UNIVERSIDADE SAGRADO CORAÇÃO JORNADA DOS CURSOS DE HISTORIA, GEOGRAFIA E ARQUITETURA: “ESPAÇO, HISTÓRIA E GLOBALIZAÇÃO” ANAIS 26 a 30 de maio de 2009 Bauru - SP ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA MS. ENGº. RODRIGO ROCHA CHANCELER DRª. IR. ELVIRA MILANI REITORA PROF. MS. IR. SUZANA DE JESUS FADEL PRÓ-REITORIA ACADÊMICA COMISSÃO ORGANIZADORA DE HISTÓRIA Lourdes Madalena Gazarini Conde Feitosa [Lattes] Nair Leite Ribeiro Nassarala [Lattes] Marcia Regina Nava Sobreira [Lattes] Mauriney Eduardo Vilela [Lattes] Roger Marcelo Martins Gomes [Lattes] Vera Lúcia Pereira Telles Nunes [Lattes] COMISSÃO ORGANIZADORA DE GEOGRAFIA Ana Maria Penteado Bortolozzi [Lattes] Emanuel Katz [Lattes] José Carlos Rodrigues Rocha [Lattes] José Rafael Mazzoni [Lattes] Línia Maria Bilac Garrone [Lattes] Sebastião Clementino da Silva [Lattes] COMISSÃO ORGANIZADORA DE ARQUITETURA Norival Agnelli [Lattes] Eduardo Modenese Filho [Lattes] Antônio Walter Ribeiro de Barros Júnior [Lattes] Júlio César Franco Furtado [Lattes] Fábio Alexandre Moizés [Lattes] Paula Valéria Coiado Chamma [Lattes] COMISSÃO ORGANIZADORA - ALUNOS: Amanda de C. C. Ascencio Bárbara Palmejani Augusto Cláudia C. R. Ribeiro Cláudia Zacharias Cristiano Pilastri Modolo Déborah Pellison Bonjoão Fabiano Chilio Giovana A. Cosso Grazieli P. Têndolo Guilherme Cortez Ervilha Guilherme Sato Feliz José Ricardo I. de Campos Luiz Fabiano S. Gomes Lyslley F. dos Santos Marina Erba dos Santos Mayara A. Dalbem Natália L. dos Santos Oscar Pereira de Lima Junior Patrícia Andrade Paulo Cerqueira de Lima Junior Priscila Priori Rafael Ribeiro dos Santos Rayssa B. Fonseca Tatiana de Oliveira Thatianne Ponce Veridiana G. P. Ortega Wilson R. Gonçalves Junior J828 Jornada dos Cursos de História, Geografia e Arquitetura (1. : 2009 : Bauru, SP) Anais da 1ª Jornada dos Cursos de História, Geografia e Arquitetura : espaço, história e globalização, Bauru, 27 a 30 de maio de 2009. – Bauru : Universidade Sagrado Coração, 2009. 165p : il. I. Universidade Sagrado Coração. II. Título APRESENTAÇÃO Durante o mês de maio (de 26 a 30) de 2009 alunos e professores dos Cursos de Arquitetura, Geografia e História da USC se reuniram para juntos realizarem sua Jornada de Estudos e Pesquisas intitulada “Espaço, História e Globalização”. Nesta ocasião os Cursos, pretendiam juntos pensar a temática, sob um olhar interdisciplinar com diferentes profissionais destas áreas correlatas. Assim, visavam analisar as temáticas da urbanização contemporânea preocupados com a questão dos impactos sócio-culturais que a mundialização da cultura no séc XXI vem provocando, no sentido da conservação e destruição do nosso patrimônio Histórico e Arquitetônico atual. Desta forma o grupo pretendia refletir e propor práticas sobre os rumos das políticas de conservação e preservação deste patrimônio. Para tanto tinham como objetivos: propor políticas alternativas para preservação do Patrimônio local. Portanto, as equipes instrumentalizaram-se dos seguintes procedimentos: palestras, mesa-redonda, mini-cursos, oficinas, encontro de ex-alunos, apresentação de trabalhos de pesquisa e relatos. Ou seja, um conjunto de atividades variadas e dinâmicas com a participação dos alunos de todos os cursos envolvidos. Ao final das atividades, pode-se observar que a jornada obteve resultados bastante satisfatórios tendo alcançado as metas traçadas pela comissão organizadora, uma vez que todos os eventos foram cumpridos no prazo e nas datas correlatas, contando com a presença dos alunos e de seus professores. Apenas a viagem programada para o dia 30/05/09 , teve que ser substituída para um passeio histórico pelo centro histórico de Bauru, já que o número de inscritos foi insuficiente para tal empreitada. Assim, nesta data os interessados realizaram um passeio pelo centro histórico da cidade de Bauru, realizando também uma visita técnica aos Museus: Museu Histórico Municipal e Museu Ferroviário Regional. Apresentamos neste espaço então, o conjunto diversificado das pesquisas produzidas neste evento, para todos aqueles interessados em conhecer ou aprofundar leituras referentes a este tema tão necessário de ser repensado nos dias atuais. Pensamos que desta forma estamos atingindo um ideal proposto pelo Historiador Eric Hobsbawm1 : “relembrar o que outros esqueceram ou querem esquecer, é tomar distância tanto quanto possível, dos registros da época contemporânea e vê-los em um contexto mais amplo e com uma perspectiva mais longa”. Equipe Organizadora. 1 HOBSBAWM, E. Globalização, democracia e terrorismo. São Paulo: Cia das Letras, 2007. SUMÁRIO Artigo : ARQUITETURA SUSTENTÁVEL: ECOLOGICAMENTE POSSÍVEL ECONOMICAMENTE VIÁVEL Mariana Polidoro da Silva; Patrícia Adriana Marques de Andrade; Priscila Priori ……………………………………………………………………................... 6 Resumo : CARYOCAR BRASILIENSI CAMB: ESPÉCIE VEGETAL REMANESCENTE DO CERRADO CULTIVADA EM ÁREAS URBANAS Antonio Cícero de Oliveira; Vagner Pedro Aparecido de Miranda Brito; José Carlos Rodrigues Rocha ................................................................................. 16 Artigo : GLOBALIZAÇÃO E ESPAÇO URBANO Natália Lemos dos Santos; Paula Valéria Coiado Chamma ............................ 17 Artigo : TOPOFILIA E PRESERVAÇÃO TERRITORIAL: IDENTIDADE LOCAL E GLOBALIZAÇÃO Mariana Polidoro da Silva; Patrícia Adriana Marques de Andrade; Priscila Priori ................................................................................................................. 28 Artigo : O AEROPORTO MOUSSA NAKHL TOBIAS E O DESENVOLVIMENTO DO TRANSPORTE AÉREO NA REGIÃO DE BAURU/SP Jorge André Ottosato Bocardo; Leandro Marcon Arantes ............................... 35 Artigo : A CULTURA NORDESTINA NA OBRA DE MARLOS NOBRE Maristella Pinheiro Cavini ................................................................................. 50 Artigo : A INFLUÊNCIA ORIENTAL NO MOVIMENTO DE CONTRACULTURA: O ZEN-BUDISMO Luiz Eduardo Tonéis; Roger Marcelo Martins Gomes ...................................... 66 Artigo : DA IMAGEM INDÍGENA PRESENTE EM NOSSO INCONSCIENTE COLETIVO À INVISIBILIDADE INDÍGENA NA FORMAÇÃO DA ALMA BRASILEIRA Márcio Oliveira de Castro Coelho; Antonio Walter Ribeiro de Barros Junior ... 79 Artigo : IGREJA E CORONELISMO: O PADRE DOM JOSÉ MAGNANI ENTRE OS CORONÉIS DE LENÇÓIS PAULISTA Laura Laís de Oliveira; Roger Marcelo Martins Gomes ................................... 91 Artigo : LUDICIDADE DO POVO BRASILEIRO Ronilce Araujo Coltri Consolmano; Fausi dos Santos ...................................... 106 Artigo : MITOLOGIA BRASILEIRA: RESGATE DO PATRIMÔNIO CULTURAL Márcia Estefânia da Costa Berbare Moreira; Ronilce de Araújo Coltri Consolmano; Márcia Regina Nava Sobreira .................................................... 114 Artigo : MUSEU COMO RECURSO DIDÁTICO PARA O ENSINO DE HISTÓRIA Daniela Cristina Pavani; Marcia Regina Nava Sobreira ................................... 129 Artigo : O POETA GUERRILHEIRO: CARLOS MARIGHELLA E O REGIME MILITAR (1964-1969) Guilherme Cortez Ervilha; Laura Laís de Oliveira; Lourdes M. G. Conde Feitosa .............................................................................................................. 142 Resumo : O PÚBLICO É MEU! CONSTRUINDO A IDENTIDADE ATRAVÉS DO PATRIMÔNIO Karla Danielle de Morais; Laura Laís de Oliveira; Solange Nágela Pereira Bezerra ............................................................................................................. 153 Artigo : O QUARTO PODER E A DITADURA MILITAR: UMA RELAÇÃO MARCADA POR CRÍTICAS “CONSTRUTIVAS” E LIBERDADE COM “RESPONSABILIDADE” Fabrício Silva; Solange Nágela Pereira Bezerra .............................................. 154 6 Jornada dos Cursos de História, Geografia e Arquitetura: Espaço, História e Globalização ARQUITETURA SUSTENTÁVEL: ECONOMICAMENTE VIÁVEL ECOLOGICAMENTE POSSÍVEL Mariana Polidoro da Silva1 Patrícia Adriana Marques de Andrade2 Priscila Priori3 RESUMO O presente artigo tem por objetivo analisar a ocupação humana, sua interferência no espaço e seu respectivo ecossistema. A acelerada transformação no espaço natural indica mudanças no estilo de vida e em especial na maneira de habitar das pessoas, tanto no meio rural quanto no meio urbano, indiferente do desenvolvimento social e econômico de cada local ao longo do tempo. A relação entre o ser humano e natureza apontam para a necessidade de desenvolvimento e estudo de uma arquitetura cujo foco principal seja aliar as necessidades humanas às naturais, ou seja, promover o desenvolvimento sustentável. Palavras-chave: Desenvolvimento sustentável. Espaço. 1 INTRODUÇÃO A sustentabilidade tem por objetivo promover a busca pela igualdade social, valorização dos aspectos culturais, causando o menos impacto ambiental possível sem que se perca a viabilidade e eficiência econômica. A sustentabilidade deve ser empregada em diversos setores econômicos. Na arquitetura pode ocorrer de diversas maneiras como a substituição de matérias e técnicas tradicionais por alternativas que visam à minimização de impacto ambiental sem que se perca de vista a economia da obra, sua real viabilidade e os aspectos sócio culturais. 1 Graduação, Universidade Sagrado Coração - Bauru – SP. Graduação, Universidade Sagrado Coração - Bauru – SP. 3 Graduação, Universidade Sagrado Coração - Bauru – SP. 2 7 Por meio da preservação e valorização do ecossistema local é possível manter uma qualidade de vida sem que se perca a comodidade que os recursos artificiais também proporcionam, através do conforto ambiental. A sustentabilidade, no âmbito da arquitetura, denominada também como Arquitetura Ecológica ou Bioarquitetura, surgiu nos anos 70, como um movimento que visa diminuir os impactos ambientais gerados por construções, procurando conscientizar a coletividade das reais necessidades de reduzir impactos negativos decorrentes de obras. Importante frisar que não há como evitar um mínimo de dano. Tendo isto em mente; como a Arquitetura Contemporânea está se aproximando da sustentabilidade ambiental e de que forma esta relação pode ser potencializada? A Arquitetura sustentável está sendo um momento de grande importância para construções de edificações; permitindo assim uma obra não causar danos desnecessários para o meio ambiente. A consistência dela é uma construção natural e harmoniosa buscando sempre a preservação e seus benefícios. Embora não seja dada a devida importância ao tema, ele é abordado com grande freqüência. Sabe-se também que existe uma crescente conscientização das pessoas acerca do tema, no entanto é muito pouco colocado em pratica, contrario à urgência exigida por tal, pois os efeitos do consumo irracional já são uma realidade no planeta, que precisa de comprometimento e seriedade visando reverter esse quadro no futuro, é necessário que se saiba lhe dar com isso, em especial quando se trata de globalização. A imprenscibilidade da pesquisa envolve o entendimento da sociedade no que tange a sustentabilidade, e mais do que isso, meios para modificá-la e melhorá-la. 1.1 OBJETIVO GERAL Apresentar os benefícios econômicos e ambientais da aproximação da sustentabilidade arquitetônica utilizando recursos naturais, materiais orgânicos e ou reciclados, minimizando o uso de recursos artificiais, diminuindo a quantidade de materiais descartados nas obras, visando uma maior eficiência energética, redução do impacto inevitável causado por uma obra. E conseqüentemente uma maior viabilidade econômica. 8 1.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS Utilizar energia solar e iluminação natural Apresentar materiais recicláveis Propor opções para uma construção com menos impacto ambiental Apontar técnicas de aproveitamento ventilação natural Apontar desperdícios de energia e água 2 DESENVOLVIMENTO 2.1 INTERFERÊNCIA HUMANA NO ESPAÇO Desde os primórdios da humanidade, com as evoluções iniciadas há mais de dez mil anos (a agrícola, seguida da industrial, etc.), o homem modificou a face da Terra para o bem e para o mal. Parte mais do que essencial na vida contemporânea, é o crescimento das cidades, os edifícios, não só fazem parte desta história, mas pode-se dizer que são o retrato da época em que foram construídos. Cada época deixa sua marca no tempo com a forma de suas edificações, materiais utilizados e formas diferentes de construção. Se por um lado criou-se imensa comodidade e benefícios para a vida, por outro depredou-se, utilizando-se de maneira exacerbada dos recursos disponíveis no meio ambiente, alterando-o de forma negativa.Um desenvolvimento ininterrupto da sociedade e das cidades levou à busca pela conscientização da população. Nesse contexto surge um novo olhar sobre a utilização da natureza, procurando formar uma aliança global para cuidar da Terra. Especificamente na esfera da Arquitetura buscou-se, em suas construções, um foco novo, embasado na sustentabilidade ambiental. Esta evidencia que existem formas de construir reduzindo os danos inevitáveis causados por uma obra, procurando compensá-la. Neste sentido é o estudo de Campos (2007, p. 1): O conceito de sustentabilidade pode (e deve) estar presente em todas as etapas de uma edificação, desde o projeto até seu uso diário, passando pela construção propriamente dita que se deve usar métodos e materiais que não comprometam o meio ambiente, tanto no local da obra propriamente dito 9 quanto dos locais de onde os materiais forma extraídos, beneficiados ou fabricados. 2.2 RESPONSABILIDADE AMBIENTAL A necessidade de ostentar o poder econômico ainda faz com que não se incorpore plenamente a sustentabilidade arquitetônica nas construções. Cria-se, por exemplo, prédios com fachadas totalmente envidraçadas nos trópicos, tornam-se estufas que necessitam de caros sistemas de refrigeração e iluminação. Entretanto, Amorim (2005), defensora da iluminação natural e de consumo energético baixo, mostra como estes elementos podem contribuir para o conforto ambiental. No que tange à economia diz a autora: “(...) Uma construção projetada para ser energicamente eficiente pode reduzir até 50%o consumo de energia, comparada a uma construção convencional”. Quanto ao calor: “A enorme quantidade de calor, gerada pela excessiva quantidade de lâmpadas também contribui para o aumento da carga do ar condicionado, que passa a consumir mais energia para retirar esse calor”. Defende ainda uma “(...) iluminação natural em arquitetura, com ênfase da mesma como recurso para o conforto ambiental e eficiência energética dos edifícios”. Outros autores como Carmo e Jesus (2007) também pregam o equilíbrio, climatização, redução de energia elétrica, posicionamento estratégico, etc. Estas em especial nos meios de hospedagem ecologicamente corretas e economicamente viáveis. Citando as autoras: O „greenbulding‟ e outros termos como „natural bulding‟, eco-construção, bioconstrução, eco-arquitetura são utilizados para construções sustentáveis que tentar reduzir e otimizar o consumo dos materiais e energia, reduzir e reutilizar os resíduos gerados, preservar e melhorar a qualidade do ambiente natural construído. (CARMO; JESUS, 2007, p. 7) A responsabilidade ambiental ainda é tímida na arquitetura brasileira. Todavia, já desponta algum avanço pontual nessa esfera. Controle solar, inércia térmica, ventilação, luz natural, áreas verdes, controle de ruídos entre outros, são conceitos cada vez mais usuais nos projetos arquitetônicos. A construção objetiva ser mais harmoniosa com a natureza, proporcionando comodidade e dignidade aos seus habitantes. Segundo Tagliari, Gallo e Gouveia (2006), a arquitetura orgânica está relacionada a um compromisso ambiental. O uso de materiais naturais possibilita 10 aproveitamento sustentável e racional dos recursos renováveis. Os autores defendem as „Usonian Houses‟, que se destacam por serem de baixo custo. Segundo eles: “Uma característica marcante nestes conjuntos é a intensa preocupação com a preservação da natureza e a harmonia com a paisagem do entorno”. (TAGLIARI ; GALLO ; GOUVEIA, 2006, p. 5). Métodos relativamente mais simples podem ser facilmente aplicados. É o que mostra a reportagem „Lar, verde lar‟ da revista Arquitetura e construção. Coleta seletiva, aquecedores solares, sensores de presença, medidores individuais, elevadoras econômicos, torneiras economizadoras, bacias sanitárias, são pródigos exemplos de formas de racionalizar o uso dos recursos naturais e ate baratear o valor do condomínio. A utilização de materiais naturais ou ecológicos é de grande valia; o uso destes recursos contribui na preservação do meio ambiente, conceito citado por Campos (2007, p.1): [...] se prega o uso de recursos disponíveis na natureza para atender as necessidades da sobrevivência do Homem, mas, ao mesmo tempo, preservando o planeta para gerações futuras, com atitudes sustentadas por um tripé - as soluções devem ser socialmente justas, ecologicamente corretos e economicamente viáveis. Além de serem economicamente viáveis na hora da construção, alguns materiais ainda contribuem na economia de energia, como a energia solar, sistemas de ventilação e reutilização da água, entre outros. O aproveitamento da Iluminação natural deve ser maximizado, aumentando janelas deixando-as próximas ao teto, pois ajudam a distribuir a luz, cores claras como o branco difunde a luminosidade do ambiente.Garante Carmo e Jesus(2007): A utilização de luz solar para a iluminação dos interiores de uma construção através de espaços descobertos, tetos solares e até mesmo a utilização de cores claras para acabamentos, moveis e utensílios também ajudam a reduzir o uso de energia elétrica. (CARMO; JESUS, 2007, p. 11) 2.3 TÉCNICAS SUSTENTÁVEIS E REAPROVEITAMENTO DE MATERIAIS O recurso mais simples e mais utilizado da-se através da arquitetura bioclimática que promove a utilização de recursos naturais (sol, vento, vegetação 11 etc) com a finalidade de obter-se conforto térmico através da substituição ou amenização do uso dos artificiais (ar-condicionado, luz elétrica etc). Com o aumento de janelas que garantem maior distribuição de ar e luz, diminuição de lâmpadas, pois elas aumentam o calor, planejamento das paredes no interior da construção para que desviem ou não as correntes de ar, lugares arborizados ou com presença de água fazem diferença e aumentam a circulação de ar dentro do ambiente e o ar condicionado torna-se dispensável, reduzindo ainda mais os custos finais da obra e também custos de manutenção.Outro fator importante só é possível antes do projeto da edificação, a posição estratégica, de acordo com condições bioclimática de região e correntes de ar, posições com maior acesso da luz do sol, por maior ou menor tempo durante o dia. Isto deve ser feito através de um posicionamento adequado em relação as posições do sol, das direções do vento e possibilidade da vegetação, de acordo com o efeito que desejase obter, isto é, de acordo com a região em que será construído. A reutilização de água das residências e captação de água das chuvas para lavagem dos quintais, irrigação de plantas entre outros. É uma opção de economia e forma de cultivar. Pré-aquecer a água do chuveiro e das torneiras com a energia do sol que também possibilita um maior aproveitamento dos recursos naturais. A adoção de algumas técnicas pouco utilizadas são também uma alternativa para quem além de buscarem uma obra ecologicamente correta, desejam uma maior economia o que não significa a perda de conforto, como é o caso dos cascajos que são tetos pré-fabricados feitos de painéis abobadados, podem cobrir um vão de até quarto metros com a vantagem de economizar material básico.Podem ser utilizados também como laje. As casas pré - moldadas é mais uma opção para quem deseja um menos custo, pois desperdiçam menos material, são construídas em um pequeno espaço de tempo e como conseqüência utilizam menos energia e material. A técnica do plaste substitui a argamassa utilizando tela de fachada ao invés da de galinheiro construindo placas pré-moldadas podem ser usadas em escadas, caixas d‟água e lages . Outro recurso a ser utilizado com a finalidade de produzir menos quantidade de lixo gerada pela construção civil é a reciclagem, ela ocorre através do aproveitamento de materiais geralmente descartados ou através de reutilização. O mercado já oferece vários produtos de provenientes de reciclagem como telha e 12 forros feitos de tubos de pasta de dente e embalagens de longa vida, tubos de plástico reciclável, conduítes de embalagens de agrotóxico, resíduos da industria siderúrgica são utilizados na fabricação de cimento etc. A fim de diminuir o desmatamento o uso de madeiras certificadas é um recurso que contribui também ao combate ao manejo ilegal de madeira. 2.4 ADEQUAÇÃO DA EDIFICAÇÃO AO MEIO EXTERNO 2.4.1 Clima Temperado O frio é mais intenso nas regiões de clima temperado, por isso é importante usar materiais que isolem o interior do frio externo e guardem o calor dos ambientes. A casa deve ser exposta ao sol. Tão importante quanto a posição do sol, é imprescindível ter as janelas e fachadas posicionadas em direção ao oeste, priorizando nesta área grandes janelas. As casas construídas sobre pedras servem para proteger do frio que vem do solo, paredes grossas servem para isolar ainda mais termicamente o interior, podendo contar ainda com uma boa lareira para aquecer o ambiente, que utilizada estas técnicas, permanece no interior por mais tempo. Fachadas ao sul, com poucas aberturas e a proteção de arvore inibem o vento, o que torna a edificação ainda mais aconchegante sem técnicas artificiais. 2.4.2 Clima Tropical Úmido Com o clima tropical úmido, com chuvas a altas temperaturas, os tetos devem ser bem mais altos e bem inclinados. A pequena diferença entre o dia e a noite faz com que o ideal das casas seja umas construções distantes das outras, para que assim possa haver mais corrente de ar e ventilação entre as casas. Os tetos nesses locais geralmente são altos, pois assim facilita a ventilação e escoamento da água, também nos tetos a abertura neles é importante para contribuir para uma melhor ventilação. A parede fina não retém muita a umidade, e por isso são mais apropriadas para o clima tropical úmido, no piso também é utilizada de uma técnica contra a umidade, que é o piso elevado, evitando assim a umidade do solo. 13 Janelas grandes são muito utilizadas, pois se pode aproveitar ainda mais a ventilação do local, varandas abertas ao redor, protegem a edificação de chuvas e sol. 2.4.3 Clima Tropical Seco Com dias quentes e noites frias, o clima tropical seco idealiza-se construções, umas próximas as outras, ampliando assim as sombras e diminuindo a exposição das paredes ao sol Um pátio interno para ventilação dos ambientes é uma das técnicas mais utilizadas para manter um clima favorável e ameno, também o teto “verde” ou com terra serve para proteger os ambientes das altas temperaturas. Paredes grossas protegem os ambientes das variações bruscas de temperatura. O piso apoiado sobre o solo ou então apoiado sobre cisternas para receber ainda mais amena e confortável de baixo para cima. Janelas pequenas alem de impedir a entrada direta e forte do sol, impede também que entre poeira em excesso. Pintada de cores claras a casa não absorve tanto calor, o que também favorece seu clima. Em suma, as alternativas para se empreender a arquitetura sustentável são amplas e em estado de franca expansão. Tais alternativas podem ser utilizadas tanto em edificações novas como em reformas. O papel do arquiteto diante desta assertiva cresceu, na medida em que poderá valer-se destas técnicas para um planejamento inovador e em consonância com uma obra sustentável. Por fim, imprescindível não perder de vista o ensinamento de Tagliari, Gallo e Gouveia (2006, p. 2): “A Natureza é a grande professora do arquiteto orgânico e devemos aprender com ela e responder aos seus ensinamentos”. Quando o assunto é arquitetura sustentável ou então, eco-arquitetura, o primeiro olhar vai direto para a estrutura visível ou então para seus materiais com que é feito um edifício. As expectativas normalmente visam o encontro dos recursos naturais, mas as madeiras podem ser problemáticas, a menos que tenha uma boa procedência, e venha de uma reserva sustentável. 14 Enquanto um arranha-céus pode não parecer muito eficiente, o vidro pode ser termicamente avançado e poupar energia, o que lhe permite controlar a eletricidade e de forma engenhosa e escondida obter ventilação natural. SUSTAINABLE ARCHITECTURE : POSSIBLE ECOLOGICAL ECONOMICALLY VIABLE ABSTRACT This article aims to analyse the human occupation, its interference on the space and ecosystem. The fast transformation in the natural space indicates change in lifestyle and in particular in the way of reside/occupy of people, both in rural as in urban space, indifferently of the social and economic development of each place over time. The relationship between human beings and nature points to the need of development and study of an architecture whose main focus is to combine the human needs to the natural needs, in other words, promote sustainable development. Keywords: Development sustainable. Space. REFERÊNCIAS AMORIM, C. N. D. Iluminação natural, conforto ambiental e eficiência no projeto da arquitetura. 2005. 8p. Dissertação (Estudos Especiais em Tecnologia 1) Universidade de Brasilia, Brasília. CAMPOS, I. M.; FERRAZ, I. O que é Arquitetura Sustentável? In: Fórum da Construção. [200-].Disponível em: < http://www.forumdaconstrucao.com.br/conteudo.php?a=23&Cod=310>. Acesso em: 10 maio 2008. CARMO, L. P.; JESUS, K. C. Pousadas ecológicas: um novo conceito de meio de hospedagem se integrando ao ecoturismo. 2007.14 p. Tese (Doutorado em Turismo) - Puc, Minas Gerais. CORBIOLI, N. Construção Sustentável: o futuro pode ser limpo. In: Arco Design. [200-].Disponível em: < http://www.arcoweb.com.br/tecnologia/construcaosustentavel-o-futuro-20-03-2003.html >. Acesso em 10 maio 2008. PEDREIRA, L. Lar, verde lar. Arquitetura e Construção, São Paulo, p. 29-30, maio 2008. 15 TAGLIARI, A.; GALLO, H.; GOUVEIA, A. P. S. A construção sustentável: aspectos da arquitetura orgânica. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL CIÊNCIA E TECNOLOGIA NA AMÉRICA LATINA: A UNIVERSIDADE COMO PROMOTORA DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, 3, 2006, Campinas. Anais...Campinas: Unicamp, 2006. 10 p. 16 Jornada dos Cursos de História, Geografia e Arquitetura: Espaço, História e Globalização CARYOCAR BRASILIENSI CAMB: ESPÉCIE VEGETAL REMANESCENTE DO CERRADO CULTIVADA EM ÁREAS URBANAS. Antonio Cícero de Oliveira1, Vagner Pedro Aparecido de Miranda Brito2, José Carlos Rodrigues Rocha3 RESUMO O Cerrado é um complexo de formação vegetal que apresentam fisionomias e composição florística e com potencial econômico. Ocupava 25% do território nacional e neste bioma está o pequizeiro, uma espécie vegetal e dádiva do Cerrado. Suas copas são arredondadas, flores amarelas e vistosas, o pólen atrai diversos tipos de polenizadores. O objetivo desse trabalho visa monitorar seu desenvolvimento, fazer coletas de sementes, produzir mudas a fim de viabilizar para arborização urbana. A justificativa é de considerar o fato de a espécie constar na lista de extinção do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA) e também pela proteção da lei federal para sua preservação. Sua estrutura morfológica é muito complexa e sua semente possui embrião imaturo não favorecendo a germinação das sementes em seu habitat. Existe a necessidade de um trato específico como à quebra de dormência, além do mesocarpo e amêndoas conter altos índices de substanciais nutricionais. A metodologia foi norteada pela pesquisa de campo que, após sua localização as árvores foram fotografadas e por fim elaborado um mapa da cidade indicando os pontos referidos. O pequizeiro é cultivado em meio à outras espécies e utilizado para paisagismo, resistindo a perturbação urbana em passeios públicos, vazios urbanos e terrenos baldios. Palavras-chave: Cerrado. Pequizeiro. Preservação. 1 2 Graduando do Curso de Geografia da Universidade Sagrado Coração (USC) – Bauru – SP. Graduando do Curso de Geografia da Universidade Sagrado Coração (USC) – Bauru – SP. Orientador, Professor do Curso de Geografia da Universidade Sagrado Coração (USC) – Bauru – SP. 3 17 Jornada dos Cursos de História, Geografia e Arquitetura: Espaço, História e Globalização GLOBALIZAÇÃO E ESPAÇO URBANO Natália Lemos dos Santos1 Paula Valéria Coiado Chamma 2 RESUMO O presente artigo tem por objetivo analisar a dinâmica da globalização e sua interferência no espaço urbano. As transformações do espaço público na sociedade contemporânea apontam mudanças nos estilos de vida, na percepção do tempo e do espaço e nos usos da cidade. A dicotomia público-privado indica como o espaço é transformado pelo processo da globalização. Palavras-chave: Globalização. Espaço público. Espaço privado. 1 INTRODUÇÃO A maioria dos brasileiros vive hoje em cidades. Até mesmo a população que não vive nas cidades tem um modo de vida urbano, em diferentes aspectos. Os modernos meios de comunicação e as facilidades de transporte proporcionadas pelo processo de globalização diminuem as distâncias e diferenças nas categorias de espaço urbano e rural. Grupos sociais que poderiam ter suas necessidades satisfeitas com uma produção local estabelecem, cada vez mais, uma relação de dependência com aqueles que são detentores dos meios de produção e de tecnologias. A circulação de bens e pessoas facilitadas com a mecanização e motorizações diminuíram as distâncias entre cidades. 1 2 Aluna do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Sagrado Coração – Bauru – SP. Profª. Drª. do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Sagrado Coração – Bauru – SP. 18 A cidade que se caracterizava pelo local do encontro e da troca, torna-se com a globalização o local de passagem de pessoas, de serviços, de mercadorias e de informações. Na sociedade capitalista, consumir é sinônimo de ascensão social. O espaço privado ou a propriedade privada é valorizado em detrimento ao espaço público. Ter a posse de um espaço inacessível ao uso público torna-se sinônimo de poder. Salvo a minoria privilegiada, as populações urbanas dos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento vivenciam uma situação de subconsumo. No entanto, as cidades aumentam com a mesma velocidade com que acontece o isolamento dos cidadãos e a segregação social. 2 DESENVOLVIMENTO 2.1 ESPAÇO PÚBLICO E ESPAÇO PRIVADO A dicotomia público-privado é manifestada em relação ao espaço desde muito tempo, antes mesmo de o mundo todo ter ciência dos efeitos da globalização. Com base em Sennett (1943) verifica-se que já no século XVII o público era usado no sentido de aberto à observação de qualquer pessoa. O privado significava uma região protegida da vida, definida pela família e pelos amigos. No Renascimento, a palavra público significava o bem comum ou o corpo político e gradualmente o público foi se tornando o espaço da sociabilidade. A expressão “sair em público” era usada na época e persiste até hoje. No século XVIII, nas cidades de Paris e Londres, grupos diversos estavam entrando em contato com a sociedade. De acordo com o termo francês registrado em 1738, o homem público urbano era designado “cosmopolita”. O cosmopolita era um homem que se movimentava despreocupadamente em meio à diversidade, que está à vontade em situações sem nenhum vínculo nem paralelo com aquilo que lhe é familiar. Assim sendo, o público significava uma vida que se passava fora da vida da família e dos amigos íntimos. Era o espaço de convivência de grupos sociais diferentes, cujo contato era inevitável. Nessa época que surgiram enormes parques urbanos, ruas com passeio para pedestres, centros sociais como bares, cafés, estalagens, abertura do teatro e ópera para todos, através da compra de entradas. 19 No século XIX, o capitalismo industrial estimulou a privatização dos espaços. A família tornou-se cada vez mais o refúgio ideal, com valor moral mais elevado em relação ao domínio público, pois em público ocorriam violações morais, rompimento de leis. Era em público que a sociedade experimentava sensações e relações humanas que não poderiam ser experimentadas em qualquer outro espaço. Segundo Relph (1987), as paisagens são feitas pelas idéias e pela construção, e a última década do século XIX estava cheia de idéias sobre a forma como a sociedade e as cidades evoluiriam no futuro. Uma vaga de inovações tecnológicas prometia progressos drásticos ao nível do conforto e da saúde, enquanto as filosofias do socialismo sugeriam que esses progressos estariam em breve ao alcance de todos. O domínio público e privado se diferenciava para homens e mulheres da época. Para as mulheres o público significava o perigo, o risco de perder as virtudes. Já para o homem o público tinha uma conotação moral diversa, pois podiam “perderse em público” O público e o privado carregam ainda muitas conotações da história. Ferreira (1986) afirma que o público tem vários significados, entre eles, relativos ou pertencentes ao povo, à coletividade; relativo a governo; o que é de uso comum; o que é aberto a qualquer pessoa; o que não é secreto; conjunto de pessoas que assistem a espetáculos, reuniões; conjunto de pessoas que lêem, vêem ou ouvem uma obra literária, dramática, musical. O privado significa o que não é público, o desprovimento, a carência. Atribuindo-se o conceito de privado ao espaço consideram-se os espaços livres urbanos, utilizados pelos diferentes grupos sociais. Toda sociedade tem seus códigos culturais que viabilizam a apropriação dos espaços urbanos, que se constituem em dois tipos: espaços construídos (casas, lojas, indústrias, igrejas, bares, escolas) e livres (ruas, vielas, avenidas, becos, largos, praças, jardins, pátios, quintais, parques, terrenos baldios, praias). Embora o espaço construído seja fechado ou privado nada impede que seja público. O espaço livre, embora aberto, pode também ser privado. Entre essas tipologias dos espaços urbanos se estabelecem as relações de apropriações. Para Santos, Vogel e Mello (1985): 20 as manifestações sócios-culturais são características de um grupo e que servem para distingui-lo, em relação a quem é de fora e para seus próprios membros, sempre estarão referidas ao conceito de “abertura” de espaço. Irão se dar em locais públicos ou naqueles que, por força de um uso especial, passarão a ser vistos “como se fossem públicos”. Jogos, reuniões, festas, encontros, cerimônias e atividades semelhantes que se oponham às idéias de privacidade e de intimidade, encontram na rua o seu lugar ideal. É aí que deve estar o que é de todos, de modo que, quando se dão em locais fechados, fazem-nos sofrer uma transformação. Em contrapartida, quando são levados à rua ações que tenham sentido particular e restrito, a via pública como que se fecha. Na definição de Macedo (1996) espaços livres são todos aqueles não contidos entre as paredes e tetos dos edifícios construídos pela sociedade para sua moradia e trabalho. Para ele há divisão nos espaços livres urbanos, que devem ser classificados em espaços livres de edificação e espaços livres de urbanização. Nos espaços livres de edificação encontra-se toda sobra de terreno não edificado no lote, utilizado para quintais ou para jardins. Assim sendo, a morfologia urbana, particularmente no quarteirão, influi na possibilidade ou não da existência desse espaço livre. Além disso, o reparcelamento do solo e a propriedade do solo alteram os lotes, pois as formas de apropriação por diferentes extratos sociais da população influenciam a concepção dos espaços livres urbanos de edificação. No Brasil esses espaços livres de edificação se modificaram também através do tempo, acompanhando a própria evolução das cidades. No período colonial, as vilas e cidades apresentavam casas térreas e assobradadas construídas no alinhamento da via pública e sobre os limites laterais do terreno. Já no século XIX as casas urbanas se afastavam dos terrenos vizinhos laterais, surgindo os jardins laterais, passando a exigir mudanças nos tipos de lotes. No século XX as casas urbanas passam a exigir não só o afastamento lateral como o afastamento da rua. Nos espaços livres de urbanização estão todos os espaços e áreas verdes urbanas, bem como as áreas de lazer e de circulação. Considera-se espaço verde toda área urbana ou porção do território ocupada por qualquer tipo de vegetação e que tenha um valor social, como são as áreas utilizáveis na produção de alimentos e as áreas de preservação ambiental. Já a área verde é toda e qualquer área que exista vegetação, como são as praças, jardins e avenidas. Se essa área verde for destinada prioritariamente ao lazer é considerada área de lazer, mesmo que seja todo e qualquer espaço livre de edificação, ativo (área de jogos e brincadeiras) ou passivo (áreas de contemplação). A área de circulação é atribuída aos sistema de 21 comunicação e circulação urbana (ruas, avenidas, rotatórias, rodovias, ferrovias, hidrovia). A globalização modificou o conceito de espaço público e privado nas cidades contemporâneas. O processo de globalização é ao mesmo tempo econômico, social e cultural e estabelecem uma integração entre os países e as pessoas do mundo todo. É a expansão do capitalismo gerando novas formas de relações entre as nações. 2.2 A GLOBALIZAÇÃO E AS MODIFICAÇÕES NO ESPAÇO PÚBLICO A globalização consiste em um movimento de transnacionalização das grandes empresas, transformações tecnológicas e científicas, avanços dos meios de comunicação, dissolução das fronteiras nacionais, diminuição do poder do Estado e privatizações das estatais. O processo de globalização teve suas origens na era dos descobrimentos e das grandes navegações. Fatores históricos, como a queda do muro de Berlim, fortaleceram o capitalismo, bem como o fim da Guerra Fria. Esse processo foi intensificado com a formação dos blocos econômicos, que tem como objetivo a unificação econômica entre países. No Brasil, como em todo mundo, as cidades os espaços também vistos como produtos de consumo assistem à deterioração dos espaços públicos, principalmente da área central. Esses espaços vão sendo abandonados ou degradados, destinando-se muitas vezes à passagem das pessoas e não à permanência. Somase a isso a falta de incentivo governamental e as diferenças sociais. O resultado é a morte dos espaços públicos de urbanização, que em geral, dependem dos governos municipais e do uso adequado por parte da população para sobreviverem. Os espaços públicos urbanos, principalmente, nos grandes e médios centros urbanos, são destinados ao uso da população mais carente, para os mais diferentes fins. Segundo Frúgoli (1995) os homens que se apropriam dos espaços públicos, adaptando-os e modificando-os às suas necessidades específicas são os chamados atores sociais de rua. São eles; os desempregados, os engraxates, os ambulantes, as prostitutas, os idosos e aposentados, os mendigos, os marginais e as crianças de rua. Para atender suas necessidades os atores de rua subvertem o caráter democrático da cidade, na medida em que criam um domínio privado no espaço 22 público. Certos atores de ruas demarcam o espaço público com “regras” por eles estabelecidas, determinam “posses” de “pontos”, estabelecem lideranças e alianças. Nesses casos, os espaços públicos tornam-se espaços privados. A conjugação de todos esses fatores faz com que os espaços públicos urbanos, especialmente os espaços livres estejam cada vez menos utilizados. Os shoppings centers, de propriedade privada são considerados o edifício símbolo da globalização, a representação máxima do consumismo. Ele permite o uso interclasses, com certa predominância dos estratos mais privilegiados e da classe média. É um espaço privado funcional, de ocupação organizada, seletiva, previsível e controlada e dá a idéia de proteção contra os males do espaço público. São cidades dentro das cidades, expressões da centralidade urbana, possibilitando a ilusão de acesso público e de segurança. Os shoppings centers transformaram-se em cenários para as relações sociais como lazer, encontros, ócio, exibição, passeio e principalmente o consumo, modificando as relações temporais, já que na maioria deles o espaço intramuros proporcionado isolamento com o exterior, possibilitado pelo sistema de iluminação artificial e pelo sistema de circulação, refrigeração ou de aquecimento do ar. Mas os shoppings dão margem a um conjunto de ocupações por parte de diversos grupos sociais que eventualmente não agradam a grupos de maior poder aquisitivo, podendo levar a uma nova resignificação na apropriação desse espaço. 