47 AS AÇÕES DE SAÚDE NO JUDÔ: ATUAÇÃO DO INTERNATO METROPOLITANO DA FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DE MINAS GERAIS NO PROJETO JUDÔ COMUNITÁRIO - BELO HORIZONTE, MG ÁLVARO LUIZ LAGE ALVES (*) ANA PAULA PINHEIRO CHAGAS FERNANDES (**) MARIA LETÍCIA GAMBOGI TEIXEIRA (***) RENATO CASSINI MARQUES (***) RESUMO Os autores descrevem as atividades de integração entre o Internato Metropolitano da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais - FCMMG e o Projeto Judô Comunitário. Resgatam a evolução desta modalidade esportiva destacando seus principais aspectos históricos. Apresentam os dados relacionados às condições de saúde dos judocas do Projeto e concluem que a maioria se encontrava em estado nutricional satisfatório e com condições favorecedoras à prática do esporte. Encerram comentando sobre os aspectos de saúde relacionados ao judô presentes na literatura. DESCRITORES: Judô; cuidados de saúde. SUMMARY HEALTH CARE AND JUDO: COLABORATION BETWEEN THE METROPOLITAN INTERNSHIP OF FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DE MINAS GERAIS AND THE JUDO COMMUNITY PROJECT BELO HORIZONTE, MG The authors describe the activities developed in the Judo Community Project during the Metropolitan Internship of the College of Medical Sciences of Minas Gerais. The evolution of this sport is done with special attention to the historical aspects. Some data reporting the judoka’s health conditions are presented. The data analysis show that these athletes have a good nutritional status, having good conditions for the judo practice. They finish this report with a brief literature review of the health aspects related to judo. KEY WORDS: Judo, health care. 1. INTRODUÇÃO O judô é uma arte marcial que foi metodizada no Japão, à partir do jiu-jitsu, por Jigoro Kano, no ano de 1882. Atualmente é o segundo esporte mais praticado no mundo. A sua prática coloca em atividade os músculos, nervos e intelecto, ativa todos os seguimentos do corpo, com ações de todos os modos e em todas as direções, estimula o equilíbrio entre o físico e o psíquico e favorece a aquisição de força e flexiblidade. Kano era decano na Faculdade de Treinamento de Professores. Após desenvolver o judô, fundou a academia Kodokan e propôs a inserção do judô nas atividades de Educação Física. Ao comprovar os benefícios do judô, o esporte passou a ser obrigatório em todas as escolas do Japão. Posteriormente, alguns europeus treinaram na Kodokan, tornaram-se professores de judô e contribuiram para a difusão do esporte, principalmente na Alemanha, Itália, Inglaterra e França. A difusão se estendeu posteriormente para Holanda, Bélgica, Cuba e América do Sul. Contribuição fundamental para o sucesso desta difusão foi oferecida pelo Professor Kawaishi que ao percorrer diversos países da Europa e América formou um número apreciável de novos professores. Nas primeiras décadas do século XX, o judô se organizou e seu aspecto educativo tornou-se atraente para as pessoas. O meio científico europeu passou a se interessar pela sua prática devido ao fato de um indivíduo de menor porte físico poder vencer um de maior, além do seu aspecto educativo. A Federação Internacional de Judô – FIJ foi criada em 1951, com filiação de 19 países. Em 1956, foi realizado, em Tóquio, o primeiro campeonato mundial, envolvendo 31 países. Nas Olimpíadas de 1964, também realizada no Japão, o judô foi aprovado como esporte de demonstração e, por ironia, o campeão absoluto foi o holandês Geesink. Em 1972, nas Olimpíadas de Munique, o esporte foi aprovado como olímpico e mais uma vez, o destaque foi um holandês. Somente vinte anos mais tarde, a hegemonia do judô * Professor da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais e da Faculdade de Medicina da Universidade de Alfenas.CP23, CEP 37130-000 Alfenas-MG **Professora da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. *** Discente