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A VOZ QUE FICA NA CELEBRAÇÃO DA EDUCAÇÃO ESCOLAR PAULISTA:
O JORNAL ESCOLAR NOSSO ESFORÇO
Ana Regina Pinheiro
Universidade Estadual de Campinas
RESUMO
Instituição modelar e coração dos projetos do Brasil republicano, a escola normal de São Paulo erigese, nas primeiras décadas da República, modernizadora de métodos de ensino e de práticas
pedagógicas. Seu grande símbolo, o Edifício da Praça, foi cuidadosamente planejado e expressava,
em seus detalhes arquitetônicos, os preceitos civilizatórios apropriados para este período. De suas
linhas e formas higienizadoras ao processo de ensino, baseado na observação, nada podia escapar ao
controle dos grandes mestres que, ao serem incorporados ao projeto escolar paulista eram, também,
portadores da tarefa modernizadora.
Passados 40, 50 anos da Proclamação da República,
percebemos, no decorrer de nossa pesquisa, que a tarefa histórica atribuída à educação escolar
naquele período permaneceu e foi constantemente renovada por meio da ação de educadores e do
registro de suas práticas no interior da escola. Nesse sentido, este artigo tem o objetivo de refletir
sobre as estratégias de re-fundação desta escola nas décadas de 30 e 40, materializadas nas páginas do
jornal escolar Nosso Esforço e no processo de sua elaboração. A atualização desse discurso esclarece,
também, sobre os usos, a circulação e os significados deste jornal escolar no período. Os dados
coletados até o momento são resultado da leitura de fontes documentais da biblioteca escolar da
Escola Primária Caetano de Campos, em São Paulo, em cujo acervo encontramos correspondências,
dossiês temáticos, dossiês da biblioteca, fotografias, objetos, atas e relatórios, dentre outras séries e
tipos documentais. No conjunto desta documentação o jornal Nosso Esforço e as correspondências
relativas ao processo de produção deste periódico, juntamente com documentos oficiais, constituem
nossas principais fontes de pesquisa. Ao longo desse estudo os dados relativos ao processo de
produção do Nosso Esforço estão sendo analisados à luz das ações de três atores: os educadores, que
o promoveram a porta-voz da memória escolar paulista; o Estado no seu papel de formulador de
políticas educacionais e orientador de práticas pedagógicas e os alunos do curso primário, que
assinam seus artigos e são os redatores do jornal. As estratégias e as táticas desses atores qualificaram
esse periódico como uma fonte relevante de pesquisa sobre o processo de escolarização em São
Paulo, confirmando a forma distintiva com que António Nóvoa (1993) o aborda: “uma fonte
insubstituível para o estudo da evolução das práticas escolares, das realidades institucionais e do
comportamento dos diferentes actores educativos”. As respostas às questões sobre como os sujeitos
que participaram de sua produção estabeleceram usos, pensaram sua circulação, como se definiram os
temas do jornal, qual o envolvimento e de que forma as crianças participaram de todo o processo,
passam pela compreensão das formas negociadas em que se deram essas participações na elaboração
do jornal. Produzido na Biblioteca Infantil Caetano de Campos, no período de 1936 a 1967, o Nosso
Esforço ganha visibilidade ao se tornar, dentro do espaço escolar, o elemento mobilizador das
disputas de projetos políticos e educacionais. Desta forma, os temas abordados, o cuidado na seleção
dos artigos a serem publicados, a materialidade do jornal, (marcadamente no formato de apresentação
das matérias) e a concepção dos seus interlocutores, participantes ativos do jornal, a respeito do papel
da escola, demonstram as múltiplas facetas deste periódico. Produto das atividades escolares serviu de
fio condutor a propósitos higienistas e a setores que encontravam na escola espaço de divulgação de
seus ideais. Educadores, dentre os quais, João Lourenço Rodrigues, políticos e instituições ganham
notoriedade nesta pesquisa, por estarem em suas páginas ou por serem os seus colaboradores ou,
ainda, seus leitores. As evidências mostram, sobretudo a partir de 1939, um crescimento significativo
no número de artigos que buscavam difundir a memória da escola paulista, os princípios cíviconacionalistas, as práticas de higiene e padrões “adequados” de comportamento, em lugar da
divulgação de atividades curriculares ou acontecimentos escolares. Cultivando, desta forma, uma
concepção específica de escola e de nacionalidade.
