UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE ESCOLA DE ENGENHARIA DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA QUÍMICA E DE PETRÓLEO RAPHAELA DE MELO BAÊSSO E SILVA "USO DO ULTRASSOM NO MONITORAMENTO DE PROPRIEDADES FÍSICAS DE ÓLEOS" Niterói 1 / 2015 RAPHAELA DE MELO BAÊSSO E SILVA "USO DO ULTRASSOM NO MONITORAMENTO DE PROPRIEDADES FÍSICAS DE ÓLEOS" Projeto Final apresentado ao Curso de Graduação em Engenharia Química, oferecido pelo departamento de Engenharia Química e de Petróleo da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para obtenção do grau de Engenheiro Químico. ORIENTADORES Profº. Rodrigo Pereira Barretto da Costa-Félix Profº. Fernando Benedicto Mainier Niterói 1 / 2015 Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca da Escola de Engenharia e Instituto de Computação da UFF S586 Silva, Raphaela de Melo Baêsso e Uso do ultrassom no monitoramento de propriedades físicas de óleos / Raphaela de Melo Baêsso e Silva. -- Niterói, RJ : [s.n.], 2015. 70 f. Trabalho (Conclusão de Curso) – Departamento de Engenharia Química e de Petróleo, Universidade Federal Fluminense, 2015. Orientadores: Rodrigo Pereira Barretto da Costa-Félix, Fernando Benedicto Mainier. 1. Ultrassom. 2. Metrologia mecânica. 3. Incerteza de medição. 4. Oléo comestível. 5. Propriedade física. I. Título. CDD 534.5 AGRADECIMENTOS A Deus. Aos meus pais, Laporinê José Freitas Silva e Marialma de Melo Baêsso Silva, e meu irmão, Gustavo Laporinê Baêsso e Silva, por terem sempre acreditado em mim. Aos meus tios e tias Zezé, Ciant, Antônio e Carlos que, por mais que morem distante, sempre contribuíram para o meu sucesso de uma forma ou de outra. À minha querida prima Luluka. Ao meu avô José Baêsso Zulato. À minha avó, que mesmo não estando mais presente, sempre estará comigo em quaisquer que seja o caminho escolhido. Ao Prof. Dr. Rodrigo Pereira Barretto da Costa-Félix, por ter me aceitado em seu grupo de pesquisa e por me orientar. Ao Prof. Dr. Fernando Benedicto Mainier por mais uma vez aceitar meorientare sempre estar presente na minha trajetória acadêmica. À minha amiga Aninha que sempre esteve ao meu lado nos momentos bons e ruins. À minha amiga Be por, mesmo morando longe, sempre me ajudar a superar os obstáculos que apareciam. À minha amiga Isabel, que com pouco tempo se tornou um alguém tão próximo e tão presente na minha vida. Aos meus amigos da química/engenharia química, Felipe, Isabella e Renata, que, assim como eu, iniciaram uma nova graduação, dando a possibilidade de vivermos diversos momentos juntos. Aos meus amigos do Labus-Inmetro, André, Cris, Débora, Dilton, Douglas, Gabriel, Jerusa, Pâmella, Raquel, Ruan e Taynara pela amizade e colaboração durante o desenvolvimento desse projeto e tantos outros. À minha amiga da UFF Neidemar por sempre me fazer sorrir e dar força. Ao meu namorado, Vitor Araugio por não ser apenas companheiro, mas um amigo,me apoiando em todos os momentos e sempre me incentivando. À banca examinadora por aceitar o convite. Ao Inmetro pela bolsa concedida e pelos financiamentos ao projeto de pesquisa ao qual estou vinculada. i Dedicatória À minha querida avó que sempre estará comigo e aos meus pais que sempre acreditaram em mim. ii "A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.”(Carlos Drummond de Andrade) iii SUMÁRIO LISTA DE FIGURAS ................................................................................................. VI LISTA DE TABELAS ............................................................................................... VIII LISTA DE ABREVIATURAS ...................................................................................... IX RESUMO.................................................................................................................... X ABSTRACT ............................................................................................................... XI 1-INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 1 2- OBJETIVOS ............................................................................................................ 3 2.1- OBJETIVO GERAL ......................................................................................................... 3 2.2- OBJETIVOS ESPECÍFICOS ........................................................................................... 3 3- REVISÃO BIBLIOGRÁFICA .................................................................................... 4 3.1- METROLOGIA ................................................................................................................ 4 3.2- INCERTEZA DE MEDIÇÃO ............................................................................................ 5 3.2.1- AVALIAÇÃO DO TIPO A DA INCERTEZA DE MEDIÇÃO ........................................... 5 3.2.1.1- CONDIÇÃO DE REPETIBILIDADE ........................................................................... 5 3.2.1.2 - CONDIÇÃO DE PRECISÃO INTERMEDIÁRIA ........................................................ 6 3.2.1.3- CONDIÇÃO DE REPRODUTIBILIDADE DE MEDIÇÃO ........................................... 6 3.2.2- AVALIAÇÃO DO TIPO B DA INCERTEZA DE MEDIÇÃO ........................................... 6 3.3- ULTRASSOM ................................................................................................................. 7 3.3.1- ANÁLISE DE LÍQUIDOS.............................................................................................. 7 3.3.2- PRINCÍPIOS BÁSICOS ............................................................................................... 8 3.3.3- TÉCNICA PULSO ECO ............................................................................................. 12 3.4 -ÓLEOS VEGETAIS ...................................................................................................... 15 3.4.1 - COMPOSIÇÃO DOS ÓLEOS VEGETAIS................................................................. 17 3.4.2 - PROCESSAMENTO INDUSTRIAL ........................................................................... 