos. O autor nos mostra a teoria de Winckelmann, que vê como um ponto simplicidade distintivo e uma das obras grandeza gregas silenciosa, uma nobre tanto no posicionamento como na expressão do ser representado. Esta grande e plácida alma expressa nas figuras dos gregos é vista no Laocoonte. Apesar do sofrimento extremo, a dor que se revela em todos os músculos, exterioriza-se sem nenhuma fúria. A tolerância da dor engrandece a alma, e Laocoonte sofre como um grande homem. Para Winckelmann, aqui o artista ficou abaixo da natureza e não atingiu o patético da dor, o que faz parte de uma sabedoria especial. Para Lessing, no que compete à falta de fúria no semblante de Laocoonte e ao brilhantismo do artista, a teoria de Winckelmann está correta, mas é divergente quando 61 afirma que os gregos sentiam e temiam, que externavam suas dores e aflições. A expressão de uma alma grandiosa não pode ser a causa para que o artista não imite o grito no mármore. Virgílio, em seu poema, expressa esse grito com o melhor propósito, comprovando que o gritar como forma de dor corporal pode coexistir inteiramente com a grandeza da alma. É assim que Lessing acusa Winckelmann de conceber sua teoria se afastando da representação poética. “O grito é a expressão natural da dor corporal. Os guerreiros de Homero não raro caem no chão aos gritos. A Vênus arranhada grita alto, não para a expor com esse grito como a deusa branda da volúpia, mas antes para fazer justiça à natureza sofredora. (...) Por mais que Homero, de resto, eleve os seus heróis acima da natureza humana, eles permanecem, no entanto, sempre fiéis a ela quando se trata das sensações de dor e de ofensa (...) Segundo os seus atos trata-se de criaturas de tipo mais elevado; segundo os seus sentimentos, verdadeiros humanos.”15 A pintura é uma arte que imita corpos em superfície. O artista grego pintava apenas o belo, como um exercício, seu deleite era o êxtase provocado aos seus observadores. Nos antigos a beleza era a suprema lei das artes plásticas. O que é compatível deve ao menos estar subordinado a ela, o que não for, deve ser descartado. Ao contrário, os artistas modernos não se preocupam com o belo, com o que está representando, mas com a forma perfeita da imitação. Lessing defende que há graus de paixões que se mostram através de manifestações feias e nos colocam em posições 15 LESSING. Laocoonte. p.84-85. 62 tão violentas que anulam qualquer traço de beleza. Com isso, os artistas antigos se abstinham completamente dessas ou se colocavam em posição inferior. A cólera era reduzida à seriedade. O encobrimento é um sacrifício que o artista ofereceu à beleza. Não só conduziram a expressão sobre os limites da arte, mas antes a submeteu à sua primeira lei: a beleza. Em Laocoonte visou-se a suprema beleza sob as condições aceitas da expressão da dor. Esta foi obrigada a reduzir-se, a suavizar-se. O grito transformou-se em suspiro, para que o rosto não tomasse a forma do feio e do desprezível. 3.2.1 – A dor sem o belo A arte nos tempos modernos conquistou fronteiras incomparavelmente mais amplas. A lei primordial seria a verdade e a expressão, o belo torna-se apenas uma pequena parte. Assim, o mais feio da natureza é transformado num belo da arte. A realização do efeito da arte exige um espaço para o desdobramento do pensar. Mostrar o extremo significa atar as asas da fantasia, por não conseguir escapar da impressão sensível, ocupando-se de imagens fracas sobre as quais a imaginação teme a plenitude da expressão como sua 63 fronteira. A obra de arte deve fazer com que o espectador queira ver mais, sem se abrir completamente. “Quando, portanto, Laocoonte suspira, a imaginação pode escutá-lo gritar; se, no entanto, ele gritasse, ela não poderia nem subir um degrau acima na sua representação, nem descer um degrau abaixo, sem olhálo num estado mais tolerável e, portanto, mais desinteressante. Ela o escuta apenas gemendo ou já o vê morto.”16 Lessing fala do efeito da beleza corpórea na poesia. Aquela advinda da perfeição constitui um dos meios menos importantes que o poeta pode utilizar-se para tornar seus personagens interessantes para nós. As qualidades do herói devem nos ocupar de tal forma que nem sequer pensaremos na sua figura corporal. Quando Laocoonte de Virgílio grita, não pensamos se ele precisa de uma boca grande e se essa o tornará feio. Os clamores constituem um traço sublime ao ouvido, por mais que sua face apresente qualquer falta de beleza. O Lacoonte que grita é justamente aquele que já conhecemos e nos afeiçoamos como o patriota mais cordato e o pai mais afetuoso. Os heróis devem mostrar sentimento e exteriorizar a sua dor, permitindo que a simples natureza atue sobre eles. Se derem mostras de adestramento ou pressão, nos deixarão indiferentes e poderão, no máximo, suscitar admiração. 16 LESSING. Laocoonte. p.100. 64 Extrapolando a visão de Virgílio, como um poeta narrador, o autor decide falar também do dramático. O drama é destinado à pintura vivaz do ator, devendo, por isso, ater-se de modo mais rígido às leis da pintura material. “Quanto mais o ator se aproxima da natureza, tanto mais sensivelmente os nossos olhos e ouvidos devem ser violentados; pois é irrefutável que eles o são na natureza, quando ouvimos manifestações da dor tão altas e violentas.”17 Ainda voltado com para preocupou com o a o pensamento verdade sujeito da da descrição natureza, como do indivíduo Lessing pluralidade. O não se conflito existencial do homem será tratado por outros filósofos, o que mudará ainda mais o conceito de beleza. Ainda que Lessing trate o belo como um retrato fiel da natureza, ele o alia à virtude, característica essa que não predominará em heróis da modernidade. 3.2.2 - As implicações do feio Lessing discorre também sobre o feio e suas implicações na arte. O crítico afirma que uma única parte, não apropriada, pode destruir o efeito harmonioso de outras que tendem para a beleza. Sendo assim, o feio não poderia ser um objeto da poesia. Contudo, Homero expõe a feiúra 17 LESSING. Laocoonte. p.106. 65 extrema no Tersites, o que pode ser justificado por Lessing que propõe que nas descrições do poeta o feio torna-se uma aparição de imperfeições corpóreas menos repugnantes, o que deixa de ser feiúra, pois se torna utilizável pelo poeta. O que este não pode usar por si mesmo ele utiliza como um ingrediente para gerar e reforçar certos sentimentos mistos, com os quais deve entreter na falta de sentimentos puramente agradáveis. E esses sentimentos mistos são o ridículo e o terrível. Tersites torna-se ridículo, não somente pela feiúra, mas pelo contraste entre perfeições e imperfeições. Um corpo mal formado e uma bela alma são para Lessing como óleo e vinagre, por mais que se misturem, permanecem separados ao paladar. Somente, quando o corpo deformado é ao mesmo tempo delicado e doentio, desgosto e comprazimento coexistem. Em Tersites vemos a feiúra e o inofensivo, que juntos geram o ridículo. Assim como o terrível vem da feiúra prejudicial. Lessing leva a questão do uso da feiúra das formas pelo poeta ao campo da pintura. A pintura enquanto destreza imitadora pode expressar o feio, mas enquanto bela arte não o quer mostrar. Nem todos os sentimentos desagradáveis despertam gosto na imitação. As representações de medo, tristeza e terror podem excitar somente desprazer na medida em que tomamos o mal como algo permanente. A feiúra 66 violenta contraria nosso gosto pela ordem e harmonia, e desperta repugnância sem levar em consideração a existência efetiva do objeto no qual nós a percebemos. A feiúra de Tersites desagrada menos, pois possuímos a faculdade de abstrair o feio e nos deleitar simplesmente com a arte do pintor. Mas, para Lessing esse deleite será interrompido a todo o momento pelo pensamento de como a arte foi motivo utilizada para esse de modo prazer, ruim. quando Aristóteles diz que o dá outro gostar é proveniente da ânsia universal de saber dos seres humanos. Porém, esse prazer que surge da satisfação da nossa ânsia de conhecimento é momentâneo, e o desprazer que acompanha a visão do feio é permanente. Segundo Lessing, a feiúra das formas não pode ser por si, e em si mesma, objeto da pintura enquanto bela arte. O sentimento desagradável não se torna contrário graças à imitação. Portanto, o feio não pode ser útil para a arte enquanto ingrediente para fortalecer outros sentimentos, como vimos no caso da poesia. “Na poesia, a feiúra das formas perde quase totalmente o seu efeito desagradável através da transformação das suas partes coexistentes em sucessivas; desse ponto de vista ela como que deixa de ser feiúra e pode, portanto, ligar-se tanto mais intimamente a outras aparições para produzir um novo efeito particular. Por outro lado, na pintura a feiúra possui todas as suas forças reunidas e não atua de modo muito mais fraco que na natureza mesma. A feiúra inofensiva não pode, consequentemente, permanecer muito tempo ridícula; o sentimento 67 desagradável predomina e o que de primeiro era divertido torna-se na seqüência simplesmente repugnante. Não se passa de modo muito diferente com a feiúra prejudicial; o terrível perde-se mais e mais e apenas o amorfo resta, só e imutável.”18 Lessing mostra a visão do crítico de arte Mendelssohn que encontra entre as paixões desagradáveis e o asco uma notável diferença. As paixões desagradáveis podem frequentemente agradar o ânimo, não só na imitação como na natureza mesma, pois elas nunca excitam um desprazer puro, mas antes misturam a sua amargura com volúpia. No asco a alma não reconhece uma mistura perceptível de prazer, o desprazer é o sentimento máximo adquirido. O crítico utiliza-se da teoria do asco para classificar o sentimento do feio das formas. Aqui também não há mistura de prazer, assim, não há um estado em que o ânimo não devesse representação. retroceder Mendelssohn ainda com desgosto afirma que a somente sua os sentidos mais obscuros: o paladar, o olfato e o tato seriam expostos ao asco, e que não existiria nenhum objeto asqueroso sentido somente pela visão. O autor de Laocoonte o contraria dizendo que podemos reconhecer tais objetos, que não seriam repugnantes nem ao olfato, nem ao tato, mas sim à visão. O asco relaciona-se com a imitação, da mesma forma que o feio. Seu efeito desagradável pode tornar-se 18 LESSING. Laocoonte. p.261. 68 objeto da poesia ou da pintura, pois ele é suavizado graças à expressão. A pintura e a poesia querem o asqueroso não somente devido ao sentimento de asco, mas para reforçar com ele o ridículo e o terrível. Os riscos que se correm em eleger esse tipo de representação é que, ao passo que a surpresa do impacto se desfaz, assim que o primeiro olhar ávido for satisfeito, o asco se separa completamente do ridículo, ou do terrível, e resta somente na sua própria figura crua. Lessing, portanto, não discorre sobre a prosa, como forma de arte. Por isso, para que possamos entender as proposições do filósofo, agora baseadas em nossa ferramenta principal de trabalho, propor-nos-emos em fazer um breve estudo sobre Dostoiévski e seu romance Crime e Castigo. 3.2.3 - Traçando um paralelo entre Lessing e Dostoiévski 3.2.3.1 – Crime e Castigo O romance Crime e Castigo gira em torno do crime de Raskólnikov. Para ele, os indivíduos que moldam a história da humanidade são considerados extraordinários, e seu crime passa a ser uma espécie de auto-teste de seus limites. 69 Aliena Ivanovna era uma velha odiada por muitos, por ser a pessoa que penhorava jóias ou objetos que possuíam mais do que um valor comercial para seus donos. Por isso, nenhum peso seria gerado na consciência de Raskólnikov se ele a matasse, pois se não fizesse isso, outro faria em seu lugar. E esse foi o conforto que teve ao matar a velha, mas pouco depois do crime, teve que fazer o mesmo com a irmã de Aliena, Lisavieta, que havia aparecido e visto tudo. No decorrer do romance, Raskólnikov descobre que Lisavieta já havia costurado uma roupa sua, e a certeza de que ela era uma boa pessoa torna-se o começo de sua angústia interna. Se sua consciência já parecia perturbada antes de cometer o crime, agora será o ponto crucial de todo o seu tormento em relação ao crime cometido, o que leva a um questionamento da existência ou não de uma moral no cosmos. Em certa ocasião, o personagem conhece Sônia que, sem escolha, sustenta sua família com a prostituição, o que a caracteriza em uma figura angelical, pela qual Raskólnikov se apaixona. Ela será uma peça importante no processo de conversão do personagem, que, porém, não se dá em totalidade até o final da obra. No romance, o inspetor Porfiri Pietróvitch representa o determinismo quando pensa em conseguir pegar Raskólnikov pela análise psicológica do discurso. Visto que o homem em Dostoievski é visto como inacabado, por representar um ser 70 do infinito (da polifonia), este recurso de Porfiri tende ao fracasso. Depois característico do de uma sujeito, é queda, vivido esse como infinito, um inferno constante, a imagem projetada no espelho passa a ser o niilismo. A única salvação do homem está em atravessar esse infinito perturbador, a experiência da liberdade em Dostoiévski vem da experimentação pós-queda. O sofrimento psicológico é revestido de certa sacralidade, pois é ao passar pelo inferno da polifonia interna que encontramos o sentido construtivo da travessia. É este caminho que fará o indivíduo estar mais próximo de ser o que ele realmente é, um ser “sobrenatural”19. O caráter constante de polifonia do personagem nos remete ao conflito e à angústia da travessia. A ânsia de Raskólnikov pela busca de um significado é tão intensa, que o vagar lhe traz febres, é um momento de “desalienação”. Tal movimento de travessia produz “descoisificação”, um por autoconhecimento, meio da eterna uma constante polifonia consigo mesmo. Cito uma passagem de Crime e Castigo, que ilustra o estado de consciência de Raskólnikov ao pensar no crime que iria cometer: “E de repente voltou a si. 19 Adjetivo atribuído por Luiz Felipe Pondé, em seu livro Crítica e Profecia. 