2.3 A GLOBALIZAÇÃO E AS MODIFICAÇÕES NO ESPAÇO PRIVADO É no espaço livre da edificação que se caracteriza o espaço privado, mais especificamente, no lote. O modelo ideal de lote no mundo globalizado é aquele em que é possível ter a edificação, com afastamentos laterais e frontais e de preferência espaço para automóveis. A impossibilidade sócio-econômica na aquisição de um lote com bom padrão dimensional por classes de baixo poder aquisitivo faz surgir adaptações e apropriações indevidas nos espaços livres, criando uma cidade real que difere da cidade legal. Em quase todas as cidades brasileiras a situação é a mesma, mas permanece a inexistência de programas de implementação de espaços livres de edificação, destinado ao lazer, principalmente para as camadas mais carentes da 23 sociedade. Para as camadas de melhor poder aquisitivo, a solução implementada é a dos condomínios, enfatizando cada vez mais a criação dos espaços privados. Os condomínios são a resposta rápida para a busca dos espaços livres de edificação e, ao mesmo tempo, de urbanização, pois neles são implantadas áreas de lazer, praças, parques, dentro das devidas proporções, mas com a vantagem da segurança do espaços privados. Eles são a representação da negação do espaço público. Embora sejam eles espaços organizados para moradia procuram recriar internamente uma “comunidade”, cuja identificação está principalmente no mesmo patamar sócio-econômico. São espaços à parte das cidades. Nas populações de composição social de classe média, as loteadoras vendem a idéia dos condomínios, embora com menor ostentação. No entanto a principal motivação para sua implantação é a proteção quanto à violência urbana. 2.4 INFLUÊNCIA DA GLOBALIZAÇÃO NA ARQUITETURA CONTEMPORÂNEA As exigências colocadas pela globalização resultaram numa competição nacional e internacional voltada para atração de investimentos, capitais, atividades administrativas e comerciais e para o incremento da movimentação turística visando dinamizar as estruturas econômicas das cidades. O aumento e a diversificação da produção industrial refletiram diretamente na organização da indústria da construção e nas mudanças da estrutura dos países implantando a produção dos bens duráveis, que se tornaram mais acessíveis pela propagação e facilidade de crédito ao consumidor. A produção de materiais em larga escala modificou o cotidiano das pessoas, principalmente das classes média e alta. As inovações tecnológicas do final do século XIX modificaram a aparência das cidades. O aço estrutural torna possível a construção de arranha-céus, a eletricidade muda o aspecto da noite e os automóveis por sua vez também pedem adaptações no desenho urbano. As cidades passam a precisar de aeroportos e são povoadas por anúncios e comunicação visual de todo o tipo. A globalização mudou tudo, tornou o mundo um lugar mais imprevisível, mais competitivo, eliminou quase que completamente ou enfraqueceu as antigas idéias culturais e artísticas, tornando a arquitetura um desafio ainda maior. Não se tem 24 mais um contexto limitado para dizer o que é bom ou não e nem é possível rotular um estilo, pois os rótulos se foram. A arquitetura foi sempre condicionada pelas contradições dos processos sócio-econômicos. No século XX construiu-se tanto que o espaço rural se tornou urbano e com isso foi perdido o equilíbrio de ambiente natural e construído. O mercado passou à exigir que o arquiteto equilibrasse a relação custobenefício de uma obra, tornando a criação um pouco limitada. Por outro lado, a facilidade de informação e materiais de altíssima tecnologia possibilitam aos arquitetos a liberdade de criar e pensa. É necessário superar esse momento de embriaguez de tanta informação e balancear a relação entre possibilidade de criações e até onde o mercado pode aceitar financeiramente essas criações. Nos prédios antigos é possível notar o exagero de espaços e abuso de medidas, pois o mercado oferecia e podia pagar por isso, hoje essa questão de espaço já está muito mais restrita. A busca pelo imóvel próprio fez com que houvesse uma supervalorização do mercado imobiliário. Segundo Relph (1987), a arquitetura se tornou com o tempo, uma forma de demonstração de status, com isso a vida dos menos favorecidos e dos que não tem poder é diretamente afetada pelas paisagens, já que pouco alteram seu entorno e apenas se adaptam. Já os ricos e politicamente poderosos podem alterar em larga escala as paisagens conforme suas necessidades para exibirem a suposta superioridade social. O resultado global é uma paisagem urbana caracterizada, sobretudo pelo seu trabalho de composição de funções, onde há lugar para tudo e tudo tem um lugar definido, segundo Alison Ravetz (1983), denomina-a “a cidade segregada”. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS A discussão do espaço público e privado apresenta uma dinâmica social com aceleradas modificações no tempo e no espaço. O que foi público no passado tornase privado no presente. O que é privado no momento poderá se tornar público no futuro. Da Antiguidade à Idade Barroca a representação máxima do espaço público, ou seja, a praça, foi concebida para a reunião da coletividade. Era a própria imagem pública facilmente identificada pelo cidadão, onde ele se sentia livre. Nas cidades reurbanizadas do século XIX, as praças eram deixadas à parte. Valorizava-se os 25 grandes espaços exteriores, que se tornaram impróprios para o uso coletivo. No modernismo, a arquitetura do vidro prometia oferecer a integração entre o espaço público e privado. O encurtamento das distâncias entre as cidades e nações, a melhoria do sistema de informação e de meios de comunicação, a possibilidade de se trabalhar em casa e passar maior tempo com a família não facilitou o lazer nos espaços livres urbanos. A facilidade em reencontrar pessoas, fazer novos contatos, integrar pelo acesso instantâneo à informação, surpreendeu e construiu uma relação do homem com o tempo e o espaço. As vantagens do comércio digital interferiram no espaço da cidade. O mercado local cedeu lugar ao mercado digital devido à redução dos custos com pessoal, com as instalações físicas e manutenção, segurança aos usuários. A internet elimina a presença física nas relações pessoais e comerciais. Por outro lado, a mundialização dos saberes, a ampliação do conhecimento das outras culturas em relação ao turismo, gastronomia, moda, arquitetura, música, cinema possibilitou um avanço cultural na sociedade. Na atualidade, o fax, o computador, a tv à cabo, os serviços on-line estão favorecendo a não-distinção entre espaço de moradia e de trabalho, sendo desnecessário buscar nas ruas as mercadorias. Sendo as cidades o reflexo de seus cidadãos, é essencial conhecer o comportamento humano para supor os caminhos futuros do espaço público e privado. O homem está preocupado cada vez voltado para si próprio, com suas emoções particulares. Há uma confusão entre vida pública e privada: as pessoas tratam, em termos de sentimentos pessoais, assuntos públicos, que deveriam ser tratados dentro dos códigos da impessoalidade. Convivem menos socialmente a cada dia. O mundo globalizado tornou-se a metáfora da democracia, onde todos tem acesso a tudo. Porém aumenta a distância entre os que têm acesso e os que não têm, por conseqüência aumentam as disparidades sociais Os espaços livres de uso público privado podem ser reapropriados, com programas de incentivo por parte dos governantes, estimulando a cidadania e conscientizando a população na importância de vivenciar sua cidade. 26 A paisagem urbana precisa ser revalorizada, devolvendo a ela o que há de histórico, de memória, de sociabilidade, de convivência, de identidade e de traço humano na cidade. GLOBALIZATION AND URBAN SPACE ABSTRACT The present article aims at analyzing the dynamics of globalization and interference in urban areas. The transformations of the public space in the contemporary society show changes in life-style, in the perceptions of time and space, and in the uses of the city. The public-private dichotomy shows how the space changes in the process of globalization. Keywords: Globalization. Public space. Private space. REFERÊNCIAS ARANTES, O. B. F. O lugar da arquitetura depois dos modernos. São Paulo: EDUSP; FAPESP, 1993. FARIA, H. F.; SOUZA, V. Vidadania cultural em São Paulo. Revista Pólis, São Paulo, n. 28,1997. REIS FILHO, N. G. Quadro da arquitetura no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1995. FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. FRÚGOLI, H. J. São Paulo: espaços públicos e interação social. São Paulo: Marco Zero, 1995. MACEDO, S. S. Paisagem Urbana : os espaços livres como elementos de desenho urbano. Bauru: UNESP, 1996 (Cadernos Paisagem, Paisagens 1 - Uma visão interdisciplinar sobre o estudo da Paisagem). SANTOS, C. N. F.; VOGEL, A.; MELLO, M. A. da S. Quando a rua vira casa. São Paulo: Projeto Arquitetos Associados, 1985. 27 SENNETT, R. O declínio do homem público: as tiranias da intimidade. São Paulo: Cia das Letras, 1988. RELPH, E. A Paisagem Urbana Moderna. Rio de Janeiro: Edições 70, 1987. 28 Jornada dos Cursos de História, Geografia e Arquitetura: Espaço, História e Globalização TOPOFILIA E PRESERVAÇÃO GLOBALIZAÇÃO TERRITORIAL: IDENTIDADE LOCAL E Mariana Polidoro da Silva1 Patrícia Adriana Marques de Andrade2 Priscila Priori3 RESUMO O presente artigo tem por objetivo analisar os laços afetivos do indivíduo em relação o um determinado lugar, cujas, características próprias apontam para uma identidade sócio-cultural. /a necessidade desta identidade é reforçada pelo processo de globalização fazendo com que a pessoa sinta-se parte integrante daquele lugar, assim formam-se as tribos urbanas. A relação entre individuo e lugar reflete a maneira com que cada tribo se relaciona entre si, em detrimento das padronizações socio-culturais e comportamentais impostas pela globalização. Palavras-chave: Globalização. Topofilia. Identidade territorial. Desenvolvimento local. 1 INTRODUÇÃO As primeiras discussões sobre topofilia surgiram simultaneamente às de globalização, no entanto este fato não é uma simples coincidência, pois ambos estão diretamente ligados e associados ao desenvolvimento, que promovido pela globalização e pelo modelo capitalista que valorizam as políticas privadas, tem como conseqüência a facilidade e rapidez do fluxo de pessoas, noticias, idéias, desta maneira existe uma padronização dos modos de produção e bens de consumo, assim o ambiente sofre uma grande interferência do meio externo global, desta maneira ocorre uma descaracterização da identidade sócio-cultural e territorial. 1 Graduação, Universidade Sagrado Coração - Bauru – SP. Graduação, Universidade Sagrado Coração - Bauru – SP. 3 Graduação, Universidade Sagrado Coração - Bauru – SP. 2 29 A descaracterização sócio-cultural faz com que se perca a diversidade de expressão social, cultural e estética, em prol de uma expressão generalizada que sugere estereótipos impostos pela sociedade e tido como adequados. A topofilia no âmbito arquitetônico e urbanístico visa preservar o ambiente natural e artificial, voltando o foco para a idéia da preservação patrimonial, que a partir dos laços afetivos do individuo em relação com um determinado local torna-se algo natural, e não imposta por leis e nem códigos civis. A necessidade do estudo sobre topofilia dá-se devido à necessidade de preservação do ambiente, que por meio do apego ao lugar, cria-se então a iniciativa de ter cuidados especiais e de promovê-lo. 1.1 OBJETIVO GERAL Apresentar um estudo sobre topofilia e preservação territorial, por meio de uma analise da relação entre o individuo e o espaço, da necessidade dessa relação diante da sociedade globalizada que se vive hoje, a fim de preservar as características e identidade local. 1.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS Preservar a identidade territorial Resgatar a identidade sócio-cultural Promover a conscientização da preservação patrimonial Incentivar o desenvolvimento local Preservar as características locais 2 DESENVOLVIMENTO 2.1 GLOBALIZAÇÃO E DESCARACTERIZAÇÃO TERRITORIAL Globalização é um processo que consiste na facilitação dos fluxos de pessoas, idéias, notícias, culturas e tendências, este processo acelerou-se muito 30 rapidamente, em especial no ultimo século, devido à segunda revolução industrial, isto deu-se devido à expansão das tecnologias desenvolvidas e aplicadas aos meios de transporte e comunicação e pela acessibilidade alcançada por tais. Com este processo acelerado, criou-se uma espécie de padronização tanto entre os bens de consumo quanto entre os meios de produção, fator que teve um a intervenção diretamente no espaço territorial, modificando drasticamente as paisagens. Cada local possui uma identidade própria, é marcado por suas peculiaridades, pelo hábito de seus moradores e ou freqüentadores, formando espécies de tribos, de pessoas que possuem interesses em comum, ou laços afetivos de proximidade e também relações comercias entre comerciante e consumidor, por exemplo. Os relacionamentos entre os que de alguma maneira fazem parte de determinado ciclo social são determinadas e marcadas por alguma caracterização ambiental. Assim o ambiente e as relações humanas se integram, tornando-se parte integrante um do outro, explicando as preferências de cada um por determinado local. Neste sentido TUAN (1980, p. 68) afirma: Para compreender a preferência ambiental de uma pessoa, necessitaríamos analisar sua herança biológica, criação, educação, trabalho e arredores físicos. No nível de atitudes e preferências de grupo, é necessário conhecer a história cultural e a experiência de um grupo no contexto de seu ambiente físico. Em nenhum dos casos é possível distinguir nitidamente entre os fatores culturais e o papel do meio ambiente físico. Os conceitos “cultura” e “meio ambiente” se superpõem do mesmo modo que os conceitos “homem” e “natureza”. A necessidade de afirmação de uma identidade, tornou-se essencial com a globalização, pelo desequilíbrio e desigualdades das relações político-sociais, que acabam determinando o desordenamento territorial, degradação ambiental, descaracterização local, decorrente da adoção de uma identidade global. Embora as tecnologias tenham se tornado mais acessíveis, seu domínio ainda está ns mãos de um seleto grupo de países ricos, criando um grande contraste com os demais. Portanto, apesar da globalização aproximar através do que sua tecnologia proporciona, ela segrega ainda mais, tanto na detenção do conhecimento tecnológico, quanto nas disparidades sociais, dividindo o mundo em dói hemisférios, o Norte rico e o Sul pobre. 31 Desta maneira o indivíduo sente um a necessidade cada vez maior de um lugar próprio no espaço de cada indivíduo, como maneira de afirmar sua identidade cultural e social, assim busca preservar o local como se fosse parte integrante de seu ciclo social. Busca também uma forma de expressão sócio-cultural menos abrangente, menos global e mais local, por meio desta expressão é possível desenvolver-se uma identidade própria de cada território e de cada indivíduo. 2.2 IDENTIDADE E DESENVOLVIMENTO LOCAL Muito embora o processo de globalização tenha dissolvido algumas características próprias de cada local, não foi possível descaracterizá-la totalmente, pois é próprio do ser humano o apego em relação ao lugar, desenvolvido por sua memória afetiva e estimulada por seus sentidos e pela afetividade pelo entorno, pois vizinhança fator que mais determina o nível de satisfação da pessoa em relação ao lugar, sua importância é tão grande, que se torna maior que os desejos por melhores condições habitacionais e o emprego de infra-estrutura, tanto é que as reclamações da vizinhança são maiores que as de condições residencial. Com base nesta importância Tuan (1980, p. 252), confirma: A satisfação com o bairro, depende mais da satisfação com os vizinhos sua amizade e respeitabilidade do que das características físicas da área residencial. As reclamações sobre moradias inadequadas ou ruas inseguras comumente são reclamações sobre hábitos e padrões dos vizinhos. As relações sociais parecem determinar a maneira como as pessoas responderão à adequação de suas moradias e facilidades ou se mudam como enfrentam a superlotação e outras inconveniências. As diferenças e peculiaridades de cada ambiente contribui ao desenvolvimento especificamente voltado a um determinado lugar, atendendo às necessidades específicas de seus habitantes, buscando atender às necessidades locais, diferente do que geralmente ocorre, o desenvolvimento que visa atender às necessidades generalizadas das pessoas, enquanto ocorre uma deficiência no atendimento das necessidades específicas de determinado grupo. Partindo do princípio de desenvolvimento local é possível criar iniciativas a fim de atender a um grupo específico de indivíduos, a iniciativa deve partir de diversos 32 setores da sociedade, pois deve atender aos anseios sociais, culturais e econômicos de determinada parcela da sociedade. 2.3 TOPOFILIA E PRESERVAÇÃO PATRIMONIAL E AMBIENTAL O sentimento de afetividade com o lugar parte das memórias afetivas, das lembranças e do apego sentimental com seus moradores e a sensação de ser parte integrante do espaço, desperta nas pessoas a iniciativa de preservar alquilo como se fosse uma extensão de sua casa, isso não ocorre por imposição, nem por conscientização, ocorre devido à própria afetividade em relação ao espaço natural e artificial, ou seja, preservação ambiental e patrimonial. A preservação é garantida pelo tombamento que é um ato administrativo que ocorre por intermédio da aplicação de legislação especifica, podem ser tombados bens de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambienta, e afetivo. Impedindo sua destruição e descaracterização. O termo tombar vem de Portugal, onde os documentos antigos e preciosos são guardados , até hoje, no Arquivo que se chamava torre do tombo, tudo que está registrado lá recebe o nome de tombado, ou seja, pertencente á torre do tombo. Esse costume ficou no Brasil como sinônimo de algo que é precioso e importante, que é um bem público de valor inestimável. A iniciativa de preservação ambiental, não parte somente pelo apego ao ambiente natural ou rural, ele surge da necessidade de se apreciar as coisas simples da vida, quando se alcança um certo nível de desenvolvimento e complexidade humana, como um resgate às raízes. Segundo Tuan (1980, p. 252), quando uma sociedade alcança um certo nível de desenvolvimento e complexidade, as pessoas começam a observar e apreciar a relativa simplicidade da natureza [...] Esta apreciação romântica da natureza é privilegio e riqueza da cidade. Nos tempos arcaicos o prazer do homem pela natureza era mais forte e direto. O mesmo sentimento de preservação ocorre na parte patrimonial em especial no diz respeito a arquitetura, pois remete a lembranças e ao apego afetivo do individuo para com o edifício e o local. Assim a preservação e os cuidados ocorrem de maneira espontânea, independente das legislações e normas que a impõem. 33 Além da ação de tombar o imóvel, a topofilia é o nome do sentimento que desperta nas pessoas a vontade de preservar aquilo que lhe remete memórias afetivas, independente do impedimento legal de sua destruição, preservando não só a memória coletiva e sim todos os recursos já investidos para sua construção na época. Porém sua preservação só torna-se perceptível devido ao bom estado de conservação. A própria Constituição Federal estabelece o apoio das comunidades, preservar os bens naturais e culturais brasileiros. Os planos diretores estabelecem também formas de preservação do patrimônio. A preservação de um imóvel não significa que ele deverá estabelecer a mesma função a que foi designado quando construído, pode lhe ser atribuída qualquer outra função, ainda com a vantagem de harmonizar com a paisagem local. Desde que o lugar não seja alterado. A preservação dos bens culturais deve ser assegurada pelo tombamento, afim de preservar as memórias coletivas e os esforços e recursos investidos para sua construção. Qualquer cidadão pode impedir a agressão à um patrimônio histórico, através da ação do ministério público. A proteção do patrimônio ambiental urbano está diretamente vinculada à melhoria da qualidade de vida da população, pois a preservação da memória é uma demanda social tão importante quanto qualquer outra atendida pelo serviço público. O tombamento não tem por objetivo "congelar" a cidade. De acordo com a Constituição Federal, tombar não significa cristalizar ou perpetuar edifícios ou áreas, inviabilizando toda e qualquer obra que venha contribuir para a melhoria da cidade. Preservação e revitalização são ações que se complementam e, juntas, podem valorizar bens que se encontram deteriorados. PRESERVATION AND TERRITORIAL TOPOPHILIA: LOCAL IDENTITY AND GLOBALIZATION ABSTRACT This article aims to analyse the affective ties between an individual and a particular place, whose own features aim to a social and cultural identity. The need of that identity is enhanced by a globalization process, making the person fell part of that place, so come up the urban tribes. The relationship between individual and place reflects the way each tribe connects to each other, despite the socio-cultural patterns and behavior imposed by globalization. 34 Keywords: Topofilia. Territorial identity. Local development. Globalization. REFERÊNCIAS TUAN, Y. Topofilia um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. Rio Claro: DIFEL, 1980. ROCA, Z.; OLIVEIRA, J.A.; LEITÃO, N. Desenvolvimento territorial entre a topofilia e a terrafilia: das palavras aos actos. Lisboa: TERCUD, 2006. 35 Jornada dos Cursos de História, Geografia e Arquitetura: Espaço, História e Globalização O AEROPORTO MOUSSA NAKHL TOBIAS E O DESENVOLVIMENTO DO TRANSPORTE AÉREO NA REGIÃO DE BAURU/SP Jorge André Ottosato Bocardo1 Leandro Marcon Arantes 2 RESUMO O desenvolvimento tecnológico das aeronaves requer, proporcionalmente, adequações aos terminais aeroportuários, cuja demanda, em virtude da popularização das rotas aéreas, é crescente. Além de aspectos relacionados à logística, os aeroportos podem se converter em centros de demanda turística e dinamização para geração de empregos e novos negócios, dependendo de requisitos fundamentais de planejamento, tais como localização, ocupação de áreas vizinhas, condições meteorológicas, acessibilidade, áreas livres no entorno das instalações, distância de outros aeroportos, ausência de obstáculos para pousos e decolagens, questões estruturais de terreno, existência de serviços fundamentais de utilidade pública e distância dos centros geradores do tráfego. A instalação do Aeroporto Moussa Nakhl Tobias na cidade de Bauru/SP, classificado como aeroporto regional, atendeu a justificativas políticas desde 1979 e, até abril de 2009, representou a transferência da movimentação anteriormente existente nas instalações do Aeroclube de Bauru, não contribuindo significativamente para a influência regional da cidade. Palavras - chave: Planejamento de aeroportos. Aeroporto regional. Aeroporto de Bauru. Capital regional C. 1 INTRODUÇÃO Relatos da Mitologia Grega já comprovam àquela época o interesse do homem por voar; interesse materializado nas obras de importantes nomes da Humanidade como Leonardo da Vinci e Santos Dumont. 1 2 Graduação do Curso de História da Universidade Sagrado Coração – Bauru – SP. Graduação do Curso de História da Universidade Sagrado Coração – Bauru – SP. 36 Mas é apenas no século XX que a invenção do avião atinge as dimensões de transporte aéreo fundamental às relações comerciais e sociais e até mesmo aos interesses bélicos dos países. A fim de acompanhar o desenvolvimento tecnológico das aeronaves, os terminais aeroportuários vêm recebendo investimentos para suportar as expectativas de popularização das rotas aéreas, o que aconteceu também na cidade de Bauru/SP com a inauguração do Aeroporto Moussa Nakhl Tobias, na divisa desse município com a vizinha Arealva. Objetiva o presente trabalho evidenciar os avanços mundiais dos meios aéreos de circulação e indicar as características fundamentais para a localização ou expansão de um aeroporto e seu seguimento na implantação do novo aeródromo bauruense, de modo a demonstrar a importância desse equipamento de infraestrutura urbana e identificar a ação do empreendimento como eventual fator facilitador ao desenvolvimento regional. 2 HISTÓRIA DA AVIAÇÃO Dédalo e Ícaro, segundo a Mitologia Grega, prisioneiros em Creta, idealizaram sua fuga através de asas presas aos ombros, cobertas de penas e coladas com cera, e saltaram de uma montanha, almejando atingir a Sicília. Dédalo conseguiu, mas seu filho, Ícaro, desejou voar mais alto e o calor derreteu a cera que colava as penas das asas, fazendo com que caísse no mar. Dessa maneira, muito antes que Leonardo da Vinci idealizasse fabulosos artefatos voadores, imaginando que o homem voasse tal qual os pássaros, o desejo de voar já motivava a humanidade. Em 1783 os irmãos franceses Montogolfier desenvolveram em balões a primeira tentativa considerada de sucesso para vôos tripulados. Segundo Palhares (2002, p. 100), “o empuxo é resultado do ar quente originário de uma fonte de calor (chama) instalada exatamente sob a abertura do balão”. O sucesso da iniciativa dos irmãos franceses acima motivou pesquisas a fim de se aprimorar os equipamentos mais pesados que o ar e capazes de voar. George Cayley, no século XVII, de maneira pioneira, verificou a necessidade de que as superfícies voadoras fossem resistentes ao peso decorrente de potências superiores 37 à resistência do ar, ou seja: as asas teriam e têm de suportar o peso da aeronave e seus componentes materiais e humanos através da sustentação aerodinâmica. A partir de 1804, Cayley constrói aeroplanos planadores em escalas reduzidas a fim de provar seus estudos teóricos. Em finais do século XVII, Otto Lilienthal, apoiado nos estudos praticados por Cayley, aprimorou os engenhos deste e aderiu noções de controle direcional aos planadores através de movimentos do corpo do condutor, porém sem propulsão adicional. Com a evolução dos balões, que deixaram as formas arredondadas para características mais alongadas, surgiram os dirigíveis; agora sim, motorizados e com possibilidade de manejo direcional. Ferndinand von Zeppelin, alemão, acrescentou aos modelos de dirigível ideais de continuidade de vôo, tendo o seu modelo de equipamento – através de unidades em série – sido adotado pelo Exército Alemão já em 1900. Wilbur e Oville Wright, os irmãos Wright, desenvolveram em 1903 o Flyer, que realizou um vôo tripulado de doze segundos em Kittyhawnk, Carolina do Norte, evoluindo para quarenta minutos contínuos com o Flyer III em 1905, sem registros históricos formais. Em outubro de 1906, o brasileiro Alberto Santos Dumont, na França, realizou diversos vôos com o 14 Bis. Assim, decorrido mais de um século das façanhas iniciais apresentadas, ainda se discute a originalidade das realizações, esclarecendo Palhares (2002, p. 103): As controvérsias envolvendo estas duas façanhas estão, basicamente, centradas sobre a publicidade da divulgação dada aos dois eventos, bem como a forma de propulsão e no emprego efetivo da tecnologia de controle direcional para um artefato mais pesado que o ar. A corrente norteamericana argumenta que os vôos dos irmãos Wright não foram publicamente divulgados como verdadeiros durante algum tempo, pois eles próprios temiam que outras pessoas “roubassem” a idéia do seu invento e pudessem patenteá-lo antes deles próprios. Em contrapartida, a corrente francesa e brasileira têm a seu favor registros históricos e concretos, uma vez que os vôos de Santos Dumont foram pública e amplamente divulgados pela imprensa francesa e européia na época. Cerca de trezentos anos antes de Dumont, o padre Bartolomeu de Gusmão, brasileiro nascido na Capitania de São Paulo, realizou o primeiro vôo de balão em Portugal. 38 Porém, Alberto Santos Dumont, que em 1892 passou a residir em Paris, foi o responsável pelo início da veloz evolução da aviação mundial, tendo planejado e construído entre 1898 e 1909 mais de vinte inventos. O primeiro balão idealizado pelo brasileiro teve o nome de “Brasil” e já era dotado de uma cabine que suportava o próprio inventor. Ainda em 1898, e a partir desse ano, foram construídos dez dirigíveis, nomeados nessa seqüência numérica, sendo que o último deles, o “Dirigível 10”, era capaz de transportar mais de quinze pessoas. A seguir, os inventos de 10 a 13, embora representassem evoluções técnicas sobre os modelos dirigíveis, não voaram. O “balão 14” foi rapidamente acoplado ao “14-Bis” que, conforme Medeiros (1979, p. 22), “formava um conjunto em forma de T, com asas e motor na parte traseira e as superfícies de comando na parte dianteira, em estilo contrário ao dos aviões atuais.” As discussões acerca da autoria original dos vôos tripulados foram amenizadas com a sinalização norte-americana de reconhecimento de nosso conterrâneo como verdadeiro “pai da aviação” através da indicação, pelo astronauta Michael Collins, da nomenclatura de uma das crateras da lua de “Santos Dumont” ao “Committee On Nomenclature of the Internacional Union”. Seguiram-se outros cinco inventos até a Demoiselle 20, última obra, e que abriu caminho para o desenvolvimento da aviação comercial mundial. Porém, não apenas o transporte de cargas e passageiros se vislumbrava, mas também a utilização do equipamento como artifício de guerra. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) consolidou definitivamente o uso dos aviões, já aceitos como meio de circulação desde a criação da primeira companhia aérea regular, em 1909, a Deutsche Luftschiff Fahrts Ag – Delag – atual Lufthansa. Segundo Palhares (2002, p. 104): Ao final do conflito, sabia-se mais sobre os aeroplanos, seus motores, as hélices e as técnicas de vôo, conhecimento que, aliado a uma ampla quantidade de aviadores disponível, renovou as atenções para a utilização dos aviões como meios de transporte mais rápidos e eficientes, sem contar o glamour e o status envolvidos nas viagens aéreas. A partir de 1918 surgiram na França pequenas companhias aéreas regionais, que lideradas por audazes pilotos realizaram façanhas tais como o primeiro trajeto 39 Rio de Janeiro – Buenos Aires em 1925, ou a travessia do Oceano Atlântico sem escalas entre o Senegal e Natal (RN) em 1930. Ainda nesse ano, o Governo Francês decidiu agrupar todas as companhias aéreas do país numa só, a tradicional Air France. No Brasil, a primeira empresa a operar regularmente foi a Sindikat Condor, posteriormente denominada Cruzeiro do Sul, que em 1927 estabeleceu a rota Rio de Janeiro – Porto Alegre – Rio de Janeiro. A seguir, surgiram: Varig (1927), Panair (1929), Vasp (1933) e Transbrasil (1955). O início da história da aviação em Bauru se confunde com o do Aeroclube de Bauru, fundado em 08/04/1939 e abrindo suas atividades com a preparação de pilotos de aviões para a Aeronáutica e para a aviação comercial. A primeira turma de pilotos formada data de 1940. Em 1942 os pilotos do Aeroclube de Bauru foram convocados a participar de seleção para defender o Brasil na Segunda Guerra Mundial, e nesse mesmo ano é construído um hangar, utilizado até os dias atuais, inclusive para os vôos regulares de passageiros que até meados de 2007 ali pousavam e dali decolavam. A liberalização da economia nacional nos anos 90 influiu também no mercado aéreo, de modo que, na opinião de Palhares (2002, p. 124), as conseqüências mais imediatas foram: Um grande aumento no número de empresas regionais regulares e de empresas não regulares nos anos subseqüentes. Entretanto, como a prática demonstrou a grande maioria dessas novas empresas regulares não conseguiu evoluir para se tornarem empresas médias ou, muito menos empresas de grande porte. A partir de 2000, as empresas aéreas nacionais passaram a ser classificadas como “regulares” ou “não regulares”, cuja principal expectativa a respeito era o aumento da competitividade direcionado ao estabelecimento de novas rotas e barateamento de tarifas. 3 OS AEROPORTOS Diz Palhares (2002, p. 165) que, os aeroportos, como terminais de transporte, têm importante função em termos de atração e geração de turistas. Com infra-estrutura (pistas, 40 terminais, acessos etc) adequada, os mesmos podem representar o início ou término de uma viagem bem sucedida. Não apenas como terminal de transporte, o complexo aeroportuário cada vez mais se torna pólo atrativo e de geração de empregos e negócios, o que positivamente contribui para o fluxo de caixa pretendido, mas gera demandas de infra-estrutura proporcionais. Na mesma obra (2002, p. 167), Palhares, a respeito dos aeroportos regionais, afirma: Além disso, aeroportos de pequeno e médio porte, com influência regional, podem também efetuar um trabalho de marketing com as agências de viagens locais no sentido de atrair os moradores dessas regiões a voarem a partir deles, ao invés de se deslocarem para os grandes aeroportos ou atrair o passageiro cujo destino final é a região próxima a este aeroporto, mas que poderia estar optando por fazer o percurso entre o aeroporto principal (hub) e o seu destino final por outro modo de transporte que não o aéreo. Para tal, é preciso que o aeroporto tenha parcerias não só com a administração local, mas também com os próprios agentes de viagens da região. A localização de um aeroporto ou até mesmo sua expansão requerem critérios que, na visão de Horonjeff (1996, p. 141) são: Ocupação de áreas vizinhas, condições meteorológicas, acessibilidade, possibilidade de ampliação, proximidade de outros aeroportos, obstáculos nas vizinhanças, economia de construção, disponibilidade de serviços de utilidade pública e distância dos centros geradores de tráfego. Desse modo, inicialmente, a ocupação de áreas vizinhas deve ser observada a fim de que os ruídos das aeronaves não influenciem negativamente a saúde e o dia-a-dia dos moradores das vizinhanças. As condições meteorológicas afetam a visibilidade, podendo causar atrasos em pousos e decolagens. Assim como as condições meteorológicas podem afetar o tempo da viagem aérea, a acessibilidade aos aeroportos é fator a ser considerado em comparação entre o tempo de trânsito até os terminais de embarque e o destino aéreo pretendido. Preconiza Horonjeff (1996, p. 145) que “o volume de passageiros poderá tornar-se tão considerável que venha a justificar meios especiais de transportes para o aeroporto”. Nesse sentido, a integração entre os meios de transporte urbanos e regionais, como estratégia de otimização de recursos é considerável. 41 Com o aumento das dimensões das aeronaves, as possibilidades de ampliação das pistas de pouso e decolagem e toda a infra-estrutura de apoio a ela, requerem áreas livres no entorno das instalações já existentes e se tornam objeto de planejamento aos futuros empreendimentos. A proximidade de outros aeroportos diz respeito à segurança das operações, de modo que as manobras das aeronaves de um não interfiram no movimento das de outro, além do custo operacional que as grandes estruturas representam, devendo possuir movimento de cargas e passageiros capazes de suportar as despesas geradas. “Os locais para os aeroportos devem ser escolhidos de modo tal que as aproximações necessárias estejam livres de obstáculos quando do desenvolvimento final do aeroporto” (HORONJEFF, 1996, p. 146). Para os terminais localizados em áreas urbanas, a altura das construções é fator primordial no planejamento urbano. Questões estruturais e preparatórias do terreno onde será realizada a obra devem ser levadas em consideração, de modo que haja economia na construção e aplicação responsável dos recursos destinados. A opção pelo distanciamento dos campos de pouso das regiões centrais das cidades deve observar a necessidade da existência ou implementação de serviços de utilidade pública fundamentais, como telecomunicação, água, esgoto, energia elétrica e alternativas emergenciais para suprimento das demandas em virtude do interrompimento ocasional. O tempo que se leva no trajeto ao aeroporto, já foi dito, que é importante, valendo enfatizar que a distância dos centros geradores do tráfego é ainda mais relevante nos casos de viagens curtas, características da aviação regional, pois, na visão de Horonjeff (1996, p. 153): a localização de um aeroporto a grande distância do centro gerador do tráfego não só anula as vantagens das velocidades proporcionadas pelos transportes turbojatos como também traz em conseqüência a redução do volume de tráfego. 4 AEROCLUBE DE BAURU Tendo sido fundado em 1939, o Aeroclube de Bauru tornou-se referência na formação de aviadores no Brasil. Já em 1942 iniciaram-se as atividades com 42 planadores, tendo sido concluída a primeira turma de quarenta e oito de seus condutores ainda no mesmo ano. A tradição bauruense nos vôos a planadores se consolidou em 1956 com a realização do Terceiro Campeonato Brasileiro de Vôo a Vela na cidade, finalizado com a vitória de Acácio Maurício de Oliveira, piloto local, façanha que se repetiria por diversas vezes até os dias atuais. As instalações localizadas na área urbana da cidade passaram a ser utilizadas já em 1946 para vôos particulares da Sociedade de Transportes Aéreos Regionais S/A – Star - e hoje contam com restaurante, pequeno terminal de cargas, locadora de veículos e ponto de táxi. A pista de 1500m X 34m ainda, sob administração do Departamento Aeroviário do Estado de São Paulo – DAESP - recebeu 21.315 pousos e decolagens em 2007 contra 27.101 em 2006 e 9.571kg e 710.983kg, respectivamente nesses anos, em cargas. O terminal de passageiros tem capacidade para sessenta pessoas e comportou, entre embarques e desembarques, 52.658 pessoas em 2006 e 111.760 pessoas em 2007. 