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AS AÇÕES DE SAÚDE NO JUDÔ: ATUAÇÃO DO INTERNATO
METROPOLITANO DA FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DE MINAS
GERAIS NO PROJETO JUDÔ COMUNITÁRIO - BELO HORIZONTE, MG
ÁLVARO LUIZ LAGE ALVES (*)
ANA PAULA PINHEIRO CHAGAS FERNANDES (**)
MARIA LETÍCIA GAMBOGI TEIXEIRA (***)
RENATO CASSINI MARQUES (***)
RESUMO
Os autores descrevem as atividades de integração entre o Internato Metropolitano da Faculdade de Ciências Médicas
de Minas Gerais - FCMMG e o Projeto Judô Comunitário. Resgatam a evolução desta modalidade esportiva destacando seus
principais aspectos históricos. Apresentam os dados relacionados às condições de saúde dos judocas do Projeto e concluem
que a maioria se encontrava em estado nutricional satisfatório e com condições favorecedoras à prática do esporte. Encerram
comentando sobre os aspectos de saúde relacionados ao judô presentes na literatura.
DESCRITORES: Judô; cuidados de saúde.
SUMMARY
HEALTH CARE AND JUDO: COLABORATION BETWEEN THE METROPOLITAN INTERNSHIP OF
FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DE MINAS GERAIS AND THE JUDO COMMUNITY PROJECT BELO HORIZONTE, MG
The authors describe the activities developed in the Judo Community Project during the Metropolitan Internship of
the College of Medical Sciences of Minas Gerais. The evolution of this sport is done with special attention to the historical
aspects. Some data reporting the judoka’s health conditions are presented. The data analysis show that these athletes have a
good nutritional status, having good conditions for the judo practice. They finish this report with a brief literature review of
the health aspects related to judo.
KEY WORDS: Judo, health care.
1. INTRODUÇÃO
O judô é uma arte marcial que foi metodizada
no Japão, à partir do jiu-jitsu, por Jigoro Kano, no
ano de 1882. Atualmente é o segundo esporte mais
praticado no mundo. A sua prática coloca em atividade
os músculos, nervos e intelecto, ativa todos os
seguimentos do corpo, com ações de todos os modos e
em todas as direções, estimula o equilíbrio entre o físico
e o psíquico e favorece a aquisição de força e
flexiblidade.
Kano era decano na Faculdade de Treinamento
de Professores. Após desenvolver o judô, fundou a
academia Kodokan e propôs a inserção do judô nas
atividades de Educação Física. Ao comprovar os
benefícios do judô, o esporte passou a ser obrigatório
em todas as escolas do Japão.
Posteriormente, alguns europeus treinaram na
Kodokan, tornaram-se professores de judô e
contribuiram para a difusão do esporte, principalmente
na Alemanha, Itália, Inglaterra e França. A difusão se
estendeu posteriormente para Holanda, Bélgica, Cuba
e América do Sul. Contribuição fundamental para o
sucesso desta difusão foi oferecida pelo Professor
Kawaishi que ao percorrer diversos países da Europa
e América formou um número apreciável de novos
professores. Nas primeiras décadas do século XX, o
judô se organizou e seu aspecto educativo tornou-se
atraente para as pessoas. O meio científico europeu
passou a se interessar pela sua prática devido ao fato
de um indivíduo de menor porte físico poder vencer
um de maior, além do seu aspecto educativo.
A Federação Internacional de Judô – FIJ foi
criada em 1951, com filiação de 19 países. Em 1956,
foi realizado, em Tóquio, o primeiro campeonato
mundial, envolvendo 31 países. Nas Olimpíadas de
1964, também realizada no Japão, o judô foi aprovado
como esporte de demonstração e, por ironia, o campeão
absoluto foi o holandês Geesink. Em 1972, nas
Olimpíadas de Munique, o esporte foi aprovado como
olímpico e mais uma vez, o destaque foi um holandês.
