0 BACIA HIDROGRÁFICA DO CÓRREGO ANDRÉ, MIRASSOL D’OESTE-MT: ASPECTOS SÓCIOAMBIENTAIS ROSÁLIA VALENÇOELA GOMES BARROS Dissertação apresentada à Universidade do Estado de Mato Grosso, como parte das exigências do Programa de Pós-graduação em Ciências Ambientais para obtenção do título de Mestre. CÁCERES MATO GROSSO, BRASIL 2010 1 ROSÁLIA VALENÇOELA GOMES BARROS BACIA HIDROGRÁFICA DO CÓRREGO ANDRÉ, MIRASSOL D’OESTE-MT: ASPECTOS SÓCIOAMBIENTAIS Dissertação apresentada à Universidade do Estado de Mato Grosso, como parte das exigências do Programa de Pós-graduação em Ciências Ambientais para obtenção do título de Mestre. Orientadora: Profª. Drª. Célia Alves de Souza CÁCERES MATO GROSSO, BRASIL 2010 2 ROSÁLIA VALENÇOELA GOMES BARROS BACIA HIDROGRÁFICA DO CÓRREGO ANDRÉ, MIRASSOL D’OESTE-MT: ASPECTOS SÓCIO-AMBIENTAIS Esta Dissertação foi julgada e aprovada como requisito para a obtenção do título de Mestre em Ciências Ambientais Cáceres, 19 de Março de 2010. Banca examinadora ___________________________________________ Profª. Drª. Marcela Bianchessi da Cunha Santino Universidade Federal de São Carlos - UFSCar ___________________________________________ Profª. Drª. Carolina Joana da Silva Universidade do Estado de Mato Grosso - UNEMAT ___________________________________________ Profª. Drª. Célia Alves de Souza Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT Orientadora CÁCERES MATO GROSSO, BRASIL 2010 3 Dedicatória Dedico esta dissertação... Especialmente ao meu esposo Daniel, por compartilhar cada momento, e principalmente pelo apoio incondicional durante todo o desenvolvimento do mestrado. À minha filha Camilla que apesar da pouca idade soube compreender a falta de tempo, a ausência e as intermináveis horas de dedicação a esta pesquisa. Aos meus pais Armando e Mariana, que dividiram comigo as preocupações, as alegrias e vitórias durante todo o programa. À vocês, faltam palavras que expressem exatamente a importância de cada gesto na conquista deste sonho! 4 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus em quem deposito toda minha confiança e que proporcionou o alento em cada momento desta caminhada. À minha família, com a qual pude contar sempre, incentivando-me, apoiandome com muito carinho. Agradeço à Profª. Drª. Célia Alves de Souza, minha orientadora, pela confiança depositada, confiança que influenciou no crescimento individual, e no constante incentivo em buscar respostas. A todos os professores pela transmissão dos valiosos conhecimentos que brilhantemente contribuíram no processo de desenvolvimento e conclusão desta dissertação. A todos do departamento de pós-graduação, pelo auxílio durante todo o período da pesquisa. A todos os amigos da turma pelo carinho, amizade e apoio nos momentos de dificuldades. Enfim, minha gratidão, a todos aqueles que de alguma forma participou na realização deste trabalho. 5 ÍNDICE Página Lista de abreviaturas................................................................................. 11 Lista de tabelas ........................................................................................ 12 Lista de quadros ...................................................................................... 13 Lista de figuras.......................................................................................... 14 Resumo..................................................................................................... 16 Abstract..................................................................................................... 17 Introdução geral ....................................................................................... 18 Referências............................................................................................... 20 Capítulo 1 - Analise geoambiental da bacia hidrográfica do córrego André, Mirassol D´Oeste- MT................................................................... 21 Resumo..................................................................................................... 21 Abstract..................................................................................................... 21 1 Introdução.............................................................................................. 22 2 Materiais e métodos .............................................................................. 24 2.1 Área de estudo................................................................................ 24 2.1.2 Distribuição espacial da sub-bacia.......................................... 24 2.2 Procedimentos metodológicos ....................................................... 25 2.3 Analise do relevo............................................................................. 25 2.4 Analise da rede de drenagem......................................................... 27 2.5 Levantamento do uso do solo ........................................................ 27 2.6 Formação vegetal........................................................................... 27 2.7 Fauna.............................................................................................. 28 6 2.8 Vazão.............................................................................................. 28 3 Resultados e discussão......................................................................... 29 3.1 Clima............................................................................................... 29 3.2 Geologia.......................................................................................... 30 3.2.1 Grupo Alto Paraguai................................................................ 30 3.2.1.1 Formação Araras.............................................................. 31 3.2.1.2 Formação Moenda............................................................ 31 3.2.1.3 Formação Complexo do Xingu......................................... 32 3.3 Geomorfologia................................................................................. 32 3.3.1 Província Serrana ................................................................... 32 3.3.2 Depressão Jauru...................................................................... 33 3.4 Análise do Relevo .......................................................................... 33 3.4.1 Declividade média da sub-bacia.............................................. 33 3.4.2 Altitude média da sub-bacia..................................................... 33 3.4.3 Amplitude Altimétrica............................................................... 34 3.4.4 Razão do relevo da sub-bacia................................................. 34 3.4.5 Vazão....................................................................................... 34 3.5 Parâmetros Morfométricos ............................................................. 34 3.5.1 Fator de forma da sub-bacia.................................................... 34 3.5.2 Densidade de drenagem ......................................................... 35 3.5.3 Ordem dos canais.................................................................... 35 3.5.4 Gradiente dos canais............................................................... 35 3.6 Tipos de Solos................................................................................ 36 3.6.1 Neossolos Litólicos distróficos ................................................ 36 7 3.6.2 Argissolo Vermelho-Amarelo distrófico.................................... 36 3.7 Composição Florística..................................................................... 37 3.7.1 Estrutura das comunidades vegetais ...................................... 38 3.8 Fauna.............................................................................................. 39 3.9 Uso do solo..................................................................................... 39 3.9.1 Áreas de vegetação esparsas................................................. 40 3.9.2 Áreas de expansão urbana...................................................... 41 3.9.3 Áreas de urbanização ............................................................. 41 3.10 Uso do solo e alterações do regime hídrico.................................. 42 4 Conclusões ........................................................................................... 43 5 Referências ........................................................................................... 44 Capítulo 2 – Relações entre qualidade da água e uso do solo da sub- 48 bacia do córrego André em Mirassol D’Oeste/MT .................................. Resumo..................................................................................................... 48 Abstract..................................................................................................... 48 1 Introdução.............................................................................................. 49 2 Materiais e métodos .............................................................................. 51 2.1 Área de estudo................................................................................ 51 2.2 Levantamento de campo................................................................. 52 2.3 Coleta e análise da água................................................................ 52 2.3.1 Índice de qualidade da água (IQA) ..................................... 53 2.3.2 Variáveis analisadas no IQA................................................ 53 3 Resultados e discussões ...................................................................... 55 3.1 Pontos de amostragem da sub-bacia............................................. 55 8 3.2 Uso e ocupação do solo.................................................................. 56 3.3 Variáveis avaliadas......................................................................... 57 3.3.1 Demanda bioquímica de oxigênio (DBO) ............................... 58 3.3.2 Oxigênio Dissolvido (OD) ........................................................ 59 3.3.3 Temperatura da água.............................................................. 60 3.3.4 Turbidez................................................................................... 61 3.3.5 pH............................................................................................ 62 3.3.6 Fósforo total............................................................................. 63 3.3.7 Nitrogênio total......................................................................... 64 3.3.8 Sólidos totais............................................................................ 65 3.3.9 Coliformes fecais..................................................................... 66 3.4 Resultados do IQA e avaliação da qualidade da água .................. 66 4 Conclusões............................................................................................ 67 5 Referencias ........................................................................................... 68 Capítulo 3- Sub-bacia do córrego André: os olhares dos moradores que 71 vivem no entorno do canal........................................................................ Resumo..................................................................................................... 71 Abstract..................................................................................................... 71 1 Introdução.............................................................................................. 72 2 Materiais e métodos .............................................................................. 75 2.1 Caracterização da área de estudo ................................................. 75 2.2 Procedimentos metodológicos ....................................................... 76 2.3 Percepção ambiental dos moradores e a função social do 76 córrego André ...................................................................................... 9 2.4 Parâmetros utilizados na escolha dos informantes da pesquisa ... 77 2.5 Roteiro utilizado.............................................................................. 77 2.6 Perfil sócio-econômico.................................................................... 77 2.7 Questionário utilizado...................................................................... 78 2.8 Tratamento de dados...................................................................... 78 2.9 História oral..................................................................................... 78 3 Resultados e discussão......................................................................... 78 3.1 Histórico da ocupação..................................................................... 78 3.2 Distribuição espacial da sub-bacia.................................................. 79 3.3 Perfil sócio-econômico dos grupos entrevistados .......................... 80 3.3.1 Gênero dos entrevistados ....................................................... 80 3.3.2 Idade dos entrevistados .......................................................... 81 3.3.3 Tempo de residência............................................................... 82 3.3.4 Escolaridade............................................................................ 82 3.3.5 Profissão dos entrevistados..................................................... 83 3.3.6 Tipo de residência ................................................................... 83 3.3.7 Situação do domicílio............................................................... 84 3.3.8 Número de pessoas nas residências ...................................... 84 3.3.9 Renda familiar média............................................................... 85 3.4 Olhares dos diferentes atores sociais sobre o córrego André........ 85 3.4.1 Percepção de como o córrego André era................................ 86 3.4.2 Usos da água do córrego André ............................................. 86 3.4.3 Importância do Córrego aos grupos ....................................... 87 3.4.4 Fatores de degradação do córrego.......................................... 87 10 3.4.5 Responsáveis pela degradação............................................... 88 3.4.6 Prejuízos da degradação do córrego....................................... 89 3.4.7 Melhoria das condições da qualidade ambiental do Córrego.. 89 3.4.8 Responsáveis pelas melhorias do local................................... 90 3.4.9 Atividades para melhorar a qualidade ambiental do Córrego.. 90 4 Conclusão ............................................................................................ 91 5 Considerações finais............................................................................. 92 6 Recomendações ................................................................................... 93 7 Referencias ........................................................................................... 95 Anexos...................................................................................................... 97 11 LISTA DE ABREVIATURAS ANA - Agência Nacional das Águas APP - Área de Preservação Permanente COHAB - Companhia de Habitação CONAMA - Conselho Nacional do Meio Ambiente D.B.O - Demanda Bioquímica de Oxigênio EMBRAPA - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária IBAMA - Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IGAM - Instituto Mineiro de Gestão das Águas INDEA/MT - Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de Mato Grosso IQA - Índice de Qualidade da Água MMA - Ministério do Meio Ambiente O.D - Oxigênio Dissolvido OMS - Organização Mundial da Saúde PCBAP - Plano de Conservação da Bacia do Alto Paraguai PESA - Parque Estadual da Serra Azul pH - Potencial Hidrogeniônico SEPLAN Econômico SISNAMA - Secretaria de Estado de Planejamento e Desenvolvimento SUDERHS - Superintendência de Desenvolvimento e Recursos Hídricos e - Sistema Nacional do Meio Ambiente Saneamento Ambiental UNESCO cultura - Organização das Nações Unidas para a educação a ciência e a 12 LISTA DE TABELAS Página Capitulo 1 Tabela 1 Principais alterações do regime hídrico relacionadas ao uso do solo................................................................................................................. 42 Capitulo 2 Tabela 2 Descrição e Importância das Variáveis Utilizadas no IQA.............. Tabela 3 Resultado das Análises de água nos pontos de amostragens do córrego André no período de seca e de cheia............................................... Tabela 4 Valores de IQA obtidos nos pontos de amostragem na sub-bacia do córrego André no período de seca e de cheia.......................................... 54 57 67 Capítulo 3 Tabela 5 Percepção de como o córrego André era....................................... 86 Tabela 6 Uso da água do córrego André ...................................................... 