TRABALHO, RECURSOS NATURAIS E ESTRATÉGIAS DE REPRODUÇÃO DE AGRICULTORES NA ZONA DA MATA MINEIRA Eduardo Magalhães Ribeiro1 Flávia Maria Galizoni2 Resumo Muitos autores consideram que as dificuldades estruturais que agricultores familiares encontram para produzir em larga escala e ocupar espaços estáveis nos mercados indicariam fatalmente a sua desaparição. Mas esta é uma visão parcial, porque não percebe a criatividade na organização do trabalho, nos arranjos produtivos, na produção de estratégias adicionais e paralelas aos mercados construídas por muitas dessas famílias. Por fim, gerindo de forma inteligente os recursos humanos, naturais e produtivos, conseguem criar sólidos espaços de reprodução, fortes o suficiente para estabilizar-se e, em muitos casos, prosperar. Este artigo analisa algumas estratégias consolidadas e gerais usadas por agricultores familiares da Zona da Mata de Minas Gerais, e resulta de pesquisa prolongada realizado em comunidades. Observa que a organização eficiente do trabalho, a ocupação de espaços nos mercados locais, os pequenos negócios, as migrações temporárias e, sobretudo, a dedicação ao sítio e à familia permite que sobrevivam na terra e ampliem, gradativamente, patrimônio e bens. A migração sazonal fornece a base patrimonial da família, o trabalho familiar internaliza a maioria dos custos, a diversificação da pauta produtiva fornece o mínimo para o sustento e para entrar em muitos mercados, os negócios constantes permitem obter os bens que carecem sem, necessariamente, entrar em redes mais especializadas de trocas mercantis. O estudo revelou que, mais que tendências à desaparição ou diferenciação, há uma clara propensão, muito afirmativa, a ampliar o conjunto dos bens e recursos das famílias. Palavras-chave: trabalho rural, agricultura familiar, Minas Gerais. 1 Economista, professor adjunto da Universidade Federal de Lavras, Minas Gerais, pesquisador do CNPq; [email protected]; CxPostal 151, 37.200-000, Lavras, MG. 2 Antropóloga, do IFCH/Unicamp, bolsista CNPq; [email protected] 1. O tema Em começos do século XIX, Jules Michelet, o historiador da Revolução Francesa, escrevia sobre aquilo que considerava o maior dos tesouros da vida rural: "(...) nos piores tempos, nos momentos de miséria universal, quando o próprio rico é pobre e se vê forçado a vender, o pobre está em condições de comprar; não se apresentando nenhum comprador, o camponês aparece com sua moeda de ouro e adquire um pedaço de terra. Estranho mistério; esse homem deve ter um tesouro escondido. E de fato tem: o trabalho persistente, a sobriedade e o jejum." (Michelet, 1988: 22) Michelet encontrou dezenas de exemplos na história européia em que o lavrador multiplica rapidamente o patrimônio, seu e do país, tendo como base a poupança feita a partir do trabalho. A capacidade de trabalho do camponês opera milagres: não se abala nas guerras, poupa nas épocas de fome, nas horas de crise. Firmado na terra, no trabalho da família, na produção do seu consumo, em vez de perder, sempre prospera. Este é um aspecto que passa despercebido a muitos pesquisadores brasileiros da atualidade. As enormes dificuldades que existem para entrar e sobreviver nos mercados são consideradas, geralmente, mais potentes que as forças próprias desses agricultores. Por isso, as análises feitas quase sempre na perspectiva genérica dos mercados e das forças expansivas da agroindústria, deixam de perceber os movimentos miúdos da reprodução familiar assentada em trabalho, estratégias absolutamente autonômas e mínimos nichos de mercados. É por isso que, muitas vezes, os pesquisadores são surpreendidos pelas iniciativas e realizações locais, que costumam revelar muita criatividade, além de muito trabalho. Estes, acabam se manifestando nos dados globais principalmente censitários - de forma explícita, por exemplo quando apontam a maior persistência das unidades produtivas familiares relativamente às patronais, ou o maior número relativo de ocupações rurais. Isso, absolutamente, não significa que se deva desconsiderar as imensas dificuldades que esses produtores enfrentam na sua sobrevivência, que se refletem em intensa migração de jovens e mulheres, em quedas efetivas de rendas, declínio de produção ou crescimento da importância das rendas vindas das aposentadorias rurais e das políticas compensatórias no orçamento dessas famílias. Pelo contrário, é importante refletir sobre o macro e o micro e, principalmente, pensá-los de forma combinada para compreender essa dinâmica complexa do trabalho e da família nessas unidades rurais. 2. Objeto e método Este artigo resulta de um conjunto de pesquisas sobre estratégias de reprodução de agricultores das diversas regiões do estado de Minas Gerais. As pesquisas têm como propósito compreender a lógica específica de combinação de trabalho, recursos naturais e materiais - muitos deles originados de fontes externas como migração, aposentadoria, etc - que perrmitem a esses agricultores sobreviver e expandir seus bens, mesmo nas situações de adversidade climática ou econômica. As pesquisa foram e têm sido realizadas em comunidades rurais de diversas regiões de Minas Gerais, sempre por meio de entrevistas qualitativas e acompanhamento, em períodos às vezes bastante longos, das atividades de grupos de agricultores. Algumas informações quantitativas complementam os dados coletados em roteiros de pesquisa, mas o base maior de informações vem mesmo é de entrevistas pessoais e familiares, da observação de atividades como catiras - as trocas sistemáticas que agricultores fazem entre si -, feiras, festas e negociações, vêm de observações feitas em reuniões de sindicatos de trabalhadores rurais, órgãos de assessoria e mediação - CPT e Cáritas, principalmente -, em fóruns municipais e regionais. Como o propósito dessas