5 AEROPORTO ESTADUAL MOUSSA NAKHL TOBIAS Em 1979, através da Indicação 196 da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, o então deputado Roberto Purini requeria providências do Governador do Estado de São Paulo a fim de construir um novo aeroporto em Bauru. O texto do documento se baseava nas transformações estruturais pelas quais o Estado passava, à época, de modo que o inter-relacionamento de investimentos em infra-estrutura fosse capaz de alavancar o crescimento de toda uma região. No caso específico de Bauru, a expectativa era de dinamização do sistema de transportes e obtenção de facilidades no escoamento da produção industrial. O texto da Indicação, reproduzido por Purini (1996, p. 17) já remetia às condições do aeroporto em funcionamento na área de propriedade do Aeroclube de Bauru: Além disso, não pode mais o aeroporto atualmente em funcionamento comportar o movimento excessivo, uma vez que como centro mais importante da Região Noroeste do Estado tem recebido vôos procedentes das diversas regiões do nosso estado, bem como dos estados vizinhos. O Aeroporto atual atende precariamente às necessidades sociais, pois os jatos 43 mais modernos só podem aterrissar com especiais medidas de segurança devido à falta de condições técnicas da pista de pouso. Outro aspecto a ser considerado é sua localização praticamente dentro da cidade, pondo em risco a população daquele município, ressaltando-se ainda o fato da existência de muitos planadores em vôo livre, que precisam assim de excepcionais garantias de segurança, ausência já anteriormente criticada. Os dados disponíveis referentes a 1978 (ano anterior à indicação acima) no Departamento Aeroviário do Estado de São Paulo – DAESP indicavam a existência de oito vôos diários em pouso e decolagem no Aeroclube de Bauru, dos quais, seis de passageiros e dois de cargas. Em 1989 o mesmo DAESP informou a ocorrência de dezoito mil operações de pouso e decolagem, embora em uma década os levantamentos à nova área aeroportuária não evoluíssem. Vale salientar que a dupla titularidade do terreno do campo de pouso – Prefeitura Municipal e Aeroclube de Bauru – impedia o DAESP de realizar obras de melhorias que não se relacionassem à segurança operacional. Aliaram-se a este ainda as restrições referentes à dimensão territorial e os obstáculos existentes na rota de pouso, notadamente grandes edifícios residenciais, o que motivou estudos internos no órgão para a construção de um novo aeroporto na cidade. No mesmo ano de 1989, através do ofício 537/89, o mesmo Departamento concluiu que: “em virtude das dificuldades de desenvolvimento do atual aeroporto, recomenda-se início, a curto prazo, das obras do novo aeroporto de Bauru.” Segundo Purini (1996, p. 39), no que diz respeito à área de instalação do novo aeroporto, foram avaliados os seguintes “fatores determinísticos”: “relacionamento urbano, fatores operacionais, fatores físico-geográficos e sítio recomendado”. Assim, no que dizia respeito ao “relacionamento urbano”, deveriam ser levados em consideração aspectos de situação urbana, tais como acessibilidade, distância do centro urbano de Bauru, uso do solo e infra-estrutura disponível. Os “fatores operacionais” se referiram às “melhores condições para instalação e funcionamento de equipamentos de proteção ao vôo e auxílio à navegação”, enquanto que os “fatores físico-geográficos” estavam ligados à topografia de terrenos mais facilmente preparáveis para o uso em questão. Diante de tal avaliação preliminar, a área recomendada se referia ao sítio Bom Retiro, que, conforme Purini (1996, p. 43): 44 Embora decorresse de decisão eminentemente técnica, um dos pontos mais questionados do projeto foi a localização do novo aeroporto. A identificação dos fatores restritivos e dos exigíveis a médio prazo, como ficou demonstrado, resultou em consenso entre as autoridades envolvidas no problema da incompatibilidade funcional e espacial entre o atual aeródromo e seu entorno. A solução encontrada foi a escolha de outro “sítio” para a implantação do novo aeroporto, atendendo requisitos aeronáuticos compatíveis com a demanda prevista e também possibilitando a continuidade e expansão da atividade aero-desportiva, por se constituir Bauru no maior centro sul-americano de volovelismo. O Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental elaborados pela empresa Terra Planejamento e Projetos S/C Ltda., de 13/05/91 alertava que: “os problemas que advirão com a construção e funcionamento do aeroporto, principalmente relacionados com o aumento do fluxo de veículos, movimentação de terra e de ruído, poderão interferir na biota local”. À época de elaboração de citado estudo, havia favorabilidade reconhecida à instalação do novo aeroporto, notadamente pelos benefícios econômicos e sociais que a obra traria, bem como à perpetuação do empreendimento como referência nos transportes regionais. O local de instalação do terminal corresponde a 2.713.777,43 m² no município de Bauru e 1.774.712,67 m² em Arealva, totalizando 4.488.490,10 m². Assim, a área localizada na divisa dos municípios corresponde a 60,47% no primeiro e 39,53% no segundo. Já em 1995, o próprio deputado Roberto Purini, através do ofício 68/95, encaminhado ao Secretário de Transportes do Estado de São Paulo, conforme reproduzido em sua obra “Novo Aeroporto de Bauru – uma importante conquista” (1998, p. 79) adicionava mais uma justificativa ao início do empreendimento: Dirijo-me a Vossa Excelência para solicitar-lhe o prosseguimento deste projeto que, além de ser importante para a região de Bauru, enquadra-se nas prioridades contidas na proposta de lei de diretrizes orçamentárias para 1996, em tramitação nesta Casa, gerando empregos e contribuindo para a “criação de condições favoráveis à dinamização da atividade produtiva”. Há que se considerar, finalmente, as excelentes perspectivas que se abriram para o município com o início do intercâmbio comercial entre os países que integram o Mercosul . 45 Dessa maneira, acrescenta-se, além dos interesses regionais, a possibilidade de utilização deste aeroporto como equipamento de intercâmbio entre os países do Mercosul. Definitivamente, o imóvel atual conta com as seguintes características principais: 1. Terminal de passageiros com 5.400 m²; 2. Terminal de cargas com 40.000 m²; 3. Torre de controle; 4. Estacionamento para 355 veículos; 5. Lanchonete; 6. Ponto de táxi. Tal infra-estrutura instalada não pode ser considerada completa, uma vez que aparatos de controle de tráfego aéreo como rádio-farol, indicador de rampa, estação meteorológica de superfície e estação permissionária de telecomunicações aeronáuticas ainda não estão disponíveis. Embora os equipamentos já existam, não foram instalados, o que impossibilita pousos e decolagens além da operação visual dos pilotos das aeronaves. A pista, de 2100m X 45m, também sob administração do DAESP, recebeu em 2006 154 pousos e decolagens e 3905 kg de cargas contra 7.436 pousos e decolagens e 678.309kg de cargas em 2007. Até abril de 2009 apenas a Pantanal Linhas Aéreas opera no aeroporto, com quatro horários diários e semanais e dois nos finais de semana de e para São Paulo, com níveis altos de ocupação das aeronaves. Os valores de tarifas, sem as taxas de embarque, variam de R$199,00 a R$759, 00, ou de US$90,45 a US$345,00, conforme cotação oficial de 24/04/09, ao passo que uma passagem de ônibus para o mesmo trajeto em transporte rodoviário possui disponibilidade de vinte e um horários aos domingos, dezenove aos sábados e vinte e três em dias úteis, a R$60,25 ou US$27,39, de acordo com a mesma cotação. A viagem rodoviária, entre procedimentos de embarque e desembarque, dura aproximadamente cinco horas, contra quatro – em situações normais – da aérea. 46 6 CONCORRÊNCIA COMPARATIVA E INFRA-ESTRUTURA AEROPORTUÁRIA Na mesma data em que foram obtidos os dados de movimentação referentes ao Aeroporto Moussa Nakhal Tobias, verifica-se que a ponte aérea São Paulo – Rio de Janeiro é realizada por quatro companhias (Tam, Gol, Varig e Ocean Air) e com disponibilidade de horários e preços regidos por oferta e procura, sendo estabelecida uma relação de concorrência e disputa por passageiros, guardadas as proporções de fluxo entre Bauru e São Paulo e São Paulo e Rio de Janeiro, respectivamente. Já o Aeroporto Internacional Governador André Franco Montoro, Cumbica, em Guarulhos (SP), teve fluxo de dezoito milhões de usuários em 2007, o que motivou o Governo Federal a iniciar obras para construção de um terceiro terminal capaz de ampliar a capacidade de absorção para vinte e nove milhões. Em fase de projetos estão um trem de passageiros que ligue o complexo à cidade de São Paulo e um anel viário. Com essas atividades, a área do aeroporto será ampliada em 138.574 m² dentro de uma região extremamente urbanizada, com necessidade de remoção de cerca de vinte mil pessoas. 7 TRANSPORTE AÉREO E INFLUÊNCIA REGIONAL Em 11/10/2008, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – publicou pesquisa sobre as regiões de influência das cidades, no qual Bauru está classificada como “capital regional C”, ou seja: Capital regional – são 70 centros que, como as metrópoles, também se relacionam com o estrato superior da rede urbana. Com capacidade de gestão no nível imediatamente inferior ao das metrópoles, têm área de influência de âmbito regional, sendo referidas como destino, para um conjunto de atividades, por grande número de municípios. Este nível também tem três subdivisões: Capital regional A (11 cidades, com medianas de 955 mil habitantes e 487 relacionamentos); Capital regional B (20 cidades, com medianas de 435 mil habitantes e 406 relacionamentos); Capital regional C (39 cidades com medianas de 250 mil habitantes e 162 relacionamentos). É muito útil evidenciar que o mesmo estudo demonstrou a concentração das estruturas aéreas do país de modo que, utilizando-se o termo “ligação aérea”, “32 pares de cidades são responsáveis por pouco mais da metade dos passageiros 47 transportados (50,2%), e o transporte de carga possui padrão semelhante, da mesma ordem de grandeza”. Outra constatação é de que o deslocamento médio das pessoas até os aeroportos é de 146 km, e que tal fator é considerado com referência à influência regional dos municípios, não sendo impossível que citada influência seja compartilhada em virtude de sua importância e proximidade, em situações regionais, como as de Maringá e Londrina, ou Foz do Iguaçu e Cascavel, no Paraná, ou até mesmo entre capitais estaduais como São Luís (MA) e Teresina (PI). 8 CONSIDERAÇÕES FINAIS O Aeroporto Estadual Moussa Nakhl Tobias, localizado na divisa dos municípios de Bauru e Arealva, mas conhecido como “Aeroporto de Bauru”, se enquadra na categoria de “aeroportos de pequeno e médio porte”, e deveria exercer influência regional no que se refere a transportes aéreos. Porém, as dificuldades de acessibilidade e a falta de pleno funcionamento de aparatos de controle de tráfego se tornam fatores contributivos para que os números referentes a pousos, decolagens, passageiros e transportes de cargas apenas tenham sido parcialmente transferidos, comparativamente entre 2006 e 2007, das instalações do Aeroclube de Bauru a estas, sem incrementos consideráveis. Os argumentos justificativos do novo empreendimento ainda não se fizeram comprovar, haja vista não terem ocorrido demonstrações significativas de possibilidades de crescimento econômico da região Centro – Oeste Paulista decorrentes majoritariamente da implantação dessa infra-estrutura aeroportuária. O movimento de passageiros é insignificante e a inauguração do terminal não representou a instalação de novas linhas aéreas de e para Bauru, como condiz sua condição de “capital regional C”. Embora a pista possua dimensões satisfatórias à operação de modernas aeronaves, o transporte coletivo rodoviário representa melhor alternativa, já que semanalmente conta com a oferta de cento e cinqüenta e cinco horários apenas à cidade de São Paulo, único trajeto disponível no aeródromo local sem necessidade de conexões na metrópole paulistana, contra apenas vinte e dois por meios aéreos. Nesse itinerário também as tarifas e as possibilidades de acesso a outros meios de 48 transporte na capital paulista são mais vantajosas à via rodoviária, ao passo que o tempo despendido nas viagens é praticamente equivalente. AIRPORT MOUSSA NAKHLA TOBIAS AND THE DEVELOPMENT OF AIR TRANSPORT IN THE REGION OF BAURU / SP ABSTRACT The airship‟s technological progress requires, proportion, adequacy of airport terminals, whose demand, because of the popularization of the air routes is increasing. In addition to issues related to logistics, airports can become centers of tourism and boosting demand for the job‟s creation and new businesses, depending on the key requirements for planning, such as location, occupation of neighboring areas, weather, accessibility, free areas around the premises, away from other airports, lack of obstacles to landings and takeoffs, structural issues of land, availability of essential services of public utility and distance from the center of the traffic generators. The installation of the Airport Moussa Nakhl Tobias in the city of Bauru / SP, classified as a regional airport, attended the political reasons since 1979 and until April 2009, was handling the transfer of previously existing on the premises of the Aeroclub Bauru, not contributing significantly to the regional influence of the city. Keywords: Planning of airports. Regional airport. Bauru airport. Regional capital C. REFERÊNCIAS AEROCLUBE de Bauru.[200-] Apresenta informações sobre o Aeroclube da cidade de Bauru. Disponível em: <http://www.aeroclubedebauru.com.br>.Acesso em: 23 abr. 2009. ANDRADE, M. C. Geografia econômica. São Paulo: Editora Atlas, 1982. BRASIL. Ministério da Fazenda. Banco Central do Brasil. Apresenta informações referentes ao Banco Central. Brasília: [19--?]. Disponível em: <http://www.bcb.gov.br>. Acesso em: 24 abr. 2009. BRASIL. Ministério do Planejamento, orçamento e gestão. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Apresenta dados estatísticos. Rio de Janeiro: [19--?]. Disponível em: <http://ibge.gov.br>. Acesso em:18 out. 2008. 49 DEPARTAMENTO Aeroviário do Estado de São Paulo. Apresenta informações sobre os aeroportos do estado de São Paulo. Disponível em: <http://www.daesp.sp.gov.br/ >. Acesso em: 8 set. 2008. EXPRESSO de Prata. Apresenta informações sobre a empresa de ônibus Expresso de Prata. Bauru: [19--?]. Disponível em: <http://expressodeprata.com.br>. Acesso em: 24 abr. 2009. HORONJEFF, R. Aeroportos, planejamento e projeto. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. MEDEIROS, J. D. Pioneiros do ar e a evolução da aviação. Rio de Janeiro: ETA, 1979. PALHARES, G. L. Transportes turísticos. São Paulo: Edusc, 2002. PANTANAL Linhas Aéreas. Apresenta informações sobre a empresa de transporte aéreo Pantanal. 2009. Disponível em: <http://www.voepantanal.com.br/empresa/site/>. Acesso em: 24 abr. 2009. PURINI, R. Novo aeroporto de Bauru: uma importante conquista. Ibitinga: MG Editora, 1998. OTTOBONI, G. Aeroporto recebe equipamentos hoje. Jornal da Cidade, Bauru, 08 set. 2008. Caderno de Economia. TAVARES, B.; ZANCHETTA, D. Estado libera terceiro terminal de Cumbica. O Estado de São Paulo, São Paulo, 14 set. 2008. Caderno Geral. 50 Jornada dos Cursos de História, Geografia e Arquitetura: Espaço, História e Globalização A CULTURA NORDESTINA NA OBRA DE MARLOS NOBRE Maristella Pinheiro Cavini1 RESUMO Este trabalho tem como principal objetivo reconhecer as características da cultura nordestina, em especial a cultura musical nordestina, nas quatro obras para piano solo de Marlos Nobre intituladas “Ciclos Nordestinos para Piano”. Marlos Nobre é, atualmente, o compositor brasileiro contemporâneo mais renomado nacional e internacionalmente, completando neste ano de 2009, 70 anos de vida e 50 anos de carreira musical. Em toda sua obra, a presença nordestina é muito marcante, já que nasceu e viveu boa parte de sua vida em Recife – PE. Neste estudo, somente os “Ciclos Nordestinos para Piano” serão enfocados. Cada Ciclo é formado por cinco peças musicais que são compostas com características específicas e baseadas no folclore do nordeste brasileiro; estas peças traduzem toda a rica contribuição nordestina dentro da visão de Nobre. Sendo este trabalho parte integrante da tese de Doutorado “Inmanencia de la sonoridad de los conjuntos instrumentales folklóricos en las danzas de los cuatro Ciclos Nordestina para Piano de Marlos Nobre”, apresentada à Comissão de Pós-Graduação do Instituto Superior de Arte de Havana/Cuba, foi possível, através de um profundo estudo e análise técnico-interpretativa das peças, chegar-se à conclusão da influência da cultura nordestina na obra de Marlos Nobre. Palavras-chave: Cultura nordestina. Marlos Nobre. Ciclos nordestinos para piano. Danças folclóricas. 1 INTRODUÇÃO É comprovado que a música do século 20 e, consequentemente, a música de nossos dias, está motivada, sobretudo, pela busca de novas sonoridades e novas experiências sonoras, seja nos instrumentos musicais tradicionais ou eletrônicos. Os compositores, mais que criadores de melodias, ritmos ou harmonias inusitadas, são 1 Professora do Curso de Música da Universidade Sagrado Coração – Bauru – SP 51 pesquisadores do som, buscando, cada vez mais, algo que possa ser novidade no mundo sonoro. Certamente a maneira mais interessante de estudar e provar as diferentes possibilidades sonoras do piano e a vida que esta sonoridade proporciona à música é através da música folclórica. É notório perceber como a música folclórica de cada país – com suas melodias, ritmos, harmonias e, sobretudo, com suas sonoridades –, pôde enriquecer a produção musical pianística profissional (MARIZ, 2000). Os compositores, pesquisando e descobrindo novas sonoridades, recorrem ao mais rico e pitoresco do folclore de seus países, contribuindo para a consolidação da identidade nacional de seu país de origem (NEVES, 1981). No século 20 os elementos folclóricos influenciaram e enriqueceram a música profissional ou “erudita”; o interesse por esta linha de estudo foi uma das causas para selecionar este tema de pesquisa. A motivação ao estudo dos quatro “Ciclos Nordestinos para Piano” de Marlos Nobre se deus por ser este o compositor brasileiro mais renomado da atualidade de acordo com a crítica nacional e internacional, e porque os Ciclos são as únicas peças para piano solo deste compositor escritas com um cunho didático e onde os temas folclóricos nordestinos são empregados de uma maneira mais direta. O objetivo principal deste trabalho é reconhecer as características da cultura nordestina, em especial a cultura musical nordestina, nas quatro obras para piano solo de Marlos Nobre intituladas “Ciclos Nordestinos para Piano”. Como objetivos específicos, esta pesquisa tem a intenção de estudar sobre as idéias e pensamentos de Nobre, comentando sobre suas convicções estético-musicais e definindo seus períodos estilísticos e as obras mais representativas de cada um desses períodos. Esta é uma pesquisa musicológico-histórica, onde elementos da terminologia, estilística e biografia do compositor em estudo são abordados especificamente. Elementos da etnologia, da teoria e crítica musicais, bem como aspectos da análise técnico-interpretativa, também fazem parte deste estudo. É empregada a metodologia analítica, de informação basicamente bibliográfica, onde alguns dos mais renomados musicólogos e folcloristas brasileiros são consultados para fundamentar teoricamente este estudo, como: José Maria Neves, Vasco Mariz, Mário de Andrade, Oneyda Alvarenga, Renato Almeida, Luís da Câmara Cascudo, José Ramos Tinhorão, Gerhard Kubik, entre outros. 52 2 RESULTADOS E DISCUSSÃO Marlos Nobre, compositor brasileiro, pernambucano, nascido no ano de 1939, hoje em dia vive no Rio de Janeiro trabalhando como regente nas instituições de música do Brasil, compondo por encomenda para as mais diversas orquestras do mundo e presidindo a Marlos Nobre Edition. Nobre se considera um inventor de música, movido pelo interesse e por um irresistível impulso interior de criar sua própria linguagem, síntese de suas experiências auditivas e intelectuais, e organizadas por um conceito de composição muito rigoroso. Sua estética, muito pessoal, procura comunicar a energia de sua música. Os estudos dos musicólogos brasileiros Mariz (2000) e Neves (1981) concluem que Nobre pertence à chamada geração independente da música brasileira, geração que fez sua música sem preocupar-se em seguir ou não uma corrente estético-filosófica determinada. Entretanto, as manifestações folclóricas do nordeste do Brasil tiveram uma significação muito especial na formação musical deste compositor, assim como também o influenciaram alguns dos compositores e artistas do meio cultural brasileiro e estrangeiro. Como relata o próprio Marlos Nobre: [...] nasci e vivi até meus 12 anos na Rua de São João, no bairro São José em Recife. Nesta rua passavam obrigatoriamente todos os folguedos do carnaval de Recife. Assim, passei minha infância ouvindo e dançando nesta rua, os Caboclinhos, Maracatus, Frevos, Cirandas. Isto impregnou para sempre minha mente e meu cérebro. Eu nunca necessitei estudar estas formas, mas elas se tornaram algo essencial em minha formação musical * para sempre [...]. (NOBRE , 2008) Conforme os estudos de Barancoski (1997), dentre os compositores que influenciaram Marlos Nobre, podem-se mencionar desde J. S. Bach e W. A. Mozart até B. Bartók e W. Lutolawski, passando pelos compositores brasileiros E. Nazareth e H. Villa-Lobos. De acordo com Nobre, o compositor é uma esponja que absorve, durante as diferentes etapas de sua vida e de seu processo criador, as mais variadas influências. Nenhum compositor jamais repetirá as mesmas experiências auditivas * Entrevista para a autora por correio eletrônico em 21/09/2008). 53 de outros, resultando assim a formação de um estilo pessoal e peculiar em cada verdadeiro criador. Com relação ao ponto de vista musical, Marlos Nobre busca como o fim último de suas obras o equilíbrio entre a espontaneidade e a lógica consciente, entre a economia e a riqueza do material empregado, nunca deixando que a concentração, o rigor e a concisão prejudiquem a fluência, a continuidade e a expressão do material sonoro. Ele busca a perfeita continuidade e inteligibilidade do discurso e do fluxo sonoro, sem abdicar da audácia e da experimentação inovadora como impulsos necessários, mas não como fins em si mesmos. Quanto à estrutura formal, o compositor se preocupa com o equilíbrio entre a unidade e a variedade. Sobre a harmonia, Nobre crê que ainda é possível descobrir novas possibilidades harmônicas independentes da técnica dos doze sons, da tonalidade e da consonância tal como são vistas tradicionalmente. Outro ponto é a função rítmica, que é a coluna vertebral da música de Marlos Nobre, já que a formação de seu inconsciente foi vivamente influenciada pelos ritmos afro-brasileiros de sua cidade natal; ainda que estes ritmos não se manifestem tão explicitamente em muitas de suas composições não diretamente folclóricas, são evidenciados através do emprego da variedade e combinação de acentos 2 e articulações3, sobretudo aquelas articulações em fragmentos sincopados. O timbre é outro elemento importante na concepção musical de Nobre, onde os instrumentos de percussão têm papel de destaque, não só nas peças em que são protagonistas, mas em todas as peças em que estes instrumentos são empregados. É possível evidenciar seis períodos estilísticos na trajetória musical de Marlos Nobre: primeiro período estilístico, de 1959 a 1963, englobando as obras de op.1 a op.14, dentre as quais “Primeiro Ciclo Nordestino para Piano op.5” (1960) e “Segundo Ciclo Nordestino para Piano op.13” (1963). Segundo período estilístico, de 1963 a 1968, com as obras de op.15 a op.32, da qual faz parte o “Terceiro Ciclo Nordestino para Piano op.22” (1966). Terceiro período estilístico, de 1969 a 1977, formado pelas obras de op.33 a op.46 e da qual faz parte o “Quarto Ciclo Nordestino para Piano op.43”. Quarto período estilístico, de 1980 a 1989, com as obras de 2 3 Destaque dado a uma ou mais notas na interpretação, normalmente através de um nítido aumento de sua intensidade sonora ou de sua duração. (ALVES, 1994, p. 5). A junção ou separação de notas sucessivas, isoladamente ou em grupos, por um intérprete, e a maneira pela qual isso se faz; a palavra é mais amplamente aplicada ao fraseado musical em geral. (ALVES, 1994, p. 44). 54 op.47 a op.73. Quinto período estilístico tendo início em 1989 com a obra de op.74. Por fim, o atual sexto período estilístico que, segundo Nobre (entrevista para a autora em 15/09/2004), não é tão evidente reconhecer o final de um período estilístico e o surgimento de outro, pois tudo está naturalmente interligado e em muitas ocasiões, o processo de “invasão” que ocorre de uma tendência anterior até uma tendência atual não permite traçar uma delimitação precisa. 3 OS CICLOS NORDESTINOS Comentando especificamente sobre os “Ciclos Nordestinos para Piano”, é principalmente nestas peças que é possível perceber uma maior representação de todo interesse de Nobre pelas raízes musicais do nordeste brasileiro e, consequentemente, pelas raízes musicais do Brasil. Fazendo uma analogia entre os quatro Ciclos, percebe-se toda a evolução da linguagem musical do compositor, assim como toda sua preocupação em promover e perpetuar a cultura musical do nordeste do Brasil. Barancoski (1997, p. 131), aponta que “quando os comparamos com outras peças para piano solo de Nobre, os Ciclos Nordestinos se diferenciam por terem uma relação mais próxima com a música folclórica, e uma linguagem harmônica mais tradicional [...]”. Ainda que a linguagem harmônica dos “Ciclos Nordestinos para Piano” seja mais tradicional que em outras obras para piano solo de Marlos Nobre, é possível perceber, analisando os quatro Ciclos, toda a evolução da linguagem musical do compositor: o desenvolvimento da variedade de textura 4, o nível da transformação temática, a complexidade e extensão da estrutura formal e a utilização mais profissional do piano. Cada um dos quatro Ciclos é formado por cinco peças. Apesar da estrutura formal dessas obras ressuscitarem um pouco a idéia original das antigas suítes 5, 4 5 Termo usado para se referir ao aspecto vertical de uma estrutura musical, geralmente em relação à maneira como partes ou vozes isoladas são combinadas; diz-se então que a estrutura é polifônica, homofônica ou mista. (ALVES, 1994, p. 942). Conjunto de peças instrumentais, dispostas ordenadamente e destinadas a serem executadas em uma audição ininterrupta; no período barroco, um gênero musical que consistia de vários movimentos na mesma tonalidade, alguns ou todos baseados em formas e estilos de música de dança [...]. (ALVES, 1994, p. 915). 55 nem todas as peças dos Ciclos são danças folclóricas. Algumas delas são canções típicas do nordeste brasileiro, que Marlos Nobre retratou em seus Ciclos. O “Primeiro Ciclo Nordestino para Piano op.5” (1960) está dedicado a Mozart Araújo e recebeu o segundo prêmio no “Concurso de Comissão de Música do Estado de São Paulo” no mesmo ano em que foi composto. Foi estreado pela pianista Edda Fiore em 3 de outubro de 1962 em um recital na Sala Luciano Gallet em São Paulo. Este Ciclo é formado pelas peças: Samba Matuto, Cantiga, É Lamp, Gavião e Martelo, onde somente a primeira é uma dança folclórica. O “Segundo Ciclo Nordestino para Piano op.13” (1963) foi estreado em 17 de outubro de 1974 no Museu de Arte Moderna de São Paulo por Marlos Nobre ao piano e está dedicado aos pais do compositor, Maria José e Carlos Nobre. Formado pelas peças Batuque, Praiana, Carretilha, Sêca e Xenhenhém; neste Ciclo, somente a peça Batuque é uma dança. O “Terceiro Ciclo Nordestino para Piano op.22” (1966) é formado pelas peças Capoeira, Côco I, Cantiga de Cego, Côco II e Candomblé. Neste Ciclo, ao contrário do anterior, somente a terceira peça não é uma dança folclórica. A obra em seu conjunto está dedicada ao compositor paulistano Osvaldo Lacerda (1927) e foi estreado pela pianista Norah de Almeida em 19 de julho de 1973 no Auditório IBEU do Rio de Janeiro. O “Quarto Ciclo Nordestino para Piano op.43” (1977) foi estreado em 16 de março de 1977 por Marlos Nobre no Auditório da Universidade Católica do Rio Grande do Sul. É formado por Caboclinhos, Cantilena, Maracatu, Ponteio de Viola e Frevo e cada uma de suas cinco peças estão respectivamente dedicadas a: Elyanna Caldas Silveira e Maria Clara Fernandes; Josephina Aguiar (in memoriam); Jussiara Albuquerque; Ana Lúcia Altino; e Leonardo Dantas Silva. Através deste Ciclo é possível ter contato com as mais características danças do carnaval de Pernambuco: Caboclinhos, Maracatu e Frevo. Os três primeiros Ciclos foram compostos com uma intenção didática6, por isso é possível perceber entre eles algumas diferenças no tratamento das dificuldades da 6 Como nos mostra a nota explicativa da 4ª edição (1966) de seu “Primeiro Ciclo Nordestino para Piano” por Irmãos Vitale Editores: “O 1º Ciclo Nordestino inicia uma série de três Ciclos para piano que o autor escreveu com intenções didáticas e destinados a pôr o jovem estudante dêste [ sic] instrumento (entre o 4º e 5º anos), em contato com temas e características da música do Nordeste, tratados dentro de um sentido moderno, não convencional . Por outro lado, o compositor procurou fixar êsses [sic] temas e características tentando preservá-los de uma futura desaparição [...]”. 56 técnica pianística. Pela simples observação das partituras dos “Ciclos Nordestinos para Piano” op.5, op.13, op.22 e op.43, pode-se observar o desenvolvimento da escritura rítmica, da estrutura formal e da textura polifônica empregadas pelo compositor. No “Primeiro Ciclo Nordestino para Piano op.5”, as peças são menores, englobando o registro médio do piano, com uma textura mais uniforme e quase sempre a duas vozes. O emprego da dinâmica não passa repentinamente por fortes contrastes e as articulações são empregadas de modo a não dificultar a execução do intérprete. O “Segundo Ciclo Nordestino para Piano op.13” permanece com a mesma idéia do Ciclo anterior, mas com um nível de dificuldade maior: as peças são um pouco mais extensas, a rítmica é mais complexa, as articulações têm combinações mais difíceis e o tratamento polifônico é mais elaborado. Não se pode esquecer que este Ciclo tem a influência do período em que Marlos Nobre esteve estudando na Argentina (MARCO, 2006). Já no “Terceiro Ciclo Nordestino para Piano op.22”, as possibilidades sonoras são ampliadas: a utilização de clusters7 em três das cinco peças do Ciclo, assim como os toques de percussão na parte de madeira do piano em duas das peças, demonstra a complexidade rítmica, sonora e a utilização de uma linguagem contemporânea no tratamento da temática nordestina. Tratando-se da extensão das peças, a construção não é tão diferente das do Segundo Ciclo, mas com relação ao tratamento polifônico e contrapontístico, é perceptível uma evolução na complexidade. O “Quarto Ciclo Nordestino para Piano op.43”, apesar de ter sido composto onze anos mais tarde que o Terceiro Ciclo e editado praticamente trinta anos depois de sua concepção original, também preserva uma intenção didática. O Quarto Ciclo entra na esfera do pianismo amplo, explorando o instrumento de modo mais aberto desde o ponto de vista sonoro. As peças têm toda sua estrutura sobre idéias contrastantes na textura, nos níveis de dinâmica, nas articulações e nos registros empregados; outra característica importante deste Ciclo é que as peças são mais extensas que os Ciclos anteriores. Pode-se dizer que pela própria evolução das dificuldades apresentadas em cada Ciclo, este último é praticamente uma obra de 7 Do inglês = “agrupamento”. Grupo de notas adjacentes que soam simultaneamente. Os instrumentos de teclado adequam-se particularmente a sua execução, uma vez que podem ser prontamente tocados com o punho, a palma ou o antebraço. (ALVES, 1994, p. 204). 57 concerto, onde somente os estudantes de níveis mais avançados são capazes de interpretá-lo. Outro aspecto que se observa na evolução da idéia do compositor é com relação à característica especificamente nordestina que utiliza nas peças de cada um dos Ciclos, ou seja, o emprego direto de temas folclóricos já existentes. É óbvio que na idéia original de Marlos Nobre também estava a intenção de preservar certos temas folclóricos para que não fossem totalmente esquecidos pelas gerações futuras, entretanto, muitos dos temas existentes nos Ciclos são totalmente de criação do compositor, com base nos elementos folclóricos nordestinos, principalmente as características modais e rítmicas procedentes do folclore de Recife e que permanecem em sua memória. Exemplificando esta idéia, no “Primeiro Ciclo Nordestino para Piano op.5”, três das peças têm melodias emprestadas do repertório folclórico: Samba Matuto, É Lamp e Gavião. Já no Segundo e Terceiro Ciclos, somente uma das peças têm os temas emprestados: Xenhenhém (última peça do “Segundo Ciclo Nordestino para Piano op.13”) e Capoeira (primeira peça do “Terceiro Ciclo Nordestino para Piano op.22”). Como observa Barancoski (1999), todas as peças dos Ciclos que têm em seus temas melodias diretas do repertório folclórico recebem um tratamento especial do compositor: o ritmo é apresentado de uma maneira diferente, a textura contrapontística é totalmente recriada, bem como a utilização de dinâmicas e articulações específicas para que cada uma das peças tenha uma identidade própria, diferente do tema folclórico original. Fazendo uma analogia entre os quatro “Ciclos Nordestinos para Piano” de Marlos Nobre, percebe-se toda a evolução da linguagem musical do compositor, assim como toda sua preocupação em promover e perpetuar a cultura do nordeste do Brasil. 4 A CULTURA NORDESTINA X CICLOS NORDESTINOS Como exemplo da influência da cultura nordestina na obra de Marlos Nobre, selecionamos “Batuque” – a primeira peça do “Segundo Ciclo Nordestino para Piano op.13” (1963) – onde será realizada a descrição da dança folclórica e, em seguida, os comentários da representação e expressão sonora desta dança na obra de Nobre. 58 Em Pernambuco, Batuque também recebe a designação de Xangô (ALMEIDA, 1968). Desde o século 18 foi possível encontrar referências sobre o Batuque tanto em Brasil como em Portugal. Andrade (1972) observa que o termo “batuque” é uma designação genérica que os portugueses deram às danças nativas que os negros escravos trouxeram de Angola e/ou Congo para o Brasil, e que se apresentavam sob quatro tipos gerais de danças: as de umbigada, as de par, as de fileira e as de roda. [...] mais que uma designação de dança particular, a palavra Batuque se tornou corrente no Brasil como nome genérico do tipo coreográfico que ela representa ou das danças acompanhadas por forte instrumental de percussão [...]. (ALVARENGA, 1950, p. 132). O Batuque faz parte das danças de umbigada, já que este ato, o da umbigada, é uma forte característica dela. Por esta prática, Araújo (1964), a considera como uma dança dos rituais de procriação, exatamente porque a umbigada é a representação do ato sexual. Com relação a parte instrumental, o Batuque é essencialmente acompanhado por instrumentos de percussão (CASCUDO, 1962). O tambor mais característico é o tambu, que tem cerca de um metro e meio de altura, feito de tronco de árvore e coberto em uma das extremidades com couro de boi; ele é colocado sobre o solo, deitado, e seu executante fica sobre o instrumento, como se estivesse montando em um cavalo. Também é usado o quinjengue, que é um tambor menor e delgado, seguindo os moldes do tambu. Os outros instrumentos são: matraca, que são dois pedaços de madeira que percutem no corpo do tambu e guaiá, que é um chocalho duplo, feito de latão em formato de cone e cheio com sementes ou algo parecido. Os tambores são afinados pelo aquecimento do couro na fogueira, presente durante toda a dança e, geralmente, ao ar livre. Vale destacar que esta prática de afinação dos instrumentos de percussão por aquecimento, ocorre em outras danças de terreiro de origem bantu-brasileira (ARAÚJO, 1964). A referência rítmica básica é comandada pela matraca e pelos guaiás que são tocados pelos cantores e pelos dançarinos. A pessoa que toca o tambu é o responsável por todas as variações e improvisações do ritmo, ao mesmo tempo em que indica o exato momento da umbigada. Já o quinjengue serve de orientação tanto para o andamento da música como para a afinação dos cantores. 59 Com relação à melodia, [...] a música compreende as modinhas e as carreiras. As primeiras são formadas por versos que falam de assuntos variados. Constituem a parte musical propriamente dita. As carreiras são cantigas de desafio, entoadas somente com o acompanhamento do Guaiá, já que ocupam o tempo em que os tambores estão sendo afinados na fogueira. (FRADE, 1997, p. 41). O conteúdo das canções de Batuque, entretanto, são uma crônica cantada da comunidade do Batuque, sua história passada e presente, seus valores morais, sua crítica social. Geralmente são comentários a respeito de pessoas e feitos conhecidos do grupo, cantados com um ar cômico e uma linguagem rica em metáforas. Sobre a coreografia, no Brasil, o mais generalizado é encontrar a formação de Batuque em roda, da qual os dançarinos, músicos e espectadores tomam parte e, no centro da roda, vai somente um dançarino solista que é o responsável pela coreografia, portanto, uma mescla do Batuque de Angola e do Congo, como afirma Giffoni (1964). A umbigada, que é um elemento coreográfico presente em praticamente todas as danças brasileiras de origem africana, aparece quando ao som do tambu, o dançarino solista convida outra pessoa da roda para começar a dançar em seu lugar. Outras características são a presença dos constantes movimentos das cadeiras por parte dos dançarinos, dos sapateados, batida de palmas e estalar de dedos (TINHORÃO, 1988). Com relação ao vestuário, não existe um específico, pois tudo é bastante simples e rústico, de ar campestre. Entretanto, as únicas exigências são para as mulheres: saias rodadas e lenços coloridos para ornar a cabeça. Sobre a representação e expressão sonora do Batuque folclórico na obra Batuque de Marlos Nobre, pode-se constatar que os instrumentos usados para a execução do Batuque são: um guaiá, uma matraca, um quinjengue e um tambu. Assim, a expressão sonora desta peça está ao redor dos instrumentos membranofones (quinjengue e tambu) e idiofones (guaiá e matraca). Através da análise técnico-interpretativa da obra Batuque de Marlos Nobre, se observa que há o emprego de muitos staccati8 combinados com ligaduras e também 8 Do italiano = “destacado”. Diz-se de uma nota, durante a execução, separada de suas vizinhas por um perceptível silêncio de articulação e que recebe uma certa ênfase [...], o oposto de LEGATO. O staccato (pl. staccati) é notado com um ponto, um traço vertical ou um sinal em forma de cunha. (ALVES, 1994, p. 896). 60 muitas combinações de legato9 de duas ou mais notas; somente alguns tenuti10 são empregados. Por esta escrita musical, tem-se uma sonoridade mais próxima da ressonância dos membranofones e também da voz humana. Um aspecto interessante desta peça é que se pode associar o acompanhamento escrito por Nobre a uma roda de Batuque, pois o acompanhamento está estruturado sobre cinco notas que se repetem a cada compasso: sol-lá-si-do-ré, fazendo um ciclo contínuo. As oito idéias rítmico-melódicas empregadas pelo compositor neste acompanhamento fazem alusão à polirritmia provocada pela execução do conjunto instrumental como um todo. Para que esta polirritmia estivesse presente na peça, Nobre intercala os motivos e faz uma articulação que, se tocadas na seqüência separadamente, provocam uma sensação das quebras e encaixes rítmicos dos quatro instrumentos participantes do conjunto instrumental do Batuque. A sugestão para a imagem sonora dos staccati e legato de duas ou mais notas do acompanhamento é a de associar as notas ligadas aos membranofones e os staccati aos idiofones; com isso, também associar as notas mais graves aos membranofones e as notas mais agudas aos idiofones. Sobre esta idéia do acompanhamento, caminha o canto com sua articulação e rítmica própria. Os intervalos mais amplos associados a um ritmo não tão marcado e a uma articulação mais ligada, sugerem toda a idéia de “molengamente” indicada por Nobre no início da peça. Vale lembrar que a música do Batuque não é tão agitada, como possa parecer, por causa da força sonora do instrumental empregado. Também é possível fazer uma associação à umbigada, elemento coreográfico presente nesta dança folclórica, observando os tenuti indicados em alguns momentos específicos da linha melódica. Quanto o compositor escreve um tenuto, pode-se imaginar o momento em que o tambu, com seu toque diferente, produzindo uma sonoridade mais aguda e distinta, faz o chamado para o dançarino solista dar a umbigada, convidando outra pessoa da roda para dançar em seu lugar. Com relação à dinâmica, Nobre indica o emprego do pedal una corda, intercalado com momentos onde não é empregado. Assim, uma sonoridade em piano (suave) e uma característica mais doce estão associadas aos momentos em 9 10 Do italiano = “ligado”. Termo que indica notas suavemente ligadas, sem interrupção perceptível do som [...]. (ALVES, 1994, p. 527). Do italiano = “sustentado”. Instrução normalmente aplicada a notas isoladas, ou grupo de notas, para que sejam sustentadas em toda a sua duração ou interrompendo completamente o compasso. (ALVES, 1994, p. 941). 61 que o pedal una corda é acionado; ao contrário, uma sonoridade em mezzo forte e forte, com característica mais marcada e rítmica, é associada aos momentos onde o mesmo pedal não é acionado. Com esta dinâmica sugerindo uma onda, um círculo, também se pode fazer alusão à roda, ou ainda, ao movimento dos dançarinos que vão para o centro da roda de Batuque e, depois da umbigada, voltam ao seu lugar de origem. Uma outra imagem sonora sugerida é, com a movimentação circular dos dançarinos, em formação de roda, às vezes passam mais ou menos perto do conjunto instrumental, provocando a sensação do contraste forte-piano. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Através deste estudo pôde-se comprovar que há uma forte relação entre as peças, principalmente as danças, dos “Ciclos Nordestinos para Piano” de Marlos Nobre com a cultura musical nordestina, em especial, a sonoridade dos conjuntos instrumentais folclóricos característicos desta região brasileira. É importante salientar, entretanto, que todas as peças contidas nos quatro “Ciclos Nordestinos para Piano” de Marlos Nobre, ainda que tenham temas emprestados do folclore nordestino, não são peças folclóricas, mas sim, obras de Arte de que inspiram e que estilizam o folclore. Constatou-se também que é possível extrair do piano uma sonoridade próxima das sonoridades folclóricas, ainda mais se a obra é executada de uma maneira consciente, tentando trazer até o ambiente sonoro das peças de Marlos Nobre toda a rica contribuição destes conjuntos instrumentais folclóricos, não só em seu aspecto rítmico, mas também em seu aspecto melódico, harmônico e tímbrico, mesclando estes aspectos musicais de uma maneira equilibrada, pois como disse Oliver Messiaen, grande compositor francês do século 20 e mestre de Marlos Nobre: O piano, que parece de antemão um instrumento desprovido de timbres, é – precisamente por essa falta de personalidade – um instrumento propício para a busca dos timbres, pois o timbre não depende do instrumento, mas sim do intérprete. (MESSIAEN, [19--] apud CHIANTORE, 2001, p. 544). Assim, ainda utilizando uma linguagem extremamente contemporânea, um dos aspectos mais importantes nestas obras se converte na representação e expressão sonora das peças, suscitando as imagens musicais dos instrumentos e 62 dos conjuntos instrumentais folclóricos do nordeste brasileiro através das diferentes sonoridades provocadas pelas diferentes maneiras de tocar o piano, sugeridas através de articulações e outras simbologias, contribuindo para a compreensão mais imediata do intérprete com relação à significação sonora de cada dança ao executálas. CULTURE IN THE WORK OF NORTHEASTERN MARLOS NOBLE ABSTRACT This essay has as principal objective to recognize the characteristics of the northeastern culture, specially the northeastern musical culture, in the four Marlos Nobre‟s pieces for piano solo entitles “Ciclos Nordestinos para Piano”. Marlos Nobre is, nowadays, the most famous Brazilian contemporary composer, completing 70 years of age and 50 years of musical career in 2009. In all his work, the northeastern presence is a stamp, because he was born and lived most of his life in Recife – PE. In this essay, just the “Northeastern Cycles for Piano” will be focalized. Each Cycle is organized by five musical pieces that are composed with specifically characteristics and based on the Brazilian northeastern folklore; these pieces express the great northeastern contribution inside Nobre‟s vision. This essay belongs to the PhD thesis “Inmanencia de la sonoridad de los conjuntos instrumentales folklóricos en las danzas de los cuatro Ciclos Nordestina para Piano de Marlos Nobre”, presented to the Post Graduation Committee of the Instituto Superior de Arte of Havana/Cuba, and it was possible, through an intense study and a technical-interpretative analysis of the pieces, to get to the conclusion that the northeastern culture influenced Marlos Nobre‟s work. Keywords: Northeastern culture. Marlos Nobre. Northeastern cycles for piano. Folk dances. 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Rio de Janeiro: FUNARTE, 1979. 66 Jornada dos Cursos de História, Geografia e Arquitetura: Espaço, História e Globalização A INFLUÊNCIA ORIENTAL NO MOVIMENTO DE CONTRACULTURA: O ZENBUDISMO Luiz Eduardo Toneis1 Roger Marcelo Martins Gomes 2 RESUMO Este artigo busca demonstrar a influência da cultura oriental nos Movimentos de Contracultura, em especial como o Zen-Budismo, uma técnica de meditação e aproximação da pessoa à espiritualidade permeou o movimento jovem dos anos 60 e 70. Por meio de uma análise qualitativa e a partir de uma bibliografia relacionada ao tema definimos conceitualmente o Movimento de Contracultura e o Zen-Budismo, para em seguida entendermos qual a relação entre esses dois fenômenos. Identificamos que o Zen-Budismo foi importante para definir o comportamento dos jovens no Movimento de Contracultura, assim como sua forma de pensar contestadora à cultura ocidental tradicional. Palavras-Chave: Contracultura. Cultura Oriental. Zen-Budismo. 1 INTRODUÇÃO O presente artigo desenvolve uma análise sobre as influências da cultura oriental sobre os Movimentos de Contracultura, destacando a presença do ZenBudismo no cotidiano dos envolvidos desses movimentos. Utilizando às obras de diversos autores como “A Contracultura” de Theodore Roszak, “O Livro de Ouro do Zen” de David Scott e Tony Doubleday, “O Zen” de Jean-Michel Verenne, “O que é Contracultura” de Carlos Alberto Messeder Pereira e “O que é geração Beat” de André Bueno. Buscamos compreender como foi à influência do Zen-Budismo no Movimento de Contracultura. Qual a importância dessa “filosofia” no comportamento e pensamento do Movimento Jovem dos anos 60 1 2 Aluno do Curso de História da Universidade Sagrado Coração – Bauru – SP. Professor Mestre do Curso de História da Universidade Sagrado Coração – Bauru - SP 67 e 80 e se as influências do Zen-Budismo contribuíram para a imagem de uma Juventude Transviada, desvinculada dos padrões culturais dominantes. Nossa reflexão segue no sentido de procurarmos apontar e salientar as características dessas influências, descrevendo-as, como buscaram e inseriram esses traços orientais nos movimentos e qual foi à reação dos adeptos da Contracultura no momento em que assumiam essas técnicas orientais. Os Movimentos de Contracultura possuíam características particulares que levavam a rotulações e formas de tratamentos preconceituosos pela sociedade ocidental. Conhecer e compreender essas características são imprescindíveis para uma reflexão respeitosa e democrática sobre esses movimentos. Said (2007, p. 33) descreve o Oriente: “o Orientalismo, portanto, não é uma visionária fantasia européia sobre o Oriente, mas um corpo elaborado de teoria e prática em que, por muitas gerações, tem-se feito um considerável investimento material”. Comumente a caracterização feita pela sociedade em relação aos participantes dos Movimentos de Contracultura era como uma “Juventude Transviada e Rebeldes sem causa, traficantes...”. Teriam estas mesmas rotulações relações com o Zen-Budismo? A reflexão desenvolvida sobre a influência Oriental nos movimentos de contracultura é de grande relevância, pois devido ao fato de rotulação desencadeado no período, ocasionou uma generalização aos jovens envolvidos nos movimentos. Essas rotulações foram voltadas aos modos de agir dos jovens que, devido à utilização de drogas por uns, houve a generalização a todos, e ainda com a prática do Zen-Budismo sendo uma técnica diferenciada dos moldes da sociedade, acabaram criando estereótipos aos jovens envolvidos nesses movimentos. Neste contexto identificando a presença desse Zen como sendo uma linha Oriental e não um estado em que as pessoas ficavam por utilizar qualquer substância suspeita. 2 OBJETIVOS E METODOLOGIA O grande objetivo desse artigo é demonstrar a influência realizada pelo Oriente em relação aos movimentos de contracultura desencadeados no Ocidente nas décadas de 60 a 80. Um movimento que foi de caráter cultural, com participação exclusiva de jovens de classes médias e altas das sociedades 68 Européias que, requeriam uma alteração nos modelos sociais e na estrutura que estava impregnada na sociedade nesse período. É de grande destaque o desenvolvimento da percepção das pessoas em relação às particularidades dos movimentos de contracultura, cuja relevância foi determinante na estrutura cultural das sociedades ocidentais. A identificação dessas particularidades é de suma importância para poder assim, compreender todo o processo e o caminhar do movimento de contracultura, as influências orientais, sendo a inclusão do Zen-Budismo, como uma técnica de se encontrar com o seu eu espiritual. Essas influências sendo desconhecidas pela sociedade desencadearam uma série de determinantes negativas aos jovens adeptos aos movimentos. A assimilação da cultura oriental com os movimentos de contracultura tende a demonstrar que, mesmo o Oriente não participando diretamente desses movimentos, teve sua influência. O Ocidente adentrando no território Oriental acabou aderindo a algumas práticas, costumes, alternando a personalidade ocidental, havendo uma influência direta nos moldes sociais ocidentais. Said (2007, p. 28) descreve essa influência, sendo uma compreensão de como o Oriente chegou até o Ocidente: “O Oriente ajudou a definir a Europa, ou o Ocidente, com sua imagem, idéia, personalidade, experiências contrastantes. O Oriente é uma parte integrante da civilização e da cultura material Européia”. Metodologicamente este estudo parte de uma análise qualitativa sobre o Movimento de Contracultura. Buscamos primeiramente entender esse Movimento identificando suas origens e características, ressaltando, principalmente, o papel da juventude contestadora dos valores dominantes. Descrevemos, por conseguinte, o Zen-Budismo, destacando características definidoras dessa filosofia. Apontamos as relações e influências do Zen-Budismo no Movimento de Contracultura. No entanto, esse movimento de contracultura com a influência do Zen-Budismo desenvolveu nos jovens de classes médias e altas um espírito de transformação e modificação do pensamento cultural que, estavam impregnados a gerações. Esses mesmos jovens ficaram conhecidos com diversas designações tendo a denominação mais popular a de Jovens Transviados, jovens que não queriam mais fazer parte de uma sociedade que possuísse o pensamento antiquado, fechado a modernizações. 69 3 O MOVIMENTO DE CONTRACULTURA: JOVENS TRANSVIADOS Acostumamo-nos a ver a cultura como sendo algo tradicional, passado de geração em geração, carregando a mesma linhagem cultural de nossos ancestrais, mas não é assim que é a realidade. A cultura é um produto histórico, é realizado acidentalmente pelo homem e não produzido como sendo uma necessidade humana. Não há uma cultura única, mas há culturas, criadas por homens em diferentes lugares e em diferentes épocas e, principalmente, criados por diferentes homens. Não são expressões de realidade, mas diferentes maneiras de observação da realidade e de demonstrar a interpretação desses homens. No entanto, cultura pode ser encarada como Arte, criada para uma representação e interpretação de nosso cotidiano, e a visão científica que domina nossa sociedade a distorceu e obscureceu esses fatos. As distorções da cultura nas sociedades acarretaram em um conformismo exacerbado da população, onde uma forma de vida deve ser seguida pelo restante da linhagem familiar. As sociedades ficam assim trancafiadas em uma monotonia, sem alterações ou modificações qualitativas em seu âmbito. Geralmente as famílias de geração em geração permanecem na mesma situação. No entanto, na década de 50 um movimento causado por uma geração de jovens que buscou melhorias para suas próprias vidas, não no sentido material, mas no sentido de liberdade de expressão, autonomia para seguir seu caminho desejado, seu sonho. Porém, segundo Pereira (1984), em seu trabalho sobre Contracultura, esses mesmos jovens que encabeçaram as primeiras manifestações na Europa, eram de classes médias e altas e possuíam condições de observar de perto a cultura vigente e como se manifestava. Os jovens que estavam envolvidos nesses movimentos culturais eram também estudantes universitários. Portanto o “campus” universitário era uma das diversas formas de distinguir alguns dos locais de reuniões dos adeptos de renovação cultural. As manifestações Culturais ou Movimentos de Contracultura, como ficou mundialmente conhecido, foram manifestações realizadas por jovens de classe média nos Estados Unidos e Europa Ocidental na década de 50 e se alongando para a década 60. 70 Contracultura foi uma denominação da imprensa americana à todos os integrantes das manifestações que possuíam características predominantes como cabelos compridos, ou eram usuários de drogas, adeptos de praticas “sexo livre”, amantes da liberdade. Podemos compreender a palavra Contracultura, segundo Pereira (1984) de duas formas de representação: uma como sendo um fenômeno histórico ocorrido na década de 50 e 60, e outra como sendo uma crítica em face de uma cultura convencional de determinado período. No entanto, na primeira representação, a Contracultura apenas foi somente mais um dado em nossa história. Contudo na segunda representação a Contracultura foi, mas certamente será não acabou ali somente nas manifestações, mas ainda está encarnada em nossa sociedade. (PEREIRA, 1984, p. 20). Esse movimento iniciou-se na Europa Ocidental na década de 50 e se espalhou pelo mundo chegando aos Estados Unidos por volta de 1955 e 1960. Era guiada pela juventude predominantemente das classes médias e altas dos grandes centros urbanos e privilégios que esses usufruíam na própria cultura dominante. Cultura que privilegiava a possibilidade de entrada em um sistema de ensino e no mercado de trabalho, seguindo as normas e regras da sociedade a qual foi contrariada. Perguntamos então até que ponto as influências da cultura oriental contribuíram para essas rejeições e resistências? Como o Zen-budismo permeou a resistência dessa juventude? Os movimentos jovens obtiveram grande repercussão na Europa, na América Latina e nos Estados Unidos. No Brasil e nos Estados Unidos, por exemplo, os jovens realizavam mega encontros que denotavam para a sociedade do período a relevância do movimento. Segundo Bueno (1984) em sua obra “O que é Geração Beat”, nos Estados Unidos, o jazz, as músicas de Elvis Presley e Janie Joplin eram os guiadores dos jovens que participavam do movimento de Contracultura. “O Jazz foi escolhido como símbolo da Contracultura devido aos locais em que eram tocados como cabarés, bares, tabernas”. (BUENO, 1984, p. 19). Tabernas, bares, tinham em relação a sociedade, certos tabus devido as suas localidades, sendo lugares sombrios e que eram freqüentados por todos os tipos de pessoas. 71 O Jazz foi consagrado como o principal ritmo do Movimento de Contracultura devido às características étnico-sociais dos indivíduos que cantavam ou tocavam este ritmo musical. Eram em sua maioria negros afroamericanos que tocavam ou/e cantavam e em suas melodias demonstravam para sociedade da época, por meio das letras das canções, tudo que enfrentavam em seu “dia-a-dia”, ou seja, a música possuía a riqueza de trazer a tona as alegrias e tristezas, dificuldades e problemas de uma cultura imersa em uma sociedade de cultura diferente. As composições desses artistas possuíam vertentes propondo reformas da cultura tradicional, como as letras de algumas canções de Elvis Presley que se lançou no mundo do Rock e os Beatles desenvolvendo em suas músicas seus ideais culturais contestatórios. Esses cantores desenvolviam músicas para jovens, mas não eram respectivamente jovens, eram mais velhos tocando músicas para pessoas mais jovens, realizando uma interação entre essas idades. Vale ressaltar que, nos movimentos de Contracultura não eram todos jovens, havia também adultos adeptos a esse movimento que requeriam melhores condições de vida para si e suas famílias. No entanto, na década de 60, surgiram bandas e cantores de rock mais jovens, que praticamente eram símbolos da “linguagem jovem”, interagiam com eles, eram os Beatles, Bob Dylan e Rolling Stones. Esses músicos ficaram mundialmente conhecidos pela grande repercussão que houve devido as suas composições voltadas ao público jovem. Jack Kerouac, Norman Mailer e Allen Ginsberg são nomes de grande importância devido a vivência e as obras que escreveram e produziram sobre o Movimento de Contracultura. Mailer, romancista americano escreveu para revistas e jornais, como o The Voice, sobre o Jazz e a repressão que este sofria na América por ter uma posição favorável ao lado negro e ao reprimido da América. Kerouac, igual a Mailer, desenvolvia críticas favoráveis aos integrantes da Contracultura, colocando-os como um grande assunto para a imprensa local do período. Ginsberg foi líder e inspirador do Flower Power, O poder da flor, sendo o idealizador do estilo típico dos hippies, tornando sua presença como algo fundamental nos encontros que esses realizavam. Muitos idealizadores como esses citados acima e outros que aparecem em obras do período, contribuíram para desenvolver a história do Movimento de 72 Contracultura como a vemos hoje, um ideal de mudança social da estrutura do pensamento ocidental e no comportamento do indivíduo. Outros termos também foram utilizados para se distinguir as pessoas que participavam desses movimentos, como Beatnik, fusão de Beat com Sputnik, a nave soviética lançada para o espaço na década de 50, Geração Beat, Beat Scene, direcionavam e distinguiam os jovens da época. Ginsberg era considerado o maior poeta dos Beat devido a seus livros e artigos que relatavam tudo sobre esses contestadores. Este autor conviveu em muitos encontros, sendo um participante ativo das apresentações culturais que propunham a liberdade política e sexual, de pensamento e atitudes, fora do consenso ocidental de sociedade. Ainda na década de 50, os Beat se aliaram aos chamados “Delinqüentes Juvenis” do tipo Juventude Transviada e Rebeldes sem Causa, e próximos de minorias Hispano-Americanos, Índios, Negros, Traficantes, que possuíam uma vida dissidente da moral norte-americana. No início da década de 60, nos Estados Unidos muitos grupos requeriam sua participação e prestígio na sociedade americana como os homossexuais e negros, por isso surgiu nesse mesmo período vários grupos como o Gay Power, Women‟s Lib, e, o mais significativo foi o Black Power que adentrou na difícil batalha por seus direitos civis. Na década de 60, muitos desses integrantes dos movimentos de Contracultura saíram da escola, universidade e, principalmente, quando eram requisitados para alistamento militar, recusavam. Toda essa contestação também era uma extensão do do protesto contra a Guerra no Vietnã ou a Guerra Fria que desencadeava uma enorme pressão nuclear sobre o Mundo. É nesse contexto que os jovens integrantes da Contracultura realizavam práticas para o desenvolvimento da paz interior. Segundo Bueno (1984, p. 26), esse período de turbulência era encarado dessa forma: “Associar o amor aos produtos vendidos pela propaganda envenena os próprios atos de amar, incentivar o sadismo no cinema e na televisão gera conseqüências que não dá para relaxar com Coca-Cola”. Esses movimentos possuíam diversas formas de conduta para uma vida mais calma, sem “stress” causado pelo dia corrido e repetitivo das pessoas. Uma dessas formas que possuía relação com o Oriente, chama-se Zen-Budismo, um outro universo cultural que propõe práticas para conseguir alcançar a possibilidade de 73 silêncio, meditação, calma, desapego material e tudo mais que poderia levar a forma de iluminação e beatitude. Segundo Bueno (1984, p. 23), o Zen-budismo foi fundamental para o Movimento de Contracultura: O Zen entrou de qualquer forma em oposição a uma cultura verborrágica, palavrosa, cheia de retórica, mas mentirosa e injusta, extremamente materialista, que busca no conforto material todos os valores da vida, jogando para escanteio qualquer questão espiritual ou filosófica mais profunda. O Zen-Budismo não possui um livro com suas doutrinas, é passado de geração em geração, de seus mestres para seus discípulos, que possuía um caráter de libertação do materialismo e uma interação com o mundo espiritual do mundo Zen. 4 O ZEN-BUDISMO: UM CAMINHO ALTERNATIVO Segundo estudiosos de filosofias orientais como Scott e Doubleday (1992, p. 18), o Zen-Budismo é uma técnica de meditação que serve para uma aproximação mais íntima do homem consigo próprio, é um caminho para todos que atingirem a iluminação, esses autores dizem: “é uma busca pela Iluminação que levará a ver como as coisas realmente são, é um despertar do caminho iluminado de Buda, onde não está privado para poucos e sim aberto para todos” . A origem do Zen está ligada a História do Budismo e é mais antiga que sua prática e disseminação no mundo oriental e ocidental. Iniciou-se na Índia onde Sidharta Gautama nasceu, alcançou a iluminação e fundou a religião budista. A palavra Buda significa “O desperto”. (SCOTT; DOUBLEDAY, 1992, p. 26). Buda nasceu no séc. VI a.C. Foi casado, teve filhos, mas nada lhe agradava, então certa noite, resolveu fugir de casa para viver o mundo como realmente era. Morava em um palácio e queria ver a vida diferente da sua que tinha em sua moradia. Nas ruas deparou-se com a morte, fome, frio, miséria, todos os fatores que nunca havia presenciado. Para Buda a grande questão a ser alcançada era qual a origem da vida, para que existimos, mas não a encontrava em hipótese alguma. Iniciou-se um jejum de quatro anos, passando frio, aonde depois de quase morto chegou à conclusão de suas questões. Com muita calma, embaixo de uma velha árvore, sentou-se e decidiu que só sairia dali com suas respostas. Ao nascer do sol, Sidharta subitamente 74 compreendeu que suas dúvidas já haviam sido respondidas, e que a vida e a morte eram apenas fenômenos passageiros no palco do não-nascido. Resolvendo essas questões, Sidharta Gautama tornou-se Buda Shakyamuni. (SCOTT; DOUBLEDAY, 1992, p. 31). Buda deixou uma doutrina que foi seguida por muitos, nela não havia regras nem conceitos e sim alternativas de vida. No Budismo quando se referem à nãonascidos, estão se referindo a quem ainda não despertou a luz interior, a luz de Buda, acessível a todas as pessoas que assim a buscam. Nessa doutrina foram eregidas “As Quatro Verdades Nobres”, que seriam “Tudo é sofrimento”, “ A origem do sofrimento é o desejo”, “Libertar-se do sofrimento consiste em abolir o desejo” e “ O caminho do meio”. Esses quatro elementos eram para Buda a forma de retirar o materialismo da vida das pessoas, mas sem uma retirada abrupta desses desejos, e sim como a última verdade relata, “O caminho do meio”, sendo como um meio termo, uma retirada lenta desses desejos, uma alteração gradativa até alcançar a eliminação total. O Zen, como prática é transmitido de pessoa para pessoa, onde um mestre ensina suas técnicas e teorias a seus discípulos e assim sucessivamente. É a única doutrina que não utiliza manuscritos para propagar a palavra, nem doutrinas nem nada, apenas as gerações de mestres e discípulos. As posições em que o Zen é desenvolvido é de maneira sentada, como uma flor de lótus, onde pode-se possuir uma postura adequada para entrar em estado de meditação. Essa mesma postura adotada pelo Japão e China, era originária da India, de onde o Zen se originou. A palavra Zen é uma abreviatura da palavra Zenna ou Zenno, que são traduções da palavra Ch‟anna que deriva do Chinês.O Zen seria a verdadeira essência do Dharma de Buda, que é o estágio em que o Buda se encontra de iluminação. O estágio após o alcance dessa iluminação se chama Nirvana. No Japão, a dissiminação do Zen seguiu duas linhas, o Rinzai e o Soto. O Rinzai era uma seita fundada por Myosan Eisai (1145 – 1215) praticava essa meditação nas posições similares das indianas. O Soto é diferente. Fundada por Dogen, autor de vários escritos direcionados a esse tema, o Soto não era voltado a meditação. “Foi banalizado e de certa forma caracterizado ocidental, pelas suas maneiras de disciplina diferenciadas da do Zen indiano”. (VERENNE, 1984, p. 58). 75 5 O ZEN-BUDISMO E A CONTRACULTURA Os Movimentos de Contracultura foram atitudes de jovens de classes médias e altas, que estavam sempre acompanhando as modificações culturais nos mais altos escalões da sociedade. No entanto, esses jovens sonhavam com uma sociedade mais livre, com pensamentos mais abertos e propícios para receberem os diferentes integrantes que nela existiam. Nesse contexto, iniciaram encontros com objetivos de implantarem um novo conceito cultural na sociedade em que estavam inseridos. Buscavam participações diferenciadas de todos os níveis, como cantores e artistas que desenvolveriam suas obras voltadas aos objetivos de mudanças e trocas culturais do pensamento de sociedade ideal ocidental. Havia muitas influências de etnias devido à grande expansão desses movimentos no mundo ocidental e oriental. Uma dessas influências adotadas pelos adeptos dos movimentos de contracultura foi o Zen-Budismo, que propunha a busca de um estado de espírito mais longe possível da vida material humana, possuindo o objetivo de levar o praticante a uma experiência da vida em si. O Zen-Budismo é uma técnica advinda de mosteiros do Japão, onde poetas e romancistas ocidentais compareciam a fim de aumentarem suas inspirações. Essa técnica é um ritual passado de pessoa para pessoa, que ao final atinge um montante de praticantes. Ginsberg, por exemplo, romancista judeu-americano, além do ZenBudismo adotou a prática do Hinduísmo em seus poemas. Ele conseguiu introduzir em suas obras conceitos orientais tornando-se um dos maiores gurus da América Contemporânea, conforme aponta Bueno (1984, p. 24): Allen Ginsberg, poeta de Nova Iorque, além do Zen-Budismo incorpora o Hinduísmo a seus poemas. O fascinante é um jovem poeta judeu americano sair de Nova Iorque, chegar às margens do Ganges, aceitar a meditação e a compassividades orientais, tornando-se o maior guru da América contemporânea. Um dos maiores divulgadores do Zen-Budismo foi Alan Watts que chegou aos Estados Unidos nas décadas de 50 e 60 trazendo uma bagagem de sete livros sobre religiões orientais e Zen-Budismo. Watts foi um dos primeiros ocidentais a 76 compreender a mensagem do Zen-Budismo e a propagá-la em seus trabalhos juntamente com Henry Miller que foi o grande sábio de Big Sur. No entanto, segundo Bueno (1984) Watts achava que os Beats não estavam buscando o Zen e sim o utilizando para justificar a insatisfação que tinham diante da sociedade americana. Outro autor que comenta sobre a vulgarização do Zen nos movimentos de contracultura foi Roszak (1972, p. 138): “a maior influência foi a de Watts, pois ainda que muitas vezes correndo o risco de vulgarização, coube-lhe o esforço mais resoluto de traduzir os princípios Zen”. Outro autor que cita em suas obras a disseminação do Zen-Budismo no interior dos Movimentos de Contracultura foi Kerouac. Diferenciada das demais visões, Kerouac eleva as tradições do Zen-Budismo como sendo algo cômico, na qual as pessoas se elevavam ao nível Zen para ficarem mais maleáveis em suas relações dentro do Movimento como descreveu Bueno (1984, p. 25). Nesse período de Contracultura, um meio de comunicação estava iniciando sua expansão e com isso auxiliava a disseminação dos movimentos culturais: a televisão, inserida no cotidiano da população. Os Hippies, Beats e todos os grupos que incorporavam a mudança das estruturas sociais ficavam dia após dia mais conhecidos devido a grande mídia que lhes davam atenção e cobertura. Contudo, pode-se concluir que os Movimentos de Contracultura eram movimentos juvenis, de grande repercussão e contraste, com influências diretas e indiretas de diversas culturas como as orientais. Foram movimentos que buscavam a liberdade de expressão, de vida e convivência na sociedade, uma quebra das estruturas ocidentais. Era uma busca desenfreada de um mundo novo e sem temores, onde tudo seria liberado e aceito. 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS A influência da cultura oriental nos movimentos de contracultura caracteriza a inclusão do Zen-Budismo na sociedade ocidental no decorrer do movimento. Os integrantes desses movimentos eram jovens que ficaram conhecidos como juventude transviada, devido às perdas culturais que estavam impregnadas nas sociedades ocidentais. Esses mesmos jovens eram de classes médias e altas da sociedade ocidental que estavam próximos dos meios de cultura que eram até então passados de geração para geração. Querendo quebrar essa linhagem, esses jovens 77 se uniram com a finalidade de desestruturar a modificar o pensamento ocidental de cultura da sociedade. Os lemas criados pelos manifestantes como “paz e amor”, rotulados como drogados e baderneiros. O Zen-Budismo afirmava ainda mais esses conceitos, pois os jovens utilizavam algumas substâncias degenerativas, assim quem entrasse num estado Zen, logo estava drogado ou bêbado. Conclui-se que, as assimilações entre o Zen-Budismo e as condições em que os jovens se encontravam, ocasionou uma rotulação a todos os integrantes dos movimentos, a Juventude Transviada. A compreensão desse pensamento ocidental dá-se mediante a analise dos estudos e documentos do período, a fim de modificar o olhar da sociedade conservadora perante os acontecimentos. THE INFLUENCE OF MOVEMENT IN EASTERN COUNTERCULTURE: ZENBUDDHISM ABSTRACT This paper seeks to demonstrate the influence of eastern culture in the countercultural movement, especially as the Zen Buddhism, a technique of meditation and spirituality of the person to approach permeated the young movement of years 60 and 70. Through a qualitative analysis and from a bibliography related to the subject we conceptually define the countercultural movement and Zen Buddhism, for after that understanding which the relation between these two phenomena. We identify that Zen Buddhism was important to define the behavior of the young people in the countercultural movement, as well as its form an argumentative think about the traditional western culture. Keywords: Counterculture. Eastern culture. Zen Buddhism. REFERÊNCIAS BUENO, A.; GÓES, F. O que é Geração Beat. São Paulo: Brasiliense, 1984. PEREIRA, C. A. M. O que é contracultura. 2.ed. São Paulo: Brasiliense,1984. ROSZAK, T. A contracultura: reflexões sobre a sociedade tecnocrática e a oposição juvenil. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1972. 78 SAID, E. W. O Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007. SCOTT, D.; DOUBLEDAY, T. O Livro de Ouro do Zen: a sabedoria milenar e sua prática. 2. ed. São Paulo: Ediouro, 1992. VERENNE, J. M. Oriente Secreto: o Zen. São Paulo: Ediouro, 1984. 79 Jornada dos Cursos de História, Geografia e Arquitetura: Espaço, História e Globalização DA IMAGEM INDÍGENA PRESENTE EM NOSSO INCONSCIENTE COLETIVO À INVISIBILIDADE INDÍGENA NA FORMAÇÃO DA ALMA BRASILEIRA Márcio Oliveira de Castro Coelho1 Antonio Walter Ribeiro de Barros Junior2 RESUMO O presente artigo tem como objetivo levantar uma discussão sobre a invisibilidade indígena na sociedade nacional a partir da observação dos arquétipos indígenas existentes em nosso inconsciente coletivo, apoiado no conceito proposto por Jung. Pretende-se demonstrar que o que há de visível no inconsciente coletivo brasileiro, uma representação da imagem do índio enquanto matriz étnica formadora do povo brasileiro, uma imagem criada a partir da repetição de visões projetadas a respeito do índio desde a chegada dos portugueses até hoje – uma visão do Outro. O sentido deste estudo visa demonstrar a participação indígena na construção não apenas da história brasileira através das múltiplas visões de mundo, somadas as das outras matrizes (européia e africana), que nos transformaram num povo diferenciado, mas, fundamentalmente, a participação indígena na construção da alma brasileira e no resgate dessa alma perdida. Palavras-chave: Inconsciente coletivo. Alma brasileira. Invisibilidade indígena. Formação do povo brasileiro. 1 INTRODUÇÃO E DESENVOLVIMENTO “Não estou preocupado com a „verdade histórica‟, estou preocupado com o ressurgimento de uma alma perdida”. (Gambini, 1998) O inconsciente coletivo, como escreve Gambini (1998, p. 18), é algo que não se sabe, não se conhece, é como “um lençol de água subterrâneo, é uma camada 1 2 Graduação do Curso de História da Universidade Sagrado Coração – Bauru – SP. Prof. Dr. da Universidade Sagrado Coração – Bauru – SP. 80 não-visível, mas profunda, que está lá”. Chega a ser trágico pensar em algo como o lençol freático, um aqüífero Guarani invisível, parte do 1% de água doce, dos 70% de água existente no planeta (97% estão nos mares e oceanos e 2% nas calotas de gelo nos pólos Sul e Norte), disponível aos seres humanos inclusive aos índios, invisível aos nossos olhos e, consequentemente, inacessível para matar nossa sede. “É preciso perfurar um poço artesiano para começar a absorver aquela água e permitir que ela suba até a superfície”, reforça Gambini (1998, p.18). Isso é bom, porque pode nos levar a redescobrir um outro Brasil e nossa ancestralidade indígena – dar visibilidade ao indígena que está entre nós, presente em nossa história, invisível aos nossos olhos. Precisamos enxergar o indígena como ele é e não com aquela imagem reservada em nosso inconsciente coletivo, herdadas de nossos antepassados com toda a carga de preconceitos arraigados em nossa sociedade – uma espécie de invisibilidade imposta. Uma projeção sobre o desconhecido, pois pretendemos explicar, em relação aos professores poderemos pretender ensinar, algo que não compreendemos muito bem – o índio. Assim, esse espaço “desconhecido e vazio” acaba “cheio de projeções psicológicas”, como nos informa Jung ([19--] apud GAMBINI, 1998, p.37), “o que se vê no escuro, ou acredita poder ver, é principalmente um dado de seu próprio inconsciente que aí projeta”. E é exatamente nesse ponto que observamos o quanto somos vazios de conhecimento sobre os índios e toda sua contribuição na formação de nossa brasilidade. O inconsciente coletivo, segundo Carl Gustav Jung, não deve sua existência a experiências pessoais; ele não é adquirido individualmente. É um reservatório de imagens latentes, chamadas de arquétipos ou imagens primordiais, que cada pessoa herda de seus ancestrais. A pessoa não se lembra das imagens de forma consciente, porém, herda uma predisposição para reagir ao mundo da forma que seus ancestrais faziam [...] a teoria estabelece que o ser humano nasce com muitas predisposições para pensar, entender e agir de certas formas.(GAMBINI, 1998, p.37) Fico pensando como poderemos conhecer, perfurando um poço artesiano, esse arquétipo presente em nosso inconsciente coletivo e dar visibilidade ao indígena presente em nossa história, talvez buscando compreender melhor esse outro brasileiro através da compreensão de sua cultura, tão arraigada e disseminada no “modo de ser” do brasileiro. 81 É importante lembrar que a sede sobre o saber tradicional dos povos indígenas brasileiros movimenta, em nosso país, muitos organismos internacionais que buscam segredos e mistérios escondidos na Amazônia brasileira, principalmente àqueles que poderão trazer a cura de enfermidades. Mas como buscar esse saber se nem ao menos podemos ver o índio, quanto mais procurar compreender sua cultura, ter um encontro verdadeiro, entender esse Outro brasileiro, realizar o contato que ainda não ocorreu, como afirma Krenak (1998). Eliane Potiguara (2002), fundadora e Diretora–Executiva do Grumin / Rede de Comunicação Indígena sobre Gênero e Direitos, professora, socióloga, militante e escritora indígena Potiguara, fez o seguinte desabafo durante as comemorações dos 500 anos de Brasil: No dia em que eu conseguir abrir as páginas de minh'alma e contar essas linhas de meu inconsciente coletivo, com alegrias ou dores, com prazeres ou desprazeres, como dores ou ódio, no céu ou na terra - aí sim, aí sim, vou soltar a minha voz num grito estrangulado, sufocado há cinco séculos, porque 500 anos de pretenso reconhecimento de nossa cidadania, não pagam o sangue derramado pelas avós, mães e filhas indígenas deste país. Esse dia, certamente chegará, mesmo que eu esteja em outros planos. Tornar visível aquele que representa a primeira matriz étnica nacional parece ser fundamental para a nossa própria compreensão. Trazer à memória as lembranças do extermínio indígena, que não foi pequeno, como escreve o saudoso professor Darcy Ribeiro: “ao longo das praias brasileiras de 1500” representada pelos grupos do tronco lingüístico Tupi, que “somavam, talvez, 1 milhão de índios, divididos em dezenas de grupos tribais [...] Não era pouca gente, porque Portugal àquela época teria a mesma população ou pouco mais” (RIBEIRO, 1995, p. 31). Eles representavam, no inicio do século XVI, quando os portugueses aqui chegaram, uma população estimada em cerca de 6 a 12 milhões de índios, que falavam, provavelmente, o dobro das línguas indígenas conhecidas atualmente, que perfazem cerca de 180. Esse fato se deve a campanha de extermínio de povos que não se submeteram a escravidão promovida pelos europeus, pelas epidemias de doenças contagiosas do Velho Mundo, pela redução dos territórios de caça, plantio e coleta, que determinaram uma violenta redução da população indígena já no primeiro século de colonização. Além de todo o processo de violência física que foi tão grande que “em finais do século XVI, a costa atlântica se transformou em um deserto humano”, como descreve Fernandes (1993, p.26), o conseqüente desaparecimento das línguas indígenas acabaram por fechar “a única porta de 82 acesso ao conhecimento pleno das múltiplas visões de mundo dos povos indígenas brasileiros (estupidamente extinto pelos europeus) – com todo o complexo cultural, social e emocional a elas associado – que têm importância crítica para o crescimento humano”, como afirma Rodrigues (1986, p. 27), pois todo esse conhecimento foi forjado em “completa independência histórica em relação às tradições culturais asiáticas e européias, que caracterizam a civilização ocidental”. Ainda hoje, nas aldeias, a transferência do saber transmitido na língua materna, ocorre através de classes por idades que se acentuam na puberdade quando, em alguns grupos, os jovens permanecem em reclusão numa espécie de “oficina do saber” e o todo vivenciado pelo grupo lhes é passado de forma gradual, harmoniosa e constante. Fazendo um paralelo à “escola indígena”, creio que já estamos na idade de entender melhor essa nossa matriz étnica, visível no inconsciente coletivo brasileiro e invisível na construção de nossa brasilidade, aproveitando os momentos de reclusão e reflexão na academia – nossa “oficina do saber”, de modo que as Licenciaturas possam repensar conceitos como: civilização, progresso, modernidade, cultura, não silenciando a participação indígena, que reflete sobre os mesmo conceitos a partir de sua visão de mundo. Não apenas “to know” (saber/conhecer), mas, fundamentalmente, procurar compreender a alma indígena presente em nossa brasilidade, as “vitórias-régias, borboletas, canto dos pássaros”; resgatar essa alma indígena que ainda não foi assimilada e permitir que ela represente o “nosso grande desafio humano e histórico” (GAMBINI, 1998, p.25), neste século XXI. O desafio de produzir material didático e/ou utilizá-lo, resgatando, nas salas de aula, o índio como ator social e intérprete constante de sua história, inserida na história do Brasil. O índio não mais como um papel em branco onde escrevemos nossas verdades, mas como “partícipes originais do processo de construção social, cultural e ecológica do continente americano”, como afirma o antropólogo Heringer Filho (1993). É nesse contexto de invisibilidade consciente em relação aos povos indígenas no Brasil que não podemos apenas nos preocupar com as “verdades históricas”, mas buscar o sentido do Brasil, como Darcy Ribeiro escreve e não ter medo de passar além: “Quem quere passar além do Bojador/ Tem que passar além da dor”, pois “Tudo vale a pena/ Se a alma não é pequena” nos versos de Fernando Pessoa. 83 A alma indígena que é grande, feliz, alegre, colorida, brilhante, precisa se tornar visível aos nossos olhos, precisa ser revelada ao povo brasileiro, como descrito nas palavras musicadas por Caetano Veloso (1977): “... E aquilo que nesse momento se revelará aos povos/ Surpreenderá a todos não por ser exótico/ Mas pelo fato de poder ter sempre/ estado oculto quando terá sido o óbvio”. Meus caros leitores, historiadores ou não, vamos passar além da dor, muito além do Bojador. Vamos sair desse senso comum, ultrapassar a superficialidade com que a problemática indígena nos foi apresentada que, além de ser etnocêntrica e preconceituosa, vem compactuar com o discurso das elites dominantes. Ainda encontramos em livros didáticos expressões como “os índios viviam..., os índios eram...”, como se os índios não fizessem mais parte do panorama sócio-cultural do Brasil. Vamos fazer uma análise crítica nos livros didáticos com que iremos trabalhar e usar a sala de aula como meio revelador dessa invisibilidade indígena. Após mais de 10 anos trabalhando com alguns grupos indígenas no Brasil e baseado nas “trocas de saber” realizadas nos pátios das aldeias, nas caminhadas pelo cerrado e pelas matas, nas brincadeiras, nas festas rituais, em caçadas e pescarias muito divertidas, nos banhos de cachoeira e rios, e, principalmente, nos momentos “ao anoitecer, deitado na rede dentro de uma casa comunal – Hati, ouvindo os Paresi conversarem. Os que foram caçar ou pescar falam de suas aventuras, as mulheres conversam animadamente sobre suas andanças pelo cerrado na coleta de frutos, os velhos cantam o passado e transmitem o conhecimento de seu povo, as lideranças discutem os problemas que ameaçam seu povo e seu território e as crianças brincam, ouvem e aprendem...”, quando pude aprender e apreender um pouco dessa alma indígena, que agora procuro transmitir visando cooperar para que não cometamos o mesmo erro do “homem branco, aquele que se diz civilizado, pisou duro não só na terra, mas na alma de meu povo...”, como nos alerta um índio Bororo, de Mato Grosso, Cibae Eurororo – ou Lourenço Rondon (RODRIGUES, 1986, p. 4). 