19 3.4.2.1 - PROCESSAMENTO DA MATÉRIA-PRIMA ........................................................... 19 3.4.2.2 - EXTRAÇÃO DO ÓLEO BRUTO............................................................................. 19 3.4.2.2.1 - EXTRAÇÃO POR PRENSAGEM MECÂNICA .................................................... 20 3.4.2.2.2 - EXTRAÇÃO POR SOLVENTE............................................................................ 20 3.4.2.3 - REFINO ................................................................................................................. 21 4- METODOLOGIA ................................................................................................... 22 4.1- MATERIAIS E MÉTODOS ............................................................................................ 22 4.2- SOFTWARE ................................................................................................................. 25 4.3- TESTE DE NORMALIDADE ......................................................................................... 26 4.3.1-TESTE DE SHAPIRO WILK........................................................................................ 27 5 - RESULTADOS E DISCUSSÃO ........................................................................... 28 5.1 - VISCOSIDADE ............................................................................................................ 28 5.2-MASSA ESPECÍFICA .................................................................................................... 31 5.3- TESTE DE NORMALIDADE ......................................................................................... 34 5.3.1- VISCOSIDADE .......................................................................................................... 34 5.3.2 -MASSA ESPECÍFICA ................................................................................................ 35 5.4 - CÁLCULO DE INCERTEZAS ...................................................................................... 36 5.4.1 - VISCOSIDADE ......................................................................................................... 36 5.4.2 -MASSA ESPECÍFICA ................................................................................................ 42 iv 6-CONCLUSÕES E PERSPECTIVAS ...................................................................... 47 7- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................... 48 8- ANEXOS ............................................................................................................... 53 v LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 - CAMPO DE AUDIBILIDADE DAS VIBRAÇÕES MECÂNICAS [20]. .............................. 9 FIGURA 2 – (A) CONTRAÇÃO E EXPANSÃO DO CRISTAL QUANDO SUBMETIDO A UMA ALTA TENSÃO ALTERNADA NA MESMA FREQUÊNCIA ULTRASSÔNICA EMITIDA PELO CRISTAL, (B) TRANSDUTOR UTILIZADO NA GERAÇÃO DE ONDAS ULTRASSÔNICAS. [20] ....................... 9 FIGURA 3 - ONDA LONGITUDINAL, COM A PRESENÇA DE ZONAS DE COMPRESSÃO E ZONAS DE RAREFAÇÃO. [21] ................................................................................................... 10 FIGURA 4 - ONDAS TRANSVERSAIS. [22]......................................................................... 10 FIGURA 5 - ONDAS SUPERFICIAIS, COMPORTAMENTO OSCILATÓRIO. [25] .......................... 11 FIGURA 6 - TÉCNICA DE PULSO-ECO. ............................................................................. 13 FIGURA 7 - SINAL ULTRASSÔNICO E REFLEXÕES. ............................................................ 15 FIGURA 8 - CONSUMO MUNDIAL DOS ÓLEOS VEGETAIS* EM 2010/2011 [28]...................... 16 FIGURA 9 - CONSUMO MUNDIAL DE ÓLEOS VEGETAIS COMESTÍVEIS [30]. ........................... 17 FIGURA 10 - ARRANJO EXPERIMENTAL UTILIZADO NA DETERMINAÇÃO DA VISCOSIDADE E MASSA ESPECÍFICA DOS ÓLEOS. (A) BANHO TERMOSTATIZADO, (B) RECIPIENTE DE VIDRO QUE CONTÉM O ÓLEO, (C) TRANSDUTOR ACOPLADO AO SISTEMA A SER MEDIDO, (D) OSCILOSCÓPIO, (E) GERADOR DE SINAIS E (F) UNIDADE DE AQUISIÇÃO DE DADOS. ........ 23 FIGURA 11 - PAINEL FRONTAL QUE CONTÉM A INTERFACE DO PROGRAMA. ........................ 25 FIGURA 12 - PARTE DO DIAGRAMA DE BLOCOS UTILIZADO NO PROGRAMA DESENVOLVIDO. . 26 FIGURA 13 - RELAÇÃO ENTRE VISCOSIDADE DINÂMICA E RAZÃO DE TEMPO DE VOO PARA O ÓLEO DE CANOLA. .................................................................................................. 29 FIGURA 14 - RELAÇÃO ÓLEO DE SOJA. ENTRE VISCOSIDADE DINÂMICA E RAZÃO DE TEMPO DE VOO PARA O ...................................................................................................... 29 FIGURA 15 - RELAÇÃO ÓLEO DE GIRASSOL. ENTRE VISCOSIDADE DINÂMICA E RAZÃO DE TEMPO DE VOO PARA O ............................................................................................... 30 FIGURA 16 - RELAÇÃO ENTRE MASSA ESPECÍFICA E RAZÃO DE TEMPO DE VOO PARA O ÓLEO DE CANOLA. ........................................................................................................... 32 FIGURA 17 - RELAÇÃO ENTRE MASSA ESPECÍFICA E RAZÃO DE TEMPO DE VOO PARA O ÓLEO DE SOJA. ............................................................................................................... 32 FIGURA 18 - RELAÇÃO ENTRE MASSA ESPECÍFICA E RAZÃO DE TEMPO DE VOO PARA O ÓLEO DE GIRASSOL. ........................................................................................................ 33 FIGURA 19 - CURVA AJUSTADA PARA VISCOSIDADE COM BARRA DE INCERTEZAS PARA O ÓLEO DE CANOLA. ........................................................................................................... 39 vi FIGURA 20 - CURVA AJUSTADA PARA VISCOSIDADE COM BARRA DE INCERTEZAS PARA O ÓLEO DE SOJA. ............................................................................................................... 40 FIGURA 21 - CURVA AJUSTADA PARA VISCOSIDADE COM BARRA DE INCERTEZAS PARA O ÓLEO DE GIRASSOL. ........................................................................................................ 40 FIGURA 22 - CURVA AJUSTADA PARA MASSA ESPECÍFICA COM BARRA DE INCERTEZAS PARA O ÓLEO DE CANOLA. .................................................................................................. 