pesquisas têm sido compreender a lógica da reprodução e os pontos de apoio ao sustento dessas famílias, o recurso à participação em atividades cotidianas, como refeições coletivas, reuniões de planejamento tem sido frequente. Neste artigo são analisados alguns aspectos recorrentes nos sistemas de produção de agricultores da região da Mata mineira, situada a leste do estado, mais ou menos na altura das divisas de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Esses agricultores vivem em grupos de vizinhança e parentesco denominados comunidades, que representam ao mesmo tempo uma unidade territorial - no sentido do pertencimento e localização espacial - e religiosa, uma vez que geralmente reúne também uma comunidade de fé, comunidade eclesial de base, CEB. 3. O tema na literatura A discussão sobre os espaços e a condição de reprodução da agricultura familiar data de, pelo menos, um século, com uma produção muito expressiva, que será apenas brevemente referida aqui. Desde fins do século XIX alguns teóricos argumentavam que havia uma forte tendência para que uma parte dos produtores rurais se proletarizasse e outra se enriquecesse na formação do mercado interno. Acreditava-se que haveria uma decomposição rápida do campesinato, proletarização dos produtores e a formação de uma burguesia rural; deste ponto de vista; as leis de concentração do capital se manifestariam da mesma maneira na agricultura e na indústria. Outros autores agregavam um argumento importante, que dizia respeito à incapacidade da pequena exploração familiar rural competir com a grande exploração patronal, pois a grande exploração produzia a custos menores, uma vez que era mais elevada sua escala de operações. Era neste sentido que argumentava um pensador alemão do final do século XIX, Kautsky (1972). Ele afirmava que existiam evidentes vantagens para os agricultores que operavam com grandes unidades: as economias de escala permitiam ganhos tão elevados às explorações maiores, que os camponeses, incapazes de competir, seriam levados a um empobrecimento constante; as unidades maiores tenderiam a ser mais lucrativas e expandir mais rapidamente. Kautsky acreditava que, no capitalismo, a pequena exploração familiar não poderia incorporar as conquistas técnicas e econômicas da grande exploração agrícola. Sendo assim a pequena exploração tenderia a sumir? Não necessariamento. De acordo com Kautsky, na medida que suprimia grande parte dos custos e não desembolsava salários o camponês se manteria; principalmente, ele tendiria a transferir o ônus do declínio da renda para o consumo da família, alimentando-se menos, ao mesmo tempo que trabalharia mais. Por outro lado, em alguns setores as grandes empresas poderiam localizar-se no segmento do beneficiamento dos alimentos - setor mais lucrativo - deixando aos agricultores familiares as dificuldades da produção direta e adquirindo-lhes as safras. Para sobreviver num mercado adverso esses agricultores tenderiam ainda a incorporar uma série de fontes e rendas complementares, como a migração sazonal, o pequeno comércio, o uso sistemático de forças auxiliares de trabalho como crianças e idosos. Esta trilha de argumentação aberta por Kautsky, apontando para a possibilidade de serem criadas estratégias alternativas de reprodução para agricultores enfrentarem a adversidade, foi seguida por muitos autores. No caso do Brasil, Santos (1978) analisando o caso de agricultores do Sul, Martins (1981) estudando a trajetória histórica do campesinato brasileiro, Heredia (1979) e Garcia Júnior (1983) analisando a situação de agricultores nordestinos, Lovisolo (1988) comparando situações do Sul e Nordeste brasileiros, entre outros autores, revelaram que há uma relação de causalidade direta entre piora objetiva das condições materiais e construção de alternativas de reprodução que permitem a sobrevivência desses agricultores. Assim, não há apenas uma ação definitivamente avassaladora das forças de mercado, mas há também uma criação microscópica de alternativas ao enfrentamento dessas forças, que variam de acordo com situações e regiões, de acordo com as condições de acesso aos recursos, de acordo com as culturas e economias locais. Grosso modo percebe-se que um conjunto de situações permite criar um conjunto mais ou menos fechado de alternativas que lhes são próprias, e é exatamente a partir delas que são relidos o uso do trabalho e dos recursos naturais, o emprego do saberes locais e da especificidade dos arranjos de negócios que a cada grupo de agricultores pode fazer. Como essas combinações que desembocam em estratégias locais são, ao mesmo tempo, singulares e globais em seus diversos aspectos, resulta dai que as alternativas vão partir de um mesmo conjunto básico de variáveis que serão combinadas de formas diversas. Por exemplo: terra, família, migração, gado, feira e pequenos negócios fazem parte do conjunto de recursos disponíveis para todos os agricultores; mas, numa dada região ou local eles tenderão a enfatizar mais a migração sazonal, ou os pequenos negócios, ou o conhecimento da natureza. Essas escolhas serão feitas de acordo com trajetórias, oportunidades, conhecimentos, articulações. Por isso, há fortes possibilidades que propostas tremendamente bem sucedidas numa região não produzam qualquer efeito noutra; ou que iniciativas locais que não disponham de qualquer apoio institucional numa região tenham admirável prosperidade. É nessa direção que este artigo e esta pesquisa apontam. Procuram avaliar, dentro do conjunto de variáveis disponíveis, aquelas que são instrumentalizadas pelos agricultores familiares; dentro dessas, aquelas que são potencializadoras de estabilidade, bem-estar e renda. Com base nessas indicações próprias, microregionalizadas, seria possível criar políticas ou sistemas de apoio