GRUPO DE APOIO A MULHERES QUE VIVEM UMA RELAÇÃO CONJUGAL VIOLENTA: UMA EXPERIÊNCIA Maira Mendes dos Santos(1) Esp. Ana Lúcia Maropo Profa. Msc. Denise Machado Duran Gutierrez Profa. Msc. Kátia Lenz César de Oliveira Departamento de Psicologia RESUMO: O “grupo de apoio a mulheres que vivem uma relação conjugal violenta”, foi um projeto de extensão da Universidade Federal do Amazonas – UFAM entre 2003 e 2004. Teve como objetivo, construir um espaço em que as mulheres pudessem compartilhar suas dificuldades para a conscientização da dimensão social e política de suas vidas particulares, incentivar o apoio mútuo e permitir a construção conjunta de novos sentidos e práticas de enfrentamento às problemáticas de cada participante. Os encontros semanais, com duração de 2 horas, se deram no prédio anexo à Delegacia da Mulher de Manaus. Tratou-se de um grupo aberto, desenvolvendo-se em 52 encontros, que tiveram entre 1 a 7 participantes, sendo que, no último ano, o número de participantes foi decaindo. Essa queda na participação é entendida por nós como fruto do estabelecimento e ampliação de outros trabalhos de atendimento psicológico da delegacia, nos moldes de atendimento individual (inicialmente, apenas como acolhimento específico antes, durante ou depois da entrada no grupo), de plantão psicológico e terapia de casais. Durante o processo, o grupo foi ganhando outro caráter: tornou-se um apoio às mulheres, que se submetiam aos outros atendimentos e que tinham condições de vir mais vezes à Delegacia. Os atendimentos individuais ou de casais lhes permitiam mais sigilo e condições para vencer a timidez, enquanto o grupo possuía a vantagem de fazê-las conversar entre si e poder tomar o caso de outras como um exemplo positivo ou negativo, permitindo-lhes, assim, ampliar a visão que tinham sobre suas vidas. Aproximadamente, 2/3 das participantes só compareceram ao grupo uma vez, outras compuseram o grupo entre 2 a 16 vezes. As estratégias de coordenação dos encontros foram se modificando ao longo da experiência. De forma geral, tentávamos assumir uma vertente psicossocial como norteadora das intervenções, sendo que os temas da organização social de gênero e dos direitos humanos tiveram um foco de atenção privilegiado, através de filmes e discussões específicas. De fato, o estilo inicial principal das intervenções girou em torno da atenção individual a cada participante, de forma a analisar seus conflitos intrapsíquicos, na medida em que duas das coordenadoras se ancoravam majoritariamente na psicanálise e, por vezes, também, da perspectiva sistêmica. As principais interpretações nossas foram no sentido de apontar os principais medos das mulheres: abandono, desamparo e solidão e de analisar as relações de sustentação entre o comportamento / expectativas das mulheres e a agressão e desrespeito dos parceiros. Paralelamente, procurávamos, também, fortalecer as mulheres no sentido de desenvolver auto-imagens mais valorizadas, abrindo o caminho para pensarmos, conjuntamente, em novas possibilidades de entender e responder à violência. Víamos, evidentemente, que muitas mulheres cresciam em seu conhecimento pessoal através destas intervenções, tanto é que voltavam, contando mudanças comportamentais importantes, mas pelo fato do grupo ser aberto, essa metodologia nos impunha a dar mais atenção às novas participantes que chegavam ou a focar a atenção só em uma participante, tornando as discussões muito direcionadas e/ou, o que é pior: recheadas de narrativas de fracasso; o que nem sempre foi ruim, na medida em que havia acolhimento e identificação projetiva das outras com a situação da mulher em foco, mas, por vezes, não ajudava as outras participantes a ressignificar suas vivências. Para enfrentar essas dificuldades, a partir do construcionismo social em que se apoiava, majoritariamente, uma das coordenadoras, passamos a pensar e aplicar técnicas e conceitos que aumentassem o diálogo entre as pessoas do grupo. Um ponto importante foi realizar um momento inicial do encontro para discutir objetivos do projeto e para negociar com as participantes quem fala primeiro, por quanto tempo, sobre uso de vídeos, e de discussões de textos, etc. Nesta direção, também, passamos a interromper, em alguns momentos, as análises individuais sobre cada participante para compor discussões de como as outras descreviam e avaliavam a situação relatada, o que possibilitava a emergência de discussões mais temáticas em que a participação de todas podia se dar de forma mais intensa e ampla. Como exemplo, podemos contar um momento marcante em que passamos ludicamente a “votar” sobre como cada uma achava que devia ser a função da mulher na família. Estávamos construindo um espaço mais sócio-educativo do que propriamente com técnicas terapêuticas tradicionais. Hoje, avaliamos que o grupo teria mais este fim, já que servia como apoio dos atendimentos individuais. Um outro aspecto central deste caminho foi desenvolvermos estratégias de des-hierarquização das relações entre coordenadores e participantes e entre as mesmas, em prol da construção constante de conversações dialógicas. Através de desencontros e sobressaltos, as coordenadoras foram assumindo que podem expor valores e sentidos diferentes perante as mulheres, construindo até “diálogos reflexivos” entre elas durante os encontros. Por fim, avaliamos que o grupo aberto teve seu lugar e função, como um trabalho inicial da delegacia da mulher, mas hoje avaliamos que seria mais produtivo um grupo fechado - sem a entrada de novos participantes - para que se potencialize melhor a possibilidade de apoio mútuo, e co-construção dos sentidos. Hoje, também, apostamos mais na importância de organizar os encontros a partir de uma estrutura não rígida de temas a serem discutidos. E-mail: ká[email protected] ________________________________________ (1) Acadêmica de Psicologia