VARIAÇÃO DIÁRIA DA PRESSÃO ATMOSFÉRICA EM SANTARÉM-PA EM UM ANO DE EL NIÑO(1997) Dimitrie Nechet Departamento de Meteorologia da UFPa, Belém-Pará, e-mail:[email protected] Lene da Silva Andrade Aluna de Graduação do Curso de Meteorologia da UFPa ABSTRACT This paper describes diary variation of the atmospheric pressure at Santarém-Pará(Lat. 02o 25’S, Long. 054o 47’W, Alt. 60,0 m) during the year of 1997 (El Niño year) and during the year of 1996(No El Niño year) and it makes comparison with the diary rainfall . It is known that there is not a correlation between the atmospheric pressure and the precipitation at the Equatorial region, and at Santarém, some periods with high atmospheric pressure in the year of El Niño presented major rainfall than in the year of no El Niño year, at rainy season(Jan-May). At dry season(Jun- Dec) some periods with high atmospheric pressure in the El Niño year, also, presented major rainfall that no El Niño year. Although, the rainfall of 1997 year(El Niño year) it has been smaller than the 1996 year, the intensity of rainfall it was major. Of this it sorts things out, in this study, it is shown that the branch of subsidence of the Walker cell didn’t influence the atmospheric pressure at Santarém. INTRODUÇÃO O fenômeno EL NIÑO, um aquecimento anômalo no Pacifico Tropical está associado com os impactos climáticos e econômicos em todo o globo. Tem ocorrido em intervalos não regulares e é relatado desde 1525, aparecendo nos relatórios de Francisco Pizarro. Inicialmente essa expressão não tinha o mesmo significado que possui hoje. Era relacionado a uma corrente quente que vai da área Equatorial para o Sul, substituindo a corrente fria do Peru, atingindo de 7oS a 12oS, banhando as costas do Equador e Peru, trazendo chuvas abundantes, causando inundações, prejudicando a industria pesqueira e agrícola, daqueles países. Foi batizado com o nome de El Niño(o menino, em espanhol) por ocorrer próximo ao Natal, ligado, em termos religiosos, ao menino Jesus. Era relatado quando ocorria essa corrente quente. Com o advento dos satélites, das bóias automáticas, verificou-se que o fenômeno estava associado ao aquecimento de uma grande área oceânica do Pacífico, em torno do Equador e a expressão passou a significar o aquecimento do Pacífico, em torno do Equador Geográfico e a expressão passou a significar o aquecimento do Pacífico Equatorial. Com a incorporação do estudo de Walker sobre a diferença de pressão entre os locais de Tahiti(Polinésia) e Darwin(Austrália), ocasionados pela diferença de temperatura oceânica, foi utilizada a expressão Oscilação Sul, por estar ligada ao fenômeno. E a expressão atual EL NIÑO OSCILAÇÃO SUL(ENOS) significa aquecimento de uma grande área do Pacifico, criando oscilações na pressão, quando comparadas essas duas localidades e trazendo alterações climáticas em todo o Globo. Os estudos desse fenômeno foram intensificados com o ENOS de 1982/1983, repetindo-se em 1986/1987, sendo comparado ao fenômeno de 1911-1915(HALPERT et al. 1996). O ano de 1997, também, foi considerado como no mesmo nível e em alguns períodos superior ao de 1982/1983, de acordo com o relato nas publicações Climanálise(1997). O estudo da célula de Walker por KAUSKY et al(1984), citado por CAVALCANTI(1996), mostra que o seu deslocamento para Este tem influência sobre o Nordeste Brasileiro e partes da Amazônia. MARENGO e UVO(1996) afirmam que há um forte sinal do ENOS, na evidente variabilidade interanual no Nordeste do Brasil e com certa limitação no Oeste da Amazônia. Muitos trabalhos foram publicados, fazendo a relação do fenômeno com precipitações no Brasil(ASSIS, et al., 1997, GALVANI, et al., 1997), alguns estudos