do 5º ano de Medicina da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. R. Un. Alfenas, Alfenas, 5:47-50, 1999 48 Á. L. L. ALVES et al. nas Olimpíadas passou a ser do Japão, tendo sido obtida por Yamashita. O primeiro campeonato mundial para mulheres foi realizado apenas em 1980 e contou com a participação de 150 atletas provenientes de 27 países. O Comitê Olímpico Internacional – COI aprovou a participação das mulheres nas Olimpíadas de Barcelona (1992), porém em caráter excepcional. A hegemonia feminina, principalmente nos anos 80, foi da belga Ingrid Berghmans. Em Belo Horizonte, a Federação Mineira de Judô desenvolve, desde 1990, o Projeto Judô Comunitário. O Projeto se destina ao ensinamento das práticas do judô às crianças e adolescentes oriundas de famílias supostamente oprimidas. Conta com o apoio do Judô Elefante Branco, academia que fornece os instrutores, e também da Nutril - Nutrimentos, entidade privada que oferece uma cesta mensal de alimentos a cada atleta. O Internato Metropolitano da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais - FCMMG teve início, como estágio curricular, no ano de 1989. Tratase de um estágio destinado aos acadêmicos do 5º ano de Medicina que se encontram impossibilitados de cumprir as atividades do Internato Rural no interior de Minas Gerais. Possui o objetivo de participar da construção do Sistema Único de Saúde - SUS na região Metropolitana de Belo Horizonte, através do cumprimento de ações preventivas e coletivas de saúde dirigidas, principalmente, às comunidades carentes. O contato entre os professores do Judô Comunitário e do Internato Metropolitano permitiu a percepção da igualdade de objetivos dos dois projetos e propiciou a integração entre suas atividades. O presente artigo, além de resgatar a história do judô, relata as ações de saúde desenvolvidas pelos acadêmicos de Medicina durante esta integração e revisa alguns aspectos de saúde relacionados à prática desta modalidade esportiva. 2.MATERIAL E MÉTODOS Inicialmente, foi realizada uma revisão da literatura nas bases de pesquisa Medline e Lilacs em busca de artigos apresentando os aspectos de saúde relacionados ao judô. Entre os dias 15 de julho e 30 de setembro de 1998, todos os atletas participantes do Projeto Judô Comunitário foram submetidos à anamnese e exame físico. As anamneses foram realizadas através do preenchimento de questionários semi-estruturados e os exames físicos em um consultório organizado no próprio local de treinamento. Foram investigados sexo, idade, escolaridade, R. Un. Alfenas, Alfenas, 5:47-50, 1999 peso ao nascer, tempo de aleitamento materno exclusivo, desenvolvimento psicomotor, alimentação, uso de medicamentos, condições de saneamento domiciliar, patologias pregressas, incidência de parasitoses e medidas de peso e altura. As informações foram obtidas dos pais dos atletas ou de responsáveis diretos. As avaliações de peso e altura foram realizadas com uma balança antropométrica. As parasitoses foram investigadas através de exames parasitológicos de fezes - EPF, sendo as fezes colhidas em Mercúrio-Iodo-Formol - MIF e examinadas pelo método de Hoffman-Pons-Janner. Os demais dados foram obtidos através do exame físico. A avaliação do estado nutricional foi realizada em 23 atletas, através de exame físico e das medidas de peso e altura. Para determinação dos percentis de peso e altura, foram utilizados os gráficos de crescimento e desenvolvimento pubertário em crianças e adolescentes brasileiros de acordo com o sexo (Marcondes et al., 1991). Em relação ao peso, aqueles atletas abaixo do percentil 10 foram considerados desnutridos. Aqueles entre os percentis 10 e 50 e acima do percentil 50 foram considerados com estado nutricional satisfatório. Os atletas foram também estudados com relação à altura tendo sido considerados com baixa estatura aqueles abaixo do percentil 10 e normais quanto à estatura aqueles entre os percentis 10 e 50 e acima do percentil 50. Os dados foram inseridos no Programa EpiInfo, versão 6.04b, e as medidas de variabilidade determinadas. 