87 Tabela 7 Importância do córrego aos grupos................................................. 87 Tabela 8 Fatores de degradação do córrego André...................................... 88 Tabela 9 Responsáveis pela degradação do córrego.................................... 89 Tabela 10 Prejuízos da degradação do córrego............................................ 89 Tabela 11 Melhoria da qualidade ambiental do córrego................................ 90 Tabela 12 Responsáveis pelas melhorias do local........................................ 90 Tabela 13 Atividades para melhorar a qualidade do córrego......................... 91 13 LISTA DE QUADROS Página Capitulo 1 Quadro 1 Síntese da análise morfométrica da sub-bacia do córrego André. 36 Capitulo 2 Quadro 2 Classificação do IQA (Índice de qualidade da água)..................... 53 14 LISTA DE FIGURAS Página Capitulo 1 Figura 1 Localização da sub-bacia Hidrográfica do córrego André, município de Mirassol D’Oeste-MT................................................................ Figura 2 Precipitação ocorrida em Mirassol D’Oeste no período de Janeiro a Julho de 2009.............................................................................................. 24 29 Figura 3 Unidades Estruturais da sub-bacia hidrográfica do córrego André . 30 Figura 4 Formação Geológica no divisor de águas da sub-bacia André....... 31 Figura 5 Fragmento florestal na área de recarga da sub-bacia André........... 37 Figura 6 Perfil da cobertura da terra na sub-bacia André.............................. 40 Figura 7 Uso do solo na área de expansão urbana da sub-bacia ................. 40 Capitulo 2 Figura 8: Aspectos dos pontos amostrados para análise de água do córrego André , Junho 2008- Fevereiro 2010................................................ 55 Figura 9 Variação da Demanda Bioquímica de Oxigênio no córrego, 2008/2010...................................................................................................... 59 Figura 10 Variação 2008/2010.................. do Oxigênio dissolvido no córrego, 60 Figura 11 Variação da Temperatura da Água no período de seca e chuva... 61 Figura 12 Variação da Turbidez no período de seca e chuva........................ 62 Figura 13 Correlação entre Turbidez e Oxigênio Dissolvido......................... 63 Figura 14 Variação do Ph no córrego André em Mirassol D’Oeste-MT, 2008/2010...................................................................................................... 63 Figura 15 Variação do Fósforo Total no córrego André em Mirassol D’Oeste-MT. 2008/2010................................................................................. 64 15 Figura 16: Variação do Nitrogênio Total no córrego André em Mirassol D’Oeste-MT. 2008/2010................................................................................. 64 Figura 17 Variação dos Sólidos Totais no córrego André em Mirassol D’Oeste-MT. 2008/2010................................................................................. 65 Figura 18- Variação de Coliformes Fecais no córrego André. 2008/2010..... 66 Capítulo 3 Figura 19 Localização da sub-bacia hidrográfica do córrego André.............. 75 Figura 20 Segmentos canalizados do córrego André em área urbanaPonto 4........................................................................................................... 80 Figura 21 Gênero dos grupos entrevistados ................................................. 81 Figura 22 Idade dos integrantes dos grupos entrevistados........................... 81 Figura 23 Tempo de residência de moradores e sitiantes............................. 82 Figura 24: Escolaridade dos grupos entrevistados ....................................... 83 Figura 25 Profissão dos entrevistados .......................................................... 83 Figura 26 Tipo de residência dos integrantes dos grupos............................. 84 Figura 27 Situação do Domicílio dos grupos entrevistados........................... 84 Figura 28 Número de Pessoas nas residências............................................. 85 Figura 29 Renda familiar média dos grupos.................................................. 85 16 RESUMO BARROS, Rosália Valençoela Gomes. Bacia Hidrográfica do córrego André, Mirassol D’Oeste-MT: Aspectos sócio-ambientais. Cáceres: UNEMAT, 2009. 97 p. (Dissertação – Mestrado em Ciências Ambientais)1. Esta pesquisa de dissertação foi realizada na sub-bacia hidrográfica do córrego André em Mirassol D’Oeste, MT, sendo estruturada em 3 capítulos. O capítulo 1- Análise Geoambiental da sub-bacia hidrográfica do córrego André, Mirassol D’Oeste-MT, aborda características físicas da sub-bacia, como: unidades de relevo, embasamento geológico, ocorrências pedológicas, vegetação, fauna e uso da bacia. Foi realizada compilação bibliográfica, trabalho de campo com diagnóstico dos aspectos físico-bióticos e sociais. Os resultados indicam que a sub-bacia possui área de 18 km² com forma alongada na direção SE-NO. O comprimento do canal é de 4 km, a densidade de drenagem é de 0,22 km/km², a vazão média é de 0,68 m³/s e hierarquia fluvial de 1ª ordem. Os solos são Neossolos Litólicos Distróficos e Argissolo Vermelho-Amarelo Distrófico. A cobertura vegetal é Floresta Estacional Semidecidual Submontana. Geologicamente a área está inserida no Grupo Alto Paraguai (Formação Araras, Formação Moenda) e o Complexo Xingu. A geomorfologia é caracterizada pela extensão da Província Serrana e Depressão do Jauru. No capítulo 2- Relações entre a qualidade da água e uso do solo da sub-bacia hidrográfica do córrego André, Mirassol D’Oeste-MT, são apresentados aspectos da rede de drenagem, formas de uso e ocupação e relações com a disponibilidade de água. Foi realizada análise da água e relacionados índice de qualidade de água (IQA), através de análise de variáveis químicas, físicas e microbiológicas. O levantamento do uso do solo foi realizado através da delimitação da área de interesse, consulta a planta cadastral municipal, censo demográfico e trabalho de campo. As águas do córrego André enquadram-se nas águas de classe 2, sendo classificadas como regular, com perda progressiva de qualidade da nascente para a foz. A qualidade da água é influenciada pela sazonalidade, com as variáveis pH (Potencial Hidrogeniônico) e OD (Oxigênio Dissolvido). O capítulo 3- Sub-bacia do córrego André, Mirassol D’Oeste-MT: Os olhares dos moradores que vivem no entorno do canal, apresenta considerações sobre aspectos sócio-econômicos e os olhares dos moradores em relação ao córrego. Foi realizada pesquisa qualitativa e quantitativa por meio de roteiro semi-estruturado e aplicação de questionário aos moradores do entorno do córrego. As entrevistas revelaram que os entrevistados preocupam-se com a qualidade ambiental do córrego, 93,19% e a maioria é capaz de apontar fatores de degradação, associando-os a causas antrópicas. Tal fato demonstra que o nível de percepção da população favorece ações de preservação e recuperação do local. Palavras-chave: Caracterização ambiental, caracterização sócio-econômica, sub-bacia hidrográfica, córrego André, Mirassol D’Oeste, MT. 1 Orientadora – Célia Alves de Souza, UNEMAT, Cáceres-MT. 17 ABSTRACT BARROS, Rosalia Valençoela Gomes. Watershed Stream Andre: Socioenvironmental. Cáceres: UNEMAT, 2009. 97 p. (Dissertation - Master in Environmental Sciences) 2. This dissertation research was conducted in the sub-basin of the Andre stream in Mirassol D'Oeste, MT, is structured into 3 chapters. Chapter 1 - Analysis of Geoenvironmental sub-basin stream Andre Mirassol D'Oeste-MT, discusses the physical characteristics of the sub-basin, as units of relief, bedrock geology, soil, vegetation, fauna and use of the basin. Bibliographic compilation was done, fieldwork with a diagnosis of the physical, biotic and social factors. The results indicate that the sub-basin has an area of 18 square kilometers with elongated in the direction SE-NO. The channel length is 4 km; the drainage density is 0.22 km / km ², and fluvial hierarchy of 1st order. The soils are Entisols dystrophic and dystrophic Red-Yellow Dystrophic. The vegetation is lower montane semideciduous forest. Geologically the area is inserted in the Alto Paraguay Group (Araras Formation, Training Milling) and Xingu Complex. The geomorphology is characterized by extension of the mountainous province Depression of Jauru. In Chapter 2 - Relationship between water quality and land use in the sub-basin Andre stream Mirassol D'Oeste-MT, shows some of the drainage network, forms of use and occupation and relations with the availability of water. Analysis was carried out of the water and related water quality index (AQI), through analysis of chemical variables, physical and microbiological. The survey of land use was performed by defining the area of interest refers to the municipal cadastre, census and field work. The waters of the stream Andre fall in the waters of class 2 were classified as regular, with progressive loss of quality from the source to the mouth. Water quality is influenced by seasonal, with the pH (hydrogen potential) and DO (Dissolved Oxygen). Chapter 3 - Sub-basin of the Andre stream Mirassol D'Oeste-MT: The eyes of the residents who live around the channel, presents considerations on socio-economic aspects and the views of residents in relation to the stream. We performed qualitative and quantitative research through semi-structured and questionnaire to residents surrounding the stream. The interviews revealed that respondents are concerned about the environmental quality of the stream, 93.19% and most are able to point degradation factors, linking them to anthropogenic causes. This shows that the population level of awareness favors preservation actions and site restoration. Keywords: Characterization environmental, socio-economic sub-basin, Andre stream Mirassol D'Oeste, MT. 2 Advisor: Major Profª. Drª. Célia Alves de Souza, UNEMAT, Cáceres-MT. 18 INTRODUÇÃO GERAL Os cursos hídricos são em sua maioria, o marco inicial do povoamento de uma região. Assim, à medida que a população é atraída para a nova área, ocorre à expansão e, conseqüentemente, a alteração da paisagem natural existente na bacia hidrográfica (FERRARA, 1996). A bacia hidrográfica não é, necessariamente, um espaço único. A diversidade natural e cultural pode ser identificada em cada bacia ou mesmo em sua configuração interna (CORREA, 1989). A ocupação desses ambientes precisa ser planejada de forma a não destruir elementos que a natureza fornece (OSEKI,1996). Coy et al. (1994) salientam que o processo de urbanização desenvolvido em um aglomerado traz implicações, não apenas ambientais, mas, também, resulta em profundas disparidades entre os segmentos da sociedade. As terras localizadas na sub-bacia hidrográfica do córrego André em Mirassol D’Oeste/MT também foram modificadas pela ação antrópica sob diversos mecanismos, aliados às técnicas de exploração intensiva dos recursos naturais. No final da década de 60, concomitante a colonização do norte de Mato Grosso, as primeiras famílias paulistas das cidades de Fernandópolis, Jales, Mirassol, Santa Fé do Sul, São José do Rio Preto e Votuporanga vieram para a região de Mirassol. Inicialmente, a vegetação natural foi derrubada e a agricultura implantada. Com o passar dos anos as matas começaram a ser substituídas por monocultura de pastagem artificial, implantando a pecuária bovina de cria-recria, corte e leite (FERREIRA, 1993). Todas as intervenções humanas realizadas em uma bacia hidrográfica resultam em impactos sócio-ambientais que provocam desequilíbrio no meio físico e incidem diretamente na vida da população local (FIDALGO, 2003). O conhecimento das formas de utilização e ocupação do solo tem sido fator imprescindível ao estudo dos processos que se desenvolvem em uma região, tornando-se de fundamental importância na medida em que os efeitos do mau uso causam deteriorização do meio ambiente (LIMA, 1986). 19 Neste contexto, o objetivo deste estudo foi realizar um diagnóstico do sistema sócio-ambiental da sub-bacia do córrego André, visando produzir informações capazes de contribuir para o processo de produção, preservação e recuperação do solo da sub-bacia hidrográfica. Neste sentido a presente dissertação enfocará importantes aspectos sobre o diagnóstico sócio-ambiental realizado na sub-bacia do córrego André, no município de Mirassol D’Oeste, MT, fornecendo dados que proporcionaram uma base conceitual para o desenvolvimento da proposta, com definições relativas às terminologias empregadas e dados relacionados aos aspectos naturais e antrópicos na sub-bacia hidrográfica, que encontra-se na bacia hidrográfica do rio Jauru. A pesquisa foi estruturada em três capítulos: Capítulo 1, Análise Geoambiental da sub-bacia hidrográfica do córrego André, Mirassol D’Oeste-MT. Este capítulo aborda as características físicas da subbacia e apresenta de modo específico a distribuição espacial geoambiental dos elementos: unidades de relevo, embasamento geológico, ocorrências pedológicas, cobertura vegetal, representantes da fauna e uso da bacia, mostrando seus efeitos antropizados e implicações sobre o solo e a paisagem. Capítulo 2, Relações entre a qualidade da água e uso do solo da sub-bacia hidrográfica do córrego André, Mirassol D’Oeste-MT. Neste capítulo são apresentados aspectos da rede de drenagem e formas de uso e ocupação da terra da sub-bacia e as relações com a disponibilidade de água em termos de quantidade e qualidade. Foi realizado monitoramento da qualidade da água e relacionados índice de qualidade de água (IQA), através de análise de variáveis químicas, físicas e microbiológicas. Esta atividade proporcionou o acompanhamento das pressões antrópicas e o estado da água na sub-bacia no período de Junho de 2008 à Fevereiro de 2010. Capítulo 3, Sub-bacia do córrego André: Os olhares dos moradores que vivem no entorno do canal. Este capítulo apresenta algumas considerações sobre a utilização da sub-bacia, aspectos sócio-econômicos e percepção ambiental dos moradores em relação ao córrego André. 20 REFERÊNCIAS CORRÊA, R. L. O Espaço urbano. São Paulo: Editora Ática, 1989. COY, M., FRIEDRICH, M. R., SCIEER, M., AGUIAR, M. V. A. Questão Urbana na Bacia do Alto Rio Paraguai, Fase I: Diagnóstico Convênio de Cooperação Científico. Tecnológica Brasil-Alemanha , 1994, p. 121. FERRARA, L. D. A. As Cidades Ilegíveis - Percepção Ambiental e Cidadania. Percepção Ambiental: a experiência brasileira. ed. UFSCar, São Carlos, SP, 1996. FERREIRA, J. C. V. Mato Grosso: política contemporânea, 1993. Edição: Grupo Futurista de Comunicação e MB – Vídeo Gráfica. Abril de 1993. FIDALGO, E. C. C. Mapeamento do uso e da cobertura atual da terra para indicação de áreas disponíveis para reservas legais: estudo em nove municípios da região amazônica. Revista Árvore, 2003. v.27, n.6, p.871-877. LIMA, W. P. Princípios de hidrologia florestal para o manejo de bacias hidrográficas. São Paulo: Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", 1986. 242p. OSEKI, J. H. O único e o homogêneo na produção do espaço. In: MARTINS, José de Souza. Henri Lefebvre e o retorno da dialética. São Paulo: Hucitec, 1996. p. 109-120. 