que possibilitasse pontencializa-las. 4. As comunidades da Mata Nas comunidades da Zona da Mata as ladeiras são íngremes; nas partes mais baixas dos terrenos ficam as casas e roças, e, subindo nos morros, lavouras de café e pastos de capim gordura ou meloso, onde vacas de leite se equilibram, a custo, nas alturas. Os sítios variam de menos de 1 hectare a menos de 50; na média costumam ficar em torno de 20 hectares. As famílias contam geralmente com o casal e 3 filhos, raramente incluem avós ou parentes agregados. Perto das casas ficam os currais e capineiras; na beira das nascentes ficam as aguadas para o gado que transita de alto a baixo, e no pico das serras ficam os remanescentes de mata, Mata Atlântica, que deu o nome à região. Olhando de relance para essas comunidades - vendo os homens cortando as serras nos seus cavalos de rabo trançado e arreados com socadinhos enfeitados de retalhos; ou na lida da lavoura e da roça; ou vendo a faina das mulheres no terreiro, labutando com animais, horta, crianças, pomar e cozinha; ou escutando os casos, pausados, da comunidade, da política, da produção e da luta - é difícil entender de onde saem os recursos que fazem o patrimônio crescer, a terra aumentar e a família mesmo timidamente, prosperar. Como escreveu Michelet: é o caso de se admirar. Mas o crescimento do patrimônio acontece de forma muito discreta, não se manifesta no que parece evidente - o cafezal -, mas se materializa principalmente em formas culturais específicas. Primeiro, concretiza-se pela compra de bens materiais de grande preço e fácil negociação, como carros e equipamentos agrícolas, por exemplo. Segundo, sob a forma de gado, promovendo o crescimento do rebanho até o limite que o terreno familiar suporta. Terceiro, pela aquisição de partes da herança da família, pelo lado do marido ou mulher. E, por último, com a compra de terrenos de pessoas de fora da família. A diferença entre o terceiro e o último tipo de compra é importante, porque não é a mesma coisa, nem a mesma representação simbólica, comprar terra de irmãos ou cunhados, que geralmente são vendidas com preferência, preços e prazos favorecidos, que foram terras dos pais ou avós do casal que adquire. Patrimônio se forma de atividades que estão mais ou menos fora do processo imediato de produção agrícola. Ele não é construído na produção de mantimentos, que ocupa a maior parte do tempo da família. Pelo contrário, a acumulação se realiza com recursos criados nos "poros" do trabalho (como venda dos frutos do pomar, das criações, dos porcos), ou fora do trabalho na terra (com negócios ou migração), ou com a renda gerada da terra (com a parceria). Se esses são os meios, a base sempre é o trabalho familiar, usado em seu limite máximo, e a terra explorada com sabedoria: estes garantindo a sobrevivência, que é o centro deste regime agrário; os outros, são meios articulados para criar a riqueza e ampliar o patrimônio. Os métodos para aumentar o patrimônio podem ser colocados em ordem de importância e procedência. Combinando estas duas ordens, vamos ter, ao final: - a migração, como um meio importante de acumular recursos, mas situado apenas no início da vida adulta e sem serventia desde o começo dos anos 80; - os negócios e os bens negociados da roça e pomar; negócios tem importância constante e crescente no correr da vida de todas as famílias; - a parceria, que é um meio de "ganhame" muito relevante para aqueles que possuem mais terra; - e a criação de gado, que é a síntese de todos esses processos, e a forma por excelência de entesourar e multiplicar a riqueza material. Para os lavradores, obviamente, essas ordens não estão apartadas, porque se misturam entre si, e os temas só aparecem destacados aqui para finalidades didáticas; só são dissociáveis se for feito um inventário rigoroso para estudar sua organização e sua hierarquia. Os agricultores sabem que existe constantemente expansão da riqueza: as modificações no patrimônio, por milimétricas que sejam, são constatadas por todos, o patrimônio cresce sem ninguém "sentir". Com a exceção da migração, todas as outras formas são identificadas com uma riqueza em crescimento "natural", que nunca surge exatamente como resultado de um trabalho orientado objetivamente para aquele fim, mas resultando de ações difusas, derivadas de intervenções da natureza mesma das coisas, escondida, apartada da vontade dirigida e da ação deliberada dos homens: como se fosse uma mágica. Mas não é só um produto de mágica. Em parte parece ser, porque são bens que surgem com uma participação muito grande do meio natural: gado criado solto, ganhando peso, produzindo leite, bezerros e valor; terra que produz frutos de venda, que antes de serem produtos do trabalho são produtos da terra; a terra criando a servidão dos parceiros, que subordina trabalhadores aparentemente por ser terra, e não pelas relações sociais que a envolvem. Em parte também não é um produto mágico, porque resulta de ações planificadas com rigor, embora sejam difusas no conjunto do trabalho da família. Migração Existem lavradores que saem do campo para sempre, existem outros que saem, ou saíram, por pouco tempo, para trabalhar em cidades e retornaram ao campo. Neste segundo tipo de migração rural-urbano, ou rural-rural, à saída corresponde um retorno; e este pode ser, e às vezes é, retorno com experiência, conhecimento e com um dinheiro que se transforma num capitalzinho para o começo da vida na terra. Essa saída e esse retorno geralmente têm uma grande influência sobre todo o futuro da família, modificando os estoques de gado, dinheiro, equipamentos e terra. A migração temporária, na zona da Mata de Minas é - ou foi - uma alternativa para começo de vida, para formar a terra, alavancar negócios e acrescentar uma experiência ao jovem que enfrenta o