Somente vinte anos mais tarde, a hegemonia do judô
* Professor da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais e da Faculdade de Medicina da Universidade de Alfenas.CP23, CEP 37130-000 Alfenas-MG
**Professora da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais.
*** Discente do 5º ano de Medicina da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais.
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nas Olimpíadas passou a ser do Japão, tendo sido
obtida por Yamashita.
O primeiro campeonato mundial para
mulheres foi realizado apenas em 1980 e contou com
a participação de 150 atletas provenientes de 27 países.
O Comitê Olímpico Internacional – COI aprovou a
participação das mulheres nas Olimpíadas de
Barcelona (1992), porém em caráter excepcional. A
hegemonia feminina, principalmente nos anos 80, foi
da belga Ingrid Berghmans.
Em Belo Horizonte, a Federação Mineira de
Judô desenvolve, desde 1990, o Projeto Judô
Comunitário. O Projeto se destina ao ensinamento das
práticas do judô às crianças e adolescentes oriundas
de famílias supostamente oprimidas. Conta com o
apoio do Judô Elefante Branco, academia que fornece
os instrutores, e também da Nutril - Nutrimentos,
entidade privada que oferece uma cesta mensal de
alimentos a cada atleta.
O Internato Metropolitano da Faculdade de
Ciências Médicas de Minas Gerais - FCMMG teve
início, como estágio curricular, no ano de 1989. Tratase de um estágio destinado aos acadêmicos do 5º ano
de Medicina que se encontram impossibilitados de
cumprir as atividades do Internato Rural no interior
de Minas Gerais. Possui o objetivo de participar da
construção do Sistema Único de Saúde - SUS na região
Metropolitana de Belo Horizonte, através do
cumprimento de ações preventivas e coletivas de saúde
dirigidas, principalmente, às comunidades carentes. O
contato entre os professores do Judô Comunitário e
do Internato Metropolitano permitiu a percepção da
igualdade de objetivos dos dois projetos e propiciou a
integração entre suas atividades. O presente artigo,
além de resgatar a história do judô, relata as ações de
saúde desenvolvidas pelos acadêmicos de Medicina
durante esta integração e revisa alguns aspectos de
saúde relacionados à prática desta modalidade
esportiva.
2.MATERIAL E MÉTODOS
Inicialmente, foi realizada uma revisão da
literatura nas bases de pesquisa Medline e Lilacs em
busca de artigos apresentando os aspectos de saúde
relacionados ao judô.
Entre os dias 15 de julho e 30 de setembro de
1998, todos os atletas participantes do Projeto Judô
Comunitário foram submetidos à anamnese e exame
físico. As anamneses foram realizadas através do
preenchimento de questionários semi-estruturados e
os exames físicos em um consultório organizado no
próprio local de treinamento.
Foram investigados sexo, idade, escolaridade,
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peso ao nascer, tempo de aleitamento materno
exclusivo, desenvolvimento psicomotor, alimentação,
uso de medicamentos, condições de saneamento
domiciliar, patologias pregressas, incidência de
parasitoses e medidas de peso e altura.
As informações foram obtidas dos pais dos
atletas ou de responsáveis diretos. As avaliações de
peso e altura foram realizadas com uma balança
antropométrica. As parasitoses foram investigadas
através de exames parasitológicos de fezes - EPF, sendo
as fezes colhidas em Mercúrio-Iodo-Formol - MIF e
examinadas pelo método de Hoffman-Pons-Janner. Os
demais dados foram obtidos através do exame físico.
A avaliação do estado nutricional foi realizada
em 23 atletas, através de exame físico e das medidas
de peso e altura. Para determinação dos percentis de
peso e altura, foram utilizados os gráficos de
crescimento e desenvolvimento pubertário em crianças
e adolescentes brasileiros de acordo com o sexo
(Marcondes et al., 1991). Em relação ao peso, aqueles
atletas abaixo do percentil 10 foram considerados
desnutridos. Aqueles entre os percentis 10 e 50 e acima
do percentil 50 foram considerados com estado
nutricional satisfatório. Os atletas foram também
estudados com relação à altura tendo sido considerados
com baixa estatura aqueles abaixo do percentil 10 e
normais quanto à estatura aqueles entre os percentis
10 e 50 e acima do percentil 50.