21 CAPÍTULO 1 Diagnóstico geoambiental da bacia hidrográfica do córrego André, Mirassol D’Oeste- MT Resumo-A presente pesquisa foi realizada na sub-bacia hidrográfica do córrego André na cidade de Mirassol D’Oeste, Sudoeste do Estado de Mato Grosso, tendo como objetivo verificar a distribuição espacial geoambiental dos elementos: unidades de relevo, embasamento geológico, ocorrências pedológicas, cobertura vegetal e uso da bacia, mostrando sua influência na disponibilidade de água em termos de quantidade e qualidade. Para caracterização ambiental (geologia, geomorfologia, solo e vegetação) da subbacia do córrego André, foi realizada compilação bibliográfica, principalmente do Projeto RADAMBRASIL e trabalho de campo com observação dos aspectos físico-bióticos. A geologia regional da área de estudo está inserida no Grupo Alto Paraguai (Formação Araras e Formação Moenda) e o Complexo Xingu. O relevo do alto curso é caracterizado pela extensão da Província Serrana (dobramentos antigos do Alto Paraguai), no médio e baixo curso encontra-se a Depressão do Jauru. Registra-se a ocorrência de dois tipos de solos: Neossolos Litólicos Distróficos e Argissolo Vermelho-Amarelo Distrófico. A cobertura vegetal predominante na bacia é Floresta Estacional Semidecidual Submontana. Foram inventariados todos os indivíduos lenhosos com diâmetro ≥ 5 cm, em 4 parcelas de 25 x 25 m. Foram encontrados 640 indivíduos e as espécies mais freqüentes foram: o angico (Piptadenia macrocarpa), aroeira (Astronium urundeuva) e jacarandá (Machaerium acutifolium). A densidade total foi de 896 ind/ha. A sub-bacia hidrográfica do André possui uma área de 18 km² com forma alongada na direção SE-NO, com comprimento total de 4 km. A densidade de drenagem é de 0,22 km/km², a vazão é de 0,68 m³/s e a hierarquia fluvial é de 1ª ordem. O uso do solo é representado por vegetação esparsa na área de recarga; área de expansão urbana, com sítios, pastagens e cultivos, nas áreas de nascentes e área urbanizada paralela ao canal do córrego. Palavras-chave: Análise Geoambiental, Unidades de relevo, sub-bacia do córrego André, Mirassol D’Oeste, MT. Diagnostic geoenvironmental basin stream Andre, Mirassol D’Oeste-MT Abstract - This research was conducted in the sub-basin of the Andrew creek in the city of Mirassol D'Oeste, Southwest of Mato Grosso, with the aim of investigating the spatial distribution of geoenvironmental elements: units of relief, bedrock geology, soil conditions, coverage and vegetation of the basin, showing its influence on water availability in terms of quantity and quality. For environmental characterization (geology, geomorphology, soil and vegetation) of sub-basin of the stream Andre, bibliographic compilation was accomplished mainly RADAMBRASIL Project and fieldwork involving observation of the 22 physical-biotic. The regional geology of the study area is included in the Alto Paraguay Group (Araras Formation and Training Milling) and Xingu Complex. The relief of the upper course is characterized by extension of the mountainous province (ancient folds of the Upper Paraguay), the middle and lower course is Depression Jauru. Join the occurrence of two soil types: Entisols dystrophic and dystrophic Red-Yellow Dystrophic. The predominant vegetation cover in the basin is lower montane semideciduous forest. We recorded all woody plants ≥ 5 cm diameter, 4 plots of 25 x 25 m. 640 individuals were found and the most frequent species were: mimosa (Piptadenia macrocarpa), mastic (Astronium urundeuva) and rosewood (Machaerium acutifolium). The total density was 896 ind / ha. The Andre sub-basin has an area of 18 square kilometers with elongated in the direction SE-NO, with a total length of 4 km. The drainage density is 0.22 km / km ², the flow is 0.68 m³ / s Hierarchy River is 1st order. The land use is represented by sparse vegetation in the recharge area, the urban expansion area, with sites, pastures and crops in areas of urbanized area springs and parallel to the stream channel. Keywords: Analysis Geoenvironmental, relief units, sub-basin of the Andre stream Mirassol D'Oeste, MT. 1 INTRODUÇÃO Bacia hidrográfica é definida como uma área de captação natural da água da precipitação que faz convergir os escoamentos para um único ponto de saída, seu exutório. É composta basicamente de um conjunto de superfícies vertentes e de uma rede de drenagem formada por cursos d'água que confluem até resultar em um leito único (SILVEIRA, 2001). A realidade da maioria dos rios no país é de perda de qualidade e quantidade de água, uma vez que a abordagem tradicional de gerenciamento de recursos hídricos foi sempre setorial e de resposta a crises. A água destinada à produção é considerada um recurso isolado para cada finalidade e a falta de coordenação entre os diversos setores, com base numa análise integrada e de usos múltiplos, acaba por criar conflitos (CALHEIROS, 2007). É importante analisar o comportamento hidrológico de uma bacia hidrográfica em função do conjunto de suas características geomorfológicas (forma, unidades de relevo, área, embasamento geológico, rede de drenagem, ocorrência pedológica, dentre outros) e do tipo da cobertura vegetal (LIMA, 1989). Desse modo, as características físicas e bióticas de uma bacia possuem 23 importante papel nos processos do ciclo hidrológico, influenciando, dentre outros, a infiltração, a quantidade de água produzida como deflúvio, a evapotranspiração e os escoamentos superficial e sub-superficial. Neste sentido a caracterização geoambiental é de fundamental importância, visto que trata de um estudo integrado da paisagem considerando as interações entre os meios físico, biológico e sócio-econômico. Conforme Souza (2005) a análise geoambiental é uma concepção integrativa que advém do estudo unificado das condições naturais que nos leva a uma percepção do meio em que vive o homem e onde se adaptam os demais seres vivos. Essa análise integrativa vem se destacando nos dias atuais, pois se observou que até a primeira metade do século passado se dava uma grande importância ao conhecimento setorizado do ambiente (FERREIRA, 1993). Os componentes das bacias hidrográficas, solo, água, relevo e vegetação, coexistem em permanente e dinâmica interação, respondendo às interferências naturais e àquelas de natureza antrópica, afetando os ecossistemas como um todo. Nesses compartimentos naturais, os recursos hídricos constituem indicadores das condições dos ecossistemas, no que se refere aos efeitos do desequilíbrio das interações dos respectivos componentes (SOUZA et al., 2002). Por este caráter integrador, Guerra e Cunha (1996) consideram a bacia hidrográfica como unidade de gestão dos elementos naturais e sociais, pois, nessa ótica, é possível acompanhar as mudanças introduzidas pelo homem e as respectivas respostas da natureza. Ainda de acordo com esses autores, em nações mais desenvolvidas a bacia hidrográfica também tem sido utilizada como unidade de planejamento e gerenciamento, compatibilizando os diversos usos e interesses pela água e garantindo sua qualidade e quantidade. Acredita-se que a base para o planejamento do uso dos recursos naturais de uma região, é a caracterização e o conhecimento quantitativo e qualitativo das estruturas e espécies que a compõem, tal fato é importante para subsidiar propostas de uso e recuperação da sub-bacia hidrográfica. Diante do contexto, este capítulo tem como objetivo apresentar um estudo integrado das condições e dinâmicas ambientais e sociais da bacia 24 hidrográfica do córrego André, mostrando os efeitos antropizados e suas implicações sobre o solo e a paisagem da sub-bacia. 2 MATERIAIS E MÉTODOS 2.1 ÁREA DE ESTUDO 2.1.2 Distribuição espacial da sub-bacia O córrego André localiza-se no município de Mirassol D’Oeste a sudoeste do estado Mato Grosso, entre os paralelos 15°40’00’’ a 15°50’00’’ de latitude sul e 58°00’00’’ a 58º10’00’’ de longitude oeste de Greenwich, à aproximadamente 260 metros acima do nível do mar. Possui 4 km de extensão, com 1.433 km canalizados. Possui área de 18 km² com forma alongada (Figura 1). O córrego André é um tributário de 1ª ordem do rio São Francisco, que deságua no ribeirão Caeté, um dos principais afluentes do rio Jauru que aflui no rio Paraguai. Sua drenagem tem o sentido SE-NO, seu canal fluvial atravessa pontos importantes com sítios e áreas urbanas. Engloba os principais bairros da cidade, entre eles o Bairro Jardim São Paulo, COHAB Parque da Serra e Bairro Bandeirantes 2, conferindo ao córrego importância simbólica, considerando as dimensões geográfica, social e econômica. Figura 1. Localização da sub-bacia Hidrográfica do córrego André, município de Mirassol D’Oeste-MT. 25 2.2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS A caracterização ambiental (geologia, geomorfologia, solo e vegetação) da sub-bacia do córrego André, foi realizada através de compilação bibliográfica, principalmente do Projeto RADAMBRASIL, (1982) e trabalho de campo com observação dos aspectos físico-bióticos e sociais. Para as análises geomorfológicas e pedológicas foram utilizadas as cartas topográficas SD.21-Y-D IV na escala 1:100.000. A área, perímetro da sub-bacia e comprimento do canal foram definidos a partir da elaboração do mapa da sub-bacia utilizando do Software AutoCad 2008. 2.3 ANÁLISE DO RELEVO O relevo da sub-bacia foi estudado analiticamente através dos parâmetros: declividade média; altitude média; amplitude altimétrica; razão de relevo e fator de forma. A declividade média da sub-bacia foi calculada pela equação de acordo com Lima (1989), através da equação: D% = C/P, onde: D% = declividade média, %; C= maior comprimento do canal principal; P= perímetro da sub-bacia. A altitude média da sub-bacia (Hm) foi obtida através da média aritmética entre os valores de maior altitude (AM) observada na cabeceira e a menor altitude (Am) na foz ou desembocadura em (m). Hm = (AM + Am) /2, onde: Hm = altitude média, m; AM = maior altitude, m; Am = menor altitude, m. A amplitude altimétrica (H) é a diferença entre a maior e a menor altitude da sub-bacia e expressa em metros, conforme a expressão: 26 H = AM – Am, onde: H = amplitude altimétrica, m; AM = maior altitude, m; Am = menor altitude, m. A razão de relevo (Rr) foi analisada conforme proposição de Schumm, (1956). Através da relação entre a diferença de altitude dos pontos extremos da sub-bacia ou amplitude altimétrica (H) e o maior comprimento (C), que corresponde à direção do vale principal, entre a foz e o ponto extremo sobre a linha do divisor de águas. Rr = H/C, onde: Rr = razão de relevo H = amplitude altimétrica, m; C = maior comprimento da sub-bacia, m. Para a análise do fator de forma da sub-bacia (Ff), foi utilizada a equação proposta por Horton (1945): Ff = A / C², onde: Ff= fator de forma A= área em km² C= comprimento do curso d’água em km. 2.4 ANÁLISES DA REDE DE DRENAGEM A densidade de drenagem foi definida com base na proposta de CHRISTOFOLETTI, 1980, utilizando a equação: Dd= Lt /A, sendo: Dd a densidade de drenagem (km/km2); Lt= comprimento total de todos os canais (km) A= área da bacia (km2). A ordem dos canais foi definida com base na proposta de CHRISTOFOLETTI, (1980). O Gradiente dos canais foi definido pela equação: 27 Gc=a max/L (%), onde: Gc= gradiente de canais A max=altitude máxima L= comprimento do canal principal 2.5 LEVANTAMENTO DO USO DO SOLO O levantamento do uso do solo da sub-bacia do córrego André constou das seguintes etapas: delimitação da área de interesse; consulta a planta cadastral municipal da cidade de Mirassol D’Oeste; Censo Demográfico (IBGE, 2009); trabalho de Campo. 2.6 FORMAÇÃO VEGETAL Para a conceituação da formação vegetal da área de estudo, foram utilizados dados disponibilizados pelo Projeto RADAMBRASIL, 1982 e trabalho de campo com inventário dos indivíduos arbóreos com diâmetros à altura do peito (DAP >5,0 cm) (MULLER, 1974). Para a análise fitossociológica das espécies vegetais empregou-se o método de parcelas permanentes. Assim, no fragmento analisado, foram estabelecidas quatro parcelas de 25m x 25m, contíguas e distantes 20m entre si, totalizando, uma área inventariada de 2.500 m². Foram utilizados os parâmetros estruturais da vegetação segundo Muller, (1974): densidade absoluta, densidade relativa e densidade total. Para os cálculos foram usadas as fórmulas segundo (SOUZA et al., 2001). A densidade absoluta (DA) corresponde ao número de indivíduos de cada espécie por unidade de área. DA i= ni/A em que: DAi = densidade absoluta da i-ésima espécie, em número de indivíduos por hectare ni = número de indivíduos da i-ésima espécie na amostragem A = área total amostrada, em hectare 28 A Densidade Relativa (DR) é a relação entre o número de indivíduos de uma espécie pelo número total de indivíduos amostrados. DR= (ni/N).100, onde: DR= densidade relativa ni= número de indivíduos de espécie i N= Número total de indivíduos Densidade total (DT), é o número de indivíduos por hectare (soma das densidades de todas as espécies amostradas), é expressa pela fórmula: DT= N.U/A, onde: DT= densidade total N = nº total de indivíduos amostrados U = área ( m²) A = área amostrada (m²) 2.7 FAUNA A análise preliminar dos animais presentes no fragmento florestal da área de recarga das nascentes foi realizada através de entrevistas com moradores do entorno da área de estudo. 2.8 VAZÃO A vazão do córrego André foi medida no período de chuvas e no período de estiagem. As análises foram realizadas segundo Cunha (1998), definido pela equação: Q = V x A Q=VxA Onde: Q = Vazão V = Velocidade A = Área 29 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO 3.1 CLIMA O clima regional é do tipo tropical quente e sub-úmido, com duas estações, conforme classificação climática de Koppen. As temperaturas oscilam entre 24º a 32º na estação chuvosa e 22º a 36º na estação seca. Registra-se nesta região boa disponibilidade hídrica anual com índice pluviométrico que chega a tingir 1500 mm/anuais (SEPLAN, 2009). Em 2008 a precipitação média no município de Mirassol D’Oeste foi de 1022,4 mm ao ano. Comparando estes valores com dados do IBGE 2000, observa-se um déficit de chuva de 477,6 mm. No ano de 2009 os menores índices pluviométricos foram registrados no mês de julho, enquanto os meses de fevereiro e março apresentaram os maiores índices (Figura 2). (COOPERB, 2009). Figura 2 Precipitação ocorrida em Mirassol D’Oeste no período de Janeiro a Julho de 2009. 30 3.2 GEOLOGIA 3.2.1 Grupo Alto Paraguai A área de estudo está inserida no Grupo Alto Paraguai, com Formação Araras e Formação Moenda e o Complexo Xingu (MACEDO, 1979) (Figura 3). Registra-se no divisor de água da bacia a ocorrência de duas formações geológicas: Formação Araras (calcário) e Formação Moenda (paraconglomerados e blocos de arenitos). As características das rochas dessas formações possibilitam a percolação de água, contribuindo para o armazenamento nos lençóis e aqüíferos. Figura 3 Unidades Estruturais da sub-bacia hidrográfica do córrego André. Almeida (1965) definiu o Grupo Alto Paraguai como uma seqüência de rochas de idade pré-siluriana com mais de 3000 m de espessura e características litológicas distintas. No Complexo Xingu registram-se a ocorrência de vários tipos de rochas como a biotita-gnaisse, anfibolitos, xistos, quartzitos, migmatitos e granitos (SILVA, 1980). 31 3.2.1.1 Formação Araras Segundo Silva, (1980) as rochas calcárias da Formação Araras que ocorrem na região são paralelas compostas por margas conglomeráticas, calcários calcíticos e calcários dolomíticos. Na região da Província Serrana as rochas da Formação Araras possuem os tipos de rochas dolomitos mais abundantes e os que respondem pelas mais expressivas feições topográficas desta formação. No divisor de água registra ocorrência da Formação Araras, com dois pacotes: na base o calcário calcítico e com mudança gradual, registra ocorrência de dolomítico no topo, sendo o calcário dolomítico o pacote mais espesso (Figura 4). Figura 4 Formação Geológica no divisor de águas da sub-bacia André. O calcário em contato com água é facilmente dissolvido formando dutos, contribuindo para percolação da água e armazenamento nas fendas e faturas da rocha na área de recarga das nascentes do córrego André. O armazenamento de água nas áreas de recarga do córrego André, pode estar em lençol subterrâneo ou aqüífero confinado. 3.2.1.2 Formação Moenda A Formação Moenda faz parte do grupo de rochas que constituem as cabeceiras da sub-bacia hidrográfica, situando-se entre a Formação Araras e o 32 Complexo Xingu. No alto curso da sub-bacia na encosta da serra são encontrados paraconglomerados e blocos de arenitos. As rochas da Formação Moenda são compostas quase que exclusivamente por paraconglomerados petromíticos de cor marrom-arroxeado a chocolate e cinza esverdeado (ALMEIDA, 1965). As características da rocha com intercalação de fragmentos contribuem para infiltração da água. 3.2.1.3 Formação Complexo do Xingu No embasamento rochoso da sub-bacia hidrográfica do córrego André predomina o Complexo do Xingu. No baixo, médio e parte do alto curso, referese a rochas impermeáveis que contribuem com o armazenamento de água no lençol freático e afloramento das nascentes. Outro tipo de rocha encontrada é a biotita-gnaisse, que se apresenta em lajedos e matacões, geralmente um tanto intemperizados, com cor cinza, tonalidades escuras e esbranquiçadas, mesocráticos, granulação fina a média (VIEIRA, 1965). Alguns fatores contribuem para surgimento de várias nascentes: as rochas granitas e gnaisses são impermeáveis dificultando a percolação e infiltração; baixa declividade e embaciamento do terreno. 3.3 GEOMORFOLOGIA O relevo do alto curso é caracterizado pela extensão da Província Serrana (dobramentos antigos do Alto Paraguai), no médio e baixo curso encontra-se a Depressão do Jauru. 3.3.1 Província Serrana Estudos realizados por Ross (1992) contribuíram para classificar o relevo da Província Serrana (Superfície Dissecada) como um conjunto de anticlinais e sinclinais. A superfície dissecada no alto curso da sub-bacia é representada por serras com aproximadamente 280 m de altitude, formando um alinhamento de serras grosseiramente paralelas entre si, com plano de concavidade voltado para o sudoeste (VELOSO, 1991). 33 O relevo da área de estudo é resultado das fases erosivas que atuaram na estrutura dobrada, de diferentes formações litológicas. Apresenta-se com variadas formas, ocorrendo estrutura em anticlinais erodidas que em seu interior afloram os calcários da Formação Araras (ALMEIDA, 1964). 