Aplicação de resíduo de tinta da linha de pintura de móveis na
construção civil
Ismael Henrique da Silveira (1), Renata Rocha Torres (2), Rita de Cássia Silva Sant’ Anna
Alvarenga (3) e Ana Augusta Passos Rezende (4)
(1) Departamento de Engenharia Civil, UFV, Brasil. E-mail: [email protected]
(2) Departamento de Engenharia Civil, UFV, Brasil. E-mail: [email protected]
(3) Departamento de Engenharia Civil, UFV, Brasil. E-mail: [email protected]
(4) Departamento de Engenharia Civil, UFV, Brasil. E-mail: [email protected]
Resumo: Na indústria de móveis, especificamente na linha de pintura, gera-se um resíduo composto de
tinta e solvente, proveniente da limpeza do maquinário. Segundo a NBR 10004 (ASSOCIAÇÃO
BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 2004), esse resíduo é classificado como classe 1, perigoso,
podendo causar diversos impactos ao meio-ambiente. O presente trabalho visa estudar a viabilidade de
aplicação de uma tinta de segunda linha, obtida da borra de tinta através de uma técnica de reciclagem,
em diversas superfícies da construção civil, incentivando uma reutilização adequada desse resíduo e
evitando sua má disposição. Desta forma, é possível agregar valor a esse resíduo, que é composto de
tinta e solvente, segregado por cor na fonte. Inicialmente, ele foi submetido à destilação através do
recuperador de solvente (de escala semi-industrial) do tipo Eexd DIGIT, modelo IST/SET 10. Nessa
técnica, o solvente é recuperado e sobra uma borra de tinta, que é submetida a um processo de
homogeneização e coagem. Desse processo, obtém-se uma espécie de tinta de segunda linha. Para fins de
testar um possível uso para essa tinta, fez-se sua aplicação em diversas superfícies de materiais
utilizados na construção civil, tais como: vários tipos de madeira, superfícies de concreto e cerâmica,
PVC, aço galvanizado e telha reciclada. Essas superfícies foram submetidas a diferentes formas de
distribuição da película de tinta e diferentes condições de secagem. Algumas superfícies apresentaram
melhores resultados de acordo com a forma de espalhamento da película, com o tratamento prévio da
superfície e com a condição de secagem. Desta forma, pretende-se contribuir para uma destinação
adequada e sustentável do resíduo, agregando valor e estimulando seu reaproveitamento.
Palavras-chave: tinta de pintura de móveis, resíduos, construção civil.
Abstract: The furniture industry, specifically in the paint line, generates waste, consisting of ink and
solvent, from cleaning the machinery. According to the NBR 10004 (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
NORMAS TÉCNICAS, 2004), this residue is classified as class 1, dangerous, and can cause many
impacts to the environment. This work aims to study the feasibility of applying a recycled paint, obtained
from a recycling technique, in many surfaces of the civil construction, encouraging an appropriate reuse
of such residue and avoiding the improper disposal. Thus, it is possible to add value to the residue. The
waste, consisting of paint, is segregated by color in the source. Initially, it was subjected to solvent
distiller through the stove (the semi-industrial scale) of type EExd DIGIT, model IST/SET 10. In this
technique, the solvent is recovered and a paint sludge is left, which is subjected to a process of
homogenization and coerce. This process yields a kind of recycled paint. In order to check the possible
use for this paint, surfaces of various materials used in construction, such as different types of wood,
concrete, ceramic, PVC, galvanized steel, and recycled tile were tested. These surfaces were subjected to
various forms of distribution of the film and different drying conditions. Some surfaces showed better
results according to the form of spread of the film, the surface pretreatment and the drying condition.
Thus, it is intended to contribute to a sustainable and appropriate disposal of waste, adding value and
encouraging its reuse.
Key-words: furniture paint, residue, civil construction.