71 ‘Depois daquilo – exclamou ele, arrancando-se do banco -, ora, por acaso aquilo vai acontecer? Será possível que vá mesmo acontecer?’ Abandonou o banco e saiu, quase correndo; quis voltar, para casa, mas esse ‘para casa’ lhe deu um súbito e terrível asco: fôra lá, no canto, naquele terrível armário que amadurecera tudo aquilo havia já mais de um mês, e ele saiu sem rumo. Seu tremor nervoso transbordou em um tremor algo febril; chagou até a sentir calafrio; ficou com frio em meio a todo aquele calorão.”20 O crítico Luiz Felipe Pondé vê a teoria de Maquiavel na insistência de Raskólnikov em divagar sobre a figura de Napoleão, ao longo do romance. Para ele, não há na história um personagem que se identifique tanto com o Príncipe. E, na linguagem de Maquiavel, o homem extraordinário é o indivíduo que possui virtù. Para ele o ser humano é um caos de paixões, medo, interesse e fraquezas, e qualquer outra coisa, além disso, é metafísica, construção e não empiria. Um bom príncipe é aquele que sabe observar o ser humano naquilo que ele realmente é. Portanto, alguém que não perceba que o indivíduo é incapaz de se organizar, não serve para príncipe, pois se permitir que ele seja “livre” e faça o que tiver vontade, a única coisa que vai conseguir é destruir-se sem nenhuma legitimidade. Assim, o sujeito que possui virtù é aquele que está acima dos outros, pois consegue se reconhecer como vítima das paixões, que não deve dar muita atenção aos seus desejos, porque se o fizer eles o levará a destruição. 20 DOSTOIÉVSKI, Fiodor. Crime e Castigo. p.68. 72 “Maquiavel afirma que o príncipe deve ser extremamente competente no uso da violência, isto é, se ele tiver de matar alguns milhares de pessoas em determinado momento, o que determina a avaliação de seu ato, não é um código moral anterior, mas o resultado desse ato em termos da manutenção do Estado. Mas o que é ‘estado’ senão ‘estar’ no particípio ou um ‘estando’ contínuo, no sentido de ser igual a si mesmo durante algum tempo? É o que falta ao ser humano, segundo Maquiavel: a capacidade de ser ‘estado’, isto é, ter e ser continuidade e estabilidade, enfim, sustentar uma ‘identidade’.”21 Maquiavel é radical ao falar do comportamento humano, para ele não há nenhum sentido cosmológico nisso. O que se vê é um espetáculo do desejo destruindo a todos e que se alguém, por acaso, possui virtù poderá manter um estado precário, mas, em algum sentido, melhor do que os outros, pois o sujeito precisa desse Estado para existir, isso o faz menos caótico do que ele realmente é. Contudo, para Dostoiévski há a presença do niilismo nisso tudo. Seu projeto de liberação da modernidade é de base niilista, absoluto e ao e diz nada que em o ser tudo, humano como se vai isso chegar fosse ao sua liberdade. E, quando se achar na contingência absoluta, começará a culpar responsabilidades. aproximar Maquiavel os outros Assim, do e eximir-se podemos, niilismo, de pois de alguma ao dizer suas forma, que o ajuizamento sobre o valor da vida humana é o resultado da 21 PONDÉ, Luis Felipe. Crítica e Profecia. 73 morte num contexto político, é afirmar que a vida humana não é nenhuma fonte de valor. Isto é o que está na base do pensamento de Raskólnikov, a ideologia que o leva a fazer o que ele faz. Seu desespero e sua agonia estão em não conseguir se convencer daquilo que queria. No final do romance, ele acaba se convencendo de que matou aquela mulher porque queria e nada mais, e não por nenhuma teoria. Não foi uma causa humanística, porque a velha era má com todos, e sim porque ele teve seu momento de maldade voluntária. É importante que o indivíduo faça todo o trajeto da miséria para perceber hospedado que nele. existe Isso o nos mal sim, mostra e que que este existe algo está de sanidade, pois atrás da recusa da substancialidade do mal está a sua denegação. Indivíduos que fracassam como Raskólnikov, de alguma forma se salvam. Mas para tanto, ele tem que pagar pelo seu crime, e, por conseqüência, vai para a cadeia. Na realidade, a salvação de Raskólnikov foi perceber que não consegue se convencer de que ele é um indivíduo extraordinário. Ele não tem virtù, não é Napoleão e não consegue estar além da mísera condição humana, do caos que o ser humano é, da manipulação das paixões. Para Dostoiévski o caminho não seria negar o caos de paixões, mas atravessá-lo, e é isso que Raskólnikov consegue ao se 74 reconhecer fraco. Talvez o erro do pensamento religioso moderno seja ter pulado o sofrimento para ir diretamente ao remédio, há que retornar uma reflexão sobre a condição humana para conseguir atravessar o mal e não somente e matou, superá-lo. Raskólnikov se julgou extraordinário pois indivíduos extraordinários são capazes de fazer o que os outros não fazem, não por serem melhores, mas por serem hipócritas e mentirosos. Assim, percebe que não é extraordinário, senão não estaria passando pela angústia do crime cometido. Pavel Aristov, que o personagem conheceu na prisão, é um indivíduo extraordinário de fato, pois está acima da moral, conseguindo estabelecer o clímax do mal. Podemos perceber isso na forma em que Raskólnikov fica impressionado quando seu companheiro de cadeia fala dos crimes cometidos, com completa isenção de sentimento e culpa. 3.2.3.2 – Lessing e Dostoiévski A expressão da dor em Dostoiévski apresenta alguns aspectos distintos essência permanecerá da a discutida em Lessing, mesma. Nesta última, mas vimos sua a comparação da dor de Laocoonte em dois tipos distintos de arte. Atendo-nos à poesia, Lessing nos mostra uma forma 75 mais ampla de mostrar os sentimentos, pois, munidos da palavra, podemos fazer com que o nosso leitor tenha um poder maior no exercício de sua imaginação. A escrita nos daria uma maior possibilidade de expressão, que estaria limitada nas formas de arte visual. A imaginação fomentada pela palavra teria um poder maior ao da visão imediata. Em Laocoonte a dor é física, causada pela maldição de Minerva. As serpentes que se enrolam em Raskólnikov são psicológicas, criadas pela sua angústia da consciência. A intensidade da dor pode ser a mesma, tendo em vista que Laocoonte também sofre pela culpa de seus filhos estarem sendo esmagados. A culpa aqui é a força motriz e o dilaceramento maior da angústia desses dois personagens. O que Virgílio e Homero mostram no corpo de Laocoonte, Dostoiévski mostra na consciência de Raskólnikov. Cito uma passagem do romance em que o personagem reflete sobre a natureza do crime: “Segundo sua convicção, ocorre que esse eclipse da razão e esse abatimento da vontade se apossam do homem como uma doença, evoluem gradualmente e chegam ao ponto máximo um pouco antes do cometimento do crime; continuam da mesma forma no próprio momento do crime e algum tempo depois dele, dependendo do indivíduo; em seguida passam da mesma forma como passa qualquer doença. Mas a questão: é a doença que gera o crime ou o próprio crime, por sua natureza específica, de certa forma é sempre acompanhado de algo como uma doença?”22 22 DOSTOIÉVSKI, Fiodor. Crime e Castigo. p.85. 76 Na era do humanismo renascentista, Lessing fala do paragone entre a pintura e a poesia. A preocupação do crítico era produzir uma comparação entre essas duas formas de arte, tendo em vista o Renascimento que se caracterizava pela expressão perfeita dos corpos no mármore e na tela. Lessing defende, em seu texto, a poesia como arte superior à pintura. A primeira, ao trabalhar com a linguagem, possui um campo mais amplo capaz de induzir o leitor a percepções muito além do que as produzidas pela simples visão de uma cena talhada ou pintada. E também, a figura reproduzida só contará com um momento, enquanto a linguagem trabalhará com diversos. Os corpos, objeto da pintura, contam apenas com o espaço, já as ações, referentes à poesia, ilustram espaço e tempo. Ao analisar observando outra o romance forma de Crime arte: e a Castigo, prosa. estaremos Esta, como a poesia, também se utilizará da linguagem, o que lhe dará um amplo recurso para o jogo de percepções do leitor. A dor, tanto comparada por Lessing, não será expressa da mesma forma, pois, saímos da era física do Renascimento e passamos à era psicológica. O que veremos agora não é mais a angústia do sofrimento físico, mas a da consciência. As serpentes que se enrolam em Laooconte ainda existem, mas ganham novas formas subjetivas, viram a alegoria da castração e do medo, em personagens que não serão mais 77 caracterizados como os heróis gregos. Aqui, eles não terão mais a virtude como sua principal característica, mas serão indivíduos como nós, impregnados de defeitos. As serpentes sufocarão Raskólnikov quando ele encontrar-se em meio à angústia do crime cometido. Minerva aqui será sua consciência, que o lançará um doloroso castigo. Enquanto Virgílio e Homero cantam a dor física de Laocoonte, através de sua expressão e de seu grito, Dostoiévski escreverá a angústia de seus personagens, pela luta interna primeiros do sujeito mostrarão um e herói, suas múltiplas cuja dor o vozes. eleva a Os uma condição superior ao dos outros homens, o segundo tratará da condição perdido em precária meio as do suas ser humano, ações. Cito que se encontrará uma passagem onde observamos uma descrição da angústia de Raskólnikov: “Assim ele se atormentava e se provocava com essas perguntas, até com algum prazer. Aliás essas questões todas não eram novas, nem repentinas, mas antigas, remotas, nevrálgicas. Fazia muito que elas haviam começado a atormenta-lo e lhe tinham atormentado o coração. Há muito tempo essa melancolia de hoje surgira nele, crescera, acumulara-se e ultimamente amadurecera e se concentrara, assumindo a forma de uma pergunta terrível, absurda e fantástica, que lhe atormentara o coração e a mente, exigindo irresistivelmente uma solução. (...) Precisava decidir-se a qualquer custo, fosse lá pelo que fosse, ou... Ou renunciar totalmente à vida! – gritou de repente com furor -, aceitar docilmente o destino como ele é, de uma vez por todas, e sufocar tudo em mim, abrindo mão de qualquer direito de agir, viver e amar!’”23 23 DOSTOIÉVSKI, Fiodor. Crime e Castigo. p.61. 78 A dor não mais engrandece o homem, ela só o reafirma em sua condição consciência de de sujeito sua precário, multiplicidade. vítima Aqui, a da não linguagem textual também se colocará como superior às artes visuais. Algumas pinturas e esculturas da era moderna tentarão representar a angústia psicológica do homem, mas esta não será tão bem refletida como fizeram os autores da subjetividade. O grito de Laooconte pode ser sentido na consciência de Raskólnikov. Suas diferentes vozes gritam querendo sobrepor-se umas as outras, lutando por uma saída de suas ações. “Vez por outra apenas resmungava alguma coisa com seus botões, pelo hábito de monologar que ele mesmo acabara de reconhecer de si para si. No mesmo instante reconheceu que suas idéias às vezes se embaralhavam e que estava muito fraco.”24 “Mas não conseguia traduzir a sua perturbação nem em palavras, nem em exclamações. O sentimento de um asco sem fim, que começava a oprimir-lhe e angustiar-lhe o coração(...) Caminhava pela calçada como um bêbado, sem notar os transeuntes e esbarrando neles, e só se deu conta quando já estava na rua seguinte.”25 Dostoiévski, como Homero, não ameniza a dor para que esta não se torne incômoda aos olhos do leitor, o que também se caracteriza como uma diferença que não sentimos mais em relação às artes visuais. Enquanto Laooconte foi lapidado no mármore com a boca entreaberta para que seu 24 25 Ibdem, p.20. Ibdem, p.26. 79 grito não chocasse as pessoas, as artes modernas, em oposição, abusam de expressões, cores e recursos que mexam profundamente com os sentimentos. Agora, a dor e a angústia devem ser passadas de maneira genuína, não somente pela visualização do momento do personagem, mas na impressão que a obra causa no interior dos seus espectadores. Em Dostoiévski teremos o constante incômodo, ao ter que conhecer a vida, as angústias e a precariedade de seus personagens. Raskólnikov nos parecerá asqueroso, primeiramente pela sua apatia perante os acontecimentos que lhe ocorrem na vida, depois por sua atitude ao ver-se sem escolha e cometer o assassinato, e por último pela sua perturbação decorrida do ato cometido. Os autores subjetivos não terão mais a preocupação com a beleza, a preocupação será apenas no reflexo do sujeito como ele é realmente. Os heróis agora são providos de imperfeições e medos. A condição latente do indivíduo causa náusea em quem a ela é exposto. Ler esses personagens é ver-se como tal, é descobrir-se com o mesmo aspecto terrível, possuidor da mesma multiplicidade angustiante. Perceber-se como ser humano feio traz à tona o sentimento de asco, de repugnância. objetivos de autores como E esse é um Dostoiévski, dos fazer principais o leitor reconhecer-se como indivíduo precário. A dor extrapola o campo do texto e dos personagens, passando a ser o nosso 80 sentimento, o do leitor que se depara com o espelho da sua alma. No capítulo seguinte, trataremos do romance escolhido como foco principal de nossas hipóteses: Fogo Morto, de José Lins do Rego, para melhor exemplificar - de maneira mais completa - a trajetória angustiante da dor de existir e da conscientização sujeito que vive. do outro Romance como composto responsabilidade de três do personagens nucleares, narra em cada capítulo de sua trama a trajetória de cada um desses em uma pequena cidade do sertão nordestino. Aqui veremos histórias de dor, angústia, tabus e busca da sublimação. 