Saber Viver P R O F I SS I O N A L D E SA Ú D E nº 9 • Junho 2007 Cuidando das crianças que vivem com HIV/aids Contribuições para uma assistência integral e de qualidade Crianças vivendo com HIV/aids Saber Viver Profissional de Saúde 9ª Edição – Junho 2007 Correspondências à redação: C. Postal 15.088 – Rio de Janeiro (RJ) Cep 20.031-971 Coordenação, edição e reportagem: Adriana Gomez e Silvia Chalub Secretária de redação: Ana Lúcia da Silva Consultora lingüística: Leonor Werneck Reportagem: Flávio Guilherme, Liliana de La Torre e Tatiana Vieira da Silva. Fotos: www.swc.hu Colaborou nesta edição: Eliana Galano, psicóloga do Centro de Referência da Infância e Adolescência (Criad) da Coordenação Estadual de DST/Aids de São Paulo; Elizabete Franco, psicóloga e coordenadora do Projeto Viver Criança e Adolescente da ONG Grupo de Incentivo à Vida (GIV), de São Paulo; Marcos Tosoli, professor do Programa de Mestrado da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro; Maria Letícia Santos Cruz, pediatra e infectologista do Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro; Norma Rubini, imunologista do Hospital Universitário Gaffrée Guinle, no Rio de Janeiro; Patrícia Diez Rios, advogada da ONG Pela Vidda Niterói Pilar Lecussán, médica do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, em São Paulo; Sidnei Pimentel, infectologista do Centro de Referência da Infância e Adolescência (Criad) da Coordenação Estadual de DST/Aids de São Paulo; Silvia Guasti, médica e coordenadora do ambulatório de pediatria do Hospital Municipal Carlos Tortely, em Niterói - RJ; Virgínia Morais, assistente social do Projeto Criança = Vida, desenvolvido pela ONG Pela Vidda Niterói na pediatria do Hospital Municipal Carlos Tortely. s iniciativas do Programa Nacional de DST e Aids para reduzir a transmissão vertical do HIV, apesar de terem alcançado bons resultados nos últimos anos, ainda estão longe de solucionar o problema. Levando em conta, ainda, o crescimento da expectativa de vida dos que nasceram infectados pelo HIV na última década, não é de se estranhar que o número de crianças com HIV/aids que freqüentam regularmente as unidades de saúde seja grande. As demandas específicas desse grupo, no entanto, continuam sendo motivo de muita inquietação entre os profissionais de saúde. O dinamismo da pesquisa terapêutica na área faz com que as atualizações necessitem ser cada vez mais constantes. Não só no que diz respeito às novas drogas utilizadas, mas também em relação aos procedimentos mais adequados. Segundo os profissionais que atendem crianças soropositivas, uma das questões mais estressantes de seu trabalho é a revelação diagnóstica. Qual o melhor momento e a melhor forma de fazê-la são temas freqüentes nas discussões de equipe. Outro desafio é saber ouvir, com atenção e sem idéias pré-concebidas, os cuidadores das crianças. Ajudá-los a lidar melhor com a aids é um passo importante para estimular a adesão da criança ao tratamento, um fator complicado. Mais complexo ainda é saber como intervir nas situações de discriminação, violência e abandono. Neste número, a Saber Viver Profissional de Saúde tenta responder essas e outras questões que fazem parte do dia-adia de quem atua na área. Esperamos, assim, poder ajudá-lo em seu trabalho. Boa leitura. A Projeto Gráfico e Arte Final: A 4Mãos Com. e Design Impressão: Gráfica MCE Apoio: SUMÁRIO Acompanhamento clínico e laboratorial - 4 Terapia anti-retroviral - 6 Revelação do diagnóstico e adesão ao tratamento - 10 O que fazer diante de situações de violência e abandono - 13 3 Recém-nascido de mãe infectada pelo HIV Acompanhamento clínico e laboratorial egundo estudo divulgado pelo Ministério da Saúde em 2004, a prevalência de infecção pelo o HIV em parturientes entre 15 e 49 anos de idade, de todas as regiões do Brasil, é de 0,42%. Isso corresponde a uma estimativa de cerca de 13 mil parturientes infectadas num universo de três milhões. Nos últimos anos, a detecção precoce do HIV em gestantes tem recebido um alto investimento por parte do governo, que busca aprimorar suas ações de controle da epidemia e evitar o surgimento de novos casos de aids infantil. S CUIDADOS PARA EVITAR A TRANSMISSÃO DO HIV Para tentar impedir a transmissão do HIV da mãe para filho, os cuidados começam durante o período intra-uterino, quando a gestante soropositiva deve seguir um esquema anti-retroviral adequado para o seu caso. Após o parto, o recém-nascido receberá a quimioprofilaxia com zidovudina – com início, de preferência, entre as duas e oito primeiras horas de vida – até completar seis semanas. No caso da mãe não ter recebido acompanhamento especializado e tratamento anti-retroviral durante a gestação, o início da 4 zidovudina para o recém-nascido deve ser o mais precoce possível. De acordo com as Recomendações para Terapia Anti-Retroviral em Crianças Infectadas pelo HIV publicado pelo Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde, em 2006, não há comprovação do benefício desta quimioprofilaxia, se iniciada após o bebê completar 48 horas de nascido. A indicação, nesse caso, fica a critério do médico. O atendimento das crianças nascidas de mães infectadas pelo HIV é realizado em unidades especializadas até, pelo menos, a definição de seu diagnóstico. O ideal seria que mesmo as crianças não-infectadas fizessem visitas periódicas às unidades especializadas até o final da adolescência, em virtude de terem sido expostas não só ao HIV, mas, também, a drogas antiretrovirais. Essa preocupação reside no fato de não se conhecerem as possíveis repercussões