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1. INTRODUÇÃO
Na cidade de Ubá, situada no norte da Zona da Mata do estado de Minas Gerais, encontra-se um dos
maiores pólos moveleiros do estado, cujo setor é responsável pela geração de diversos tipos de resíduos
sólidos, dentre os quais se encontra o resíduo da linha de pintura, composto por solvente, utilizado na
limpeza das máquinas, impregnado pela tinta. Segundo a NBR 10004 (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
NORMAS TÉCNICAS, 2004), esse resíduo é classificado como classe 1, perigoso, podendo causar
potenciais impactos ao meio ambiente.
O resíduo coletado é composto de solvente, à base de acetona, e primer. O primer é utilizado na indústria
moveleira para conferir uma cor base ao móvel que está sendo produzido. Ele antecede a impressão e a
aplicação de verniz, sendo de grande consumo no setor e consistindo em um dos maiores volumes de
resíduos gerados na linha de pintura de móveis. Em estudo realizado por Silva et al (2003) quantificou-se
a média de geração de 15000 litros por mês de resíduo de tinta da limpeza da linha de pintura.
Atualmente esta linha de pintura utiliza tintas de secagem ultravioleta — UV —, pois além de facilitar o
manuseio da tinta, possui menor quantidade de solvente em sua composição, diminuindo a emissão de
compostos orgânicos voláteis. As tintas curáveis por ultravioleta contêm, geralmente, polímeros
(oligômeros e monômeros), fotoiniciador, pigmentos e aditivos, dependendo portanto da radiação UV
para iniciar o processo de secagem. (RUIZ, 2003)
De acordo com Dossin e Muniz (2004), as potenciais alternativas para a destinação das impurezas retidas
na forma de lama no fundo do destilador, aqui denominadas de borra de tinta, são a incineração e a
pirólise, porém, a repigmentação e aditivação, e a inertização têm sido utilizadas como formas para a
destinação final da borra.
A partir desse material coletado na linha de pintura de móveis, o estudo da viabilidade de reutilização,
focado em uma forma de reutilização da borra como uma tinta de segunda linha, torna-se importante para
garantir a disposição adequada deste resíduo, buscando uma produção limpa, importante para o
atendimento da legislação ambiental, além de se configurar hoje como uma exigência do mercado e
agregar valor ao resíduo.
2. OBJETIVO
O objetivo deste trabalho é avaliar a possibilidade de aproveitamento da borra de tinta gerada no processo
de separação dos resíduos da linha de pintura de móveis como material de construção, por meio da
aplicação em diversas superfícies de materiais de construção civil. Para isto, pretende-se estudar formas
simples de manipulação dessa borra como tinta e garantir o melhor desempenho do uso, condicionando
uma destinação adequada a esse resíduo e agregando valor pela possibilidade de utilização e
aproveitamento para cobertura de superfícies.
3. MÉTODO UTILIZADO
A obtenção da tinta de segunda linha, bem como os testes de aplicação em diversas superfícies de
materiais de construção foram realizados no Laboratório de Resíduos da Indústria Florestal, do
Departamento de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Viçosa.
3.1. Obtenção da tinta de segunda linha
As amostras de resíduos, provenientes da limpeza das máquinas da linha de pintura de móveis, foram
coletadas separadamente de acordo com a cor e armazenadas em latas de alumínio com lacre, para se
evitar emissão de compostos orgânicos voláteis (COV’s), originários do solvente, e evitar o contato com a
luz solar, visto que, por se tratar de uma tinta de secagem UV o fotoiniciador do processo de secagem
precisa ser irradiado. Foram utilizadas as seguintes amostras: solvente e primer UV amêndoa, solvente e
primer UV imbuia, solvente e primer UV branco.