2 E QUEM SÃO ESSES ÍNDIOS? “A feição dêles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acêrca disso são de grande 84 inocência”, descreveu Pero Vaz de Caminha na primeira carta aos reis de Portugal, em 1500, maravilhado com o que via. “[...] Não são maiores nem mais gordos que os europeus; são, porém mais fortes, mais robustos, mais entroncados, mais bem dispostos e menos sujeitos a moléstias, havendo entre eles muito pouco coxos, disformes, aleijados e doentios [...]”, afirmou o cronista do século XVI, Jean de Léry, em sua viagem ao Brasil. “Homens sem fé, sem lei e sem rei”, julgaram os Jesuítas. “Os índios do Brasil não são um povo: são muitos povos, diferentes de nós e diferentes entre si [...] E distinguem-se também de nós e entre si por falarem diferentes línguas”, na visão de Rodrigues (1986, p. 17). Darcy Ribeiro (1995) apresenta essa parcialidade do povo brasileiro da seguinte forma: “[...] indígena é aquela parcela da população que apresenta problemas de inadaptação à sociedade brasileira, motivados pela conservação de costumes, hábitos ou meras lealdades que a vinculam a uma tradição précolombiana”. Finalmente, quero resgatar um conceito que me é muito caro, pois foi concebido por um querido professor, que acabou se tornando um amigo fraterno, “um irmão por parte dos índios” como ele costumava falar. Já falecido, o antropólogo “Xará” – Ezequias Heringer Filho (1993, p. 15), ousou apresentar os índios como sendo “pessoas que formam sociedades que se distinguem e são distinguidas como partícipes originais do processo de construção social, cultural e ecológica do continente americano. São os primeiros humanizadores da América” Esses primeiros humanizadores da América, na atualidade, somam 345 mil habitando terras indígenas e 50 mil fora das terras indígenas; formam 227 povos (sociedades) indígenas, sendo que existem no país 53 grupos indígenas sem contato (chamados autônomos); falam 180 línguas e estão distribuídos em 573 Áreas Indígenas – 95,8 milhões de hectares, que equivale a 11% do território nacional (BRASIL, [199-?]) 1 “E HOJE ELES SÓ TÊM O DIA 19 DE ABRIL...”, ECOA A CANÇÃO DE BABY DO BRASIL ATRAVÉS DE NOSSO INCONSCIENTE COLETIVO Resgatando uma pesquisa realizada em 1990, na cidade de Cuiabá, no estado de Mato Grosso, denominada “Estereótipos e Imaginários sobre os índios em 85 Cuiabá” (FERNANDES, 1993, p. 144), vamos encontrar algumas imagens que representam componentes de ordem impessoal, “coletiva, sob a forma de categorias herdadas ou arquétipos” (JUNG, 1987, p. 13), guardadas em nosso inconsciente coletivo. São depoimentos que impressionam, já que foram compilados em Mato Grosso, estado onde habitam muitos povos indígenas e que podem ser encontrados andando pelas ruas de Cuiabá, além, é claro, da enorme presença indígena no “modo de ser” do cuiabano. Destacamos alguns trechos, a seguir: “Os índios são todos vagabundos. Não sei por que eles querem tanta terra. Se a gente quer terra, tem que comprar, que pagar impostos, então eu não vejo porque o índio tem que ganhar tudo de graça” (de uma professora trabalhando na Secretaria de Educação). “Índio e negro são preguiçosos, o índio merece muita terra, vou fazer um buraco bem grande e vou jogá-los dentro, depois então darei a quantidade de terras que merecem” (depoimento de um vereador de Tangará da Serra, cidade a cerca de 250 km de Cuiabá). Por trás dessa questão das terras indígenas, ressaltando que as terras indígenas são bens da União conforme artigo 20 inciso XI da Constituição Federal, que “eles têm e eu não tenho”, existe algo maior que está naquele “lençol de água subterrâneo, numa camada não-visível” (GAMBINI, 1998, p.18), herdado e guardado em nosso inconsciente coletivo. No documentário produzido pela Fundação Nacional do Índio em nome dos interesses dos índios brasileiros intitulado: “Nossos Índios, Nossa Gente”, realizado pela VT UM Produções em 1988, durante o Governo de José Sarney, ano da promulgação da atual Constituição Federal, sob a direção geral de Fredy Nabhan e reportagem de Sandra Passarinho, assistimos algumas lideranças indígenas do Brasil respondendo a seguinte questão: “O que você espera do branco?”. Transcrevemos algumas das respostas: “Humanismo, justiça e amor”, pede o líder Benedito Tukano; já Jeremias Xavante acha que é possível “construir em conjunto um futuro melhor e buscar a valorização da cultura e da própria pessoa indígena”; o líder Yawalapti Aritana entende que além de respeitar, o branco precisa “ajudar o índio”; Megaron Txucarramãe, líder xinguano, pede “respeito ao índio, a terra, costume e a cultura do índio”; e nesse sentido, Raoni Metuktire, reforça dizendo: “To esperando o branco ter que respeitar mesmo o índio, respeitar a terra e nós tudo índio”; Rodrigo Xacriabá espera “bom trabalho e respeito a todas as nações indígenas no Brasil”; novamente, Íbis Menino de Freitas líder Wassu, pede respeito pelo “índio como pessoa e como ser humano”; encerrando, Pedro Seg-Seg 86 Kaingang, fala sobre o preconceito: “Me parece que o branco ainda tem dentro de si, ele já traz consigo do próprio berço o preconceito, que é muito forte, eu acho que o preconceito está acima de tudo, então isso me assusta muito”. Respeito passa, fundamentalmente, pela compreensão desse Outro brasileiro – o índio, afastando todo o tipo de preconceito, principalmente aquele que está lá no fundo, dentro de nós, usando a expressão do líder kaingang, em nosso inconsciente coletivo. A Revista Veja publicou duas reportagens que fazem referência aos índios e que podem nos ajudar a compreender essa visibilidade indígena no inconsciente coletivo e a invisibilidade indígena presente na consciência do povo brasileiro. A primeira reportagem foi publicada em 10 de junho de 1992, durante o Fórum Global, evento paralelo a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – ECO 92, realizada no Rio de Janeiro e que reuniu 12.000 militantes de ONGs do mundo todo, trazia como título a seguinte frase: “A explosão do instinto selvagem – Paiakan, cacique-símbolo da pureza ecológica, estupra e tortura adolescente”. A segunda reportagem é de 12 de abril de 2000, ano das comemorações dos 500 anos de Brasil, e traz como título: “No papel de mocinho – Brasileiros acham que os índios são bons e protegem a natureza. As coisas ruins aprenderam com os brancos”. Nas duas reportagens podemos observar expressões que de certa forma se repetem: “pureza ecológica” com “protegem a natureza” e “estupra e tortura adolescente” com “coisas ruins aprenderam com os brancos”. Em 1992, ano da ECO 92, o mundo estava voltado para as questões de proteção ao meio ambiente (desenvolvimento a parte), o cacique Kaiapó, Paulinho Paiakan, detentor do Prêmio Global 500 da ONU e do Diploma da Sociedade por um Mundo Melhor de Washington, condecorações cobiçadas por qualquer ecologista de qualquer parte do mundo, seria uma das estrelas do encontro das ONGs no aterro do Flamengo e acabou sendo manchete de um crime brutal: “A explosão do instinto selvagem”, uma volta aos primeiros anos de Brasil com os Tupinambás realizando rituais antropofágicos, horrorizando Hans Staden, um alemão que esteve em terras brasileiras no século XVI. Já em 2000, nas comemorações dos 500 anos do “achamento” do Brasil, lembranças de Pero Vaz de Caminha “sobre a graça e a boa índole dos habitantes da terra recém-descoberta”, como cita a reportagem, são recordadas, um cenário que permite liberarmos nossa imagem do inconsciente – o bom selvagem. São momentos históricos diferentes e a revista se aproveita disso para publicar essas matérias, mas é preciso que aproveitemos para refletir um pouco 87 sobre a questão inicial desse artigo, isto é, por que a visibilidade sobre os índios presente em nosso inconsciente coletivo (arquétipos) torna-se invisível ao se relacionar com a nossa psique individual? O antropólogo Carlos Alberto Ricardo, do Instituto Socioambiental que solicitou ao Ibope que realizasse uma pesquisa sobre o que os brasileiros achavam dos índios em 2000, admitiu que “pode ser que exista uma visão até romântica das pessoas, mas o capital simbólico é que os índios têm de mais valioso”, já o decano dos antropólogos brasileiros, como cita a reportagem de 1992, Darcy Ribeiro, afirma que “com certeza, esse rapaz (Paiakan) está contaminado pelos brancos. Os índios não são neuróticos e tampouco têm problemas com o sexo”. Podemos ver dois antropólogos, pessoas capacitadas para realizar uma leitura da alma brasileira, ressaltar a imagem presente no inconsciente coletivo brasileiro, o “bom selvagem” – o índio que pode fazer o papel de mocinho ou de bandido. Até hoje, continuamos a não compreender a alma indígena, o que vem reforçar a invisibilidade indígena que constatamos na formação do povo brasileiro. O chamado “bom selvagem”, o “bom moço” agora aureolado como defensor do meio ambiente, vai representar a imagem do cidadão ideal no século XXI. Apenas representar, nada mais? Essa imagem, Jung (1987, p.13) trata como sendo “uma imagem histórica que se propagou universalmente e irrompe de novo na existência através de uma função psíquica natural [...] é o caso de um arquétipo reativado“ e continua “essas imagens arcaicas são restituídas à vida [...] não se trata de idéias inatas, mas de caminhos virtuais herdados”. É preciso esclarecer que, conforme Jung (1987, p. 28), a influência da sociedade sobre o indivíduo é igualmente válido no que concerne à influência do inconsciente coletivo (estrutura herdada comum a toda a humanidade composta dos arquétipos que se originam de uma constante repetição de uma mesma experiência, durante muitas gerações) sobre a psique individual. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Esperando despertar o consciente leitor, nas palavras de Gambini (1998, p. 224), a “desenvolver a sua fantasia e a sua busca pela voz silenciada da alma brasileira” com a “beleza e a força oculta que a alma de nosso povo contém”, de forma a “superar a espessa bruma que nos separa de nós mesmos”. Somada a 88 reflexão de Oswald de Andrade: “Tupi or not Tupi, that is the question”, inserida em seu Manifesto Antropófago de 1928, poderá levar a uma melhor compreensão de nosso compromisso enquanto indivíduos na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Tupi, Nambikuara, Bororo, Cinta-Larga, Paresi e tantos outros povos presentes em nosso país e em nossa memória, por isso, reafirmo os dizeres de Gambini (1998), que a verdade histórica seja o renascimento da alma brasileira, incluída a parcialidade indígena. É preciso compreender a visibilidade indígena produzida pelo nosso inconsciente coletivo, de forma que a consciência nacional reproduza uma história que contemple todas as óbvias contribuições que deram cara e nome a esse país chamado Brasil. INDIGENOUS THIS IMAGE IN OUR COLLECTIVE UNCONSCIOUS INVISIBILITY INDIGENOUS TO THE FORMATION OF ALMA BRASILEIRA ABSTRACT The present article has as objective to raise a quarrel on the aboriginal invisibilidade in the national society from the comment of the existing aboriginal arquétipos in our unconscious collective one, supported in the concept considered for Jung. It is intended to demonstrate that what has of visible in unconscious the collective Brazilian, a representation of the image of the first indian while ethnic formadora of the Brazilian people, an image created from the repetition of projected visões regarding the indian since the arrival of the Portuguese until today - a vision of the Other. The direction of this study aims at to not only demonstrate the aboriginal participation in the construction of Brazilian history through the multiple visões of world, added of the other matrices (European and African), that into they had transformed them into a differentiated people, but, basically, the aboriginal participation in the construction of the Brazilian soul and in the rescue of this lost soul. Keywords: Unconscious collective. Formation of the Brazilian people. Brazilian soul. Aboriginal invisibilidade. REFERÊNCIAS ANDRADE, O. O Homem que Come. São Paulo: Editora Brasiliense, 1982. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado, 1988. 89 BRASIL. Ministério da Justiça. Fundação Nacional do Índio. Apresenta informações sobre os povos indígenas. [200-].Disponível em:<http://www.funai.gov.br/ >. Acesso em: 10 mar. 2009. FERNANDES, J. Índio: esse nosso desconhecido. Cuiabá: Editora da UFMT, 1993. GAMBINI, R. ; DIAS, L. Outros 500: uma conversa sobre a alma indígena. São Paulo: Editora SENAC, 1998. ______.O espelho índio: os jesuítas e a destruição da alma indígena. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1988. GOMES, L.; SILBER, P. A explosão do instinto selvagem. Revista Veja, São Paulo, p. 68-73, jun. 1992. HERINGER FILHO, E. Exploração do mogno em terras indígenas. Brasília: Projeto Mogno Funatura, 1993. JUNG, C. G. O Eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1987. KRENAK, A. O eterno retorno do encontro em Brasil 500 anos: experiência e destino : a outra margem do Ocidente.São Paulo: Instituto Cultural, 1998. MANSUR, A. No papel de mocinho. 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Busca identificar também as permanências associadas ao fenômeno presentes em nossa sociedade. Propôs-se a investigar a existência do fenômeno no município de Lençóis Paulista durante a República Velha (1889-1930); apresentando um exemplo típico de coronel, caracterizado através da atuação do Padre Dom José Magnani. Desta maneira, buscamos confirmar a inserção de José Magnani no rol dos coronéis lençoenses, apresentando suas particularidades. Podemos considerar que o mesmo exerceu grande influência política, econômica e religiosa no município; características primordiais para a constituição de um chefe local; configurando-se como um coronel de batina em Lençóis Paulista. Palavras-chave: Coronelismo. Lençóis Paulista. Padre José Magnani. República Velha. 1 INTRODUÇÃO O estudo do coronelismo constitui um debate historiográfico clássico na literatura brasileira, sendo analisado através de diferentes perspectivas e por vários autores. O interesse pelo estudo do Coronelismo está vinculado às permanências de algumas características desse sistema presentes no Brasil atualmente, como o paternalismo e a estruturação das divisões de terra no país, que desde o período colonial apresentou-se de maneira irregular, privilegiando uma minoria da população. Durante o período Republicano no Brasil, o direito a posse de terras continuou 1 2 Graduada pela Universidade Sagrado Coração – Bauru – SP. Orientador, Prof . Ms. Roger Marcelo Martins Gomes. 92 sendo privilégio de poucos, e a esses poucos foram delegados poderes, principalmente o político. Em relação á Lençóis Paulista, o interesse está vinculado principalmente a um estudo mais aprofundado da história do município, especificamente durante o período da República Velha (1889-1930). Desta maneira, o presente estudo busca analisar o fenômeno coronelista no município de Lençóis Paulista, apresentando um caso típico de coronel, expresso na figura do Padre Dom José Magnani; buscando compreender também a relação entre igreja e o coronelismo no município. Junto á bibliografia pesquisada, buscamos identificar algumas características do fenômeno coronelista em Lençóis Paulista durante a República Velha (18891930); como o mandonismo, o filhotismo, o fidelismo e o paternalismo; a fim de comprovar a existência do sistema coronelista no município e de investigar se o Padre José Magnani constituiu-se como um coronel de batina em Lençóis Paulista. Para isso, foi realizado inicialmente um rastreamento bibliográfico sobre o Coronelismo. Posteriormente, buscamos bibliografias referentes à história do município de Lençóis Paulista; relacionadas especialmente a atuação de José Magnani. Finalmente, a partir das referências bibliográficas, constituídas essencialmente através de livros, o trabalho foi sistematizado. Acreditamos que o presente estudo contribuirá de maneira significativa para o debate historiográfico do coronelismo, pois demonstra suas raízes e algumas permanências, e desse modo é capaz de nos levar a reflexão sobre alguns problemas enfrentados pela sociedade brasileira hoje; além de apresentar uma pequena parte da história do município de Lençóis Paulista, inserindo-o no contexto do Brasil republicano. Através dele será possível também analisar uma particularidade do fenômeno, constituída pela relação entre igreja e o coronelismo. 2 O CORONELISMO COMO FENÔMENO POLÍTICO: DEFINIÇÕES TEÓRICAS Classicamente se afirma que a origem do sistema coronelista está vinculada ao período Imperial brasileiro, com a criação da extinta Guarda Nacional, em 1831. Porém sua consolidação efetiva acontecerá durante a República brasileira, a partir da Presidência de Campos Salles (1898-1902), estendendo-se até a Revolução de 1930. 93 Carone (1972) afirma que há uma origem comum entre o oligarca e o coronel, mas em relação ao coronel sustenta que o seu poder restringe-se a âmbito local, enquanto o do oligarca estende-se a nível estadual. Segundo o autor, o oligarca atua como um coronel ou como um representante do mesmo. O fenômeno coronelista é resultado de nossa formação histórica, pois a forma de organização da sociedade brasileira desde o período colonial, caracterizada pela descentralização política, contribuiu para o desenvolvimento do sistema. As oligarquias tiveram um papel significativo na condução da política durante o período republicano, e dependendo do Estado enfocado, verifica-se maior autonomia de determinado partido na condução da política, principalmente nas regiões onde as relações sociais são mais complexas. Nos Estados menos favorecidos, predomina o controle de determinado grupo ou família. Os coronéis atuam principalmente no segundo caso, pois seu poder concentra-se especialmente nos municípios. Quanto à permanência das oligarquias no poder, pode ser constatado que as mesmas controlam a regulamentação das leis, buscando a legitimação de grupos de acordo com seus interesses. Os grupos oligárquicos são compostos a partir de laços de parentesco, afinidades partidárias, cargos de confiança, dentre outros. A formatação das oligarquias brasileiras não se dá de forma homogênea; pois cada Estado apresenta suas particularidades, e desta maneira, sua configuração pode apresentar-se como domínio pessoal, familiar ou partidário. Porém apesar das particularidades regionais, o governo está vinculado ao partido, pois o predomínio das oligarquias significa controle partidário e governamental. Apesar das especificidades regionais é possível estabelecer um ponto em comum entre as oligarquias, caracterizado pela concentração e pelo exercício do poder, pois todas as decisões políticas eram tomadas exclusivamente pelos partidos, visando garantias individuais aos oligarcas. Além disso, apesar de suas diferenças, é importante lembrar que no momento da eleição presidencial os partidos republicanos firmavam acordos a fim de indicar candidatos para a Presidência da República. Quanto ao processo eleitoral como um todo pode ser constatada a influência determinante das oligarquias; que utilizavam formas de coerção diversificadas a fim de convencer a maioria da população a eleger candidatos representantes de seus interesses. Neste contexto, o chefe político local, o coronel, possui importância significativa, pois responde ao Estado através do município e da região 94 “administrada” por ele. Portanto cabe ao coronel convencer “a sua gente” ou por bem ou por mal a eleger candidatos indicados por ele. Em relação ao fenômeno coronelista, Fausto (2000) afirma que o mesmo é resultado do clientelismo, existente no campo e nas cidades, resultado de uma política administrativa falha, na qual a atuação de indivíduos em prol da comunidade local o caracteriza perfeitamente. Desta maneira, a pobreza de algumas comunidades rurais e urbanas, o desemprego, a exclusão em relação ás decisões políticas são fatores que o legitimam. Os coronéis dependem do Estado para garantir benefícios à população, pois as divisas para os municípios são enviadas por ele. Portanto cabe aos coronéis conduzir sua população local a eleger candidatos favoritos do Estado, especialmente quando os benefícios atingiriam toda ou a maioria da comunidade. Para Faoro (1979), o Coronelismo é visto como uma “política de compromissos”, uma “troca de proveitos”, estabelecida entre o governo estadual e os chefes locais, que conquistam o eleitorado através de promessas que atendam suas necessidades e reivindicações básicas. O fenômeno também é caracterizado pelas relações de compadrio, estabelecidas entre os coronéis, seus capangas, definidos por Faoro como “indivíduos sem vontade própria”, além de seus dependentes imediatos, como os seus empregados, devedores, e os moradores de suas terras. Cabe ressaltar que a aliança estabelecida entre os coronéis e os grupos citados acima, perdura até o momento em que o chefe local goza da confiança do grupo dirigente estadual, tomando decisões favoráveis a ele. Porém se determinadas autoridades estaduais como o juiz de direito e ou o promotor público, entram em conflito com o coronel, são removidas do cargo, e o fato expressa o grande poder político e econômico atribuído aos chefes locais. Para Janotti (1981) o sistema coronelista é característico da estrutura agrária brasileira, estendendo-se predominantemente pelo interior do país. Desta maneira, através da análise da questão estrutural das terras no Brasil, é possível encontrar as origens do Coronelismo no Brasil colonial. Primeiro porque as sesmarias eram doadas diretamente pelo rei, às pessoas de sua escolha e confiança, os colonos, para que nelas pudessem fixar-se, semear a sua plantação, na maioria das vezes essa produção era voltada para exportação, a fim de atender aos mercados consumidores europeus, especialmente Portugal, a metrópole. 95 Além da questão da distribuição das terras no Brasil colonial, amplamente hierarquizada, o outro fator que contribui para encontrar traços do Coronelismo neste momento de nossa história, é a existência do “poder pessoal”, ligado á questão das terras e posses. Poder exercido pelo senhor de engenho e pelos representantes das Câmaras municipais. Aliando os fatores expostos acima, é possível entender o significado do sistema coronelista no Brasil, assim como sua configuração. O nascimento do fenômeno está vinculado à nossa formação histórica, principalmente a distribuição das terras no país. Está relacionado também a descentralização do poder imperial e ao estabelecimento da divisão dos poderes no país, entre Legislativo, Executivo e Judiciário. Cabe acrescentar que após a descentralização política imperial, junto à divisão dos poderes, houve também a implementação do federalismo, instaurado através da Constituição de 1891, garantindo aos Estados atuar com maior autonomia. A implementação do princípio federalista contribuiu para o aparecimento de uma figura notável e característica do Republicanismo do país, o governador de Estado, oligarca, que obterá grande prestígio durante a Presidência de Campos Salles, junto à “Política dos Governadores”, caracterizada como uma política que “tinha como objetivo harmonizar os interesses dos estados mais ricos, fortalecer as situações estaduais e assegurar nas urnas resultados eleitorais favoráveis”. (JANOTTI, 1981, p. 32). Os fatores que garantiram à ascensão dos republicanos ao poder não se restringem somente ao autoritarismo local, mas também à crise do “Antigo Regime”, caracterizada pelo fim do escravismo, pela introdução da imigração, pelo surgimento de novas áreas cafeeiras, enfim pelo primeiro passo dado pelo país rumo à industrialização, modernização e conseqüentemente a um novo sistema econômico. Nesse contexto é possível afirmar que o coronel é possuidor de grande prestígio e poder de coerção, mantém a fidelidade dos eleitores em troca de benefícios, a fim de garantir-se no poder, para manutenção e aumento de seus privilégios. E esse poder fica restringido na maioria das vezes ao âmbito local. Comumente, imagina-se o coronel como um típico fazendeiro, vestindo paletó, usando chapéu e botas, o mais próximo da sociedade colonial, por assemelhar-se com o senhor de engenho. Mas para Janotti (1981) o verdadeiro coronel era aquele quem conseguia obter junto ao governo, prestígio e apoio, 96 visando eleições favoráveis ao Estado, e no rol dos coronéis poderiam ser incluídas raras vezes também algumas mulheres, e com maior intensidade os padres, e em relação aos últimos, o exemplo mais clássico e bastante influente, é o do padre Cícero, na Bahia, o Coronel de batina. Quanto às eleições, desde o princípio, havia grande influência dos coronéis, pois os mesmos forneciam transporte para os eleitores, garantiam o policiamento para bem transcorrer as eleições, dentre outros, e para garantia de seus privilégios, as eleições eram permeadas de inúmeras fraudes, desde acrescentar na lista de eleitores o nome de pessoas falecidas e entregar cédulas já preenchidas com os candidatos dos coronéis aos eleitores. Mas, para isso, havia um preço a ser pago pelos coronéis, pois como se tratava de uma “política de compromissos”, a cada privilégio garantido junto ao governo do Estado, havia incutida uma obrigação, assim como também aos seus eleitores, aos demais chefes locais e aos outros proprietários rurais. O prestígio dos coronéis foi sendo minado a partir da Revolução de 1930, na qual é possível observar uma mudança estrutural na sociedade brasileira, cujo cenário rural abre espaço para o urbano, com o prenúncio de um novo sistema econômico. A industrialização e a atuação dos operários brasileiros em busca de maior participação na vida política, melhorias nas condições de trabalho, dentre outros, são fatores contribuintes para o desmantelamento do sistema coronelista. Cabe enfatizar que esse desmantelamento não acontece de forma total, pois atualmente há resquícios do coronelismo em nosso país, e isso é evidenciado quando são detectadas algumas de suas características principais, presentes desde o Brasil colônia, como por exemplo, o paternalismo. Leal (1997) também afirma que o coronelismo deve ser entendido como uma “política de compromissos”, nas quais há uma recíproca entre governo estadual, representante do poder público; e o poder privado, composto pelos chefes locais, os coronéis. O autor acima sustenta ainda que as características secundárias do fenômeno coronelista resumem-se em: mandonismo – perseguição contínua e quando necessária violenta aos adversários; o filhotismo – a proteção exagerada aos seus membros e adeptos; fidelismo – fidelidade total ao coronel, o roceiro mesmo desentendendo-se com o coronel encontrará uma forma de reconciliação; paternalismo – o coronel assume a proteção das pessoas de sua comunidade. 97 Além das características apresentadas acima, é possível afirmar que o coronelismo configura-se como um sistema mantenedor da política local e estadual, utilizando-se de fraudes eleitorais para a garantia do poder. O mecanismo de sustentação do mesmo é a concentração fundiária e a composição da classe rural do período: roceiros, rendeiros, colonos, pequenos proprietários, a maioria analfabetos e que viam o coronel como um verdadeiro pai, capaz de auxiliá-los tanto em relação a disputas territoriais, questões amorosas, financeiras, dentre outras. Apresenta-se também como um sistema de grande complexidade, nas quais os coronéis são cooptados pelo Estado em busca de prestígio político. Os roceiros contribuem de maneira significativa para a alimentação desse sistema, pois como eleitores, são controlados politicamente pelos coronéis. O cenário coronelista desenrola-se ruralmente. É nas comunidades rurais que o mesmo encontra forças para sobreviver. Sua existência atua inversamente as atividades urbanas, a indústria e ao comércio. É resultado da decadência do poder privado, ou seja, da descentralização política e administrativa, e do fortalecimento do poder público, apesar da existência das oligarquias. Em relação ao Coronelismo, é possível afirmar que ele é característico da República brasileira, e sua existência provém de nossa estrutura agrária, assim como da divisão das terras no país atualmente. É possível afirmar também que o sistema coronelista apresenta características do Brasil colonial, assim como a estruturação das divisões de terra hoje no Brasil está formatada aos moldes da sociedade coronelista, essencialmente hierarquizada e monopolizada por pequena parcela da população brasileira. 2 DOM JOSÉ MAGNANI (1851-1921): O CORONEL DE BATINA LENÇOENSE A história de Lençóes está intimamente ligada á religiosidade, pois a partir da segunda metade do século XIX até meados do século XX houve a influência de líderes religiosos nas decisões políticas e administrativas do município. Padre José Magnani, nasceu em 21 de fevereiro de 1851, em Silano, Província de Massa e Carrara, onde foi ordenado padre. Chegou ao Brasil no ano de 1886 sendo nomeado Vigário de Anhemby. Em 1887, exatamente no dia 25 de fevereiro chegou em Lençóes. O Padre foi recebido em Lençóes por um grande 98 número de católicos, que o aguardava próximo a Rua Cel. Joaquim Anselmo Martins e que o acompanhou em procissão até a Matriz de São Benedito, no Bairro da Prata. Dom José Magnani era alto e magro, e uma característica física que chamava a atenção no mesmo eram os cabelos compridos, semelhantes aos de Tiradentes. Outra característica iminente do Padre era a utilização constante de batinas pretas. Além disso, Padre Magnani era um homem muito inteligente, corajoso e um ótimo orador. O fato de Padre Magnani usar os cabelos compridos, semelhantes aos de Tiradentes talvez esteja relacionado a posição política adotada por ele, pois demonstra sua afeição ao Republicanismo, confirmada por Chitto (1980). De acordo com o autor, o Padre aderiu ao novo sistema político desde o momento de sua implantação oficial, no dia 15 de novembro de 1889, pois o novo regime já vinha sendo cogitado no país desde o período colonial, através de alguns movimentos isolados, influenciados principalmente pelos ideais republicanos da Inglaterra, da França e dos Estados Unidos. Cabe lembrar que a Proclamação da República gerou uma série de contendas políticas no Brasil, estendendo-se também a Lençóes. Os conflitos políticos envolveram representantes do novo sistema, Republicanos ou liberais e representantes do “Antigo Regime”, Monarquistas ou conservadores, além de acontecerem também dentro do próprio Partido Republicano, envolvendo seus membros. Ainda em relação a Dom Magnani, Chitto (2008) afirma que o mesmo adaptou-se com facilidade em Lençóes, pois quando chegou ao município, constatou que a maioria da população era formada por imigrantes italianos, que vieram ao Brasil para trabalhar nas lavouras cafeeiras em substituição a mão-deobra escrava, pois a partir de 1850, através da proibição da vinda dos negros da África, o número de escravos “importados” pelo Brasil diminuiu drasticamente. Dom Magnani atuou como grande ativista dos imigrantes, possibilitando a transferência de imigrantes cremoneses instalados na Fazenda Banharão, pertencente a Eliseu Antunes Cardia, para o atual Bairro da Rocinha. Junto com os imigrantes instalou uma olaria para a fabricação de tijolos e de telhas no Bairro, com a pretensão de reiniciar a construção da Igreja Matriz Nossa Senhora da Piedade, porém desentendeu-se com os italianos e os mesmos fundaram um outro núcleo próximo ao Bairro, denominado também “Rocinha”. 99 A influência exercida por Dom José Magnani em Lençóes não aconteceu somente no âmbito religioso, pois ele interferiu ativamente na vida política do município, sendo nomeado no dia 2 de janeiro de 1890 Intendente, atuando posteriormente como Presidente da Câmara. Desta maneira, é possível afirmar que Dom José Magnani, apesar de não possuir a patente de Coronel, apresenta muitas características que nos permitem o conceber como tal. Cabe relembrar nesse momento as principais características do verdadeiro coronel destacadas por Janotti (1981), apresentando-o como aquele quem conseguia obter junto ao governo prestígio e apoio, visando eleições favoráveis ao Estado. E no rol dos coronéis, os padres estão incluídos com bastante intensidade. Em relação ao Padre Magnani pode ser constatado que inicialmente o mesmo possuía um grande prestígio em Lençóes junto a população católica, às autoridades eclesiásticas, possuidoras de prestígio junto as esferas governamentais e até mesmo fiéis de outras religiões, pois segundo relatos da época, o mesmo ao chegar no município, “tratou de colocar as coisas no lugar”, pelo menos as relacionadas ao seu ofício, o que diz respeito principalmente a edificação de uma nova Matriz. Cabe lembrar que o Vigário ao chegar ao município recebeu o título de “Fabriqueiro da Paróquia” e desta maneira, passou a ser o proprietário do patrimônio da Matriz Nossa Senhora da Piedade, o que favoreceu seu prestígio junto aos lençoenses. Os principais adversários políticos de Dom Magnani estiveram representados por parentes ou adeptos do Cel. Joaquim Gabriel de Oliveira Lima, o primeiro a receber o título de “Fabriqueiro da Paróquia” no município. A atuação política de Dom Magnani favoreceu o seu desprestígio junto á comunidade lençoense, pois a vida política do município no período era bastante agitada e violenta, e a disputa ideológica central naquele momento era travada entre defensores do Antigo Regime, ou seja, o regime Monárquico e os adeptos dos ideais republicanos, pautados no federalismo e na descentralização administrativa, possibilitando aos Estados atuar com maior autonomia. A existência de um documento enviado pela Câmara de Lençóes ao Presidente da Província (governador do Estado) Barão de Jaguara, redigido pelos Intendentes, datado em 6 de junho de 1889, pertencente ao Arquivo do Estado, comprova a satisfação de alguns lençoenses com a atuação do Vigário: 100 Illmo. Exmo. Snr. ...Cumpre-nos confessar a V. Exa. que o Vigário denunciado, longe de merecer a mínima sensura por parte de quem quer que seja, é digno dos maiores encômios e da gratidão de seus parochianos, não só porque tem pugnado corajosa e incansavelmente pelo progresso e desenvolvimento desta Vila e seu Município, como também porque Lençóes jamais teve a dita de possuir um sacerdote tão distinto e recto no cumprimento de seus deveres como Reverendo Padre D. José Magnani. É grato summamente a esta Camara ter esta ocasião de externar a V. Exa. o alto conceito em que é tido o mesmo Reverendo Padre, na opinião quase unanime do poço d‟este município. Esperando que o protesto lavrado a esta representação será tomado na devida consideração, confiados aguardamos a decizão de V. Exa. (CHITTO, 1978, p. 104) Abaixo constam os nomes de três vereadores que faziam parte da Câmara de Lençóes no período: Octaviano Martins Brizola, Ignácio Alves da Silva e Joaquim Duarte Moreira, além do Presidente da Câmara, Antonio Fructuoso da Rocha; os responsáveis pelo envio do documento ao governo do Estado. As perseguições ao Vigário Magnani eram influenciadas principalmente pelo engenheiro Ismael Marinho Falcão, grande amigo do delegado no município, o Tenente Antonio da Costa Pinto. Numa dessas perseguições, foi ordenado aos policiais que conduzissem o Vigário até o Rio da Prata e cortassem-lhe o cabelo. Porém os policiais não tiveram coragem e liberaram o padre. Após o atentado, e as constantes empreitadas do delegado, Dom Magnani viajou para São Paulo, e através de alguns amigos políticos, conseguiu voltar para Lençóes acompanhado de trinta policiais, pertencentes á Força Pública do Estado, a fim de garantir sua segurança. O engenheiro Ismael Falcão sentindo-se ameaçado fugiu para Bauru e o delegado percebendo que seria preso, vestiu sua farda da Guarda Nacional no dia em que os policiais do Estado foram a sua procura. Os mesmos desistiram de prendê-lo e as perseguições ao Vigário não cessaram. Uma das realizações mais importantes de Dom José Magnani esteve relacionada a construção da primeira Estação Ferroviária em Lençóes, pois após a fundação da Companhia Sorocabana, em 1870, a Estrada de Ferro chegou as imediações de Boituva, estendendo-se a Botucatu e posteriormente a Lençóes. Porém, os políticos lençoenses convenceram a Companhia a alterar o traçado da estrada de ferro, pois inicialmente seria edificada uma estação próxima ao Sobradão, mas devido a interferência de Dom Magnani, a mesma acabou sendo 101 construída próxima ao Rio Lençóes. Dom Magnani doou gratuitamente o terreno para a construção da estação. A estação foi inaugurada oficialmente no dia 29 de agosto de 1898, e estava enfeitada na ocasião por “bandeirolas coloridas” (CHITTO, 2008, p. 62). Várias pessoas estiveram presentes na inauguração da estação, dentre elas algumas autoridades, além do povo e uma banda musical. A estação construída em Lençóes correspondia segundo Chitto (2008, p. 63) ao ”ponto principal para o abastecimento das locomotivas”. E desta maneira, era comum o estacionamento das mesmas no município por “um razoável período”. Isso aconteceu também a locomotiva que levava para Bauru o Presidente da República, Afonso Pena, e o Presidente do Estado Albuquerque Lins, para a inauguração de um trecho importante da ferrovia Noroeste do Brasil, no ano de 1907. Na ocasião, muitos lençoenses concentraram-se na plataforma da estação para cumprimentar Afonso Pena e Albuquerque Lins. Em 1890, o Padre Magnani assumiu a Intendência do Município e as disputas políticas entre ele e os seus opositores aconteceram de forma acirrada. Desta maneira, houve a necessidade de levar grande parte desses desentendimentos ao conhecimento dos governos eclesiástico e estadual. Porém, tanto o Estado quanto a Igreja decidiram não intervir, pois acreditavam que as disputas estavam mais relacionadas a caprichos pessoais de ambas as partes, do que a questões referentes a benefícios para a população. O documento abaixo apresentado por Chitto (1980), pertencente á Cúria Metropolitana de São Paulo, dirigido ao Vigário Capitular do Bispado e enviado pela Câmara Municipal de Lençóis; datado em 6 de novembro de 1897, comprova os desentendimentos entre o Vigário Magnani e as autoridades políticas do município: Os abaixo assignados, membros da Camara Municipal de Lençóes, vem perante V. Exa. Rev.ma denunciar o Padre José Magnani, vigário desta parochia de Lençóes, pelos factos que passa a expor. Deixando de parte inumeros crimes do Padre José praticado contra pessoas miseraveis mostrando de modo terminante a auzencia absoluta do sentimento de caridade christã, que é uma das mais viçosas flores compõem a aureola do verdadeiro sacerdote, deixando de parte a aggressão instante e constante que provoca e executa contra as leis organicas do Paiz, levando sua palavra profanadora da tribuna sagrada a centelha da desordem e da rebelião, desorganizando por seus conselhos contra o casamento civil, a familia ao desabrigo do direito, de sucessão a que muitos salteadores da Honra nesta terra se unam perante o altar e quatro, oito ou mais alguns dias depois abandonarem suas desgraçadas victimas e passem impunes, pois, que não estão constrangidos por determinações de lei. Pondo de parte 102 estes factos que acabamos de argüir succintamente e outros que foram minuciosamente narrados em uma denuncia que o povo desta parochia, enviou a Sex.a Rev.ma Snr Bispo desta Diocese, a Camara Municipal denuncia mais os seguintes factos a Vossa Rev.ma [...] (CHITTO, 1980, p. 127) Abaixo seguem dez acusações contra a atuação de Dom Magnani em Lençóes. A primeira relacionada á obtenção de patrimônios, pois segundo a Câmara, as terras poderiam ser compradas por mil réis “por braça”, porém Dom Magnani cobrava pelas mesmas um imposto anual. A segunda diz respeito á cobrança de mil réis feita por Dom Magnani pelo sepultamento dos cadáveres no cemitério municipal. A terceira coloca que o Padre despejou Maria David de sua casa por não poder pagar “o foro anual á fábrica”. A quarta denuncia o Vigário por leiloar prendas dentro da Igreja. A quinta está relacionada á apropriação feita pelo Padre do templo maçônico utilizado anteriormente a construção da Igreja Matriz para a realização das celebrações religiosas, pois ao chegar em Lençóes, deparando-se com a inexistência de um templo religioso, Magnani solicitou aos maçons no ano de 1887, o edifício do Centro Maçonico, que na época estava localizado na Rua XV de novembro, no quarteirão entre as ruas Floriano Peixoto e Pedro Natálio Lorenzetti. O templo foi transformado pelo Vigário num Oratório, denominado São Benedito e posteriormente em Igreja Matriz. A sexta está relacionada novamente ao estado de conservação do Cemitério Municipal, e ao entrave por parte do Vigário quanto á reforma do cemitério, empreendida pelo Cel. Joaquim Gabriel de Oliveira Lima, o Tenente Cel. Candido da Cunha Nepumoceno e outros cidadãos. A sétima denuncia o padre pela apropriação das casas de colonos italianos, obrigados a pagar impostos ao Vigário. A oitava denuncia Dom Magnani pelo enterro de uma criança junto a uma capela de sua propriedade, contrariando as decisões policiais e da Câmara. A nona o condena pela apropriação do Gabinete da Leitura, prédio na qual o mesmo não possuía parte alguma. E a última denuncia o Vigário Magnani por transformar “o altar em um balcão onde troca dinheiro de costas para o sacrário”. Abaixo das acusações constam os nomes das seguintes testemunhas: Juvenal Galeno de Souza Vianna, Major Guilherme Roiz Duarte Ribas, Augusto de Mello Camello Bastos, Ildelfonso Antonio dos Santos, Joaquim Pinheiro de Freitas, Cel. Manoel Amâncio de Oliveira Machado, Joaquim Duarte Moreira, João Amaro da 103 Silva, José Candido Silveira Correa – Presidente da Câmara, Octaviano Martins Brisola – Intendente, Antonio Januário de Vasconcellos – vereador, Eduardo Can Ribeiro – vereador, Antonio Alves Maciel – vereador e Benedicto Octavio de Almeida Cárdia – vereador. Existe um outro documento enviado ao Bispado e datado em 3 de dezembro de 1897, reproduzido por Chitto (1978, p. 127) contendo as respostas do Vigário Magnani as acusações feitas pela Câmara de Lençóes descritas acima. O Vigário apresenta no documento sua inocência mediante as denúncias e acusa as autoridades políticas lençoenses de o caluniarem, pede ainda as autoridades eclesiásticas a averiguação das acusações feitas em relação ao mesmo. Dom Magnani acusa ainda “os capangas” do falecido Cel. Joaquim Gabriel de Oliveira Lima - o Intendente Octaviano Martins Brisolla, Pedro José de Almeida e Ricardo Cosme de Souza Mendes, genro do Presidente da Câmara, José Candido da Silveira Correa, e os vereadores Antonio Januário de Vasconcellos e Benedicto Octavio de Almeida Cardia; de se oporem ao aforamento do Patrimônio da Matriz Nossa Senhora da Piedade, apresentando a Câmara de Lençóes como usurpadora. O mesmo afirma também que agiu segundo as determinações da Lei de 25 de janeiro de 1893, que autoriza o aforamento dos bens patrimoniais. Os desentendimentos políticos entre Dom Magnani e seus opositores desencadearam uma tragédia, pois no dia 31 de março de 1899, o padre ao deixar a Igreja e seguir para sua casa foi abordado por um homem chamado Lazinho. O mesmo disparou um tiro contra o Vigário, que foi atingido no pulmão direito; fugindo logo em seguida. O sacerdote não faleceu, porém permaneceu vários meses recolhido em sua casa restabelecendo-se. Após o atentado Padre Magnani continuou cumprindo suas funções como sacerdote e não abandonou suas idéias políticas, opostas aos compositores da Câmara Municipal. No ano de 1900, Dom Magnani foi demitido, devido as constantes desavenças com os políticos do município; porém continuou residindo em Lençóes. Em 1914 retornou como Vigário definitivo do Município e, neste momento, a construção da Igreja Matriz já estava bastante adiantada. No ano seguinte, 1915, a Igreja Matriz ficou pronta e todas as celebrações religiosas passaram a ser realizadas na Matriz Nossa Senhora da Piedade. 