44 FIGURA 23 - CURVA AJUSTADA PARA MASSA ESPECÍFICA COM BARRA DE INCERTEZAS PARA O ÓLEO DE SOJA. ...................................................................................................... 44 FIGURA 24 - CURVA AJUSTADA PARA MASSA ESPECÍFICA COM BARRA DE INCERTEZAS PARA O ÓLEO DE GIRASSOL. ............................................................................................... 45 vii LISTA DE TABELAS TABELA 1- VELOCIDADE DE PROPAGAÇÃO E MASSA ESPECÍFICA DE ALGUNS MATERIAIS ENCONTRADOS NA LITERATURA. [20,23] .................................................................. 12 TABELA 2 - ÁCIDOS GRAXOS SATURADOS [31,32]. .......................................................... 17 TABELA 3 - ÁCIDOS GRAXOS INSATURADOS [31,32]. ....................................................... 18 TABELA 4 - COMPOSIÇÃO EM ÁCIDOS GRAXOS DOS ÓLEOS VEGETAIS. [33] ........................ 18 TABELA 5 - VALORES DAS CONSTANTES A1E E PARA EQ.(5) E DADOS DE AJUSTES ESTATÍSTICOS PARA ÓLEOS VEGETAIS. ..................................................................... 24 TABELA 6 - VALORES DAS CONSTANTES Α E Β PARA EQ. (6) PARA ÓLEOS VEGETAIS PUROS. ............................................................................................................................ 24 TABELA 7 - VALORES DAS CONSTANTES A E B PARA EQ.(8) E DADOS DE AJUSTES ESTATÍSTICOS PARA ÓLEOS VEGETAIS. ..................................................................... 31 TABELA 8 - VALORES DAS CONSTANTES A E B PARA EQUAÇÃO(10) E DADOS ESTATÍSTICOS PARA ÓLEOS VEGETAIS. .......................................................................................... 34 TABELA 9 - VALORES ÓLEOS. CALCULADOS PARA W PARA CADA PARÂMETRO DA VISCOSIDADE DOS ................................................................................................................. 35 TABELA 10 - VALORES CALCULADOS PARA W PARA CADA PARÂMETRO DA MASSA ESPECÍFICA DOS ÓLEOS............................................................................................................ 36 TABELA 11 - VALORES DE INCERTEZA PARA VISCOSIDADE CALCULADOS PARA CADA ÓLEO. . 38 TABELA 12 - VALORES ÓLEO. DE INCERTEZA PARA MASSA ESPECÍFICA CALCULADOS PARA CADA ................................................................................................................... 42 viii LISTA DE ABREVIATURAS VIM Vocabulário Internacional de Metrologia MHz megahertz pH Potencial hidrogeniônico kHz quilohertz PIB Produto Interno Bruto USDA United States Department of Agriculture EMBRAPA Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária Inmetro Instituto Nacionalde Metrologia, Qualidade e Tecnologia Labus Laboratório de Ultrassom do Inmetro LABVIEW Laboratory Virtual Instrument Engineering Workbench VI Virtual Instruments GUM Guide to the expression of uncertainty in measurement mPa milipascal ix RESUMO O controle da qualidade de bens de consumo é de extrema importância para que haja uma boa comercialização do próprio material e de seus derivados.Os métodos mais amplamente utilizados para analisar a qualidade dos produtos finais em uma linha de processo são baseados na cromatografia e na espectroscopia. Estes métodos já são bem definidos, mas requerem equipamentos de grande complexidade e o principal, alto custo.O uso de técnicas por ultrassom é interessante por se tratar de métodos robustos,precisos, não destrutivos e que podem ser aplicados na linha de processo.Foi realizado o estudo das propriedades físicas de monitoramento dos óleos de canola, soja e girassol. O método de pulsoeco permitiu medir a massa específica e a viscosidade dos óleos em tempo real e com precisão. Os valores das propriedades físicas foram relacionados com a razão de tempo de voo acústico, parâmetro adimensional que pode ser obtido a partir de qualquer referência. No nosso caso, foi utilizado o tempo de voo, a 20 °C como referência e uma distância fixa entre o transdutor e o refletor. A técnica de monitoramento por ultrassom utilizadas e mostrou promissora na análise de óleos comestíveis, obtendo-se incertezas nas faixas de 0,4% a 3,9% para a viscosidade e 0,02% a 0,15% para a massa específica. Palavras-chave: ultrassom, propriedades físicas, monitoramento, incerteza de medição, metrologia. x ABSTRACT Quality control of consumer property is of utmost importance for there to be a good marketing of the material itself and its derivatives.The methods most widely used to analyze the quality of the final products in a process line are based on chromatography and spectroscopy. These methods are already well defined, but require highly complex equipment and the main, high cost.The use of ultrasound techniques is interesting because they are robust methods, accurate, non-destructive and can be applied in the process line.The study of the monitoring physical properties of canola, soybean and sunflower oils was performed. The pulse-echo method allowed measuring the density and viscosity of the oils in real time and accurately. The physical property values were related to the acoustic flight time ratio, dimensionless parameter that can be obtained from any reference. In our case, we used the time of flight at 20°C as reference and a fixed distance between the transducer and the reflector. Ultrasonic monitoring technique employed here has shown promise in the analysis of edible oils, obtaining the uncertainty ranges from 0,4% to 3,9% for viscosity and 0,02% to 0,15% for density. Keywords: ultrasound, physical properties, monitoring and measurement uncertainty, metrology. xi 1-INTRODUÇÃO Viscosidade e massa específica de líquidos são propriedades importantes para se projetar equipamentos para as indústrias de ácidos graxos. O conhecimento dessas propriedades acaba sendo um fator de fundamental importância para cálculos que envolvem a seleção de equipamentos e o dimensionamento de bombas e tubulações, assim como para a implementação de um efetivo controle de processos e garantia de qualidade do produto final.Um exemplo é o seu uso