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TRABALHO COMPLETO
O modelo de educação escolar paulista, inaugurado em fins do século XIX e o que ele
representa para a educação brasileira, há muito tem sido objeto de investigação de pesquisadores da
História da educação1. A pesquisa educacional foi reorientada pelo movimento da historiografia que
alargou as possibilidades de seleção de novos temas, objetos e fontes de pesquisa ao pesquisador da
educação.
Iniciado na década de 1920 com a fundação da Revista dos Annales, por Marc Bloch e Lucien
Febvre juntamente com um grupo de historiadores franceses, esse movimento da historiografia passou
por várias fases e ganhou, segundo Burke (1997) uma inegável abrangência na década de 1970,
quando os “Annales” tornou-se um movimento de amplas proporções e alterou não somente a escrita
da história, mas seus objetos e suas fontes e está ligado às transformações ocorridas nos últimos anos
em âmbito social e político.
Um dos elementos centrais, destacado por Burke (1992, p.11), para esta reflexão é o conceito
de cultura: “o que era previamente considerado imutável é agora encarado como uma ‘construção
cultural’, sujeita a variações, tanto no tempo quanto no espaço”. Outro elemento desta reflexão é a
redução das fronteiras entre a história social e a história cultural e sua aproximação com outros
campos do saber - a antropologia, a sociologia, a economia -ao considerar as atividades humanas, ou
simplesmente o cotidiano, como experiências históricas marcadas pelos valores existentes em
determinada comunidade e dada temporalidade. Sob este ponto de vista, todos os acontecimentos
sociais (pensados como atividades humanas), tornam-se passíveis de conhecimento histórico,
abrindo-se um leque infinito de temas, antes impensáveis como objetos de estudo histórico, forjando a
utilização de novos documentos (existentes em diferenciados suportes), fontes que questionam
conceitos cristalizados na área.
Desta forma, a Nova História Cultural inaugurou novas perspectivas para pesquisas no campo
da educação, que tomam o processo de escolarização como objeto de estudo e a “convergência de
interesses em torno de uma nova compreensão da escola, das práticas que a constituem e de seus
agentes” (Carvalho, 1998b, p.32).
Como assinalam Faria Filho e Vidal (2000, p.21) ao refletirem sobre a relevância de estudos
sobre espaço e tempo escolares para a análise do processo de escolarização primária no Brasil:
...temos a possibilidade de interrogar o processo histórico de sua
produção, mudanças e permanências, contribuindo para
descobrirmos infinitas possibilidades de viver e, dentro da vida,
formas infinitas de fazer a e do fazer-se da escola e de seus
sujeitos.
Na perspectiva anunciada por Marta Carvalho, Faria Filho e Vidal, o jornal escolar compõe o
conjunto de documentos produzidos no processo educativo e pode ser uma fonte privilegiada de
pesquisa sobre a escola. Este tipo de periódico, segundo Nóvoa (1993), se constitui em “uma fonte
insubstituível para o estudo da evolução das práticas escolares, das realidades institucionais e do
comportamento dos diferentes actores educativos.”
Nóvoa (1997, p.13) justifica ainda a importância da utilização de periódicos2 como fonte de
pesquisa que muito tem a contribuir para a História da Educação, definindo-os "como o melhor meio
para apreender a multiplicidade do campo educativo" e destaca:
1
Destaco os seguintes trabalhos como referência: TANURI, Leonor Maria. A Escola Normal no Estado de São
Paulo: de seus primórdios até 1930. In: REIS, Maria Cândida Delgado (org.). Caetano de Campos: fragmentos
da história da educação pública no Estado de São Paulo. São Paulo: Associação dos ex-alunos do IECC, 1994.