sobre a Amazônia(OLIVEIRA, 1994; MARTORANO, et al.,1992). O ramo descendente da célula de Walker poderá atuar sobre o Brasil(Amazônia e Nordeste), dependendo da posição da área mais aquecida. Se a área aquecida estiver próxima ao litoral da América do Sul, o ramo descendente pode chegar até o Nordeste, se mais afastado do litoral pode atingir a Amazônia e se bem longe do litoral, talvez não atinja o Brasil. Esse ramo descendente sobre uma determinada área, em princípio deve aumentar a pressão e consequentemente diminuir a precipitação. Isso, em princípio, é uma análise elementar de associação de pressão atmosférica e precipitação. NECHET(1998) fez o estudo para o mesmo período em Belém(Lat. 01o 23’S, Long. 048o 29’W, Alt. 16,0 m) e não encontrou uma relação dos valores baixos de precipitação associada com os valores de pressão atmosférica maior. 483 Neste trabalho faz-se a comparação diária da pressão atmosférica, ao nível médio do mar, do ano de El Niño(1997), com o ano de não El Niño(1996) em Santarém-Pará, considerando um ponto na Amazônia, distante de Belém 715 km, à Oeste. Essa comparação de 1997 (precipitação anual de 1.703,0mm, abaixo da média anual de 2.009,4 mm) foi feita com o ano de 1996, que apresentou uma precipitação acima da Normal: 2.115,0 mm(Tabela 02) O objetivo deste trabalho é verificar qual o comportamento da pressão no dia a dia, com esses anos extremos, e comparar com a precipitação, verificando se Santarém foi afetado pelo ramo descendente da Célula de Walker, no ano de 1997, ano de El Niño.. MATERIAIS E MÉTODOS Foram utilizados dados horários de pressão atmosférica, reduzida ao Nível Médio do Mar, da Estação Meteorológica do Aeroporto de Santarém-Pará(Lat. 02o 25’S, Long. 054o 47’W, Alt. 60,0), pertencente ao Serviço Regional de Proteção ao Vôo de Belém(SRPV-BE), que opera em horário contínuo, durante as 24 horas do dia. Os barômetros dos aeroportos são, rigorosamente, aferidos a cada 4 meses, em manutenção preventiva permanente, em vista das informações dadas serem utilizadas pelas aeronaves, para a indicação precisa da altitude, durante o pouso, decolagem e durante o vôo, para efeito de segurança, na área do controle do tráfego aéreo. Foram calculadas as médias diárias dos anos de 1996 e 1997 sendo, no entanto, apresentados os gráficos referentes aos meses em que as precipitações mensais, no ano de 1997, foram menores que o ano de 1996. Faz-se, também, o cálculo da intensidade média anual de precipitação, nos dois anos, relacionado a duração da precipitação e o total anual. Também é mostrado a duração das Trovoadas, nos dois anos. RESULTADOS E DISCUSSÃO Fazendo a comparação diária entre as pressões de 1996 e 1997 observa-se que a pressão atmosférica possui variações no dia a dia, havendo uma flutuação dos valores, variando de 3 a 5 dias, ou seja em torno de 3 a 5 dias subindo, depois em torno de 3 a 5 dias baixando e assim durante o ano todo, nos dois anos estudados. Isso tanto na época chuvosa, como na época seca. Durante o ano de 1997 Santarém apresentou valores médios mensais de pressão maiores em Janeiro, fevereiro, março abril, julho, agosto, setembro, novembro e dezembro. No entanto na média anual, o ano de 1997 apresenta apenas um valor maior de 0,2 mm, com relação ao ano de 1996(Tabela 03). Isso mostra que se houve influência do ramo descendente da célula de Walker, não houve influência nos valores da pressão atmosférica na superfície e consequentemente na pressão ao nível do mar, quando comparada com o ano de 1996, ano de Não El Niño. As maiores pressões absolutas ocorreram em 1996, no mês de junho(1015,4 hPa) e em 1997, no mês de julho(1014,5 hPa) e as menores pressões absolutas ocorreram em 1996, no mês de novembro(1005,9 hPa) e em 1997, também, no mês de novembro(1006,4 hPa). Na época chuvosa, no ano de 1997 , alguns períodos de pressão atmosférica maior do que em 1996 apresentaram totais de precipitação maiores que 1996. Na época seca, alguns períodos nos dois anos não apresentaram precipitação. (Fig. 01, 02, 03, 04, 05 e 06 e Tabela 01). 