81 4 - Fogo Morto, de José Lins do Rego 4.1 - O movimento modernista No decorrer da primeira década do século XX a Europa assistiu à queda de todo seu sistema vigente. Os jovens reagiam aos padrões da sociedade, aspirando destruir os valores tradicionais. Semelhante reação aparentava-se à posição socialista radical ou ao niilismo filosófico de seus responsáveis, em uma atitude devastadora, denominada vanguarda. A participação brasileira naquele conjunto de idéias mostrou-se tardia. Tivemos de adaptá-las à nossa maneira, dentro da nossa forma geográfica e histórica, e às peculiaridades mentais aqui vigentes. O Modernismo surgiu, a partir de tal encaminhamento, após a Semana de Arte Moderna, e atuou como força renovadora na literatura. Após 1922, todas as tentativas de reforma foram etapas de evolução, de condicionamento aos costumes e cultura locais. “Quanto ao termo “modernista”, veio a caracterizar, cada vez mais intensamente, um código novo, diferente dos códigos parnasiano e simbolista. “Moderno” inclui também fatores de mensagem: motivos, temas, mitos modernos. Com o máximo de precisão semântica, dir-seá que nem tudo que antecipa traços modernos será modernista; e nem tudo o que foi modernista parecerá, hoje, moderno.”26 26 BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994. pg: 331. 82 Os intelectuais do início do século absorviam a cultura trazida da Europa, de seus vários anos de estudos fora do Brasil. tendências às Tentavam cidades adaptar brasileiras, os costumes quando e as decidiram por revolucionar e instaurar de vez a era do Modernismo no país. O marco da difusão e da solidificação do movimento aconteceu com a cerimônia da Semana de Arte Moderna, em São Paulo. Esta representou a confluência das várias tendências de renovação que vinham ocorrendo na arte e na cultura brasileira antes de 22, cujo objetivo era combater a arte tradicional. Após o revistas evento, e manifestos eclodiram que publicações buscavam a de livros, consolidação do movimento e das ideologias. A preocupação estava em acertar o passo com a modernidade intelectual dos países europeus e dar relevo às raízes brasileiras, à criação de um produto nacional que se distinguisse da ideologia romântica de outrora. A primeira fase do Modernismo caracterizou-se por idéias relacionadas à visão nacionalista, porém crítica, da realidade brasileira. Os autores dessa fase se propõem a defender a reconstrução da cultura brasileira sobre bases nacionais, promovendo uma revisão crítica do passado histórico-social e das tradições culturais, eliminando de vez o complexo de “colonizados”. 83 Em sua segunda fase, ao lado dos problemas de um Brasil em crise, o Modernismo deu rumo a novos estilos de ficção marcados por uma volta ao naturalismo e pela captação objetiva dos fatos. Tínhamos antes, uma ficção impregnada de um realismo marcado pela idéia do “científico” e do “impessoal”, descartado por romancistas da década de 30. Estes amadureceram a compreensão de que o peso da tradição se remove e se abala pela vivência sofrida e lúcida das tensões que compõem as estruturas materiais e morais do grupo em que se vive. Compreenderam que cada situação devia ser expressa de maneira nova, baseando-se na realidade nacional. A partir de então, a ficção moderna de nossos escritores passou a dividir-se em duas grandes e importantes linhas temáticas: a regional e a intimista. O interesse pelo regional nasceu com Gilberto Freyre e suas proposições do Movimento Regionalista. Formou-se uma preocupação recorte em descrever geográfico, à a região, sociedade e no à que compete cultura, ao imersos, agora, em uma visão crítica das relações sociais. Essa realidade muitas vezes se apresenta menos áspera e mais acomodada às tradições do meio, mas em outras, podemos observar a dureza do testemunho individual. 84 4.2 - Fogo Morto e José Lins do Rego Na produção de José Lins do Rego, o ponto principal corresponde ao chamado ciclo da cana-de-açúcar. Partindo de experiências memória o autobiográficas, fundamento melancolicamente a de o seus escritor romances, decadência do encontra nos quais na fixa engenho-de-açúcar, substituído pela usina, como modo de produção. O Manifesto Freyre, em Regionalista, 1926, contém assinado fundamentos por Gilberto sociológicos e tendências à crítica social, colocando em primeiro plano os problemas de classe e os aspectos ultra-individuais da vida regional. Porém os romances acabaram por absorver a estrutura do documentário, em virtude do vezo naturalista com que alguns autores o trataram. Terminaram transformando-se em monografias sócio-econômicas. Na ânsia da mímeses, o reflexo estilístico da realidade cedeu lugar à simples retratação pitoresca. As obras de José Lins do Rego nos mostram um caráter regionalista de descrição social. A par disso, Fogo Morto aparece como ponto mais alto de sua criação, onde o autor consegue, em perfeita confluência, mostrar o enlace entre o social e o indivíduo participante deste. Incluso ainda no ciclo do açúcar, o romance nos traz a figura da dor e das 85 inquietações Romance humanas singular em plano demonstra um principal ao afastamento da da terra. concepção regionalista e socialista do chamado universo “coletivo”. Sua preocupação primeira não é a de marcar os caracteres de uma sociedade, mas a força do personagem. José Lins do Rego vê agora o assimilado à nordestino sua não realidade somente social como e um indivíduo ecológica, mas ao complexo humano integrado em circunstâncias peculiares. José Américo de Almeida conclui que, no romance regionalista, há “uma ausência de atmosfera introspectiva” a favor da “massa que espontaneamente, rudemente, passa a vibrar ao toque da arte”27, o que se torna inválido para Fogo Morto que, na década de 40, se inscreve no estilo regionalista – psicológico, tornando-se um romance ímpar da obra de Lins do Rego. 4.2.1 – Sobre José Lins do Rego José Lins do Rego publicou doze romances, um volume de memórias (Meus Verdes Anos), um de literatura infantil (Histórias da Velha Totônia), além de livros de viagem, conferências 27 e crônicas. Seus romances são normalmente ALMEIDA, José Américo de. “Gilberto Freyre, Nova Forma de Expressão”. in: Gilberto Freyre: sua Ciência, sua Filosofia, sua Arte. Ensaios sobre o autor de Casa Grande e Senzala. Publicação comemorativa. Rio de Janeiro, 1962, p. 25. 86 classificados em "ciclos", séries de obras versando sobre os mesmos temas. Em 1932, o autor publicou seu primeiro livro, Menino de Engenho. Custeado com seus próprios recursos, o livro recebeu críticas favoráveis e tornou-se um grande sucesso. No ano seguinte, publicou seu segundo romance, Doidinho. A partir daí, José Lins do Rego tornou-se um escritor de prestígio, romance estimado por ano: pelo em público. 1934, Passou Bangüê; em a publicar 1935, O um Moleque Ricardo; em 1936, Usina; em 1937, Pureza; em 1938, Pedra Bonita; e em 1939, Riacho Doce. O autor consagrou-se como mestre do regionalismo. As obras do chamado “ciclo da cana-de-açúcar” são as mais importantes. Partindo de experiências autobiográficas – a vida no engenho do avô –, o escritor encontra na memória o fundamento melancolicamente a de seus romances, decadência do nos engenho quais de fixa açúcar, substituído como modo de produção pela usina. Participante ou pelo menos observador deste processo, José Lins do Rego esforça-se para registrar a verdadeira revolução social desencadeada pela nova tecnologia de produção açucareira que, em pouco tempo, levou um grande número de senhores de engenho a mais completa bancarrota econômica. As características marcantes desse ciclo são: o memorialismo, a visão de mundo sob a ótica do senhor de engenho, a 87 linguagem espontânea e certa consciência crítica em relação à miséria e ao subdesenvolvimento do Nordeste. No prefácio de Usina, o próprio José Lins do Rego delimitou seu “ciclo da cana-de-açúcar”: “A história desses livros é bem simples: comecei querendo apenas escrever umas memórias que fossem as de todos os meninos criados nas casas-grandes dos engenhos nordestinos. Seria apenas um pedaço da vida o que eu queria contar. Sucede, porém, que um romancista é muitas vezes o instrumento apenas de forças que se acham escondidas no seu interior.”28 Publicado em 1943, Fogo Morto é a última obra-prima do regionalismo década de neo-realista 30. surgido Obra-prima, pois no Brasil percorre durante uma a vereda intimista que o difere e destaca dos outros textos de José Lins do Rego. Prevalece uma narrativa direta, sem as ousadias formais de romances como de Oswald de Andrade ou de Mário de Andrade. Os regionalistas de 30, como Jorge Amado, Graciliano Ramos e José Lins do Rego, enfatizam, assim como o modernismo inicial, o uso da linguagem da série coloquial, popular, na obra de arte literária. Fogo Morto é também o último suspiro de romances a que o próprio autor haveria de chamar de “o ciclo da cana-de-açúcar”, que tem como matéria básica o engenho Santa Rosa, do velho José Paulino. Fogo Morto acaba por ser a maior obra deste ciclo, pois, ao minimizar o 28 REGO. José Lins do. Usina. 88 caráter autobiográfico e nostálgico das obras precedentes, o romancista facilidade de compositiva obras paraibano narrar que o anteriores acrescenta a a sua objetividade e sentimental e caráter encobria. Em Fogo extraordinária a consciência espontâneo Morto, das portanto, o romancista maduro e consciente se sobrepõe ao memorialista nostálgico para construir sua obra ímpar em síntese, aprofundamento e condensação de todas as outras. 4.2.2 – O ciclo da cana-de-açúcar O ciclo da cana-de-açúcar foi a primeira atividade economicamente organizada do Brasil. A partir da fundação do primeiro engenho de cana-de-açúcar por Martins Afonso de Souza, em 1532, e por mais de dois séculos o açúcar foi o principal produto brasileiro, convivendo, contribuindo e, às vezes, resistindo às mudanças sócio-político-culturais deste período. Muitos engenhos se proliferaram pela costa brasileira. O Nordeste, principalmente o litoral pernambucano e baiano, sorveu a maior parte da produção açucareira da colônia. A necessidade de colonizar a terra para defendê-la e explorar suas riquezas fizeram com que o Governo de Portugal instalasse engenhos produtores de açúcar no nosso 89 litoral, essa cultura foi escolhida por se tratar de um produto de alto valor no comércio europeu e por seu consumo crescente na Europa. Logo, após as dificuldades de sua implantação, o açúcar tornou-se o principal produto brasileiro e foi a base de sustentação da economia e da colonização do Brasil durante os século XVI e XVII. Ao lado subsistência, do canavial, para atender nascia a a crescente agricultura de necessidade de alimentos para a casa grande, a senzala e a pequena parcela de assalariados livres. A propriedade rural, verdadeiro feudo, era formada da seguinte maneira: primeiramente, o posto mais elevado na complexa sociedade açucareira cabia ao senhor de engenho, o qual desfrutava de admirável status social. Os engenhos eram formados por amplas propriedades de terras ganhas através da cessão de sesmarias - lotes abandonados cedidos pela coroa portuguesa a quem se comprometesse a aproveitá-los para o cultivo. O senhor e sua família moravam na casa-grande – local onde ele desempenhava sua autoridade junto aos seus, cumprindo seu papel de patriarca. Em segundo lugar vêm os negros escravos que viviam nas senzalas, alojamentos nos quais conviviam cruelmente, tratados como animais expostos aos mais atrozes e violentos castigos. Também existia a capela que era o local sagrado no qual aconteciam as mais belas sagrações religiosas, e nas suas horas vagas exercia igualmente o 90 papel de centro social, onde os homens livres do engenho e das vizinhanças se reuniam. No engenho ficava ainda a moenda, onde a cana-de-açúcar era moída. À mulher cabia a incumbência de administrar seu lar, devendo conservar-se recolhida fiscalizando o trabalho dos escravos domésticos. O serviço escravo, realizado nas lavouras canavieiras, era supervisionado pelos feitores, que tinham a tarefa de vigiar os escravos e lhes aplicar punições. Outros trabalhadores livres também trabalhavam no engenho, iam de barqueiros, canoeiros, pedreiros, carreiros, vaqueiros, pescadores e lavradores que, além de cuidarem do cultivo pequenas roças de da cana, milho, também mandioca se ou dedicavam feijão, as às quais auxiliavam na subsistência, garantindo alimentação para a casa grande, senzala e assalariados livres. Do século XVIII ao XIX o açúcar continuou a ter importância na economia do nosso país, embora o café viesse a se tornar o principal produto brasileiro. Mas pouco a pouco o açúcar perdeu mercado e foi deixando de ser a base de sustentação da nossa economia. Outros acontecimentos que prejudicaram Napoleão o açúcar Bonaparte transportadores de brasileiro contra açúcar do foram: os nosso o bloqueio navios continente de ingleses para o mercado consumidor europeu; e o aparecimento do açúcar de beterraba, o chamado “açúcar alemão”. Esse novo produto foi 91 utilizado pelos países consumidores como substituto ao açúcar da cana, ocorrendo o agravamento da crise e os maus efeitos decorrentes da monocultura latifundiária em nossa economia. Com todos esses problemas e com o descaso do Governo de Portugal em relação a sua colônia ocorreu a desarticulação da economia açucareira no Brasil. A partir de meados do século XVIII e durante todo o século XIX, o preço do açúcar permaneceu reduzido à metade. Os engenhos do Nordeste eram, originalmente, estabelecimentos agrícolas destinados à cultura da cana e à fabricação