da exposição a tais medicamentos a médio e longo prazo. Infelizmente, esta não é a realidade das unidades de saúde do Brasil. PROCEDIMENTOS AO NASCER Alguns procedimentos especiais com a criança na hora do nascimento quando a mãe é portadora do HIV: • Imediatamente após o parto, lavar o recém-nascido com água e sabão, evitando contato com o sangue materno e procedimentos invasivos. • Aspirar delicadamente, se necessário, as vias aéreas do recém-nascido, evitando traumatismo em mucosas. • Devido à possibilidade de ocorrência de anemia no recém-nascido em uso de zidovudina, recomenda-se a realização de hemograma completo da criança no início do tratamento, e após 6 e 12 semanas. • Assegurar que, ao ter alta da maternidade, o recém-nascido tenha consulta agendada em serviço de referência. • O aleitamento materno é contra-indicado no caso de criança nascida de mãe infectada pelo HIV, pois pode servir como vetor de transmissão do vírus. O fornecimento contínuo de fórmula láctea deverá ser assegurado por no mínimo 12 meses. Segundo a agência Unaids, da ONU, a cada ano, mais de 300.000 crianças no mundo são infectadas pelo HIV depois do nascimento. DIAGNÓSTICO LABORATORIAL O exame de sorologia anti-HIV da criança nascida de mãe soropositiva pode resultar positivo até os 18 meses, pois até essa idade ela possui em seu sangue os anticorpos contra o vírus. Nesse caso, o diagnóstico laboratorial da infecção pelo HIV deve ser realizado através da quantificação do RNA viral (carga viral). Recomendase a realização do primeiro exame com um mês de vida. Em caso de carga viral detectável, o exame deve ser repetido logo em seguida para confirmação do diagnóstico. Caso o resultado seja indetectável, o exame deverá ser repetido aos 4 meses de vida. Permanecendo indetectável, a criança provavelmente não está infectada pelo HIV, mas deverá continuar em seguimento clínico e laboratorial até os 18 meses de vida, quando então deverá ser solicitada a sorologia anti-HIV. CALENDÁRIO VACINAL DA CRIANÇA INFECTADA/EXPOSTA AO HIV IDADE (EM MESES) VACINA (Nº DA DOSE) 0 (RN) (3) (4) Hep B, BCG ID 1 Hep B 2 DTP ou DTPa (5), Hib (6), VIP ou VOP (7), Pnc7 (8), Rtv (9), MenC conj. (10) 4 DTP ou DTPa (5), Hib (6), VIP ou VOP (7), Pnc7(8), MenC conj. (10), infl (11) 6 Hep B, Pnc7 (8), SRC (12), VZ (13), Hep A (14) 7 Infl (11) 12 Hep B, Pnc7 (8), SRC (12), VZ (13), Hep A (14) 15 DTP ou DTPa (5), Hib (6), VIP ou VOP (7), VZ (13) 18 Hep A (14) 24 Pn23 (8) 6 anos DTP ou DTPa (5), VIP ou VOP (7), SRC (12), Pn23 (8) 16 anos DT ou dTpa (15) Vacina contra febre amarela (16); indicada a partir dos 9 meses de acordo com a situação epidemiológica local e condição imunológica do paciente, conforme orientação dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) do Ministério da Saúde. Legenda: Hep B = hepatite B; Hib = Haemophilus influenzae tipo b; DTP = difteria, tétano e pertussis; DTPa = difteria, tétano e pertussis acelular; VIP = vacina injetável contra pólio; VOP = vacina oral contra pólio; Pnc7 = vacina contra pneumococo conjugada 7-valente; Rtv = vacina oral contra rotavirus; Men C conj. = vacina contra meningococo tipo C conjugada; Infl = vacina contra influenza; Hep A = hepatite A; SRC = vacina contra saramp, caxumba e rubéola; VZ = vacina contra Varicella zoster; Pn23 = vacina polissacarídica contra pneumococo 23-valente. Fonte: Recomendações para Terapia Anti-Retroviral em Crianças Infectadas pelo HIV - 2006, do Programa Nacional de DST/Aids. Mais informações em www.aids.gov.br, item documentos e publicações. VACINAÇÃO DE CRIANÇAS NASCIDAS DE MÃES SOROPOSITIVAS PARA O HIV Crianças infectadas pelo HIV são mais suscetíveis a infecções como tuberculose e hepatite B, portanto, as vacinas contra a tuberculose (BCG-ID) e contra o vírus da hepatite B deverão ser dadas logo após o nascimento. Segundo a imunologista do Hospital Universitário Gaffrée Guinle, do Rio de Janeiro, Norma Rubini: “como a definição do diagnóstico da infecção pelo HIV ocorre ao longo do primeiro ano de vida, as crianças com exposição vertical ao HIV devem seguir um calendário de imunizações que inclui as vacinas de rotina, com algumas modificações, e vacinas especiais indicadas para pacientes com imunodepressão”. Para os bebês menores de 1 ano de idade, com suspeita clínica de infecção pelo HIV ou que tenham o diagnóstico definitivo de infecção pelo HIV, recomenda-se não prescrever a vacina Sabin contra a poliomielite. A alternativa é a Salk (elaborada com vírus inativado), que pode ser encontrada em Centros de Referência Imunobiológicos Especiais. Veja os locais, na última página da revista. PROFILAXIA CONTRA O PNEUMOCYSTIS JROVECI A pneumonia por Pneumocystis jroveci (nome atual do patógeno Pneumocystis carinii) é muito comum em crianças com HIV. Ela pode se manifestar rapidamente e causar insuficiência respiratória aguda com alta letalidade, justificando a indicação de profilaxia primária com sulfametoxazol - trimetopin em todas as crianças expostas ao vírus, até que seja definida a não infecção. A faixa etária de maior risco é a compreendida entre os 3 e 6 meses de idade. Em crianças menores de 12 meses, os níveis de células CD4 (contagem dos linfócitos) não são marcadores do risco de pneumocistose. ■ 5 Crianças infectadas pelo HIV Manifestações clínicas e indicação de tratamento progressão da aids em crianças não tratadas com anti-retrovirais pode ser precoce (20% dos lactentes iniciam os sintomas aos 4 meses de idade), ou tardia, com início dos sintomas aos 6 anos. Apesar da progressão da doença estar relacionada, principalmente, a