1016 hPa 1014 1996 1012 1997 1010 1008 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 1006 Dias Fig. 01 Pressão Atmosférica ao NMM em Santarém, no mês de abril 1012 1997 1010 1996 1008 484 29 27 25 23 21 19 Dias 17 15 13 11 9 7 5 3 1006 1 hPa 1014 Fig. 02 - Pressão Atmosférica ao NMM em Santarém, no mês de junho Quanto à quantidade de precipitação, o ano de 1996, apesar de ser ano de Não El Niño, o total anual, foi praticamente igual à Normal(1965-1999) com valor superior de 105,5 mm e no ano de 1997, o total anual foi menor de 306,5 mm(Tabela 02), diferente do comportamento de Belém, em que o ano de 1996 apresentou um total anual maior de 309,6 mm e no ano de 1997, um valor menor de 250,6 mm, tudo com relação à Normal Climatológica(NECHET, 1998). São apresentados os gráficos dos meses de abril, junho, setembro, outubro, novembro e dezembro, os meses que ocorreram precipitações menores no ano de 1997(Ano de El Niño), em relação ao ano de 1996 e também para se ter uma visão melhor das variações diárias da pressão atmosférica, nos anos de 1996 e 1997. No estudo da duração da precipitação nos dois anos e do total de precipitação para se achar a intensidade média da precipitação, Santarém no ano de 1996, somados todos os períodos de precipitação, teve a duração da precipitação de 14.744 minutos, que transformados dão 10 dias, 5 horas e 44 minutos e a precipitação anual de 2.115,0 mm. Fazendo o cálculo para a intensidade acha-se 8,6 mm/h, na média geral e no ano de 1997, a duração da 1014 hPa 1012 1996 1010 1997 1008 1006 1 3 5 7 9 11 13 15 17 Dias 19 21 23 25 27 29 1012 1011 1010 1009 1008 1007 1006 1996 31 29 27 25 23 Dias 21 19 17 15 13 11 9 7 5 3 1997 1 hPa Fig. 03 Pressão Atmosférica ao NMM, em Santarém-Pará, no mês de setembro Fig.04 Pressão Atmosférica ao NMM, em Santarém-Pará, no mês de outubro 1997 29 27 25 23 21 19 17 15 13 11 9 7 5 3 1996 1 hPa 1014 1012 1010 1008 1006 1004 D ias Fig. 05 Pressão Atmosférica ao NMM, em Santarém-Pará, no mês de novembro 1014 1996 hPa 1012 1997 1010 1008 31 29 27 25 23 21 19 17 15 13 11 9 7 5 3 1 1006 Dias Fig. 06 - Pressão atmosférica ao NMM, em Santarém-Pará, no mês de dezembro precipitação foi de 8.189 minutos, que transformados dão 5 dias, 16 horas e 29 minutos. Fazendo o cálculo da intensidade acha-se 12,4 mm/h. Isso mostra que no ano de 1997, apesar de menor precipitação, a intensidade foi 485 maior. Com relação a duração de trovoadas, somados todos os períodos, o ano de 1996 apresentou 19 dias, 23 horas e 45 minutos e o ano de 1997 apresentou 13 dias, 13 horas e 48 minutos, mostrando que na área de Santarém, durante o ano de 1996, houve maior instabilidade. TABELA 01 - Total de precipitação(mm) nos anos de 1996 e 1997, nos períodos em que a pressão atmosférica esteve maior durante o ano de 1997, comparada com a pressão atmosférica menor em 1996 ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Período Precipitação Período Precipitação ----------------------------------------------------1996 1997 1996 1997 --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------21 a 24 Jan 53,2 126,4 01 a 06 Abr 28,1 23,8 24 a 30 Abr 47,8 72,1 01 a 10 Jun 10,9 76,5 20 a 27 Jun 24,8 13,7 23 a 27 Jul 15,3 00,0 01 a 08 Set 01,0 00,2 14 a 16 Set 00,0 00,0 24 a 30 Set 19,2 00,0 05 a 12 Out 00,0 00,0 19 a 23 Out 00,1 06,1 11 a 12 Nov 