3.3.2 Depressão Jauru A Depressão do Jauru corresponde a uma superfície de relevo pouco dissecada, com pequeno caimento topográfico de norte para sul, interflúvios razoavelmente amplos, com topos planos e drenagem pouco profunda. O nível altimétrico oscila entre 120 e 300 m. Constitui-se por um pacote sedimentar suborizontalizado, composto principalmente, por paraconglomerados petromíticos, siltitos arenosos e folhelhos (OLIVATTI, 1976). 3.4 ANÁLISE DO RELEVO 3.4.1 Declividade média da sub-bacia A declividade da sub-bacia tem relação importante os processos hidrológicos: escoamento superficial, infiltração, umidade do solo e tempo de concentração da água nos canais de drenagem. A declividade média da subbacia do córrego André é de 0,666 m/m. 3.4.2 Altitude média da sub-bacia De acordo com Castro e Lopes (2001), a altitude média influencia a quantidade de radiação que a bacia recebe e, conseqüentemente, influencia a evapotranspiração, temperatura e precipitação. Quanto maior a altitude da bacia, menor a quantidade de energia solar que o ambiente recebe e, portanto, menos energia estará disponível para esses fenômenos. A altitude na subbacia hidrográfica do córrego André variou de 280 m a 200 m, sendo a altitude média de 240 m. 34 3.4.3 Amplitude altimétrica Nesta região manifestam extensões variadas com cotas altimétricas que variam entre 200 e 280 m, e, raramente ultrapassam os 300 m. A amplitude altimétrica da sub-bacia hidrográfica do córrego André é de 80 m com a menor altitude de 200 m localizada na foz e a maior altitude com 280 m situada na porção montante. 3.4.4 Razão de relevo da sub-bacia A razão de relevo indica a declividade geral ou declive total da superfície da sub-bacia. Quanto maior for à amplitude altimétrica e menor o comprimento total da sub-bacia maior será a razão de relevo e conseqüentemente maior é o declive geral da superfície da sub-bacia hidrográfica (STRAHLER 1957). A razão de relevo da sub-bacia hidrográfica do córrego André é pequena com 0,02 m, sugerindo que essa sub-bacia possui relevo suave. 3.4.5 Vazão A vazão do córrego André está vinculada a precipitação, dependendo da intensidade e temporalidade da chuva, ocorre o aumento ou diminuição do fluxo (escoamento superficial). Na primeira avaliação, observou-se uma vazão de foi de 0,001 m³/s. Na segunda avaliação, observou-se uma vazão de 0,068 m³/s. Comparando estes valores, é possível verificar que houve diminuição da vazão de 0,067 m³/s de água no córrego entre as medições, sendo que esta pode ser explicada pela diminuição da precipitação pluviométrica no período. Sendo assim, a vazão do córrego influencia na qualidade da água, pois esta tende a piorar com a diminuição da vazão e do efeito de diluição, pois ocorre concentração dos poluentes. 3.5 PARÂMETROS MORFOMÉTRICOS 3.5.1 Fator de forma da sub-bacia Conhecer o fator de forma de uma bacia é importante para determinar o tempo de concentração de água após uma precipitação. Quanto maior o tempo 35 de concentração, menor a vazão máxima de enchente. Quanto mais próximo de um (1,0) for o fator de forma, mais próximo da forma circular e conseqüentemente, maiores as chances de inundação terá a sub-bacia (VILLELA e MATTOS, 1975). O Fator de forma da sub-bacia hidrográfica do córrego André é de 0,0045. Esses valores indicam que a sub-bacia não possui formato semelhante ao de uma circunferência, correspondendo, portanto, a uma bacia alongada (Quadro 1). 3.5.2 Densidade de Drenagem A densidade de drenagem é um fator importante na indicação do grau de desenvolvimento do sistema de drenagem de uma bacia, seu estudo indica a maior ou menor velocidade com que a água deixa a bacia hidrográfica (STRAHLER, 1957). De acordo com Villela e Mattos (1975) o índice da densidade de drenagem pode variar de 0,5 km/km2 em bacias com drenagem pobre a 3,5 km/km2, ou mais, em bacias bem drenadas. A densidade de drenagem encontrada na sub-bacia hidrográfica do córrego André foi de 0,222 km/km2 (Quadro 1), mostrando que a sub-bacia apresenta em sua composição litológica, rochas de granulometria grossa, que possuem melhor permeabilidade, dificultando o escoamento superficial, indicando, assim, que a área em estudo possui baixa capacidade de drenagem, sinalizando que a água deixa a bacia hidrográfica com menor velocidade. 3.5.3 Ordem dos canais A sub-bacia hidrográfica do córrego André é de primeira ordem, apontando que o sistema de drenagem da bacia é sem ramificação (Quadro1). 3.5.4 Gradiente dos canais A finalidade do gradiente dos canais é indicar a declividade dos cursos d’água (HORTON, 1945). 36 O gradiente do canal, encontrado na sub-bacia hidrográfica do córrego André foi de 0,70%, indicando que o canal tende a possuir baixa declividade (Quadro 1). Quadro 1 Análise morfométrica da sub-bacia do córrego André. PARÂMETROS RESULTADOS INTERPRETAÇÃO Ordem do canal 1ª ordem A bacia não possui tributários. Densidade de drenagem 0,222 km/km Gradiente de canais 0,70% Fator de forma 0,0045 2 Baixa capacidade de drenagem Baixa declividade do canal Bacia alongada com baixa propensão à ocorrência de cheias Declividade média 0,666 m Topografia com baixa declividade com baixa suscetibilidade à erosão Razão de relevo 0,02 m Possui relevo suave 3.6 TIPOS DE SOLOS 3.6.1 Neossolos Litólicos Distróficos As áreas de recarga das nascentes estão sob solos Neossolos Litólicos Distróficos. Os solos desta classe são rasos, apresentam grande variabilidade, químicas, físicas e morfológicas, tendo a maioria textura cascalhenta. Em relação à fertilidade, estão intimamente influenciados pelo material originário (FREITAS,1995). 3.6.2 Argissolo Vermelho-Amarelo Distrófico As áreas de nascentes estão sob uma área de solos Argissolo Vermelho-Amarelo Distrófico. Trata-se de um relevo de baixa declividade (SEPLAN, 2009). Os argissolos são solos de baixa fertilidade natural, apresentando valores baixos em soma de bases e saturação de bases. O alumínio trocável e 37 a saturação do alumínio são altos, atingindo níveis nocivos ao desenvolvimento das plantas (FREITAS,1995). Nos Argissolos, podem ser desenvolvidas atividades pecuárias e de reflorestamento, não dispensando a adoção de práticas conservacionistas mais restritivas, especialmente na área próxima às nascentes (FREITAS,1995). 3.7 COMPOSIÇÃO FLORÍSTICA O estudo da composição florística foi conduzido em um fragmento florestal na área de recarga da bacia do córrego André, localizado nas coordenadas geográficas 15º40’35” de Latitude Sul e 58º04’30” de Longitude Oeste (Figura 5). Figura 5 Fragmento florestal na área de recarga da sub-bacia André em Mirassol D’Oeste-MT. A vegetação na área de recarga da sub-bacia apresenta uma fisionomia predominantemente florestal, cuja classificação fitogeográfica é Floresta Estacional Semidecidual Submontana (VELOSO, 1991). A região representa o contato florístico de ecótono de cerrado com floresta estacional (ABDON, 2006). A formação Floresta Estacional Semidecidual Submontana se encontra restrita às áreas descontínuas ou disjuntas, ocorrem em altitudes que variam de 50 a 500 m, preferindo substrato de natureza calcária (PCBAP, 1997). O fragmento estudado possui uma área aproximada 35 ha e representa aproximadamente 19,4% da área de estudo. A área possui locais com dossel 38 descontínuo e forte alteração promovida pelo corte seletivo e por queimadas ocasionais. Nas parcelas do fragmento florestal, foram inventariadas todas as árvores vivas com diâmetro igual ou superior a 5 cm, a comunidade avaliada é composta de árvores emergentes deciduais de porte fino, pois a maioria dos indivíduos concentra-se nas classes de diâmetro entre 10 e 14,9 cm. Foram inventariados 640 indivíduos e as espécies mais freqüentes foram: o angico (Piptadenia macrocarpa), aroeira (Astronium urundeuva) e jacarandá (Machaerium acutifolium). No curso do córrego André a mata ciliar reflete as condições ecológicas da comunidade local. Aproximadamente 95% das propriedades não possui a vegetação original, restando poucos exemplares de árvores exóticas, frutíferas e áreas com pastagens como Brachiaria (Brachiaria brizantha) e colonião (Panicum maximum), taboa (Typha dominguensis), sinamão (Melia azedarach), leucenas (Leucaena leucocephala). 3.7.1 Estrutura das comunidades vegetais A estrutura horizontal do fragmento florestal amostrado apresentou densidade total de 896 ind/ha. A densidade constatada indica a existência de um baixo número de indivíduos de cada espécie por hectare, quando comparado com outros levantamentos em florestas estacionais realizados no Mato Grosso. Na Chácara Alvorada (36°35’S e 52°16’W) no município de Canarana foram encontradas 2.496 árvores/ha (SUSTANIS et al., 2009), no Parque Estadual da Serra Azul (PESA), em Barra do Garças (15°52’S e 51°16’W), a densidade total foi de 1.280 árvores/ha (PEIXOTO et al.,2007). A baixa densidade de árvores na área de estudo está ligada a fatores antrópicos diretamente ligados ao uso do solo na sub-bacia (extração madeireira, atividade mineradora e expansão imobiliária). Dentre as espécies amostradas, as de maior densidade foram o angico (Piptadenia macrocarpa) e a aroeira (Astronium urundeuva), representando respectivamente 30,62% e 21,25% da densidade relativa na área. 39 Segundo Oliveira Filho (2000) é bastante comum em estudos fitossociológicos que algumas espécies sejam mais amostradas do que as demais, isto reflete uma maior adaptabilidade dessas espécies a determinados ambientes. Oliveira Filho (2000) constatou que fragmentos de comunidades arbóreas, podem apresentar diferenças florísticas e estruturais marcantes. Este fato é muito relevante do ponto de vista da conservação, pois vários fragmentos pequenos espalhados na paisagem podem encerrar comunidades muito distintas, não devendo ser tratados como amostras semelhantes de uma totalidade antes homogênea, e, por isto, merecem rigoroso planejamento de uso. 3.8 FAUNA De acordo com entrevistas realizadas com moradores do entorno do fragmento florestal da área de recarga do córrego André, na área existe diversidade de aves, como baitaca, tucano, papagaio, anu preto e nambu. Os principais representantes dos mamíferos são: macaco prego, quati, tatugalinha, preá, cutia, paca, entre outros. Possui também representantes de répteis: lagarto teju e algumas cobras como coral, jararaca, entre outras. Apesar das diversas perturbações antrópicas, o fragmento florestal estudado consegue manter uma fisionomia típica de florestas estacionais, abrigando considerável diversidade faunística. No entanto, a manutenção dos atuais níveis de perturbações, pode ocasionar ameaças a essas populações. 3.9 USO DO SOLO Na sub-bacia do córrego André a cobertura da terra reflete, de maneira geral, o resultado da atuação do homem sobre o meio ambiente natural, destacando-se uma paisagem combinada de remanescentes florestais, pastagens, uso agropecuário e áreas urbanizadas (Figuras 6). 40 Figura 6 Perfil da cobertura da terra na sub-bacia André. Foram identificadas três unidades de uso, a partir das áreas de recarga até à foz do córrego André: áreas de vegetação esparsa e mineração; área de expansão urbana (áreas com nascentes, represas, áreas de pastagens, uso agropecuário); e áreas de urbanização (bairros, escolas, comércio) (Figura 7). Figura 7 Uso do solo na área de expansão urbana da sub-bacia do córrego André. 3.9.1 Áreas de Vegetação Esparsa A Unidade área de vegetação esparsa ocorre principalmente no setor sudeste da sub-bacia, perfazendo uma área aproximada de 3,5 km² e tem como característica ser constituída de áreas de preservação. Esta unidade de 41 uso está relacionada diretamente ao relevo acidentado, acesso restrito e reduzido potencial agrícola do solo. Ao lado da área de vegetação esparsa localiza-se uma indústria de mineração. Correspondem às áreas sem cobertura vegetal diretamente modificada pelas atividades de mineração onde são ou foram desenvolvidas estruturas a elas ligadas (escritórios, oficinas, máquinas, cavas das minas, barragens de rejeitos, etc.). Destacam-se nesse cenário a exploração de rochas calcárias utilizadas na fabricação de pedra brita e pedrisco. 3.9.2 Áreas de Expansão Urbana A área de expansão urbana representa uma das áreas antropizadas da sub-bacia, possui sítios onde a vegetação foi modificada, devido às práticas agropecuárias (pastagens, uso agrícola). A água do córrego foi represada para ser usada no cultivo de hortas, criação de suínos, gado leiteiro, e tanques de piscicultura. O escoamento sanitário na área de expansão urbana apresenta-se precário, predominando as fossas rudimentares e as privadas. Nas áreas de uso agrícola predominam o cultivo de culturas cíclicas de milho (Zea mays ), arroz (Oryza sativa ) e mandioca (Manihot esculenta crantz). Ocupa, principalmente, a porção leste da sub-bacia. A produção agrícola dentro da economia municipal é pouco representativa, voltada para a subsistência familiar, o que pode ser percebido através da utilização inexpressiva, de apenas 8,7% das terras rurais do município, para a implantação de lavouras permanentes e temporárias (EMPAER/MT, 2009). 3.9.3 Áreas de Urbanização A Unidade áreas de urbanização é representada pelas principais aglomerações urbanas de bairros e residências, escolas e área comercial adjacente ao córrego André. Nestes pontos a dinâmica do curso d’água foi alterada através de obras de canalização e instalação de placas de concreto. O córrego André possui 35% de sua área total canalizada e cimentada. 42 3.10 Uso do solo e alterações do regime hídrico O múltiplo uso de um curso d’água causa inúmeras alterações do meio ambiente. Esses impactos se manifestam diretamente sobre a hidrologia (TUNDISI,1999) (Tabela 1). Segundo Margalef (1986), a qualidade da água de um manancial depende das ações praticadas no solo desta bacia e, em conseqüência, tornase necessária à gestão do uso do solo para a manutenção da qualidade dos recursos hídricos. Tabela 1 Principais alterações do regime hídrico relacionadas ao uso do solo. Atividades Desmatamento Alterações no Regime Hídrico Maior escoamento superficial e redução do abastecimento. Aporte de substâncias poluentes. Represamento Alteração do ciclo hidrológico, maiores taxas de evaporação e infiltração, provocando perdas de volume d'água. Canalização Alteração da dinâmica natural. Variação de temperatura. Mineração Perturbação hidráulica na área de recarga podendo ocasionar a remoção do solo com exposição do nível freático, deixando-o vulnerável à poluição. Ocupação da APP Contaminação por esgoto doméstico e atividades agropecuárias. Lixiviação e assoreamento. As atividades antropogênicas mencionadas (tabela 1), associadas às características geoambientais da bacia do córrego André (Quadro 1), favorecem os processos de degradação deste curso d’água. A canalização, o represamento e aterramento de alguns pontos do córrego, contribuem com estrangulamento da rede de drenagem. No escoamento, esse processo tem causado impermeabilização do solo urbano, fazendo com que as cheias locais se agravem, em períodos chuvosos, provocando entupimento dos condutos e canais por sedimentos, alterando a eficiência do fluxo. 43 Os processos de impermeabilização do solo, juntamente com o desmatamento da APP, favorecem a redução da quantidade de água e alteração de sua qualidade. 4 CONCLUSÕES As rochas impermeáveis do Complexo Xingu localizadas no alto e médio curso da bacia do córrego André contribuem com o armazenamento de água no lençol freático e afloramento das nascentes na área de expansão urbana. O avanço da urbanização e pavimentação nestas áreas podem no decorrer do tempo, comprometer a capacidade de carga desse ambiente e influenciar na redução da quantidade e qualidade de água infiltrada. A composição litológica das cabeceiras da sub-bacia, como as rochas areníticas, juntamente com a presença de represas, permite que ocorram maiores taxas de infiltração, provocando, dessa maneira, perdas de volume d'água, em quantidades consideráveis. Verificou-se a diminuição da vazão do córrego no período avaliado. O desmatamento nas cabeceiras da sub-bacia tem contribuído com a baixa densidade de vegetação, o que ocasiona sérios danos à sustentabilidade ambiental deste ecossistema. A conservação desses fragmentos florestais é de fundamental importância para a preservação deste ecossistema, uma vez que a floresta contribui com o abastecimento de água e redução do aporte de substâncias poluentes. Outro fator que pode ser considerado de risco é a atividade mineradora, na área de recarga da sub-bacia. A perturbação hidráulica pode ocasionar a remoção do solo e exposição do nível freático, que combinado com o relevo cárstico dessa área, pode acelerar processos de contaminação. A bacia do córrego André apresenta fragilidade ambiental. As atividades antropogênicas e as características geoambientais da bacia influenciam decisivamente na qualidade e quantidade de suas águas, favorecendo processos de degradação. Assim sendo, a ocupação desta sub-bacia deve ser feita com planejamento adequado, com restrição especialmente às áreas de recarga e adjacências do córrego. No entanto, é indispensável a participação 44 conjunta do poder público e comunidade, na gestão do local, incorporando práticas de educação e gestão ambiental, visando à preservação e recuperação dos ecossistemas locais. 