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A metodologia de destilação e separação do solvente e da borra de tinta foi baseada em estudo realizado
por Souza (2009), segundo o qual, o processo de destilação inicia-se com a recepção da amostra do
resíduo a ser destilado, submetido à decantação da borra de tinta, com o objetivo de reter o material
grosseiro para evitar rendimentos baixos no processo de destilação e danificações no equipamento. A
tecnologia empregada consiste na introdução do solvente de limpeza contaminado em câmaras de
destilação, onde é aquecido até que se atinja a temperatura de ebulição. Nesta fase há a transformação do
estado líquido para o estado de vapor, o qual é transferido ao condensador, sendo em seguida coletado na
sua forma líquida. O material destilado é recolhido e a borra de tinta fica retida no fundo do destilador.
O processo de separação com base na técnica de destilação, cuja metodologia está descrita acima, foi
desenvolvida de modo a atender tanto a obtenção da borra, como permitir a reutilização do solvente.
Dessa forma, de acordo com o manual de instruções do destilador, foi selecionada a temperatura de 56º C
para o solvente (correspondente à temperatura de vaporização da acetona). Na destilação foi utilizado
recuperador de solvente do tipo EExd DIGIT, modelo IST/SET 10 (Figura 1).
Figura 1 - Recuperador de solvente tipo EExd DIGIT, modelo IST/SET 10.
A borra que sobrou no interior do destilador, resultado da separação dos resíduos, e a borra remanescente
no fundo dos recipientes de armazenamento das amostras foram misturadas e homogeneizadas em
centrífuga, a fim de uniformizar sua consistência e facilitar a coagem. A coagem foi feita em peneira
simples com tela de náilon para remoção de partículas presentes que pudessem interferir posteriormente
na película. Esse procedimento foi utilizado para conferir um aspecto de tinta ao resíduo, que foi tratado a
partir de então como uma tinta de segunda linha.
3.2. Aplicação da tinta de segunda linha em superfícies da construção civil
Para testar a viabilidade de aplicação dessa tinta de segunda linha em diversos materiais, utilizou-se uma
tinta proveniente do resíduo da indústria moveleira, que possui características específicas, com outra
finalidade, que é o revestimento de superfícies da construção civil. Dessa forma, a metodologia construída
para o estudo foi baseada na expectativa de se observar o comportamento da tinta de segunda linha obtida
de acordo com características importantes para as tintas de revestimento de superfícies da construção
civil, como: materiais à base de madeira tipo MDF (medium-density fiberboard), compensado e madeira
roliça de eucalipto; metal ou chapas metálicas, para uso em esquadrias, dentre outros; chapas de PVC
utilizadas para revestimento e peças específicas para tubulação; telhas cerâmicas e telhas recicladas;
pavers de concreto e blocos vazados de concreto.
De acordo com o comportamento de cada superfície, houve a necessidade de se incluir na metodologia
tratamentos como lixamento e pré-cobertura com massa seladora, precedendo a aplicação da tinta, no
sentido de melhorar a aceitabilidade do revestimento.
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Foram observadas algumas características, consideradas por Polito (2006), para a qualidade no uso e
aplicação de tintas. Durante a aplicação foram observadas, visualmente, as seguintes características:
alastramento e nivelamento, que garantem a boa aparência do filme; capacidade de cobertura, que se
refere à quantidade de demãos necessárias; possibilidade de respingar quando aplicada com rolo, que está
ligada à rapidez e à facilidade de limpeza no trabalho. A aplicação foi feita com pincel e rolo, nas diversas
superfícies, variando a espessura da camada da tinta espalhada, a fim de avaliar a influência na formação
do filme seco.
Objetivando-se comparar o poder de cobertura das tintas nas cores branco e imbuia, na maioria das
amostras essas tintas foram aplicadas lado a lado para facilitar a comparação visual.
3.3. Condições de exposição e secagem
Devido o fato da tinta obtida do resíduo ser originária de tinta utilizada na indústria moveleira e, assim,
apresentar necessidade de cura pela exposição à radiação ultravioleta, as superfícies revestidas foram
expostas diretamente ao sol, em diversos horários, e indiretamente, expostos à luz solar ambiente. Em
ambos os casos, a temperatura variou apenas em função do horário do dia, de acordo com a época do ano,
devido à exposição ao sol, com a intenção de atingir a secagem em condição ambiente.
