PORTUGALPÉDIA – PORTO
Nº01, "Os painéis Ribeira Negra" - Jan. 2012, 250ex.
Texto: Laura Castro / Imagem: Raquel Balsa
Laura Castro
Tema: Os Painéis Ribeira Negra
Autor: Júlio Resende (1917-2011)
Data: 1984-1986
A Ribeira portuense na obra de Júlio Resende
Episódios de bairro – cenas de mercado, conversas entre vizinhas, brincadeiras de miúdos,
estendais de roupa, cães curiosos – definem a Ribeira portuense e conferem-lhe o carácter e a
autenticidade próprios de um lugar vivenciado pelos nativos, que foi dando lugar a um espaço
testemunhado pelos turistas. Entre a vida dos primeiros e a visita dos últimos, a Ribeira
permaneceu como um sítio emblemático do Porto, que sempre atraiu Júlio Resende. É o artista
quem descreve a atmosfera do lugar: No ar, vozes de praguejos e de risos, o inconformismo dos
velhos, a alegria das crianças e a correria dos cachorros. As fachadas sempre em festa no
espelhar dos azulejos. Do negro arco da arquitectura de tempos recuados, a silhueta luminosa e
irresistível da jovem que surge. 1 Os anos 80 consagram este tema recorrente da sua obra, cuja
presença se afirma então com uma intensidade que nenhum outro tópico de trabalho terá
provavelmente evidenciado.
Durante o século XX, a criação plástica de Resende é marcada por um ritmo alternado entre
as experiências trazidas das viagens a diversos países europeus (nos anos 40 e 50) e a países
lusófonos (nas décadas seguintes) e as experiências desenvolvidas no quadro de uma
iconografia ribeirinha. Após cada estadia no exterior, o pintor regressava ao Porto, aos lugares
simbólicos da cidade, observava-os com um novo olhar e tratava-os com novos recursos. As
vistas da Ribeira dos finais dos anos 50, as obras da série Rude Porto dos anos 70 e as da
Ribeira Negra de finais dos anos 70 e dos anos 80 exemplificam essa situação. O pintor
procurava e acolhia novidades e influências e o impacto desse corpus de aprendizagens e de
ensaios reflectia-se na produção realizada a partir da Ribeira.
É deste modo que a leitura visual do lugar se transforma e reconfigura à medida que novas
solicitações artísticas e estéticas se insinuam no seu trajecto. A estruturação plástica, severa e
densa, dos trabalhos dos meados do século não regressará nos desenhos dos anos 70 em
diante, preferencialmente marcados por gestos mais livres e soltos, ainda que determinados, e
1
Júlio Resende. Ribeira Negra. Porto. Porto: Galeria Nasoni, 1999, p. 5.
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PORTUGALPÉDIA – PORTO
Nº01, "Os painéis Ribeira Negra" - Jan. 2012, 250ex.
Texto: Laura Castro / Imagem: Raquel Balsa
por um inegável sentimento expressionista. E a gravidade austera das obras do início de
percurso, dará lugar a um dinamismo que invade o suporte.
Ribeira Negra, 1984
A história dos Painéis Ribeira Negra começa em 1984, quando Resende é movido pela
sugestão do maestro Álvaro Salazar (1938), a realizar uma criação plástica que pudesse
funcionar paralelamente à criação musical. Álvaro Salazar, no âmbito da Oficina Musical que
criara no Porto em 1978, planeava uma série de concertos a que pretendia associar outras
manifestações artísticas e o trabalho de Resende integraria uma dessas iniciativas. Não se
adivinhava ainda o destino que o painel viria a protagonizar, quer na obra de Resende, quer na
cidade do Porto, quer, finalmente, na arte portuguesa.
Júlio Resende executa, então, em dez dias, a Ribeira Negra, utilizando negro de fumo e óxido
de zinco sobre 40 metros de lona, adquirida na Rua das Flores e dividida em módulos de 4
metros.
O trabalho decorreu no casarão arruinado onde estava instalada a Cooperativa de Ensino
Árvore, actual Escola Artística Profissional Árvore. O tema do painel foi a Ribeira do Porto, a sua
comunidade, os seus episódios quotidianos e a sua atmosfera, tópicos amplamente explorados
por Resende, numa abordagem que evidenciava os sinais expressionistas que convinham à sua
natureza e ao seu envolvimento estético e ético.
O atelier improvisado numa das salas do edifício constituía, aparentemente, o melhor
ambiente para produzir e para expor ao público um painel em que o artista explora o olhar de
proximidade, o olhar de dentro, de alguém que se assume cúmplice do que vê e não o olhar
distanciado do paisagista.
Oferecido pelo artista à Câmara Municipal do Porto, o painel permaneceria guardado durante
largos anos, primeiro num armazém da Câmara, depois nas reservas dos Museus Municipais até
que, em 2010, passou a constar do percurso do Edifício da Alfândega do Porto numa área
designada “Espaço Ribeira Negra”.