do açúcar. Com a ascensão das usinas, que passaram a comprar dos engenhos sua produção bruta (a cana de açúcar ainda não processada) a maior parte desses engenhos foi, aos poucos, deixando de moer a cana para a fabricação do açúcar. Passam, então, apenas a vender a matéria prima às usinas, tornando-se engenhos "de fogo morto". Perdem, assim, boa parte de seu poder, tornando-se reféns dos preços pagos pelas usinas. É como se encontra, ao final de Fogo Morto, o decadente engenho Santa Fé. 4.2.3 – Fogo Morto O romance se passa no município de Pilar, na Zona da Mata paraibana, às margens do Rio Paraíba. A maior parcela 92 da ação se desenvolve nas terras do engenho Santa Fé, nos arredores do Pilar. Na cidade, passa-se boa parte da última seção da obra. O desenrolar dos acontecimentos dá-se durante os primeiros anos do século XX, com uma regressão temporal à época da fundação do engenho Santa Fé, em 1850. E, embora seja traçada rapidamente a história do engenho até o momento narrado, as ações em si não duram mais do que alguns meses. O romance é narrado em terceira pessoa. É externo o ponto de vista do narrador, pois este não participa dos acontecimentos pensamento dos narrados. Ele personagens, é onisciente, suas dúvidas, mostra o problemas e devaneios do povo dos engenhos nordestinos. Fogo Morto é dividido em três partes. Cada uma delas traz no título o nome de um dos três personagens principais do romance. Porém, essas se entrecruzam, com o aparecimento desses mesmos personagens ao longo de todo o livro. Cada um deles, na verdade, sintetiza certa classe da população, todas as três envolvidas por um cenário de miséria, superstição e doença. Os três personagens nucleares são: o mestre José Amaro, seleiro pobre e com vários conflitos psicológicos e familiares; o coronel Lula de Holanda, senhor de engenho inepto e decadente; e Vitorino Carneiro da Cunha, o “papa-rabo”, herói quixotesco, defensor estabanado dos oprimidos. É esse mesmo Vitorino, misto de 93 Dom Quixote e Sancho Pança, em suas andanças e na sua busca ingênua de justiça, quem estabelece as relações entre todas as personagens, servindo como ponto central da narrativa. Os fatos, dentro de cada uma das três partes, ocorrem em ordem cronológica. consciência, fluem As do rememorações, pensamento em dos fluxos personagens. de As referências ao passado contribuem para um retardamento do tempo narrativo e ajudam ao leitor na caracterização dos personagens e de suas relações com o meio ambiente, tornando-se evidente o momento histórico em que se situam. A estrutura episódica do romance centra-se nos três protagonistas que se inter-relacionam e com os demais personagens, juntando-se no desfecho. As mulheres, embora estruturalmente representam um mostradas papel muito de maneira importante nessa secundária, obra. Os personagens principais e secundários são apresentados na exposição do enredo para se desenharem com mais perfeição no decorrer da trama. O enredo complica-se gradativamente, em cada uma das três partes atingindo o clímax. 4.3 – A dor entre o regional e o psicológico As condições social e particular do indivíduo caminham juntas na literatura, mesmo que por hora uma apareça em 94 plano superior à outra. A explicação de uma sociedade dá-se pelo reconhecimento de seus indivíduos. A partir desse estudo é que escolhemos a obra de José Lins do Rego, para ilustrar e aprofundar as nossas pesquisas. Em Fogo Morto encontramos grande expressividade das questões humanas. Antonio Candido, um dos maiores críticos da literatura brasileira, vem em seus textos nos mostrar a ligação entre o social e a subjetividade. Em Vários Escritos, Candido afirma que perscrutar leis mentais e sociais é não só explorar o espaço como um registro. Aqui ele nos aponta para a necessidade de irmos além do simples espelhamento de uma região. Nossa cultura é feita da pluralidade, da miscigenação, por isso não poderíamos ter textos que não fossem baseados na mistura, na fusão. Se a idéia principal de uma literatura genuína era que ela pintasse as formas de seu povo, então o homem multiperspectivado deveria refletir uma literatura de vários lados, influências e rostos. Cito Bosi: “Da cultura brasileira já houve quem a julgasse ou a quisesse unitária, coesa, cabalmente definida por esta ou aquela qualidade mestra. (...) Ocorre, porém, que não existe uma cultura brasileira homogênea, matriz dos nossos comportamentos e dos nossos discursos. Ao contrário: a admissão de seu caráter plural é um passo decisivo para compreendê-la como um ‘efeito de sentido’, resultado de um processo de 95 múltiplas espaço.”29 interações e oposições no tempo e no A subjetividade é a ferramenta que o escritor utiliza em seu romance para mostrar e explorar a perspectiva da personagem. Freqüentemente a narrativa dá-se em primeira pessoa, mostrando a voz da consciência do sujeito. O que vemos em Fogo Morto é o desdobramento dessa voz em muitas outras. O que caracteriza a intersubjetividade é a certeza de que há um múltiplo de vozes opostas e complementares dentro da consciência de um único indivíduo. E, uma de nossas tarefas em Fogo Morto é a de mostrar como ocorre a coexistência dessas personalidades dentro do sujeito e a representação personagens da diante dor do causada múltiplo pela que impotência angustia. O dos romance reflete a sensação do não-estar, em um mundo que não faz sentido as suas necessidades. 4.4 – O paralelo da dor de Lessing e de Fogo Morto José Lins do Rego e Lessing mostram em Fogo Morto e Laocoonte ou as fronteiras da pintura e da poesia, respectivamente, aspectos distintos acerca da expressão da dor. Contudo, podemos apreender uma linha comum que percorre ambas. Voltando a destacar as observações feitas 29 BOSI, Alfredo. Cultura Brasileira. p.7. 96 por Lessing sobre a poesia, o crítico a trata como uma forma mais ampla que o artista tem para pintar sentimentos. Utilizando, agora, de palavras como ferramentas, podemos dar ao nosso leitor um poder e oportunidade maior de trabalhar sua imaginação. Antes como uma forma de expansão ao contrário de oposição, a escrita vem imbuída de um poder maior de expressividade em comparação a arte visual, de antes. A imaginação alimentada por ela nos possibilitaria uma amplitude maior ao da visão imediata. A intensidade e a voracidade da dor aparentam ser as mesmas em Laocconte e nos personagens de Fogo Morto, mas encarnadas física, em níveis causada serpentes pela vestem seu diferentes. maldição. caráter No primeiro Contudo, de no a dor segundo, alegoria, passam é as a psicológicas, criadas pela sua angústia da consciência. A culpa do fracasso é, em Fogo Morto, o que desencadeia o dilaceramento maior da angústia desses personagens. Aqui, o corpo e a consciência sofrem da mesma forma, o que varia é sua causa, desenvolvimento e conseqüência. Como já vimos em Dostoievski, o romance Fogo Morto, dá-nos a dimensão da prosa, como outra possibilidade de arte, não citada por Lessing. No entanto, esta, como a poesia, é também construída por palavras e utiliza-se dessas como suas ferramentas. Ao sairmos da era física, tão cultuada pelo Renascimento, conhecemos o psicológico. A dor 97 de Lessing e seu Laocoonte teve que se adaptar, ou melhor, que se estender à consciência. Antes de aflorar ao corpo, ela nasce do interior do indivíduo. As serpentes e o castigo de Minerva tomam a forma da castração e do medo, enrolando-se e sufocando problemas humanos. personagens dotados, agora, de É o reflexo de nossa precariedade, mais do que nunca, cantada pelos artistas de nosso tempo. Enquanto Virgílio e Homero cantam a dor física de Laocoonte, através de sua expressão e de seu grito, José Lins do Rego escreverá a angústia de seus personagens, pela luta interna do sujeito e suas múltiplas vozes, e pela consciência dilaceradora da sua responsabilidade pelo outro. Os primeiros mostrarão um herói, cuja dor o eleva a uma condição tratará da superior condição ao dos precária outros do homens, ser o humano, segundo que se encontrará perdido em meio as suas ações. Cito uma passagem onde observamos uma descrição da angústia de José Amaro: “José Passarinho se calara. A tarde era triste com o vento desembestado no mundo. O capitão Vitorino Carneiro da Cunha era mais homem do que ele. Estava com medo do povo. Não saía de casa com medo do povo. Os homens tinham feito dele um traste infeliz. O negro Floripes inventava coisas. Laurentino falava por toda parte. Era um homem perdido, sem filha, sem mulher, só no mundo como se fosse um condenado. Lobisomem. Homem do demônio. Aquela canalha queria reduzi-lo a nada. E ele não tinha coragem, não tinha forças para sair de casa (...) ”30 30 REGO, José Lins. Fogo Morto. p.315. 98 A dor não mais engrandece o homem, ela só o reafirma em sua condição consciência de de sua sujeito precário, multiplicidade. vítima Aqui, a da não linguagem textual também se colocará como superior às artes visuais. Algumas pinturas e esculturas da era moderna tentarão representar a angústia psicológica do homem, mas esta não será tão bem refletida como fizeram os autores da subjetividade. Aqui, a dor e a angústia devem ser passadas de maneira genuína, não somente pela visualização do momento do personagem, mas na impressão que a obra causa no interior dos seus espectadores. 99 5 - A estrutura de Fogo Morto Fogo Morto é constituído de três capítulos que, mesmo podendo apresentar caráter individual, complementam-se, tecendo uma malha de intrigas que dão vida ao texto. O romance não possui personagem principal, ou melhor, divide seu capítulo foco narra em a três personagens trajetória intercalando, conseqüentemente, coadjuvantes. Essa de intercalação um os nucleares. desses dois mostra Cada sujeitos, outros como três tipos diferentes que possuem um ponto vital em comum: a dor. A vida de cada um percorre rumos diferentes, tanto no nível social, econômico e psicológico, mas uma característica parece estar sempre em suas vidas, como força motriz que as movimentam. A dor se mostra em suas diferentes formas e sintomas, intrínseca nas personagens principais, nas pessoas de sua convivência, no próprio meio em que vivem. José Lins do Rego se preocupou em retratar a história de vida das pessoas do engenho da cana, levando em consideração suas condições de seres humanos envoltos em angústias e dores geradas pela atmosfera que os cerca. Mas, para além disso tudo, o autor nos mostrou formas de convivência com essa dor que assola e atormenta. Veremos aqui as sublimações que seus personagens encontraram como a única saída para suas existências. 100 5.1 - Os anti-heróis Os personagens de Fogo Morto são tipos, na medida em que representam uma determinada estrutura sócio-econômica. Embora os personagens se cruzem para formar o todo da obra, podemos afirmar que o enredo se arma em torno de três principais que se completam no decorrer da narrativa. As personagens que sofrem densidade psicológica, esféricas. As três mudança sendo principais substancial possuem por chamadas do isso, romance se mais de constituem dessa forma, pois toda a trama decorre das transformações de seu estado personagem, psicossocial. mais rico o Quanto seu mais significado. ambígua a Elas se caracterizam como anti-heróis. Enquanto protagonista da história narrada ou encenada, o anti-herói reveste-se de qualidades opostas ao cânone axiológico positivo. Por vezes não se encaixa no estereótipo da beleza, da força física e espiritual, da destreza, do dinamismo e da capacidade de intervenção, da liderança social e das virtudes morais. A avaliação do herói assume sempre aspectos subjetivos, uma vez que, a vida e os acontecimentos apresentam uma constante ambigüidade de pontos de vista, que se inscrevem no caráter dialético da condição humana. Qualquer reação do 101 protagonista é sempre antagônicas. Por outro suscetível lado, a de interpretações ideologia do leitor condiciona sempre a leitura do comportamento dos heróis épicos. É, todavia, com a paródia que a figura do antiherói se tradição afirma, da rompendo epopéia. O com romance o retrato realista exemplar e da naturalista acentua, no século XIX, o distanciamento do escritor em relação à sociedade romântica e pós-romântica, com os seus paradigmas e clichês. No século XX, personagens grotescas e conflituosas configuram uma visão deformada do mundo contemporâneo, contestada pelo herói. Os personagens de José Lins do Rego, em Fogo Morto, demonstram essa oposição ao estilo tradicional. Os heróis contemporâneos ou anti-heróis, como apresenta o autor em seu romance, são dotados de uma aura humana, ou seja, representam toda a condição do indivíduo imerso em seus conflitos e dores. Diferentemente dos heróis tradicionais, os da modernidade se aproximam de nós, se mostram na mesma condição precária de seres humanos. Nesse momento, profundamente capítulos, o nos preocuparemos romance, primeiramente, tratando de em cada forma analisar um de individual mais seus e, conseqüentemente, do ponto de vista do conjunto da obra. Lançaremos mão de todos os conceitos expostos até aqui, com a preocupação de entrelaçar nossas hipóteses às teorias 102 estudadas. Focar-nos-emos principais e de seus na análise reflexos nos dos personagens indivíduos de sua convivência e no seu meio, perpassando as teorias da ética, da estética, da dor e da sublimação. Levaremos a diante a descoberta de um regionalismo ímpar, a arte de José Lins do Rego em desenhar uma região pelo reflexo do interior de seus viventes. 