na estimação da eficiência de colunas de destilação que visam a separação e purificação dos ácidos graxos. Dados de viscosidades e massa específica de líquidos também são usados em projetos de transferência de calor, de tubulação de processo e determinação de queda de pressão[1][2]. Atualmente, em indústrias químicas,alimentícias, petroquímicas, entre outras, existe uma demanda considerável de instrumentos de medição que sejam capazes de caracterizar líquidos com elevada sensibilidade, robustez e precisão (acurácia). Há muitos instrumentos capazes de medir a viscosidade, mas poucos fazem essa medição em linha e em tempo real. Tal instrumento é necessário para o controle de processos em diferentes indústrias. Dessa forma, devido à automação dos processos, medições do tipo in line tornam-se necessárias. O uso de técnicas por ultrassom é interessante por se tratar de métodos robustos,precisos, não destrutivos ou invasivos e que podem ser aplicados na linha de processo [3,4]. São encontrados na literatura trabalhos capazes de mostrar a possibilidade de se utilizar ultrassom para medir as propriedades físicas e acústicas dos líquidos [5-7]. O ultrassom vem sendo usado exaustivamente em diversas etapas de um processo químico, que vai desde a aceleração da reação [8] até a separação de compostos [7], podendo ser, também, utilizado na identificação e análise [6,9]. 1 Porém, metrologicamente, ainda há muito o quese fazer. Uma abordagem metrológica éfundamental para comprovar e evidenciar cientificamente as vantagens das aplicações do ultrassom em sonoquímica, no processo de controle e qualidade dos processos químicos. A competitividade das empresas produtorasde bens de consumo está ligada diretamente ao seu processo produtivo. Segundo FERNANDES (2009) [10],a metrologia inserida no contexto do processo de produção atua como sensor,monitorando e controlando variáveis e atributos dos produtos. A Qualidade e Produtividade, vistas em outros tempos como elementos dissociados, atualmente andam juntas, impactando fortemente na competitividade das empresas, melhorando a performance dos processos, a qualidade dos produtos e reduzindo custos [10]. A indústria brasileira está em constante crescimento, exigindo maior volume e maior qualidade dos serviços metrológicos. A inserção do Brasil no mercado globalizado estabelece a necessidade de uma forte base metrológica visando promover exportações e impedir importações sem qualidade. O controle da qualidade de bens de consumo é de extrema importância para que haja uma boa comercialização do próprio material e de seus derivados. Isto posto, procurou-se nesse trabalho desenvolver uma metodologia rápida, de baixo custo e capaz de fornecer resultados precisos para a medição de viscosidade e massa específica de óleos comestíveis. 2 2- OBJETIVOS 2.1- Objetivo Geral O objetivo geral desse trabalho foi estabelecer uma relação entre a viscosidade e massa específica dos óleos de soja, canola e girassol e a razão do tempo de voo ultrassônico. 2.2- Objetivos específicos O trabalho visa facilitar a obtenção de dados confiáveis de forma in line e automatizada, possibilitando aquisição de resultados imediatos e precisos. Os cálculos das incertezas de medições foram realizados ao longo do estudo e estão descritos no corpo deste documento. 3 3- REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 3.1- Metrologia Segundo o Vocabulário Internacional de Metrologia (VIM,2012) [11], metrologia é a ciência da medição e suas aplicações. A metrologia engloba todos os aspectos teóricos e práticos da medição, qualquer que seja a incerteza de medição e o campo de aplicação. A cada dia são realizadas diversas medições em laboratórios analíticos por todo o mundo, tornando-se necessário que os dados obtidos sejam comparáveis e consistentes, a fim de evitar barreiras técnicas entre países. As medições estão relacionadas diretamente a diversos aspectos do cotidiano, que vão desde a pesquisa até a segurança e qualidade nos processos industriais, permitindo o estabelecimento de padrões para ações em segurança do trabalho e para conservação do meio ambiente. Cada vez mais presente nos processos produtivos, em projetos de inovação e nas ações comerciais, a metrologia contribui para a inserção do produto brasileiro no exterior. As normas internacionais, nacionais e os sistemas da qualidade destacam a importância de se validar métodos analíticos com o objetivo de se obter resultados confiáveis e adequados ao uso pretendido. A validação de métodos analíticos comprova através de evidências objetivas que requisitos para uma determinada aplicação ou uso específico são atendidos [12]. 4 3.2- Incerteza de medição Segundo o VIM (2012) [11], incerteza de medição é um parâmetro não negativo que caracteriza a dispersão dos valores atribuídos a um mensurando, com base nas informações utilizadas. O parâmetro pode ser, por exemplo, um desvio padrão denominado incerteza padrão (ou um de seus múltiplos) ou a metade de um intervalo tendo uma probabilidade de abrangência determinada [13]. O conceito de incerteza como algo quantificável pode ser considerado novo na história da medição,apesar de erro e análise de erro terem feito parte da prática da ciência da medição ou metrologia. A incerteza de medição compreende muitos componentes, os quais podem, em sua maioria, ser estimados com base na distribuição estatística dos resultados e podem ser caracterizadas por desvios-padrão, incerteza do tipo A.As outras componentes, as quais podem ser estimadas por uma avaliação do tipo B da incerteza de medição, podem também ser caracterizadas por desvios-padrão estimados a partir de funções de densidade de probabilidade desde que sejam baseadasna experiência ou em outras informações [13]. 3.2.1- Avaliação do Tipo A da Incerteza de Medição Avaliação de uma componente da incerteza de medição por uma análise estatística dos valores medidos, obtidos sob condições definidas de medição [11]. De acordo com o VIM (2012) [11], as condições de medição são dividias em três. 3.2.1.1- Condição de repetibilidade Condição de medição com um conjunto de condições, as quais incluem o mesmo procedimento de medição, os mesmos operadores, o mesmo sistema de medição, as mesmas condições de operação e o mesmo local, assim como medições repetidas no mesmo objeto ou em objetos similares durante um curto período de tempo [11]. 