Essas exposições foram feitas em dias de temperaturas médias em torno de 25ºC, no período de dezembro
à fevereiro, na cidade de Viçosa, Minas Gerais (20°45’14’’S - 42°52’54’’W). As exposições foram feitas
em horários de grande intensidade luminosa (entre 10:00 h e 15:00 h).
3.4. Avaliação da película seca
Em relação à película, foram observadas visualmente as seguintes caractéristicas citadas por Polito
(2006): grau de adesão, característica ligada à formação de bolhas; descascamento; resistência à umidade
e à lavagem; resistência à abrasão, que é a resistência à limpeza; resistência às manchas, ou seja se não
absorve sujeira; resistência à aderência, se as superfícies revestidas não grudam, retenção de cor e
resistência ao mofo. Outras características consideradas importantes pelo autor como resistência à
calcinação e resistência à alcalinidade, não foram observadas. A ABNT (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA
DE NORMAS TÉCNICAS) recomenda uma série de normas específicas para determinar cada uma dessas
propriedades em tintas látex; porém devido à complexidade desses testes, associado ao fato da tinta
testada nesse trabalho consistir de outra base, não foram utilizadas tais normas e a verificação de cada
propriedade foi realizada visualmente.
Segundo Polito (2006), na maioria das tintas utilizadas na construção civil, quanto maior a quantidade de
sólidos em volume na tinta, maior a espessura da película, considerando-se uma determinada taxa de
espalhamento, traduzindo em melhor cobertura, maior proteção e, portanto, maior durabilidade. Dessa
forma, a quantidade de sólidos poderá interferir na qualidade do filme, embora não seja objeto de
avaliação neste trabalho.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1. Obtenção da tinta de segunda linha
Quando o sobrenadante das amostras foi destilado, restou ao final do processo no interior do destilador
uma quantidade de solvente impregnado com pigmentos da tinta, apresentando relativa transparência e
aparência mais viscosa que o solvente puro. Esse resíduo foi misturado à borra acumulada no interior dos
recipientes de armazenamento, após a retirada de todo o sobrenadante para destilação. Esse volume de
solvente com aparência viscosa, impregnado de pigmento, influenciou na viscosidade final da tinta
homogeneizada, visto que para se garantir o aproveitamento do resíduo, é interessante que se faça uso de
todo o restante, evitando a necessidade de outras formas de disposição de parte desse volume.
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A homogeneização foi completa e a tinta após armazenamento não apresentou decantação intensa da
porção de sólidos, sendo facilmente homogeneizada novamente. Todas as amostras apresentaram mesma
viscosidade aparente, porém devido às condições de armazenamento inadequadas, a borra de primer
amêndoa apresentou certa solidificação da camada superior. Essa camada cristalizada não foi totalmente
homogeneizada e dissolvida durante o processo de mistura, resultando na trituração e apresentação de
pequenos flocos imersos na tinta. A Figura 2 mostra as tintas obtidas nas cores: branca, imbuia e
amêndoa.
Figura 2 - Tintas nas cores branca, imbuia e amêndoa obtidas após o processo de reciclagem.
4.2. Aplicação da tinta
Apesar da tinta ser aparentemente menos viscosa que as diversas tintas usuais na construção civil, só
respingou do pincel ou do rolo quando em excesso e apresentou facilidade de espalhamento nas diversas
superfícies testadas. A tinta não escorreu quando a aplicação foi feita sobre superfícies inclinadas ou
verticais.