fatores imunológicos e virológicos, a imunologista Norma Rubini observa que “uma vida saudável com boa alimentação, higiene ambiental, assistência médica adequada e ambiente familiar com harmonia e amor certamente contribuem para uma melhor qualidade de vida”. O espectro de manifestações clínicas da aids pediátrica é muito amplo, sendo que grande parte das doenças apresentadas por crianças infectadas pelo HIV são também observadas em crianças saudáveis ou portadoras de outras condições clínicas. Segundo Norma Rubini, os prin- A 6 cipais sintomas e sinais da infecção pelo HIV em crianças são: infecções em vias aéreas superiores de repetição (otites, sinusites), linfadenomegalias generalizadas (vários gânglios volumosos), hepatomegalia (fígado volumoso), esplenomegalia (baço volumoso), hipertrofia de parótidas, atraso no desenvolvimento pondo-estatural, atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, diarréia persistente ou recorrente, febre persistente ou recorrente, candidíase oral, infecções bacterianas graves de repetição (pneumonias, meningite, septicemia), herpes zoster, pneumonia por Pneumocystis jroveci, tuberculose pulmonar, toxoplasmose e infecção pelo citomegalovírus. CASOS DE TUBERCULOSE TÊM AUMENTADO Maria Letícia Santos Cruz, pediatra e infectologista do Hospital dos Servi- dores do Estado, no Rio de Janeiro, ressalta que a tuberculose tem apresentado um importante aumento em crianças infectadas pelo HIV. “Atualmente, na cidade do Rio de Janeiro, o diagnóstico de presença do HIV em adultos se dá principalmente através da tuberculose”, diz a médica, que lembra que os casos de tuberculose em crianças acompanham os casos em adultos. Os pacientes com indicação de uso da rifampicina para o tratamento da tuberculose devem ter a seleção de antiretrovirais compatibilizada com o uso desse medicamento, com o intuito de evitar a ocorrência de interações medicamentosas adversas e falha terapêutica devido à redução dos níveis de inibidores da protease e da nevirapina. Todos os ARVs da classe dos inibidores da transcriptase reversa análogos de nucleosídeos (ITRN) são compatíveis com a rifampicina. Dentre os inibidores da transcriptase reversa não-análogos de nucleosídeos, somente o efavirenz é compatível. Assim sendo, o esquema recomendado é a associação de dois ITRN com o efavirenz. INÍCIO DA TERAPIA ANTI-RETROVIRAL A introdução da terapia anti-retroviral dependerá da evolução clínica e imunológica da criança. O tratamento deve ser individualizado e planejado em conjunto com os responsáveis pelo paciente e, quando possível, também com o próprio paciente. O objetivo é atingir o máximo de adesão ao esquema terapêutico indicado, fator fundamental para o sucesso do tratamento. CLASSIFICAÇÃO DA INFECÇÃO PELO HIV EM CRIANÇAS De acordo com critérios adotados pelo Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde, a observação de parâmetros clínicos e imunológicos define em que fase da infecção pelo HIV a criança se encontra e orienta sobre o momento adequado para o início da terapia antiretroviral. Veja quadros 1, 2 e 3. CLASSIFICAÇÃO DA INFECÇÃO PELO HIV EM CRIANÇAS QUADRO 1. CATEGORIAS CLÍNICAS Categoria N – Assintomática: ausência de sinais e/ou sintomas ou com apenas uma das condições da categoria A. Categoria A – Sinais e/ou sintomas leves: presença de 2 ou mais das condições abaixo, porém sem nenhuma das condições das categorias B e C: • linfadenopatia (>0,5 cm em mais de 2 cadeias diferentes); • hepatomegalia; • esplenomegalia; • parotidite; e • infecções persistentes ou recorrentes de vias aéreas superiores (otite média ou sinusite). Categoria B – Sinais e/ou sintomas moderados: • anemia (Hb < 8g/dl), neutropenia (<1.000/mm3) ou trombocitopenia (<100.000/mm3), por mais de 30 dias; • meningite bacteriana, pneumonia ou sepse; • candidíase oral persistindo por mais de 2 meses; • miocardiopatia; • infecção por citomegalovírus (CMV), antes de 1 mês de vida; • diarréia recorrente ou crônica; • hepatite; • estomatite pelo vírus Herpes simplex (HSV) recorrente (mais do que 2 episódios/ano); • pneumonite ou esofagite por HSV, com início antes de 1 mês de vida; • herpes zoster, com 2 episódios ou mais de um dermátomo; • pneumonia intersticial linfocítica (LIP); • nefropatia; • nocardiose; • febre persistente (> 1 mês); • toxoplasmose antes de 1 mês de vida; e • varicela disseminada ou complicada. Categoria C – Sinais e/ou sintomas graves. Crianças com quaisquer das condições listadas abaixo: • Infecções bacterianas graves, múltiplas ou recorrentes (confirmadas por cultura, 2 episódios em intervalo de 1 ano): septicemia, pneumonia, meningite, infecções osteoarticulares, abscessos de órgãos internos; • candidíase esofágica ou pulmonar; • coccidioidomicose disseminada; • criptococose extrapulmonar; • criptosporidíase ou isosporíase com diarréia (> 1 mês); • CMV em locais além do fígado, baço ou linfonodos, a partir de 1 mês de vida; • encefalopatia pelo HIV (achados que persistem por mais de 2 meses), em razão de: a) déficit do desenvolvimento neuropsicomotor; b) evidência de déficit do crescimento cerebral ou microcefalia adquirida identificada por medidas de perímetro específico ou atrofia cortical mantida em tomografia computadorizada ou ressonância • • • • • • • • • • • • magnética sucessiva de crânio; c) déficit motor simétrico com 2 ou mais dos seguintes achados: paresias, reflexos patológicos ataxia e outros. infecção por HSV, úlceras mucocutâneas com duração maior do que 1 mês ou pneumonite ou esofagite (crianças >1 mês de vida); histoplasmose