5 3.2.1.2 - Condição de precisão intermediária Condição de medição num conjunto de condições, as quais compreendem o mesmo procedimento de medição, o mesmo local e medições repetidas no mesmo objeto ou em objetos similares, ao longo de um período extenso de tempo, mas pode incluir outras condições submetidas a mudanças [11]. 3.2.1.3- Condição de reprodutibilidade de medição Condição de medição num conjunto de condições, as quais incluem diferentes locais, diferentes operadores, diferentes sistemas de medição e medições repetidas no mesmo objeto ou em objetos similares [11]. 3.2.2- Avaliação do Tipo B da Incerteza de Medição Avaliação de uma componente da incerteza de medição determinada por meios diferentes daquele adotado para uma avaliação do Tipo A da incerteza de medição. [11]. Exemplo: Avaliação baseada na informação: Associada a valores publicados por autoridade competente. Associada ao valor de um material de referência certificado. Obtida a partir de um certificado de calibração. Relativa à deriva. Obtida a partir da classe de exatidão de um instrumento de medição verificado. Obtida a partir de limites deduzidos da experiência pessoal. 6 3.3- Ultrassom 3.3.1- Análise de líquidos Muitos estudos vêm sendo realizados com o intuito de descobrimentos de novos métodos e sistemas de medição da qualidade de óleos em geral, comestíveis e combustíveis. Os métodos mais amplamente utilizados para analisar a qualidade dos produtos finais em uma linha de processo são baseados na cromatografia e na espectroscopia. Estes métodos já são bem definidos e aplicados nos mais variados tipos de análises, desde gases até líquidos [14]. Essas análises possuem alta precisão e confiabilidade, mas requerem equipamentos de grande complexidade e o principal, alto custo. Deste modo torna-se importante o desenvolvimento de técnicas robustas, precisas, de baixo custo e não destrutivas, como é o caso do ultrassom. O ensaio por ultrassom é um método não destrutivo, em que um feixe sônico de alta frequência é introduzido no material a ser inspecionado com o objetivo de detectar descontinuidades internas e superficiais. O som que percorre o material reflete-se nas interfaces e ao ser analisado é capaz de determinar a presença e a localização de descontinuidades [15]. Em 1995, SHEEN et. al. [16] apresentaram um sistema que determina simultaneamente a massa específica e a viscosidade de líquidos Newtonianos. Eles utilizaram um transdutor de ondas longitudinais de 1MHz de frequência central para medir a massa específica usando a velocidade de propagação e a impedância acústica da onda no líquido. SAGGIN e colaboradores em 2001 [17] analisaram a viabilidade de se aplicar o método de reflexão de ondas de cisalhamento para monitorar viscosidade dos fluidos usados na indústria de alimentos. Foram feitas medições com óleos vegetais (milho, oliva e sementes de algodão) e chegou-se à conclusão de que o método proposto é sensível somente à viscosidade do fluido e não sofre interferência de sua composição. Em 2007, KALASHNIKOV et. al.[18] estudaram a variação no tempo de voo acústico durante o processo de hidrólise de íons de alumínio em solução aquosa. O trabalho fez uma comparação entre o método ultrassônico e o método mais utilizado nesta situação baseado na medição de pH, e concluíram que o método ultrassônico obtém resultados com maior rapidez [18]. 7 A revisão apresentada por KAATZE et.al. em 2008 [19] numerou os princípios da medição da velocidade de propagação. Resumidamente mostrou os fundamentos dos métodos acústicos que utilizam ondas de sinais contínuos e de pulsos modulados. Diferentes métodos foram discutidos acerca de seus méritos e limitações. Destacou-se a sensibilidade e precisão desses métodos. Em 2009, KOC [7] fez uso do sistema de medição ultrassônica de baixa potência com a finalidade de monitorar os produtos da reação de produção do biodiesel metílico de soja, transesterificação do óleo de soja com metanol. Durante a reação de transesterificação, houve deposição do glicerol, que possui uma massa específica maior do que o éster metílico,1,26 g/cm³ e 0,85g/cm³, respectivamente. Ao se determinar a taxa de deposição de glicerol durante a reação de transesterificação avaliou-se a taxa de reação e o tempo necessário para que a reação se complete. As ondas ultrassônicas foram capturadas durante a reação, registradas e analisadas automaticamente. Entretanto, apesar da grande evolução na aplicação do ultrassom nas análises de líquidos, poucos trabalhos na literatura, que utilizam a técnica, possuem em seu texto o cálculo de parâmetros de incerteza. Dessa forma, do ponto de vista metrológico, ainda há muito o que se estudar e fazer, de modo a tornar esta abordagem fundamental para evidenciar cientificamente as vantagens das aplicações do ultrassom em sonoquímica e controle de processos químicos de maneira mais abrangente. 3.3.2- Princípios básicos Ondas ultrassônicas são ondas mecânicas que consistem na oscilação de partículas atômicas ou moleculares de uma substância, em torno de sua posição de equilíbrio. Quando as vibrações repetem-se periodicamente durante um determinado período, o som pode ser classificado em infrassom, som audível ou ultrassom,Figura 1. Esta classificação é feita com referência ao espectro audível pelo ser humano. 