O espalhamento melhor da tinta se deu na aplicação sobre a telha reciclada, seguido dos seguintes
materiais: MDF pré-coberto com massa seladora simples, aglomerado pré-coberto com massa seladora
simples, MDF sem tratamento prévio, aglomerado sem tratamento prévio, pavers de concreto, bloco e
telha cerâmicos, madeira roliça e bloco de concreto vazado. No caso do PVC e das placas de aço
galvanizado o espalhamento não se deu de maneira uniforme. Quando o teste foi feito sobre estas
superfícies pré-cobertas por massa seladora, os resultados obtidos não foram bons, pois a cobertura com
massa seladora não apresentou nivelamento regular sobre essas superfícies.
Em relação ao poder de cobertura, tanto da tinta branca quanto da tinta imbuia, verificou-se
comportamento semelhante, na primeira e segunda demãos, conforme pode ser visto na Figura 3. Não
foram realizadas comparações com a tinta de cor amêndoa.
Pelo fato da secagem da tinta depender da radiação solar, a camada de tinta espalhada deve ser fina.
Camadas mais grossas apresentaram desuniformidade durante o processo de secagem. Como secaram
apenas superficialmente, houve enrugamento da película. Dessa forma, o ideal é utilizar demãos finas,
expor à radiação solar para secagem e, se necessário, cobrir com outras demãos, intercalando com a
exposição à luz solar.
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Figura 3 - Comparação entre o poder de cobertura das tintas imbuia e branca sobre compensado.
4.3 Condições de exposição e secagem
Somente os revestimentos expostos diretamente à luz solar formaram filme seco. Desta forma, as
superfícies pintadas devem ser diretamente expostas ao sol. É importante ressaltar que no caso de
superfícies delgadas todas as laterais devem ser expostas diretamente à luz solar para se alcançar a
secagem completa.
Em relação ao tempo de secagem, após início de exposição ao sol em momentos de maior intensidade,
entre 10 e 13 horas, pôde-se verificar formação do filme seco após 1 a 2 horas de exposição, dependendo
da espessura da camada. Vale destacar que, quando a camada é muito grossa, independentemente do
tempo de exposição, somente a camada superficial forma filme seco e por isso apresenta enrugamento.
4.4 Avaliação da película formada em relação as diversas superfícies
As aplicações feitas com a tinta proveniente da reciclagem do primer amêndoa não apresentaram bons
resultados devido à presença dos flocos imersos na tinta.
Superfícies lisas como PVC e aço galvanizado, em geral, nao apresentaram bons resultados. A película
obtida após secagem não apresentou nivelamento, uniformidade nem homogeneidade e houve
enrugamento, tanto em função da espessura da camada quanto devido ao fato da adesão da tinta à tais
superfícies ser baixa, mesmo quando aplicada uma película fina. Quando a espessura da camada é grossa,
forma-se uma película seca apenas na superfície e a tinta em contato com o substrato não seca, causando
o fenômeno.
Para evitar esse problema nos diversos materiais, as aplicações foram feitas espalhando ao máximo a
tinta, a fim de atingir uma camada bastante fina e então exposta ao sol. Como as camadas eram muito
finas, necessitou-se de mais uma ou duas demãos para se atingir a cobertura satisfatória de acordo com
cada superfície.
Conforme dito anteriormente, as películas formadas sobre PVC e aço galvanizado não apresentaram bons
resultados, tanto na aplicação direta quanto sobre pré-cobertura com massa seladora. Além disso, as
superfícies de aço galvanizado foram lixadas antes de qualquer aplicação, fato que não somou melhoria
significativa para a adesão da tinta. O fato de serem superfícies muito lisas, explica a não homogeneidade
da distribuição de tinta, pois a adesão à superfície foi baixa, podendo facilmente desprender películas
secas. Pelo mesmo motivo, a distribuição da pré-cobertura de massa seladora também não foi eficiente,
rendendo marcas adquiradas durante o pré-tratamento e acumulando imperfeições após a pintura.
A Figura 4 mostra algumas das amostras testadas.
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Figura 4 - Superfícies pintadas com as tintas recicladas.