00,0 00,0 14 a 20 Nov 01,0 01,8 15 a 26 Dez 00,3 08,3 -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------TABELA 02 - Valores mensais de precipitação(mm) para Santarém-PA --------------------------------------------------------------------------------Meses 1996 1997 Normal(1965-1999) ------------------------------------------------------------------------------Janeiro 260,6 374,5 204,9 Fevereiro 242,8 214,3 283,9 Março 534,1 450,5 373,5 Abril 486,2 216,5 379,9 Maio 211,7 242,2 288,8 Junho 104,0 36,4 115,3 Julho 112,9 78,1 87,5 Agosto 34,4 74,1 54,0 Setembro 27,7 00,2 25,6 Outubro 18,8 06,1 32,6 Novembro 70,2 01,8 65,1 Dezembro 11,0 08,3 98,5 ------------------------------------------------------------------------------Total 2.115,0 1.703,0 2.009,6 TABELA 03 - Média mensal de Pressão Atmosférica ao NMM de Santarém-Pará --------------------------------------------------------------Meses 1996 1997 --------------------------------------------------------------Jan 1009.1 1009.6 Fev 1009.4 1010.0 Mar 1009.8 1010.0 Abr 1010.1 1011.0 Mai 1012.7 1011.4 Jun 1012.5 1011.0 Jul 1013.1 1012.6 Ago 1011.6 1012.8 Set 1010.2 1010.5 Out 1009.3 1009.3 Nov 1008.0 1009.3 486 Dez 1008.8 1009.4 ------------------------------------------------------------Ano 1010.4 1010.6 CONCLUSÃO Pela análise dos resultados e, levando em consideração somente a pressão atmosférica e a precipitação, verifica-se que em Santarém, o total anual do ano de 1997(ano de El Niño) foi de 1.703,0 mm, abaixo 306,5 mm da Normal Climatológica de 36 anos e o total anual do ano de 1996(Ano de Não El Ninõ) foi de 2.115,0 mm, acima da Normal apenas de 105,5 mm, podendo considerar-se como um ano normal de precipitação. A conclusão é que se chega é que o ano de 1997, em Santarém, apesar de alguns períodos apresentarem valores de pressão atmosférica maior que 1996(Figura 01, 02, 03, 04, 05 e 06 para os meses que apresentaram menor precipitação e Tabela 03) e a precipitação foi maior em alguns períodos em que o ano de 1997 apresentou pressões atmosféricas maiores. Pode-se concluir, também, que em um ponto só é difícil caracterizar o ramo descendente da célula de Walker. Mesma situação ocorreu com o estudo em Belém-Pará para o mesmo período, não mostrando relação entre as pressões e as precipitações. A relação que esperava-se acontecer na Amazônia, em um ano de El Niño é o ramo descendente da célula de Walker criar subsidência e “tamponar” os efeitos locais e enfraquecer os grandes sistemas. No entanto em dois pontos da Amazônia Belém e Santarém, distantes 715 km, ficando Santarém a Oeste, a variação mensal da pressão apresentou pequenas diferenças entre os meses, nos dois anos. Na média anual da pressão atmosférica, o ano de 1997 apresentou apenas 0,2 hPa maior que 1996. Em Belém o ano de 1997 apresentou apenas 0,3 hPa maior que 1996(NECHET, 1998). Pode-se, também, chegar a conclusão, que além do modelo da célula de Walker, que modificaria a pressão atmosférica, outros fatores devem influir, o que é difícil caracterizar num sistema aberto. Na realidade ainda não se conhece totalmente o mecanismo de Walker. Poderiam existir outros fatores associados também com o Oceano Atlântico, ainda pouco estudados, que poderiam estar afetando a região, em associação com o El Niño. Na precipitação verifica-se a diminuição nos anos de El Niño, mas não ocorre a relação com o aumento da pressão atmosférica. Pretende-se continuar a pesquisa nesses dois anos, para outras localidades da Amazônia, para se verificar o comportamento entre a precipitação e a pressão atmosférica.. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASSIS, F.N. et al. 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