SOUZA, Rosa Fátima de. Templos de civilização – a implantação da escola primária graduada no Estado de
São Paulo (1890-1910). São Paulo: UNESP, 1998 e MONARCHA, Carlos. Escola Normal da Praça – o lado
noturno das luzes. São Paulo: Editora da Unicamp, 1999.
2
Antonio Nóvoa (1997, pg.16) amplia a abrangência do conceito entendendo os “periódicos educacionais” não
somente como revistas especializadas destinadas aos professores, “...alargando o corpus à ‘imprensa de
educação e ensino’ e não apenas à ‘imprensa pedagógica.” E, desta forma, “...para além do ensino formal (...),
à educação não-formal, nomeadamente no contexto da educação de adultos, da educação familiar, da
2970
De fato, a imprensa revela as múltiplas facetas dos processos
educativos, numa perspectiva interna ao sistema de ensino (cursos,
programas, currículos, etc), mas também no que diz respeito ao
papel desempenhado pelas famílias e pelas diversas instâncias de
socialização das crianças e dos jovens. A imprensa constitui uma
das melhores ilustrações de extraordinária diversidade que atravessa
o campo educativo.
Muito embora os debates apontem para a convergência de interesses em torno de uma
compreensão da escola a partir de novos objetos e fontes, da mesma forma inovadoras, que
possibilitem múltiplas leituras da educação escolar e que visem restituir à escola uma lógica própria
de funcionamento, trabalhos produzidos por alunos em suas atividades pedagógicas (como é o caso
dos trabalhos escolares, cadernos, registros de suas experiências e opiniões e, mais especificamente, o
jornal infantil), são pouco mencionados nas investigações que se debruçam sobre temas e problemas
relativos ao processo de escolarização no Brasil ou que utilizem a imprensa de educação e ensino
como fonte de suas pesquisas. O maior problema do jornal escolar infantil, conforme acentua Catani
(1996, p. 122), é a raridade deste tipo de fonte, por tratar-se de um impresso de difícil localização.
Outro aspecto a ser considerado é que, quando localizadas, as respectivas coleções, em sua maioria,
estão incompletas, fator que na maior parte das vezes inviabiliza a investigação.
Na pesquisa que realizei em nível de mestrado o Nosso Esforço foi a principal fonte de
análise. Publicado por um período de 30 anos – de 1936 a 1967 - esta coleção encontra-se quase
totalmente completa3. Era um jornal dos alunos do curso primário e sua circulação não se restringia
ao interior da Escola Primária Caetano de Campos. O número de interlocutores era considerável no
universo de educadores; instituições públicas, educacionais ou não; editoras; escritores e redação de
jornais de grande circulação que recebiam o Nosso Esforço regularmente, em especial, nas décadas de
1940 e 1950.
Desta forma, problematizar os temas abordados, o cuidado na seleção dos artigos a serem
publicados, a materialidade do jornal (marcadamente no formato de apresentação das matérias), o que
pensavam seus interlocutores sobre a dinâmica escolar, nos remete a práticas e concepções que
demonstram as múltiplas facetas e possibilidades de investigação deste periódico. Educadores, dentre
os quais, João Lourenço Rodrigues, políticos e instituições ganham notoriedade em nossa pesquisa,
por estarem em suas páginas ou por serem os seus leitores ou, ainda, seus colaboradores.
Essa relativa autonomia atribuída aos sujeitos na dinâmica escolar pode ser apreendida no
processo de produção do Nosso Esforço, especialmente nos discursos que serviram aos propósitos
higienistas, nacionalistas e à defesa da escola paulista republicana atendendo a interesses de setores e
grupos que encontravam na escola espaço de divulgação de seus ideais.
