Comunicação à Comunidade de Ramalde da minha saída para Canidelo
É com a mais profunda amizade humana que me dirijo a todos vós, a fim de vos comunicar o seguinte:
Há 23 anos que vos amo e sirvo. Durante todo este tempo sempre fui exigente convosco no que toca às
coisas de Deus e da Paróquia: sempre vos pedi muito para Deus e vós fostes um povo tão fantástico, que
sempre destes mais do que aquilo que podíeis; sempre vos solicitei mais do que o razoável para a Paróquia e
vós fostes pessoas tão extraordinárias, que sempre colaborastes para além das vossas possibilidades.
Foi isto que possibilitou fazer de Ramalde uma Comunidade Paroquial viva, alegre, dinâmica e missionária,
onde todos somos muito amigos uns dos outros e onde Cristo é a nossa paixão, o centro da nossa fé e a
razão do nosso existir.
Sim, tantas coisas vos demandei para Deus e vos roguei para a Paróquia, mas nunca vos pedi coisa alguma
para mim. Sempre achei que um Padre devia ser uma pessoa simples e nunca devia incomodar os seus
paroquianos com nada que fosse para ele. Construímos o centro Paroquial - o que nos enaltece, edificamos a
Nova Igreja - o que muito nos orgulha, e ainda conseguimos restaurar a Igreja Antiga - o que
verdadeiramente nos enobrece, mas nunca vos pedi um tostão para a casa paroquial onde vivi estes anos
todos, nunca coisa alguma vos pedi para o meu conforto pessoal, nem nunca aceitei uma prenda em nenhum
dos meus aniversários natalícios, nem mesmo nas minhas bodas de prata sacerdotais. Isso dá-me muita
alegria e deixa-me muito feliz.
Mas chegou a hora de vos pedir três prendas, três coisas muito importantes. Se sois, realmente, meus
amigos, dai-me o que agora vos rogo:
Primeira coisa que vos peço: aceitai tranquilamente, sem inquietações interiores e sem turbulências
exteriores, a notícia de que vou deixar de ser vosso Pároco. Sim, vou sair de Ramalde para ser Pároco de
Canidelo, V.N.Gaia.
Segunda coisa que vos suplico: acolhei o novo Pároco, que me vem substituir, como um irmão querido e
como uma instância de Cristo, Bom Pastor. Chama-se Mário Henrique. Foi meu aluno, durante vários anos, e
conheço-o muito bem. É um padre muito jovem, muito simpático, muito competente, muito sereno e
verdadeiramente fantástico! Precisa do vosso amável acolhimento, necessita da vossa indefectível amizade e
carece da vossa total colaboração. Basta serdes com ele o que sempre fostes comigo, para me deixardes
tranquilo, feliz e, desde já, muito agradecido. Peço-vos, encarecidamente, que o recebais com a maior alegria
humana e com grande júbilo espiritual. Que ele veja em vós o povo querido e maravilhoso que sempre
soubestes ser comigo. Ele só será o melhor pároco, se vós fordes o melhor povo!
Terceira coisa que vos peço, de joelhos: que nenhum de vós deixe passar pela sua cabeça, ainda que seja por
momentos, a peregrina ideia de que o Sr. Bispo é o culpado da minha saída. Só há dois culpados da minha
abalada: Deus e eu. Deus, porque mo mendigou; eu, porque não tive coragem de Lhe dizer que não e logo
me disponibilizei, sem pôr condições. O Sr. Bispo só pediu, porque precisava de resolver o “problema” de
Canidelo, mas fê-lo com tanta delicadeza, com tamanha humildade, com tanto constrangimento e com
semelhante humanidade, que me deixou comovido. Por isso, se alguém quiser ficar zangado, então que
comece por se arreliar com Deus e que acabe aborrecendo-se comigo. Se, verdadeiramente, sois meus
amigos, então não escrevais nenhuma carta ao Sr. Bispo, a não ser para lhe dizer que Ramalde gosta muito
dele. Rezai, antes, pelo Sr. D. António, que tanto precisa da nossa comunhão afectiva e efectiva. Nós não
imaginamos as suas ocupações e preocupações, nem damos conta do quanto a vida do Sr. D. António
Francisco está configurada ao mistério da cruz do Senhor.
Não fiqueis tristes por eu partir. Isto nem sequer é um problema, mas apenas e só uma coisa simplesmente
normal. “Ninguém é de ninguém, mesmo quando se ama alguém”. Apesar de vos amar, sou da Igreja, para
aquilo que a Igreja de mim precisa. Grave seria Deus ir embora de Ramalde. Mas Ele é o único que nunca vos
abandonará; estará sempre convosco, porque muito vos ama. E onde Deus está, tudo fica sereno, tudo corre
muito bem. “ Nada te turbe, nada te espante; quem a Deus tem, nada lhe falta…”. Assim diz um cântico de
Taizé. Que aconteça assim em Ramalde: que nada vos turbe…pois só Deus basta!
Não devemos ficar tristes porque acabou uma das mais bonitas histórias de amizade, comunhão e
colaboração acontecidas entre um simples padre, que sou eu, e um extraordinário povo, que sois vós.
Devemos ficar felizes porque aconteceu. Sim, aconteceu uma história muito bonita onde o padre foi o
“general” que deu nome à batalha, mas vós fostes os nobres e valentes soldados que “ganhastes a guerra”
da construção de uma Paróquia à medida e ao jeito de Cristo. Seja Deus louvado e vós enaltecidos por isso!
Termino, dizendo-vos que deixo de ser vosso Pároco, mas nunca deixarei de ser vosso amigo. Parto, sem
deixar dívidas e ainda com um confortável pé -de - meia para qualquer eventualidade - o que me dá muita
felicidade, mas levo-vos a todos no meu coração de onde nunca saístes nestes 23 anos e de onde jamais
saireis. Fostes sempre um povo grande em quem nunca vi gestos pequenos. De vós guardarei sempre a mais
grata memória!
Que Deus vos abençoe e faça sempre felizes e que a mim nunca me desampare, nesta nova missão que agora
me confia.
O Sr. Padre Mário Henrique, novo pároco, entrará em Ramalde no dia 28 de Setembro. Ainda não sei a hora.
Dir-vos-ei depois.
Eu celebrarei a última Eucaristia convosco aqui, nesta Igreja, no dia 26 de Setembro, às 21h30. É uma sexta feira.
Estão proibidas todas as homenagens à minha pessoa, por só Cristo as merecer. E para continuar igual ao
que sempre fui, não aceito quaisquer prendas. A única coisa que aprovo, e agradeço, é que venhais todos a
essa missa (dia 26 de Setembro, às 21h30), para, juntos, cantarmos, como fez Nossa Senhora, o Magnificat
pelas maravilhas que o todo - poderoso fez em nós e por nós, em Ramalde, nestes 23 anos.
Terminamos a nossa Eucaristia com a bênção que Deus sempre gosta de vos dar. Recebei-a de pé.
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