Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XX Prêmio Expocom 2013 – Exposição da Pesquisa Experimental em Comunicação Fotografia e memória: um olhar sobre a história da ferrovia em Bauru1 Thaís de Souza Farias2 Erica Cristina de Souza Franzon3 Universidade Sagrado Coração, Bauru, SP RESUMO Mostrar a realidade por meio da fotografia é a função do fotojornalismo, que tal como o jornalismo tem a função de registrar um fato, uma pessoa, evento ou objeto. Por conta disso, a fotografia jornalística se mostra um importante instrumento de documentação, capaz de traduzir visualmente um fato. Com base nessa característica e nas técnicas e teorias aprendidas na disciplina de Fotojornalismo, a proposta deste trabalho é retratar o estado de conservação da antiga estação ferroviária Noroeste do Brasil, hoje desativada e que abriga um espaço de preservação da história ferroviária. O trabalho é composto de dez imagens em preto e branco, captadas em outubro de 2012, e que, se avalia, podem auxiliar no resgate da memória da ferrovia na cidade de Bauru. PALAVRAS-CHAVE: Fotografia; fotojornalismo; memória; Bauru; memória. 1 INTRODUÇÃO Fotografar é escrever com a luz e eternizar um instante passado, e a fotografia serve para o registro histórico das transformações. Neiva Jr. (1986) descreve a fotografia como uma imagem capaz de trazer a memória do acontecimento, sendo assim um recurso eficaz para o resgate histórico de um contexto vivido pela sociedade. Fotografar, no entanto, vai além de observar o momento e apertar o disparador. Segundo Henri-Cartier Bresson, “Fotografar é colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração”. Por isso, a fotografia não imita a realidade, mas prolonga o que existe. Para Roland Barthes, “o que a fotografia reproduz ao infinito só ocorreu uma vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente” (BARTHES, 1984:13). Compreende-se que a fotografia não é apenas um recurso imagético frio, mas também um importante documento histórico, capaz de indicar as pistas visuais do que representou determinado acontecimento no passado. Fotografias de caráter jornalístico podem, então, se caracterizar como um resgate da memória. No caso deste trabalho, a 1 Trabalho submetido ao XX Prêmio Expocom 2013, na categoria Jornalismo, modalidade Fotografia Jornalística. 2 Estudante do 5º Semestre do Curso de Jornalismo, email: [email protected]. 3 Orientadora do trabalho. Professora do Curso de Jornalismo, email [email protected]. 1 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XX Prêmio Expocom 2013 – Exposição da Pesquisa Experimental em Comunicação intenção é registrar o contexto atual da Estação Ferroviária da Noroeste do Brasil localizada na cidade de Bauru por meio de fotografias recentes e sob um ponto de vista subjetivo. A cidade, que fica a 345 quilômetros da capital paulista, foi fundada em 1896 e, de acordo com dados de julho de 2012 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já conta com cerca de 350 mil. Em 1905, recebeu a primeira ferrovia: a Estrada de Ferro Sorocabana, que ligava Bauru a São Paulo. Já em 1906, a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil inaugurou seu primeiro trecho na cidade, ligando-a a Avaí. E em 1910 chegou à cidade a Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Foi, então, que Bauru passou a abrigar o maior entroncamento ferroviário do país. Após quase cem anos em operação, o avanço do transporte aeroviário e rodoviário culminou na desativação dos trens de passageiros da Companhia Paulista, Os veículos foram operados pela última vez em Bauru em março de 2001. Hoje, apenas trens de carga utilizam a rede ferroviária da cidade; o serviço é operado sob concessão federal pela empresa América Latina Logística (ALL). No mesmo espaço em que cruzam a cidade, o pátio ferroviário, localizado na região central de Bauru, trens e vagões desativados de várias épocas convivem com o prédio da antiga ferroviária da Noroeste do Brasil. Desativado, o imóvel foi tombado como patrimônio histórico e arquitetônico da cidade e recém-adquirido do Sindicato dos Ferroviários pela Prefeitura Municipal de Bauru, que lá pretende realizar uma reforma e instalar parte de suas secretarias. Enquanto isso não ocorre, o local e seus equipamentos seguem em grande parte degradada, como um incômodo para os munícipes, apesar do seu inestimável valor histórico. 2 OBJETIVO O objetivo deste trabalho foi produzir imagens fotográficas com a intenção de resgatar a memória da ferrovia na cidade de Bauru, como também mostrar o estado de conservação da antiga Estação Noroeste do Brasil. De acordo com Kossoy (2011), “imagens são documentos para a história”, então as fotografias, fruto do presente trabalho, perpetuarão um momento. Ainda para Kossoy: O fragmento da realidade gravado na fotografia representa o congelamento do gesto e da paisagem e, portanto, a perpetuação de um momento, em outras palavras, da memória [...] O momento vivido, 2 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XX Prêmio Expocom 2013 – Exposição da Pesquisa Experimental em Comunicação congelado pelo registro fotográfico, é irreversível. (KOSSOY, 2001, p. 155) O material fotográfico, composto por dez imagens em preto e branco, foi produzido embasado nos estudos dos autores discutidos em sala de aula e na proposta do plano de ensino da disciplina de Fotojornalismo, do curso de Jornalismo da Universidade Sagrado Coração (USC), de Bauru, SP. 3 JUSTIFICATIVA Este trabalho torna-se relevante pela incontestável importância da fotografia