O culto à memória da educação paulista encontrava eco nas realizações e práticas de
educadores que se destacaram nos períodos de implantação e consolidação deste modelo de escola.
Qualificados com adjetivos como “precursores”, “inovadores”, esses educadores, constantemente
evocados, rememoravam os tempos áureos da fundação da escola republicana. Movimentos que se
manifestavam no jornal de duas maneiras: primeiro, na forma discursiva que caracteriza este tipo de
periódico: números especiais e edições comemorativas, como a edição comemorativa do Centenário
do Ensino Normal. Segundo, que examinaremos neste artigo, pelo diálogo que se estabelecia entre os
alunos redatores do jornal, a diretora da escola e a bibliotecária e os interlocutores que colaboravam
direta ou indiretamente, por meio de críticas, sugestões de temas e conteúdos ou ainda, por serem seus
leitores.
O discurso, registrado em um vasto universo documental composto de correspondências,
dossiês, recortes de jornais, flâmulas, desenhos, fotografias, objetos, atas, relatórios, manuscritos dos
educação da mulher, dos movimentos da juventude, dos jornais e revistas infantis, da educação física e
desportos, da higiene e saúde escolar e da assistência e proteção a menores.”
3
Foram localizados 87 números do jornal escolar Nosso Esforço. Vide dissertação de mestrado: PINHEIRO,
Ana Regina. A imprensa escolar e o estudo das práticas pedagógicas: o jornal ‘nosso esforço’ e o contexto
escolar do Curso Primário do Instituto de Educação (1936 – 1939). São Paulo: PUCSP, 2000.
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alunos, dentre outros tipos documentais, encontra-se preservado sob a guarda do Centro de Referência
em Educação Mario Covas, em São Paulo.
No trato com estas fontes, o método de investigação segundo Thompsom,(1981) deve se guiar
por um diálogo entre conceito e evidência, interrogando continuadamente as fontes e buscando nas
relações estudadas as maneiras particulares dos acontecimentos, que não se realizam de forma
estática, ou a partir de uma lei e nem tampouco como o historiador gostaria que fosse, mas sim por
uma lógica particular de processo.
Neste sentido, Clarice Nunes e Marta Carvalho (2005, p.45) alertam:
...novos objetos da chamada nova história são novos na medida em
que são objetos cuja historicidade adquire visibilidade, fazendo
com que estudos sobre sua história passem a ser pensados como
possíveis e relevantes.
O Nosso Esforço ganha significado para a educação paulista ao se tornar, dentro do espaço
escolar, o elemento mobilizador das disputas e de projetos político-educacionais.
As estratégias de re-fundação da escola normal paulista nas décadas de 1930 e 1940
Instituição modelar e coração dos projetos do Brasil republicano, a escola normal de São
Paulo erige-se, nas primeiras décadas da República, modernizadora de métodos de ensino e de
práticas pedagógicas. Seu grande símbolo, o Edifício da Praça, foi cuidadosamente planejado e
expressava, em seus detalhes arquitetônicos, os preceitos civilizatórios apropriados para este período.
De suas linhas e formas higienizadoras ao processo de ensino, baseado na observação, nada podia
escapar ao controle dos grandes mestres que, ao se inserirem no projeto escolar paulista eram,
também, portadores da tarefa modernizadora.
Logo, a escola republicana se erigiu pelo primado da visibilidade, do dar a ver estratégia
necessária para que as novas práticas e o esforço de padronização de hábitos e costumes empreendido
pelos setores modernizadores, fossem incorporados pela sociedade via dinâmica escolar (Carvalho,
2003).