mundo. A migração temporária ao final da adolescência é - repetindo: ou foi - um acontecimento relativamente comum na vida de agricultores de várias outras regiões de Minas Gerais. Essas saídas tiveram suas épocas rendosas, que valeram dinheiro ao lavrador, além do sacrifício da viagem, do sofrimento da partida, da dureza dos serviços e das condições degradantes de vida, que às vezes encontravam nos postos de trabalho urbanos, clandestinos e desvalidos de direitos. Em geral, os lavradores que tentaram fazer dinheiro fora até a década de 70, deram-se bem, encontraram serviços rendosos e formaram a poupança que deu base ao patrimônio familiar. A redução no oferecimento de empregos a partir dos anos 80 teve um efeito retentor sobre migrações nessas comunidades da Zona da Mata. Mas, durante uma certa época, foi um bom negócio: "- Em 1968, com 20 anos, fui para São Paulo e trabalhei numa oficina. Ganhei bastante dinheiro lá e guardei tudo para cá. Lavava a própria roupa, cozinhava para mim mesmo, nem para o futebol não saía. Economizei quase tudo que ganhei. Também, era solteiro. De outra vez voltei lá e um irmão de Botelho foi comigo, mais um rapaz lá do Serrote (...). Mas eles não juntaram dinheiro não. Com o dinheiro que juntei comprei primeiro umas novilhas e depois com essas novilhas fui comprando mais coisas...". A mudança de tipo de trabalho, ambiente, e companheiragem, tudo fica menos importante, porque o lavrador é movido pelo interesse em conseguir dinheiro para alavancar sua vida e seu patrimônio. A viagem para São Paulo, nesse caso, foi com objetivo confesso de conseguir um recurso que a terra não forneceria, porque era muito pequena a gleba que herdava. Mas era costume porém, deixar casamento tratado, serviço pago para colher a roça que plantara, para encontrar no retorno a tulha cheia e a noiva de enxoval terminado. Este lavrador, herdando menos terra, conseguiu com a migração temporária dar um salto quantitativo que levaria anos para realizar com trabalho apenas no seu terreno. O serviço temporário na cidade fornece um bem que circula pouco nessa economia: dinheiro. Com o ganho líquido o rapaz aproveitava os bons negócios; gerenciando com tino o recurso que adquire na cidade, pode multiplicar seu patrimônio. Principalmente se for para o caso de resolver negócios familiares, quando é o cunhado que quer vender terra, ou o irmão que também quer migrar, o patrimônio formado no trabalho urbano é uma ferramenta poderosa na vida dos sitiantes. Mas é preciso deixar bem claro o papel histórico dessa migração temporária: ela só teve importância no começo da vida adulta e em determinado período da história recente do Brasil. Os pais e avós dos que hoje são senhores de meia-idade andaram bastante pelo mundo com tropas de burros e negócios variados. Mas isto não é a mesma coisa da viagem temporária para a cidade: num certo período, para muitos que herdavam pouca terra, migração temporária foi providencial para fugir a uma parceria pesada, que colocaria sobre os ombros do agricultor um contrato que naturalmente beneficiaria mais ao parceiro proprietário e não aliviaria muito o caminho do parceiro trabalhador. A viagem, portanto, com toda a dor da ruptura e o desagrado de outros lugares, foi em muitos casos um sofrimento menor e um resultado alcançado mais rapidamente, diante das dificuldades do trabalho como diarista eventual ou parceiro. E aí, é preciso analisar a segunda maneira de fazer patrimônio: a parceria. Parceria A parceria é uma relação estável de exploração de terra e tempo de trabalho sobrante. É um acerto de riscos iguais e contribuições equivalentes, mas não é uma relação entre iguais. Sempre é um acerto entre o proprietário de um sítio maior, que não pode utilizá-lo plenamente com lavoura ou roça, e um sitiante de menos terra (ou da família muito grande), ou um trabalhador sem terra que viva na comunidade rural como parceiro agregado de algum sitiante. Nessas comunidades a parceria serve, entre outras utilidades, para travar recursos e prender mais solidamente os homens à terra e uns aos outros. Primeiro, ela prende numa relação estável a força de trabalho da família do parceiro-trabalhador, que não pode ser totalmente absorvida no pequeno terreno familiar; ou fixa em um serviço, aqueles que não tem outra ocupação, no caso das famílias sem terra. Segundo, ela trava o dinheiro usado para comprar adubo, no caso das parcerias de café, e no próprio investimento de formação e custeio de lavoura feito pelo proprietário. Terceiro, ela aprisiona a terra, que vira objeto de uma relação estável, comprometida com aquele uso durante longos períodos. Por último, ela trava as relações, entre as pessoas, cimentando laços de parentesco, compadrio ou favor que ficam, com a parceria, transformados também em negócios. A parceria produz o sustento, ou parte dele, para o trabalhador. A meia no cafezal permite combinar a produção dos mantimentos plantados nas ruas de café com o dinheiro gerado pela venda do produto. Forma, portanto, um conjunto que dá sustento: dinheiro e comida, arrumados numa relação estável. Para o proprietário, a parceria produz outra coisa, e é aqui que ela aparece como geradora de renda. Em geral, o proprietário já explora o seu cafezal, "a lavoura", e sua lavoura de feijão, milho e arroz, "lavoura branca", como se diz. O terreno explorado com parceria faz uma "sobra" de mantimentos e café, e é uma "sobra" significativa porque acrescenta àquilo que ele já tem. A formação do cafezal que será dado em parceria é feito com trabalho familiar, aos poucos, nas folgas de tempo: as mudinhas tratadas na horta, o plantio ocupando área velha de cultura de mantimentos, até formar, devagarinho, de maneira que não onere a família. Feito o cafezal, ele é considerado um patrimônio, uma terra formada