disseminada; Mycobacterium tuberculosis disseminada ou extrapulmonar; Mycobacterium ou outras espécies disseminadas; Mycobacterium avium ou M. kansasii disseminados; pneumonia por Pneumocystis carinii; salmonelose disseminada recorrente; toxoplasmose cerebral com início após o 1º mês de vida; síndrome da caquexia, manifestada por: a) perda de peso >10% do peso anterior; ou b) queda de dois ou mais percentis nas tabelas de peso para a idade; ou c) peso abaixo do percentil 5, em duas medidas sucessivas; e d) diarréia crônica (duração maior que 30 dias); ou e) febre por 30 dias ou mais, documentada. leucoencefalopatia multifocal progressiva; sarcoma de Kaposi; e linfoma primário do cérebro e outros linfomas. Fonte: Recomendações para Terapia Anti-Retroviral em Crianças Infectadas pelo HIV - 2006, do Programa Nacional de DST/Aids. 7 QUADRO 2. CATEGORIAS IMUNOLÓGICAS (SEGUNDO CLASSIFICAÇÃO RECENTE DA OMS) CLASSIFICAÇÃO DA IMUNODEFICIÊNCIA VALORES DE CD4 POR IDADE 11 MESES (%) 12-35 MESES (%) 36-59 MESES 5 ANOS (CÉLS./MM3) > 500 Não significativa > 35 > 30 > 25 Leve 30-35 25-30 20-25 350-499 Avançada 25-30 20-25 15-20 200-349 Grave < 25 < 20 < 15 < 200 ou < 15% Fonte: Recomendações para Terapia Anti-Retroviral em Crianças Infectadas pelo HIV - 2006, do Programa Nacional de DST/Aids. QUADRO 3. PARÂMETROS CLÍNICOS, IMUNOLÓGICOS E VIROLÓGICOS PARA INÍCIO DA TERAPIA ANTIRETROVIRAL EM CRIANÇAS, POR FAIXA ETÁRIA < 11 meses: Critérios Clínicos: Categoria B (exceto LIP, plaquetopenia, tuberculose pulmonar, febre persistente, pneumonia - único episódio) ou Categoria C - tratar OU Critérios laboratoriais: CD4: < 25% ou < 1.500 cels/mm3 - tratar Carga viral: >1.000.000 cópias/mm3 - considerar tratamento 12-35 meses: Critérios Clínicos: Categoria B (exceto LIP, plaquetopenia, tuberculose pulmonar, febre persistente, pneumonia - único episódio) ou Categoria C - tratar OU Critérios laboratoriais: CD4: < 20% ou < 750 cels/mm3 - tratar Carga viral: >250.000 cópias/mm3 - considerar tratamento 35-59 meses: Critérios Clínicos: Categoria C - tratar OU Critérios laboratoriais: CD4: < 15% ou < 350 cels/mm3 - tratar Carga viral: >250.000 cópias/mm3 - considerar tratamento < 5 anos: Critérios Clínicos: Categoria C - tratar OU Critérios laboratoriais: CD4: < 15% ou < 200 cels/mm3 - tratar Carga viral: >250.000 cópias/mm3 - considerar tratamento Fonte: Recomendações para Terapia Anti-Retroviral em Crianças Infectadas pelo HIV - 2006, do Programa Nacional de DST/Aids. 8 ESQUEMA ANTI-RETROVIRAL INICIAL O esquema inicial para terapia anti-retroviral recomendado pelo consenso médico pediátrico do Programa Nacional de DST/Aids é o que inclui 2 inibidores da transcriptase reversa análogos de nucleosídeos (ITRN) associados a 1 inibidor da transcriptase reversa não-análogo de nucleosídeos (ITRNN). Essa opção está baseada em uma melhor adesão e em uma menor toxicidade, reservando-se para uma fase posterior o esquema com 2 ITRN associados a 1 inibidor da protease (IP). TERAPIA ANTI-RETROVIRAL INICIAL RECOMENDADA 2 ITRN (Preferencialmente zidovudina + lamivudina. Em caso de contraindicação absoluta à zidovudina optar por abacavir + lamivudina ou estavudina + lamivudina). associados à 1 ITRNN (nevirapina, se menor de 3 anos / nevirapina ou efavirenz, se maior que 3 anos). OBS: O abacavir apresenta risco de reação de hipersensibilidade que pode ser fatal. Se houver suspeita dessa reação, a droga deve ser imediatamente suspensa e sua re-introdução é contraindicada. Fonte: Recomendações para Terapia Anti-Retroviral em Crianças Infectadas pelo HIV - 2006, do Programa Nacional de DST/Aids. Mais informações: www.aids.gov.br, item documentos e publicações. O IP lopinavir/r está indicado como componente da terapia tríplice inicial em crianças menores de dois anos de idade com progressão rápida da doença. DIFICULDADES COM O TRATAMENTO A maior parte das crianças tem dificuldades em aderir ao tratamento antiretroviral. “A falta de adesão ao tratamento é a principal causa de falha terapêutica”, diz a pediatra e infectologista Maria Letícia Santos Cruz, do Hospital dos Servidores. “A criança depende integralmente de outra pessoa para ministrar o remédio, e a adesão, em geral, é baixa. Há uma série de resistências, como, por exemplo, a criança rejeitar a medicação por achar o gosto ruim e se ressentir de efeitos colaterais como diarréia e vômito”. A imunologista Norma Rubini afirma que a família precisa ser orientada e estimulada no momento da introdução da terapia anti-retroviral e ao longo de todo o tratamento: “Antes do início da terapia deve ficar claro para a família que o cumprimento rigoroso da prescrição médica é um fator fundamental para a eficácia do tratamento. É importante esclarecer dúvidas e temores com relação aos efeitos adversos, investigar a rotina de vida familiar e da criança e buscar, junto com a família, a melhor alternativa, não só do ponto de vista científico, mas também que seja de fácil incorporação à rotina e hábitos familiares. As crianças maiores também devem ser motivadas para uma boa adesão à prescrição”. Norma destaca a relevância do suporte psicoterápico e social e dos grupos de adesão e de auto-ajuda, inseridos em um trabalho institucional interdisciplinar, como facilitadores da adesão ao tratamento. “A busca de estratégias para melhorar a adesão de crianças e adolescentes ao uso de medicamentos anti-retrovirais é um constante desafio para os profissionais que prestam assistência a estes pacientes”, revela. EFEITOS ADVERSOS - COMO LIDAR COM ELES Os efeitos adversos, ao lado dos problemas de