8 Figura 1 - Campo de audibilidade das vibrações mecânicas [20]. O estudo do ultrassom teve início em 1880 quando os físicos franceses Jacques e Pierre Curie descobriram que era possível gerar uma diferença de potencial ao se comprimir cristais piezoelétricos. O efeito piezoelétrico tem origem do grego "piezen" e significa “pressão-eletricidade”, que caracteriza a propriedade que alguns materiais possuem de produzir diferença de potencial quando deformadas mecanicamente e vice-versa, Figura 2. Figura 2 – (a) Contração e expansão do cristal quando submetido a uma alta tensão alternada na mesma frequência ultrassônica emitida pelo cristal, (b) transdutor utilizado na geração de ondas ultrassônicas. [20] As ondas ultrassônicas são, normalmente, geradas por transdutores construídos a partir de materiais piezoelétricos, que ao sofrerem uma deformação mecânica e geram ondas que se propagam no meio adjacente ao transdutor. Estas ondas são refletidas ao atingir objetos que estão presentes no meio e retornam ao transdutor, que se deforma novamente gerando um sinal elétrico. Esta técnica é conhecida como técnica de pulso-eco. Estas ondas também podem propagar através do material e atingir um outro transdutor de mesmas características, que 9 pelo mesmo princípio piezoelétrico capta o sinal. Neste segundo caso, denomina-se método de emissão-recepção. [20] Como a onda ultrassônica é uma onda mecânica, é necessário que haja um meio físico para que ela se propague. Ao se propagar em um meio, as ondas podem fazê-lo de três maneiras: longitudinalmente, transversalmente e superficialmente. [20] As ondas longitudinais, também chamadas de ondas de compressão possuem partículas que oscilam na direção de propagação da onda, podendo ser transmitidas a sólidos, líquidos e gases. Na Figura 3 observam-se zonas de compressão, nas quais as partículas se aproximam uma das outras, e rarefação nas quais as partículas se distanciam uma das outras.[20] Figura 3 - Onda longitudinal, com a presença de zonas de compressão e zonas de rarefação. [21] As ondas transversais ou de cisalhamento são definidas quando as partículas do meio vibram na direção perpendicular a de propagação.Neste caso, observa-se que os planos de partículas mantêm-se na mesma distância um do outro, movendose apenas verticalmente, Figura 4. Figura 4 - Ondas transversais. [22] As ondas transversais são praticamente incapazes de se propagarem nos líquidos e gases, pelas características das ligações entre partículas, destes meios, 10 podendo ser transmitidas principalmente em sólidos. O comprimento de onda é a distância entre dois “vales” ou duas “cristas”. [20] As ondas superficiais, também chamadas de ondas de Rayleigh são ondas que trafegam na superfície dos meios sólidos e apresentam comportamento oscilatório das partículas tanto transversal quanto paralelamente à direção de propagação da onda,Figura 5. [23] Direção de propagação Figura 5 - Ondas superficiais, comportamento oscilatório. [25] Considerando uma onda sônica se propagando num determinado material com velocidade “V”, frequência “f”, e comprimento de onda “λ“, pode-se relacionar estes três parâmetros como segue na equação (1): (1) Velocidade de propagação é definida como sendo a distância percorrida pela onda sônica por unidade de tempo.A frequência de uma determinada onda de ultrassom, por sua vez, pode ser definida como a quantidade de oscilações que uma partícula sofre por segundo. Já o comprimento de onda representa a distância entre duas partículas próximas com o mesmo estado de movimento [24,25]. A velocidade de propagação em um material (v) pode ser determinada empiricamente, através de experimentos com medição do tempo que um pulso de ultrassom leva para percorrer uma distância conhecida da amostra a ser analisada, ou por meio de propriedades bem estabelecidas do material, como seu módulo de elasticidade (E), o coeficiente de Poisson (σp) e sua massa específica (ρ), através da equação 2 para ondas longitudinais e da equação 3para as ondas transversais. 11 (2) (3) A Tabela 1 traz os valores de velocidade de propagação e massa específica de alguns materiais. Tabela 1- Velocidade de propagação e massa específica de alguns materiais encontrados na literatura. [20,23] Material Velocidade de propagação (m/s) Massa específica (kg/m3) Ar 330 1.3 Alumínio 6300 2700 Aço 5900 7700 Água 1480 1000 Glicerina 1920 1260 Óleo Diesel 1250 800 Acrílico 2700 1180 Ainda que a velocidade de propagação seja considerada uma constante característica de cada material, existem fatores que podem resultar em variações nos valores comumente encontrados. No caso de líquidos, o valor da velocidade de propagação apresenta considerável variação com a temperatura. Como um exemplo, a velocidade de propagação na água aumenta 3,05 m/s para cada grau Celsius dentro da faixa de 10 a 30°C. [23] 3.3.3- Técnica pulso eco A medição por ultrassom que utiliza a técnica de pulso eco consegue determinar o local de uma descontinuidade ou de uma parte da estrutura com precisão, a partir da medição do tempo requerido para um curto pulso ultrassônico, 12 gerado por um transdutor, para se propagar através de um certomaterial. Em seguida, ao refletir a partir da superfície ou de uma descontinuidade o pulso retorna ao transdutor. Ou seja, o transdutor, possui um elemento piezoelétrico que ao ser excitado por um curto impulso elétrico é capaz de gerar um “burst” de ondas ultrassônicas. O transdutor é acoplado somente de um lado do material e as ondas emitidas viajam através dele até encontrar uma parede oposta ou outro limite. As reflexões, que ocorrem em seguida, voltam para o transdutor, que converte novamente a energia mecânica em energia elétrica, podendo ser observado na Figura 6. [26,27] Figura 6 - Técnica de pulso-eco. Para o cálculo da distância utiliza-se a equação (4) (4) onde: e - distância entre o transdutor e o fundo refletor v- velocidade do pulso ultrassônico no meio t- tempo de voo da onda ultrassônica. 