que deve, portanto, gerar renda. E renda que não é entendida somente como originária de um trabalho passado, mas criada pela força da natureza e da terra, que remunera a propriedade em si mesma. O parceiro trabalhador procura o acordo para não ser diarista eventual ou sistemático, O trato do cafezal, da lavoura branca e dos seus frutos, consome trabalho com uma regularidade muito parecida com aquela que existe no seu próprio sítio. A parceria trava força de trabalho, combinando e indiferenciando o tempo da sua própria lavoura e da lavoura parceria, no caso de proprietário; misturando os tempos e jornadas, e ocupando-os completamente entre as diversas parcerias, no caso de não-proprietários. Nunca é preciso alterar o ritmo do trabalho da família em sua própria carpa ou colheita, para cuidar da parte parceira; não quebra a continuidade dos trabalhos nem perturba as atribuições de cada um dos membros da família. O proprietário oferece a parceria para buscar a renda numa produção que a força da sua família não é suficiente para realizar. E produzir sistematicamente com assalariados, se fosse o caso, teria as suas dificuldades, porque haveria muitos pagamentos frequentes em dinheiro, o que é difícil numa economia de monetarização assistemática. Depois, gastaria muito tempo da família para vigiar o cumprimento do horário e do ritmo que ela gosta de impor à jornada dos diaristas; isso é desnecessário para o parceiro-trabalhador, que zela por sua própria renda. Por fim, os custos e preços desiguais do trabalho e do café, poderiam colocar o sitiante apurado nas horas de pagamento. O parceiro-trabalhador elimina todos estes problemas. Mesmo sendo uma relação de desiguais, que fornece a renda para um resultado de trabalho de outro, ela é legitimada dentro da cultura local, porque no centro do contrato está o trabalho, que é condição natural de todos os homens. E também porque é objeto de um contrato - igual - entre autônomos, um trabalho não assalariado, que confere ao trabalhador o poder de prever seu dispêndio e seu esforço, e distribuir este, conforme queira, no tempo e no espaço. Legitimada a relação de parceria, a terra cuida de esconder a desigualdade: a terra adquirida pelo suor da família proprietária elide a diferença que existe na distribuição dos frutos. O trabalho passado comanda trabalho presente porque a terra, que foi trabalho, produz a renda da terra: é meio legítimo de ganhar mais dinheiro. Ela é o fim de um esforço, que se tornou concreto, é um patrimônio: ponto final de um trabalho passado, e por isto base de uma renda futura. Negócios Esses agricultores estão sempre envolvidos em negócio. Negócio pequenos e grandes, compras ou vendas, com vizinhos ou com estranhos, negociando produtos da roça ou da cidade: "- Tudo dá negócio...", diz Itamar, ele mesmo meio-negociante sistemático, comprador de "sobras" de horta, quintal e mantimentos para vender nas mercearias. E o negócio é condição importante para renda porque seria muito difícil viver apenas das "sobras" anuais da roça ou da lavoura. A negociação frequente irriga as finanças, faz circular um pouco mais rapidamente o dinheiro numa economia de pouca liquidez e permitindo o acesso a muitos bens sem usar dinheiro, por meio de trocas. Os bons negócios fazem parte do cotidiano. Estão no caminho de uma visita, ou no acidente de um encontro entre dois lavradores: "- Ele estava (montado) nesta égua e eu ia passando com um milho para levar para os porcos lá no chiqueiro e ele falou que apreciava muito uns capadinhos. E ainda falou: - "Sabe que dá prejuízo sustentar porco com milho da gente? Porco come é do nosso trabalho..." Aí eu senti que ele queria era negociar, e eu não sabia direito era o que eu queria conseguir. E aí eu falei, falei mais é para valorizar o que é meu: - "Eu fui criado com gordura de porco e nunca que acostumei com óleo". Depois nós fomos conversando..." Acidentais ou sistemáticos, os negócios servem para dar acesso aos bens que se precisa e, por meio deles, se estocam ou se multiplicam, com uma enorme paciência, produtos que vem a ter sua serventia. É preciso reparar, também, que os negócios são ritualizados, porque aquele não é um mercado qualquer. Suas características são diferentes do mercado nacional e anônimo, embora seja no limite, orientado pela sinalização deste. Os negócios envolvem muita conversa, muita encenação, que não é desperdício, mas é uma confirmação de práticas e acertos históricos, que valorizam o sistema de viver naquela comunidade. Negociar não é apenas um meio de conseguir bens materiais. É também uma forma de confirmar laços, refazer amizades, complementar necessidades, e enfim, de viver em conjunto. É uma forma muito ativa de sociabilidade. Mas é preciso não esquecer que também é uma prática que dá bom resultados. O pessoal vai adquirindo o que precisa: porcos por gado, produtos por animais, animais por equipamentos, e vice-versa, e tudo isto por dinheiro, quando for preciso. Os negócios dependem das circunstâncias: "- Dei uma leitoa e dois capados pela charrete, aí fiquei com duas charretes. Peguei, dei as duas charretes, um potro, uma vaca, um revólver e mais sessenta arrobas de café, tudo num carro, um Fusca. Pensei: vou vender essas tralhas todas e ficar com um carro. Depois eu peguei o carro e troquei nestas vacas e agora eu estou assim, esperando ele, você sabe: já falei do negócio porque eu quero ver se compro aquela terra, e o preço das vacas paga o preço dela. Mas ele é velhaco..." Os negócios não são feitos apenas com bens de uso ou criação. A produção da roça e da lavoura também entra em muitas trocas e negociações: ela não é repartida entre o que é vendido ou não. Não há uma definição anterior daquilo que será negociado, não há diferença entre o que é consumo e o que é comércio. Com a exceção