adesão, constituem uma das grandes limitações da terapia anti-retroviral. Muitos pacientes sofrem com intolerância à medicação, que se manifesta, em geral, através de náuseas, vômitos, dor abdominal e diarréia. “É importante orientar os familiares para as medidas de suporte e sobre a transitoriedade destes efeitos colaterais, prevenindo a interrupção desnecessária do tratamento”, destaca a imunologista Norma Rubini. A toxicidade das drogas é outro problema a ser enfrentado. “As mais freqüentes, em pacientes pediátricos, são as toxicidades hematológica, pancreática e hepática” diz a médica. “Os monitoramentos laboratorial e clínico são fundamentais para detecção precoce, pois possibilitam o ajuste de doses ou a substituição do fármaco, quando indicado”. Nos últimos anos, outros efeitos adversos da terapia anti-retroviral foram observados em crianças, como alterações no metabolismo de lipídeos e glicídeos e alterações na distribuição da gordura corporal. “A lipodistrofia pode ter um impacto profundamente negativo, ocasionando até o abandono do tratamento”, diz Norma, ressaltando mais uma vez a importância da orientação QUANDO A GENOTIPAGEM É NECESSÁRIA Segundo a pediatra e infectologista Maria Letícia Santos Cruz, devido ao aumento de casos de infecção primária por vírus já resistentes, é indicada a genotipagem em filhos de mulheres que tenham recebido anti-retrovirais durante a gravidez. “Dessa forma é possível escolher um esquema antiretroviral com maior probabilidade de acerto”, diz ela. “A genotipagem é também indicada nos casos em que é necessário mudar o esquema terapêutico da criança em virtude de falha terapêutica”, completa a imunologista Norma Rubini. para pacientes e familiares: “uma dieta adequada e a prática regular de atividade física podem ter um papel protetor nesse caso”. Novos efeitos adversos graves foram descritos, recentemente: alterações no metabolismo ósseo, acarretando osteopenia, osteoporose, osteonecrose e necrose avascular da cabeça do fêmur, e acidose láctica. “O monitoramento do crescimento, controle laboratorial e realização de métodos diagnósticos de imagem possibilita a identificação e tratamento adequado dessas complicações”, observa a médica. Apesar de não ser sempre possível, Norma aponta que o ideal é optar por esquemas anti-retrovirais menos tóxicos. “Além disso, o monitoramento cuidadoso dos efeitos adversos e a abordagem interdisciplinar são os instrumentos que dispomos para o enfrentamento desta questão”, conclui. ■ No site da Saber Viver você encontrará artigos da imunologista Norma Rubini sobre o tratamento do HIV em crianças. Acesse www.saberviver.org.br e clique em biblioteca 9 Revelação do diagnóstico e adesão ao tratamento Desafios para profissionais, cuidadores e crianças os últimos anos, o rápido desenvolvimento observado na terapia de combate à aids foi acompanhado por um lento avanço na qualidade de atendimento oferecido aos pacientes, principalmente no que diz respeito às demandas específicas das crianças e adolescentes soropositivos. Mas ainda assim, há o que comemorar. Inúmeras unidades de saúde no Brasil estão em processo de reestruturação e integração dos serviços oferecidos, tais como: criação de ambulatório específico, contratação de profissionais especializados no atendimento a esse público e N 10 disponibilidade de equipe necessária (médicos, enfermeiros e auxiliares, psicólogos, dentistas, fonoaudiólogo, assistente social e nutricionista) para o cuidado integral. Esse é o caso do Centro de Referência da Infância e Adolescência (Criad) da Coordenação Estadual de DST/Aids de São Paulo, onde uma equipe multiprofissional se empenha em encontrar respostas para questões como a revelação do diagnóstico à criança soropositiva e a adesão ao tratamento contra a aids. Temas delicados, pois constituem grades desafios tanto para os pacientes e seus cuidadores como para os profissionais. Uma pesquisa realizada, em 2005, com 121 profissionais de saúde do estado de São Paulo constatou que a maioria considera a revelação diagnóstica um trabalho desgastante, sendo que todos os entrevistados solicitaram supervisão, orientação e treinamento específico para que esse processo possa ocorrer de forma mais tranqüila. Embora a maior parte tenha concordado que é importante conversar com a criança sobre a doença e o tratamento, não houve um consenso em relação à melhor história a ser contada nem sobre quem deve informar a criança e/ou adolescente sua condição de soropositivo para o HIV. CONHECER O DIAGNÓSTICO FAVORECE A ADESÃO Segundo Eliana Galano, psicóloga do Criad, muitos profissionais de saúde e cuidadores (mães, pais, avós, ou quem quer que seja o cuidador da criança) acreditam que adiar o confronto com o diagnóstico é uma forma de proteger as crianças. “Eles receiam especialmente que elas sofram com o isolamento social, o preconceito e a estigmatização”, diz a psicóloga, ressaltando que essa atitude ainda reflete o medo que os cuidadores têm de que a criança sinta o mesmo impacto que eles sentiram quando souberam de seu próprio diagnóstico, numa época em que a revelação era feita de forma ruim. Pilar Lecussán, médica do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, em São Paulo, acrescenta que os pais têm muita dificuldade em revelar aos filhos a própria condição de infectados, pois isso envolve a necessidade de revelar aspectos como modo de infecção, história sexual e uso de drogas. No entanto, a médica afirma que não se deve esconder o diagnóstico do pequeno paciente, pois, após a revelação, a reação das crianças é de