Na Tabela 1 é apresentada uma comparação entre as propriedades da película seca nas diversas
superfícies utilizadas. É importante destacar que os adjetivos “Alta”, “Regular” e “Baixa”, utilizados na
tabela, se referem a resultados relativos, obtidos de acordo com a eficiência observada para cada
propriedade comparada entre os diversos materiais. Após a tabela são apresentados aspectos relevantes
das propriedades observadas nos diversos filmes.
Tabela 1 - Comparação entre as características das películas secas formadas após aplicação da tinta reciclada sobre
diversas superfícies da construção civil.
Materiais/Superfícies testados
Característica
Telha
MDF
observada
Reciclada
MDF c/ Compen- Compensa- Madeira Pavers
massa sado
do c/ massa roliça
Cerâmi- Bloco de
ca
concreto
Adesão
Alta
Alta
Alta
Alta
Alta
Alta
Alta
Alta
Alta
Descascamento Não
Não
Não
Não
Não
Não
Não
Não
Não
Retenção de
cor
Alta
Alta
Alta
Alta
Alta
Regular
Alta
Regular
Baixa
Resistência à
umidade
Regular
Regular Regular Regular
Regular
Regular
Regular
Regular
Regular
Resistência à
abrasão
Baixa
Regular Regular Regular
Regular
Regular
Regular
Baixa
-
Resistência à
manchas
Alta
Alta
Alta
Alta
Regular
Alta
Regular
-
Resistência à
aderência
Alta
Regular Alta
Regular
Alta
Regular
Alta
Alta
-
Resistência ao Alta
mofo
Alta
Alta
Alta
Alta
Alta
Alta
Alta
Alta
Demãos para
cobertura
2a3
3
1
3
2
3
2
3
3 ou mais
Brilho
Alto
Baixo
Regular Baixo
Regular
Baixo
Regular
Baixo
Nenhum
Alta
Como as tintas são passíveis de um bom espalhamento sobre a telha reciclada, não houve formação de
rugas e, para atingir cobertura satisfatória, duas a três demãos foram suficientes. Houve forte adesão ao
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filme plástico presente na própria telha e não se verficou formação de bolhas. É importante ressaltar que
este filme presente na telha pode se soltar facilmente, portanto não é a película de tinta que se desprende.
Justamente por esse fato, a resistência à abrasão é fraca, o filme é removido por atrito antes que a película
de tinta seca possa se desprender. A cor da tinta manteve-se após aplicação, não apresentando manchas.
Em relação à resistência à aderência a outra superfície, esta apresentou certo grau de aderência logo após
a exposição, mas que desapareceu rapidamente. A película apresentou brilho maior que as demais e não
houve crescimento de mofo ao longo do tempo de acompanhamento (no caso 120 dias). Foram testadas
duas cores diferentes na telha, a tinta branca, proveniente da reciclagem do primer branco, e a tinta
imbuia, proveniente da destilação do primer imbuia, sendo que ambas apresentaram poder de cobertura
de mesma intensidade.
Com relação ao MDF (medium-density fiberboard), foi feita aplicação direta e aplicação sobre a
superfície pré-coberta com massa seladora. No caso da aplicação direta, houve absorção de tinta pela
superfície, resultando em uma película sem brilho, apresentando aspereza semelhante ao do material sem
cobertura. Com a aplicação de uma segunda demão de tinta, verificou-se uma película mais brilhosa e
mais lisa, com características semelhantes para as duas cores testadas (imbuia e branco), inclusive a
intensidade de cor e a cobertura do substrato foi semelhante. Em nenhuma das duas camadas houve
formação de bolhas e nem verificou-se descascamento, a película mostrou resitência à limpeza úmida,
mas foi fraca a resistência à fricção contra qualquer material ou superfície porosa. É importante notar que
em torno de 120 dias após a aplicação, o material descoberto apresentou formação de mofo, enquanto a
parte revestida pela tinta permaneceu protegida. Em relação ao MDF pré-coberto com massa seladora, o
filme formado pela tinta apresentou alto brilho e adesão à superfície, não havendo formação de bolhas e
nem descascamento.A formação de marcas na película foi proveniente das marcas da aplicação da massa
seladora. Em ambas as superfícies, a película demonstrou resistência regular à aderência após a secagem,
sendo esta aumentada em função do tempo.