da lavoura de café, tudo que é plantado pode ser comido, vendido ou negociado em troca de outro bem. Quando pergunta-se sobre o que é vendido, os lavradores costumam responder que: "-Vende o que sobra". Mas, o conceito de "sobra" é muito relativo, porque determinados alimentos podem ser substituídos por outros, e as quantidades consumidas podem variar muito. Porcos ou galinhas, farinha de milho ou mandioca, laranjas ou bananas, são produtos intercambiáveis no consumo familiar, de maneira tal que o produto de venda pode crescer ou encolher, como pode também o alimento ser vendido numa época para ser recuperado noutra, por meio de troca produto-a-produto. Lidar com tantas trocas fornece aos lavradores um grande conhecimento de mercados, preços relativos e oportunidades. Cada família vende em detalhe aquilo que as fazendas e empresas rurais vendem em grosso: são duas formas diferentes de conviver com o mercado. As relações dos lavradores com o comércio, se não é mais estreita que as empresas, é, pelo menos, mais contínua, embora seja bastante envolvida em negaças é sutilezas. Os comércios de bens nos sítios são constantes, diversificados e, possivelmente, muito mais negociados, porque não são regulados apenas por um mercado nacional sinalizador, mas por uma enorme variedade de avaliações objetivas e subjetivas. Tudo serve para negócio e tudo ajuda a ampliar o capital da família, que cresce em bens, em estoques e em animais, não só por agregar mais trabalho, mas porque alguns bens e a própria terra gozam dessa capacidade autônoma de valorizar-se, que não resulta de um trabalho físico. Os bens se valorizam e se multiplicam nas mãos de quem sabe negociar. Principalmente nas mãos daquelas que sabem prever situações futuras, que sabem avaliar necessidades e disponibilidades suas e dos outros, que sabem adivinhar quando um produto vai render bons resultados em seu poder. Tudo dá negócio, tudo sempre é bom para trocas: menos dinheiro. Este, só às vezes. Dinheiro vivo é um dos bens que os lavradores acusam ser dos mais difíceis de lidar que existem. Ele ajuda, se aparece em momentos muito definidos, para ser imediatamente trocado por bens, serviços ou insumos que podem ser estocados. Mas o dinheiro tem uma ciência muito própria de circulação, que atropela, às vezes, o sistema de negociar dos lavradores. Porque o bom mesmo para aplicar bens, mercadorias e dinheiro, é o gado. Gado É o gado que rende, que facilita negócios, que pode ser estocado sem prejuízo. Porque, como definem: "- Gado é dinheiro andando". O gado é fácil de negociar, tem grande liquidez, é trocável por todos os bens; "- Tinha umas criaçõezinhas, vendi, comprei carro e depois de três anos vendi o carro e comprei gado de novo e agora que está apertando muito de pasto, estou ameaçando vender o gado e comprar outro carro, de novo." É quase uma moeda, serve de base para uma gama variada de avaliações. No entanto, é preciso saber que esse mercado de gado das comunidades é um pouco diferente, funciona meio à parte do mercado nacional de bovinos. Embora as sinalizações do mercado nacional orientem mais ou menos difusamente o, pode-se dizer, "mercado comunitário", o gado produzido nos sítios não obedece aos padrões de criação, peso e desempenho produtivo que vigoram no mercado geral. O gado dos sítios nunca é terminado, isto é, os machos não atingem o peso padrão de boi gordo (16 arrobas de peso morto); as fêmeas são escolhidas de acordo com critérios combinados de rusticidade e produtividade, prevalecendo o primeiro; o manejo de crias e os objetivos escolhidos por estes criadores fazem com que eles prefiram também um certo tipo de gado: fêmeas, jovens, rústicas, médias leiteiras, boas reprodutoras. Este é o padrão das comunidades, mas não é o padrão do mercado nacional de bovinos. Sua produção é orientada mesmo para as trocas vicinais ou o comércio, no máximo, com o açougue local, e isto não quer dizer de forma nenhuma que a liquidez do rebanho fique reduzida, pelo contrário, só serve para relativizá-la: é uma liquidez local, que funciona nos limites das comunidades rurais da região, balizada pelos preços que vigoram no mercado. Além de ter, portanto, tipificação e preços mais ou menos locais, o gado tem serventias de troca também meio particulares. É a principal base dos negócios: "- Estou criando estas novilhas e esperando elas para leite, é tudo cria nossa aqui mesmo. Mas elas estão para negócio, ou se apertar a gente faz negócio. Os garrotes também são para recria, mas se apertou a gente vende e se aparecer negócio a gente faz. Para ver: eu estava devendo para meu cunhado. Ele veio aqui e olhou um gado meu e ficou com ele, pela dívida. Sempre também tem um aperto de pasto, um aperto de dinheiro, vende para comprar um adubo, vende um garrote para comprar um adubo de café, estamos sempre vendendo ou trocando." Quita dívidas, baseia negócios, sustenta a lavoura; o gado ajuda também a família nas dificuldades ocasionais, como se fosse uma reserva, uma poupança. Os interesses nos produtos, aqui, vão surgindo mais separados, cada qual revelando para que serve. O mantimento é o sustento da casa, sai da roça e do trabalho coletivo da família, organizado para isto: é o centro do sistema de produção, tanto tem termos de ocupação de tempo (na produção e no preparo), quanto em termos de prioridade. Mas a família tem outras precisões, como o dinheiro para comprar os alimentos que não produz, para comprar insumos e para outras despesas. Aí é coberto com o dinheiro gerado pelo cafezal. E, por fim, a família possui um patrimônio - e aí está uma outra característica dos animais - que pode servir para reserva, negócio ou sustento: é o gado. Isto foi muito bem resumido por um entrevistado: "- Roça é comida, lavoura é dinheiro, gado é negócio." Desde a infância