Os dados foram inseridos no Programa EpiInfo, versão 6.04b, e as medidas de variabilidade
determinadas.
3.RESULTADOS
Quatorze atletas eram do sexo masculino e
nove do feminino. A idade variou de quatro a 14 anos,
com média de 9.3. Quatro atletas (19.0%) cursavam
o pré-escolar e os demais (19; 81.0%) o primeiro grau.
Três (13.04%) atletas pesaram menos de
2.500g ao nascer. Foram relatados cinco casos de
prematuridade. Cinco (23,8%) atletas não receberam
leite materno exclusivo e não foi possível obter
informações de dois. Dos 16 (76,2%) que
amamentaram, a duração da amamentação variou de
um a nove meses, com média de 2.7 meses.
Todos os atletas residiam em moradias
servidas de água tratada, luz e esgoto. Todos tiveram
o desenvolvimento psicomotor considerado
satisfatório, assim como a alimentação. Quanto ao uso
de medicamentos, apenas dois (8,7%) faziam uso
regular, ambos de corticóide inalatório.
Com relação às patologias pregressas, oito
(34,8%) possuíam história passada de pneumopatias,
AS AÇÕES DE SAÚDE NO JUDÔ: ATUAÇÃO DO INTERNATO METROPOLITANO DA...
um (4,3%) de hérnia epigástrica (corrigida aos sete
anos de idade) e um (4,3%) de hérnia inguinal
(corrigida no primeiro mês de vida). Dois (8,7%)
atletas relataram ter sofrido fratura de membro
superior, sendo um (4,3%) deles há menos de um ano.
Quinze atletas tiveram suas fezes examinadas
sendo que três (20,0%) apresentavam amebíase (um
deles com giardíase associada).
Uma atleta (4,3%) portava sinéquia de
pequenos lábios, dois (8,7%) apresentavam sopro
sistólico inocente e um (4,3%) apresentava
desdobramento de B2 durante os exercícios.
Quanto à altura, dos 23 atletas avaliados, três
estavam abaixo do percentil 10 (13.0 %), oito entre os
percentis 10 e 50 (34.8 %) e 12 acima do percentil 50
(52.2 %). Quanto ao estado nutricional, um atleta se
situava no gráfico de peso abaixo do percentil 10 (4.3
%), oito entre os percentis 10 e 50 (34.8 %) e 14 acima
do percentil 50 (60.9 %). Destaca-se que o único atleta
abaixo do percentil 10 no gráfico de peso também
estava abaixo do percentil 10 no gráfico de altura.
4.DISCUSSÃO
Apesar da maior parcela dos atletas
participantes do Projeto Judô Comunitário serem do
sexo masculino, a presença de praticamente 40.0% de
atletas do sexo feminino demonstra a crescente
participação das mulheres nas diversas modalidades
esportivas. A média de idade encontrada correspondeu
à pré-adolescência.
Destaca-se o fato de que um percentual
significativo de atletas não se haviam alimentado de
leite materno, assim como o encontro de uma baixa
média de tempo de amamentação. Isto sugere a
ocorrência de desmame precoce na amostra estudada.
Considerando que todos os atletas residiam
em casas com boas condições de saneamento básico,
possuíam alimentação considerada satisfatória,
apresentavam baixa prevalência de parasitoses
intestinais e que a maioria se encontrava em estado
nutricional satisfatório, sugere-se que, apesar de
supostamente oriundos de classes desfavorecidas, eles
possuíam condições favorecedoras à prática do esporte.