alívio pelo diálogo estabelecido e pela liberação do segredo. A psicóloga Eliana Galano concorda. Ela aponta que o silêncio dos adultos (profissionais e cuidadores), a desconversa ou a mentira podem tomar proporções bastante assustadoras e enigmáticas no psiquismo infantil. “Nesse universo, a solidão acaba sendo a vivência mais marcante para esses jovens portadores do HIV/aids. Por desconhecerem o mecanismo de ação da doença, as crianças atribuem signi- Segundo Pilar Lecussán, médica do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, em São Paulo, não se deve esconder o diagnóstico do pequeno paciente, pois, após a revelação, samente escolhidos, com brinquedos coloridos e atraentes às crianças), onde os ‘soldadinhos’ (células CD4) do corpo se fortalecem com a ajuda dos medicamentos”, revela. Outra iniciativa que tem contribuído para facilitar a adesão ao tratamento, segundo Eliana Galano, foi a criação de uma brinquedoteca no Criad: “Um espaço alternativo bem estruturado, organizado e lúdico dentro do serviço de saúde torna a presença da criança no hospital menos traumatizante e possibilita maior bem-estar físico e emocional. Entendemos que isso melhora a relação criança-profissional e favorece sua reinserção social”. a reação das crianças é de alívio pelo diálogo estabelecido e pela liberação do segredo. ficados pautados nos recursos emocionais e cognitivos que dispõem, construindo fantasias, que, em sua maioria, são distantes e deslocadas da realidade”, diz. De acordo com sua experiência clínica, quadros de fobia e depressão e dificuldade para tomar a medicação são alguns dos sintomas e comportamentos diretamente associados a esse segredo que não pode ser revelado. Segundo a psicóloga, quando a criança ou o adolescente entende o que se passa em seu organismo a tendência é colaborar mais com o tratamento. “Para ajudálos a compreender melhor a doença e a importância da medicação, usamos o Kit Revelação Diagnóstica (composto por materiais cuidado- FORTALECER A AUTO-ESTIMA: FUNDAMENTAL PARA ADESÃO Para Marcos Tosoli, professor do Programa de Mestrado da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro que estuda a relação entre a criança e seus cuidadores e o tratamento contra a aids, diversos fatores influenciam a adesão. As características dos medicamentos (seu tamanho, cor e sabor), os efeitos colaterais provocados por eles, a condição financeira da família (que influi em sua freqüência na unidade de saúde) e o acesso a uma alimentação adequada são alguns deles. No entanto, segundo Tosoli, o que mais determina a relação que a criança vai estabelecer com seu tratamento é a forma como seus familiares ou cuidadores lidam com a aids. “A aids é uma doença que interfere na auto-estima das pessoas e esta subjetividade incide no tratamento. Cabe ressaltar que a criança precisa, necessariamente, de alguém para que possa aderir, e esse alguém também é um outro que sofre”, diz Tosoli. Propiciar a essas famílias a possibilidade de se fortalecer 11 para lidar com a aids e, conseqüentemente, com o tratamento é imprescindível: “A substituição do assistencialismo pela cidadania e pelo direito é fundamental à construção de uma nova relação da população com os órgãos governamentais e também com a aids”, afirma. Segundo Marcos Tosoli, o maior desafio para os profissionais de saúde é permitir que crianças e cuidadores construam recursos próprios para solucionar as especificidades de seus problemas. Neste sentido, cabe resgatar o conceito de auto-cuidado. “A educação em saúde é essencial na adesão, especialmente quando ela se pauta na problematização das questões vivenciadas. Torna-se premente oferecer voz aos familiares e cuidadores para, de fato, oferecer soluções para os problemas que incidem e interferem em seus cotidianos”, conclui. QUANDO E COMO REVELAR O DIAGNÓSTICO A revelação do diagnóstico para a criança deve ser entendida como um longo e permanente processo, um diálogo que não deve ser interrompido após a revelação propriamente dita. “Mesmo a revelação parcial, ou seja, sem nomeação da doença, pode trazer benefícios às crianças”, acredita Eliana Galano, psicóloga do Criad. “Para isso, é importante que os profissionais tenham conhecimento sobre o desenvolvimento infantil, considerando a capacidade de compreensão da criança, sua faixa etária, particularidades e dúvidas”, explica. De acordo com Sidnei Pimentel, infectologista também do Criad, a maneira ideal compreende o emprego de linguagem adequada e o uso de materiais lúdicos no processo de revelação, trazendo esses novos conceitos para o mundo 12 “A educação em saúde é essencial na adesão, especialmente quando ela se pauta na problematização das questões vivenciadas". Marcos Tosoli que a criança entende. Fundamentados em sua experiência clínica, profissionais do Centro de Referência da Infância e Adolescência (Criad) e do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas criaram um repertório de orientações para a revelação do diagnóstico de HIV/aids para as crianças que pode ser útil tanto para profissionais de saúde quanto para familiares ou cuidadores das crianças. Vale ressaltar que o ideal é que os passos da revelação sejam construídos em conjunto pela equipe de profissionais e os cuidadores. Aqui faremos um resumo. CHEGOU A HORA DE INICIAR O PROCESSO DE REVELAÇÃO QUANDO: • A criança faz questionamentos sobre sua doença; • Pais e familiares estão conscientes e preparados para responder às questões feitas pela criança; • Existe um vínculo positivo entre a criança e o profissional que faz o acompanhamento; • Há