1707 X Salão de Iniciação Científica PUCRS Digitalização do acervo da Delegacia Regional do Trabalho – 1933-1940: Dados Quantitativos e a Construção de um Perfil do Trabalhador SCHNEIDER, Kate M.¹; BEM, Emmanuel de²;KOSCHIER, Paulo Crizel ³; LONER, Beatriz Ana4. ¹Graduanda do Curso de História do Instituto de Ciências Humanas (ICH-UFPel). Bolsista FAPERGS desde janeiro de 2009. e-mail: [email protected] ²Graduado em História pela UFPel e-mail: [email protected] ³Técnico administrativo e pesquisador do NDH-UFPel. e-mail: [email protected] 4 Professora do Dept° de História e Antropologia do ICH-UFPel. Coordenadora do projeto. e-mail: bialoner@yahoo. com.br Departamento de História e Antropologia, UFPel, Instituto de Ciências Humanas, Núcleo de Documentação Histórica Resumo O presente trabalho objetiva revelar alguns dos resultados obtidos através do cruzamento de informações efetuado a partir da pesquisa no Banco de Dados criado e abastecido com o acervo da Delegacia Regional de Trabalho do Rio Grande do Sul (DRT – RS) de posse do Núcleo de Documentação Histórica da Universidade Federal de Pelotas (NDH – UFPel), visando elaborar um perfil do trabalhador gaúcho no período de 1933-1940. Com a digitação das fichas de qualificação profissional, documentos internos da Delegacia, obtêm-se informações não só em termos sociais e culturais (estado civil, profissão, instrução), mas também em relação a dados individuais antropométricos e étnicos. Este intenta apenas demonstrar os resultados, ainda preliminares, obtidos pela análise dos dados quantitativos, indicando alternativas de pesquisa e estudo documental, sem porém aprofundar-se em discussões de análise minuciosa a respeito das fontes utilizadas. X Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 2009 1708 O projeto conta com o apoio, através do financiamento de bolsas de iniciação científica, da Fundação de Amparo a Pesquisa do Rio Grande do Sul (FAPERGS) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Introdução Um dos principais problemas referentes ao conhecimento histórico envolvendo os trabalhados brasileiros diz respeito ao estabelecimento do perfil dos mesmos ao longo do tempo. Alguns trabalhos recentes a este respeito vêm negando uma característica dicotômica até então defendida: a de um trabalhador estrangeiro e militante na República Velha, nacional e conformado após a Revolução de 30. As reinterpretações acerca da continuidade da construção e formação da classe operária nos permite observar que a necessidade de adquirir e manter os direitos vai se sobrepondo a origem étnica. Embora reescrevam de uma forma bastante pontual a formação da classe brasileira, os estudos recentes baseiam-se prioritariamente em fontes qualitativas, impossibilitando traçar com precisão as transformações havidas na formação do conjunto da classe trabalhadora no decorrer do tempo. O acervo da Delegacia Regional do Trabalho do Rio Grande do Sul somado à construção e alimentação de um Banco de Dados se mostra portanto de grande importância, na medida em que possibilita a utilização de dados quantitativos que poderão embasar evidências anteriores, fornecendo dados demográficos e quadros estatísticos. O acervo total compreende 630.000 fichas de qualificação profissional, correspondentes ao período de 1933-1968, além de outros documentos, contendo registros pessoais, pedidos de benefícios e certidões, entre outros. O projeto “Traçando o Perfil do Trabalhador Gaúcho”, responsável pelo recorte 1933-1942, já conta com mais de 30.000 fichas digitadas e armazenadas no Banco de Dados até o ano de 1940. Criando possibilidades para a caracterização do operariado brasileiro em termos culturais, sociais e antropométricos no período inicial das leis trabalhistas. Metodologia O objetivo principal do projeto é transpor para o meio digital as informações contidas nas Fichas de Qualificação dos Trabalhadores, garantindo assim que o material não se deteriore, levando em conta que já se encontram em mau estado de conservação, e possibilitando que um cruzamento de dados possa ser realizado, dando origem a um material X Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 2009 1709 básico que possibilita a elaboração de tabelas e quadros estatísticos, facilitando portanto a análise histórico-sociológica das fontes. As “fichas-espelho”, como comumente são chamadas, dividem-se em dois modelos distintos. O modelo antigo, vigente até 1944, está sendo trabalhado atualmente e apresenta um total de 43 campos digitáveis. Estes campos de informação compreendem dados antropométricos (altura, cor da pele, dos olhos e do cabelo, sinais particulares), dados pessoais (filiação, naturalidade, estado civil), dados profissionais (profissão, nome, localização e espécie de estabelecimento com o qual mantinha vínculo empregatício), impressões