13 É importante salientar que a velocidade ultrassônica no meio é uma parte relevante deste cálculo. Como mostrado anteriormente na tabela 1, diferentes materiais transmitem ondas ultrassônicas com diferentes velocidades.De uma forma geral, mais rapidamente em materiais rígidos e mais lentamente em materiais macios, sendo que a velocidade ultrassônica pode alterar-se,significativamente, com a temperatura. Dessa forma, torna-se sempre necessário ajustar um medidor de espessura de ultrassom para a velocidade ultrassônica no meio a ser medido. Isso,geralmente, é feito com um padrão de referência, cuja espessura é precisamente conhecida. Frequências mais elevadas possuem um curto comprimento de onda associado, o que acaba permitindo a medição de materiais mais finos. As frequências mais baixas, com um comprimento de onda maior,conseguem penetrar mais e acabam sendo usadas para testar amostras de grande espessura, ou para materiais tais como fibra de vidro e de metais fundidos de granulação grossa, em que a propagação das ondas ultrassônicas é considerada menos eficientes. As ondas ultrassônicas na ordem de mega-hertz (MHz) não se propagam eficientemente através do ar, de modo que uma gota de líquido de acoplamento é utilizada entre o transdutor e a peça de ensaio, com a finalidade de se conseguir a transmissão do ultrassom com qualidade. Acoplantes geralmente utilizados são glicerina, propilenoglicol, água, óleo e gel. Uma pequena quantidade é necessária, apenas o suficiente para preencher a face do transdutor não o deixando em contato com o ar. [26] Se a distância entre o transdutor e a superfície refletora for desconhecida, pode-se calculá-la utilizando o tempo necessário para percorrer o meio até uma parede oposta. O meio será percorrido duas vezes no mesmo tempo, uma vez até a parede oposta (superfície refletora) e uma vez até retornar ao transdutor. Se a velocidade de propagação ultrassônica no material correspondente é conhecida, pode-se calcular a distância percorrida, que é o tempo de voo ultrassônico dividido por 2 (percurso de ida e volta da onda ultrassônica) e multiplicado pela velocidade. Quando a onda retorna ao transdutor, parte de sua energia é refletida novamente para o objeto de teste, voltando a percorrer o meio e refletindo na parede oposta. Esta segunda reflexão irá picos semelhantes aos do primeiro conjunto de picos de parede de fundo, porém como uma parte da energia, no foi perdida, a altura 14 de todos os picos será menor. Estas reflexões, chamadas múltiplos, continuarão até que toda a energia do som seja absorvida ou perdida através da transmissão através das interfaces,Figura 7 [26]. Figura 7 - Sinal ultrassônico e reflexões. 3.4 -Óleos vegetais Os óleos vegetais podem ser considerados um dos principais produtos extraídos de plantas, e cerca de 65% são usados em produtos alimentícios fazendo parte da dieta humana. Os lipídeos, juntamente com as proteínas e os carboidratos, são fontes de energia, apresentando grande importância para a indústria, na produção de ácidos graxos,glicerina, lubrificantes, carburantes, biodiesel, além de inúmeras outras aplicações. Os óleos vegetais são constituídos principalmente de triacilgliceróis (> 95 %) e pequenas quantidades de mono e diacilgliceróis.A obtenção do óleo vegetal bruto é feita por meio de métodos físicos e químicos a partir das sementes das oleaginosas com o auxílio de um solvente que funciona como extrator. Nesta fase, o óleo vegetal contém impurezas como ácidos graxos livres, que prejudicam a qualidade e a estabilidade do produto, tornando-se necessário a 15 remoção destas impurezas, pelos processos de refino que envolvam desde a remoção do solvente até a desodorização [28,29]. Diversas são as oleaginosas para o atendimento da demanda de óleos vegetais, porém apenas quatro delas respondem pelo equivalente a 85% do consumo mundial. De acordo com a Figura 8, em 2010/2011 o óleo de palma, também chamado de óleo de dendê, é o mais consumido com 32% do consumo mundial de óleos vegetais. O óleo de soja é o segundo mais importante ao representar 29%, com os Estados Unidos na liderança da produção do grão, seguidos pelo Brasil e pela Argentina. Canola responde por 16% enquanto girassol por 8% do total mundial [28]. Figura 8 - Consumo mundial dos óleos vegetais* em 2010/2011 [28]. * Os outros óleos vegetais consistem em oliva, palmiste e coco. A Figura 9traz os dados atualizados dos óleos comestíveis mais consumidos mundialmente. 16 Figura 9 - Consumo mundial de óleos vegetais comestíveis [30]. Segundo o United States Departament of Agriculture (USDA, 2015) [30] o consumo alimentar dos nove principais óleos vegetais deverá se expandir em 4% em2015/16, refletindo o crescimento da população e do PIB. 3.4.1 - Composição dos óleos vegetais Os óleos vegetais possuem de uma a quatro insaturações na cadeia carbônica, geralmente, estando na fase líquida à temperatura ambiente. As Tabela 2 e Tabela 3 trazem os ácidos graxos saturados e insaturados, respectivamente, mais comumente encontrados nos óleos. Tabela 2 - Ácidos graxos saturados [31,32]. Ácido graxo* Nome Ponto de fusão (°C) Fonte 4:0 Butírico -5.3 Gordura do leite 6:0 Capróico -3.2 Manteiga 8:0 Caprílico 16.5 Óleo de coco 10:0 Cáprico 31.6 Óleo de coco 12:0 Láurico 44.8 Óleo de palmeira 14:0 Mirístico 54.4 Óleo de noz moscada 16:0 Palmítico 62.9 Óleo de palmeira 18:0 Esteárico 70.1 Carne de boi 20:0 Araquidício 76.1 Óleo de amendoim 22:0 Beênico 80.0 Óleo de acácia branca 17 Ácido graxo* Nome 24:0 Ponto de fusão (°C) Fonte Lignocérico 84.2 Subproduto da lignina * - Número de carbonos: número de saturações Tabela 3 - Ácidos graxos insaturados [31,32]. Ácido graxo* Nome Ponto de fusão Fonte (°C) 12:1 Lauroléico Gordura do leite 14:1 Miristoléico -4.0 Gordura do leite 16:1 Palmitoléico 0.0 Gordura bovina 18:1 Oléico 16.3 Óleo de oliva 18:2 Linoléico -5.0 Óleo de soja 18:3 Linolênico -11.0 Óleo de peixe 20:1 Gadoléico 25.0 Óleo de peixe 20:4 Araquidônico -49.5 Fígado 22:1 Erúcico 33.5 Mariscos/óleo de peixe * - Número de carbonos: número de saturações A Tabela 4 traz a composição de alguns óleos vegetais mais comumente utilizados. Tabela 4 - Composição em ácidos graxos dos óleos vegetais. [33] (% em peso, do total de ácidos graxos) ÓLEOS VEGETAIS Ácido graxo 14:0 Oliva Milho __ __ Girassol Soja Algodão Amendoim Canola 0,08 0,20 0,80 __ 0.06 16:0 14,23 14,03 8,36 11,35 20,13 11,42 3.75 18:0 3,41 3,33 5,03 4,15 3,10 2,82 1.87 20:0 0,58 1,00 0,43 0,15 0,20 2,33 0.64 22:0 __ ____ __ __ __ 2,08 0.35 13,90 15,85 24,23 18,65 6.67 Total saturados 18,26 18,36 18 14:1 __ __ 0,04 __ __ __ __ 16:1 2,52 0,20 0,05 0,05 1,43 __ 0.21 18:1 71,10 35,08 27,65 25,30 22,86 41,69 62.41 18:2 6,76 44,40 56,30 50,60 50,16 38,46 20.12 18:3 1,36 1,96 2,06 8,20 1,32 1,17 8.37 Total insaturados 81,74 81,64 86,10 84,15 75,77 81,32 91.11 Fonte: adaptado de FONSECA (1974) [33]. 