5.2 - Primeira parte – O mestre José Amaro A primeira parte do romance centra-se na casa do Mestre José Amaro, à beira da estrada no engenho Santa Fé. Seleiro orgulhoso e machista, que se recusa a ser dominado por qualquer um. José Amaro vive na zona da mata, onde as pessoas são, praticamente, posses de outras, onde o escravismo deixou seus vincos na atmosfera dos costumes. O Mestre vive consertos. de Isso especialmente discurso a de ordem fazer se artefatos torna afirmar-se opressiva, seu de couro direito livre, de instituída à e pequenos liberdade, contestar pelos pelo hábitos patriarcais. José Amaro tem uma alta consciência de seu valor humano. 103 “Ele queria mandar em tudo como mandava no couro que trabalhava, quer bater em tudo, como batia naquela sola.”31 Contudo, não lhe falta o lado íntimo da desgraça. Sua filha se torna louca, vive chorando pelos cantos da casa; sua mulher não o compreende e por fim o abandona. O seleiro está sozinho em sua revolta. Essa solidão — ainda que em meio a pessoas que o visitam e convocam — é o que o faz se voltar para o cangaceiro Antônio Silvino, perseguido pela volante estadual. Descrente de sua importância como ser humano, Zé Amaro precisa mostrar a si mesmo que pode reconstruir-se como sujeito ativo de uma vida relevante. O Mestre torna-se um colaborador secreto do famoso cangaceiro, e seu fim estará ligado a esse pacto. Grande parte deste trecho da obra constrói-se através dos diálogos travados por José Amaro com os passantes. Entre estes está o compadre Vitorino Carneiro da Cunha, seu amigo e um dos personagens de maior importância do romance. O Mestre cria desavença com o Coronel Lula de Holanda, dono das terras em que mora, e que sempre vê cruzando a estrada em seu cabriolé, sem jamais parar para cumprimentálo. Vai adiando, portanto, atender ao chamado do Coronel para encontrá-lo na casa grande. Seu caráter fechado e ranzinza lhe vale a fama de se transformar em lobisomem, o que 31 causa medo às pessoas. Aqui, REGO, José Lins do. Fogo Morto. p. 55-56 é o começo da 104 externalização de seu “monstro”, de sua condição interna. Esta se torna tão insuportável e incômoda, que Zé Amaro passa a refletir seu interior mais decadente. Por fim, tem que mandar a filha para o hospício em Recife, sua primeira perda, e acaba por atender ao chamado do coronel Lula, que lhe ordena que se retire de suas terras, sua reafirma, é segunda o perda. velho seleiro Sua imagem frustrado, derrotada que mora com se a mulher e filha nas terras de engenho de Santa Fé, cujo dono é o Coronel Lula de Holanda. É um desiludido com a profissão, com a vida familiar, com sua filha solteira sempre chorando pelos cantos e sua mulher a resmungar. Símbolo da decadência do artesanato rural, do respeito ao cangaço, enquanto proteção aos pobres e castigo aos maus. Mestre José Amaro apresenta-se como um dos (anti-) heróis do romance. Seu personagem é descrito como um indivíduo feio por dentro e por fora, de uma vida arruinada e sem futuro. carisma. Talvez Ainda por assim, sua sua condição figura de pena desperta ou por certo algum vestígio de pureza em sua descrição. Mesmo quando Zé Amaro se junta ao cangaceiro Antonio Silvino, ele não adquire nenhuma característica de vilania, sua aliança é uma forma de tentar modificar sua condição de vida. Sua dor se desenvolve a partir de sua pobreza e de algumas complicações que essa condição traz a sua vida. Zé 105 Amaro tinha tudo para viver bem, em sua vida simples, com a família. Mas a revolta nascida diante desta condição o faz degradar-se enquanto sujeito, levando-o a amargura. O gosto acre de sua alma o faz externar suas angústias e dores mais intensas, o que pode ser observado também na sua fisionomia, que se transforma ao longo da narrativa. Esposa e filha afastam-se cada vez mais de sua dor. A filha Marta entrega-se a loucura como a única forma de fuga àquela condição de infelicidade. Isso aumenta ainda mais a dor de Sinhá, que vê o marido maltratar a filha, por não encontrar outro jeito para a cura. Sinhá tenta ajudar o marido, mas a cada dia que passa consegue menos reconhecê-lo atrás do ódio que o mestre cultiva. Por vezes diz até que vê o diabo em sua face. “Então a velha Sinhá viu o que nunca vira em sua vida: Zeca num pranto de menino apanhado. O soluço rouco do marido era um partir de coração. Parada, ficou olhando para aquilo, enternecida. Ele não podia falar. Só tinha os olhos para exprimirem a dor profunda. Por fim, num esforço medonho: - Sinhá, ela está doida. Não pode chegar-se para perto do marido. (...) Um nojo terrível tomou conta dela. Era como se estivesse pegada a um defunto fedendo.”32 Ainda, ao longo do romance, presenciamos as crises de consciência de Zé Amaro. Tudo em sua vida começa a complicar-se quando recebe a notícia que o coronel Lula de Holanda quer vê-lo. Sem saber ao certo o que o coronel 32 Ibdem, p. 170-171. 106 deseja, mas já prevendo que será algo ruim, Zé Amaro desenvolve sua narrativa. Ao descobrir que terá que deixar sua casa, a história de Zé Amaro entra no seu clímax. A casa representa para ele a lembrança de seu pai, a única coisa que lhe restou de sua história, que ainda o constitui como sujeito. Ao perder tudo: esposa, filha, casa, não lhe resta mais nenhum traço de identidade. Perdido em sua história, em sua vida, a única forma de sublimação para sua dor foi a morte, a única maneira de ainda preservar um resquício de sua identidade, na memória. “O mestre ia calado, pisando no chão como se estivesse com o corpo quebrado. (...) O mestre parou por debaixo do pé de pitomba. E ali ficou por uma porção de tempo. Tudo estava vazio, o poleiro, o chiqueiro de porcos. Empurrou a porta, e veio lá de dentro um bafo de coisa podre. (...) O mestre não dava uma palavra. (...) Quando foi mais tarde ouviu uma coisa como de choro. Não quis se levantar, mas acertou bem os ouvidos. Era o Mestre José Amaro chorando. Deu-lhe um nó na garganta e também chorou. De madrugada saiu para tomar a fresca da aurora. Andou pela beira do rio e lá para as seis horas voltou para ver o mestre. Entrou de sala adentro e viu a coisa mais triste desse mundo. O mestre estava caído, perto da tenda, com a faca de cortar sola enterrada no peito.”33 Em certos momentos da narrativa, o narrador nos mostra através da descrição dos lugares e das situações, as características de José Amaro. Nesse momento da morte do mestre, podemos observar que seu ambiente familiar degradava-se junto com ele. A casa cheirava a podre, o 33 Ibdem, p.401-402. 107 seleiro estava calado, não tinha mais voz, nem identidade. Morreu com o instrumento que também lhe deu direito à vida, a faca que usava para trabalhar. Trabalho que, por um lado, concedeu-lhe sua identidade, e que, por outro, não satisfez suas ambições. 5.3 - Segunda parte – O engenho de Seu Lula No início da segunda parte do romance, temos uma regressão temporal. O narrador retorna a 1850 para contar a fundação do engenho Santa Fé, pelo Capitão Tomás Cabral de Melo. Mudando-se para a região antes de 1848, o capitão compra as terras e funda o engenho que acaba por fazer prosperar. Casa sua filha Amélia com Lula de Holanda, seu primo, que pouco interesse ou aptidão tem para dirigir o engenho. dirigir Adoentado, seus deixa negócios. sua Após mulher, sua D. morte, Mariquinha, Lula entra em disputa com a sogra e acaba por tomar-lhe as terras e o poder. Castigando os escravos com requintes de crueldade, andando com seu cabriolé por todos os lados, Seu Lula vai se afastando cada vez mais do povo do Pilar e seu engenho entra em total decadência quando vem a Abolição e seus escravos debandam. Autoritário, impede os homens de se aproximarem da filha. Epilético, tem um ataque dentro da igreja e passa a se dedicar com fervor à religião. 108 Empobrecido, gasta até as últimas moedas de ouro que lhe deixou o sogro. Sente uma inveja enorme de seu vizinho José Paulino e de seu engenho Santa Rosa. Coronel Lula de Holanda é representante da aristocracia arruinada dos engenhos. Não perdeu o orgulho feudal e despótico, mas o poder econômico. Incapaz, arruína o Santa Fé, que se torna “fogo-morto”, expressão com que se denominam os engenhos paralisados. Não aceitando tais condições, refugia-se em Deus, no amor ao passado, não abandonando suas ambições e vaidades. Humilhado diante da decadência e sofrendo as pressões do cangaço, acaba se confinando progresso. em total Sublima isolamento. seu Simboliza orgulho em um a recusa ao misticismo supersticioso. “A figura de Seu Lula continuava, para a crendice do povo, como de homem, marcado pelo demônio. Viam a piedade, a cara de tristeza, a cabeça baixa do senhor de engenho, quando se levantava para a mesa da comunhão, tudo não passava de artimanha. De solércia, de hipocrisia. Lá dentro de seu coração estava à peçonha venenosa, o ódio contra todos os homens.”34 Lula de Holanda e José Amaro compartilham um ponto em comum: os dois se degradam, individual e socialmente. Desde apresenta o início nenhuma de sua história, característica o heróica. coronel Por não vezes demonstra aspectos de vilania, mas logo mostra que seu 34 Ibdem, p. 109 personagem é fraco, que nunca poderia ser um vilão real. As atitudes mais brutas e desaprováveis de Lula de Holanda vem acompanhadas, ao longo do texto, com sua descrição de fracasso e epilepsia. “Não era um senhor de engenho. O carro parou na porta, e a lua iluminava os números do portão: 1850. Era a força do Capitão Thomas. 1850. Tempo de fartura, de força. Entraram, e o cheiro de mofo da sala de visitas era como um bafo de morte. O piano, os tapetes, os quadros na parede, o retrato de olhar triste de seu pai. O capitão Lula de Holanda pegou no braço da cadeira, e a sua vista escureceu, um frio de morte varou-lhe o coração. Caiu no chão, estrebuchando. A mulher e a filha pararam estarrecidas perto dele, que batia com uma fúria terrível. Era o ataque.”35 Na ficção, o vilão tem como principal característica o mal que ele exerce sobre os heróis. Ele cumpre seu papel de antagonista às forças do bem. Geralmente apresenta-se como uma figura ardilosa, que utiliza suas habilidades com o intuito de prejudicar o outro ou conseguir algo que deseja de forma escusa. Muitas vezes utiliza-se de planos, que são aplicados ao longo da trama, a fim de prejudicar o protagonista. Percebemos que, mesmo que o coronel tente de alguma forma prejudicar as pessoas - principalmente José Amaro, que se constitui como um dos personagens principais – ele se mostra fraco e desarticulado, o que não o enquadra nas características vilanescas. O Coronel Lula de Holanda é mais um coitado que um vilão. 35 Ibdem, p.266. 110 Vimos anteriormente que Fogo Morto, como um romance modernista, não apresenta heróis épicos. Sua formação comporta anti-heróis, que refletem a mais pura condição humana. Em vista disto, não encontramos vilões ao longo do texto. Dentre os três personagens principais, o coronel Lula de Holanda é o que mais se aproxima dos caracteres da vilania, contudo suas maldades não são o bastante pra classificá-lo dessa forma. Esta não é formada somente de ações perversas e desaprováveis, ainda assim o personagem deve ser imbuído de uma força – que por vezes desperta até o carisma entre os leitores – para ser consagrado com o titulo de vilão. O coronel é vazio dessa força. Não pode ser herói pela sua conduta desaprovável e também não se encaixa na roupa de vilão por falta de força interior. Lula de Holanda poderia ser classificado como anti-vilão, em oposição aos anti-heróis José Amaro e Vitorino. Aqui a dor apresenta-se na angústia do vazio de Lula. O homem não conseguiu ser nem senhor de engenho, nem bom marido, nem bom pai e nem um homem ameaçador, a não ser pelo seu fracasso. O conceito do belo é completamente destruído ao longo da descrição de Lula de Holanda. No início do capítulo ele é visto pelo capitão Tomás Cabral de Melo como um homem bonito e requintado, completamente capaz de fazer sua filha Amélia feliz. 111 “Não queria para Amélia um marido assim como Tomás, homem que só tinha corpo e alma para o trabalho. Homem devia ser mais alguma coisa para melhor do que era Tomás.” (...) “Era um rapaz cerimonioso, de boa aparência, trato fino. Chamou-o logo de Lula, e quis que fosse tratado em sua casa como filho. (...) O primo Lula tinha aquela barba negra de estampa, de olhos azuis, o ar tristonho, e fala mansa.”36 Após o casamento de Lula e Amélia, o capitão começa a desconstruir a imagem que antes tinha do genro. Lula de Holanda não parece ter a força e a vontade que deveria para gerir o engenho do Santa Fé. “- Olha, Tomás, este teu genro sabe onde tem as ventas. O diabo era ele não tomar gosto pelo engenho. O que seria do Santa Fé sem ele, sem o tino do velho Tomás que lhe conhecia as entranhas da terra, que lhe dera nome, que o criara do nada? E começou o capitão a sofrer pelo futuro do Santa Fé. Ele sabia o que era uma propriedade sem senhor de fibra, tomando conta de tudo.”37 Com a morte de Tomás de Melo, Lula demonstra sua real problemática, quando entra em conflito com a sogra e começa a maltratar os escravos. Sua aparência bela é degradada pelas suas atitudes. O rompimento com os preceitos éticos desconstrói a estética atribuída ao personagem. “A morte do capitão deu briga séria do genro com a sogra. Seu Lula fez exigências no inventário. Reclamou o dinheiro do ouro, quis botar advogado para obrigar a sogra a dizer ao juiz o que tinha guardado o capitão, em moedas antigas. A mulher enfureceu-se com o marido. Ali não devia haver divergências de espécie alguma. Seu Lula, porém, terminou dominando36 37 Ibdem, pg. 215, 218, 219. Ibdem, pg. 229. 