3.RESULTADOS Quatorze atletas eram do sexo masculino e nove do feminino. A idade variou de quatro a 14 anos, com média de 9.3. Quatro atletas (19.0%) cursavam o pré-escolar e os demais (19; 81.0%) o primeiro grau. Três (13.04%) atletas pesaram menos de 2.500g ao nascer. Foram relatados cinco casos de prematuridade. Cinco (23,8%) atletas não receberam leite materno exclusivo e não foi possível obter informações de dois. Dos 16 (76,2%) que amamentaram, a duração da amamentação variou de um a nove meses, com média de 2.7 meses. Todos os atletas residiam em moradias servidas de água tratada, luz e esgoto. Todos tiveram o desenvolvimento psicomotor considerado satisfatório, assim como a alimentação. Quanto ao uso de medicamentos, apenas dois (8,7%) faziam uso regular, ambos de corticóide inalatório. Com relação às patologias pregressas, oito (34,8%) possuíam história passada de pneumopatias, AS AÇÕES DE SAÚDE NO JUDÔ: ATUAÇÃO DO INTERNATO METROPOLITANO DA... um (4,3%) de hérnia epigástrica (corrigida aos sete anos de idade) e um (4,3%) de hérnia inguinal (corrigida no primeiro mês de vida). Dois (8,7%) atletas relataram ter sofrido fratura de membro superior, sendo um (4,3%) deles há menos de um ano. Quinze atletas tiveram suas fezes examinadas sendo que três (20,0%) apresentavam amebíase (um deles com giardíase associada). Uma atleta (4,3%) portava sinéquia de pequenos lábios, dois (8,7%) apresentavam sopro sistólico inocente e um (4,3%) apresentava desdobramento de B2 durante os exercícios. Quanto à altura, dos 23 atletas avaliados, três estavam abaixo do percentil 10 (13.0 %), oito entre os percentis 10 e 50 (34.8 %) e 12 acima do percentil 50 (52.2 %). Quanto ao estado nutricional, um atleta se situava no gráfico de peso abaixo do percentil 10 (4.3 %), oito entre os percentis 10 e 50 (34.8 %) e 14 acima do percentil 50 (60.9 %). Destaca-se que o único atleta abaixo do percentil 10 no gráfico de peso também estava abaixo do percentil 10 no gráfico de altura. 4.DISCUSSÃO Apesar da maior parcela dos atletas participantes do Projeto Judô Comunitário serem do sexo masculino, a presença de praticamente 40.0% de atletas do sexo feminino demonstra a crescente participação das mulheres nas diversas modalidades esportivas. A média de idade encontrada correspondeu à pré-adolescência. Destaca-se o fato de que um percentual significativo de atletas não se haviam alimentado de leite materno, assim como o encontro de uma baixa média de tempo de amamentação. Isto sugere a ocorrência de desmame precoce na amostra estudada. Considerando que todos os atletas residiam em casas com boas condições de saneamento básico, possuíam alimentação considerada satisfatória, apresentavam baixa prevalência de parasitoses intestinais e que a maioria se encontrava em estado nutricional satisfatório, sugere-se que, apesar de supostamente oriundos de classes desfavorecidas, eles possuíam condições favorecedoras à prática do esporte. Com respeito às patologias pregressas investigadas, os relatos de hérnia epigástrica e umbilical corrigidas e de fratura do membro superior potencialmente dificultariam o desempenho dos atletas na prática do judô. Entretanto, à epoca da investigação, nenhum deles possuía alguma dificuldade para a execução dos exercícios. Os passos requeridos para que os atletas alcancem o rendimento máximo para competições foram descritos por Lima (1992). Ele enfatizou a 49 importância de uma programação individual baseada em um diagnóstico completo das condições prévias de cada atleta e destacou a necessidade da utilização de testes morfofuncionais, cineantropométricos e de estudos funcionais. Little et al. (1991) investigaram a performance física de judocas femininos júnior e sênior e de