Passados 40, 50 anos da Proclamação da República percebemos, no decorrer de nossa
pesquisa, que a tarefa histórica atribuída à escola naquele período permaneceu e foi constantemente
renovada como modelo escolar a ser seguido. O culto à memória da escola paulista se realizou nas
atividades escolares da Escola Primária Caetano de Campos, dentre as quais está a produção e
distribuição do jornal Nosso Esforço que serviu de fio condutor às estratégias de re-fundação da
Escola Normal. No anseio de rememorar o período áureo da educação paulista, pessoas, objetos,
discursos, costumes tornaram-se símbolos criados e recriados, monumentos4 a preservar, sempre
presentes nos artigos publicados. Este é o caso de Antonio Caetano de Campos, primeiro Diretor da
Escola Normal do período republicano. Permaneceu por apenas 20 meses no cargo, falecendo
repentinamente. Segundo Warde e Gonçalves (2002, p.105) Caetano de Campos
tornou-se, depois de sua morte, uma unanimidade: todas as vozes
entoam loas ao primeiro Diretor da Escola Normal; é o seu nome
que a memória e a história registraram como autor da Reforma de
1890, assim como seu é o nome da Escola Normal de São Paulo, a
Escola da Praça, que sobrevive como o protótipo do que a escola
pública republicana já foi capaz de gerar.
4
Empregamos o termo “monumento” no sentido da relação estabelecida por Lê Goff entre
documento/monumento, para quem o historiador tem um “dever principal: a crítica ao documento – qualquer
que ele seja – enquanto monumento. O documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um
produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder.”
2972
A memória de Caetano de Campos se confunde com a da escola paulista, sua imagem foi
construída e alimentada principalmente por seus alunos da turma de 1890, da qual foi paraninfo
(Warde e Gonçalves, 2002). Nas décadas de 1930 e 1940 João Lourenço Rodrigues foi um dos
grandes cultores de sua imagem e defensores de seu legado, foi seu aluno de 1888 a 1890, fato que
lhe garantiu status de biógrafo do grande mestre.
João Lourenço Rodrigues sedimentou longa carreira na educação pública em São Paulo,
assumindo o cargo de diretor da primeira escola de dois anos em 1901 e, em 1903 tornou-se diretor da
Escola Complementar de Guaratinguetá. Foi também professor nomeado em Amparo, São Carlos,
Campinas e, em 1930 lançou seu livro “Um retrospécto”, conhecido e consultado por pesquisados por
trazer um histórico minucioso do ensino em São Paulo. Em sua militância na promoção da escola
paulista foi um dos organizadores do Centenário da Escola Normal, comemorado em 1946, em São
Paulo, juntamente com Carolina Ribeiro diretora da Escola Primária Caetano de Campos de 1935 a
1948.
As correspondências5 que localizamos no acervo da Escola Caetano de Campos evidenciam
que João Lourenço Rodrigues foi um educador atuante nesta escola nas décadas de 1930 e 1940
muito embora estivesse afastado do ambiente escolar desde 1924, após sua aposentadoria. As
inúmeras e freqüentes correspondências endereçadas à Diretora Carolina Ribeiro, à bibliotecária
Iracema Marques da Silveira e aos alunos redatores do Nosso Esforço, tinham o objetivo de propor
temas para o jornal, corrigir dados históricos (como datas, nomes e fatos) supostamente equivocados
e, ainda, propor formas de organização do espaço escolar, sugerindo que o Nosso Esforço possuía
uma relevância não somente pedagógica como também política.
Sua participação sempre constante em artigos publicados no Nosso Esforço e no modo de
conceber estes artigos, o torna um elo de ligação entre o mito da educação paulista constituído nos
primórdios da república e a escola de seus contemporâneos, perpetuando um modo singular de
conceber a educação escolar presente nas práticas e nos modos como grupos de educadores se
apropriaram deste discurso.