autorização de pais e familiares para isso; • A criança apresenta dificuldades de adesão, nervosismo ou fobia; • A criança possui recursos internos para o enfrentamento do diagnóstico; • Profissionais e cuidadores têm convicção quanto ao benefício da revelação; • A criança tem capacidade para guardar segredo. REVELAÇÃO PARA TERCEIROS Em geral, os cuidadores preferem restringir a revelação do diagnóstico da criança ao núcleo familiar. A escola, vista por cuidadores e profissionais de saúde como uma parceira no cuidado com a criança e adolescente soropositivo, é exceção. A maioria opta por contar para professores e coordenadores. Contudo, lamentavelmente, a psicóloga Eliana Galano reconhece que há histórias traumatizantes de escolas que não souberam lidar com a situação por desconhecimento da doença. Para a médica Pilar Lecussán, “a revelação para pessoas fora do círculo familiar é algo complexo que deve ser pensado e ponderado”. A portaria 796, de 29 de maio de 1992, não obriga os cuidadores a revelar o diagnóstico da criança para a escola. A orientação dos profissionais do Criad é que o cuidador só deve contar caso sinta-se à vontade para isso. Elizabete Franco, psicóloga e coordenadora do Projeto Viver Criança e Adolescente da Organização não-Governamental Grupo de Incentivo à Vida (GIV), de São Paulo, acredita que é necessário um trabalho mais amplo para romper o preconceito e o estigma, pois são fatores que interferem diretamente na revelação e adesão ao tratamento. “É difícil para o jovem pensar em um projeto de vida quando se carrega esse estigma. Ele fica tão reduzido à aids que parece que ele é a própria doença. Por isso precisamos desenvolver um trabalho político de desconstrução do preconceito que existe ao redor”, analisa. ■ Violência contra crianças portadoras do HIV rofissionais de saúde que acompanham crianças e adolescentes soropositivos volta e meia se deparam com situações de violência sofridas por seus pacientes. Agressões físicas, como abuso sexual e espancamentos, e aquelas decorrentes de atos de negligência, abandono, preconceito e discriminação, infelizmente, são comuns. Nas unidades de saúde que atendem crianças portadoras do HIV, o descaso com a saúde e com o tratamento têm sido observados com uma certa freqüência. Como atuar diante de situações como estas? Quando acionar o Conselho Tutelar ou o Juizado? Qual deve ser o limite da atuação dos profissionais de saúde? P CONVERSAR COM PAIS E CUIDADORES É O PRIMEIRO PASSO Casos tão recorrentes de cuidadores que não cuidam da forma correta, deixando de dar os remédios e de levar as crianças às consultas médicas e aos exames, são considerados uma forma de preconceito e de dificuldade por parte do cuidador em lidar com a doença. Para enfrentar essa situação, Virgínia Morais, assistente social do Projeto Criança = Vida, desenvolvido pela ONG Pela Vidda Niterói na pediatria do Hospital Municipal Carlos Tortely, considera importante que os profissionais tentem criar um vínculo com a família da criança e entendam o contexto em que ela vive. “É fundamental conhecer as dificuldades que impedem o tratamento ou que geram conflitos, e ajudar as famílias a superá-las. Na maioria das vezes, são problemas financeiros ou de aceitação da doença”, explica Virgínia. Elizabete Franco, professora da Escola de Artes e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e coordenadora do Projeto Viver Criança e Adolescente do Grupo de Incentivo à Vida (GIV), concorda com a importância do aconselhamento junto à família do paciente e acrescenta: “Precisamos ficar atentos para que o aconselhamento não seja um processo de moralização da família. Os profissionais devem rever os seus próprios preconceitos e olhar o cuidador como um aliado. Às vezes, ele também está precisando de cuidado e não consegue dar à criança a atenção necessária”. Segundo ela, o processo de aconse-lhamento deve ser um trabalho de equipe e precisa ser efetivo, consistente e refletido e, caso essa medida não dê um retorno eficiente, o Conselho Tutelar deve ser acionado para acompanhar a família. PARCERIA COM O CONSELHO TUTELAR “O Estatuto da Criança e do Adolescente diz que os profissionais que cuidam de menores podem ser responsabilizados quando estão diante de uma situação de grande desrespeito e não fazem o encaminhamento jurídico necessário”, explica a assistente social Virgínia Morais. Nessas horas, uma boa parceria entre a equipe de saúde e o Conselho Tutelar pode fazer diferença. Antes de acionar o Juizado de Menores, responsável pela decisão final de abrigar a criança numa instituição, os Conselhos Tutelares buscam resolver o problema pelo diálogo com os pais ou cuidadores. A coordenadora do ambulatório de pediatria do Hospital Municipal Carlos Tortely, a médica Silvia Guasti, afirma 13 que não há regras quando se trabalha com o ser humano: “As instituições, muitas vezes, podem estar mais bem preparadas do que a família para cuidar daquela criança. Mas há casos em que o vínculo da criança com os pais, avós ou cuidadores é tão forte que a questão emocional deve ser muito bem examinada”, diz a médica, lembrando que a demora, no entanto, pode significar a perda do paciente. “Certa vez, tentamos sensibilizar um tio que se recusava a tratar o sobrinho. Quando já estávamos buscando a ajuda do Conselho Tutelar, a criança não resistiu e morreu”, conta. JUIZADO DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA A advogada Patrícia Diez Rios, da ONG Pela Vidda Niterói, diz que, quando há violência sexual ou abandono irreversível da criança pela