masculinos juvenil, júnior e sênior. O programa de testes incluiu força estática, flexibilidade, poder aeróbico máximo e capacidade e poder anaeróbico máximo. Eles concluíram que, para a participação em competições de alto nível, o desenvolvimento dos atletas é dependente de rendimento técnico apoiado por altas médias de resistência, flexibilidade e força. Kujala et al. (1995) analisaram 54.186 lesões agudas ocorridas durante a prática de seis modalidades esportivas. Encontraram uma relação proporcional entre a frequência de lesões e o contato corporal entre os atletas. As taxas de lesões entre judocas jovens do sexo feminino foram mais altas que nas demais modalidades, provavelmente devido ao fato destas serem minoria nas academias e habitualmente treinarem com atletas do sexo masculino. Entre todos os judocas, as lesões mais frequentes foram as torções e distensões. As articulações mais acometidas foram a do joelho seguida do tornozelo. Um método de bandagem com uso de fita adesiva foi descrito e ao ser utilizado por judocas com instabilidade do tornozelo se mostrou mais eficaz que o método de bandagem tradicional (realizada com faixa crepom), eliminando a inclinação talar e reforçando as estruturas do tornozelo durante os combates (Yamamoto et al., 1993). Owens e Ghadiali (1991), ao relatarem um caso de distúrbio de memória em judoca, comentaram sobre a possibilidade de dano cerebral anóxico provocado por manobras de estrangulamento e recomendaram prudência na execução da referida técnica. Matsumoto et al. (1997) investigaram e compararam o estado metabólico ósseo em 103 atletas de judô, natação e atletismo, de ambos os sexos. A densidade óssea mineral total e um dos marcadores urinários de reabsorção óssea foram significativamente maiores nos judocas do que nos atletas das demais modalidades esportivas. Eles concluíram que, em decorrência das elevadas demandas, o estado de troca metabólica óssea é maior nos judocas. Kriegel (1998) descreveu a experiência e os efeitos de seis anos de prática do judô em um ambulatório de reabilitação de crianças com asma brônquica. Eles enfatizaram o efeito facilitador do judô para a integração com a comunidade e a sua contribuição na valorização da personalidade e no crescimento de crianças portadoras de patologias crônicas. R. Un. Alfenas, Alfenas, 5:47-50, 1999 50 Á. L. L. ALVES et al. Dados apresentando os aspectos de saúde relacionados ao judô são escassos na literatura médica. Certamente, o Projeto Judô Comunitário vem oferecendo à população carente de Belo Horizonte a oportunidade da prática esportiva do judô, com um intuito de aperfeiçoamento físico, mental e moral. Acreditamos que a integração com o Internato Metropolitano da FCMMG, além de propiciar o benefício dos atletas quanto ao diagnóstico de saúde, forneceu orientações educativas e preventivas e permitiu o relato de uma nova experiência. AGRADECIMENTOS Aos mestres Antônio Oliveira Costa e Afonso Salvador da Costa, idealizadores e coordenadores do Projeto Judô Comunitário, por propiciarem as condições para a realização deste trabalho. 5.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS KRIEGEL, V. G. Experience and effects with six years of judo training in ambulatory rehabilitation of bronchial asthma in childhood. Rehabilitation, v. 37, n. 1, p. 36-43, feb. 1998. KUJALA, U. M., TAIMELA, S., ANTTI-POIKA, I., ORAVA, S., TUOMINEM, R., MYLLYNEN, P. Acute injuries in soccer, ice hockey, volleyball, basketball, judo and karate: analysis of national registry data. British Medical Journal, v. 311, n. 7018, p. 1465-1468, dec. 1995. LIMA, C. E. F. Bases fisiologicas del entrenamiento en judo (parte II). Revista Argentina de Medicina Deportiva, v. 15, n. 47, p. 42-44, 1992. LITTLE, N. G. Physical performance attributes of junior and senior women, juvenile, junior and senior men judokas. 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