A película formada sobre as bases de compensado sem pré-tratamento apresentou características
semelhantes à película sobre o MDF, como elevada absorção. Desta forma, seu poder de cobertura não foi
eficiente, havendo clara necessidade de outras demãos, fato este verificado para os diversos materiais de
superfícies permeáveis testados. Com a primeira demão, observou-se a manutenção de uma aspereza
semelhante à da superfície descoberta e nenhum brilho foi percebido. A segunda demão proporcionou
maior brilho à superfície pintada, mantendo as características de adesão, retenção de cor e não formação
de mofo nas superfícies pintadas, o que pode ser visto na Figura 5.
Figura 5 - Ocorrência de crescimento de mofo no lado sem revestimento.
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Da mesma forma que o MDF, as superfícies de compensado apresentaram boa resistência à aderência. As
superfícies não grudaram e nem houve desprendimento de cobertura quando tocadas, assim como não
houve absorção de poeira e partículas do ambiente.
A película formada sobre a madeira roliça de eucaplito apresentou alta adesão; manutenção de cor e
resistência à aderência relativamente mais baixa que os demais materiais devido à alta absorção de tinta,
verficou-se também alta resistência ao mofo impedindo seu surgimento. Por ser uma superfície muito
porosa, a primeira demão de tinta foi bastante absorvida, necessitando de segunda e terceira demãos para
formar película mais definida. Trata-se de uma aplicação interessante, mesmo apresentando resultados
relativamente inferiores aos demais testes comentados, visto que geralmente os usos para os quais são
destinadas, como cercas e estruturas de ambientes rústicos, não exige padrões rígidos de qualidade para o
resultado da aplicação, podendo a tinta ser potencialmente aproveitada dessa forma.
A película formada sobre os pavers de concreto liso foi similiar à formada sobre as demais superfícies
provenientes da madeira. A aplicação direta mostrou ser a usual, visto que a pré-cobertura com massa
seladora acumulou imperfeições para o filme, devido ao ineficiente espalhamento da massa sobre a
superfície. A absorção da primeira demão de tinta foi menor do que no caso do MDF e do compensado e,
por isso, a primeira demão apresentou um certo brilho, a segunda demão tornou a superfície mais brilhosa
e lisa. A adesão da tinta à superfície foi forte, observou-se também resistência à limpeza apenas com
água, não sendo recomendado o uso de bucha ou outro material que cause o mesmo tipo de atrito. A cor
se mantém após a aplicação, não havendo formação de manchas e nem absorção de sujeira, e observou-se
alta resistência à aderência em função do tempo decorrente após a secagem.
Após aplicação da tinta sobre as superfícies de cerâmica (tijolo e telha), observaram-se características
semelhantes às outras, porém houve uma dificuldade em relação ao poder de cobertura da tinta,
demandando a terceira demão. A resistência à abrasão mostrou ser menor que as demais, pois a própria
cerâmica se desgasta com a fricção, e por ser uma superfície porosa absorve maior quantidade relativa de
tinta a ponto de necessitar de mais demãos e de influenciar na retenção da cor e na formação de uma
película fosca.