o gado faz parte da vida de todos. Os sitiantes em geral, adquiriram gado antes de conseguir terra; quase sempre o gado precede a terra, e, quanto mais terra se consegue, mais importante vai ficando o papel das criações. A primeira criação pode ser adquirida de várias maneiras, mas sempre é o marco para um processo de multiplicação. Pode ser também que o gado surja como resultado de um sobre-trabalho, feito num tempo de "sobra" ou pode ser resultado do trabalho fora. Um dos principais produtos da migração temporária é a compra de gado. Mas os objetivos da aquisição de gado não são os mesmos para todos os lavradores. Existem diferenças sutis de orientação, pois a serventia do rebanho no sítio e nas estratégias de vida são diferentes. É um engano acreditar que proprietários de 6 ou 30 hectares da mesma comunidade usam o rebanho da mesma forma. Embora possa ser sempre equivalente para negócios, o rebanho não é apenas isto, é mais, e varia de acordo com as diferenças de tamanho de terra. Nos sítios menores o rebanho tem a finalidade mais imediata de servir de reserva. É um valor significativo, que representa retaguarda para as dificuldades da família, e com a pequeneza da terra, os apertos do serviço, o gado é poupança, é a base firme para enfrentar os momentos de aperto ou precisão. Por isto, este gado não recebe muito cuidado ou seleção: recebe pasto e fica na espera para as ocasiões em que pode salvar seu dono de uma situação difícil. Criação, reprodução, aqui, é quase incidental. Importa mesmo é o gado como reserva. Para outro grupo de lavradores que possui áreas de terra acima de uns 10 hectares, a situação é diferente. Mais terra, mais oportunidades, mais gado. A criação aqui é base para negócios, para ser multiplicada, para acumular em gado e terra. O lavrador, neste caso, investe no rebanho mais jovem, que exige menos área de pastagem e, ao mesmo tempo, é um capital mais repartido, mais flexível, mais fácil de ser multiplicado. A troca de um gado mais erado por outro mais novo, o aproveitamento das oportunidades de negócio, nada escapa desses produtores que usam o gado para fazer mais patrimônio. O gado pequeno posto no sítio, a terra transforma em grande. A natureza estica a criação, melhora a renda e o patrimônio, sem serviço. Estes lavradores calculam muito, porque tudo para eles vai virando gado. Mas ainda existe um outro tipo de lavrador, que, sem deixar de lado roça e lavoura, pode tocar mais criação. São aquelas que estão numa faixa acima de uns 20 hectares de terra, com área garantida para renda de parceria e pastagem para cria e recria. Daí já é um lavrador que retira boa parte do seu sustento do gado mesmo: é um criador, sem deixar de ser lavrador; por isto faz seu gado, negocia menos, mantém um rebanho adulto, porque seu produto é leite e bezerro. Mas, não deixa de negociar. A diferença é que negócio de compra, venda e troca não é o centro do seu sistema; seu gado é mais estável e mais escolhido. O manejo do gado é diferenciado entre esses lavradores. Nas áreas menores é muito difícil criar gado, falta pastagem. Nos sítios entre uns 10 a 20 hectares, essas possibilidades também são limitadas, e o que se cria dá uma quantidade constante de trabalho: independente de serem 5 ou 10 cabeças, o trato do pasto e do gado é o mesmo. E, sendo gado de negócio, o trabalho com o gado, sua apuração, é um tempo desperdiçado. Quem cria é a natureza: "- Não fiz nenhuma repartição de pastos nos 2 lotes e o gadinho anda solto. É difícil dar descanso em pasto. Uma vaca pariu aqui eu não tinha o tempo, dei o leite para meu vizinho, para ele cuidar do bezerro. O gado do outro terreno Deus toma conta..." A terra é que recria o gado, zelado por um retireiro divino: a característica da criação para estes lavradores é fornecer base para trocas, uma base que cresce por si só, se expande pelo tempo que pasteja no gordura. Sistemas de criação com maior ou menor zelo, não tem a ver apenas com o tamanho da terra, mas também com o próprio gado, porque ele é base de negócio para conseguir mais terra e isto explica os diferentes usos do rebanho. O gado trocado, criado à vontade, negociado amiúde, é parte da acumulação para a aquisição de mais terreno. Quando ele aumenta, o lavrador pode ir se estabilizando como criador. Mas o gado é o começo. Essas diferenças grandes de orientação do rebanho nos sítios significam um complicador para a formulação de propostas de trabalho técnico junto aos lavradores na área de criação. As propostas de intervenção dificilmente podem contemplar os interesses distintos que envolvem o gado: quem quer rebanho para negócio não se interessa muito por fertilidade e intervalo entre pastos; quem usa o gado como poupança, pouco pode fazer para melhorar sua alimentação com capineiras ou concentrados. Esses interesses tão distintos revelam as dificuldades para estabelecer um programa técnico de trabalho na área zootécnica. Quem tem o gado quer a terra: o terreno recria o gado, que trocado por mais gado, e recriado, etc., produz mais terra. Não entra aí o trabalho da família, porque ele fica guardado para o sustento da roça e a renda da lavoura; e as "sobras" apuradas vão para o gado, que, de novo, se espera, produza mais "sobras", e, por fim, terra. Aí entra o plano, o cálculo demorado que o lavrador faz, estudando suas chances de economizar, de recriar e finalmente de adquirir. Principalmente se for para comprar terra de herança comum (irmão ou cunhado), ele passa vários anos cortando despesas, arrumando receitas, negociando gado, para ir comprando aos bocadinhos, porque em geral, quanto mais compra, mais base consegue para tornar a comprar. A diferença deste para outros regimes agrários é que os recursos de compra da terra raramente saem do centro do sistema de produção e do maior esforço familiar - a roça e a lavoura - e sim da sua periferia, de uma produção de menores gastos e ocupações de tempo: o gado; por meio de uma atividade que parece ser feita ao acaso, ao sabor da sorte: os negócios. É uma combinação de cálculo - que envolve: disponibilidades, recursos, prazos, demandas e oportunidades -, sorte - para a boa saúde do gado e da família, para que apareçam as transações que precisa fazer com o gado e outros bens -, esperteza - para reconhecer a boa sorte, saber espichar os prazos, conseguir levar a cabo uma rede de trocas vantajosas sem desagradar ninguém na comunidade -, e muito serviço - para manter funcionando o sustento diário da família, continuar fazendo "sobras" e poder sempre estar comprando "um gadinho". A terra e o gado são os resultados finais de todas essas tramas de negócios, lavouras e trabalho. No entanto, olhando a paisagem dos sítios da Mata mineira dificilmente consegue-se ver isto. Se vê o café, que está nos morros, está na renda em dinheiro da família, está na fala da CEB e do Sindicato por causa do preço e das crises. Na verdade, porém, o café é um falso centro de atenções, principalmente nos anos de crise. Ocupa parte pequena do serviço familiar, não é condição fundamental de sobrevivência e alimentação da família, e, mesmo sendo a principal fonte regular de dinheiro, não é o motor do crescimento do patrimônio, que é constituído por uma série de "sobras" e materializado no gado. O café possui uma utilidade muito bem definida: é a fonte de receita em dinheiro, que serve para fazer frente às despesas ordinárias, para a compra de adubo e o pagamento de companheiros. Mas o cuidado com o cafeeiro, o serviço que ele consome, é diluído no meio da lavoura branca, porque o milho e o feijão são plantados dentro dele, e o adubo é posto, nas águas, nas covas dos mantimentos, e a capina do milho e feijão das águas é feita ao mesmo tempo que se limpa o cafezal. Qual é o produto principal: o café ou os mantimentos? É muito difícil responder, porque boa parte dos cuidados são para uns e outros, ao mesmo tempo. Mas o que se sabe mesmo é que café é para dar dinheiro e pagar despesas e lavoura branca é para comer e vender as "sobras". Por um lado, o dinheiro vindo do café custeia o adubo e o diarista que trabalha na lavoura branca; por outro, os mantimentos que são produzidos na lavoura branca mantém a força de trabalho familiar que cuida do cafeeiro. O "campesinismo" da produção de mantimentos sustenta a produção "integrada" de café, e vice-versa, servindo para mostrar que estas separações não podem ser feitas, nem sequer no plano formal, porque na verdade o sitiante sintetiza muitas ambiguidades que a teoria dificilmente dá conta de explicar. Olhando de longe, então, fica mais difícil ainda explicá-los. O café até confere aparências de um campesinato "integrado", "moderno". Pode até parecer que ele fornece uma cara diferente ao lavrador. Na verdade, uma forma particular de lidar com bens e força de trabalho dirige tudo; o sítio está muito longe de ser uma empresa. 5. Considerações finais O estudo das unidades familiares da Mata mineira mostra como pode ser flexível a pauta de produtos, como é dinâmica a comunidade, como é determinante a ocupação familiar. Possibilidades de uso diferentes da força familiar são muito reduzidos, e por isto seu consumo é guiado por um zelo extremo, cuidadoso. Não pode fugir muito da produção, elaboração e preparo de alimentos: por isto, toda fuga é planejada. Só cabem lá atividades que dão retorno efetivo, que dão sustento, que se explicam ali mesmo; ou aquelas que recebem apenas um zelo difuso, embora calculado, para produzir como se fosse por mágica; e aquelas outras de cuidado permanente como a luta na CEB, no Sindicato e no Partido, que fazem parte, elas também, da magia e do cálculo. Alternativas diferentes de combinação de recursos são bastante restritas dentro deste sistema baseado em trabalho. No horizonte atual, os caminhos para a geração de mais bem-estar - não necessariamente de mais renda - somente seriam alcançados com a introdução de técnicas poupadoras de trabalho. Dessa maneira, a força de trabalho familiar poderia ganhar uma "folga" relativa para ser realocada em novas atividades, ou, então, intensificaria o esforço nas atividades já existentes, para conseguir aumento de produção. Secundariamente, talvez fosse possível pensar em técnicas: 1o.) que aumentassem o rendimento das plantas, 2o.) que aumentassem o rendimento da terra e 3o.) que aumentassem a rusticidade dos animais. E, para criar condições para uma reprodução menos penosa dos lavradores da Mata e do Brasil, seria preciso uma nova política fundiária e uma ampla reforma agrária. Mantidas as atuais circunstâncias dos preços, dos negócios e do tamanho do patrimônio, com ausência de acesso a créditos, todas as novas técnicas tem que ser fornecidas ao sítio sem aumento de custos monetários e, principalmente, sem gasto adicional de força de trabalho familiar. Sem pessimismo quanto às possibilidades de mediadores e técnicos introduzirem nos sítios novas técnicas com estas características, é possível que o único meio de fazer isto seja através de mágica. Mas este ramo os lavradores dominam muito melhor que todos os técnicos juntos, conforme deve ter ficado demonstrado no correr deste texto. 6. Bibliografia citada GARCIA JÚNIOR, A.R. Terra de trabalho. RJ, Paz e Terra, 1983. HEREDIA, B.A. A morada da vida. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979. KAUTSKY, K. A questão agrária. Porto, Portucalense, 1972. LOVISOLO, H.R. Terra, trabalho e capital. Campinas, Editora da Unicamp, 1988. MARTINS, J.S. Os camponeses e a política no Brasil. Petropólis, Vozes, 1981. MICHELET, J. O povo. SP, Martins Fontes, 1988. SANTOS, J.V.T. dos. Colonos do vinho. São Paulo, Hucitec, 1978.