Com respeito às patologias pregressas
investigadas, os relatos de hérnia epigástrica e
umbilical corrigidas e de fratura do membro superior
potencialmente dificultariam o desempenho dos atletas
na prática do judô. Entretanto, à epoca da investigação,
nenhum deles possuía alguma dificuldade para a
execução dos exercícios.
Os passos requeridos para que os atletas
alcancem o rendimento máximo para competições
foram descritos por Lima (1992). Ele enfatizou a
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importância de uma programação individual baseada
em um diagnóstico completo das condições prévias de
cada atleta e destacou a necessidade da utilização de
testes morfofuncionais, cineantropométricos e de
estudos funcionais.
Little et al. (1991) investigaram a performance
física de judocas femininos júnior e sênior e de
masculinos juvenil, júnior e sênior. O programa de
testes incluiu força estática, flexibilidade, poder
aeróbico máximo e capacidade e poder anaeróbico
máximo. Eles concluíram que, para a participação em
competições de alto nível, o desenvolvimento dos
atletas é dependente de rendimento técnico apoiado
por altas médias de resistência, flexibilidade e força.
Kujala et al. (1995) analisaram 54.186 lesões
agudas ocorridas durante a prática de seis modalidades
esportivas. Encontraram uma relação proporcional
entre a frequência de lesões e o contato corporal entre
os atletas. As taxas de lesões entre judocas jovens do
sexo feminino foram mais altas que nas demais
modalidades, provavelmente devido ao fato destas
serem minoria nas academias e habitualmente
treinarem com atletas do sexo masculino. Entre todos
os judocas, as lesões mais frequentes foram as torções
e distensões. As articulações mais acometidas foram
a do joelho seguida do tornozelo.
Um método de bandagem com uso de fita
adesiva foi descrito e ao ser utilizado por judocas com
instabilidade do tornozelo se mostrou mais eficaz que
o método de bandagem tradicional (realizada com faixa
crepom), eliminando a inclinação talar e reforçando
as estruturas do tornozelo durante os combates
(Yamamoto et al., 1993). Owens e Ghadiali (1991),
ao relatarem um caso de distúrbio de memória em
judoca, comentaram sobre a possibilidade de dano
cerebral anóxico provocado por manobras de
estrangulamento e recomendaram prudência na
execução da referida técnica.
Matsumoto et al. (1997) investigaram e
compararam o estado metabólico ósseo em 103 atletas
de judô, natação e atletismo, de ambos os sexos. A
densidade óssea mineral total e um dos marcadores
urinários de reabsorção óssea foram significativamente
maiores nos judocas do que nos atletas das demais
modalidades esportivas. Eles concluíram que, em
decorrência das elevadas demandas, o estado de troca
metabólica óssea é maior nos judocas.
Kriegel (1998) descreveu a experiência e os
efeitos de seis anos de prática do judô em um
ambulatório de reabilitação de crianças com asma
brônquica. Eles enfatizaram o efeito facilitador do judô
para a integração com a comunidade e a sua
contribuição na valorização da personalidade e no
crescimento de crianças portadoras de patologias
crônicas.
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Á. L. L. ALVES et al.
Dados apresentando os aspectos de saúde
relacionados ao judô são escassos na literatura médica.
Certamente, o Projeto Judô Comunitário vem
oferecendo à população carente de Belo Horizonte a
oportunidade da prática esportiva do judô, com um
intuito de aperfeiçoamento físico, mental e moral.
Acreditamos que a integração com o Internato
Metropolitano da FCMMG, além de propiciar o
benefício dos atletas quanto ao diagnóstico de saúde,
forneceu orientações educativas e preventivas e
permitiu o relato de uma nova experiência.
AGRADECIMENTOS
Aos mestres Antônio Oliveira Costa e Afonso
Salvador da Costa, idealizadores e coordenadores do
Projeto Judô Comunitário, por propiciarem as
condições para a realização deste trabalho.
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as ações de saúde no judô - Associação de Judô Ombros de Gigantes