104 Dom Magnani faleceu em 1921, sendo realizada na data de seu falecimento uma missa de corpo presente na Capela de São Benedito, em homenagem ao Padre. Hoje, seus restos mortais estão enterrados no Santuário Nossa Senhora da Piedade, e a praça da mesma Igreja recebeu o nome de Dom José Magnani. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS Pudemos constatar que durante a República Velha (1889-1930), algumas características do fenômeno coronelista estiveram presentes no município de Lençóis Paulista. Dentre elas é possível destacar o mandonismo, caracterizado segundo Leal (1997) pela perseguição contínua e quando necessária violenta aos adversários; expressa principalmente através das perseguições políticas realizadas ao Padre Dom José Magnani; idealizadas pelos adeptos do coronel Joaquim Gabriel de Oliveira Lima e pelo engenheiro Ismael Falcão. Outra característica observada no município de Lençóis Paulista em relação ao sistema coronelista é a existência do paternalismo, identificado através da atuação de Dom José Magnani em prol dos imigrantes italianos; além de sua preocupação em promover benfeitorias públicas. Pudemos constatar também que o Padre Dom José Magnani exerceu uma grande influência política, econômica e religiosa no município de Lençóis Paulista durante a Primeira República; apresentando-se como um republicano convicto; defendendo suas idéias políticas até a morte. Dom Magnani atuou também como o principal responsável pela edificação da Igreja Matriz Nossa Senhora da Piedade; e sua influência religiosa e econômica está vinculada á construção da Igreja; pois ao ser nomeado o “Fabriqueiro da Paróquia”, o padre passou a ser o detentor do patrimônio da Igreja. Portanto, é possível afirmar que Dom José Magnani deve ser considerado um coronel de batina em Lençóis Paulista, pois ele apresenta algumas características primordiais para a constituição de um chefe local. CHURCH AND CORONELISMO: THE DOM FATHER JOSEPH MAGNANI BETWEEN CORONA DE LENÇÓIS PAULISTA ABSTRACT 105 This study aims to present the phenomenon colonels in Lençóis Paulista, highlighting the main features of the system studied by several authors. Also seeks to identify the stays associated with the phenomenon in our society. Proposed to investigate the existence of the phenomenon in the municipality of Paulista sheets during the Old Republic (1889-1930), showing a typical example of colonel, characterized by the actions of Father José Magnani. Thus, we confirm the insertion of Joseph Magnani in the list of colonels lençoenses, showing its merits. We can consider that it exerted great influence political, economic and religious in the city, features essential for the formation of a local chief, setting up as a colonel in the cassock Lençóis Paulista. Keywords: Coronelismo. Lençóis Paulista. Father Joseph Magnani. Old Republic. REFERÊNCIAS CARONE, E. A Primeira República (1889-1930). São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1969. CHITTO, A. Lençóis Paulista: boca do sertão. O Eco, Lençóis Paulista, SP, 1980. ______. Lençóis Paulista nos seus 120 anos.O Eco, Lençóis Paulista, SP, 1978. ______. Lençóis Paulista: ontem e hoje. O Eco, Lençóis Paulista, SP, 1972. CHITTO, T.; CHITTO M. História de Nossa Gente: Lençóis Paulista, 150 anos. Lençóis Paulista, SP: Prefeitura Municipal de Lençóis Paulista, 2008. FAUSTO, B. História do Brasil. 8. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Fundação para o Desenvolvimento da Educação, 2000. FAORO, R. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. 5. ed. Porto Alegre: Globo, 1979. JANNOTI, M. L. J. O coronelismo: uma política de compromissos. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1981. LEAL, V. N. Coronelismo, enxada e voto. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. 106 Jornada dos Cursos de História, Geografia e Arquitetura: Espaço, História e Globalização LUDICIDADE DO POVO BRASILEIRO Ronilce Araujo Coltri Consolmano1 Fausi dos Santos2 RESUMO O presente estudo tem por objetivo desvendar algumas questões que possam vir a elucidar o tema relacionado à identidade do povo brasileiro.Refere a ludicidade como um dos fatores agregadores desta identidade e aborda o Carnaval como uma festa que representa a cultura e a resistência deste povo, pois o que aparentemente entende-se como alienação na realidade pode ser um fator gerador de grande resistência.Para tanto serão enfocadas questões sociais, políticas e econômicas numa perspectiva de desvendamento das relações humanas, evidenciando alguns fatos que contribuíram para a formação da nação brasileira e o que de fato representa nascer em um país de relações sociais tão contraditórias. Palavras-chave: Brasil. Resistência. Ludicidade. Carnaval. 2 INTRODUÇÃO As históricas formas de colonização e desenvolvimento do Brasil evidenciam a pluralidade cultural e étnica que culminou no aparecimento do povo brasileiro, nesta vertente de pensamento, pretende-se estabelecer um diálogo sobre o que é ser brasileiro, como surgiu esta diversidade populacional e quais as implicações ideológicas que foram ressaltadas durante este processo. As questões sociais, políticas e econômicas que foram responsáveis pela formação da Nação Brasileira trazem em seu bojo relações contrastantes, desiguais e opressoras, capazes de exercer uma ação coercitiva e ou violenta que se expressa através das várias formas de autoritarismo, prova disso é a própria forma como o Brasil foi colonizado. 1 Aluna do 4º ano do Curso de História do Centro de Ciências Humanas da Universidade Sagrado Coração – Bauru – SP. 2 Professor da Universidade Sagrado Coração – Bauru – SP. 107 Nessa perspectiva autoritária é que uma sociedade se revela e busca definir a sua identidade. Durante toda a trajetória histórica do Brasil, encontram-se dificuldades extremas a serem transpostas, os índios e os escravos negros são testemunhas das dificuldades que serão referidas neste estudo. No entanto, em detrimento de todas estas mazelas constata-se que o povo brasileiro busca ser feliz e que uma das fontes dessa felicidade é a sua ludicidade. O Carnaval no Brasil é uma representação lúdica e seria esta festa uma das formas de se conferir ao povo brasileiro uma identidade nacional? O tema é complexo e através do método analítico sintético espera-se que no fim do estudo algumas questões sobre a ludicidade do povo brasileiro sejam esclarecidas e que estas venham colaborar para a desmistificação de alguns préconceitos que estão enraizados na sociedade brasileira, pois sendo esta uma sociedade capitalista que teve como mão-de-obra, a escrava e que até aos dias de hoje tem uma tendência a valorizar o que é de fora, esquecendo-se de reconhecer toda a riqueza cultural e social que um país como o Brasil é capaz de oferecer. 2 CONSIDERAÇÕES SOBRE A FORMAÇÃO DO POVO BRASILEIRO. Para Ribeiro (1994) é novo o povo brasileiro e se constata isto na realidade plural de sua composição, basta observar as diferenças cruciais que envolvem fatores como raça e etnia, estrutura econômica e social, relações políticas e culturais. Quando estes fatores se cruzam ficam evidentes as dificuldades de integração de determinados segmentos, como os negros e mestiços, e a cidadania plena da mulher. Dentre as características da formação histórica da sociedade brasileira a composição étnica e social do povo brasileiro é bastante diferenciada. O brasileiro pode ser branco, negro, mulato, índio, cafuzo, caboclo de origem alemã, italiana, ucraniana, espanhola, japonesa e outras. Portanto, é esta heterogeneidade que dispara as diferenças culturais e lingüísticas, nem todos se identificam da mesma forma, com os valores e símbolos do País. 108 Neste sentido, a formação do povo brasileiro fundada no mito das três raças atua como referência de classe hegemônica, porém subordinada a referências culturais européias e norte-americanas. O povo brasileiro é novo devido toda a complexidade que permeia os vários elementos culturais, sociais, étnicos e econômicos que estão imbricados na sua formação ou constituição, gerando uma indefinição com relação à sua identidade. Como povo, como organização econômica, como cultura, o Brasil é mais um país explorado e influenciado pelo domínio estrangeiro e suas bases capitalistas, daí a curiosa luta em busca da autenticidade, expressa pela consciência de um povo que ainda busca seu destino baseado na vivência de outros povos. A história nos mostra que a idéia de nação ideal que estava posta no século XIX era o modelo europeu. A teoria idealizada pelo governo brasileiro na época era a da cultura européia, o modelo do branco, este era o “sonho de consumo” dos brasileiros. Para tanto o projeto governamental da época século XIX produzia questões como: Quem virá para os grandes latifúndios substituir a mão-de-obra escrava? E este mesmo projeto governamental defendia a vinda do imigrante europeu também com o intuito de embranquecer o povo brasileiro. No século apontado, mesmo os imigrantes asiáticos como no caso dos chineses não eram bem vindos ao país. Estes e outros dilemas se somam na organização e na composição da nacionalidade brasileira. Chalhoub (1990) traz a informação de que nas últimas décadas do século XIX, os escravos negros mais precisamente da região sudeste, como brasileiros que buscavam a liberdade e respeito que lhes eram negados há vários séculos foram capazes de perceber que poderiam lutar em prol de alguns direitos sobre questões fronteiriças e em vários casos houve a possibilidade de vitória destas classes desfavorecidas. Seguindo esta vertente podemos atribuir um novo olhar sobre o comportamento indígena frente aos colonizadores europeus, evidenciando que quando os índios apresentavam-se vagarosos no trabalho, diminuíam o índice de natalidade, mentiam, fugiam, etc. estavam apenas lutando contra o seu opressor com as armas ideológicas possíveis, já que não possuíam recursos bélicos capazes de fazer frente àqueles que os oprimiam. 109 Portanto observa-se que assim como o escravo negro e o indígena dos tempos coloniais, o brasileiro de hoje oferece uma resistência à opressão que permeia as desigualdades sociais. Importante se faz observar que as desigualdades sociais, étnicas e econômicas necessitam de uma ideologia que as justifiquem. Para que haja a dominação ideológica é necessário que se faça crer ao segmento dominado que tudo o que provém dele é inferior e pequeno diante daquilo que é proposto pelo dominador. A questão da escravidão no Brasil jamais deve ser esquecida enquanto geradora de uma consciência que pode aniquilar com a autoestima de toda e qualquer sociedade. Lovejoy (2002), grande estudioso da escravidão africana afirma que nas sociedades de plantation das Américas o número de escravos chegava a constituir entre 85% a 95% da população total. Com relação à resistência podemos dizer que esta pode assumir várias formas de se contrapor, como por exemplo, expressões violentas como saques, rapinas, brigas e depredações. Outra forma de resistência é a esperança, esta pode ser caracterizada também como uma resposta ativa ao autoritarismo e outras questões da desigualdade, assim como a resignação frente à impossibilidade de reverter as expressões das questões desiguais. O ato de resistir também pode assumir as vestes da tolerância, tolera-se porque é a relação menos prejudicial. Todas estas considerações devem ser pensadas quando tenta-se formatar a identidade do povo brasileiro. 3 O LUDISMO BRASILEIRO Para DaMatta (1990), no Brasil, como em outras sociedades, há uma classificação dos eventos sociais segundo sua ocorrência. Há eventos que representam o cotidiano, o dia-a-dia; há eventos situados fora dessa esfera que são as “festas”, “os cerimoniais”, “as solenidades”, “os bailes” “conferência”, etc. Estes chamam a atenção para o seu caráter aglutinador de pessoas, grupos e categorias sociais e também por serem previstos, portanto a expressão formal e informal qualifica a natureza destes encontros. No pólo informal estariam as 110 situações marcadas como “festas” e, no pólo da formalidade, as situações marcadas como “solenidades”, para designar as reuniões onde se exige um mínimo de divisão interna e quando a hierarquia é manifesta. Dessa forma, os eventos formais são fortemente centralizados e os informais se baseiam na idéia da espontaneidade. Seguindo esta vertente os carnavais são momentos mais individualizados, que são vistos no sentido coletivo e como momentos individualizados, onde a sociedade se descentraliza, portanto, o carnaval é um dos eventos dominados pela brincadeira, diversão, ou seja, situações onde o comportamento pode ser livre de uma hierarquização repressora. As festas são momentos pontuados pela alegria e valores positivos. Ribeiro (1994) destaca que o espírito lúdico caracteriza a identidade brasileira, à esperança e à resistência soma-se esta dimensão lúdica. Por não ser formal demais, o homem brasileiro oprimido e empobrecido é capaz de rir-se da vida, de cantar, dançar, festar e fazer piada, apesar de tudo. Para o mesmo autor, o que pode parecer falta de seriedade é na verdade uma sabedoria, pois, é preciso fazer festa, visto que ninguém é de ferro. Portanto o espírito lúdico dá força para resistir e esperar que venham dias melhores, por meio dele é que se suporta a miséria sem o desespero. Assim como os escravos negros que após os exaustivos dias de árduos trabalhos, ainda assim conseguiam reunir-se, comer, beber e dançar e este comportamento denunciava a força de um povo que mesmo na opressão vivida no seu dia-a-dia, apresentava força e altivez para resistir àqueles que os oprimiam. Os seus senhores não conseguiam entender o porquê deste comportamento. Platão (filósofo grego 428-347 a.C.) já fazia alusão ao espírito lúdico, para ele a atitude lúdica pode representar o equilíbrio entre a serenidade e a brincadeira, fazendo com que a dificuldade da existência seja diluída por uma sabedoria lúdica. Esta sabedoria apresenta-se como uma virtude do ser humano e o fato de alegrarse, rir das dificuldades da vida é uma forma de resistência. Estas reflexões nos remetem a entender o festivo que reveste o espírito popular do brasileiro, em uma tentativa de ignorar as mazelas sociais vividas no diaa-dia. Fazer festa diante desta situação é afirmar que isto está profundamente errado e a diversão passa a ser um protesto profundo, porém cheio de humor. A 111 festa em seu caráter lúdico demonstra da parte dos oprimidos a ânsia de superar toda espécie de peso do dia-a-dia, trocando-o pelos momentos de alegria. Para Ribeiro (1994) o festivo popular desorganiza a ordem social, estabelecendo uma ordem onde quem ri, festeja e dança é a gente do povo. A inversão que o festivo proporciona cria um significado da mais profunda aspiração do homem pobre, pois se afirma que a vida vale a pena ser vivida com alegria, mesmo que se lute o ano inteiro. Portanto a festa é festiva, mas é séria, o festivo é alegre porque é gratuito, apesar de que há muito tempo começaram a explorar economicamente a festa do povo. E aí está mais uma investida capitalista na ânsia de conservar as opressões e controle da sociedade estatuída, transformando o povo em objeto de renda econômica. Hoje, o Carnaval já não é somente a festa do povo; os abadás, os ingressos pagos nas avenidas e nos clubes se encarregam de excluir a participação popular e dizer novamente: povo vocês continuam sob nosso jugo. O festivo brasileiro aqui representado pelo carnaval é expresso no canto, na dança, nas roupas à fantasia e em outros recursos visuais, que em uma sociedade preocupada com as lógicas do poder econômico, o ludismo do povo brasileiro pode ser confundido com alienação, mas na realidade o brasileiro acredita estar vivendo alguns momentos de despreocupação e por isso ele brinca o carnaval. Na “rua” ou em “casa”, o brasileiro está sujeito a certas regras que controlam o relacionamento constante entre ele e o seu grupo, mas no Carnaval as leis são mínimas, é como se houvesse um espaço especial, fora da casa e acima da rua, onde todos podem estar sem preocupações com os seus relacionamentos, as suas origens.Tudo isso é resumido na expressão “brincar o Carnaval”. O Carnaval não celebra nenhum grupo permanente, nenhuma classe social, também não está centrado em nenhuma fala discursiva. O ponto focal desse rito é o universo humano, com sua possibilidade de inclusividade e comunalidade. Portanto, o Carnaval não tem dono e por tudo isso, o Carnaval é do povo. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Podem-se perceber quantas nuances e matizes permeiam a identidade do povo brasileiro. 112 Quantas cores, histórias, estórias, ritmos, sabores, odores enfim, quanta diversidade; quão colorido e dinâmico é ser brasileiro. O brasileiro é um povo guerreiro que conhece como ninguém a arte de reelaborar tristezas, misérias, angústias e incertezas. O povo brasileiro não é violento e não é passivo, o povo brasileiro é sábio e tem fé. Diante das adversidades que lhes são impostas, devido a razões econômicas, sociais e políticas e as injustiças sociais, o povo brasileiro que é forte, resiste e transpõem os obstáculos com otimismo e esperança. Ser otimista e ter esperança também são formas de lutar por melhores condições de existência. O comportamento de um povo não deve ser julgado apenas pela aparência, devemos nos preocupar em revelar a essência, em desvendar o que está implícito, e que poderá nos levar a grandes descobertas. Para tanto é de extrema importância que se desenvolva o orgulho de ser brasileiro, que se entenda que nascer no Brasil é fazer parte de um grande povo e de uma grande nação. Acreditar que a alegria, o otimismo e a esperança serão potencializadores de novas relações e serão capazes de trazer para este povo colorido e de muitas faces, muita paz. BRAZILIAN PEOPLE'S PLAY ABSTRACT The present study has objective to unmask some questions that can be to elucidate the subject related to the identity of the Brazilian people. It relates lucidade as one of the factors component of this identity and approaches the Carnival as a party that represents the culture and the resistance of this people, because that apparently is understand as alienation in the reality, can be a generating factor of great resistance.For in such a way will be focus social matters, politics and economic questions in a perspective of human relations` discoveries, evidencing some facts that had contributed for the formation of the Brazilian nation and that in fact, it represents to be born in a country of so contradictory social relations. 113 REFERÊNCIAS CHALHOUB, S. Visões da Liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na corte. São Paulo: Companhia das letras, 1990. DAMATTA, R. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Guanabara, 1990. ______. O que faz o Brasil, Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 1987. DIOP, C. A. The Cultural Unity of Black África. London: Karnak House, 1989. 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Em um país como o Brasil somos levados a refletir sobre os motivos que tem afastado ou limitado o tema folclore no ensino formal, pois pouco se menciona sobre esta particularidade. A preservação da memória cultural através da manifestação cultural será capaz de reavivar os tempos passados e reafirmar os tempos presentes que transmitirá os conhecimentos e manterá viva a história de um povo. Por este motivo e para confirmar a problemática suscitada neste estudo iremos focar o tema mitologia brasileira, para tanto utilizaremos o método de pesquisa bibliográfica que comporá a nossa base teórica, também realizaremos uma pesquisa de campo, aplicada através de questionário e dirigida aos alunos da rede pública e privada do ensino fundamental. Palavras Chave: Folclore brasileiro. Patrimônio cultural. Educação. Mitologia. 1 INTRODUÇÃO Podemos definir o folclore brasileiro como um conjunto de mitos e lendas que são transmitidos oralmente de geração para geração através dos tempos. Neste conjunto de produções espirituais e anônimas do povo estão relacionados também os contos, as tradições, as lendas, os mitos, as superstições, provérbios, entre outros. (FERREIRA, 2000, p. 327). 1 Graduação do Curso de História da Universidade Sagrado Coração – Bauru – SP. Graduação do Curso de História da Universidade Sagrado Coração – Bauru – SP. 3 a Orientadora Prof MS Do Curso de História do Centro de Humanas da Universidade Sagrado Coração – Bauru – SP. 2 115 Além disso, temos que considerar que folclore é o estudo de conhecimento das tradições de um povo, cultura popular que fazem parte do patrimônio cultural de um povo de uma época ou região. Normalmente estas manifestações culturais são mais comuns nas regiões do interior do Brasil e tem como maior objetivo transmitir mensagens e contar a história de um povo. Tantos os mitos, quanto às lendas são narrativas que possuem um forte componente simbólico e por isso capaz de explicar fatos e até mesmo os sentimentos humanos. Para Montellato, Cabrini e Catelli (2007), em um país como o Brasil onde a riqueza cultural nas diversas regiões traduz ao povo brasileiro um encantamento sempre que este entra em contato com a mesma, somos levados a refletir sobre os motivos que têm afastado ou limitado o tema folclore do ensino formal. Nas escolas, em sua maioria, pouco se menciona sobre esta particularidade que faz parte da identidade brasileira, esta observação está sendo contextualizada nas zonas urbanas, mas, a tendência da generalização deste fenômeno é possível de ocorrer. A preservação da memória cultural através das manifestações folclóricas será capaz de reavivar os tempos passados e reafirmar os tempos presentes. A interação entre o passado e o presente transmite conhecimento que é capaz de manter viva a identidade de um povo. O rompimento da herança atribuída ao passado de uma sociedade é capaz de desconstruir a sua história, tornando-a suscetível a invasão de culturas estrangeiras, relegando a cultura original de um povo a segundo plano, fato este presente no cotidiano brasileiro que tende, inconsciente talvez, a priorizar lendas e mitos de outros povos, esquecendo de focar a grande riqueza mitológica brasileira. (MONTELLATO; CABRINI; CATELLI, 2007, p. 16). Sendo assim, está explícito que as escolas priorizam os conteúdos, contudo, deixam a desejar uma questão que é exigida pelo próprio PCN, no que diz respeito a diversificação quanto o local, a sociedade e cultura. Subentende-se que a memória cultural de cada região deve ser aproveitada para a transmissão do saber. Para Saboya, Werneck e Marques (2002) os PCNs têm como sugestão que as questões culturais sejam elencadas no projeto político pedagógico das escolas públicas, de acordo com as manifestações da cultura de cada região, mas o enfoque maior dos PCNs é no sentido de que as futuras gerações sejam preparadas para o mundo do trabalho e as competências técnicas necessárias para a produção. 116 Art. 26 – Os currículos do ensino fundamental e médio devem ter uma base nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigidas pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela. (SABOYA; WERNECK ; MARQUES, 2002, p. 18). As relações entre a Educação e o Sistema de Produção Capitalista 4 estão imbricados e a possibilidade de se produzir uma cultura única com o objetivo de fazer valer a cultura dos mais fortes – economicamente – é impulsionada por uma indústria cultural imposta que traz em seu bojo uma massificação da cultura que entendemos como perda da identidade cultural, a formação de falsos ídolos e mitos, colocando a cultura não produzida como ridícula, ultrapassada e portanto abandonada. Para Nussbaumer (2000, p. 59) no texto clássico: Indústria Cultural “o consumidor não é rei, como a indústria cultural gostaria de fazer crer, ele não é o sujeito dessa indústria, mas o seu objeto”. Afirma também que “na indústria cultural a dominação técnica progressiva transforma-se em engodo das massas, isto é, em meio de tolher sua consciência. Ela impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e decidir conscientemente”. Portanto a não valorização da cultura brasileira na educação formal acaba contribuindo para a desumanização dos processos educativos comprometendo as relações sociais e a formação dos cidadãos brasileiros, que acabam perdendo parte de sua identidade. 1.1 OBJETIVO GERAL Revisitar a não valorização da preservação das manifestações mitológicas brasileiras no âmbito do ensino formal. 1.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS Revisitar a relação do tema “mito” com as atividades pedagógica executadas nas salas de aula. 4 Para maiores informações sobre o sistema capitalista, exploração, mais valia, ver: ROSDOLSKY. R. Gênese e estrutura de O Capital de Karl Marx. Rio de Janeiro: FAPERJ, 2001. 117 Refletir sobre a potencialização da auto-estima do brasileiro, através da força das nossas raízes mitológicas. Verificar através da pesquisa de campo o conhecimento dos alunos sobre os mitos brasileiros. 1.3 METODOLOGIA O interesse pelo estudo sobre o mito brasileiro como Patrimônio cultural, surgiu nas aulas de Política de Preservação do Patrimônio Cultural. Primeiramente fizemos um levantamento bibliográfico seguido de resenhas para melhor organizar e atender o objetivo deste trabalho. Buscamos na internet artigos e figuras que correspondessem aos objetivos propostos. Para observar o grau de informações sobre a mitologia brasileira, foi elaborada uma pesquisa de campo, no espaço físico da USC, para um público aleatório. Posteriormente foi feita a tabulação obtendo assim as considerações acerca do objeto de estudo. Para destacar a importância da preservação do mito brasileiro como um Patrimônio Cultural, representou-se os resultados em forma de gráficos. 2 MITOS FOLCLÓRICOS COMO PATRIMÔNIOS CULTURAIS A SEREM PRESERVADOS Primeiramente é necessário abordar o conceito de Patrimônio Cultural. Para o grupo de Trabalho Patrimônio Histórico e Arquitetônico do Estado de São Paulo: Patrimônio cultural é o conjunto de bens, de natureza material e imaterial, que guarda em si referências à identidade, a ação e a memória dos diferentes grupos sociais. É um elemento importante para o desenvolvimento sustentado, a promoção do bem-estar social, a participação e a cidadania. (CONSELHO REGIONAL DE ENGENHARIA, ARQUITETURA E AGRONOMIA DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2008, p. 13). Daí levanta-se a questão, por que preservar a mitologia brasileira e constatála como patrimônio cultural? 118 Para o mesmo grupo: Cada indivíduo é parte de um todo, da sociedade e do ambiente onde vive e constrói com os demais, a história dessa sociedade, legando as gerações futuras, por meio dos produtos criados e das intervenções no ambiente, registros capazes de propiciar a compreensão da história humana pelas futuras gerações. (CONSELHO REGIONAL DE ENGENHARIA, ARQUITETURA E AGRONOMIA DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2008, p. 15). Sabe-se que os mitos folclóricos do Brasil surgiram no seio das comunidades que aqui se formaram, mesmo antes da chegada dos europeus, caracterizando assim, uma parte do perfil do homem brasileiro, no entanto, é preciso considerar que com a chegada dos colonizadores, houve primeiramente o choque cultural e consequentemente a incorporação de culturas diferentes, no entanto, a memória e costumes dos primeiros habitantes das terras brasileiras, atravessaram séculos. A partir destas idéias se faz necessário a reflexão sobre a possibilidade de através da força das raízes mitológicas e folclóricas brasileiras verificarmos a possibilidade da potencialização da auto-estima do povo. Entendemos que o ponto de partida deste resgate cultural podem ser as crianças que estão inseridas na educação formal, haja vista que, sendo estimuladas a valorizar a sua cultura original podem ser grandes agentes multiplicadores desta idéia. Para tanto os mitos folclóricos brasileiros serão revisitados com o intuito de despertar o encantamento e o interesse pelo que é genuinamente brasileiro. 2.1 EXEMPLOS DE LENDAS, MITOS E CONTOS FOLCLÓRICOS DO BRASIL Boitatá - Representada por uma cobra de fogo que protege as matas e os animais e tem a capacidade de perseguir e matar aqueles que desrespeitavam a natureza. Acredita-se que este mito é de origem indígena e que seja um dos primeiros do folclore brasileiro. Foram encontrados relatos do boitatá em cartas do padre jesuíta José de Anchieta, em 1560. Na região nordeste, o boitatá é conhecido como “fogo que corre”. Boto – Acredita-se que a lenda do boto tenha surgido na região amazônica. Ele é representado por um homem jovem, bonito e charmoso que encanta mulheres em bailes e festas. Após a conquista, leva as jovens para a beira do rio e as engravida. 119 Antes de a madrugada chagar, ele mergulha nas águas do rio para transformar-se em um boto. Caipora – é uma entidade mitológica tupi-guarani. É representada como um pequeno índio de pele escura, ágil, nu, que fuma um cachimbo e gosta de cachaça. Chupa cabra – é um animal desconhecido para a zoologia, este animal mata sistematicamente animais rurais em regiões da América, como Porto Rico, Flórida (EUA), Nicarágua, Chile, México e Brasil. Este nome deve-se a descoberta de várias cabras mortas em Porto Rico com marcas de dentadas no pescoço e seu sangue alegadamente drenado. Cuca – Personagem apresentado nas histórias de Monteiro Lobato – Sítio do PicaPau Amarelo – é um dos principais seres mitológicos do Brasil, diz a lenda que era uma velha feia na forma de um jacaré que roubava as criancinhas desobedientes. Curupira – É um protetor das matas e dos animais silvestres, assim como o Boitatá, ele é representado por um anão de cabelos compridos e com os pés virados para trás. Ele persegue e mata todos os que desrespeitam a natureza. Quando alguém desaparece nas matas, muitos habitantes do interior acreditam que é obra do Curupira. Lobisomem – Este mito aparece em várias regiões do mundo. Diz a lenda que um homem foi atacado por um lobo numa noite de lua cheia e não morreu, porém, desenvolveu a capacidade de se transformar em lobo nas noites de lua cheia. Nestas noites, o lobisomem ataca todos aqueles que encontra pela frente. Somente um tiro de bala de prata em seu coração seria capaz de matá-lo. Iara – Encontramos sua história na mitologia universal com personagens parecidos, é uma mãe-d‟água, ou seja, uma sereia que possui a metade do corpo de uma mulher linda e atraente e a outra metade de peixe com seu canto e sua beleza consegue encantar os homens e levá-los para o fundo das águas. Mula-sem-cabeça – é uma mulher virgem ou não que se tivesse um relacionamento amoroso com um padre, se transformaria em uma mula-sem-cabeça. Outra versão do mito é que, se um padre católico engravidasse uma mulher e a criança fosse do sexo feminino viraria mula-sem-cabeça e se fosse menino seria um lobisomem. Corpo-seco - é uma espécie de assombração que fica assustando as pessoas nas estradas. Em vida, segundo a lenda, era um homem que foi muito malvado e só pensava em fazer coisas ruins, chegando a prejudicar e maltratar a própria mãe. Após sua morte, foi rejeitado pela terra e teve que viver como uma alma penada. 120 Pisadeira – é uma velha de chinelos que aparece nas madrugadas para pisar na barriga das pessoas, provocando falta de ar. Dizem que costuma aparecer quando as pessoas vão dormir de estômago cheio. Mapinguari – é uma criatura coberta com longo pêlo vermelho vivendo na Floresta Amazônia. Segundo povos nativos, quando ele percebe a presença humana, fica de pé e alcança facilmente dois metros de altura, seus pés seriam virados ao contrário, suas mãos possuiriam longas garras e a criatura evitaria a água, tendo a pele semelhante a de um jacaré. Mãe-de-ouro – é representada por uma bola de fogo que indica os locais onde se encontra jazidas de ouro. Também aparece como uma mulher luminosa que voa pelos ares. Em alguns locais do Brasil, toma a forma de uma mulher bonita que habita cavernas e após atrair os homens casados, os faz largar suas famílias. Saci Pererê – é representado por um menino negro, também presente nas obras de Monteiro Lobato, tem apenas uma perna e está sempre com seu cachimbo, possui um gorro vermelho que lhe dá poderes mágicos. Vive aprontando travessuras, adora espantar cavalos, queimar comida e acordar pessoas com gargalhadas. Reza a lenda que o Saci tem o poder de andar dentro de redemoinhos de ventos e folhas secas. 3 RESULTADO DA PESQUISA COM ALUNOS Esta pesquisa foi realizada com os alunos da rede pública e particular do Ensino Fundamental com o objetivo de balizar os conhecimentos sobre a mitologia brasileira e o interesse de se aprender mais sobre nossas raízes. Quanto à idade dos estudantes temos: 14 12 10 8 6 4 2 11 12 13 14 Brancos 0 Figura 1 – Idade dos estudantes Fonte: Elaborado pelas autoras. Observamos que a faixa etária estudada está num período de préadolescência e início de adolescência que tem o mundo para descobrir e seus 121 interesses estão voltados para novos conhecimentos e principalmente aquilo que tem haver com o presente imediato e com informações rápidas e de fácil entendimento. Por isso, a questão do folclore tem que ser ensinada não como algo ultrapassado e sem importância, mas com certa utilidade ou ligação com o presente. Sempre estudou em escolas: 20 Públicas 15 Particulares 10 Particulares e Públicas 5 0 Figura 2 – Escolas que os estudantes estudaram. Fonte: Elaborado pelas autoras. A maioria sempre estudou em escolas públicas que trabalha o folclore mais na Semana do Folclore, em agosto, com atividades diversas, mas depois disto pouco ou nada refere-se ao tema. O que é mitologia? 30 Respostas certas 25 20 15 Respostas erradas 10 Não sabiam 5 Branco 0 % Figura 3 – O que é mitologia? Fonte: Elaborado pelas autoras. A mitologia é um tema tratado por várias disciplinas como na História, Língua Portuguesa e Educação Artística, sendo reforçado o conceito de mitologia durante o ano letivo. Você estudou mitologia brasileira no Ensino Fundamental e Médio? 122 20 15 Sim 10 Não Não me lembro 5 0 Figura 4 – Você estudou mitologia brasileira no Ensino Fundamental e Médio? Fonte: Elaborado pelas autoras. No entanto verificamos que apesar de haver o estudo de mitologia brasileira não existe uma aprendizagem muito consistente a ponto de fixar os conceitos sobre o tema. O ensino e a aprendizagem precisam ser melhor trabalhados com metodologias que possam ser dinâmicas o suficiente para haver a aquisição de novos conhecimentos sobre o tema. Como você ficou conhecendo os personagens da mitologia brasileira? 25 Através da Literatura Brasileira 20 Através de informações transmitidas por pais e avós Através de Programas infantis de TV. 15 10 Através da Internet. 5 Por outros meios. 0 Figura 5 – Como você ficou conhecendo os personagens da mitologia brasileira? Fonte: Elaborado pelas autoras. Podemos verificar que a transmissão de conhecimentos sobre a mitologia brasileira ensina por meio da literatura e estimulada por familiares demonstra ser o melhor caminho para o ensino de muitos conhecimentos que somente a escola não consegue dar conta sozinha, reforçado por outros meios como à consulta a Internet. Personagens da mitologia brasileira citados. 123 Saci 40 Pisadeira 35 Cuca Iara 30 Tor 25 Odim 20 Chupa Cabra 15 Lobisomem Boto Rosa 10 Curupira 5 Boitatá 0 Vênus Apolo Figura 6 – Personagens da mitologia brasileira citados. Fonte: Elaborado pelas autoras. Este gráfico demonstra que alguns personagens da mitologia brasileira são mais divulgados e assim mais conhecidos que outros. Apesar da citação de figuras que não fazem parte da cultura brasileira, mas propagados pela mídia, principalmente a televisão pelos desenhos animados. Isto mostra que à programação da televisão brasileira, especialmente nos canais abertos poderiam incluir programas que mostrassem estes personagens com maior freqüência, apesar da TV Cultura auxiliar neste sentido. Você conhece algum mito brasileiro referente à região que você mora? 30 25 20 15 10 Não Sim Branco 5 0 Figura 7– Você conhece algum mito brasileiro referente à região que você mora? Fonte: Elaborado pelas autoras. Justamente por não se trabalhar o tema da mitologia brasileira enfocando as culturas ou crenças locais com maior intensidade e constância maior durante o ano pelas escolas e outros meios de comunicação de massa é que obtivemos este resultado negativo. Indicando que é necessário aplicar esforços dos professores e autoridades da área educacional e cultural nesta direção. 