família ou cuidadores, colocando em risco a vida do menor, os profissionais de saúde devem informar não apenas ao Conselho Tutelar, mas também ao Juizado da Infância e da Adolescência e ao Ministério Público. “Os profissionais de saúde, muitas vezes, temem violar um preceito básico do tratamento médico que é o sigilo, mas, em casos como esses, a denúncia passa a ser um dever legal perante a justiça”, afirma. A advogada recomenda que os profissionais de saúde mantenham o prontuário da criança sempre muito atualizado. “Um prontuário bem narrativo sobre a situação e as consultas, não apenas com informações médicas, mas de toda a equipe multidisciplinar, como assistentes sociais, enfermeiros e psicólogos, protege os profissionais que denunciarem os maus tratos e ajuda a justiça numa eventual ação de proteção daquela criança”, sugere. O diálogo seguido de uma eventual denúncia cabe também às mulheres grávidas que se recusam a tomar a medicação. “A legislação brasileira protege o feto que está para nascer”, observa Patrícia Rios. “Apesar de ser legalmente possível obrigar uma mãe soropositiva a se medicar, na prática isso se torna quase impossível. Portanto, a sensibilização, nesses casos, é a melhor alternativa”, recomenda a advogada. Patrícia reconhece que, muitas vezes, cuidar de uma criança soropositiva pode ser problemático, principalmente para aquelas famílias que vivem em situação de extrema pobreza. “Para isso, há o benefício da prestação continuada (Art.203 da Constituição Federal), que garante um salário mínimo à criança. Mas, além de difícil concessão, só as crianças que vivem em famílias com renda per capita inferior a 1/4 do salário mínimo podem ser beneficiadas”, conclui. ■ Anuncio_Roche.pdf C M Y CM MY CY CMY K 6/21/07 3:30:57 PM Área útil CENTROS DE REFERÊNCIA IMUNOBIOLÓGICOS ESPECIAIS: Hospital Couto Maio Rua São Francisco S/N - Monte Serrat Salvador -Bahia Telefone: (71) 3316-3467 (71) 3316-3084 / (71) 3316-3085 Hospital Materno Infantil de Brasília SGAS Quadra 608 Módulo A Av. L2 Sul - Brasília - Centro Telefone: (61) 3443-2636 (61) 3443-2322 Hospital Menino Jesus Av. 28 de Setembro - Vila Isabel - RJ Telefone: (21) 2264-2082 Hospital Infantil Nossa Senhora da Glória Alameda Mary Ubirajara, 205 Santa Luzia - Vitória - ES Telefone: (27) 3345-7979 Santa Casa de Misericórdia Av. Francisco Sales, 1111 Santa Efigênia Belo Horizonte - MG Telefone: (31) 3249-8922 Hospital Materno Infantil Presidente Vargas Av. Independência, 661 - Centro Porto Alegre -RS Telefone: (51) 3289-3000 Hospital das Clínicas -FMUSP Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 647 São Paulo - Telefone: (11) 3069-6000 ORGANIZAÇÕES NÃO-GOVERNAMENTAIS: Projeto Viver Criança e Adolescente Desenvolvido no Grupo de Incentivo à Vida (GIV), em São Paulo - SP, o projeto visa contribuir para a formação de crianças e adolescentes solidários, que respeitem a diversidade humana, a vida, e que tenham condições de enfrentamento da epidemia da Aids. GIV: Rua Capitão Cavalcante, 145, Vila Mariana. São Paulo/SP Tel. (11) 5084 0255. www.giv.org.br Projeto Criança = Vida Desenvolvido pela ONG Pela Vidda Niterói na pediatria do Hospital Municipal Carlos Tortely, em Niterói-RJ. O objetivo do projeto é contribuir para a construção da identidade da criança e do jovem soropositivo, trabalhando por sua inclusão na sociedade e por sua cidadania. Grupo Pela Vidda Niterói: Rua Visconde de Itaboraí, 66 Ponta de Areia - Niterói Tel: (21) 2722 0067 [email protected]. www.pelavidda-niteroi.org.br TESE: A assistência às pessoas vivendo com HIV/Aids: Aprendendo a cuidar do vírus ou da pessoa? Tese de doutorado em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro da médica Débora Fontenelle dos Santos. Disponível no site do Instituto de Medicina Social da UERJ, em biblioteca. www.ims.uerj.br Tá na Hora! CONCURSO Prêmio Nacional de Adesão Promovido pelo Programa Nacional de DST e Aids do Min. da Saúde, o Prêmio Nacional de Adesão visa destacar experiências inovadoras de adesão à terapia anti-retroviral realizadas nos anos 2006 e/ou 2007, desenvolvidas pelos serviços de assistência em saúde e organizações da sociedade civil. Para se inscrever, preencha o formulário de inscrição, relate a experiência desenvolvida em adesão à TARV em até 5 laudas e envie 3 cópias impressas e 3 cópias em meio magnético, em arquivo word, até o dia 17 de agosto, para o seguinte endereço: Prêmio de Adesão MINISTÉRIO DA SAÚDE - Unidade III Programa Nacional de DST e AIDS Unidade de Assistência e Tratamento (UAT)- 2º andar - SEPN 511 - BLOCO C - BRASILIA / DF - 70.750-543 Premiação Após análise e julgamento, serão premiados os três trabalhos melhor classificados em cada categoria (serviços de saúde e organizações da sociedade civil) e publicados no site do PN. 1º lugar de cada categoria Um computador com impressora 2º lugar de cada categoria Uma TV 29 polegadas 3º lugar de cada categoria Uma TV 20 polegadas Os prêmios se destinam exclusivamente as organizações da soc. civil que desenvolvem as ações de adesão premiadas. Mais informações em www.aids.gov.br e adesã[email protected] UMA REVISTA GRATUITA QUE AJUDA A PREPARAR O PACIENTE PARA INICIAR O TRATAMENTO COM OS ANTI-RETROVIRAIS S Com uma linguagem clara e construída a partir da experiência de outras pessoas que tomam os ARV, a cartilha SABER VIVER TÁ NA HORA será distribuída, gratuitamente, aos serviços de saúde. A edição é limitada. Garanta os seus exemplares, informando os dados do serviço de saúde e o número de cartilhas que gostaria de receber. Escreva para [email protected] 16