As 7 maravilhas, que concensus?
O concurso é uma iniciativa que deveria fazer corar de vergonha todos aqueles
que com responsabilidades no mundo da gastronomia, consentem, com o seu
silêncio cúmplice, a realização de um concurso que nada dignifica o nosso
património gastronómico.
Um tal concurso cobre de ridículo quem o promove e lhe dê cobertura, porque
ter a veleidade de entre um património tão rico e diversificado eleger 7 (???)
pratos representando 7 categorias, é ter da gastronomia portuguesa uma ideia
distorcida e achar que pode tratá-lo como se de coisa sua se tratasse,
ignorando que o património gastronómico nacional, é algo mais do que a soma
das cozinhas que a constituem e que representa um bem cultural comum que
não pode, nem deve ser defendido num concurso de vaidades, que no limite,
transfere para o domínio privado o uso-fruto, sem condições nem restrições,
desse património.
A França e a Espanha trataram de dignificar as suas gastronomias
promovendo a sua candidatura a património imaterial da humanidade.
A organização das 7 maravilhas, trata antes de abastardá-la, promovendo um
concurso que se propõe igualá-la em dignidade a um concurso de misses, em
cujo palco se exibirão 7 pratos, que, pomposamente, representarão cada um,
uma maravilha da nossa cozinha tradicional.
Quem se lembra das últimas sete maravilhas que este concurso promoveu?
Que tema tratava? Dos pipis da Praia do Meco? Dos gambozinos da Serra da
Malcata? Dos Saramugos em vias de extinção no Rio Guadiana?
Esse será também o destino das 7 maravilhas da nossa gastronomia, embora
com uma diferença significativa para a organização. Por se tratar de uma
iniciativa comercial, vai embolsar uns milhares de euros, que lhes serão
enviados por quem se queira passear por esta feira de vaidades, ao pagar-lhes
100€ por receita enviada. Junte-se mais uns largos milhares proporcionados
pelo ministério da Agricultura, pelo Turismo de Portugal e pela Televisão, que
pagarão para poderem ter o “privilégio” da participação e cobertura dos eventos.
No fim a empresa entra na posse de um acervo de receitas da cozinha
portuguesa, que as poderá utilizar a seu belo prazer, podendo até alterar o
regulamento do concurso para poder fazer o que muito bem entenda com este
acervo, que de forma espertalhaça apropriou, desvinculando dos direitos de
propriedade aqueles que lhes enviaram as receitas.
Que desperdício de energias, recursos e interesse.
O que propomos para uma defesa séria honesta e capaz do património
gastronómico português é mobilizar meios e recursos para uma Comissão
Nacional de Gastronomia, que em tempos existiu, e aí, com as assessorias
científicas necessárias, tratar de fixar o Receituário Nacional, enquadrando-o
nos seus tempos histórico e cultural, revelando-lhe as suas influências,
inventariando os produtos que ao longo da história foi integrando,
que benefícios resultaram dos contactos com os povos que por aqui passaram,
o que se entende por cozinhas regionais, quantas variações regionais e
nacionais de um mesmo prato se podem admitir sem que se desvirtue a sua
matriz de origem, que práticas culinárias se podem considerar tradicionais.
É pois todo um trabalho de base científica que está por fazer que propomos se
faça, para que se fixe com o rigor possível este importante património cultural,
para que possamos passar para as gerações vindouras a verdade possível
sobre a história da nossa alimentação e de que formas, materializadas nas
nossas cozinhas regionais, essa alimentação se expressava/expressa.
Depois disto, e só depois deste trabalho realizado haverá espaço para os
concursos nacionais ou outros que se queiram promover. Mas então já de
forma perfeitamente informada e capaz de se criarem as categorias
necessárias para avaliação e em que regiões culturais se evidenciam tais e tais
receitas, o que pode ser considerado receita tradicional, em que época se fixou
na sua forma actual, que produtos se utilizam, que modificações sofreu.
Percebe-se a dificuldade da tarefa, mas sem ela tudo o que se fizer é pura
mistificação.
E ainda estamos a tempo de recuperar essa informação.
Por tudo isto, não iremos enviar nenhuma receita da gastronomia alentejana
para este concurso, até porque entendemos que qualquer dos pratos
conhecidos como tradicionais das nossas cozinhas, são eles próprios
excelentes representantes da nossa gastronomia, e por isso nos recusamos
eleger um de entre eles, quer se trate de sopas, de carnes, de peixes, de
doces, entradas ou mariscos, nem reconhecemos autoridade nesse conselho
científico para o fazer.
E depois, que tipo de prato deve ser enviado? O “concurso” é em Março.
Que sentido fará por exemplo enviar uma sopa de tomate? Ou de beldroegas?
Ou, por exemplo uma roupa velha de sardinhas? Ou, e para falar de um prato
do nosso litoral de uma salada de bacalhau com pimento assado e batata-doce
cozida? Poder, até podemos, existe o tomate fresco, o pimento e até as
sardinhas congeladas. Mas pergunta-se: é isso cozinha tradicional?
Ocorre-nos a propósito a célebre frase da rainha D. Isabel, quando interrogada
por seu amantíssimo esposo, sobre o que levava no seu regaço, lhe respondeu
o que se sabe.
Entendemos também que aqui só por milagre, deste concurso podem sair
rosas.
Assumimos as nossas responsabilidades como Confraria Gastronómica que
estatutariamente se obriga à defesa do património gastronómico alentejano,
para chamar a atenção para os factos que agora expomos, e que em boa fé
julgamos os mais adequados para se fazer a defesa séria e honesta do nosso
património gastronómico, do Alentejano e do nacional.
Não basta parecer-se sério, tem que se ser sério.
A Confraria Gastronómica do Alentejo
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Concurso - Confraria Gastronómica do Alentejo