Ainda que este artigo não tenha o objetivo de proceder à análise minuciosa das
correspondências em seu contexto, o exercício de refletir sobre o potencial destas cartas como fonte
de pesquisa mostra-se fecundo na medida que descortina, em primeiro lugar, temas e debates que as
motivaram, em segundo, interesses que aproximavam os sujeitos no encaminhamento de atividades e
decisões de natureza político-pedagógica e, em terceiro, formas de atuação política desse grupo. É
fácil perceber nestas cartas, por exemplo, reverência e distinção na menção a Caetano de Campos e a
outros nomes da educação paulista, conforme os exemplos a seguir:
Em 19 de setembro de 1939 João Lourenço Rodrigues escreve para Iracema Marques da
Silveira, afirmando ter recebido o folheto comemorativo da morte de Caetano de Campos e o jornal
da Escola Modelo (provavelmente, o Nosso Esforço de agosto/setembro) 6, e exclama:
Bravo, sim! Graças à clarividência da distinta colega, não se
extinguirá tão cedo a chama que, de meu lado, me esforcei sempre
por alimentar
Nesta correspondência, João Lourenço Rodrigues se diz emocionado pelo fato da Escola
Modelo estar reeditando o discurso proferido por Caetano de Campos em 18907, mesma turma em
que se formou. Faz, ainda, uma sugestão curiosa:
Eu acho que a herma de Caetano de Campos ficou mal colocada
ali onde está, tendo como fundo a escadaria da Escola. Porque
5
As correspondências mencionadas neste artigo referem-se às cartas localizadas na Caixa “Correspondências –
década de 30, 40 e 50”, do acervo da Escola Caetano de Campos, enviadas e recebidas pela Bibliotecária
Iracema Marques da Silveira (responsável pela elaboração do Nosso Esforço), pela Diretora da Escola Carolina
Ribeiro e pelos alunos redatores.
6
O nº 3 e 4 de agosto/setembro de 1939 publicou uma homenagem a Caetano de Campos, patrono da
Biblioteca.
7
Como mencionado anteriormente, Caetano de Campos foi paraninfo desta turma.
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não fazer uma representação à Diretoria da Escola para mudá-la
para o centro de um dos canteiros, aproximando-o da herma de
Cesário Mota, colocada no parque fronteiriço? Ficariam assim,
em frente uma da outra, as efígies desses dois homens que, cada
um na sua esfera de ação, souberam conquistar os corações dos
professores paulistas.
Nota-se que a intenção de interferir na organização do espaço escolar está assegurada pela
autoridade e intimidade com que sugere a mudança da herma de Caetano de Campos para um lugar de
maior destaque.
Os artigos demonstravam, também, que João Lourenço Rodrigues já figurava na galeria dos
mitos da escola republicana. Em 1942 em texto elogioso redigido para o nº 3 e 4 de maio/junho, do
Nosso Esforço, a diretora Carolina Ribeiro fazia a seguinte menção a ele:
Esse o que não envelheceu porque remoça bebendo na fonte do
idealismo mais puro de uma religião sentida e praticada
retemperando dia a dia a sua fibra de educador e cidadão na
esperança perene de ver em nossa terra um povo grande e nobre
pela educação a serviço de uma grande patria. Ah, crianças – que
bom seria se todos os professores do Brasil fossem como João
Lourenço Rodrigues!
Reverenciado, como exemplo de educador a ser seguido, João Lourenço Rodrigues sintetiza o
idealismo de um grupo de educadores que renovaram constantemente o projeto escolar paulista por
meio do registro de suas práticas no interior da escola primária e da atualização do discurso
educacional. A citação acima faz uma aproximação temporal com o passado, dando ao tempo da
escola um significado universal, de continuidade e completude atribuindo um caráter de religiosidade
para a profissão docente, elo necessário entre a prática escolar e a construção da “grande pátria”.
Dois anos depois da homenagem que recebeu de Carolina Ribeiro, João Lourenço Rodrigues,
ao escrever, em julho de 1944 para a Bibliotecária Iracema Marques da Silveira, elogia o evento
comemorativo dos 50 anos da construção do edifício e enfatiza que “o esforço constitue numa bela
documentação do centenário de Caetano de Campos, é uma voz que fica” e agradece a distinção pela
publicação de seu retrato, “com referências tão honrosas. Permita-me apenas comentar que, na
entrevista que deu a uma das colaboradoras do Esforço, a senhora exagerou um pouco...”8 A frase,
que dá origem ao título deste artigo, tem o objetivo de tecer elogios a uma matéria publicada no
Nosso Esforço que registrava o evento comemorativo dos 50 anos da construção do edifício.