5 REFERÊNCIAS ABDON, M. M.; SANTOS, V. S. 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A sub-bacia do córrego André foi dividida em seu gradiente longitudinal, em cinco pontos eqüidistantes de amostragens, com monitoramento entre junho/2008 a outubro/2009. Foram analisados fatores como o uso do solo, aspectos da rede de drenagem e sazonalidade. As coletas de água foram realizadas desde as nascentes do córrego André, um tributário de 2ª ordem do córrego São Francisco, até sua saída na cidade de Mirassol D’Oeste. As variáveis relacionadas em um índice de qualidade de água (IQA) foram: Temperatura, Turbidez, pH (Potencial Hidrogeniônico), Fósforo Total, Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO), Nitrogênio Total, Oxigênio Dissolvido, Sólidos Totais e Coliformes Fecais. De acordo com as disposições finais e transitórias da Resolução CONAMA nº 357/2005, os índices da qualidade da água do córrego André apresentados nas análises enquadram-se nas águas de classe 2. A análise de IQA classifica as águas do córrego André como regular na maioria dos pontos amostrais, com perda progressiva da qualidade das águas da nascente para a foz. Os resultados indicaram que o IQA utilizado é sensível às variações sazonais e responde ao aporte de sedimentos e matéria orgânica por escoamento superficial. Evidenciou-se alterações na qualidade da água relacionadas especialmente com à densidade e natureza da ocupação. Acredita-se que tal fato pode estar relacionado com o uso conflituoso dos terrenos, com desenvolvimento da mineração, crescente ocupação urbana e expansão imobiliária. Na área de estudo o uso predominante é agropastoril e mineração na porção superior e influência urbana na parte inferior. O desmatamento, os diversos processos erosivos, os mananciais assoreados, a canalização e represamento do curso d’água, são outros problemas ambientais observados que podem estar afetando a qualidade da água da sub-bacia. Palavras-chave: Qualidade da água e IQA, uso do solo, rede de drenagem, sub-bacia do córrego André, Mirassol D’Oeste-MT Relations between water quality and land use of sub-basin of the stream in André Mirassol D'Oeste-MT Abstract - This research was conducted in the sub-basin of the Andrew creek in the city of Mirassol D'Oeste, Southwest of Mato Grosso in order to investigate possible links between water quality and land use sub-basin. The sub-basin of the Andre stream was divided in its longitudinal gradient in five equidistant sampling points, with monitoring between June/2008 to October/2009. We 49 analyzed factors such as land use, aspects of the drainage network and seasonality. The water sampling were carried out from the sources André stream, a tributary of 2nd order San Francisco stream, until his departure in the city of Mirassol D'Oeste. Variables related to a water quality index (WQI) were: Temperature, Turbidity, pH (hydrogen potential), Total Phosphorus, Biochemical Oxygen Demand (BOD), Total Nitrogen, Dissolved Oxygen, Total Solids and Fecal Coliforms. According to the final and transitional provisions of CONAMA 357/2005 Resolution, the indexes of water quality Andre stream presented in the analysis fall into the waters of Class 2. The analysis of WQI classifies the waters of the stream with Andrew as regulate progressive loss of water quality from the source to the mouth. The results indicated that AQI used is sensitive to seasonal changes and responds to the amount of sediment and organic matter runoff. It became evident changes in water quality especially related to the density and nature of the occupation. It is believed that this might be related to the conflicting use of land, with development of mining, urban expansion and growing real estate expansion. In the study area the predominant use is agropastoral and mining at the upper and urban influence on the bottom. Deforestation, the various erosions, the silting of streams, the diversion and impoundment of water courses are other issues that impact the environment that may be affecting water quality in the sub-basin. Keywords: Water quality and WQI, land use, drainage, sub-basin of the Andrew stream Mirassol D'Oeste-MT 1 INTRODUÇÃO O levantamento das características sócio-ambientais e dos usos de uma determinada região é de fundamental importância para o conhecimento de suas potencialidades e fragilidades ambientais e sociais. Nesse contexto, enquadram-se os estudos relativos aos recursos naturais, aos atores sociais e às diversas atividades realizadas (TUNDISI, 2002). A água é um dos mais importantes recursos naturais de que a sociedade dispõe, sendo indispensável para a sua sobrevivência. Dentre os vários usos da água doce, destacam-se aqueles empregados para abastecimento humano e industrial, higiene pessoal e doméstica, irrigação, geração de energia elétrica, navegação, preservação da flora e fauna, aqüicultura e recreação. Desses usos, o abastecimento humano é considerado prioritário (FREITAS, 2000). Por outro lado, a água é um dos principais meios de disseminação de agentes patogênicos, motivo pelo qual a legislação determina que para cada 50 uso da água exigem-se os limites máximos de impurezas que ela pode conter e, quando as contiver, exige-se tratamento adequado (BENETTI, 2000). A qualidade da água depende das condições naturais e da ocupação do solo na bacia hidrográfica, sendo produto da qualidade da água em um ponto anterior, modificada por diversos fatores atuantes (BRAGA et al., 2005). Não há um indicador de qualidade de água único e padronizável para qualquer sistema hídrico. Uma forma de avaliar objetivamente essas variações é a combinação de parâmetros de diferentes dimensões, em índices que os reflitam conjuntamente em uma distribuição amostral no espaço e no tempo (TOLEDO e NICOLELLA, 2000). Diversos índices foram desenvolvidos com base em características físico-químicas da água ou a partir de indicadores biológicos, cabendo ajustes nos pesos e parâmetros para adequação à realidade regional. Usualmente, estes IQAs (Índice de Qualidade das águas) são baseados em poucas variáveis (GERGEL et al., 2002), cuja definição deve refletir as alterações potenciais ou efetivas, naturais ou antrópicas que a água sofre (TOLEDO e NICOLELLA, 2000). A qualidade de determinada água se dá em função do uso e da ocupação do solo na bacia hidrográfica, ao serem relacionadas à indicadores de qualidade da água, podem refletir a intensidade das alterações antrópicas, principalmente no âmbito da bacia hidrográfica (GERGEL et al., 2002). A retirada da cobertura vegetal ciliar dos rios, a intensa implementação da agropecuária e o lançamento de efluentes domésticos e industriais são as principais interferências negativas sobre os ecossistemas aquáticos, acarretando processos de contaminação, eutrofização e interferência nos padrões de qualidade dos corpos d’água que abastecem cidades (FARIA & CAVINATTO, 2000). Desta forma, de maneira geral, os índices e indicadores ambientais nasceram como resultado da crescente preocupação social com os aspectos sociais do desenvolvimento, processo este que requer um número maior de informações, em grau de complexidade, também cada vez maiores. Por outro 51 lado os indicadores tornaram-se fundamentais nos processos decisórios de políticas públicas e no acompanhamento de seus efeitos (SPERLING, 1996). Na avaliação dessa qualidade, devem ser respeitadas características físicas, químicas e biológicas propostas pela Organização Mundial de SaúdeOMS. Dentro dessa realidade, diagnosticou-se a qualidade das águas do córrego André, relacionando-a ao uso do solo no município de Mirassol D’Oeste, entre o período de Junho de 2008 a Fevereiro de 2010. Como justificativa, tem-se as alterações ocorridas no âmbito do córrego, bem como o crescimento populacional e as diferentes formas de ocupação nesta área. 2 MATERIAL E MÉTODOS 2.1 Área de estudo O estudo foi desenvolvido na sub-bacia hidrográfica do córrego André, localizada na região micro-região do Jauru, compreendendo parte do município de Mirassol D’Oeste, Sudoeste do Estado Mato Grosso. O córrego André pertence à bacia hidrográfica do rio Jauru, que é afluente do rio Paraguai e possui área de aproximadamente 18 km² na direção SE-NO. A classificação climática para a região, segundo Köeppen, é do tipo tropical quente e sub-úmido, com temperatura anual entre 24° e 36°. A precipitação anual normal é de 1.500 mm (SEPLAN, 2009). As nascentes do córrego André encontram-se em área movimentada, extensão da Província Serrana (dobramentos antigos) geologicamente inserida no Grupo Alto Paraguai (Formação Araras, Formação Moenda) e o Complexo Xingu. As classes de solos presentes são: Neossolos Litólicos Distróficos e Argissolo Vermelho-Amarelo Distrófico. A vegetação remanescente compreende principalmente Florestas Estacionais Submontana, sendo contato florístico de ecótono de cerrado com floresta estacional semidecidual submontana (SEPLAN, 2009). 52 2.2 Levantamento de campo Para melhor analisar aspectos da rede de drenagem e investigar possíveis relações entre qualidade da água e uso do solo, a sub-bacia do córrego André foi dividida em cinco pontos, desde as nascentes do córrego André até sua saída na cidade de Mirassol D’Oeste. Para determinação de suas coordenadas foi utilizado o aparelho GPS Garmin 38. Os critérios para escolha dos locais de coleta levaram em consideração o uso e ocupação do solo e diversidade de paisagens. As medições de vazão foram realizadas nos pontos de amostragens por meio do método de flutuadores, conforme citado por Azevedo Neto (2000), coincidindo com o período de coleta e análises de água. 2.3 Coleta e análise da água As amostras de água foram coletadas nos primeiros 30 cm da lamina d’água durante o período de estiagem nos meses de Junho de 2008 e no período das chuvas, março de 2009 e fevereiro de 2010, em cinco trechos do córrego: o primeiro (P1) localiza-se em uma represa na área de expansão urbana (15° 40’31’’ e 58°04’44’’), o segundo (P2) em um tanque de piscicultura (15° 41’56’’ e 58°05’38’’), o terceiro (P3) em nascentes urbanas (15°40’59’’ e 58°05’28’’), o quarto (P4) canal do córrego cimentado em área urbana (15°41’04” e 58°05’61”) e o quinto ponto (P5) abaixo de uma ponte no Bairro Bandeirantes II (15°40’52’’ e 58°06’01’’). As amostras de água foram coletadas em frasco de polietileno com capacidade aproximada de 300 ml. No campo foram analisadas a temperatura da água com termômetro digital em horário das 9:00 às 11:00 horas. As análises experimentais foram realizadas no Laboratório de saneamento: Análises químicas e controle de qualidade de águas- Analítica, localizado em Cuiabá. Nas análises laboratoriais as amostras foram avaliadas através dos métodos analíticos baseados no Standard Methods for examinations of Water and Wastewater (APHA, 1998). 53 Para as variáveis turbidez e oxigênio dissolvido na água foi aplicada análise de correlação de Pearson (p<0,05). 2.3.1 Índice de Qualidade de Água (IQA) Os valores finais do IQA são expressos em categorias de qualidade e podem ser representados por cores, facilitando a interpretação dos resultados. Os valores do índice (IQA) variam entre 0 e 100 (Quadro 1). Assim definido, o IQA reflete a interferência por esgotos sanitários e outros materiais orgânicos, nutrientes e sólidos. Quadro 1 Classificação do IQA A partir da coleta e análise da água foi realizada a análise de IQA, o qual consiste em um índice desenvolvido pela National Sanitation Foundation, USA. Para cálculo do IQA usa-se a fórmula multiplicativa cuja expressão é: Sendo: IQA= Índice da qualidade da água qi = qualidade do parâmetro i obtido através da curva média específica wi = peso atribuído ao parâmetro, em função de sua importância na qualidade. 2.3.2 Variáveis Analisadas no IQA As Variáveis usadas para calcular o IQA foram: Variáveis físicas: Turbidez e Temperatura. Variáveis químicas: DBO; pH; Oxigênio; Nitrogênio e Fósforo Total. Variáveis biológicas: Coliformes Fecais (Tabela 2). 54 Tabela 2. Descrição das variáveis utilizadas no IQA Variáveis Descrição Indicação DBO É a quantidade de oxigênio consumida mg/L pH Medida da concentração dos íons de hidrogênio numa solução Expressa propriedades de transmissão da luz de uma solução São representados por nitratos, nitritos, amônia, fosfatos e outros Indica a quantidade de matéria orgânica biodegradável presente Pode indicar a presença de poluição, Reflete a penetração da luz ou transparência da água Importantes na produção primáriaão de organismos aquáticos UNT Turbidez Nitrogênio e Fósforo Unidade Escala de 0 a 14 mg/L OD Expressa a quantidade de oxigênio dissolvido na água Fundamental para a sobrevivência de comunidades aquáticas mg/L Sólidos Totais Possuem características físicas (suspensos/ dissolvidos) e químicas (orgânicos / inorgânicos). Constituem o indicador de contaminação fecal mais comum Toda a matéria que permanece como resíduo na água mg/L Parâmetro usado na caracterização e avaliação da qualidade das águas Quando elevada, resulta na perda de gases pela água, gerando odores e desequilíbrios (UFC/100ml) Coliformes Fecais Temperatura Pode influir nas atividades biológicas, absorção de oxigênio e precipitação de compostos C° 55 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO 3.1 Pontos de amostragem da sub-bacia Figura 8 Aspectos dos pontos amostrados para as análises de água do córrego André, Junho de 2008- Fevereiro de 2010. Os pontos de amostragens P1 (represa) e P2 (tanque de piscicultura) representam a região de expansão urbana, localizados ao norte da sub-bacia. 56 Os pontos de amostragens P3 (nascente), P4 (canal cimentado) e P5 (ponte no Bairro Bandeirantes II) (Figura 8), localizam-se na região urbana da cidade de Mirassol D’Oeste, onde a urbanização se consolidou às margens do córrego. 3.2 Uso e Ocupação do Solo A sub-bacia do córrego André configura-se em uma região de uso misto em termos de ocupação, podendo ser dividida geograficamente em três setores: No primeiro setor localiza-se a área de vegetação esparsa e área de mineração e no segundo setor localiza-se a área de expansão urbana, com sítios, conjuntos habitacionais e bairros residenciais. Nos sítios o córrego André é cortado por represas e tanques de piscicultura. Nas adjacências do córrego existe produção de hortaliças, criação de animais (porcos, aves e gado leiteiro), além de ter, eventualmente agricultura de subsistência com lavoura de milho (Zea mays ) e arroz (Oryza sativa ). Este trecho corresponde aos pontos de amostragens 1 e 2. O córrego André nestes pontos ainda corre em seu leito natural. As influências de natureza antrópica nestes pontos ocorrem com lançamento direto de efluentes gerados nas residências e chácaras. No terceiro setor localiza-se a região urbana da cidade, ocupada por comércios e residências e corresponde aos pontos de amostragens 3,4 e 5. Estes locais são alvo de obras de drenagem e pavimentação, o córrego corre em canal aberto cimentado. Nas laterais do canal principal do córrego o aterramento tem contribuído com o transbordamento do canal no período chuvoso e alagamento permanente de algumas áreas. No ponto de amostragem 3, no período chuvoso, algumas nascentes que abastecem o canal principal, foram aterradas, ocasionando a sua extinção e/ou migração. Nestes pontos observa-se que as principais fontes de poluição são de origem industrial, com lançamento de resíduos de óleos e graxas provenientes das oficinas mecânicas. O uso e ocupação do solo da sub-bacia do córrego resultaram em diversas mudanças nas características ambientais do curso d’água, 57 ocasionando alterações do sistema de drenagem com alteração de sua dinâmica natural. 