digitais e fotos, embora estas muitas vezes já tenham se perdido, não constem ou estejam danificadas. O processo de digitação constitui a etapa mais trabalhosa e problemática do processo. Atualmente contamos com apenas duas bolsistas responsáveis por tal tarefa, fazendo com que o abastecimento do Banco de Dados seja mais vagaroso. Alguns problemas dificultam o processo de digitação. Devido ao armazenamento inadequado a que o acervo estava submetido anteriormente, muitas fichas deterioraram-se, impossibilitando a compreensão de alguns campos. Soma-se o fato de que fichas eram preenchidas manualmente, com caligrafias muitas vezes incompreensíveis, além de serem feitas em duas vias com a utilização de papel carbono, ficando a Delegacia com a cópia, resultando muitas vezes em partes das informações e até campos inteiros em branco. O sistema de busca possui um padrão de utilização baseado em pressupostos indicativos que restringem a pesquisa. Dois filtros delimitam os parâmetros da busca: um primeiro adiciona uma cláusula a pesquisa e um segundo estabelece os indicadores pelos quais os dados serão arrolados. Algumas vezes este processo de busca e cruzamento é dificultado pela inconstância no padrão de digitação, fato causado tanto pela variedade de digitadores que já cooperaram no processo de abastecimento de informações quanto pela incoerência dos inspetores que realizavam o preenchimento das fichas. Torna-se por isso necessário que as informações digitadas possuam um padrão de ocorrência na base de dados. O banco de Dados da Delegacia Regional do Trabalho deve ser visto como objeto em contínuo processo de (re)construção, o que de modo algum retira credibilidade das conclusões extraídas a partir da análise de seus dados. Tal credibilidade é corroborada pela funcionalidade demonstrada pelo sistema quando consultado. Dados já estão sendo analisados e informações cruzadas com a finalidade de constituir material básico para a elaboração de tabelas e quadros estatísticos. X Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 2009 1710 Resultados Embora, dada a imensidão do acervo, o trabalho deva ter continuidade e provavelmente estenda-se por longo período de tempo, já é possível apresentarmos alguns resultados frutos da análise do material. Como já dito, o acervo total da Delegacia Regional do Trabalho (DRT) compreende em torno de 630.000 fichas de qualificação profissional provenientes de um período de 35 anos a contar de 1933. O Banco de Dados criado e alimentado a partir da digitação destas já conta com mais de 30.000 fichas do período de 1933-1940. A análise deste recorte nos fez chegar, portanto, a algumas conclusões. Um levantamento do material nos mostra que no final da década de 30 e no início da década de 40 a procura por Carteiras Profissionais aumenta consideravelmente. Enquanto nos sete anos da década de 30 o acervo contém 407 cadernos com 20.350 fichas provenientes de 41 cidades, nos três anos posteriores do início da década de quarenta encontramos 460 cadernos com 23.000 fichas provenientes de 71 cidades. O aumento no número de cidades capacitadas a emitir o documento mostra a ampliação e a facilidade na obtenção do mesmo, bem como a divulgação dos direitos e privilégios concedidos somente aos trabalhadores que possuíssem a Carteira de Trabalho. Das 30.472 fichas analisadas, 19.954 possuem como cidade de solicitação Porto Alegre. Tal fato está relacionado mais com a estrutura do serviço de feitura das Carteiras de Trabalho e menos com sua real procura pelos trabalhadores. Instalado no estado em 1933, de acordo com o decreto 23.288, o Ministério do Trabalho estabelecia a capital do estado como sede da Inspetoria Regional. Somente em 1945, em Passo Fundo, e em 1948, em Pelotas, surgem Postos de Atendimento e Identificação no Interior. Tabela 1 – Número de Carteiras de Trabalho solicitadas por ano Ano 1933 1934 1935 1936 1937 1938 1939 1940 TOTAL Número de Trabalhadores 4540 1135 3432 1459 1029 1543 6990 8746 30472 % 15,7 3,9 11,8 5 3,5 5,3 24,2 30,2 100% X Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 2009 1711 Número de Carteiras de Trabalho solicitadas (por ano) 8746 6990 3 0 ,2 % 2 4 ,2 % 4540 3432 15 ,7 % 11, 8 % 1135 1029 5 ,0 % 3 ,9 % 1933 1543 1459 3 ,5 % 1934 1935 1936 1937 5 ,3 % 1938 1939 1940 Ano de Solicitação Figura 1 - Número de Carteiras de Trabalho solicitadas por ano Quanto ao gênero, do total das fichas para o estado inteiro, 22.989 eram de homens (79,7%) e apenas 5.840 eram de mulheres (20,2%). Este dado pouco revela por si, pois havia distorções no processo de feitura da carteira, já estando incluídos dados sobre algumas confecções e tecelagens, mas outros ramos importantes, em que predominava a força de trabalho masculina, ainda ficando de fora. Tabela 2 – Divisão por gênero dos requerentes Sexo Masculino