Por um lado, a alusão ao Nosso Esforço como uma vóz que fica e, por outro, a contribuição do
jornal como meio de divulgação de ideais e compromissos de um grupo de educadores com princípios
e concepções da escola paulista de outrora, eleva este periódico a elemento central na articulação
política deste grupo, veículo propagador de ideais.
Em outra correspondência sobre o mesmo assunto, endereçada à Diretora da Escola, Carolina
Ribeiro, agradece o convite para participar da solenidade comemorativa do cinqüentenário do edifício
e lamenta não poder atender ao pedido da redatora-chefe do Nosso Esforço para escrever um artigo
para “o número especial que vai sair”, mas traz algumas informações curiosas sobre a história da
construção do edifício, como sugestão para um artigo. Introduz o assunto, comentando sobre a
participação de Gabriel Prestes neste episódio:
Foi ele o primeiro normalista elevado a esse cargo na única
Escola Normal que então possuía o Estado, e o bacharelismo que
até então açambarcava tudo, não recebeu com agrado a
usurpação. Gabriel Prestes foi admirável de dedicação nesse
período, e foi graças à sua intervenção que o Dr. Ramos de
Azevedo consentiu em alterar muita coisa que estava na planta,
8
Grifos do autor.
2974
mas atendia mais às exigências arquitetônicas do que às
conveniências do ensino.
Em outras oportunidades, escrevia diretamente para a aluna-redatora do Nosso Esforço, com a
finalidade de corrigir dados supostamente equivocados, como no exemplo que se segue, de dezembro
de 1944, cujo envelope estava endereçado à redação do jornal,
Minha cara coleguinha Maria Lucia de Freitas,
Recebi o n. 9 do Nosso Esforço, belamente ilustrado e contendo
muito boa colaboração. Parabéns muito sinceros. Sim, parabéns e
agradecimentos pela referência da página 14. No fim dessa
referência há um engano a assinalar: Gabriel Prestes, miss
Browne e Oscar Thompson já tiveram idêntica homenagem e o
primeiro deles tem um medalhão de bronze no salão de entrada da
Escola Caetano de Campos, ao lado de Laurindo de Brito,
Bernardino de Campos e Cesário Motta, portanto, em muito boa
companhia. Faça, pois, a correção, mas não convém dizer de
quem partiu a reclamação. E avante! Fac et spera!9
Desta forma, as correspondências entre João Lourenço Rodrigues e a escola, que são muito
freqüentes neste período, tornaram compreensíveis as relações entre os processos de produção do
jornal e os processos sociais que abrangeram e expressaram, de maneira exemplar, ideais, concepções
políticas e educacionais e, principalmente, as maneiras encontradas por professores, diretora e alunos
para enfrentar a imposição de modelos ou mesmo, propor e defender interesses, resultantes das
relações conflituosas no interior da escola e entre a escola e o poder politico-institucional. Ou seja,
essas correspondências nos permitem elaborar hipóteses sobre como esses sujeitos se mobilizavam,
resistiam ou se adaptavam às inovações pedagógicas e disputavam a hegemonia de práticas e saberes
considerados mais adequados, tendo o Nosso Esforço como veículo de divulgação desses ideais.
Finalizando, as evidências mostram, sobretudo a partir de 1939, um crescimento significativo
no número de artigos que buscavam difundir a memória da escola paulista, os princípios cíviconacionalistas, as práticas de higiene e padrões “adequados” de comportamento, em lugar da
divulgação de atividades curriculares ou acontecimentos escolares. Cultivando, desta forma, uma
concepção específica de escola e de nacionalidade.
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A voz que fica na celebração da educação escolar paulista