3.3 Variáveis Avaliadas Após identificação dos usos predominantes do solo e das mudanças nas características ambientais da sub-bacia, foram avaliadas algumas variáveis nos diversos pontos de amostragem, no período da seca e da chuva (Tabela 3), à luz de padrões de qualidade de águas superficiais de classificação dos corpos d’água apresentada pela Resolução CONAMA 357/05. Tabela 3. Resultado das Análises de água nos pontos de amostragens do córrego André no período de seca e de chuva. Período Seca Variáveis pH Turbidez CONAMA 357/05* P1 6,0 a 9,0 ≤ 100,0 0,050 mg/l ≤ 5,0 __ Chuva P2 P3 P4 P5 P1 P2 P3 P4 P5 7,84 7,86 6,16 7,40 7,39 7,49 7,46 7,47 7,25 7,09 39,5 37,3 4,23 75,5 23,9 83,2 17,7 56,1 60,0 60,5 Fósforo 0,67 0,40 0,80 0,55 0,88 0,27 0,03 0,13 0,23 0,15 Total DBO 16,0 12,0 3,5 15,0 14,0 3,0 2,5 2,5 2,5 2,5 Nitrogênio 7,8 6,2 0,9 4,4 9,0 1,04 0,47 2,13 1,09 1,18 Total Oxigênio > 5,0 3,2 2,9 5,6 4,9 3,7 3,21 1,07 2,15 3,04 3,19 Dissolvido Sólidos 500 282,0 332,0 252,0 418,0 276,0 311,0 420,0 330,0 610,0 218,0 Totais Coliformes __ 7,4 x 102 9,0 x 102 1,8 x 102 6,0 x 102 5,0 x 102 9,0 x 102 1,2 x 103 3,3 x 102 1,0 x 103 2,0 x 102 Fecais Temperatura __ 27º 28º 28º 29º 30º 29,6° 29,3° 29,5° 29,5° 30,0° Valores para águas doces de classe 2- Resolução CONAMA 357/05. Após as análises da água nos diferentes pontos de amostragens foram verificadas as seguintes tendências: As variáveis Turbidez, pH e Sólidos Totais em todos os pontos amostrais, enquadram-se nos limites estabelecidos pela Resolução CONAMA 357/05, para águas de Classe 2. No entanto, foram observados altos valores de DBO, Temperatura, Coliformes Fecais e Fósforo Total em quase todos os pontos amostrais e baixos valores de O.D. Tais variáveis não apresentam 58 condições de qualidade de água compatíveis com a Classe 2, excedendo os limites estabelecidos (Resolução CONAMA n° 357/05). 3.3.1 Demanda Bioquímica de Oxigênio – DBO Valores elevados de DBO foram identificados na estação seca a partir do ponto de amostragem 1. Tais valores estão relacionados com a carga de efluentes domésticos e industriais e com a baixa vazão do córrego na seca, pois a atividade auto-depurativa é diminuída neste período. Os teores de DBO nos pontos estudados apresentaram oscilações entre máximos e mínimos na ordem de 12,0 e 16,0 mg/L na seca, com exceção do ponto 3 (nascente) e 2,5 e 3,0 mg/L na chuva. Os valores de DBO na seca estiveram fora dos padrões de referência da Resolução CONAMA 357/05, que é de até 5,0 mg/L, para a classe 2. Benetti (2005) afirmou que águas seriamente poluídas apresentam DBO maior que 10 mg/L e que altos índices podem gerar a diminuição e até a eliminação do oxigênio presente nas águas gerando alterações substanciais no ecossistema. Nessas condições, os processos aeróbicos de degradação orgânica podem ser substituídos pelos anaeróbicos, ocasionando eutrofização e inclusive extinção das formas de vida aeróbicas. De maneira geral, pode-se dizer que os níveis de DBO sofreram alteração condicionada principalmente ao ciclo hidrológico, apresentando valores baixos no período de cheia e elevados no período de seca (Figura 9). 59 Figura 9 Variação da Demanda Bioquímica de oxigênio no córrego 2008/2010. 3.3.2 Oxigênio Dissolvido – O.D O Oxigênio dissolvido, analisado na estação seca e na estação chuvosa nos pontos amostrais, apresentou variação de 1,07 a 4,9 mg/L (Figura 10), não apresentando concordância com os valores de referência do CONAMAResolução 357/2005, para águas de classe 2 (>5,0 mg/L). No ponto 5 há evidências de contaminação por esgotos domésticos. Somente no ponto 3, o valor apresentado esteve em concordância (5,6 mg/L). A elevação dos valores desta variável no ponto 3, é resultante do fluxo da água das nascentes deste local. Os baixos valores de O.D indicaram que a água sofre um aporte contínuo de material orgânico biodegradável, com a conseqüente depleção dos níveis de oxigênio dissolvido. Tal fato pode estar relacionado com a deposição de animais mortos no canal, lançamento de esgoto doméstico e alta DBO. Em mananciais superficiais onde não há poluição, o O.D deve apresentar valores não inferiores a 6 mg/L (LOUZADA, 2002). Os valores encontrados evidenciam que o córrego André se encontra fora dos padrões de qualidade, atingindo valores mínimos de até 1,07 mg/ L. 60 Figura10 Variação do Oxigênio Dissolvido no córrego André em Mirassol D’Oeste-MT. 2008/2010. 3.3.3 Temperatura da Água A temperatura da água do córrego André, nos pontos amostrais apresentou variação de acordo com a temperatura do ar, com menores valores na seca, no mês de Junho com 27,0° C e maiores valores na chuva, em março (30,0 ° C). Observou-se uma tendência de aumento de montante à jusante (Figura 11). De maneira geral a temperatura da água do córrego André apresentou valores mais altos quando comparados com outros corpos d’água no estado do Mato Grosso. Souza et al. (2008) ao realizar um monitoramento da água da micro-bacia do Queima-pé em Tangará da Serra-MT, encontrou variação de temperatura de 20,0°C a 23,0° C para o período chuvoso. Moreira (2007) encontrou variação de temperatura entre 21,6 e 26,7° C no rio Correntes, Piquiri- MT. A elevação de temperatura da água no córrego André pode estar associada à retirada da vegetação ciliar. Segundo Guereschi & FonsecaGessner (2000) o grau de sombreamento provocado pela mata ciliar, é um fator que pode determinar a temperatura de um corpo d’água. Outro fator que pode ter influenciado na alta temperatura da água é a alteração da dinâmica natural do córrego (canalização). 61 Figura 11 Variação da Temperatura da água no período da seca e de chuva. 3.3.4 Turbidez Todos os pontos estudados apresentaram valores de turbidez menores que o limite máximo aceitável para as águas de classe 2 (100,0 UNT) (Figura 12). Constata-se que no período chuvoso as águas que circulam no córrego André apresentam maiores quantidades de sólidos suspensos e que misturadas às águas oriundas de esgotos resultam em maior turbidez. O maior valor de turbidez foi identificado no período da chuva com 83,2 UNT no ponto 1 (represa), localizada no alto curso da bacia, onde o uso predominante é a pecuária. A sedimentação ocasionada pelo pisoteio do gado ocorre de forma lenta, não alterando demasiadamente a turbidez. No período da seca, no P4 ocorreu a maior elevação da turbidez 75,5 UNT. Estes resultados estão associados à presença de materiais em suspensão (óleos, graxas e efluentes domésticos) provenientes das oficinas e residências no entorno dos pontos 4 e 5. 62 Figura 12 Variação da Turbidez da água do córrego André no período da seca e de chuva. A análise de correlação de Pearson aplicada nas variáveis Oxigênio Dissolvido e Turbidez demonstram que as variáveis não estão correlacionadas, isto é, existe independência absoluta entre as mesmas (Figura 13). Figura 13 Correlação entre Turbidez e Oxigênio dissolvido. 3.3.5 pH A variação de pH, tanto no período de seca quanto no período de chuvas estiveram com valores mostrando tendência a valores neutros, entre 7,09 e 7,84 (Figura 14). Tais valores apresentaram concordância com os valores de referência do CONAMA - Resolução 357/2005, artigo 15 (Águas 63 doces - classe II) que é de 6,0 a 9,0. Os valores de pH no córrego André podem estar relacionados com a atividade fotossintética das algas. Outro fator que pode ter influenciado a variação do pH é o aporte de carbonatos oriundos da formação geológica da região (rochas calcárias). Somente nas amostras coletadas no ponto amostral 3 na seca, ocorreram soluções levemente ácidas, com valor de 6,16. Figura 14 Variação do pH no córrego André em Mirassol D’Oeste - MT. 2008/2010. 3.3.6 Fósforo Total O parâmetro Fósforo Total, teve valores de concentração relativamente altos, com variação de 0,40 mg/L a 0,88 mg/L (Figura 15). Em todos os pontos, ultrapassou o valor de referência para a classe 2, que é de até 0,050 mg/L (Resolução CONAMA 357/05). Os maiores valores de Fósforo Total ocorreram nos pontos 1, 4 e 5. O aporte de esgotos domésticos nestes trechos foi a principal fonte de P-total no corpo d’água. Estes locais podem ser considerados eutrofizados, pois, apresentaram altos valores de DBO e Fósforo, fato que pode ser comprovado com o crescimento de algas no curso d’água. Nos pontos 1e 2 o córrego não possui mata ciliar e paralelas ao córrego existem áreas com plantio de milho (Zea mays), arroz (Oryza sativa) e 64 atividade pecuária. A dispersão difusa de fertilizantes e pesticidas usados nas atividades agropastoris contribuíram com a elevação do Fósforo Total nestes pontos. Segundo Freitas (2000) as águas drenadas em áreas agrícolas e urbanas podem provocar a presença excessiva de Fósforo em águas naturais entre outras fontes antrópicas. Figura 15 Variação do Fósforo Total no córrego André em Mirassol D’Oeste-MT. 2008/2010. 3.3.7 Nitrogênio Total As concentrações de Nitrogênio Total ao longo da série analisada nos pontos de amostragem, apontam que o Nitrogênio teve elevações nos valores principalmente no período de seca, com valores de concentrações variando de 4,4 a 9,0 mg/l e para o período de chuvas variou de 1,04 a 2,13 mg/l, com exceção do ponto de amostragem 3 (nascente) que foi de 0,9 na seca e 0,47 mg/l na chuva (Figura 16). Dentre as fontes pontuais de Nitrogênio no córrego André está o esgoto doméstico e dispersão difusa de fertilizantes nitrogenados utilizados nas lavouras na área de expansão urbana. 65 Figura 16 Variação do Nitrogênio Total no córrego André em Mirassol D’Oeste-MT. 2008/2010. 3.3.8 Sólidos Totais No período da seca os valores de Sólidos Totais sofreram variação nos pontos amostrais, de 252,0 a 418,0 mg/l (Figura 17). Isso provavelmente ocorreu devido ao material que é transportado como partículas de areia, despejos de mineração, indicado pela turbidez, além do esgoto doméstico proveniente dos conjuntos habitacionais situados próximos ao córrego, entre outros. Nas águas potáveis o conteúdo de sólidos totais geralmente varia de 20 a 1000 mg/l e o limite estabelecido pela Resolução CONAMA é de 500mg/l (FREITAS, 2000). 700 S ólidos Totais 600 500 400 Seca 300 Chuva 200 100 0 P1 P2 P3 P4 P5 Figura 17 Variação dos Sólidos Totais no córrego André em Mirassol D’Oeste - MT 2008/2010. 66 3.3.9 Coliformes Fecais A quantidade de Coliformes Fecais sofre variação principalmente em função de fatores espaciais, com maiores valores na área de expansão urbana, nos pontos de amostragem 1 e 2 com 7400 NMP/100ml e 9000 NMP/100ml, respectivamente. O pico de concentração no ponto de amostragem 2 ultrapassou os limites da resolução, que estabelece até 5000 NMP/100ml (CONAMA, 274/00). O aumento dos coliformes nos dois pontos deve-se à contribuição de fezes de animais (vacas, cavalos, porcos, galinhas, entre outros) e fezes humanas das chácaras localizadas ao longo das margens do córrego, que fazem uso de fossas rudimentares e privadas. 1400 Coliformes Fecais 1200 1000 800 Seca 600 Chuva 400 200 0 P1 P2 P3 P4 P5 Figura 18 Variação de Coliformes Fecais no córrego André. 2008/2010. 3.4 Resultados do IQA e Avaliação da qualidade da água Para o período da seca nos pontos 1, 2, 4 e 5 a classificação do IQA da água do córrego André apresentou-se regular. No ponto 3, a qualidade da água é classificada como boa, como esperado, em vista das nascentes difusas do local (Tabela 3). No período de estiagem o IQA variou entre 37,0 e 56,0. O fósforo total e DBO foram os parâmetros que apresentaram a pior qualidade. A percentagem de saturação de oxigênio dissolvido no período da seca esteve abaixo do padrão em todos os pontos. Para o período das chuvas a classificação do IQA das águas do córrego André apresentou-se como regular nos pontos 2 e 3 e nos pontos 4 e 5 é 67 classificada como boa. Somente no ponto 1 a água classificou-se como ruim (Tabela 4). Tabela 4. Valores de IQA obtidos nos pontos de amostragem na sub-bacia do córrego André no período de seca e de cheia. Período SECA 1 2 3 37,0 41,0 56,0 Categoria Regular Regular Ponto IQA Boa CHEIA 4 48,0 Regular 5 1 2 3 4 5 49,81 52,24 58,27 44,0 33,78 44,61 Regular Ruim Regular Regular Boa Boa De forma geral a qualidade das águas do córrego André, segundo os valores do IQA, é considerada regular. Quase todos os trechos apresentaram qualidade média. As águas deste córrego estão sensivelmente prejudicadas pelas atividades antrópicas, com o descarte de efluentes domésticos, comercial e agropecuário. Os valores obtidos explicam respectivamente que as variáveis O.D, DBO, Coliformes Fecais e Fósforo Total foram as principais responsáveis pela diminuição da qualidade da água do córrego. Verifica-se que a qualidade da água dos pontos 1,2 e 3 do córrego André classificam-se como Classe 2. Segundo esta classificação, estas águas podem ser destinadas ao abastecimento para consumo humano, após tratamento convencional; à proteção das comunidades aquáticas; à recreação de contato primário, tais como: natação, esqui aquático e mergulho, à irrigação de hortaliças, plantas frutíferas e de parques, jardins, campos de esporte e lazer, com os quais o público possa vir a ter contato direto; e à aqüicultura e a atividade de pesca (BRASIL, 2005). 4 CONCLUSÕES Os resultados das análises da água mostraram que o córrego André apresenta-se com índices elevados de DBO, Fósforo Total, Coliformes Fecais e Temperatura e baixa concentração de Oxigênio Dissolvido. Na estação seca principalmente as variáveis Turbidez e Temperatura interferiram na qualidade da água, o que pode estar relacionado à baixa vazão do córrego. Verificou-se a diminuição da vazão no período avaliado. Na 68 estação chuvosa as variáveis DBO e Fósforo Total evidenciaram potenciais fontes de carreamento de sedimentos e formação de erosão na área. Os valores de IQA calculados mostram que a qualidade das águas do córrego André pode ser classificada como regular e que de forma geral, o Fósforo Total, DBO e O.D foram as variáveis que mais influenciaram na redução da qualidade da água na bacia. As variáveis avaliadas mostraram alterações ligadas à fatores espaciais com perda progressiva da qualidade das águas da nascente para a foz. A bacia apresenta problemática ambiental centrada na ocupação das áreas adjacentes. A região tornou-se alvo de empreendimentos imobiliários, consolidando-se um processo crescente de ocupação. Tal fato ocasionou a retirada da vegetação ciliar, emissão de efluentes, lixo e carga urbana difusa de poluição, levando ao comprometimento da qualidade da água. Portanto, devido à forma de uso da terra, a sub-bacia do córrego André apresenta fragilidade ambiental com risco potencial de contaminação de seus recursos hídricos. A partir dos resultados apresentados conclui-se que o enquadramento do córrego André em águas superficiais de classe 1 é possível, desde que realizadas algumas intervenções. Sugere-se uma avaliação dos usos da água em cada trecho e posteriormente uma adequação de parâmetros para o atendimento às demandas de uso múltiplo identificadas. É de fundamental importância que esforços conjuntos sejam realizados, para a preservação da sub-bacia, com a atuação de sistemas integrados, através de um grupo gestor da sub-bacia e consequentemente a formação de um comitê de bacias. 5 REFERÊNCIAS AZEVEDO NETTO, J. M. Manual de Hidráulica. 8 ed. São Paulo. 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Tipologia de Represas do Estado de São Paulo, In : Reunião sobre Ecologia e Proteção de Águas Continentais, São Paulo, 1981. Anais ... 1 981, p. 191 – 228. 71 CAPÍTULO 3 Sub-bacia do córrego André: os olhares dos moradores que vivem no entorno do canal Resumo - O estudo da Percepção Ambiental é de fundamental importância para a compreensão das inter-relações entre o homem e o ambiente. Nesse sentido, esta pesquisa foi desenvolvida no município de Mirassol D’Oeste, a sudoeste do estado Mato Grosso e teve como objetivo identificar aspectos sócio-econômicos e os olhares ambientais de diferentes grupos sociais de moradores que vivem no entorno do córrego André. A pesquisa foi norteada por estudo de caso exploratório, baseada em pesquisa qualitativa e quantitativa. As técnicas empregadas para a coleta de dados foram a metodologia da história oral e entrevistas semi-estruturadas, tendo como base um roteiro de 17 questões. A pesquisa revelou que nos grupos de moradores e sitiantes existe baixo nível de escolaridade e ausência de qualificação profissional. No grupo de professores todos possuem nível superior. 