112 a. (...) Nos dias de domingo o cabriolé saía com seu Lula e a mulher para a missa do Pilar. Olhava-se para ele como para um ambicioso. Viera para se casar com o dinheiro do capitão, queria roubar a viúva. Era um infeliz.”38 Lula de Holanda não se transformou em um homem mau, simplesmente fez transparecer sua real essência. Não era maldade o que fazia com a sogra e a esposa, Lula queria de alguma forma transformar-se no verdadeiro capitão que um dia almejou ser. Sua consciência o atormentava, a dor da impotência o rasgava a alma, o que o fazia ter atitudes imprudentes e desmedidas com as pessoas e o engenho. “Seu Lula parecia humilhado. (...) Veio-lhe então a lembrança do pai, noites e dias no meio das matas de Jacuípe, vivendo como um animal, assassinado, por fim, como um bandido perigoso. Morrera, pelo chefe Nunes Machado. Então seu Lula, naquele ermo sertão, por debaixo do umbuzeiro, com os negros e o sogro deitados na mesma terra, viu que não era nada, que força nenhuma tinha para ser como fora o pai, Antonio Chacon. O que ele fora até ali?”39 Para fugir de sua dor, o capitão preocupava-se em aparentar o que não era, e agarrava-se a uma rotina que lhe parecia confortadora. Todos os domingos, ele passava na companhia da esposa e filha, com seu cabriolé – objeto de luxo para a cidade – pelo Pilar em direção a igreja, onde se mostrava estruturada. 38 39 Ibdem, pg. 243. Ibdem, pg. 235. um homem religioso, rico e de família 113 Sua filha, Neném, era sua maior riqueza, e a única que ainda o admirava. Temeroso da solidão total, Lula se apoderou do amor da filha e a fez prisioneira de seus caprichos. Logo, castrando todos os desejos de Neném, a fez minguar, como o engenho do Santa Fé e todos que ali moravam. Com a morte da sogra e a Abolição, os escravos foram embora, e as terras do engenho produziam cada vez menos. Sua falsa imagem não se promoveu como sublimação à dor insuportável que sentia. Sua vida definhava como a produção da cana. A epilepsia que o atacou, fez o capitão se afastar da sociedade e Lula se apegou ainda mais a sua casa e a religião. Todos da casa isolaram-se de si mesmo e do mundo, a única que encarava a verdade era D. Amélia. Sua irmã Olívia enlouquecera, antes mesmo da decadência; sua filha e marido criaram mundos pra si próprios como uma forma de apagar a verdade. “Felizmente que aqueles dias de Lula furioso dentro da casa, aos gritos, como tigre, haviam passado. A paz que reinava ali dentro de casa era uma tristeza, mas, muito melhor assim que com os sobressaltos dos outros tempos, com a peitica do marido, atormentando a filha, descobrindo namorados, inventando fugidas. Tudo havia passado. Tudo era agora aquela mansidão, a pobreza de uma casa-grande que se escondia das vistas dos outros. Sim, todos ali viviam a se esconder dos ricos e dos pobres. E ela mesma é quem mais força fazia para que vivessem longe de tudo. Lula era como se não soubesse das dificuldades por que passavam. Só ela tinha os olhos para ver o Santa Fé como estava, na petição de miséria em que vivia. Lula, naquela devoção, no seu rezar, era como um homem de outro 114 mundo, fora de tudo que fosse da terra, indiferente ao seu tempo. (...) Mas ela via tudo, sentia tudo. Todos os pedaços de miséria que a família sofria, era ela quem mais sofria. Todos em sua casa pareciam de um mundo que não era o seu.”40 A personagem Amélia, que fazia papel de coadjuvante no início do capítulo, toma agora dimensões importantes e torna-se (anti-) herói em oposição a Lula, fracassado em sua condição de herói e vilão, fadado ao vazio de sua dor existencial. D. Amélia não encontra formas de sublimar sua dor, mas a vive e a ameniza na função de única capaz de cuidar da família. Como sua própria estrutura, dividida em partes, Fogo Morto está o tempo todo intercalando a função e a importância de seus personagens. 5.4 - Terceira parte – O capitão Vitorino Com Capitão Vitorino da Cunha, personagem central da terceira parte do romance, fecha-se o ciclo dos engenhos, que vai da fartura ao fogo morto. A história de Vitorino contrapõe-se à individualidade angustiada de José Amaro e ao despotismo do senhor de engenho Lula de Holanda. É de sua boca ferina e consciente, aliás, que sai a pergunta emblemática que mede o grau de transformação pela qual passaram na época as regiões, cuja economia dependia dos 40 Ibdem, pg. 287. 115 engenhos de cana de açúcar. “– E o Santa Fé quando bota, Passarinho? – Capitão, não bota mais, está de fogo morto”41. Este é o retrato que Vitorino nos mostra, do tempo implacável que deteriora tudo e todos. Nesta terceira e última parte do romance predomina a ação. O capitão Antônio Silvino invade a cidade do Pilar, saqueia as casas e lojas. Invade o engenho Santa Fé, ameaça os moradores em busca do ouro escondido. Tentando defender o engenho, Vitorino é agredido e só a intervenção de José Paulino faz com que os cangaceiros desistam. Vitorino apanha também da polícia, José Amaro e seus companheiros são presos e agredidos. No final, após serem libertados, Vitorino e o mestre José Amaro seguem rumos diferentes. O primeiro pensa em segundo, abandonado influir pela politicamente mulher, com a na região. filha louca O e expulso de sua casa, acaba por cometer o suicídio. Considerado por muitos uma espécie de Quixote sertanejo, aprisionado em um mundo de ilusões, o capitão Vitorino da Cunha vai muito além deste contorno simplista. Sua luta em favor dos humilhados e ofendidos, ainda que insensata, está longe de ser um sonho, um simples devaneio, consiste-se, sobretudo, como resultado da realidade brutal que o rodeia e uma necessidade premente, da qual ele se ocupa sem vergonha. 41 Ibdem, p.403. 116 No lombo de sua burra, o Capitão sai pelos engenhos de açúcar a insurgir-se contra a prepotência dos senhores rurais, a ousadia da polícia e a crueldade dos cangaceiros. À sua volta, porém, depara-se com a ignorância, a penúria, a incompreensão e a zombaria. Seu método firma-se numa ironia estóica e na oportuna consciência de que na vida, e em especial nas regiões inóspitas como o sertão nordestino, tudo se transforma para um fim irremediável. Antes de mais nada, para Vitorino importa conquistar a liberdade de agir e falar, conforme o que é justo e melhor para o homem. Mesmo que não se alcance nenhum efeito decisivo, houve, contudo, um ganho em grandeza humana. A pícaro, figura aquele de Vitorino dotado de da Cunha humor e representa lirismo. o herói Idealista e sonhador, ele lembra os cavaleiros andantes da Idade Média, em sua errância pelos sertões, sem uma ocupação definida, em luta quixotesca contra as injustiças sociais. É o eterno oposicionista, simplório, que aceita todas as lutas, sempre ao lado dos mais fracos. Sua personalidade é composta por um misto de plebeu e aristocrata. Seu parentesco distante com o Coronel José Paulino autorizou a que se outorgasse o título de Capitão. Poderíamos considerá-lo como um representante das camadas médias que começam a surgir. Montado em seu cavalo velho, vestido de terno surrado e com aparência sisuda e louca, Vitorino não aceita as 117 perseguições e amo1ações dos moleques, que o apelidam de “Papa-rabo”. “Vitorino falou para o homem num tom agressivo: — Tenente, por aqui é que o senhor não encontra o bandido. Era por aqui que andava o major Jesuíno, atrás dos cangaceiros, e nunca disparou um tiro. — Não estou pedindo sua opinião, velho. — Sou o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha. - Não estou perguntando o seu nome. - Mas eu lhe digo. - Então passe de largo e siga o seu caminho. - Não me faz favor, tenente. - Cala a boca, velho besta. — Só quando a terra comer, tenente. Vitorino Carneiro da Cunha diz o que sente. — Pois não diz agora. — Quem me empata? O Senhor? Ainda não nasceu este.”42 O Capitão Vitorino, cujas ações se pautam pelo desejo de justiça, irmana-se a José Amaro, mas é radicalmente contra a alternativa oferecida pelo cangaço. É também contra o governo, mas não admite a subversão da lei. Em rigor, é um aventureiro do sonho. Estabelece o elo entre ricos e pobres, fracos e fortes. Para ele, o homem mais valente do mundo é ele mesmo. Não obstante, emprega a valentia apenas no auxílio do próximo. Trata-se de uma paródia muito convincente de Dom Quixote. Por isso, sua figura resulta numa mescla de momentos sublimes com momentos ridículos. Apesar dos percalços, surras e prisões, é a única personagem gloriosa no romance. “Vitorino fechou os olhos, mas estava muito bem acordado com os pensamentos voltados para a vida dos 42 Ibdem, p. 323-324 118 outros. Ele muito tinha que fazer ainda. Ele tinha o Pilar para tomar conta, ele tinha o seu eleitorado, os seus adversários. Tudo isso precisava de seus cuidados, da força do seu braço, de seu tino. Lá se fora o seu compadre José Amaro, o negro Passarinho, o cego Torquato. Todos necessitavam de Vitorino Carneiro da Cunha. Fora à barra do tribunal para arrasta-los da cadeia. (...) Ele era homem que não se entregava aos grandes. (...) As feridas que lhe abriam no corpo nada queriam dizer. Não havia força que pudesse com ele. Os parentes se riam de seus rompantes, de suas franquezas. Eram todos uns pobres ignorantes, verdadeiros bichos que não sabiam onde tinham as ventas.”43 Vitorino Carneiro da Cunha traz no sangue a característica dos anti-heróis de Cervantes. Nele há um irresistível compadre, pendor tenso e à bravata, sóbrio, embora ao contrário eloqüente. de seu Vitorino é radical na ação momentânea - é espalhafatosa, embora bem intencionada capitão -, ainda mas moderado acredita numa no pensamento virada político. política para O ares liberais, ainda crê que o problema central da política é de ordem puramente moral, e põe enorme fé nos poderes da justiça. Neste terceiro capítulo, é mandado para a prisão com seu compadre José Amaro. Os maus tratos sofridos constituem o fundo trágico em que se modulam os perfis definitivos de Zé Amaro e Vitorino Carneiro da Cunha. “Os soldados, sentados por debaixo do tamarineiro, abriram na gargalhada. - O homem é brabo mesmo – disse um . – É verdade, o tenente já foi com ele aos tabefes, mas viu que é um aluado. Os gritos que vinham agora do fundo da cadeia eram um gemido rouco. - Eles matam o velho. 43 Ibdem, p.395-396. 119 - Quem manda ele estar dando guarida a cangaceiro? A agitação de Vitorino não o fazia parar. E quando o juiz saiu para casa, acompanhou-o. Tinha que tomar uma providência. Ele, Vitorino Carneiro da Cunha, não podia se calar. - Doutor, faça para mim o negócio da petição. Preciso tomar uma providência. E na sala do juiz, com a sua letra trêmula, devagar, parando de vez em quando, como se estivesse numa caminhada de léguas, escrevia o capitão Vitorino as palavras que pediam liberdade para os pobres, para o compadre, para o cego, para o negro.”44 Em relação a esta estrutura, não se pode negar que é a presença de Vitorino que lhe assegura a unidade e evita que a narrativa se enfraqueça, que por assim dizer, recomeça três vezes, e articula a mesma em três seções. Fogo Morto, então, se desenvolve em três tempos, sendo José Amaro, o Coronel Lula de Holanda e Vitorino Carneiro da Cunha a tônica de cada uma. A estrutura episódica do romance centra-se nos três protagonistas que se inter-relacionam entre si desfecho. e Os com os demais personagens personagens, principais e juntando-se secundários no são apresentados na exposição do enredo para se desenharem com mais perfeição no decorrer da trama. 5.5 – As mulheres do romance Embora Fogo Morto seja formado por três personagens principais, ao longo do romance, podemos observar que as mulheres também vestem o papel de protagonistas. As filhas 44 Ibdem, p.378-379. 120 de Tomás Cabral interessante de Mello simetria. e José Olívia e Amaro Marta apresentam se entregam uma à loucura, como única forma de sublimação de sua dor, dor essa advinda do convívio com a degradação da vida em sua volta. A loucura as dá o direito de agir como querem e de falar o que querem. “A casa-grande estremeceu com a fúria do coronel Lula de Holanda. Quis falar com a filha e ela estava chorando no quarto. D. Olívia falava como se estivesse respondendo ao capitão Tomás. Aos gritos do seu Lula, ela gritava: - Cala a boca, meu pai. Eu estou costurando a tua mortalha, velho. (...) D. Olívia cantava soturna: ‘Serra, serra, serrador, serra a madeira do Nosso Senhor.’ - Manda esta infeliz se calar, Amélia. - Cala a boca, meu pai. Estou costurando a tua mortalha.”45 A mulher surge como quem sofre as ações desencadeadas desses homens, degradados e que fazem questão de mostrar sua suposta superioridade. As filhas demonstram maior fraqueza e são as que mais sofrem. Neném, filha de Lula de Holanda, não enlouquece, mas permanece fadada a cuidar do pai, pois este a aprisiona, castrando seu desejo de formar uma família. Nada pode prosperar ao lado desses sujeitos infelizes. As mulheres, principais, companheiras constituem-se nas desses verdadeiras personagens heroínas do romance. D. Mariquinha, D. Amélia, Sinhá e Adriana são 45 Ibdem, p.271-272. 121 personagens conscientes de todos os problemas, de toda a degradação. Elas não temem os acontecimentos e tomam suas atitudes baseadas no que acreditam como certo e não por uma convenção. D. Mariquinha briga com o genro, Lula de Holanda, por seus direitos na fazenda; Sinhá abandona o marido, Zé Amaro, por não conseguir mais reconhecê-lo como um homem; enquanto que D. Amélia e Adriana defendem e apóiam seus maridos sempre quando necessário. A força dessas mulheres e sua representação na vida dos homens centrais do romance as concedem um patamar maior do que uma simples coadjuvante. Elas são as responsáveis pelos finais destinados a eles. Um exemplo disso é a morte de Zé Amaro, o único abandonado pela mulher. 