Artur Pastor
A FOTOGRAFIA É UMA ARTE
Por Artur Pastor
Ao receber, em escasso período de ano e
meio, o meu trigésimo terceiro convite para
figurar em Salões Internacionais de Arte
Fotográfica, remetido precisamente de
Bombaim,
onde
residem
mestres
admiráveis, como Y Kozenko(?) ou Kenti
Patel (?), melhor compreendi como a
Fotografia, tão universalizada hoje,
transcende as fronteiras de todos os países,
para, através dum intercâmbio artístico
continua e altamente recreativo e utilitário,
nos surgir como uma actividade
indispensável e básico, iminentemente
cultural.
Já passou o tempo, em que a Fotografia,
relegada à sua função essencialmente
mecânica, sem personalidade nem
originalidade possível, se limitava apenas a
reproduzir, sem conseguir criar. A servidão
primitiva cessou, porém, e, em reduzidas
dezenas de anos, soube originar-se uma
perfeita colaboração do Acaso com a Alma,
proporcionando a Fotografia Artística, a
qual preocupa presentemente, activa ou
passivamente, todos os espíritos cultos,
sombreando outras Artes remotas,
igualmente desligadas de toda a «a
literatura» original, e vivendo, como
aquela, no seu mundo característico.
A Fotografia não encerra somente
consciência própria e pleno uso das suas
possibilidades, como origina novas formas
de Arte e de Vida, produzindo notável
concorrência, mecê da sua evolução
permanente, de sua acessibilidade e
desenvolvimento grandemente popular, a
outras actividades artísticas denominadas
clássicas, mesmo quando elevadas à
independência cubista dos nossos dias.
Enquanto estas exigem «élites» executoras
e apreciadoras, aquela é, por assim dizer, a
Arte de toda a gente, a que melhor, em
suma, reproduz a Realidade que nos cerca.
Conhecido que a mecânica, por mais
perfeita, inerte que é neste caso, auxilia
mas não cria, por si só, a fotografia, e que
esta surge mercê da intervenção humana,
tal como o desenho não aprece sem lápis
ou a escultura sem o escopo, é preciso que
o Homem possua incontestáveis méritos
artísticos para observarmos fotografias que
transcendem o cunho do vulgar,
patenteadas em salões ou organizações
congéneres.
Precisamente
porque
a
máquina,
exclusivamente, não basta, existem bons e
maus fotógrafos, há indivíduos que, não
obstante possuírem o melhor material,
nunca conseguem produzir «clichés» que
falem à sensibilidade, à inteligência ou à
imaginação, enquanto outros facilmente
sugerem estes predicados. A máquina será,
pois, uma revelação e um meio, uma forma
pela qual provamos o que somos e o que
sentimos. Nada Mais.
De resto, os críticos de Arte Geral Eugénio
d’Ors
e
Jacques
Lassaigne,
não
desdenharam a modalidade a que me
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magnífico
erudito francês Marcel Natkin, na sua obra
«L’Art de voir e la Photographie».
É corrente ainda a suposição, entre os
amadores principiantes e publico não
conhecedor, que a fotografia é fácil. Não é,
porém, fazer boas fotografias é, pelo
contrário, extremamente difícil.
Na pintura o artista pode modificar o
trabalho, convertendo-o à sua expressão
mais atraente. Na fotografia, quantas
vezes o motivo não é convertível,
impossível se tornando adaptá-lo ao
melhor gosto do fotógrafo. Não contando
já com o mesmo indispensável estudo de
relevo, luz e composição, o fotógrafo tem
ainda o estudo do movimento.
venho referindo, no
«Almanach des Arts».
seu
Se a fotografia pode demonstrar
sensibilidades artísticas iniludíveis, porque
pôr em dúvida que seja uma Arte, quando
pretensos cultivadores das actividades
plásticas, designados artistas, longe estão
de exprimir as mesmas qualidades, A
Fotografia é, de resto, sem objeções sérias,
uma arte absoluta, a todo o momento
concretizada por mestres indiscutíveis, em
todos os recantos da terra.
Tal como na pintura, o fotógrafo é Artista
ma medida da sua Arte. Ser-se artista
fotógrafo é, portanto, transcender o
comum,
possuindo-se
talento,
predisposição especial, integral noção
estética.
Em entrevistas concedidas ao semanário
«Algarve», quando da minha exposição no
Circulo Cultural de Faro, já então afirmava:
«na verdade, pela Fotografia, nos podemos
aproximar da pintura, não apenas na
interpretação pictorial, mas, por exemplo,
pelo carvão, o bromóleo, que são de tal
facto uma demonstração solida.
A Fotografia não é apenas a tradução num
simples negativo dum maravilhoso pôr-dosol, duma máscara fisionómica admirável,
dum momento colhido na sua mais
espontânea ou perfeita feição, é sobretudo,
na minha opinião, a própria arte de ver.