57% dos comerciantes concluíram o ensino médio, e possuem renda familiar média de R$ 2.000,00. Com relação a percepção ambiental dos entrevistados, observouse que as relações afetivas dos grupos de moradores com o córrego foram modificadas. No passado havia uma relação de proximidade e no presente, uma relação negativa e distante do córrego. Verificou-se que a percepção ambiental preservacionista dos entrevistados em relação ao córrego André não está relacionada ao nível sócio-econômico, mas com o seu interesse e necessidade no uso/ocupação da sub-bacia. A investigação mostrou que a maior parte da população do local percebe os principais problemas ambientais, é capaz de apontar fatores de degradação, associando-os a causas antrópicas, ocasionadas principalmente pelos próprios moradores e ainda apontam possíveis soluções. Tal fato demonstra que o nível de percepção da população favorece ações de preservação e recuperação do local. Torna-se indispensável a efetivação de políticas públicas que viabilizem a preservação dos recursos hídricos da região. Na perspectiva da manutenção da qualidade sócioecológica do local, ações de conscientização, juntamente com a gestão integrada da sub-bacia, devem ser priorizadas, buscando a redução dos impactos gerados pelo processo de ocupação na sub-bacia do córrego André. Palavras-chaves: Percepção ambiental, córrego André, Mirassol D’Oeste MT. Sub-basin of the stream Andres: the looks of the residents who live in the envelope of channel Abstract- The study of Environmental Perception is of fundamental importance for understanding the interrelationships between humans and the environment. Thus, this research was conducted in the municipality of Mirassol D'Oeste, in the southwest state of Mato Grosso and aimed to identify socio-economic environment and looks for different groups of residents who live around the 72 creek Andrew. The research was guided by exploratory case study based on qualitative and quantitative research. The techniques used to collect data were the methodology of oral history and semi-structured interviews, based on a script of 17 questions. The research revealed that groups of residents and ranchers there is low level of education and lack of professional qualification. In the group of teachers all have the top level. 57% of traders finished high school and have a median household income of $ 2,000.00. Regarding the environmental perception of the interviewees, it was observed that the affective relations of groups of residents with the stream have been modified. In the past there was a close relationship and present a negative and far from the stream. It was found that perceived environmental preservationist of respondents to Andre stream is not related to socioeconomic status, but with your interest and need to use / occupation of the sub-basin. The research showed that most of the local population perceives the major environmental problems, is able to point degradation factors, linking them to anthropogenic causes, mainly caused by the residents themselves and also indicate possible solutions. This shows that the level of awareness of the population favors preservation actions and site restoration. It is indispensable to effective public policies that allow the preservation of water resources in the region. In the interest of maintaining the quality of local socio-ecological, awareness actions, together with the integrated sub-basin should be a priority, seeking to reduce the impacts generated by the occupation process in the sub-basin of the Andre stream. Key-words: Environmental perception, Andre stream Mirassol D’Oeste-MT. 1 INTRODUÇÃO O conhecimento das características e realidades de uma determinada região constitui um instrumento fundamental para o seu desenvolvimento. Nesse contexto, enquadram-se estudos relativos aos recursos naturais e à percepção dos atores relevantes no cenário sócio-econômico (ALBUQUERQUE & ALBUQUERQUE, 2005). A partir da metade do século XX, muitos pesquisadores começaram a buscar nos estudos de percepção ambiental uma nova alternativa epistemológica, até então, a maior parte dos trabalhos desenvolvidos na Geografia e em ciências afins, nos anos sessenta e no início dos setenta, era direcionada por duas orientações epistemológicas: a qualificação, a racionalização e a sistematização dos neo-positivistas; de outro, o materialismo e o economismo dos neo-marxistas (MACHADO, 1996). Pesquisas relacionadas à percepção ambiental viriam consolidar-se efetivamente como uma das linhas mestras dos estudos dos ambiente humano 73 a partir do momento em que, durante a década de setenta, a União Geográfica Internacional criou o “Grupo de Trabalho sobre a percepção ambiental”, e a UNESCO incluiu em seu “Programa Homem e Biosfera”, o Projeto 13: “Percepção de Qualidade Ambiental”, que preconizou o estudo da percepção ambiental como uma contribuição fundamental para uma gestão mais harmoniosa dos recursos naturais (ALMEIDA et al., 2000). A importância da pesquisa em Percepção Ambiental para o planejamento do ambiente foi ressaltada em 1973, pela UNESCO, que: "uma das dificuldades para a proteção dos ambientes naturais está na existência de diferenças nas percepções dos valores e da importância dos mesmos entre os indivíduos de culturas diferentes ou de grupos sócio-econômicos que desempenham funções distintas, no plano social, nesses ambientes". Para Ferrara (1993) a percepção ambiental é definida como a operação que expõe a lógica da linguagem que organiza os signos expressivos dos usos e hábitos de um lugar. É uma explicitação da imagem de um lugar, veiculada nos signos que uma comunidade constrói em torno de si. Nesta acepção, a percepção ambiental é revelada mediante uma leitura semiótica da produção discursiva, artística, arquitetônica, de uma comunidade. Podemos compreender a percepção ambiental como uma tomada de consciência do ambiente pelo ser humano, ou seja, o ato de perceber o ambiente que se está inserido, aprendendo a proteger e a cuidar do mesmo. Cada indivíduo percebe, reage e responde diferentemente às ações sobre o ambiente em que vive. As respostas ou manifestações daí decorrentes são resultados das percepções individuais e coletivas, dos processos cognitivos, julgamentos e expectativas de cada pessoa (JACOBI, 2005). O estudo da Percepção Ambiental é de fundamental importância para se compreender melhor as inter-relações entre o homem e o ambiente, suas expectativas, anseios, satisfações e insatisfações, julgamentos e condutas (FERRARA, 1996). A maioria dos estudos de desenvolvimento urbano com enfoque nos recursos hídricos apresenta caráter técnico e, raramente apresentam interações entre aspectos políticos, sociais e econômicos e menos ainda 74 mostram resultados de pesquisas que considerem a percepção ambiental como fonte de informações (CASTRO, 1998). Segundo Hoeffel et al. (2004) os usos, as atividades e as dinâmicas em um local, refletem as diferentes percepções ambientais dos atores sociais. Esses atores podem ser citados como responsáveis diretos pela tomada de iniciativas em um espaço. O reconhecimento de distintas abordagens, estruturadas a partir de diferentes referenciais, torna-se extremamente relevante na resolução de conflitos, na elaboração de diagnósticos, planejamentos, políticas e programas que estimulem a participação eqüitativa de todos os agentes sociais. Para Vargas (1997) em geral os usos de recursos naturais e a fonte de destruição dos mesmos, são do conhecimento da sociedade. Entretanto, a questão é obter dos diferentes atores, um consenso sobre como resolver os problemas. A forma de melhor gerenciar os recursos, especialmente os recursos hídricos, ainda é uma questão em aberto e se observa a formulação de várias propostas (HOEFFEL et al., 2005). Nesse sentido, acredita-se que conhecer a percepção ambiental da comunidade do córrego André, pode tornar-se um caminho para a formulação de gestão ambiental mais participativa, com envolvimento de todos os interessados pela área. No entanto, conforme ressaltado por Alonso e Costa (2002) a expansão da participação popular não é uma garantia do estabelecimento de decisões consensuais sobre dilemas ambientais. Assim, procurou-se nesta pesquisa investigar aspectos sócio- econômicos e os olhares (percepção ambiental) dos diferentes segmentos sociais existentes na sub-bacia do córrego André, no município de Mirassol D’Oeste, visando fornecer subsídios para elaboração de plano de gestão ambiental desta sub-bacia. 75 2 MATERIAIS E MÉTODOS 2.1 Caracterização da área de estudo A pesquisa foi desenvolvida no município de Mirassol D’Oeste, a sudoeste do estado Mato Grosso, distante 329 Km da capital, Cuiabá, na microrregião do Vale do Jauru. A área de estudo localiza-se na sub-bacia hidrográfica do córrego André, entre os paralelos 15°40’00’’ a 15°50’00’’ Latitude Sul e 58°00’00’’ a 58º10’00’’ de Longitude Oeste de Greenwich. O córrego André pertence à bacia hidrográfica do rio Jauru, que é afluente do rio Paraguai e possui área de aproximadamente 18 km² com forma alongada na direção SE-NO (Figura 1). Figura 19. Localização da sub-bacia hidrográfica do córrego André. Fonte: SEPLAN, 2000. Organização: Rosália Valençoela, 2010. O clima é do tipo tropical quente e sub-úmido, não apresenta uniformidade, sendo possível a identificação de duas estações: seca e chuvosa, conforme classificação climática de Koppen. A precipitação anual 76 normal é de 1.500 mm. As temperaturas oscilam entre 24º a 32º na estação chuvosa e 22º a 36º na estação seca (SEPLAN, 1999). As nascentes do córrego André encontram-se em área movimentada, extensão da Província Serrana (dobramentos antigos) geologicamente inserida no Grupo Alto Paraguai (Formação Araras e Formação Moenda) e o Complexo Xingu. Os solos são: Neossolos Litólicos Distróficos e Argissolo VermelhoAmarelo Distrófico. Os remanescentes florestais compreendem principalmente Florestas Estacionais (SEPLAN, 1999) 2.2 Procedimentos Metodológicos Para a coleta de dados foi utilizada pesquisa quantitativa e qualitativa, envolvendo a escuta de pessoas, explorando as suas idéias e preocupações sobre determinado assunto (GREENHALGH & TAYLOR, 1997). Através da pesquisa qualitativa é possível a compreensão da forma de vida local e o registro do comportamento não verbal (SEVERINO, 2002). Seguindo este raciocínio, utilizou-se a pesquisa qualitativa como instrumento de coletas de dados, procurando retratar a perspectiva dos participantes. Os dados foram coletados através de um roteiro semi-estruturado e aplicação de questionário aos moradores do entorno do córrego André, no mês de Abril de 2009. O questionário semi-estruturado foi composto por questões abertas, neste caso, as questões foram padronizadas, ficando as respostas a critério dos entrevistados. 2.3 Percepção ambiental dos moradores e a função social do córrego André A pesquisa em campo procurou revelar as diferentes percepções dos entrevistados sobre o córrego André. O roteiro foi elaborado de forma a estimular os entrevistados a falar e a refletir: como percebem o córrego, os seus sentimentos em relação ao mesmo, se é preciso melhorar as condições da qualidade ambiental e sobre quem é o responsável pelo atual quadro que se encontra. 77 2.4 Parâmetros utilizados na escolha dos informantes da pesquisa Para atingir o objetivo proposto, identificou-se a necessidade de se entrevistar moradores do entorno do córrego André pertencentes a diferentes segmentos sociais. Deste modo as entrevistas foram realizadas priorizando os diferentes atores sociais, assim agrupados: Professores de Escolas da comunidade (Grupo 1); Representantes do Comércio (Grupos 2); Moradores (Grupo 3) e Sitiantes (Grupo 4). Os entrevistados foram escolhidos aleatoriamente. Foram realizadas 61 entrevistas. Ao optar pela participação de diferentes segmentos sociais nesta pesquisa teve-se o propósito de identificar quais eram os problemas concretos, definir prioridades e escolher soluções viáveis em função das condições sócioeconômicas e do saber popular existentes. 2.5 Roteiro utilizado O roteiro utilizado direcionou a entrevista para dois momentos: no primeiro momento foram abordados temas relacionados a aspectos sócioeconômicos e no segundo temas relacionados à Percepção Ambiental dos entrevistados. 2.6 Perfil Sócio-econômico Buscou-se neste trabalho, analisar o Perfil sócio-econômico dos moradores do entorno do córrego André, de forma que a pesquisa abrangesse uma visão sistêmica dos entrevistados. Para tanto foram consideradas as variáveis: tempo de moradia no local, idade, gênero, grau de instrução, profissão, renda familiar, tipo de moradia e situação do domicílio. Fuks (1998) destaca que a definição de meio ambiente enquanto problema social não é apenas resultado de uma universalidade conceitual, mas depende de conflitos e disputas localizadas que apontam para uma universalidade socialmente construída. 78 2.7 Questionário utilizado O questionário possuía 17 questões baseadas no roteiro, sendo que 8 questões foram referentes ao perfil sócio-econômico dos entrevistados e 9 referentes às questões ambientais do córrego André. Os Bairros escolhidos para a realização das entrevistas foram: Jardim São Paulo, conjunto habitacional COHAB Parque da Serra e Parque Bandeirantes 2. Ao todo foram realizadas 61 entrevistas. 2.8 Tratamento de Dados Para melhor trabalhar os dados, as respostas foram agrupadas, tendo como referencial a similaridade de conteúdo e expressão das narrativas, segundo o Perfil sócio-econômico e Percepção Ambiental dos grupos sociais. 2.9 História oral Para a coleta de dados também foi utilizada metodologia da história oral, com a realização de visitas dirigidas a moradores do município de Mirassol. A pesquisa consistiu no levantamento de informações através de depoimentos orais de antigos moradores sobre como se deu a ocupação da área de estudo. Esta metodologia é baseada no depoimento oral como peça documental de um determinado período histórico muito próximo. Para MacNeill (1994) na história oral o passado é relembrado na perspectiva do presente. 3 3.1 RESULTADOS E DISCUSSÃO Histórico de Ocupação A ocupação da área de terras onde hoje se localiza o município de Mirassol D’oeste, ocorreu a partir de inícios da década de 1960. Criado em 14 de Maio de 1976, o Município de Mirassol D’Oeste, teve como medidas de colonização os projetos realizados com base na cidade de Cáceres, fato que culminou na sua emancipação (BERTHOLINI, 1997). 79 Os moradores relatam que o processo de ocupação da sub-bacia hidrográfica está vinculado ao início da ocupação da cidade de Mirassol D’Oeste, havendo posteriormente a abertura e expansão dos bairros e chácaras localizados no entorno do córrego André. A vegetação era exuberante, sendo composta principalmente por vegetação densa de Araputanga, com variedade de animais silvestres. No primeiro momento a economia local baseava-se na extração vegetal, fator que pode ter contribuído com devastação de várias espécies. Segundo relatos, na época da abertura das terras havia escassez de água nos lotes, as famílias optavam morar perto dos córregos. Os moradores enfatizam que o volume de água do córrego André reduziu nos últimos anos. 3.2 Distribuição espacial da sub-bacia O córrego André possui suas nascentes no município de Mirassol D’Oeste, em altitude aproximada de 260 metros, na encosta de uma serra, que registra-se na sua base a ocorrência de rochas areníticas recoberta por calcário. Percorre no perímetro urbano sentido Sudeste a Noroeste, cerca 4 quilômetros até desaguar no rio São Francisco. A bacia hidrográfica do córrego André é ocupada por área de expansão urbana com menor densidade populacional e por aglomerado urbano, composto por conjuntos habitacionais e bairros, com maior densidade de população. Nas áreas de recarga e armazenamento das nascentes do córrego André, a vegetação foi parcialmente retirada, sendo realizada atividade de mineração, no paredão de calcário (calcítico e dolomítico), com extração de rochas calcárias utilizadas na fabricação de pedra brita e pedrisco, que abasteceram o mercado dos municípios de Cáceres, Quatro Marcos, Curvelândia, Porto do Céu, Pontes e Lacerda e Porto Espiridião. Em todo o percurso do canal fluvial possui ocupação urbana intercalada por comércios de serviços e vendas, residenciais, escolas e terrenos desocupados. Esta peculiaridade de ocupação se configura em diversidade sócio-econômica e por conseqüência, diversidade de percepção ambiental. 80 O leito encontra-se canalizado, nas suas margens e fundo, o material utilizado para a canalização é concreto e blocos de rochas areníticas, totalizado 1.432,90 m canalizado, ao longo do perfil longitudinal. Detritos e dejetos são lançados diretamente no canal, observaram-se garrafa, sacolas, restos de alimentos e esgotos (Figura 20). Figura 20 Segmentos canalizados do córrego André em área urbana - Ponto 4. 3.3 Perfil Sócio-econômico dos grupos entrevistados: professores, comerciantes, moradores e sitiantes Das 61 entrevistas realizadas, foram entrevistadas 39 pessoas do sexo feminino e 22 do sexo masculino. Nos grupos dos professores e moradores a maioria foi do sexo feminino (86% e 68%), porém nos grupos de comerciantes e sitiantes predominou o sexo masculino. 3.3.1 Gênero dos entrevistados No grupo formado por moradores 68% das entrevistas foram realizadas com mulheres, considerando que poucos homens permanecem em suas casas em horário comercial. Os dados mostraram que nos grupos dos professores e moradores a maioria era mulher, porém nos grupos de comerciantes e sitiantes predominou os homens (Figura 21). 81 Figura 21 Gênero dos grupos entrevistados. 3.3.2 Idade dos entrevistados No grupo de professores predominam grupos etários jovens que formam a chamada população potencialmente ativa. No grupo de sitiantes predominam pessoas acima de 55 anos, pois, as maiores proporções de jovens, encontra-se em áreas urbanas, devido a demanda de emprego. Figura 22 Idade dos integrantes dos grupos entrevistados. 