5.6 - A ética e a estética em Fogo Morto A teoria estética defendida por Lessing muda de foco quando transposta para a literatura. Lessing pauta suas hipóteses na representação de Laocoonte esculpida em mármore, ou seja, na escultura como forma de arte. No campo da literatura os valores da representação mudam. A dor que podíamos ver claramente no rosto e corpo da escultura, como mímeses da realidade, nos é oferecida de formas diferentes. Os valores estéticos, tanto discutidos por Lessing, como o 122 belo, permanecem os mesmos, mas agora representados de outra forma. Os valores do belo estão aqui ligados às formas de concepção da ética, antes discutidas por nós. De acordo com o ideal aristotélico, o herói literário aproxima-se muito ao dos textos medievais ou ao da primeira fase romântica brasileira. O homem deveria ser virtuoso, isento de conflitos internos, pois era sua força e inteligência o que o tornava belo. Com a aparição do Realismo e das correntes literárias que vieram após, principalmente o Modernismo, os autores começaram a pensar o homem como ser complexo, o que não alimentava mais o ideal de Aristóteles. Na arte moderna o belo não perde seu lugar de importância, mas sua definição abrange outras acepções. Lessing fala do feio como algo que pode ser feito na arte, simplesmente com o intuito da mímeses, mas que deve ser evitado, pois causa desprazer. O conceito de belo para Lessing abrange tudo que nos causa prazer e deleite, dispensando assim a aparência do “mal”. Contudo, a teoria kantiana defende a estéticos. A visão diferentes critérios subjetividade da de de complexidade beleza e nossos humana prazer. nos Com juízos leva a isso, a tradição filosófica de Kant é a que melhor define o (anti-) herói da modernidade, mergulhado em todos seus conflitos pessoais. 123 O retrato do (anti-) herói moderno nos apresenta imagens de deformações psicológicas. Ao mesmo tempo em que a tristeza e a dor nos causam, em um primeiro momento, desconforto, elas são o estopim que precisamos para uma reflexão mais profunda de nossa existência. O que caracteriza esse sujeito como belo para a modernidade é a sua aproximação com a realidade subjetiva, a clareza de sua complexidade. Nesse momento a ética se entrelaça com a estética, quando a primeira se preocupa com as ações dos indivíduos, e a segunda trata, de acordo com essas ações, do que é aceitável como beleza ou não na manifestação artística e de como é transcrita para a literatura. 124 6 - Conclusão O conceito de estética e a importância do belo para a arte é algo ainda hoje revisitado e discutido por seus realizadores e receptores. A representação estética sempre esteve interligada, de alguma forma, com a idéia de ética, no que concerne ao comportamento humano. O belo e a virtude caminharam de forma paralela – às vezes entrecruzando-se – ao longo de muitos séculos, pautados na visão grega de perfeição. Como teoriza Lessing, até mesmo a dor deve ser representada pela arte de forma agradável. Aprazível será ela, quando aliada à virtude do indivíduo representado. Embora a história tenha narrado a dor de Laocoonte como algo insuportável, ela jamais se tornou monstruosa aos olhos de seus receptores, simplesmente pela sua causa. Laocoonte, que tentava interceptar a entrada do cavalo de madeira na ficando cego sofrido por cidade e de tendo Tróia, seus aconselhar a é castigado filhos mortos. população, por Minerva, Castigo devido a esse algum pressentimento de perigo. Sendo assim, por sua coragem e lealdade, Laocoonte se enche de virtude, o que torna sua dor grandiosa e bela. A representação, pois, no mármore, deveria apresentar sutil. Nenhuma os traços expressão do sofrimento deveria ser de maneira exagerada, o 125 equilíbrio e a sutileza, juntamente com a virtude, previamente conhecida, trariam conforto aos receptores da obra. Essa idéia do ser virtuoso que engrandecia a arte e moldava os heróis perpetuou-se por séculos e foi motivo de discussão e estudo de diversos filósofos. O conceito de virtude foi evoluindo, contribuição desde pioneira de a Grécia Clássica, Aristóteles, até com as a formas assumidas nos dias de hoje. A preocupação com a educação do caráter, central na teoria ética da virtude, desenvolveu-se no Ocidente. Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco, definiu, com precisão, o conceito de virtude, como a disposição voluntária que visa a excelência, a perfeição. Esta, por sua vez, é exigência ainda do equilíbrio associada caráter certo deficiência. para entre Sendo ao que dois assim, justo o meio, indivíduo extremos: nada ou que o não seja, à encontre o excesso e encaixasse a nos parâmetros do belo não poderia ser considerado arte. No entanto, com a evolução das culturas, ocorreram mudanças no entendimento de principalmente da aceitação manifestações, que fizeram entre o domínio beleza no seu diminuir intelectual e a e arte, domínio as massa. altas A de advindo outras fronteiras mímeses, que prescreve a obra como imitação, de maneira a apreender a verdade, excluía inúmeras expressões artísticas que não 126 partiam dessa máxima. Contudo, a busca de novas formas de entendimento levou a uma dessacralização da arte. Acolhemos, então, a teoria de Kant e um novo conceito de ética, no qual nossos juízos estéticos apresentam um fundamento subjetivo, impossibilitando conceitos determinados. Agora, o critério de beleza é intrínseco ao do prazer. A ética dever, o “agir kantiana pauta-se de forma boa”. sobre a noção de A busca e o alcance da felicidade passam pelo reconhecimento do outro, em meio à sociedade. Aliados a isso, observamos também uma evolução do estudo da psicanálise, que inaugurou uma nova forma de ver o homem e seu meio. O sujeito passou a ser visto não mais como uma unidade, mas como um mosaico de personas. Esse “encontro” com virtude. a O essência Homem, humana então, abalou não o poderia conceito da mais ser essencialmente virtuoso ao passo que possui várias faces. Se mais nenhum indivíduo é capaz de ser classificado como o herói dotado deveria somente mudar. O de virtudes, conflito humano o conceito tornou de belo impossível a descrição do equilíbrio e da harmonia. Em meio à isso, a literatura acolheu o conceito de anti-herói, que caracteriza os personagens das obras modernas, mergulhados em conflitos. Dessa forma, a arte passou a ficar mais próxima de nós. Não tínhamos mais 127 Deuses nem cavaleiros medievais, que só nos inspiravam orgulho. Agora, os homens eram nossa real imagem, sofriam de doenças, de dúvidas, eram feios, deformados e tinham seu lado mau. Se o belo deve ser considerado como a verdade da natureza, a modernidade e sua nova forma de ver o homem trazem ao domínio da beleza outros conceitos repugnados pelos clássicos de antes, como por exemplo, a dor, em sua pior forma. O Homem passa pelo sentimento da dor todo o tempo. Sua impossibilidade de se reconhecer múltiplo o leva a uma eterna busca ignorante e incansada pela convivência pacífica na sociedade, ou ao isolamento. Nenhuma de suas escolhas o leva a real felicidade, e o fracasso causa dor, apresentada de inúmeras formas e intensidade. Relacionado a isso, Sartre, movido pela influência da angústia e do vazio espiritual do seu tempo, funda o existencialismo, construído em parte sob os ecos das duas grandes guerras mundiais. Em O Existencialismo é um humanismo, o filósofo descreve o homem como responsável pelas suas ações. Primeiramente tem-se a existência do indivíduo, depois a essência: o homem nasce e só depois se constitui como indivíduo, baseado em seus atos. No entanto, a escolha do sujeito passa pelo reconhecimento do outro. Ele só pode se desenvolver em direção à felicidade se 128 reconhecer que faz parte de uma sociedade e que todos seus atos influenciam as pessoas em sua volta. Em contraponto, a responsabilidade pelos outros priva a liberdade do indivíduo, o que causa angústia e dor. Em Mal-estar na Civilização, Freud mostra o processo civilizatório do Homem como algo castrador das pulsões e desejos. Sendo sujeito múltiplo, o tolhimento de uma de suas partes faz com que o sujeito sofra. Se segue às normas sociais sofre pelo castramento, pela não satisfação de seus desejos, por desejar o que imagina não dever e por não saber como sublimar essa dor. Quebra-se uma norma, padece por não ser o que deveria, por se individualizar ou por culpar-se pela dor do outro. Assim, o Homem será fadado a um sofrimento dilacerante e eterno. Sua única saída é encontrar formas de sublimá-lo, buscar seu totem. Segundo Freud, o homem encontra ao longo de sua vida várias formas de sublimar sua dor. A mais confortável para muitos, ao longo de milênios, é a religião. A divindade é garantia e fundamento de sentido do universo e da existência humana. Deus é o apoio eterno da imutabilidade das leis físicas, do funcionamento perene da maquinaria universal. Se Deus garante a permanência das leis naturais e funda a estabilidade do universo, ele também dota a existência humana de sentido. As leis morais, as direções a serem tomadas na vida, derivam do simples fato de que Deus 129 existe. Daí vem a máxima de Dostoiévski que afirma que se Deus não existisse, tudo seria permitido, pois na sua ausência o sentido da existência e da ética tornar-se-iam questões exclusivas do âmbito humano. E dessa forma, a vida seria certamente mais difícil e dolorida. Para Sartre estamos solitários e entregues à própria sorte, e devemos extrair, por esforço próprio, um sentido para essa existência. Assim surgem outras formas de sublimação. Fora das explicações da existência divina, a maior parte delas pode ser considerada trágica pelos olhos da sociedade, como por exemplo, a morte e a loucura. Em meio a essa indefinição conflituosa do sujeito, de novos valores éticos e do comportamento do Homem perante eles, a beleza na era moderna toma formas diferenciadas. O belo não nos causa prazer, como antes. Agora, tudo o que possa ser representado em arte como a face da verdade da natureza é considerado belo. O prazer é conceitual, ele não vem necessariamente na forma do agradável, mas como algo que nos cause algum tipo de epifania, de inquietação crítica. Não foi a condição humana que mudou. Desde os primórdios da humanidade o sujeito se comporta como tal. O que ocorreu foi a constante transformação em direção à uma nova visão, um novo conceito estipulado, uma nova aceitação do caráter humano. 130 Em vista disso, na literatura temos um elenco de textos intimistas e subjetivos (como os de Dostoiévski, Proust, Joyce, dentre outros) que apresentam a polifonia de seus (anti-) heróis, cada vez mais conflituosos. A subjetividade é a escolha que o escritor faz em sua obra de mostrar e explorar Freqüentemente a a narrativa perspectiva dá-se em da personagem. primeira pessoa, mostrando a voz da consciência do sujeito. O que vemos nessa literatura é o desdobramento de uma voz em muitas outras. O que caracteriza a intersubjetividade é a certeza de que há um múltiplo de caracteres opostos e complementares dentro da consciência de um único indivíduo. E uma das tarefas da literatura subjetiva é a de mostrar como ocorre a coexistência dessas personalidades dentro do sujeito. No Brasil, inauguramos esse gênero com Machado de Assis e suas teorias sobre o sujeito. O autor caracterizase por estar à frente da literatura do seu tempo. Seu jeito peculiar de testemunhar o humano o fez um predecessor na literatura brasileira. Seu legado deu frutos no Modernismo. A partir desse período, nascem inúmeros escritores e obras que fazem do retrato da consciência de seus personagens a arte e a beleza da literatura universalista. Assim, José Lins do Rego, em seu romance Fogo Morto, nos dá a dimensão de um texto intimista e da nova forma de 131 representação da ética e da estética na arte. Seus três personagens principais mostram, cada um, diferentes formas dilacerantes da dor, que convergem naquele engenho e vida falidos. Todos, ao longo do texto, procuram por uma forma de sublimação desse sofrimento e é essa que os distingue ao fim do romance. De acordo com as definições de ética que estudamos, podemos delinear os motivos das angústias dos anti-heróis de Fogo Morto. Os personagens de José Lins do Rego apresentam muitas diferenças do homem virtuoso, pregado por Aristóteles. Zé Amaro e Lula de Holanda não podem se realizar como indivíduos, pois não apresentam força nem vigor, o que os fada à infelicidade, à ruína de suas metas. Já Vitorino da Cunha apresenta um impulsionamento diferente dos dois primeiros. Ele é corajoso e forte, mas seus traços quixotescos e sua loucura não o permitem encaixar-se no ideal aristotélico. Sob a luz de Kant, a condição de sensibilidade, em oposição à racionalidade, insere os personagens em uma determinada conduta ética. Suas angústias e dores nascerão justamente desse conflito entre o racional e o sensível. O “agir bom” os coage, levando-os à castração de seus desejos, o que os faz buscar, a todo momento, um estado de sublimação. 132 Todo desejo é sofrimento. E os personagens de Fogo Morto estão sempre ansiando por algo que não têm, seja riqueza, reconhecimento ou até mesmo paz. Com Zé Amaro podemos observar a efemeridade da satisfação do desejo. O personagem recebeu de herança de seu pai o ofício e a casa, casou-se com uma boa mulher e teve uma filha. Ele poderia viver satisfatoriamente com sua condição, mas o vazio do querer infinito esvaziou de sentido suas conquistas e o fez almejar mais. Da vontade de uma vida simples, surgiram outras e, com essas, o tédio da condição presente. A vontade incessante e impossível de realização plena de José Amaro, como dos outros do romance, causa dor. Alguma forma de fuga se mostra necessária para essa tortura anunciada. Ao dar-se conta de sua responsabilidade com o próximo, José Amaro sofre ainda mais com a loucura de sua filha e a insatisfação de sua mulher. Igualmente, Lula de Holanda preocupa-se em como dar conta desse dever. Enquanto o primeiro não sabe o que fazer, o segundo castra os desejos de suas mulheres (esposa e filha), como forma de castigo e solução para seus recalques. Essa é a imagem que podemos fazer dos estudos de Freud e Birman sobre a fragilidade do sujeito e do desamparo como conseqüência. O Homem entre o desejo e a culpa, eternamente castrado e pressionado por seus instintos, que surgem e se manifestam de diversas maneiras. 