Qual será a nossa resposta? Soltos no mundo, apegados cada vez mais às coisas, não raro devotados ao que carece de valor verdadeiro. Invadidos pelo dilúvio de informações e notícias que teimam em nos dar a impressão – puro engano – de que estamos “no ar”, “ligados” sem intervalo, como se estivéssemos sempre na cola da realidade, perseguindo-a e captando-a sem obstáculos. Embriagados pela volatilidade dos acontecimentos que se sucedem sem freios, deixamos extraviar a nossa própria humanidade. A vida se converte em dados, bits e bytes, e seguimos curvados, olhando para a palma da mão, em busca da próxima novidade descartável, à espera da mensagem fútil. Em meio aos excessos do desorientado mundo novo e às ilusões que nos forjam a felicidade, somos tentados, o tempo inteiro, com facilidades: a fuga, a indiferença, as falsas liberdades, a cegueira moral tranquilizadora. É o avesso desse caminho tão triste quanto fácil que vou atravessar, para falar da vida, do humano e do bem; e, também, para descompor a coleção de abismos, absurdos e perversidades que insistem em coisificar nossa humanidade. Não falo para relatar mais um fato, mas para tentar trazer luz à nossa escuridão dolorosa por meio do exemplo de quem obrou não apenas para iluminar a si mesmo, mas o fez para levar claridade e esperança a quem tinha pouco ou quase nada. Porque não desisto, quero falar. Porque endosso o desassossego diante da maldade, brado contra a insensatez. Humanamente perturbado e encorajado a agir: foram esses os sentimentos que irromperam tão logo recebi a notícia da morte de Lucas Silva da Costa, 19 anos, assassinado na madrugada do último sábado em Belém. Com o avançar dos minutos, apenas cresciam as informações e os detalhes trágicos do desventurado evento que marcou esse final de semana em Belém e marcará, definitivamente, a família e os amigos de Lucas que presenciaram tamanha violência. No Brasil, mais de 30.000 jovens entre 15 e 29 anos foram vítimas dessa brutalidade letal no ano passado, metade do número de assassinatos no país e marca que ultrapassa a quantidade total de mortes nas maiores zonas bélicas do mundo atualmente. Todos, indistintamente, em qualquer classe, vivendo no centro ou na periferia das cidades, sentem-se amedrontados e acuados seja pela sensação de que, a qualquer momento, serão vítimas ou presenciarão algum crime violento, seja por que não há regras nesse jogo, pois ele basta a si próprio. Não há uma hora ou um lugar, sequer um comportamento que garanta salvaguarda diante do perigo. Eu gostaria muito que Lucas e tantas outras vítimas tivessem sido poupadas. Gostaria de não sentir medo, nem a indignação crescente. De poder dizer a cada qual que amanhã será um outro dia... Mas ele será o mesmo, ou pior, caso estejamos parados ou caminhemos na direção errada. Eis o ponto: o medo, a indignação e a tristeza não devem tornar-nos uma comunidade de ressentidos, cuja ocupação é reclamar do mundo sem nada construir. Ou rebeldes negligentes que se negam a cobrar responsabilidades de quem tem dever de sair da inércia. Ou, ainda, fracos indolentes que preferem consentir, silenciosa ou declaradamente, com a cultura de morte e intolerância que pretende recriar as soluções do “olho-por-olho” e da vingança privada que somente servem para nos afundar mais no desespero que nos ronda cotidianamente. Nosso maior e verdadeiro inimigo é, justamente, a armadilha de responder ao mal com o mal, pois aí teremos abandonado a perspectiva de que há um sentido em todas as coisas, até naquelas que mais nos ferem, caso esforcemo-nos para olhar através delas, em busca de reumanizar a vida e de nos fazer retornar dos escapes que teimam em rondar. O grupo de 60 alunos do qual Lucas fazia parte caminharia, com a nobreza que somente a boa vontade pode ostentar, para realizar uma bela ação de solidariedade no interior de um município do Pará, Magalhães Barata, que jamais poderiam alcançar de dentro das salas de aula, das bibliotecas ou dos laboratórios, nos prédios onde estudam. Não estariam lá, naquele posto de gasolina na madrugada de sábado, se não estivessem movidos pela convicção de que o conhecimento não vale nada se for ensimesmado, se ajudar tão somente a quem estuda. Para todos aqueles alunos, inclusive o jovem Lucas, a indiferença não era mais uma opção e o conhecimento se converteu em meio para servir e transformar. E isso deu sentido aos seus esforços. Eu gostaria muito, e novamente, que Lucas e tantos outros tivessem sido poupados, pois não deveria ter sido assim. Não é o que esperamos aos dezenove anos. Contudo, ao solidarizarmo-nos com os familiares e amigos de Lucas, devemos ter em conta que nos isolarmos não é a resposta correta ao mal, nem nos retrairmos ao egoísmo ou empunharmos as armas do ódio e do desespero, pois, do contrário, a tragédia que o colheu terá sido, definitivamente, a vitória da indiferença à qual Lucas, bem como todos os que estavam com ele, já haviam renunciado. É função do Cesupa e de toda a sociedade civil desse Estado exigir que os assassinos sejam responsabilizados perante a lei. No mister de nossa tarefa de educar e formar, precisamos assumir a tarefa de provocar um amplo debate propositivo sobre as políticas públicas de segurança no Pará e no Brasil. E cabe a toda comunidade acadêmica do Cesupa – professores, alunos, gestores e colaboradores – aprofundar a esperança de que podemos encontrar as soluções, pois temos os meios da ciência para tanto. Antes disso, contudo, cumpre-nos o imperativo de revigorar a CONSCIÊNCIA ÉTICA que nos deve guiar, consubstanciada há séculos nas palavras retas de São Paulo, ao admoestar os cristãos em Roma, igualmente desorientados e aflitos, dizendo “Não te deixes vencer pelo mal; antes, vence o mal com o bem” (Carta aos Romanos, 12, 21). Essa foi a resposta corajosa da atitude de Lucas, ao sair do seu conforto para abraçar, voluntariamente, uma ação social. Ainda jovem, ele não aceitou se esquivar e, indisposto em face do marasmo, saiu ao mundo e contribuiu para que a justiça e o bem não se reduzissem a quimeras. Essa também foi a resposta que alunos da UNAMA, UEPA e CESUPA deram naquele sábado ao saírem de suas salas de aula, das atividades rotineiras, do egotismo e da apatia, num franco combate à indiferença. Lembremo-nos todos disso. E qual será a nossa? Sérgio Fiuza de Mello Mendes Vice-Reitor do CESUPA