82 3.3.3 Tempo de residência Os entrevistados residem entre 5 e 45 anos próximo ao córrego. Os professores trabalham com crianças que vivem no entorno. O grupo de comerciantes não vive próximo ao córrego. No grupo de moradores a maioria vive a aproximadamente vinte anos no local. O grupo de sitiantes residem entre 15 e 30 anos (Figura 23). Figura 23 Tempo de residência de moradores e sitiantes. 3.3.4 Escolaridade Todos do grupo de professores possuem nível superior. No grupo de comerciantes 57% concluiu o Ensino Médio. O grupo de moradores, em sua maioria, não concluiu o Ensino Fundamental. O analfabetismo está entorno de 15% neste grupo (Figura 24). Pôde-se considerar que o grau de instrução interferiu de forma direta no levantamento de dados, visto que os entrevistados analfabetos não souberam responder de forma clara e objetiva as questões. 83 Figura 24 Escolaridade dos Grupos Entrevistados 3.3.5 Profissão dos entrevistados No grupo de moradores predomina a categoria do lar. O grupo de sitiantes é formado por motoristas e aposentados (Figura 25). Figura 25 Profissão dos integrantes dos grupos. 3.3.6 Tipo de residência Nos grupos de professores e comerciantes 100% possuem casa de alvenaria, nos grupos de moradores e sitiantes 25% e 38%, respectivamente, possuem casas de madeira (Figura 26). 84 Figura 26 Tipo de residência dos integrantes dos grupos. 3.3.7 Situação do domicílio De maneira geral 100% dos entrevistados dos grupos de professores, comerciantes e sitiantes possuem casa própria. Algumas casas são financiadas pelo governo Federal (Figura 27). No grupo de moradores 17% moram em casas alugadas. Figura 27 Situação do domicílio dos grupos entrevistados. 3.3.8 Número de pessoas nas residências Nas residências há a predominância do número de 4 pessoas, seguida pelo número de 2 pessoas (Figura 28). Este número é considerado normal para os padrões das famílias brasileiras. A maioria dos casais na atualidade possui apenas dois filhos (IBGE, 2009). 85 Figura 28 Número de pessoas nas residências. 3.3.9 Renda Familiar Média Os dados relativos à renda familiar média retratam com exatidão as diferenças sócio-econômicas desta população (Figura 29). No grupo de moradores 9% sobrevivem com renda inferior a um salário mínimo, em contrapartida, nos grupos de professores e comerciantes a renda familiar média é de 2.000,00 (dois mil reais). Figura 29 Renda familiar média dos grupos. 3.4 Olhares dos diferentes atores sociais sobre o córrego André A entrevista buscou trazer à memória do entrevistado os valores e qualidades em escala temporal do córrego. Foram realizadas indagações sobre: como o córrego era; usos da água; sua importância; os principais fatores 86 de degradação e seus prejuízos; os responsáveis pela degradação e possíveis melhoria das condições da qualidade ambiental. 3.4.1 Percepção de como o córrego André era Com as entrevistas evidenciaram-se as diversas maneiras de se perceber o córrego com base em valores e interesses de cada grupo. Os entrevistados mencionam que no passado (anos) as características do córrego eram de ambiente preservado: água limpa, com peixes e mata ciliar, era usado para banho e afazeres domésticos (Tabela 5). As respostas denotam que existe nesta população forte lembrança de como o córrego era, evidenciando a percepção dos entrevistados para com o mesmo. Tabela 5 Percepção de como o córrego André era. Descrição GRUPOS Professores Comerciantes Moradores Sitiantes A água era limpa 1 1 8 1 Possuía peixes 1 1 6 - Não era canalizado 2 2 7 - Era pior 1 2 5 - Possuía árvores 1 - 7 - Usavam para banho - - 4 2 Não soube - 1 7 - 3.4.2 Usos da água do córrego André Sobre o uso da água do córrego, 100% dos grupos de professores, comerciantes e moradores responderam que não utilizam a água e que a mesma é poluída. No grupo de sitiantes 100% responderam que usam a água para dessedentação, irrigação, piscicultura e limpeza de equipamentos. Neste trecho (alto curso da bacia) ainda não há lançamento de esgoto no canal. As respostas revelaram que algumas pessoas possuem aversão ao córrego, associando-o à poluição (Tabela 6). 87 Tabela 6 Usos da água do córrego André. Uso da água GRUPOS Professores Comerciantes Moradores Sitiantes SIM - - - 3 NÃO 7 7 44 - 3.4.3 Importância do córrego aos grupos No grupo de professores 42,85% respondeu que não sabe qual a importância do córrego e 28,57% deste mesmo grupo, respondeu que o córrego é importante para levar esgoto. Os representantes do comércio responderam que o córrego não tem importância (42,85%), assim como 45,45% do grupo de moradores. No grupo de sitiantes 100% responderam que é importante para dessedentação e irrigação (Tabela 7). As respostas evidenciam que maior significância foi dada ao córrego de acordo com o interesse e a necessidade do entrevistado, confirmando a idéia de Rio & Oliveira (1999). Tabela 7 Importância do córrego aos grupos. GRUPOS Importância do córrego Professores Comerciantes Moradores Sitiantes Para proteção ambiental 1 - - - Serve para levar esgoto 2 1 2 - Dessedentação - 1 4 2 Irrigar plantações - - 1 1 Abastecer outros rios - 1 1 - Não soube responder 3 1 13 - Não tem importância - 3 20 - 3.4.4 Fatores de degradação do córrego A maioria dos entrevistados apontou como fonte de degradação, o lixo jogado no canal, o esgoto doméstico e as enxurrada das chuvas. Com menor 88 percentual foi falado dos efluentes oriundos de oficinas e lava-jatos (Tabela 8). Somente nos grupos de professores e moradores mencionou-se o desmatamento como fator de degradação. Sobre a canalização, cerca de 14% dos entrevistados do grupo de professores a relacionam como fator de degradação. As respostas sugerem que os entrevistados não conhecem a importância da conservação da mata ciliar e da manutenção do córrego em seu leito natural. Para os entrevistados a canalização do córrego contribui com a estética, melhorando a aparência da área brejosa, que antes servia para depósito de lixos, restos de construções e animais mortos. Tabela 8 Fatores de degradação do córrego André. GRUPOS Fatores de degradação Professores Comerciantes Moradores Sitiantes Lixo 2 3 17 1 Desmatamento 1 - 1 - Canalização 1 - - - Enxurrada das chuvas 1 1 5 1 Esgoto doméstico - 1 6 1 Água de lava jato - 1 1 - Animais mortos - - 8 - - - 2 - Não soube responder 2 1 2 - Não tem degradação - - 2 - Óleos de oficinas mecânicas 3.4.5 Responsáveis pela degradação do córrego A maioria dos entrevistados respondeu que os responsáveis pela degradação são a própria população, seguida de perto pelo governo municipal. Com as respostas foi possível afirmar que há uma percepção ambiental em relação à responsabilidade dos problemas ambientais (Tabela 9) 89 Tabela 9 Responsáveis pela degradação do córrego André Descrição A população A Prefeitura Proprietários das áreas Não soube responder Não tem responsável Professores 5 1 1 - GRUPOS Comerciantes Moradores 2 23 4 11 2 1 6 1 Sitiantes 2 1 - 3.4.6 Prejuízos da degradação do córrego Sobre os prejuízos da degradação do córrego para a comunidade local, todos os grupos foram enfáticos em definir como principal prejuízo as doenças, de veiculação hídrica, como doenças de pele e doenças por contaminação advinda de insetos que se abrigam no lixo e água parada (Tabela 10). Tabela 10 Prejuízos da degradação do córrego para a comunidade Descrição Problemas para a saúde Atrai insetos e animais Acumula lixo nas ruas Inundação Afogamento de crianças Mau cheiro Inutilização da água Não soube responder Não tem prejuízos GRUPOS Professores 2 1 2 1 1 - Comerciantes 3 2 2 - Moradores Sitiantes 15 3 4 2 1 9 3 5 2 2 1 - 3.4.7 Melhorias das condições da qualidade ambiental do córrego Dos entrevistados 93% afirmaram que devem ser realizadas melhorias na qualidade ambiental do córrego. As respostas revelam a preocupação com as condições atuais do córrego André, principalmente pela possibilidade de proliferação de doenças e pelo o mau cheiro (Tabela 11). 90 Tabela 11 Melhorias das condições da qualidade ambiental do córrego André. Descrição Professores 7 - SIM NÃO GRUPOS Comerciantes Moradores 7 41 3 Sitiantes 3 - 3.4.8 Responsáveis pelas melhorias do local Os entrevistados atribuíram primeiramente a responsabilidade pelas melhorias à Prefeitura, em segundo lugar a prefeitura e a comunidade, (principalmente as escolas com educação ambiental), seguida de população e proprietários (Tabela 12). Tabela 12 Responsáveis pelas melhorias do local Descrição A Prefeitura A população A Prefeitura e a comunidade Proprietários das áreas Câmara de vereadores Não sabe Ninguém Professores 7 - GRUPOS Comerciantes Moradores 6 28 4 1 6 3 1 1 Sitiantes 2 1 - 3.4.9 Atividades para melhorar a qualidade ambiental do córrego Sobre como melhorar a qualidade ambiental do córrego André, houve predominância nas respostas para realização de atividades de limpeza do córrego e sensibilização da comunidade. Estas respostas evidenciam a percepção ambiental dos entrevistados com relação à carência de atividades que busquem a preservação deste corpo d’água (Tabela13). 91 Tabela 13 Atividades para melhorar a qualidade ambiental do córrego André Descrição Professores 1 Comerciantes 1 Moradores 10 Sitiantes - Conscientizar a comunidade 3 2 8 1 Reflorestar 2 - - 1 Colocar proteção nas laterais 1 - - - Construir passarelas - - 2 - Canalizar todo o córrego - 1 4 1 Acabar com o córrego - - 2 - Multar quem joga lixo - 1 - - Construir redes de esgotos - - Fazer área de lazer - - 3 - Tratar a água do córrego - 1 3 - Não soube responder - 1 4 - Não precisa fazer nada - - 1 - Limpar a área 4 GRUPOS - CONCLUSÃO A pesquisa mostrou que a maioria dos entrevistados vê os corpos d’água como parte integrante do seu cotidiano e que a sua má conservação pode afetar a qualidade de vida da comunidade, sendo necessário interferir em seu estado. As entrevistas revelam a percepção ambiental dos entrevistados e demonstram que as relações afetivas dos moradores em relação ao córrego foram modificadas ao longo no tempo, havendo no passado a relação de proximidade, contato e admiração e no presente uma relação negativa e distante. Tal fato se explica devido a situação ambiental atual do córrego (poluição, descaracterização de suas margens, ausência de mata ciliar, assoreamento, etc.). Porém na área de expansão urbana (sítios) percebe-se que os moradores possuem relação harmoniosa com o córrego, isto pode ser justificado pelo fato desta população ainda utilizar a água para suas atividades. 92 Os entrevistados não formam categoria homogênea possuem diferentes níveis sócio-econômicos, características e opiniões diversas, fator que sinaliza a necessidade de inserção de atividades educacionais que contemplem os diversos públicos, na sub-bacia do André. Conclui-se que os diferentes grupos sociais possuem percepção ambiental da degradação ambiental do local, sendo, capazes de identificar as principais modificações ocorridas e as causas de degradação, apontando possíveis soluções para os problemas levantados. No entanto, os entrevistados não têm iniciativas para a melhoria do ambiente local, acreditando que esta seja função dos órgãos públicos locais. O nível de percepção da população favorece ações de preservação e recuperação da sub-bacia. Diante deste contexto, acredita-se que para a efetiva melhoria da qualidade ambiental da sub-bacia, a população local precisa ser inserida em programas de planejamento de usos e recuperação da sub-bacia, tendo acesso à informações básicas sobre saneamento e preservação de recursos hídricos. Para tanto é fundamental que políticas públicas locais contemplem o planejamento e a gestão dos recursos hídricos da região, com envolvimento das diversas instâncias da sociedade. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS A paisagem da sub-bacia do córrego André encontra-se descaracterizada devido o uso inadequado do solo (pecuária, suinocultura, desmatamento, represamento, canalização, mineração, urbanização, entre outros). Essas mudanças no canal fluvial trouxeram problemas sociais e ambientais para a população local. Os resultados das análises da água mostraram que o córrego André apresenta-se poluído, havendo baixa concentração de Oxigênio Dissolvido e elevação de Temperatura, Coliformes Fecais, DBO e Fósforo Total. A sub-bacia apresenta uma problemática ambiental centrada na ocupação das terras, associada à geologia do local. Contudo, os diferentes grupos sociais do entorno do córrego possuem percepção ambiental da 93 degradação do local e são capazes de identificar as causas de degradação e possíveis soluções, fator que favorece sua preservação. Esta pesquisa foi amparada no Zoneamento Socioeconômico Ecológico do MT - ZSEE, que direciona o ordenamento do espaço geográfico do estado e disciplina o uso de seus recursos naturais, indicando diretrizes de fomento, controle, recuperação e manejo (ZSEE, 2009). Para a Zona de Ambientes do entorno do Pantanal do Paraguai, na área de influência do Pólo Regional de Cáceres, o ZSEE define diretrizes específicas como: Garantir a conservação e recuperação da qualidade ambiental dos formadores dos rios Jauru; Incentivar e orientar o reflorestamento com espécies nativas nas áreas desmatadas; Garantir que os usos agropecuários sejam desenvolvidos utilizando técnicas para controle de processos erosivos, tendo como referência micro bacias hidrográficas, dentre outros; A preservação do córrego André e de outros formadores do rio Jauru e rio Paraguai estão diretamente ligadas ao cumprimento das diretrizes do ZSEE, somado à efetivação de políticas públicas que contemple a participação de diversas instâncias da sociedade local nos processos de gestão. 6 RECOMENDAÇÕES A partir das análises do diagnóstico obtido em pesquisa a campo e reivindicações das comunidades adjacentes ao córrego André, foi possível identificar as necessidades essenciais à melhoria da qualidade ambiental e minimização de riscos ambientais da sub-bacia. Assim, recomenda-se que, para a implementação de ações que venham preservar e revitalizar a bacia do córrego André torna-se necessário: Estabelecer parcerias entre o governo municipal (secretarias municipais e câmara de vereadores), conselhos municipais, Universidades, escolas, empresas privadas e comunidade, através da estruturação de um comitê gestor da sub-bacia. 94 Desenvolver e implantar cursos visando à formação continuada de multiplicadores em educação ambiental para atuarem junto à comunidade de forma ampla (agentes de saúde, professores, igrejas, clube de mães, sindicatos e associações de bairros). Fortalecer Programas de Educação Ambiental com incentivo financeiro e logístico para a continuidade de Projetos Escolares na sub-bacia. Realizar palestras educativas nas comunidades com distribuição de folhetos educativos sobre a importância da preservação dos recursos hídricos. Organizar mutirão de limpeza e reflorestamento das margens do córrego, com envolvimento da comunidade. Planejar e fiscalizar o uso e a ocupação do entorno da sub-bacia com restrição a loteamentos e expansão imobiliária. Realizar avaliação dos usos da água em cada trecho e posteriormente uma adequação para o atendimento às demandas identificadas. Viabilizar Lei de Criação de Unidade de Conservação Municipal na área de recarga da sub-bacia, visando conservar a área verde existente. Divulgar junto à população local as diretrizes do ZSEE para a região. As propostas sugeridas nesta pesquisa para a preservação e melhoria da qualidade ambiental da sub-bacia do córrego André, só poderão ser efetivadas, se houver envolvimento e participação das várias instâncias da sociedade de Mirassol D’Oeste. 7 REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE, C.A.; ALBUQUERQUE, U. P. Local perception towards biological conservation in the community of Vila Velha, Pernambuco, Brazil. Interciência, v.30, p. 460-465, 2005. ALMEIDA, R. C.; KUNIEDA, E.; PRATES, K. V. M. V.; SE, J. A.; GONZAGA, J. L. Experiências em Educação Ambiental. 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Campinas: NEPAM/UNICAMP. 1997. 97 ANEXOS ANEXO A - Roteiro de entrevista com os atores sociais da sub-bacia do córrego André. 98 Roteiro de entrevista com os atores sociais da sub-bacia do córrego André 1. Tempo de moradia em Mirassol D’Oeste 2. Idade 3. Escolaridade 4. Profissão 5. Tipo de moradia 6. Situação do domicílio 7. Quantidade de pessoas na casa 8. Renda familiar média 9. Como o córrego André era a alguns anos 10. Utilização das águas do córrego André 11. Importância do córrego André 12. Principais fatores de degradação da área 13. Responsável pela degradação do córrego André 14. Prejuízos da degradação do córrego para a comunidade local 15. Melhorias das condições da qualidade ambiental do córrego André 16. Responsável pelas melhorias do local 17. Atividades para melhorar a qualidade ambiental deste córrego