Feminino Não Informado TOTAL Número de Fichas 22989 5840 45 28874 % 79,7 20,2 0,1 100 Divisão por Gênero dos Requerentes Feminino 5840 20% Masculino 22989 80% Gráfico 2 – Divisão por gênero dos requerentes Quanto ao estado civil, os solteiros eram a maioria, fato que também se explica pela enorme quantidade de jovens encontrados. Ressalta-se a quantidade relativamente grande de X Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 2009 1712 mulheres viúvas que trabalham em relação ao total feminino. De acordo com a moralidade da época, pode-se também observar que os separados eram praticamente inexistentes, e que poucas mulheres casadas estavam ocupadas fora do lar, comparativamente ao total de homens casados. Tabela 3– Estado civil dos requerentes quanto ao gênero. Solteiro Casado Viúvo Separado Feminino 4452 1286 499 7 % 71,1 20,5 8,1 0,1 Masculino 13942 9628 455 24 % 57,3 40,5 1,9 0,1 Estado Civil dos Requerentes quanto ao Gênero 13942 9628 Feminino 4452 Maculino 1.286 solteiro casado 499 455 viuvo 7 24 separado Gráfico 3– Estado civil dos requerentes quanto ao gênero. Quanto ao grau de instrução dos trabalhadores gaúchos, aparecem apenas cerca de 14,7% de analfabetos. A maior parte possui apenas a educação primária, 78,3% e 5,9% tem o curso secundário, técnico ou superior, como se pode ver na tabela 4. Tabela 4 – Grau de Instrução dos requerentes. Primário Analfabeto Secundário Superior Alfabetizado Técnico Número de Fichas 23146 4356 1752 182 102 1 % 78,3 14,7 5,9 0,6 0,3 0,003 X Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 2009 1713 Grau de Instrução dos Requerentes 1% - 182 3% -102 0% - 1 6% - 1752 Primário Analfabeto 15% - 4356 Secundário Superior Alfabetizado Técnico 78% - 23146 Gráfico 4 – Grau de Instrução dos requerentes. Quanto à cor, as porcentagens encontradas pelo Censo de 1940 para o estado, eram de 88,66% de brancos; 6,64% de pretos; 4,61% de pardos, além de pequeno número de amarelos e de cor não declarada. Em contraposição, para os operários de carteira assinada da década de 1930, havia 25644 operários de cor branca (84,3%), apenas 1448 de cor preta (4,6%) e 2.348 de cor parda (8,1%), o que leva a considerar que o número de pretos e pardos empregados e com carteira, chega a 12,7% para o Estado, maior, portanto, que a encontrada pelo censo. Tabela 5 – Divisão por cor dos Requerentes. Cor Branco Pardo Preto Moreno Misto Número de Fichas 25644 2342 1448 357 374 % 84,3 8,1 4,6 2 1 Divisão por cor dos Requerentes 25644 84,3% 2342 1448 8,1% Branco Pardo 4,6% Preto 357 374 2,0% Moreno Gráfico 5 – Divisão por cor dos Requerentes. X Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 2009 1,0% Misto 1714 Esses são alguns dos resultados obtidos em pesquisas realizadas ao banco de dados da DRT-RS. Percebe-se que todos os cruzamentos de informações possuem apenas duas variáveis (o número de trabalhadores homens, a quantidade de trabalhadores analfabetos, etc.). Outras pesquisas já estão sendo realizadas, com objetivos de aumentar o número de cruzamentos entre os campos de informação, o que possibilitará uma elevação nas possibilidades de análise. Conclusão Ainda em andamento, o projeto concentra ainda seus esforços na alimentação do Banco de Dados e já realiza cruzamentos de informações a fim de proporcionar dados demográficos e quadros estatísticos que possam embasar os estudos acerca do perfil do trabalhador gaúcho, esperando futuramente abordar com mais afinco temas como a educação do operariado, relações existentes entre cor e profissão, comparações consistentes entre trabalhadores da capital e do interior. Momentaneamente nosso objetivo foi relatar alguns resultados obtidos pretendendo mostrar de uma forma mais concreta a complexidade da tarefa e apontar as possibilidades de estudo do objeto em questão. Dado o enorme esforço empreendido e o volume de documentação ainda não explorada que alimentará o Banco de Dados, o projeto necessita continuidade. Embora complexo e trabalhoso, o projeto poderá proporcionar inúmeras pesquisas com suas informações acerca da trajetória destes trabalhadores, na tentativa de traçar o perfil destes, percebendo permanecias e mutações no decorrer do tempo. Referências FEE- 1986. De província de São Pedro a estado do Rio Grande do Sul: censos do RS1853-1950. Porto Alegre: Ed.FEE. GOMES, Angela. 1988. A invenção do trabalhismo. Rio de Janeiro: IUPERJ. 1988. KOSCHIER, Paulo. Perfil do trabalhador pelotense na década de 1940 a partir das informações contidas nas Fichas de Qualificação da Delegacia Regional do Trabalho RS. Pelotas: UFPEL, 2006. Monografia (Especialização em História do Brasil), Universidade Federal de Pelotas, 2006. LONER, Beatriz. A história operária no Rio Grande do Sul. História Unisinos, n. especial, (2001), pp. 53-79. X Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 2009