124 Acha interessante a inclusão da mitologia brasileira nos currículos do Ensino Fundamental e Médio? 40 35 30 25 Sim 20 Não 15 Branco 10 5 0 Figura 8 – Acha interessante a inclusão da mitologia brasileira nos currículos do Ensino Fundamental e Médio? Fonte: Elaborado pelas autoras. O resultado demonstra que há interesse por parte dos estudantes em aprender sobre o tema, o que é preciso é aplicar metodologias adequadas para tal. Em que dia se comemora o Folclore brasileiro? 30 01 de maio 22 de agosto 25 11 de setembro 20 25 de agosto 19 de novembro 15 10 5 25 de dezembro 03 de março 12 de outubro Nulo 0 Branco Figura 9 – Em que dia se comemora o Folclore brasileiro? Fonte: Elaborado pelas autoras. O acerto do dia do folclore se atribui pela comemoração nas semanas do folclore nas escolas públicas e particulares que auxiliam na manutenção dos poucos conhecimentos que os alunos apresentam sobre o folclore nacional. É preciso a ampliação de espaços e momentos que tratem do assunto como fazendo parte do patrimônio cultural e elemento da formação da identidade do povo brasileiro e não somente mais um tema a ser estudado. 125 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS O Folclore brasileiro é um conjunto de mitos que são transmitidos oralmente de geração para geração. Estas lendas são mais freqüentes no interior do Brasil onde os costumes são mantidos como tradição do povo brasileiro. Observamos que a falta de preocupação e propagação contínua dos contos e lendas brasileiras no meio urbano, é uma conseqüência deste meio social que exigir maior comprometimento pela sobrevivência. Observamos que a mitologia estrangeira tem uma forte influência nos saberes do povo brasileiro, pois, é colocada como encantadora, fabulosa e ao mesmo tempo romântica onde deuses e seres humanos mantém um relacionamento afetivo. Contudo a falta de maiores informações sobre a mitologia brasileiro, no cotidiano dos cidadãos está equiparada à falta de um complemento escolar, visto que, a intenção das grades curriculares, está envolta para à mitologia estrangeira dando pouca ênfase para a mitologia brasileira. Em nossa pesquisa realizada para um público do ensino Fundamental II constatamos que à maioria dos alunos conhecem os mitos brasileiros não porque foram ensinados nas escolas como exigência do currículo escolar e sim pela Literatura Brasileira, onde, as obras de Monteiro Lobato tiveram grande influência na formação dos saberes das crianças e seus familiares. Outro aspecto digno de relevância foi à transmissão oral, pois, cresceram ouvindo dos seus pais e avós estas histórias, constata-se aqui a importância do Patrimônio Cultural Imaterial e com isso, entende-se que a memória é um bem que deve ser preservado, trabalhado e respeitado como fonte de conhecimento. Sendo assim, de acordo com a pesquisa de campo, a maioria dos alunos estão interessados em resgatar estes mitos para conhecerem melhor as raízes brasileiras. Portanto, cabe as escolas e ao Patrimônio cultural da humanidade resgatar, seja pela memória, seja pela literatura, ou por outros meios, a história das raízes brasileiras buscando evidenciar a importância do conhecimento e da valorização da mitologia brasileira como um Patrimônio Cultural. 126 BRAZILIAN MYTHOLOGY: PURCHASE OF CULTURAL HERITAGE ABSTRACT We can define the Brazilian folklore as a set of myths and legends that are transmitted orally from generation to generation through time. Usually these legends are common cultural events in regions of Brazil's interior tell the message of a people. In a country like Brazil we are led to reflect on the reasons that it has removed or limited the folklore theme in formal education, because little is mentioned about this feature. The preservation of cultural memory through cultural event will be able to revive the times past and reaffirm the present time that transmit the knowledge and keep alive the history of a people. For this reason and to confirm the issues raised in this study will focus on the theme Brazilian mythology, to use both the method of literature search that composed our theoretical basis, we will also field research, applied through a questionnaire sent to students and the network public and private elementary school. Keywords: Brazilian Folklore. Cultural heritage. Education. Mythology. REFERÊNCIAS ARAUJO, A. M. Brasil: histórias, costumes e lendas. São Paulo: Três, 1982. v. 2. 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Rio de Janeiro: Jasp, 2002. APENDICE A - Questionário aplicado sobre folclore Brasileiro a alunos do ensino Fundamental. PESQUISA DE CAMPO: Idade: Escolaridade: Fundamental II 1) Sempre estudou em escolas: ( ) Públicas ( ) Particulares ( ) Públicas e particulares alternadamente. 2) O que é mitologia brasileira? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 3) Você estudou mitologia brasileira no Ensino Fundamental e Médio? ( ) SIM ( ) NÃO ( ) NÃO ME LEMBRO 4) Como você ficou conhecendo os personagens da mitologia brasileira? ( ) Através da Literatura Brasileira ( ) Através de informações transmitidas por meus pais e avós. ( ) Através de Programas infantis de Televisão. ( ) Através da internet. ( ) Por outros meios. Se a resposta foi por outros meios especifique qual: ____________________ 5)Marque com um X personagens da mitologia brasileira: ( )Saci Pererê ( )Pisadeira ( )Cuca ( )Iara ( )Tor ( ) Odim ( ) Tiamate ( ) Chupa Cabra ( )Lobisomem ( )Boto Rosa ( ) Curupira ( )Boitatá ( ) Vênus 128 ( )Apolo 6)Você conhece algum mito brasileiro referente a região que você mora? Se a resposta for sim, qual?______________________________ 7) Você acha interessante a inclusão da mitologia brasileira nos Ensino Fundamental e Médio? ( ) SIM ( ) NÃO currículos do 8) Em que dia comemoramos o folclore brasileiro? ( ) 01 de maio ( )22 de agosto( )11 de setembro( )25 de agosto( )19 novembro ( )25 de dezembro ( )03 março( )12 de outubro 129 Jornada dos Cursos de História, Geografia e Arquitetura: Espaço, História e Globalização MUSEU COMO RECURSO DIDÁTICO PARA O ENSINO DE HISTÓRIA Daniela Cristina Pavani1 Marcia Regina Nava Sobreira2 RESUMO O presente artigo tem como objetivo expor a utilização dos museus pelos universitários do curso de história, e a valorização de suas fontes de pesquisa como recurso didático para os futuros professores, demonstrando-o como apoio na construção da história bem como do uso desta instituição em outras áreas de graduação, apresentando o Núcleo de Documentação e Pesquisa Histórica da Universidade Sagrado Coração Gabriel Ruiz Pelegrina (NUPHIS) como instrumento para a preservação da História e fonte de pesquisa disponível a todos. A metodologia baseou-se na pesquisa bibliográfica e de campo com aplicação de formulários respondidos por vinte universitários do curso de História da Universidade Sagrado Coração. Os resultados obtidos mostram como a maioria dos futuros professores de História, apesar da vontade de aprofundar seus conhecimentos sobre as instituições museológicas e o interesse em utilizá-la como complemento do ensino nesta área, possui falta de conhecimentos específicos neste campo ainda pouco divulgado. Palavras-chave: Museus. Recursos didáticos. Ensino-história. NUPHIS. Este artigo irá tratar a forma como os universitários do curso de História utilizarão o museu de forma didática ao lecionarem e como, no decorrer de sua formação básica, foram incentivados a apreciar e visitar esta instituição. A escolha deste tema está vinculada com a deficiência das escolas em preparar o aluno para apreciar e desenvolver sua curiosidade para com a História, problema este trazido às escolas pela falta de preparo dos alunos universitários recém saídos da universidade. 1 2 Graduando em História pela Universidade Sagrado Coração de Bauru – SP. Profª. Ms. do Curso de História do Centro de Humanas da Univ ersidade Sagrado Coração de Bauru 130 O objetivo deste trabalho é mostrar como os museus podem auxiliar os futuros professores na formação educacional de seus alunos, para isso, identificar as dificuldades encontradas pelos universitários neste processo e o seu conhecimento sobre estas instituições, bem como a definição que dariam para as mesmas. A metodologia empregada para esta análise constitui em formulários, aplicados no período de setembro e outubro de 2008 em vinte alunos do curso de História da Universidade Sagrado Coração, sendo cinco graduandos de cada ano, com o intuito de descobrir como o universitário deste curso se comporta para com as instituições museológicas e outras instituições de pesquisa, como os arquivos, tendo um exemplo, na referida universidade, o Núcleo de Documentação e Pesquisa Histórica da Universidade Sagrado Coração “Gabriel Ruiz Pelegrina”. Na investigação feita com os universitários constatou-se que apesar das noções sobre a definição de museu estarem corretas, não há um consenso ao expor as idéias, cada um descreveu de uma forma o que considera como museu, a maioria relatou que é um lugar onde são guardadas e preservadas peças antigas de enorme valor, que nos mostram um pouco do passado. Esta definição não está errada, contudo é preciso acrescentar que esta instituição possui mais funções, principalmente com relação à educação das pessoas que a visitam. Nos museus, os objetos acabam se transformando numa espécie de resumo da sociedade, aparecendo como grandes documentos. São lugares onde a memória defende-se da dissipação da lembrança. Esta instituição é um legado do presente às futuras gerações, destinada a tornar-se, no futuro, um sinal do passado. No Brasil, não existe o hábito formado de consultar coleções e são poucos os trabalhos que utilizaram o museu como fonte. A maioria dos pesquisadores de história pensa sempre no documento escrito, arquivístico e bibliográfico para fazer parte dos seus documentos, assim os museus são incluídos como instituições que não possuem documentos para pesquisa. Atualmente, tem sido um espaço ocupado pelos historiadores, o que obriga os profissionais de museus a se preocuparem em aprofundar determinadas discussões de como estes podem ser mais atraentes aos olhos da comunidade. Todo objeto ao nosso redor possui uma história que acompanha a nossa trajetória de vida e da sociedade em que vivemos, alguns objetos são tão importantes que são recolhidos e guardados nos museus com o intuito de representar a sociedade a qual pertencemos, contudo as pessoas não prestam 131 atenção nestas coisas simples do nosso dia-a-dia, então ao visitarem um museu, o consideram como armazenador de coisas velhas, porém se fizerem um esforço para relacionar tais objetos de outra época com a nossa, as coisas começarão a ganhar sentido. Perdemos importantes informações do nosso passado porque alguns objetos não foram guardados. “Uma vez guardados nos museus, estes objetos passam a ser considerados como parte de nosso patrimônio cultural”. São testemunhas materiais da sociedade que os produziu e utilizou. Deste modo, estes objetos serão estudados e darão significado a vários aspectos de nossa sociedade. (BARBUY, 1989, p. 17) O museu guarda objetos tridimensionais, de forma que se possa passear em torno da História. Originados de atividades ou da própria natureza humana, objetos dos mais variados tipos são colecionados em função de seu conteúdo ou de sua função. (SOBREIRA; STATHOPULOS, 2001, p. 2) Verificou-se igualmente, que vários universitários além de visitarem os museus de suas cidades, procuraram alguns outros com o mesmo propósito, mostrando o interesse destes em conhecer outras culturas preservadas pelo museu. E todos expressaram a vontade de conhecer outros, denotando que existe certa conscientização, que reforçada pelos professores, poderá obter um resultado positivo com relação ao uso do museu como recurso didático quando forem exercer sua profissão de educadores. No começo do século XX a sociedade estava inquieta perante pós-revolução industrial, contudo os museus não acompanharam este ritmo, consequentemente, não atendendo às necessidades do público. No contexto pós-guerra, os Estados Unidos inovam com o surgimento da expressão “Museu Dinâmico”, esta instituição começa a oferecer várias atividades diferentes com o intuito de atrair a comunidade. (SANTOS, 1993, p. 10) Para Tamanini (1989, p. 196) o museu vem sendo visto apenas como protetor dos variados objetos, de distintos povos, dos diversos períodos da História. As experiências com a Educação Patrimonial vêm apresentá-lo com outro objetivo: o museu como parte integrante da vida comunitária, tanto para as crianças como para os adultos, como um lugar que educa através do olhar, pelas imagens, testemunhas de como o homem evoluiu em sua capacidade criadora. A educação escolar deve empregar o museu como recurso didático para ensinar explorando todos os objetos museológicos, ou seja, toda a produção 132 histórico-cultural como artefatos, poesia, desenho, música, pintura, escultura, teatro, cinema, vídeo, fotografia, artesanato, objetos do cotidiano, arquitetura, etc. e suas expressões nos diferentes segmentos sociais. De acordo com o Conselho Internacional de Museus (1986), museu defini-se como uma instituição a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento, geralmente é aberta ao público, desenvolvendo um papel de recurso educativo a ser usado por todos os setores da população ou grupos especializados, com o objetivo de preservação, pesquisa e comunicação por meio das exposições permanentes e temporárias. Sendo assim, o museu não pode ser um depósito de coisas velhas, em desuso, somente para guardar lembranças de um passado que não existem mais. A instituição museu abriga um patrimônio cultural da humanidade, com objetivo não só de preservação do acervo que guarda, mas para utilizar este acervo como meio de transformação da realidade social através do testemunho que cada documento poderá oferecer a nível individual ou no seu conjunto. Ressaltando-se que, cada documento como suporte de informação, pode ser empregado para ensinar algo a alguém de maneira que este possa reconhecer no passado os mais variados elementos de uma realidade histórica; desenvolvendo a capacidade de observação, comparação, formulação de problemas e hipóteses com um envolvimento multidisciplinar facilitando a compreensão do espaço em que vive relacionando com o todo. Conforme Tamanini (1989, p. 180) “as informações trazidas nos livros didáticos não são completas, ignorando as contribuições dos vários campos de pesquisa da História, como a arqueologia”. Apesar da maioria dos universitários terem empenho em aproximar os museus da vida escolar, precisam encontrar meios mais atrativos, além das visitas normais, para chamar atenção dos estudantes e incentivá-los a continuar as visitas mesmo depois do término do período letivo e da graduação, estimulando-os a procurarem outras instituições que possibilitem o acúmulo de conhecimento. Isto precisa ser mudado rapidamente, já que menos da metade dos entrevistados tiveram este estímulo quando cursavam o Ensino Fundamental e Médio. O museu seria o lugar concebido como um caminho aberto, em oposição ao espaço “fechado” da escola. Nele o visitante é geralmente voluntário e não fica preso, sendo “cativado pela exposição durante seu percurso”, além de ficar rodeado por uma “multidão barulhenta e movimentada”. Nesse sentido, é importante haver 133 uma preparação dos educadores, dos dispositivos de recepção e de organização do tempo no museu para evitar o possível cansaço comum nessas experiências. (MARANDINO, 2005, p. 166) Com relação a empregar o museu como prática de ensino, somente um universitário considerou não ser possível, os outros dezenove mostraram-se dispostos afirmativamente, organizando visitas com o propósito, primeiramente de incentivar sua curiosidade, seguido de explicações, para depois prosseguirem com a realização de uma pesquisa. “O museu pode ensinar um pouco de tudo: de História, de Física, de Biologia, Matemática, Geografia, etc.” Basta que os educadores, principalmente os historiadores, pensem no museu além da fonte de pesquisa, acrescentando-o como método de ensino, sendo por isso necessária à instrução prévia nesta área. (NASSARALA, 2003, p. 4) Os museus precisam caracterizar o processo de transposição didática/ museográfica, no interior dessa instituição na sua dimensão de educação e comunicação, necessitam afirmar os espaços destes enquanto “locais onde se estabelecem relações pedagógicas próprias e que, em determinado momento, poderão ser utilizados pela escola ou qualquer outra instituição ou grupo social”. O museu, segundo Barbuy (1989), é o melhor veículo de propagação do conhecimento científico auxiliando a informar sobre o conhecimento, pois seus trabalhos sociais, educativos e culturais jamais poderão excluir a pesquisa que é o seu pilar, caso contrário, romperá a própria essência. Outras instituições podem auxiliar as pessoas na busca pelo conhecimento, como é o caso dos arquivos, específicos para serem utilizados em pesquisas sobre os mais variados assuntos. Com esta pesquisa através dos formulários pretendeu-se verificar como o futuro profissional de ensino do curso de História o tem utilizado. O arquivo do Núcleo de Documentação e Pesquisa Histórica da Universidade Sagrado Coração Gabriel Ruiz Pelegrina (NUPHIS) é um local para pesquisa dos universitários, porém poucos alunos se propõem fazer pesquisas neste setor, mesmo este contendo inúmeros documentos disponíveis à pesquisa para todos os interessados. O NUPHIS é um órgão de apoio da Universidade na área da pesquisa, fundado há 24 anos, no dia 17 de outubro de 1983, e tem por objetivos principais, a preservação, organização, conservação e divulgação das fontes de pesquisas 134 realizadas sobre a cidade de Bauru e Região. Atende um público estudantil do Ensino Fundamental, Médio e Superior da rede pública e privada, pesquisadores particulares e ligados a instituições e cidadãos em geral. Assim, o Núcleo tem por objetivo subsidiar, com documentos primários e secundários, estudos e ações educativas de professores nas diversas áreas do conhecimento. Possui vários arquivos e coleções de documentos, que servem como fontes de pesquisa, adquiridos através de doações e convênios com instituições públicas, dos quais se pode citar: o Poder Legislativo, contendo atas das reuniões da Câmara e processos de diversas naturezas; o Poder Judiciário, com inventários, arrolamentos e processos crimes de 1911 a 1950; o Cartório de Registro Civil com processos de casamentos de 1927 a 1994, e arquivos privados como: a Diocese de Bauru com documentos datados do século XIX e XX, e arquivos pessoais: do poeta Benedito Luis Rodrigues de Abreu (1987-1927); do cientista Luiz Gonzaga Bevilácqua (19121992); do ex-prefeito de Bauru, Edson Bastos Gasparini (1933-1983). Além de revistas, livros, monografias, dissertações e teses, mapas, documentos iconográficos, audiovisuais, jornais, objetos e peças de museu, com exposições temáticas temporárias e permanentes. Os jornais são as fontes de pesquisa mais procuradas pelos consulentes do NUPHIS, avulsos e encadernados. Podendo-se exemplificar o jornal “O Bauru” de 1906 a 1924; “A Gazeta de Bauru” de 1914; “O Correio de Bauru” de 1925; “Correio da Noroeste” dos anos de 1930/31/32/36/46; “A Tribuna Operária” de 1931; “Diário da Noroeste” 1927-1930, “Jornal de Bauru” de 1932; “A Fé” de 1950-1963; “Correio de Garça” de 1953/54 e outros jornais. O maior acervo jornalístico do NUPHIS é o do jornal Diário de Bauru, de 1946-1999; o Jornal da Cidade de 1967 aos dias atuais e o Jornal Bom Dia de novembro de 2005 aos dias de hoje. São arquivados vários títulos de suplementos e jornaizinhos de iniciativa de segmentos da comunidade, de cunho literário, político, humorístico e cultural. Apesar de tudo isso, os alunos do curso de História pouco utilizam esta fonte para estudos, como foi comprovado na pesquisa com os formulários, onde pouco mais da metade dos universitários já visitaram o Núcleo, sendo que menos da metade destes o fizeram por vontade própria, pois foram levados, em aula, pelos professores. Não há unanimidade quando são questionados se usariam documentos históricos como prática de ensino, os dois entrevistados que responderam negativamente alegam que a sala de aula é um lugar inapropriado, e que os alunos 135 de hoje são desinteressados. O trabalho do professor de História é justamente este, fazer com que o estudante saia da estagnação a qual está exposto, despertando-o para o prazer de descobrir a história. Os outros dezoito entrevistados consideram possível trabalhar com documentos históricos, primeiramente explicando aos alunos o que é um documento, como deve ser manuseado, depois os incentivando à pesquisa nos mesmos, sempre com orientação, para demonstrar-lhes o quanto é delicado e importante na construção da história. O homem está sempre preocupado em preservar sua história e sua memória. Ele tem acesso ao seu passado através de relatos ou depoimentos de testemunhas oculares, documentos, textos, etc. Ele tem um papel cultural importante, além de abrigar os registros do tempo, é um veículo a serviço do conhecimento e da informação que contribui para o desenvolvimento da sociedade. Um museu deve ser um centro de informação e reflexão, onde o homem se reencontra com o belo, a história e a memória estando inserido dentro das prioridades da vida urbana contribuindo para o desenvolvimento social e cultural da humanidade. O museu precisa agir sobre a mudança da realidade, a partir de uma relação entre o objeto preservado com o frequentador, levando a sensibilização da releitura do acervo trazendo a tona a função educativa do museu, mostrando o espaço e o objeto como peças integrantes no processo de conscientização do indivíduo, embora ainda exista uma falta de visão do aspecto pedagógico por parte de administradores de museus e de profissionais da educação dificultando a mudança. Há necessidade de se começar experiências educativas e aplicar metodologias para o futuro dos museus estarem mais próximos de serem geradores de cultura. Este passo é importante, pois somente treze entrevistados tiveram contato com documentos históricos, isto no Ensino Superior, então é importante que desde cedo, a criança possa ter contato com os mesmos, sendo estimulados ainda pequenos, para não ficarem ignorantes neste aspecto. Os resultados obtidos na pesquisa, de modo geral, demonstram que os universitários do curso de História sabem o básico sobre as instituições museais, contudo, somente treze estão preparados para trabalhar adequadamente com os arquivos, os outros sete não mostraram muito interesse pelo assunto. 136 Na pesquisa de opinião com professores de Ensino Fundamental realizada, “[…] quando o professor responde que é preciso primeiro conhecer o museu, antes de levar o aluno para a visita técnica, esta admitindo que não faz uso dessa prática educacional enquanto recurso didático, talvez por não ter sido preparado para tal”. (FONSECA; RONQUE, 2003, p. 22) Na nova grade curricular do curso de História foi incluída a disciplina Políticas Educativas de Preservação Cultural, que tem como um dos objetivos preparar o universitário para desenvolver práticas pedagógicas junto a arquivos e museus no ensino de História. Portanto, nas escolas de ensino básico e também nas de ensino superior é preciso que os professores procurem cada vez mais divulgarem e estimularem os estudantes a ampliarem seus conhecimentos sobre cultura, patrimônio e as instituições que preservam estes elementos, que a cada dia estão sobressaindo-se na história, que já possui campos destinados ao estudo das particularidades das sociedades, como é o caso da História Social, que estuda cada sociedade, e da História Cultural que estuda as diferentes culturas dos diversos períodos, é preciso que as crianças cresçam sabendo destas informações para que não construam uma opinião distorcida dos fatos e das especificidades de cada sociedade. TEACHING AS MUSEUM APPEALS FOR THE TEACHING OF HISTORY ABSTRACT The present article has as objective to expose the utilization of museums by the students of university of the History course and the valuation of its source of research as didactic recourse to the future teachers, showing it as support in the History construction well as of the use this institution in another areas of graduation, showing the Core of Documentation and Historical Research of University: Sagrado Coração Gabriel Ruiz Pelegrina (NUPHIS) as instrument to the preservation of History e source of research available for everyone. The methodology was based on the bibliographic research and at field with application of answered formularies by twenty students of the History course at the Sagrado Coração University, The results obtained show like most of the History future teachers in spite of the wish of get deeper their knowledge about the museological institution and the interest in use it as complement of teaching in this area with absence of specific knowledge in this kind of even being little divulged. Keywords: Museums. Didactic recourse. Teaching-History. NUPHIS. 137 REFERÊNCIAS BARBUY, H. Museu e Geração de Cultura. In : Cadernos Museológicos, 2. Rio de Janeiro : MINC/SPHAN/ PRÓ-MEMÓRIA, dez. 1989. p. 36-40. FONSECA, A. C. B. da; RONQUE, M. A. Museu: ação educativa e cultural. Bauru, SP: [s.n.], 2003. MARANDINO, M. Museus de Ciências como espaços de educação. In: FIGUEIREDO, B. G.; VIDAL, D. G. (Org.). Museus: dos gabinetes de curiosidades à museologia moderna. Belo Horizonte: Argvmentvn; Brasília, DF: CNPq, 2005. p. 165175. NASSARALA, N. L. R. Apresentação. In: FONSECA, A. C. B. da; RONQUE, M. A. Museu: ação educativa e cultural. Bauru, SP: [s.n.], 2003, p. 3-4. SANTOS, M. C. T. M. Repensando a ação cultural e educativa dos museus. 2. ed. Salvador: Centro Editoria e Didático da UFBA, 1993. SOBREIRA, M. R. N., STATHOPULOS, S. O desafio dos museus. Jornal da Cidade, Bauru, 3 jun. 2001, p. 2. TAMANINI, E. Museu, arqueologia e o público: um olhar necessário. In: FUNARI, P. P. (Org.). Arqueologia, história e cultura material. Campinas: UNICAMP Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 1998. p. 178-220. WITTER, J. S. Realidades e desafios dos acervos museais da USP - Museu Paulista. In: SEMANA DOS MUSEUS DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, 2.,1999, São Paulo. Anais... São Paulo: [s.n.], 1999, p. 23-25. APÊNDICE A - QUESTIONÁRIO 1- Para você, o que é um museu? Locais onde peças importantes são conservadas, bem como documentos históricos. Lugar onde ficam expostas, peças antigas, de enorme valor. Lugar onde ficam peças antigas e coleções raras. Local onde são guardados e expostos artigos, objetos de arte ou históricos. Lugar de resgate da história da cidade ou país. Onde nos encontramos com nosso passado. 01 02 01 02 01 01 138 Lugar escolhido para arquivar as obras históricas de uma cidade, que conta a história de um povo, guardando objetos, documentos, etc. Ambiente que serve para aprimorar o conhecimento. Lugar apropriado para a preservação, evitar o desgaste, da vida útil dos patrimônios materiais e imateriais. Local que se reserva ao estudo de objetos do passado para a transmissão de conhecimento. Local de preservação da História de modo físico, escrito, fotografado, filmado, etc. Instituição onde se resgata, através de objetos, depoimentos, o passado, sempre fazendo um paralelo com o nosso presente. Forma de preservar o nosso passado. Lugar onde as pessoas podem ter contato com a história. Lugar maravilhoso, onde são expostos todos os tipos de objetos, documentos, que confirmam ou não os fatos históricos. Lugar onde valoriza a história, que vai mostrar a realidade. Referência do passado, lugar para uma viagem ao tempo. Estabelecimento onde estão reunidas as únicas e mais belas peças que contam a nossa história e mostram a nossa identidade. 2- Já visitou algum museu? SIM 20 Quais? Capitolino (Roma) Louvre MAFRA (Portugal) Masp Museu Alexandre Chito (Lençóis Paulista) Museu da Inconfidência (Ouro Preto) Museu da Marinha (RJ) Museu de Avaí Museu de Barra Bonita Museu de Jaú Museu de Santiago (Chile) Museu de Santos Museu do Café Museu do Ipiranga Museu do Vaticano Museu dos Imigrantes Museu dos Soldados Constitucionalistas Museu Ferroviário de Bauru Museu Histórico de Bauru Museu Imperial (Petrópolis) Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora) 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 NÃO 0 01 01 01 02 02 01 01 02 02 01 01 01 02 07 01 01 01 07 05 01 01 139 Museu Municipal de Sorocaba Museu Nacional de Roma NUPHIS Pinacoteca 01 01 01 01 3- Em caso negativo, gostaria de visitar um museu? (não houve casos) 4- Você já visitou o Núcleo de Pesquisa e Documentação da USC? SIM NÃO 13 07 Por quê? SIM Pesquisas Aulas Práticas Trabalho pedido pelo professor 03 09 03 NÃO Falta de Tempo Ainda não teve oportunidade Não mora em Bauru, viabilidade difícil Não conhecia 02 03 01 01 5- Você gostaria de conhecer outros museus? SIM NÃO 20 0 6- Como poderíamos aproximar o museu da vida escolar? Organizando excursões para visitas Comunicando a importância da arte para as crianças Tirando o lado negativo que o museu passa para as pessoas Transformando o museu em um lugar mais atrativo e mais didático. Organizando visitas, desde que o aluno tenha algum conhecimento prévio. No começo, através de visitas, não só como lazer, mas com aulas explicativas. Ensinando com visitas interativas. Levando periodicamente os alunos aos museus municipais. Comunicar a importância deste para as crianças. Com planejamento de excursões. Através de visitas guiadas e trabalhos de pesquisa. Através de uma interação maior com as escolas, sem muita burocracia. Freqüentando mais e incentivando as crianças. Estimulando passeios desde a infância. Primeiramente, levando os alunos até lá e tentando mudar a idéia que lá só tem coisas velhas. Difícil, mas programaria visitas, primeiro trabalho de 02 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 140 conscientização, porém o desinteresse é grande. Dando boas aulas de história antes da visita. O museu nada mais é que a história viva e bem mais atraente para a memorização da matéria. Com visitas de conscientização. 01 01 01 7- No Ensino Fundamental e Médio, os professores costumavam levá-los ao museu? SIM NÃO 09 11 01 – menos que o necessário 01 – não freqüentemente 01 – às vezes 01 – uma vez 8- Você usaria o museu como prática de ensino? SIM 19 NÃO 01 Como? Proporia um tema para pesquisa pessoal e depois uma visita a um museu, na parte proposta para a pesquisa. Como suporte de determinado assunto. Levando o aluno ao conhecimento sobre o que vem a ser um museu, despertando a sua curiosidade. Organizando pesquisas com fundo educativo. Museu como fonte de pesquisa. Através de visitas técnicas. Para pesquisas. Para apresentar ao aluno fatos históricos importantes. Através de métodos metodológicos. Através de visitas guiadas, trabalhos de pesquisa. Trazendo o concreto, o visual pro aluno, para ele ter mais contato com o passado-presente. Uma certa matéria aplicada em aula, utilizar o museu como complemento. Primeiro em sala de aula, com informações básicas e pesquisa, depois o passeio e finalmente uma avaliação. Mostrando a realidade da época, através do museu passar várias visões. Promover excursões. Para muitos alunos, só é possível entender a história quando a vemos e sentimos, e nada melhor do que um museu. Trabalhando com as memórias, com o passado. Usaria de tal forma que os alunos visitando museus, lhes seriam apresentados componentes históricos. 9- Na sua formação, você recebeu informações sobre como pesquisar utilizando-se de documentos? 01 01 01 01 01 01 02 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 141 SIM 12 NÃO 08 10- Você acha que trabalhar com documentos em sala de aula é possível? SIM 18 NÃO 02 De que modo? SIM Contrapondo com os dias de hoje. Mostrar como nós descobrimos o que aconteceu “antigamente” como se descobre a história. Buscando temas cotidianos podemos apresentar uma documentação e desvendá-la com os alunos, fazendo perguntas para o documento. Tomando os devidos cuidados. Primeiramente, inserir o documento no contexto histórico e a parti daí trabalhar com o documento. Orientando antecipadamente para não danificarem os documentos. Antes de qualquer visualização é necessário uma boa aula sobre o assunto. Levantando dados, pesquisa. Principalmente jornais antigos. Deixá-los manusear, para análise e pesquisa. Uma análise de fontes primárias e secundárias. Com orientação do professor. Através de aulas preparadas pelo professor, com o uso da criatividade. Primeiro, levando o aluno ao conhecimento sobre o que vem a ser um documento, parta despertar a sua curiosidade. Estratégias diversas e atraentes, com pesquisa, avaliação e seminários. Desde que os alunos estejam conscientes de que aquele material é único. Proporia que também buscassem pesquisar além da sala de aula. Apresentando os documentos aos alunos, estimulando estudos sobre os mesmos. Explicando sobre a importância do mesmo. Trazendo informações básicas e interessantes aos alunos, com jornais retratando fatos importantes do passado. Explorando o conteúdo do mesmo, por ser um documento de época, nos passará muita informação. NÃO Não, por causa do desinteresse dos alunos. Há uma dinâmica atrasada. Algum tempo atrás, sim. Não, porque deve ter um lugar apropriado, que a sala de aula não é. 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 142 Jornada dos Cursos de História, Geografia e Arquitetura: Espaço, História e Globalização O POETA GUERRILHEIRO: CARLOS MARIGHELLA E O REGIME MILITAR (1964-1969) Guilherme Cortez Ervilha1 Laura Laís de Oliveira2 Lourdes M. G. Conde Feitosa3 RESUMO O presente trabalho busca revelar aspectos da vida do grande militante Carlos Marighella, que atuou incessantemente pela democracia no Brasil durante a implantação do Estado Novo, em 1937, sobre a Presidência de Getúlio Vargas; tal como sua atuação em prol da libertação nacional, implantação do modelo socialista durante o regime ditatorial iniciado em Abril de 1964, a partir do Golpe de Estado promovido pelos militares. Busca demonstrar, também, alguns preceitos de luta defendidos por Marighella e ao seu incessante combate contra a tortura enquanto esteve vivo. Além disso, aponta alguns motivos que o levaram a criação da Ação Libertadora Nacional e o seu rompimento com o Partido Comunista Brasileiro. PALAVRAS-CHAVE: Carlos Marighella. Ditadura. Resistência. Movimentos sociais. 1 INTRODUÇÃO O período ditatorial enfrentado pelo Brasil a partir de 1964, assim como em outros países da América Latina, foi contestado de maneira significativa por vários setores dessas sociedades. No Brasil, durante o período, houve o surgimento de inúmeros movimentos sociais que buscaram a liberdade e o fim da opressão e da censura, além de reivindicarem, também, como foi o caso dos movimentos minoritários, o reconhecimento da liberdade e a não discriminação, com uma acentuada crítica à configuração da sociedade brasileira do período, capitalista e desigual. 1 Graduado pela Universidade Sagrado Coração – Bauru – SP. Graduada pela Universidade Sagrado Coração – Bauru – SP. 3 Orientadora, Prof essora Doutora da Univ ersidade Sagrado Coração – Bauru – SP. 2 143 Os movimentos foram encabeçados por vários líderes distintos, dentre eles Carlos Marighella, que já vinha militando politicamente desde a implantação do Estado Novo no país, em 1937. O fundador da ALN foi um grande ícone brasileiro, sua atuação, sem sombra de dúvida, contribuiu significativamente para o processo de redemocratização do país. Marighela era um homem inteligente e autêntico. Pregava a luta armada, a revolução e a guerrilha. Escreveu vários livros que revelam seu engajamento político e social e o conhecimento da sociedade brasileira. Além dos livros, escreveu também inúmeros poemas, demonstrando sua sensibilidade e amor pela liberdade. Sua história merece ser resgatada, pois Marighella foi e sempre será um grande exemplo de persistência e resistência no Brasil. A nossa proposta é esboçar, rapidamente, sua trajetória e atuação, a fim de esmiuçar algumas características desse grande líder, e sua importância na história dos movimentos de resistência do país, durante o Regime Militar. 