A aplicação sobre o bloco vazado de concreto formou uma película bem aderida à superfície, porém sem
brilho. Isso se deve ao fato de o material ser rugoso e ter maior poder de absorção. Devido a essa
característica da superfície do material, não foi possível avaliar as características de resistência à abrasão,
ao aparecimento de manchas, e à aderência. Tendo em vista que a superfície do bloco é muito rugosa, foi
inviável avaliar a abrasão utilizando bucha, bem como avaliar a percepção do surgimento de manchas e a
resistência à aderência através do toque e/ou do contato com a mesma superfície igualmente revestida,
conforme foi feito com as demais. A cor se manteve fraca e não houve formação de mofo. Pelo fato da
alta absorção houve necessidade de, no mínimo, três demãos de tinta para se obter uma cobertura que se
destacasse no material. Apesar dos resultados destoarem dos demais, existe o uso potencial da tinta
reciclada em tal superfície quando se deseja apenas o revestimento básico, sem exigir elevada qualidade
no resultado na aplicação.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste trabalho foi avaliada a possibilidade de aproveitamento da borra de tinta gerada na linha de pintura
de móveis como material de construção civil, por meio da aplicação em diversas superfícies de materiais
utilizados para esse fim. A partir do processo de separação da borra de tinta, utilizando a técnica de
destilação, este resíduo foi aplicado em diversas superfícies.
Na metodologia desenvolvida e aplicada nesse trabalho, assim como na avaliação dos resultados,
objetivou-se a aplicação de técnicas práticas e fáceis de serem aplicadas, tanto na produção e manejo do
resíduo para produção de tinta, como em sua aplicação, buscando-se uma maneira mais objetiva de se
aproveitar esse resíduo com os recursos mínimos possíveis.
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Nas diversas aplicações sobre os materiais de construção civil testados, formou-se uma película que
atende minimamente algumas características básicas das tintas de revestimento. É importante ressaltar
que a tinta não atinge alto padrão de qualidade, mas é passível de uso, sendo importante para o
aproveitando e destinação desse resíduo.
Dos materiais de construção avaliados, o que apresentou melhor resultado foi a telha reciclada, seguida
das superfícies de madeira, dos materiais à base de concreto e cerâmica. É importante reforçar que a
avaliação dos resultados foi realizada de forma relativa entre os diversos materiais utilizados nos testes.
O reaproveitamento simples desse resíduo como tinta reciclada mostra-se interessante evitando gastos
com outras formas de disposição como incineração, motivando uma outra forma de destinação, que não
seja o lançamento ao meio ambiente, evitando uma série de impactos ambientais.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 10004: Classificação de resíduos sólidos. Rio de
Janeiro: ABNT, 2004.
DOSSIN, R., MUNIZ, A. R. C. Reciclagem de borra de tinta por pirólise. In: XIX CONGRESSO DE INICIAÇÃO
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POLITO, G. Principais sistemas de pinturas e suas patologias. Departamento de Engenharia de Materiais e
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RUIZ, C. S. B. Avaliação da formação e degradação de filmes de vernizes curados por radiação ultravioleta e
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Concentração: Físico-Química) - Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, 2003.
SILVA, C. M. et. al. Proposta de Gerenciamento Integrado dos Resíduos Sólidos em Pólo Industrial de Móveis. In:
VIII SIMPÓSIO ÍTALO BRASILEIRO DE ENGENHARIA SANITÁRIA E AMBIENTAL, 2006, Fortaleza.
Anais. Fortaleza: ABES, 2006.
SOUZA, P. A. F. de. Recuperação do solvente dos resíduos do processo de pintura na indústria moveleira.
2009. Dissertação. (Mestrado em Engenharia Ambiental - Área de Concentração: Meio Ambiente). Curso de PósGraduação em Engenharia Ambiental, Universidade Federal de Ouro Preto, Ouro Preto, MG, 2009.
AGRADECIMENTOS
Ao CNPq, pela concessão de bolsa de desenvolvimento tecnológico através do programa PIBITI-UFV.
VI Encontro Nacional e IV Encontro Latino-americano sobre Edificações e Comunidades Sustentáveis - Vitória – ES - BRASIL - 7 a
9 de setembro de 2011
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