Ribeira Negra, 1986
Existe na cidade do Porto um outro painel com o mesmo título, criado em 1986. Esse foi
encomendado ao artista pela Câmara Municipal e viria a ser inaugurado em 1987, junto ao
tabuleiro inferior da Ponte D. Luís I, o que pode ter significado uma forma de agradecer e
homenagear o gesto de Júlio Resende e a oferta à cidade do trabalho de 1984.
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Texto: Laura Castro / Imagem: Raquel Balsa
Produzido na Empresa Cerâmica do Fojo, o mural em grés desafiou Júlio Resende que,
segundo conta, apesar do que restava do poder físico dos [seus] cerca de 70 anos, não abdicou
de o pintar e gravar pelas suas mãos. Ainda segundo as suas palavras, o artista desenvolveu ao
longo de diversos meses um ciclópico trabalho. 2
Não se trata de uma versão do painel sobre lona elaborado dois anos antes, mas de uma
criação diversa originada a partir da primeira. As técnicas de trabalho distintas que espelham a
versatilidade de Resende e o domínio de recursos e linguagens diferentes instituem, sobre o
mesmo tema, um discurso paralelo e convidam à comparação. Unidos pela temática, divisam-se
nos dois painéis outros aspectos comuns, particularmente pelo formato de friso narrativo que tão
bem se acomoda à arte pública, à estratégia de caminho que cativa o transeunte urbano, à
deslocação gradual e à apreensão continuada dos motivos que se desvendam progressivamente
ao observador. Haverá, portanto, nas duas obras, uma qualidade de tipo cinematográfico feita,
não do movimento da imagem, mas do movimento do espectador que, ao mover-se, constrói a
articulação entre as cenas e os elementos que as preenchem.
Conhecem-se dezenas de pinturas contemporâneas desta criação que abordam a
comunidade e a atmosfera ribeirinhas e um sem número de estudos em que o desenho se
exprime em todas as suas dimensões técnicas: lápis de cor, esferográfica, tinta-da-china,
aguarela, grafite. Tal iconografia ficou também registada numa série de 10 gravuras a água-forte,
datadas de 1986, pertencentes ao Lugar do Desenho – Fundação Júlio Resende, que sintetizam,
de forma memorável, as experiências em curso nesse período de incubação como lhe chamou o
artista. Naquela instituição guardam-se centenas destes estudos que narram, mais do que um
processo de trabalho riquíssimo, a dedicação do pintor à cidade do Porto.
Dar sentido à vida
Júlio Resende exprime a sua satisfação aquando da inauguração do painel cerâmico a 21 de
Junho de 1987: Um mural num espaço urbano é o mais justo fim de uma pintura. Aí atinge
plenamente a sua função social, e é essa a razão da sua existência. 3 O sentido social da arte em
espaço público, herdado de uma tradição europeia do pós-guerra em que se concebia a obra de
arte como elemento humanizador das cidades, num continente recém-devastado, perduraria,
para Júlio Resende, como valor axial da prática artística.
2
3
RESENDE, Júlio – Autobiografia. Lisboa: O Jornal, 1987, p. 74.
Idem, Ibidem.
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Texto: Laura Castro / Imagem: Raquel Balsa
Realização notável, os painéis estruturam uma experiência urbana ao alcance de todos, no
itinerário traçado ao longo do Douro, entre o edifício da velha Alfândega e a Ponte D. Luís.
Segundo Eugénio de Andrade, constituem um magnificente historial da miséria e da grandeza
da população ribeirinha do Porto. E acrescenta: Posso garantir-vos que desde os seus primeiros
trabalhos, toda esta figuração, vinda do mais rasteirinho da terra, estava destinada a ascender
pela sua mão a essa suprema dignidade que só a arte confere. Eu creio que o que se faz aqui é
mais do que perpetuar o rosto de uma cidade, de um país – é dar, apesar de tudo, algum sentido
à vida. 4
Exposições do Painel Ribeira Negra (1984):
1984 – Edifício das Virtudes – Cooperativa Árvore- Ensino, Porto.
1984 – Mercado Ferreira Borges, Porto.
1998 – Ribeira. Lugar do Desenho – Fundação Júlio Resende.
2002 – Pela Cidade do Porto. Galeria do Palácio. Câmara Municipal do Porto, Fevereiro-Março
de 2002.
2007 – Homenagem a Júlio Resende integrada na XIV Bienal Internacional de Arte de Vila Nova
de Cerveira, Agosto-Setembro de 2007.
2010 – Desde 6 de Novembro de 2010 encontra-se em exposição permanente no Edifício da
Alfândega do Porto.
Bibliografia:
Júlio Resende. Ribeira Negra. Porto. Porto: Galeria Nasoni, 1999.
Lugar (O) do Desenho. Ribeira. S.l.: Lugar do Desenho – Fundação Júlio Resende, 1998.
Pela Cidade do Porto. Porto: Câmara Municipal do Porto, 2002. [Catálogo da exposição
realizada na Galeria do Palácio].
Ribeira Negra. Resende. S.l.: Lugar do Desenho – Fundação Júlio Resende, 1998
4
Idem, p. 38.
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