como um documento. Bresson explica que “de todos os meios de expressão, a fotografia é o único que fixa para sempre o instante preciso e transitório” (CARTIER-BRESSON, 1971, p. 21). Neste contexto, o presente trabalho se justifica pelo fato de a fotografia eternizar algo que tenha sido importante e trazer à memória o que é familiar. Segundo Adair Felizardo e Etienne Samain (2001, p. 214), é necessário entender que a memória é um fenômeno coletivo e social, ou seja, como um fenômeno construído coletivamente, é submetido a flutuações, mutações, e transformações constantes. Se a fotografia tem uma relação intrínseca com a memória, pois “fotografia é memória e com ela se confunde” (KOSSOY, 2001), as imagens, então, captaram essa transformação ao mesmo tempo em que eternizam um instante, no caso, importante para a história de Bauru. Por essa razão, como acrescenta Kossoy, se a imagem guarda um fragmento de memória que nenhum outro sistema de representação consegue igualar e que há variação de interpretação sobre a fotografia de acordo com o tempo, o conjunto de fotografias sobre a Estação da Noroeste do Brasil em Bauru eterniza um momento importante para a cidade, em todos os sentidos, ao mesmo em que favorece interpretações outras sobre o objeto fotografado, que podem ir da reflexão, passando pelo êxtase ou à indignação com o estado em que tal espaço se encontra. 4 MÉTODOS E TÉCNICAS UTILIZADOS O trabalho amparou-se em pesquisa bibliográfica sobre os temas fotografia e memória, pesquisa documental sobre a história da cidade e da ferrovia por meio de revista e sites e pesquisa in loco, para avaliação do local objeto deste trabalho fotográfico. Somaram- 3 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XX Prêmio Expocom 2013 – Exposição da Pesquisa Experimental em Comunicação se a isso as reflexões e técnicas em sala de aula, orientadas pela professora mestra Érica Cristina de Souza Franzon. O equipamento utilizado para a realização do conjunto de fotografias sobre a Estação Noroeste do Brasil em Bauru foi uma câmera digital Nikon D5000 e uma lente VR 18-55 mm, que permite uma boa nitidez. A lente 50 mm é considerada uma lente normal, porque seu ângulo de cobertura é considerado normal para a visão humana. As fotos foram tiradas com abertura f/10 e tempo de exposição de 1/400 s, com ISO 200, sem utilização de flash. 5 DESCRIÇÃO DO PRODUTO O produto final foi elaborado para cumprir a proposta da disciplina de Fotojornalismo do 4º semestre do curso de Jornalismo da USC. As fotografias foram tiradas na tarde do dia 11 de Outubro de 2011, com uma Nikon D5000, com a lente 18-55 milímetros, no modo manual e em preto e branco. As imagens retratam o atual estado de conservação da antiga estação ferroviária Noroeste, que fica localizada na Praça Machado de Mello, no Centro de Bauru. 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS Para realização do trabalho foram utilizadas teorias e técnicas aprendidas durante as disciplinas de Introdução à Fotografia e Fotojornalismo. O trabalho amparou-se em linguagens fotográficas estudadas nas disciplinas, tais como planos diversos e uso de ângulos, bem como a construção de uma narrativa visual do local que fosse capaz de mostrar como a ferrovia encontra-se, atualmente, inserida no tempo e espaço da cidade de Bauru. A escolha de se fazer imagens em preto e branco foi um recurso estético utilizado para remeter ao passado e resgatar a memória. Devido às características do preto e branco, com a ausência da cor, esse tipo de composição chama a atenção para os elementos presentes na imagem como a forma, linha, composição e a própria estrutura arquitetônica e elementos visuais que compõem o cenário local. A ferrovia presente nas imagens deste trabalho compõe-se de uma estrutura física e emocional que transpõe o tempo e que ainda vive muito mais enquanto memória do que representou no passado. 4 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XX Prêmio Expocom 2013 – Exposição da Pesquisa Experimental em Comunicação O enquadramento utilizado retrata, na série de fotografias, elementos que abarcam o passado e o presente, para que dessa forma fosse possível o resgate da memória, mas também se pudesse mostrar o atual estado de conservação da antiga estação Noroeste. A antiga estação encontra-se degradada, mas em um dos prédios hoje funciona o Museu Ferroviário Regional de Bauru. 7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARTHES, Roland. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. Cartier-Bresson, Henri. “O momento decisivo”. In: Fotografia e Jornalismo. Bacellar, Mário Clark (org.). São Paulo, Escola de Comunicações e Artes (USP), 1971, pp. 19-26. FELIZARDO, Adair; SAMAIN, Etienne G. A fotografia como objeto e recurso de memória, in Discursos Fotográficos, Londrina, v. 3, n. 3, p. 205-220, 2007. KOSSOY, Boris. Os mistérios da fotografia – entrevista concedida a Mariana Lacerda. Revista Continuum Itau Cultural – O olhar em fragmentos. P. 16-23, ago. 2008. KOSSOY, Boris. Fotografia e história. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. NEIVA JR, Eduardo. A Imagem. São Paulo: Ática, 1986. SAMAIN, Etienne. Como pensam as imagens. Campinas: Editora da Unicamp, 2012. Prefeitura Municipal de Bauru. Patrimônio Histórico, disponível em: http://www.bauru.sp.gov.br/secretarias/sec_cultura/patrimonio.aspx. Acesso em 10 de maio de 2013. Revista Unesp Ciência, História, disponível em: http://www.unesp.br/aci_ses/revista_unespciencia/acervo/12/nos-trilhos-da-memoria. Acesso em 10 de maio de 2013 5