Parecer este compartilhado pelo técnico e
A pintura, como sabemos, deve, na maior
parte, a sua criação e consequente
expansão, a um factor importantíssimo,
que é a cor. Um dia em que a fotografia
domine em absoluto o colorido, tornandose ao público, o seu sucesso será
incalculável. Não necessita, contudo,
atingir tal, pois já hoje, no simples limite
branco
negro,
extorquir
beleza,
materializar uma ideia, surgida de motivos
simples, aparentemente desaparecidos e
impessoais, é sem dúvida fazer Arte.
Por outro lado – não menos importante – a
fotografia, sendo uma Arte mais rápida de
exprimir, e mais fácil na sua realização, fiel
à realidade, constitui, mais que a pintura
ou escultura, o melhor meio informativo,
de que dispomos, pela imagem. Como
elemento de propaganda de um
determinado povo, dos seus usos, tipos,
actividades, etc., a fotografia moderna é
firme pilar da civilização actual,
aproximando os povos, tornando-os
conhecidos entre si, servindo sim, com
elevação e nobreza, a divulgação da
Humanidade.
A fotografia pictorial, a reportagem
artística, fotografia pura e publicitária, são
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formas interpretativas altamente curiosas,
em especial a reportagem artística, por ser
a que melhor apresenta a vida duma forma
atraente e vigorosa. Presentemente, em
que a imagem cada vez mais substitui a
palavra,
constituindo
uma
das
características mais marcantes do nosso
século, esta modalidade trás uma
economia de tempo, sendo mais acessível e
compreensível, requerendo, portanto, um
menor funcionamento intelectual. Num
Pais como o nosso, servido por famosa
luminosidade, duma intensa e múltipla
fotogenia, a reportagem artística constitui
um novo valor, uma notável força de
sugestão.
Em Portugal, é necessário diligenciar evadir
a fotografia dum domínio restritamente
visual, desemparando-a dum rotineirismo
decadente e duma interpretação não raro
defeituosa. Deveremos ser puros na
interpretação,
sem
estilizações
deformativas,
nem
encenações
pretensiosamente artísticas, falsamente
documentais. Fotografaremos o que
realmente existe e se observa, exprimindo
a sua naturalidade forte e inconfundível.
deverá criar uma forma diferente, que o
defina e distinga. O motivo, seja uma
cabeça, um busto, uma cena de vida, deve
possuir vigor, verdade, impressionismo.
Atentemos ao nu moderno, uma das
expansões mais artísticas da Fotografia: na
sua composição, a cabeça desapareceu, os
processos decorativos foram-se, ficando
apenas o modelo em sugestivas atitudes
estatuárias.
Considera-se
a
forma
independentemente da ideia. Também aqui
a fotografia se aproxima da escultura, que
não poucas vezes supera.
Da mesma forma. Devemos reduzir ao
máximo a simplicidade harmónica os
nossos negativos, tornando-os mais belos e
mais
compreensíveis,
artística
e
integralmente reais. Não se suponha, no
entanto, que esta actividade está
principalmente indicada para os homens,
pois temos exemplos positivos de Senhoras,
como as norte-americanas Jean Elwell e
Miss Eleanor Park Curtis, que tem obtido
incomparáveis resultados em Salões
Internacionais.
Não bastão meia dúzia de nomes
consagrados, é indispensável que os novos
tentem também, em unido esforço,
fotografarem
com
honestidade
e
consciência. Não esqueçamos, que a
maioria dos fotógrafos limita-se somente a
fotografar bem, criando «clichés» nítidos e
bem compostos; raros procuram imprimir
aos seus motivos uma feição pessoal, sua,
algo de indefinível que sentimos ser apenas
a si próprios.
Portugal possui uma excelente «equipe»
artística, e as duas dúzias de fotógrafos
considerados melhores, no qual tenho a
honra de figurar, selecionados e i inscritos
na secção «Who’s who in pictorial
photography» referente ao nosso Paiz, no
conjunto mundial de importante publicação
«The American Annual of Photography»,
tem sabido elevar, propagar e enaltecer, a
nossa terra e a nossa técnica, produzindo
óptimos resultados na disputa com outras
Nações, muito melhor dotados e assaz mais
progressivas.
Personalidade de artista e de trabalho, eis
o que nem sempre existe. O executar
Quando, ao evocarmos, no longo caminho
da nossa memória, as composições de
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Mortensen, os conceitos de Windisch, as
paisagens de Missone ou de Ortiz Echagüe,
ou, ainda os retratos de Yousuf Karsh,
todos considerados clássicos, somos, na
verdade, levados a admitir sem qualquer
esforço que a Fotografia é uma Arte plena
de juventude e de força, de que muito
temos a aguardar, Arte que, pela sua razão
humana, dignificará os seus cultores,
erguendo-os a uma categoria cultural e
social de que pouco se falou ainda e muitos
teimam em não querer acreditar.
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A FOTOGRAFIA É UMA ARTE - Arquivo Municipal de Lisboa