133 Como em Dostoiésvki, apresentam-se diversos como inacabados, caracteres. aceitação dessa os homens de Lins polifônicos, Seu inferno se condição plural. A do Rego formados constitui única na de não salvação é atravessar esse infinito inquietante. Com isso podemos compreender que as serpentes de Laocoonte também sufocam os anti-heróis de Fogo Morto. Aqui a dor psicológica apresenta-se transpassa dilacerante e também intensa. Zé à física. Amaro Ela transforma suas feições e passa a ser visto como lobisomem, enquanto que Lula de Holanda sucumbe em convulsões. Vitorino da Cunha parece ser o único a não se sentir degradado. Embora sua aparência seja maltratada, ele mostra viver muito bem com sua loucura. Esta surge em Vitorino como a única forma de sublimação que logrou sucesso, no romance. Seu caráter audaz o faz viver diante de toda a miséria, sem abalar-se e sempre rumo às conquistas, contra as opressões. É o único que mostra querer lutar. O conhecimento é a mola que impulsiona a dor, o desconforto. O saber de sua condição precária assombra a vida dos anti-heróis de Fogo Morto. No Caso de Vitorino da Cunha, certa ignorância da fatalidade dessa precariedade o faz diferente. Sua loucura ou a esperança imortal de uma dignidade não o faz enxergar a realidade como Zé Amaro e Lula de Holanda. O meio torna-se o reflexo do sujeito. Ele 134 está ou não disposto a ver o que o cerca, ou melhor, ele fornece o sentido que o compraz a esse meio. *** A estética de Fogo Morto, assim como a da modernidade, encaminha-nos a nova concepção de beleza. O belo toma seu caráter de epifania, e tudo que nos suscitar reflexão faz parte da experiência estética. O que vale agora é a real imagem do ser humano, mergulhado em sua natural precariedade. O receptor tem como função digerir toda dor, angústia e sentimento presentes na obra, e transformar em produto de sua individualidade, como experiência estética. Devemos deglutir o estranho e transformá-lo em produto nosso, como prescreve Oswald de Andrade em seu manifesto antropófago. Talvez o auto-conhecimento, a sublimação individual, passe pelo cuidado em filtrar o novo. Reconhecer esse processo é também dar-se conta que somos feitos de “plural”, e que esse “diverso” é envolto e costurado pela nossa essência. O conhecimento da ética funciona como o primeiro passo para o delineamento dos personagens e da arte, de sua condição subjetiva. As concepções de estética vêem dar o aval para ética. A a dor representação é somente a do indivíduo conseqüência co-movido desses pela diversos 135 conceitos postulados pela sociedade, e sublimação, a certeza de que somos múltiplos e, portanto, incapazes de viver sozinhos. 136 7 – Bibliografia ADORNO, Theodor W. La dialectique de la raison: fragments philosophiques. Paris : Gallimard, 1983. _________________. Indústria Cultural e Sociedade. Paz e Terra, 2002. _________________. Teoria Estética. Portugal: Edições 70, 2008. ALMEIDA, José Américo de. Gilberto Freyre: sua Ciência, sua Filosofia, sua Arte. Ensaios sobre o autor de Casa Grande e Senzala. Publicação comemorativa. Rio de Janeiro, 1962. ANDRADE, Mário de. Aspectos da Literatura Brasileira. São Paulo: Livraria Martins Editora. ANDRADE, Oswald de. Revista de antropofagia. São Paulo: 1º de maio de 1928, no 1. ARBAN, Dominique. Dostoievski. Rio de Janeiro: Olympio, 1989. ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. Brasília: UnB, 1992. José 137 ARRIGUCCI, Davi Jr. O cacto e as ruínas. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1997. ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Record, 2002. ________________. Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo, Editora Moderna, 1997. ________________. Quincas Borba. São Paulo: FTD, 1992. ________________. “O Espelho”. In: Contos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. AUGÉ, Marc. Não-Lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas: Papirus, 1994. Tradução: Maria Lúcia Pereira. BAKHTIN, Mikhail. Problemas da Poética de Dostoievski. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1981. ________________. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de Paulo: Editora Hucitec, 2008. François de Rabelais. São 138 BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 1997. BATAILLE, Georges. A literatura e o mal. Porto Alegre: L&PM, 1989. BAUDELAIRE, Charles. Sobre a Modernidade. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1996. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1989. ________________. Magia e Técnica, Arte e Política: Obras Escolhidas: volume 1. São Paulo: Editora Brasiliense, 1996. ________________. O Conceito de Crítica de Arte no Rio de Romantismo Alemão. São Paulo: Iluminuras, 2002. BERDIAEFF, Nicolai. O Espírito Janeiro: Editora Panamericana. de Dostoievski. 139 BERMAN, Marshal. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1986. BIRMAN, Joel. Mal-estar na Atualidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. _____________. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994. _____________. Literatura e Resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. _____________. Cultura Brasileira. São Paulo: Editora Ática, 2004. CANDIDO, Antonio. “Literatura e Subdesenvolvimento”. In: RETAMAR, César Fernández (org.) América Latina em sua literatura. São Paulo: Perspectiva, 1979. _______________. A Educação pela Noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1989. 140 ________________. Iniciação à Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004. ________________. Literatura e Sociedade. São Paulo: PubliFolha. ________________. Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades, 2004. CARVALHAL, Tânia Franco. Literatura Comparada. São Paulo: Editora Ática, Série Princípios, 1992. CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998. COHEN-SOLAL, Annie. Sartre: 1905-1980. Porto Alegre: L&PM, 1986. DOSTOIEVSKI, Fiodor. Crime e Castigo. São Paulo: Editora 34, 2002. ____________________. O Duplo. Portugal: Presença, 2003. 141 ____________________. Os Demônios. São Paulo: Editora 34, 2004. EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: uma introdução. São Paulo: Martins Fontes, 1997. FAUSTO, Boris. História concisa do Brasil. São Paulo: Editora da USP, Imprensa Oficial do Estado, 2001. FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso (Aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970). São Paulo: Edições Loyola, 2003. FREUD, Sigmund. Obras Completas. Madrid: Biblioteca Nueva, 1948. ______________. Totem et Tabou. Paris: Éditions Payot, 1980. FREYRE, Gilberto. Casa grande e senzala. Rio de Janeiro: Record, 1996. GOFFMAN, Erving. Estigma: Notas sobre a manipulação identidade deteriorada. Petrópolis: Vozes, 1975. da 142 ________________. “A elaboração da face”. In: FIGUEIRA, S. (org.) Psicanálise e Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1980. GRAMSCI, Antonio. Literatura e vida nacional. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. ________________.Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004. GROSSMAN, Léonide. Dostoïevski. Moscou: Editions du Progrès, 1970. HALL, Stuart. A identidade Cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2005. Tradução: Tomaz Tadeu da Silva & Guaracira Lopes Louro. HEGEL, G. W. F. Estética. Lisboa: Guimarães Edidores, 1964. HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956. HOUAISS, Antônio. Dicionário eletrônico da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Instituto Antônio Houaiss. 143 KANT, Immanuel. Crítica da Razão Prática. Lisboa: Edições 70, 1986. ______________. Critique de la faculté de juger. Paris: J. Vrin. _______________. Critique de la raison pure. Paris: PUF, 1980. _______________. Observações sobre o sentimento do belo e do sublime. São Paulo: Papirus, 1993. _______________. Fundamentos da metafísica dos costumes. São Paulo: Martin Claret, 2003. KIERKEGAARD, Sören. Etapes sur le chemin de la vie. Paris: Gallimard, 1948. __________________. Ou Bien... Ou Bien. Paris: Robert Laffont, 1997. __________________.O desespero humano. São Paulo: Martin Claret, 2001. 144 __________________. Desespero - A Doença Mortal. Res Editora, 2003. __________________. O conceito de angústia. São Paulo: Hemus, 2007. LESSING, Gotthold Ephraim. Laocoonte ou sobre as fronteiras da pintura e da poesia. São Paulo: Iluminuras, 1998. LIMA, Rogério. “Perto da máquina: a nova sensibilidade estética no final do século XX” In: COUTINHO, Luiz Edmundo Bouças (org.) Arte e Ofício: manobras de fim-de-século. Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura, 2002. LINS, Ronaldo Lima. Encontros com a civilização brasileira. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1978. __________________. A indiferença pós-moderna. Rio de destruição do Janeiro: Editora UFRJ, 2006. ____________________. A construção e a conhecimento. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009. 145 LÖWY, Michael. Redenção e utopia. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. LUKÁCS, Georges. Philosophie de l’Art - 1912-1914. França: Klincksieck, 1981. _________________. L’âme et les formes. Paris: Gallimard, 1974. _________________. Teoria do Romance. São Paulo: Editora 34, 2000. MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. Rio de Janeiro: Garamond, 2001. MAQUIAVEL. O Príncipe. São Paulo: Editora Martin Claret, 2004. MALLARMÉ, Stéphane. Ouvres Completes. Paris: Gallimard, 1974. MALRAUX, André. A Condição Humana. São Paulo: Record, 1998. ______________. O Museu Imaginário. Portugal: Edições 70, 2000. 146 MICHELET, Jules. Renaissance et Réforme. Paris: Robert Laffont, 1982. MOISÉS, Massaud. Guia Prático de Análise Literária. São Paulo: Cultrix, 1970. NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. São Paulo: Mal. Martin Companhia das Letras, 1998. _____________________. Além do Bem e o do Claret, 2002. _____________________. Além do Bem e do Mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. _____________________. Assim Falava Zaratustra. São Paulo: Vozes, 2008. NOGUEIRA, Hamilton. Dostoievski. Rio de Janeiro: José Olympio Editora & MEC, 1974. NOLL, João Gilberto. O Quieto Animal da Esquina. São Paulo: Francis, 2003. 147 ____________________. Mínimos, Múltiplos, Comuns. São Paulo: Francis, 2003. ___________________. Hotel Atlântico. São Paulo: Francis, 2004. ___________________. A Fúria do Corpo. São Paulo: Record, 2008. ONOFRE, José. “Literatura e Resistência”. In: Revista Bravo!, Ano VI, n 66, São Paulo, março de 2003. PADOVANI, Humberto & CASTAGNOLA, Luís. História da Filosofia. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1954. PESSOA, Fernando. Fernando Pessoa – Antologia Poética. TUTIKIAN, Jane (org.). Porto Alegre: Leitura XXI, 2006. PONDÉ, Luis Felipe. Crítica e Profecia. São Paulo: Editora 34, 2003. PROUST, Marcel. Autour de soixante lettres de Marcel Proust par Lucien Daudet. Paris: Gallimard, 1929. 148 ______________. Contre Sainte-Beuve suivi de nouveaux mélanges. Paris: Gallimard, 1929. REGO, José Lins do. Fogo Morto. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003. ____________________. Usina. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956. ____________________. Menino de Engenho. Rio de Janeiro: José Olympio, 1965. ____________________. Bangüê. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980. ____________________. Doidinho. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980. ____________________. Histórias da Velha Totônia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. ROMANO, Luís Antônio Contatori. A passagem de Sartre e Simone de Beauvoir pelo Mercado de Letras, 2002. Brasil em 1960. Campinas, SP: 149 SARTRE. Jean-Paul. L’âge de raison. Paris: Gallimard, 1972. _________________. La responsabilité de l’écrivain. Paris: Vedier/Philosophique, 1998. _________________. A Náusea. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. _________________. O Existencialismo é um Humanismo. Portugal: Bertrand, 2004. _________________. Diário de uma Guerra Estranha: novembro 1939, março de 1940. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. _________________. Esboço para uma Teoria das Emoções. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2006. SCHILLER, Friedrich. A educação estética do homem. São Paulo: Illuminuras, 1995. SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como Vontade e Representação. Rio de Janeiro: Ed. Ouro, 1966. 150 ____________________. Da Sofrimento São do Mundo. morte/ Paulo: Metafísica Editora do amor/ Martin Do Claret, 2004. SCHWARZ, Roberto. Ao Vencedor as Batatas. São Paulo: Duas Cidades Editora, 2000. SILVA, Regina Céli Alves da Silva. “Vampiros que comem imagens. Cinema e literatura, em João Gilberto Noll”. In: COUTINHO, Luiz Edmundo Bouças (org.) Arte e Ofício: manobras de fim-de-século. Rio de Janeiro: Programa de PósGraduação em Ciência da Literatura, 2002. SODRÉ, Nelson Werneck. Síntese da história da cultura brasileira. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. SOUSA, Edson Luiz André de. Psicanálise e Colonização: Leituras do sintoma social no Brasil. (org.) Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1999. VIANNA, Luiz Werneck. “Caminhos e descaminhos da revolução passiva à brasileira”. In: A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil. Rio de Janeiro: Revan, 1997.