2 MARIGHELLA: HISTÓRIA DE UM BRASILEIRO DURANTE A DITADURA MILITAR NO BRASIL Durante quase vinte anos, alguns países da América Latina viveram um período marcado pelas ditaduras militares, principalmente os países da América do Sul, como o Brasil, o Chile, a Argentina, o Uruguai, a Bolívia. Em cada um desses países o regime ditatorial configurou-se de maneira distinta, apresentando especificidades. No caso Chileno, por exemplo, é possível afirmar que a repressão às manifestações contrárias ao governo foi mais violenta e acentuada do que nos outros países. No Brasil, a instalação do regime militar aconteceu através de um golpe, em Abril de 1964; apesar da possibilidade de sua deflagração já em agosto de 1961, devido à renúncia do presidente Jânio Quadros, pois os ministros militares do período interpretaram que a viagem à China do então vice-presidente João Goulart, o impediria de assumir a Presidência da República. Porém, grande parte dos militares recorreu a Constituição, verificando a ilegalidade da deposição do vicepresidente. João Goulart assumiu a presidência do país, e três anos mais tarde, o golpe que já estava arquitetado desde 1961, foi enfim colocado em prática. A partir 144 deste momento, até o processo de redemocratização do país, 1985, o Brasil viverá um longo período de repressão e privação de todos os direitos que até então eram garantidos pela constituição. Após o golpe, o deputado Ranieri Mazzili, presidente da Câmara dos Deputados, foi quem assumiu a presidência do país, exercida, de fato, pelo “Alto Comando da Revolução”, que integrava entre seus líderes o General Arthur da Costa e Silva, que assumiu a Presidência do Brasil em 1967, liderando o período mais repressivo da ditadura. De acordo com o livro “Estado e oposição no Brasil 1964-1984”, os objetivos proclamados por essa Junta Militar após assumir a presidência foram os seguintes: restaurar a legalidade, reforçar as instituições democráticas ameaçadas e restabelecer a composição federativa da nação, rompendo o poder excessivamente centralizado do governo federal e devolvendo poderes aos Estados. Prometia, sobretudo, eliminar o perigo da subversão e do comunismo, e punir, os que, no governo, haviam enriquecido pela corrupção. (ALVES, 2005, p. 63). Como pode ser constatado, nenhum desses objetivos foi alcançado. Ao contrário, após a instalação do regime militar, o princípio da legalidade foi deposto através da vigência dos Atos Institucionais e da imposição da Doutrina de Segurança Nacional; quanto às instituições democráticas, verifica-se sua total extinção, pois o controle, a vigilância, a punição, a censura, impediram-nas de se desenvolver. O princípio federalista - garantia de autonomia para os Estados - foi subjugado pela centralização do regime militar. Quanto ao perigo do comunismo, os militares utilizaram-no como desculpa para sustentar o “combate ao inimigo interno”, perseguindo os supostos comunistas e os „subversivos‟. Durante os governos militares no Brasil foram decretados cinco Atos Institucionais, o primeiro data de 9 de abril de 1964, e determinava as seguintes medidas: Eleição indireta do Presidente da República; Quorum de maioria absoluta para aprovação de emendas constitucionais enviadas pelo Executivo: trinta e dias para votação, caso contrário eram considerados aprovados; Exclusividade do Executivo para projetos de lei que criassem ou aumentassem a despesa pública; 145 Poder concedido ao executivo para decretar Estado de sítio sem audiência prévia do Congresso, que seria ouvido apenas 48 horas após a decretação da medida; Suspensão por seis meses de garantias constitucionais ou legais da vitaliciedade e estabilidade; Os três ministros militares – e posteriormente o presidente da República, eleito indiretamente pelo Congresso – poderiam cassar mandatos legislativos federais e suspender direitos políticos por dez anos, sem apelação judicial. (COGGIOLA, 2001, p. 16) A decretação do AI-I evidencia o amplo poder político atribuído ao Executivo, revelando a grande centralização política ocorrida durante todo o regime militar no Brasil, além de servir como garantia da ordem e desenvolvimento do país. O Ato Institucional nº 2 data de 27 de outubro de 1965, e “as medidas adotadas por ele, podem ser divididas em três categorias: aquelas destinadas a controlar o Congresso Nacional; as que visavam especialmente o Judiciário; e as que deveriam controlar a representação política” (ALVES, 2005, p. 111). Dentre essas medidas destacam-se: ampliação dos poderes presidenciais e a atribuição de competência à Justiça Militar para julgar civis acusados de cometerem crimes contra a segurança nacional, assim como a extinção dos partidos políticos e a autorização para a organização de apenas dois partidos, a Arena (Aliança Renovadora Nacional) e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro). (COGGIOLA, 2001, p. 17). Em 5 de fevereiro de 1966 foi decretado outro Ato Institucional, o nº 3, que ampliou, segundo Coggiola (2001) o caráter ditatorial do regime, pois adotou as seguintes premissas: “eleições indiretas para governadores e vice-governadores de Estado nas assembléias legislativas; nomeação dos prefeitos das capitais pelos governadores” (COGGIOLA, 2001, p. 18). A decretação dos AIs revela momentos específicos do regime militar no Brasil e através da análise de suas determinações, pode ser constatado que, dia-a-dia, a repressão e a censura eram cada vez mais utilizadas, e os militares buscavam assegurar o poder de qualquer maneira, legitimando-o através de leis próprias. O período mais repressivo do regime militar no país aconteceu durante a Presidência do general Costa e Silva (1967-1969), e a implantação do último Ato Institucional, o nº 5, em 1968, que provocou a desaprovação de vários setores da sociedade brasileira quanto à vigência da ditadura no Brasil. O AI-5 possibilitou ao Presidente da República: 146 decretar recesso do Congresso Nacional, das Assembléias e das Câmaras de vereadores; cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais e suspender os direitos políticos por dez anos; decretar intervenção nos estados, municípios e territórios; decretar o estado de sítio e prorrogá-lo; decretar o confisco de bens. (COGGIOLA, 2001, p. 23) Neste contexto dos “anos de chumbo” (1969-1976), surgiram diversos movimentos sociais que almejavam a derrubada do regime militar. Culturalmente, o movimento mais significativo desenvolvido durante o período nasceu no ano de 1967 e foi batizado como Tropicalismo. O movimento promoveu uma série de transformações em vários setores das artes no país. O cinema, o teatro, as músicas e as artes plásticas adotaram suas características e buscavam levantar questões referentes à realidade brasileira, portanto, de temas como o subdesenvolvimento e o conservadorismo foram resignificados pelo Tropicalismo. Os principais artistas que participaram do movimento tropicalista foram: na música, Caetano Veloso, Chico Buarque, Geraldo Vandré, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Elis Regina, Raul Seixas, dentre outros; no cinema, Glauber Rocha, no teatro, José Celso Martinez Correa. Todos esses artistas buscaram, através do Tropicalismo, expressar sua insatisfação quanto ao regime militar no Brasil, e suas diversas manifestações artísticas comprovam o grande descontentamento em relação ao sistema político opressivo que vigorava no país (NAPOLITANO, 2006). Outros movimentos também surgiram durante o período da ditadura, e dentre eles podem ser destacados: o movimento hippie, que representou uma negação ao capitalismo e um despojamento dos bens materiais; os movimentos estudantis, que tiveram importante atuação no ano de 1968, onde houve um “boom” de protestos pelo mundo inteiro; além da organização dos trabalhadores, homossexuais, negros, mulheres, enfim das minorias. Estas questionavam naquele momento os seus direitos enquanto cidadãos da sociedade brasileira, além de reivindicarem liberdade. Outra forma de contestação desenvolvida no período caracterizou-se pela atuação das guerrilhas, e na defesa da utilização de armas e planos estratégicos para a conquista de seus objetivos. No Brasil, o movimento guerrilheiro mais expressivo desenvolveu-se no campo, e ficou conhecido como a “Guerrilha do Araguaia”. Vários líderes políticos, dentre eles Carlos Marighella, defendiam a luta empreendida através de movimentos guerrilheiros, inicialmente nos centros urbanos 147 e posteriormente no campo, e sua atuação no combate ao regime militar transformou-o em “inimigo número 1 da ditadura militar”. Carlos Marighella é filho de um italiano, Augusto Marighella, mecânico e socialista, que veio de Ferrara (Itália), para a Bahia. Na Bahia, Augusto conheceu Maria Rita, descendente de negros haussá. Casaram-se e tiveram oito filhos, dentre eles, o mais velho, Carlos, nascido em 5 de dezembro de 1911. Em 1931, Marighella ingressa no curso de Engenharia da Escola Politécnica da Bahia. Em 1932 é preso pela primeira vez, por apoiar a Revolução Constitucionalista de São Paulo, por ordem de Juracy Magalhães, interventor do governo da Bahia. Depois de ser libertado, integra as articulações do movimento Comunista em Salvador. Participa ativamente dos movimentos que procuraram derrubar Vargas durante o período do Estado Novo. Em 1936, vai para o Rio de Janeiro e busca trabalhar na reorganização do Partido Comunista. É preso no mesmo ano e torturado, porém não revela nada a polícia. Solto em 1937, e a partir desse ano, passa a atuar na clandestinidade, com a incumbência de reestruturar o Partido Comunista em São Paulo. Capturado em 1939, permanece nos presídios de Fernando de Noronha e Ilha Grande por seis anos. Durante o período que permaneceu na cadeia, Marighella atuou sempre como um grande líder político, buscando incutir nos presos que a luta dos mesmos não era em vão, pois buscavam a tão prezada liberdade. Após o fim do Estado Novo, o PCB foi legalizado, cresceu e ganhou adeptos por todo o país, tornando-se uma corrente política importante. Mas em 1947 o seu registro é cassado e o Partido passa a atuar na ilegalidade novamente. Carlos volta também à clandestinidade por dez anos. Marighella atuou também como um grande personagem da história do Brasil durante o regime militar. Envolveu-se também nas lutas pela Reforma Agrária no país e, no ano de 1958, escreveu um ensaio intitulado de “Alguns aspectos da renda de terra no Brasil”. Atuou como um grande revolucionário e apesar de pregar a luta contra o sistema empunhando armas possuía uma sensibilidade muito grande, que pode ser verificada através da análise de seus poemas. Além desses poemas, Marighella escreveu algumas obras retratando o período ditatorial. A primeira obra começou a circular no ano de 1965 e recebeu o nome de “Por que resisti à prisão” que, segundo Gorender (1999), o livro de 141 páginas impresso na clandestinidade retrata 148 inicialmente a prisão de Marighella dentro de um cinema no Rio de Janeiro, no bairro da Tijuca, no ano de 1964, a luta travada por ele com os tiras depois de ferido a bala, a passagem por diversos cárceres, interrogatórios policiais, além de aparecer também na narração elogios à figura de Prestes, denúncias aos crimes cometidos pelos militares e críticas ao PCB. (SACHETTA; CAMARGOS; MARINGONI,1999). Ainda, segundo Gorender, o livro “coloca em descrédito a possibilidade do caminho pacífico e condena as ilusões no potencial revolucionário da burguesia nacional”. (GORENDER, 1999, p.53). Outro livro escrito por Marighella data de 1966. “A crise brasileira” representa um “esboço de propostas de luta de guerrilhas acopladas ao movimento camponês”. Este ano, também, Marighella enviou a Comissão Executiva do PCB uma carta pedindo demissão, pois suas posições políticas e ideológicas contrastavam com as do Partido. Dentre várias críticas, a carta declarava o seguinte: À Comissão Executiva Prezados Camaradas: Escrevo-lhes para pedir demissão da atual Executiva. O contraste das nossas posições políticas e ideológicas é demasiado grande e existe entre Na vida de um combatente é preferível renunciar a um convívio formal a ter de ficar em choque com a própria consciência. Nada tenho a opor aos camaradas pessoalmente. (...) O centro de gravidade do trabalho executivo repousa em fazer reuniões, redigir notas políticas e elaborar informes. Não há, assim, ação planejada, a atividade não gira em torno da luta. Nos momentos excepcionais, o partido estará sem condutos para mover-se, não ouvirá a voz do comando, como já aconteceu face à renúncia de Jânio e à deposição de Goulart. (SACHETTA; CAMARGOS; MARINGONI,1999, p. 49) O trecho da carta revela o descontentamento de Marighella com a atuação do PCB. Para ele, as ações do partido resumiam-se somente em fazer reuniões e não a partir de fato para a luta armada, defendida por ele durante toda sua vida militante. Posteriormente, a carta afirma seu descontentamento com o partido desde os acontecimentos após a renúncia de Jânio, além de demonstrar sua insatisfação quanto à atuação do PCB em relação ao proletariado. Marighella afirma que o Partido sempre apostou em líderes burgueses. (SACHETTA; CAMARGOS; MARINGONI,1999) Critica, também, a crença do PCB em vencer a ditadura através das urnas, e afirma que desta maneira, haveria certa condescendência do partido com os 149 militares, pois buscava-se a suplantação do regime suavemente, sem ofender os golpistas. Afirma, contundentemente, a necessidade do país “pegar em armas”, pois só desta maneira seria possível derrubar o regime ditatorial. O caminho para acabar com a classe dominate e livrar o povo da subordinação aos Estados Unidos seria o revolucionário. Marighella declara, também, suas simpatias ao marxismo-leninismo, reforçando a necessidade da ação para a concretização de uma sociedade democrática e justa. (SACHETTA; CAMARGOS; MARINGONI,1999) Durante as dissidências entre Marighella e o PCB, o mesmo viajou para Cuba (sem autorização do partido), em junho de 1967, o que influenciou diretamente o seu pensamento e atuação quanto à luta guerrilheira. No mesmo ano, viajaram para a ilha duas turmas adeptas a facção marighellista, e ambas passaram por um treinamento. Durante o período que esteve em Cuba, Marighella escreveu os princípios norteadores da ALN (Ação Libertadora Nacional), evidenciando o desejo de aplicar o modelo cubano no Brasil, adaptando-o de acordo com a realidade brasileira. Outros movimentos formados durante o período e que nasceram a parir dos dissidentes do PCB, principalmente a partir de 1966, foram, além da ALN, fundada por Marighella, o Movimento Revolucionário 8 de outro (MR-8), o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Todos esses movimentos atuaram no combate a ditadura militar. Em defesa à guerrilha urbana, em 1969 Marighella escreveu o “Mini-manual do guerrilheiro urbano”. O primeiro princípio da ALN era o da ação, e segundo Gorender (1999, p. 26), “ação significa violência revolucionária, luta armada, guerrilha”. O autor enfatiza, também, que Marighella conduziu a ALN de acordo com princípios anarquistas, utilizando a violência extrema, o terrorismo, com o objetivo de derrubar a ditadura. Estrategicamente a ALN atuou de acordo com a teoria do PCB, das duas etapas da revolução, na qual a libertação nacional apresentava-se como primeiro objetivo e posteriormente a implantação do socialismo. (GORENDER, 1999). A composição da ALN abrangia dissidentes do Movimento Estudantil de São Paulo, além de profissionais universitários e operários. Os militantes do movimento promoveram ataques a agências bancárias a fim de expropriar fundos, bem como a expropriação de carros pagadores, e de um trem pagador. Até 1968 os policiais não 150 haviam descoberto quem eram os responsáveis pelos assaltos. Porém, neste ano, no dia 13 de novembro, após um assalto a um carro pagador do Instituto do Estado da Guanabara, um sargento reconheceu o carro num posto de gasolina e o motorista após ser torturado revelou a culpa da ALN, e o segredo da autoria dos assaltos foi, enfim, descoberto. A partir desse momento, Marighella passou a ser perseguido constantemente, pois era o grande líder da ALN. Documentos do período revelam como a mídia referia-se a Carlos naquele momento – “inimigo número 1 da ditadura”, “terrorista”, “uma ameaça a sociedade brasileira”. Fernandes ([196-?] apud SACHETTA; CAMARGOS; MARINGONI,1999, p. 58 ) afirma o seguinte em relação a perseguição a Marighella: “Ele foi perseguido como a caça mais cobiçada e condenado à morte cívica, à eliminação da memória coletiva”. No dia quatro de novembro de 1969, numa terça-feira, como várias vezes já havia acontecido, Marighella vai ao encontro dos freis dominicanos Ivo e Fernando, na Alameda Casa Branca na altura do número 806, São Paulo. Os freis, que haviam sido presos e torturados o esperavam sobre pressão dos militares. Tratava-se de uma emboscada, armada pelo delegado Sérgio Fleury. Antes de aproximar-se do carro, teve início o tiroteio. Marighella foi brutalmente assassinado com quatro tiros. O episódio é assim descrito por Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio ([196-?] apud SACHETTA; CAMARGOS; MARINGONI, 1999, p. 59): Para Marighella, tudo parecia normal enquanto caminhava lentamente em direção ao carro – até estourar a fuzilaria. O primeiro tiro que o atingiu atravessou as suas nádegas; o segundo, acertou-lhe a virilha; o terceiro, feriu de raspão o seu rosto. Caído no meio da rua, imobilizado pelos ferimentos, foi cercado e executado à queima-roupa com um quarto tiro. Em um reflexo defensivo, elevou a mão e teve um dos dedos estraçalhado pela bala que lhe perfurou o pulmão e a aorta, provocando-lhe hemorragia interna e morte instantânea. Apenas em 1996, a Comissão Especial dos Mortos e Desaparecidos do Ministério da Justiça condenou a ditadura militar pela morte de Carlos. A autópsia do crime foi realizada em segredo, e o corpo de Marighella foi enterrado no cemitério de Vila Formosa, em São Paulo, acompanhado apenas por 15 agentes armados de metralhadoras e os coveiros; a polícia não permitiu que ninguém se aproximasse do local. 151 Passados dez anos, o corpo do militante foi trasladado para Salvador, no cemitério das Quinas, e o sepultamento foi realizado no túmulo projetado por Niemeyer. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS Marighella foi um grande líder brasileiro durante o período ditatorial, tanto na implantação do Estado Novo, quanto no regime dos militares. Suas ações expressam uma luta verdadeira contra a opressão e a vigência da democracia. Durante sua vida, militou pela liberdade e justiça social. Suas ações também revelam sua autenticidade e a crença na libertação nacional apenas através da luta armada e da guerrilha urbana. O regime ditatorial seria derrubado através das armas. Além de um grande militante político, foi também um grande escritor e poeta. Seus livros e poesias revelam sua inteligência e sensibilidade. Atuou significativamente em prol da reforma agrária e denunciou incessantemente as desigualdades sociais do Brasil. Para ele, havia a necessidade de promover uma “libertação nacional” e, posteriormente, implantar o socialismo. Esses objetivos revelam sua insatisfação quanto às estruturas de poder no país, e o seu imenso desejo de mudança e transformação social. POET GUERRILLA: CARLOS MARIGHELLA AND THE MILITARY REGIME (19641969) ABSTRACT This present work aims to reveal life aspects of the great militant Carlos Marighella, who worked tirelessly for democracy in Brazil during the deployment of the New State, in 1937, during Getúlio Vargas presidency term, as his actions in support of national liberation, deployment of socialist model during the dictatorial regime commenced in April 1964 from the Coup d'état sponsored by the military. It also aims to show some struggle precepts advocated by Carlos and his relentless fight against torture while he was alive. Moreover, it points out some reasons that led to the creation of the National Liberating Action and his break with the Brazilian Communist Party. KEYWORDS: Carlos Marighella. Dictatorship. Resistance. Social movements. 152 REFERÊNCIAS ALVES, M. H. M. Estado e oposição no Brasil: 1964 -1984. Bauru: Edusc, 2005. BETTO, Frei. Batismo de sangue. São Paulo: Círculo do Livro S. A, 1982. COGGIOLA, O. Governos Militares na América Latina. São Paulo: Contexto, 2001. GASPARI, E. A Ditadura escancarada. São Paulo: Companhia das letras, 2002. GORENDER, J. Combate nas trevas. 6. ed. São Paulo: Ática, 1999. JOSÉ, E. Carlos Marighella: o inimigo número um da Ditadura Militar. São Paulo: Casa Amarela, 1997. NAPOLITANO, M. Cultura Brasileira: utopia e massificação (1950-1980). São Paulo: Contexto, 2006. NOVA, C.; NÓVOA, J. (Org.) Carlos Marighella: o homem por trás do mito. São Paulo: UNESP, 1999. SACCHETTA, V; CAMARGOS, M. ; MARINGONI, G. A imagem e o gesto: fotobiografia de Carlos Marighella. São Paulo: Perseu Abramo, 1999. SODRÉ, N. W. Vida e morte da ditadura: 20 anos de autoritarismo no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1984. A DITADURA Militar no Brasil: a história em cima dos fatos.São Paulo: Casa Amarela, 2007. (Coleção Caros Amigos, n.7 e n.9) 153 Jornada dos Cursos de História, Geografia e Arquitetura: Espaço, História e Globalização O PÚBLICO É MEU! CONSTRUINDO A IDENTIDADE ATRAVÉS DO PATRIMÔNIO Karla Danielle de Morais1 Laura Laís de Oliveira2 Solange Nágela Pereira Bezerra3 RESUMO O projeto apresentou conceitos sobre o significado do patrimônio histórico material e imaterial e do patrimônio ambiental, discutindo a relevância destes para a formação da identidade e memória individual dos alunos e da relação destes com a sociedade, desenvolvendo a identidade e memória coletiva, ressaltando também a importância da preservação e conservação dos mesmos. Levou os alunos a refletirem sobre ações positivas visando manter viva a memória local, visto que despertou nos mesmos o interesse pela história de seu município. Possibilitou o desenvolvimento de ações práticas que facilitaram a compreensão dos alunos sobre os assuntos discutidos. Palavras-chave: Patrimônio. Identidade. Memória. 1 Graduando pela Universidade Sagrado Coração – Bauru –SP. 2 3 Graduando pela Universidade Sagrado Coração – Bauru –SP. Graduando pela Universidade Sagrado Coração – Bauru –SP. 154 Jornada dos Cursos de História, Geografia e Arquitetura: Espaço, História e Globalização O QUARTO PODER E A DITADURA MILITAR: UMA RELAÇÃO MARCADA POR CRÍTICAS “CONSTRUTIVAS” E LIBERDADE COM “RESPONSABILIDADE” Fabrício Silva1 Solange Nágela Pereira Bezerra2 RESUMO Apresenta-se pesquisa e revisão literária desenvolvida, com aplicação dos conceitos e visões da disciplina histórica, abordando o desenvolvimento da mídia no Brasil durante o período de 1964 a 1985, em pleno governo militar e ditatorial, e a evolução de sua influência sócio-política, agindo como aparelho ideológico do Estado, até poder ser considerada o Quarto Poder, discutindo-se este conceito. É realizada também a revisão dos conceitos de massificação, ideologia e manipulação, relacionando-os à atual conjuntura para que, a partir daí, se possa fazer a análise da importância que a grande mídia e a imprensa alternativa exerceram no regime militar, principalmente após a cassação da liberdade de expressão e dos direitos políticos. Palavras-chave: Mídia. Governo Militar. Quarto Poder. Censura. 1 INTRODUÇÃO A “Era das Ditaduras” latino-americanas, que abrange o período de meados da década de 60 à segunda metade da década de 80, marcou praticamente todo o continente, seja em suas relações internas ou externas, com os regimes governamentais caracterizados pela extrema repressão. No caso brasileiro essas características são facilmente detectáveis como a dissolução de instituições, partidos políticos, fechamento de jornais, principalmente após a imposição do AI-5 que 1 Graduando em História pela Universidade Sagrado Coração – Bauru – SP 2 Graduando em História pela Universidade Sagrado Coração – Bauru – SP 155 elevou o poder dos militares, fazendo propaganda de suas “benesses” como o grande desenvolvimento proveniente do plano econômico. As tensões provindas da Guerra Fria geraram a caça ao “inimigo interno”, política baseada na ideologia anticomunista, que justificou toda repressão e cerceamento dos meios de comunicação. Criando assim uma contradição entre o apoio ao desenvolvimento versus a censura, no que tange aos vários tipos de mídias da época. Sem a existência e o apoio ao Quarto Poder (a mídia), as propagandas do governo, ditadas por dizeres como “Brasil, ame-o ou deixe-o” não conseguiriam a difusão alcançada. Por meio de formas de resistência, algumas mais diretas e claras e também mais facilmente censuradas, ou através de mensagens subliminares, ou como se costuma dizer, “nas entrelinhas” da notícia, que se desenvolveu, também na mídia brasileira, o processo que desencadeou a abertura para a conquista da tão almejada democracia. Sendo assim, faz-se necessário um estudo de cunho historiográfico, que busque explicar o Quarto Poder diante da Ditadura Militar, levantando aspectos como a ideologia, a manipulação e a massificação, dentro do que se entende por mídia, levantando a importância dos meios de comunicação da época em questão. O estudo procurou abordar a chamada Grande Mídia, explicando aí o processo sistemático dos órgãos de censura, assim como a chamada Imprensa Alternativa e sua participação dentro de todo o período. Defendendo ao final o questionamento sobre o que se entende por democracia e liberdade de expressão no Brasil dos dias atuais, ratificando a extrema importância de buscar, selecionar e possuir informação no século em que vivemos. 2 OBJETIVOS 2.1 OBJETIVO GERAL Caracterizar o desenvolvimento da mídia durante o regime militar, como aparelho ideológico do Estado. 2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS 156 Refletir sobre o conceito de Quarto Poder, revisando os conceitos de massificação, ideologia e manipulação; Analisar a importância que a grande mídia e a imprensa alternativa tiveram no regime militar; Caracterizar a dinâmica dos órgãos de censura do país. 3 METODOLOGIA Será realizado um trabalho de pesquisa e revisão literária com aplicação dos conceitos e visões da disciplina histórica, abordando o desenvolvimento da mídia no Brasil durante o período de 1964 a 1985, utilizando como fontes Abreu (A modernização da imprensa (1970-2000), Almeida e Weis (Carro-zero e pau-dearara: o cotidiano da oposição de classe média ao regime militar. In: NOVAIS, F. A.; SCHWARCZ, L.M. História da vida privada no Brasil), Capelato (Imprensa e História do Brasil), Chauí (Conformismo e resistência: Aspectos da cultura popular do Brasil), Garocha (Sociedade vigiada), Guareschi (Mídia, Educação e Cidadania: Tudo o que você deve saber sobre mídia e Mídia e democracia: O quarto versus o quinto poder), Mattos (História da televisão brasileira) e Secretaria Municipal de Comunicação Social do Rio de Janeiro (Cadernos de Comunicação). 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO 4.1 O QUARTO PODER O poder ideológico da mídia tomou uma proporção tão grande nos assuntos de Estado, que, assim, passou a ser denominada atualmente por “Quarto Poder”. Os três poderes, Legislativo, Executivo e Judiciário, herança da Revolução Francesa, de 1789, podem ser considerados o sinônimo de uma democracia atuante. Esta trindade foi primeiramente quebrada durante a História do Brasil quando D. Pedro I estabeleceu o Poder Moderador. Qual seria o motivo desta equiparação do poder deste aparelho ideológico de Estado com os três poderes? Analisando a Declaração Universal dos Direitos Humanos, temos: 157 Artigo XIX: Todo o homem tem direito à liberdade de opinião e expressão; esse direito inclui o de não ser molestado por causa de suas opiniões, o de investigar e receber informações e opiniões e o de difundi-las, sem limitação de fronteiras, por qualquer meio de expressão. (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, c2004). Porém, segundo Capelato (1988), apesar de ser um direito público, a atividade de divulgar informações é, geralmente, exercida pelo setor privado, sendo este orientado pelo lucro. Para aplicar o direito à informação, a mídia coloca-se como intermediária entre a sociedade e o governo. Durante o período militar, a censura restringiu quase que totalmente este Quarto Poder, tornara-se obrigatório passar as informações sob apenas um olhar, um ponto de vista, e criar apenas uma realidade. Uma demonstração da relação entre o governo ditatorial e os meios de comunicação se faz por meio do célebre depoimento do Presidente do Brasil, de 1969 a 1974, Emílio Garrastazu Médici: Sinto-me feliz todas as noites quando ligo a televisão para assistir ao jornal. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranqüilizante após um dia de trabalho. Porém como será demonstrado ao longo do presente trabalho, nem a Grande Imprensa, nem as mídias alternativas, seguiram totalmente as regras e ordens baixadas através dos cinco atos institucionais e que no quinto atingiu em cheio uma liberdade primordial, marcando esta atitude o desenvolvimento da influência midiática e sua modernização. A mídia passou a ter mais autonomia para exercer o poder de manipular a opinião pública ditando as regras de comportamento, influenciando nas escolhas dos indivíduos. A partir do momento em que se é possível ditar o que é verdade ou não e dar um peso valorativo à informação que é passada ao receptor, deixando de publicar fatos e fazendo com que os mesmos simplesmente “não existam”, a mídia está exercendo o seu papel de aparelho ideológico do Estado. É a mídia também, que por sua vez pauta a agenda de discussão de uma sociedade. O que vier a repercutir no dia do acontecimento, ou nas semanas seguintes, é algo que a imprensa transformou em fato, notícia; que passou seu ponto de vista, influindo na opinião pública, e instituindo a pauta do momento. 158 Dá-se uma relação de dominação calcada na manipulação que é capaz de obter a obediência incondicional, através da ideologia criam-se mensagens simbólicas embutindo tais valores na população, que não está preparada para filtrar as informações que recebe, facilitando a transmissão da mensagem embutida com as intenções do veículo que a transmite, ditando o que é ou não relevante enquanto notícia. 4.2 A GRANDE IMPRENSA O jornalista que quisesse falar de política, de oposição, e ainda assim manter seu emprego e seu salário, jamais poderia estar totalmente engajado ou de acordo com a subversão. É fato que durante o período militar os meios de comunicação passaram por transformações profundas. Em nenhum outro período a mídia nacional passou por tamanha modernização em um espaço de tempo tão curto. O dia-a-dia dos jornalistas bem como suas posições políticas foram extremamente afetadas diante do relacionamento existente entre o mercado, o Estado e a mídia. O triplo papel de fonte de financiamento, anunciante e sensor, por parte dos senhores da mídia brasileira, redefinia os critérios de toda e estrutura dos jornais, desde os patamares de remuneração, até as relações dos jornalistas com as fontes oficiais mantendo o controle do que era ou não publicado e de como as informações eram passadas. Daí falava-se muito em crítica “construtiva” e liberdade com “responsabilidade”. Durante a ditadura militar a notícia restringia-se a assuntos governamentais, e o dia-a-dia, a população, deixava de ter seu papel como personagem da história. Esta relação jornalística era um complicador para o jornalista de oposição que sabia que se precisasse de notícia, ela estaria no governo, nos assuntos políticos e econômicos. Diante disto, o jornalista de oposição via-se com o dilema de estreitar laços de relacionamentos com políticos para buscar novidades quentes para seu editor-chefe, mesmo que a notícia não viesse a ser publicada, mas o fato de ter buscado e adquirido novidades já melhorava o seu status e imagem como jornalista. Caso não seguisse este caminho e se restringisse a escrever seus textos habituais sem conseguir “furos de reportagem”, seria visto como mais um jornalista, mediano, sem 159 brilho. E foi esta dinâmica que contribuiu para a diminuição do potencial oposicionista, ao mesmo tempo em que se mostrava uma relação contraditória, a busca por informações novas, (muitas vezes dignas de veto por parte da censura), sendo adquirida pela parcela oposicionista de esquerda e centro esquerda dos jornalistas, para que os mesmos fossem vistos como bons profissionais de sua área. Neste contexto os jornalistas de cunho comunista, simpáticos à ideologia marxista, construíram a imagem de mais responsáveis e profissionais, do que outras parcelas do jornalismo brasileiro da época. Sempre dentro também de uma relação de “compadrio” entre os membros do partido comunista, criando uma panela dentro das redações, com um ajudando o outro. Era de extrema importância manter-se empregado e esta patota comunista colaborava para que mantivessem todos, os seus empregos assegurados, uma vez que jornalista desempregado poderia facilmente ser confundido com “baderneiro”, agitador. A forma como a grande imprensa encarava a busca de uma democracia tomada de assalto após o golpe de 1964, e o posicionamento dos jornalistas de oposição na luta pelas mudanças na sociedade, entram no contexto político ideológico mundial do período. Desde que a Guerra Fria alcançou o continente por meio de Cuba os senhores da mídia tinham a certeza de que a imaturidade da democracia brasileira era alvo certeiro dos chamados “inimigos internos” (o movimento comunista internacional), e este foi um dos fatores que podem ser citados como úteis aos donos dos grandes meios de comunicação. De fato, a imprensa brasileira, estava ainda longe de considerar, a democracia algo possível e valoroso. Para os muitos jornalistas de esquerda a adesão à democracia não possuía um caráter puramente ideológico, mas também, colaborava para o surgimento de movimentos de massa. Sendo jornalista, estando dentro do PCB (Partido Comunista Brasileiro), ou fora, ou ainda contra o partido, na prática, fazer um jornalismo oposicionista significava seguir duas regras básicas para a profissão: informar e fazer pensar. Duas regras que foram ganhando cada vez mais valor ao passo que a censura, fosse a oficial ou a interna, cerceavam cada vez mais as publicações, aliada ao AI-5 e a crença no milagre econômico que criava o estado de alienação que atingia a população, inclusive parte da classe letrada do país, fazendo com que as mesmas 160 não se preocupassem com as questões políticas. Ao denunciar o autoritarismo, as idéias e os fatos divulgados possuíam a semente da restauração democrática. 4.3 A IMPRENSA ALTERNATIVA Na sua maioria em formato Tablóide, os jornais da imprensa alternativa já nasciam sob censura prévia, dificultando seu estabelecimento como meio de comunicação. Sendo facilmente podados logo em seu início, uma vez que, para receber adesão na negociação de publicações, o órgão ou empresa jornalística teria de demonstrar confiança, deixando claro que não era aliado aos inimigos do regime, o que não acontecia com esta parcela da imprensa brasileira, fazia com que durasse pouco tempo, muitos, apenas alguns números. “O nanico” (como eram conhecidos tais jornais), tinha a obrigação de enviar os originais para a Policia Federal que por sua vez, vetava logo de cara as matérias, sempre de cunho oposicionista forte por parte desta imprensa. Já no caso da grande imprensa, a moeda de troca era feita, por exemplo, quando um jornal atacava uma figura antigoverno, acreditando com essa atitude conseguir o perdão por matérias que houvessem sido publicadas dando conta de denuncias e violações dos direitos humanos por parte do regime militar. Em relação a esta postura de oposição ao governo bem mais contundente do que a grande imprensa marcada por denuncias sistemáticas as violações dos direitos humanos como torturas e prisões ilegais, além de críticas ao modelo econômico. Aliado as dificuldades financeiras para se manter num mercado em franca expansão e toda a estrutura que os órgãos de censura possuíam com base nos atos institucionais que podaram toda e qualquer forma de manifestação política e ideológica no país, fizeram deste segmento jornalístico, bravos guerreiros frente a todas as dificuldades já mencionadas. A rápida transformação nos meios de comunicação não deixou que a imprensa alternativa passasse ilesa. “Na derradeira edição, de 23 de novembro de 1981, Movimento ressaltou que um dos objetivos da imprensa alternativa era destruir o mito de que o jornalista é um técnico, se não da neutralidade, ao menos da objetividade”. (ALMEIDA; WEISS, 1998, p. 350). 161 Era enorme a quantidade de tablóides alternativos lançados no Brasil e em toda a América latina, refletindo a chamada “Era das Ditaduras” no cone Sul. No Brasil em sua grande maioria surgiam de dentro de universidades ou projetados por partidos políticos que funcionavam na ilegalidade. Com este processo de desenvolvimento do Quarto Poder, com seu caráter cada vez mais tecnicista, ficou ainda mais difícil para estes jornais se manterem na ativa. Millôr Fernandes, que possuía uma coluna intitulada Pif Paf na revista Cruzeiro deu origem ao jornal que levou o nome da coluna, dando início aos vários alternativos surgidos depois, como reação ao Regime. Outro alternativo de extrema relevância foi o Pasquim, um dos mais conhecidos do país e que mais tempo manteve-se em funcionamento. De caráter mais cômico e sarcástico em suas publicações, e tendo dentre os envolvidos no projeto, Ziraldo, foi também o mais popular tablóide, sendo lembrado e até mesmo reverenciado até os dias de hoje. Em oposição ao formato mais humorístico do Pasquim, veio o Opinião. Bem mais sério, lançado em 1972, abordava as questões políticas com profundidade e dureza. Sua ultima edição, datada de 08/04/1977, foi apreendida pela Polícia Federal, sendo seu diretor processado por desobediência civil. Após a abertura democrática a imprensa alternativa no Brasil perdeu força. Hoje com o advento da Internet e o surgimento dos Blogs, os jornalistas ganharam um espaço só seu, onde podem publicar notícias e opiniões sem o aval de grandes empresas, apesar de existir uma maquina financeira e de propaganda dentro do contexto das mídias on-line, mas esta não é a questão aqui. O importante é deixar clara a força destes novos veículos de informação que dão uma maior liberdade jornalística, coisa impossível nos idos da ditadura militar. 4.4 ÓRGÃOS DE CENSURA E SUA DINÂMICA Segundo entrevista dada pela historiadora Maika Lóis Carocha, da URFJ, ao site Censura Musical, a fiscalização da censura aos meios de comunicação e artes em geral foi exercida a partir de 1966, pela DCDP, centralizada em Brasília. Até então, a censura era regional, por meio das SCDP (Serviço de Censura de Diversões Públicas). Essa medida centralizadora buscava manter o total controle do Estado, característico em todos os aspectos do período militar. 162 Porém, além de as SCDP regionais não mostrarem a intenção de perder o poder de censurar, os problemas por questões geográficas, visto que às vezes era preciso fazer apreensão de discos, jornais, revistas, etc., e o pessoal de Brasília não tinha a mobilidade para ir a outros estados imediatamente, obrigou a permanência das SCDP regionais. Sabendo disso e do choque de poderes e interesses entre esses dois tipos de órgãos e da corrupção apresentada por ambos, os compositores, gravadoras, produtores e senhores da mídia em geral, mandavam exemplares do que seria analisado pela censura para Brasília, e estes não sendo liberados, acabavam sendo mandados para as seções regionais que, então, os liberava. Ainda segundo Carocha, a censura apresentou facetas diferentes durante o período militar. Na censura à imprensa, que teve seu auge no período de 1968 à 1978, após o AI-5, apresentou um caráter mais político, e os jornais não podiam dizer abertamente que estavam sendo censurados. Já a censura de diversões públicas era regulamentada por diversas leis e tinha um caráter muito mais moral que político, sendo seu período de maiôs repressão principalmente nos anos de 1974 a 1985, que coincide com a época de abertura política. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS As críticas “construtivas” e a liberdade “com responsabilidade” não foram regras durante todo o espaço de tempo que compreende o regime militar no Brasil, porém não formam também apenas um bordão militar dentro do contexto da época. As críticas existiram, vieram de todos os lados da sociedade e nos meios de comunicação foram usadas por todos, grandes, pequenos, populares, alternativos. A diferença está na forma. Enquanto a chamada Grande Imprensa fazia críticas mais subliminares, os jornais alternativos não poupavam palavras, agindo de forma direta. É importante que se ressalte que não houve uma postura única dentre os vários jornais de grande distribuição, a crítica direta existiu ali, entretanto, não frequentemente, ao mesmo tempo em que existiu o receio dentro das redações da imprensa alternativa, mas, de forma geral o ataque coube aos alternativos. Já a liberdade que pouco existia, procurou ser utilizada com responsabilidade, aí cabe a pergunta, o que se entende por responsabilidade e esta significava no período militar? 163 Ser um jornalista responsável, além de deixar subentendido o seu profissionalismo, sua dedicação a profissão é de qualquer forma tomar a verdade como algo inerente ao jornalismo responsável e como exposto ao longo da pesquisa a verdade para a mídia era relativa. E a responsabilidade por sua vez toma contornos nebulosos, difíceis de serem identificados. Um período ditatorial não coloca o ser humano como responsável principalmente, em proteger a sua vida e de seus próximos? O fato é que todo jornalista é primeiramente, um ser humano. As responsabilidades com a maquina governamental, ou com o “poder” de modificar o contexto histórico do país, mesmo que utilizando formas de manipulação, ou qualquer análise que possa ser feita dentro do conceito de responsabilidade durante a ditadura, pouco importa diante da questão de quanto valia a vida de alguém durante o período, mas está é uma outra questão. As crises econômicas e sociais forçaram uma maior participação da mídia para criar um movimento de massa, dando início à chamada “democratização”. No entanto a democracia que se estabeleceu no Brasil cresce e se desenvolve até os dias atuais sob uma sociedade autoritária como diz Chauí (1986), e que com essa característica reforçada pelo golpe de 1964 mantém-se como valores democráticos falaciosos. Então a mídia continua sendo usada como aparelho ideológico do Estado, porém sua autonomia foi multiplicada. A informação é o novo modo de desenvolvimento responsável pela produtividade do sistema capitalista na atualidade. Dentro da nova faceta que tomou o capitalismo, a chamada globalização, não só se tem muito mais informação, em tempo real, como fica difícil selecionar as informações que se acessa. Todo esse processo nos traz até a realidade que vivemos hoje onde quem detém a informação, de modo geral e dentro dela a mídia, detém o fator central de desenvolvimento,o que faz da mídia muito mais poderosa, rechaçando seu status como Quarto Poder. THE FOURTH POWER AND THE MILITARY DICTATORSHIP: A RELATIONSHIP MARKED BY CRITICAL "CONSTRUCTION" AND FREEDOM WITH RESPONSIBILITY " ABSTRACT It be introduced literary research and revision developed, applying History subject‟s concepts, approaching the midia‟s progress in Brazil from of 1964 to 1985, 164 in the military and dictatorship government, and its social and politic influence‟s evolution, acting for State‟s ideological device, being considered the Fourth Power, discussing this concept. It is also the revision of massification, ideology and manipulation concepts, to link this to the present situation, and to analyze the great midia and the alternative press influence in the military government, after to abolish the freedom of speech and political laws. Keywords: Midia. Military government. Fourth power. Reproach. REFERÊNCIAS ABREU, A. A. de. A modernização da imprensa (1970-2000). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002. ALMEIDA, M. H. T. de; WEIS, L. 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