3.4.2 - Processamento industrial O processamento industrial de óleos e gorduras pode ser representado de forma simplificada, em fases, como: Processamento da matéria-prima Extração do óleo bruto Refino e modificação Cada fase é constituída por diversas etapas. 3.4.2.1 - Processamento da matéria-prima Os grãos que são colhidos ou armazenados nos centros de distribuição acabam sendo transportados por via rodoviária, ferroviária ou hidroviária até as indústrias onde ocorrerá o esmagamento das sementes. As etapas de processamento da matéria-prima vão desde a pré-limpeza até o cozimento dos grãos [34]. 3.4.2.2 - Extração do óleo bruto São comumente utilizadas denominações durante a extração do óleo bruto: Torta: é o sub-produto na extração do óleo por prensagem. 19 Farelo: é o sub-produto na extração do óleo com o auxílio de solvente. Solvente: líquido utilizado na extração. Micela: mistura do óleo extraído com o solvente orgânico [31]. Para se decidir entre qual o processo empregar para extração do óleo bruto, extração por prensagem ou extração por solvente, utilizava-se um critério baseado no teor de óleo de cada oleaginosa. Para oleaginosas com teores menores que 20-25% a extração era realizada por extração com solvente, para as demais, empregava-se uma pré-prensagem seguida de uma extração por solvente. Atualmente, a extração por solvente é mais amplamente empregada [31]. 3.4.2.2.1 - Extração por prensagem mecânica Inicialmente, a remoção parcial do óleo ocorre pela prensagem mecânica que é realizada por prensas contínuas do tipo parafuso, em seguida ocorre a extração com o solvente orgânico, constituindo um processo misto. O eixo helicoidal da prensa,gira em um cesto composto por barras de aço retangulares espaçadas, o espaçamento entre as barras é regulado de forma a permitir a saída do óleo e, não deixando de atuar como um filtro para as partículas da torta [31,34]. 3.4.2.2.2 - Extração por solvente O solvente mais utilizado nesse processo é o hexano, com ponto de ebulição próximo a 70°C. A extração por solvente combina dois processos: o de dissolução, que é rápido e fácil, e o de difusão, que é mais demorado, pois dependente da mistura de óleo e solvente. A extração do material que contém maior teor de óleo inicia com micelas mais concentradas, que, ao longo do processo, dá lugar a micelas mais diluídas conforme haja a diminuição do teor de óleo. A obtenção do equilíbrio no sistema óleo-micela-solvente é definida a partir da velocidade de extração [31,34]. 20 3.4.2.3 - Refino O refino é um conjunto de processos que têm por finalidade a transformação de óleos brutos em óleos comestíveis. Existem casos em que há o consumo de óleos brutos, azeite de oliva e de dendê. De acordo com MANDARINO(2011) [34],as principais etapas do processo de refinação do óleo bruto de soja são: Degomagem ou hidratação; Neutralização ou desacidificação; Branqueamento ou clarificação; Desodorização. 21 4- METODOLOGIA 4.1- Materiais e métodos O Laboratório de Ultrassom do Inmetro vem avançando consideravelmente na área de análises de líquidos por ultrassom como mostram os resultados já publicados. [5,6,9,35,36] Neste trabalho foi utilizada a técnica ultrassônica de pulso-eco, no qual são adquiridos os sinais de pulso ultrassônicos que atravessam o corpo de prova, atingem o refletor e voltam ao mesmo transdutor. O estudo foi realizado com o auxílio de um transdutor de ultrassom de frequência nominal de 1 MHz e diâmetro 12,7 mm (Panametrcis-NDT - Olympus Corporation, Japan),um gerador de sinais (33250A, Agilent Technologies, CA, USA), um osciloscópio que digitalizou o sinal de eco recebido pelo transdutor (DSO-X 3012A, Agilent Technologies, CA, USA), uma unidade de aquisições de dados (34970A, Agilent Technologies, CA, USA) e um computador com um programa desenvolvido em LabView® 11, (National Instruments, Austin, TX, USA - Licença para uso do Inmetro). Na Figura 10, um esquema do arranjo experimental é mostrado permitindo identificar as variações que ocorrem na massa específica e viscosidade do óleo de soja em função das variações de temperatura, através dos sinais de razão de tempo de voo. 22 Figura 10 - Arranjo experimental utilizado na determinação da viscosidade e massa específica dos óleos. (a) Banho termostatizado, (b) recipiente de vidro que contém o óleo, (c) transdutor acoplado ao sistema a ser medido, (d) osciloscópio, (e) gerador de sinais e (f) unidade de aquisição de dados. Foram utilizados 3 tipos de óleos: Soja (marca Liza®) Canola (marca Sinhá®) Girassol (marca Granfino®) Para cada óleo foram realizadas cinco medições de tempo de voo, cada uma com tempo médio de 70 minutos. Todos os dados obtidos foram gravados a cada 20 segundos e analisados em software desenvolvido em LabVIEW® 11 (National Instruments, Austin, TX, USA Licença para uso do Inmetro). O modelo teórico da relação da viscosidade e massa específica com a temperatura é válido entre 20oC e 80oC [37]. O transdutor ultrassônico utilizado suporta, sem ser danificado, até 55 oC. Assim sendo, foi definida a faixa de temperatura utilizada entre 20 °C e50 °C. De acordo com a literatura [37,38] a dependência da viscosidade de óleos vegetais puros com a temperatura pode ser satisfatoriamente descrita pela relação de Andrade (5) 23 (5) onde µ é a viscosidade dinâmica, T é a temperatura absoluta, A1 é uma constante, E é energia de ativação e R é a constante universal dos gases. Os valores dos parâmetros A1 e E para os óleos estudados foram retirados da literatura [37], Tabela 5, e utilizados para estabelecer a relação entre a viscosidade dinâmica dos óleos e a razão de tempo de voo. Tabela 5 - Valores das constantes A1e E para Eq.(5) e dados de ajustes estatísticos para óleos vegetais. Óleo A1*(10-3mPa) E*(J/mol) r² MREa(%) Canola 1,310 26522 0,9971 2,98 Soja 1,616 25649 0,9964 3,13 Girassol 0,979 26796 0,9974 2,87 * Válido somente na faixa de (293.15 - 353.15)K a MRE: Erro relativo médio = 100Ʃi |calc - exp|/exp/N, onde N = número de pontos medidos. N Fonte: adaptado de NGUYEN(2011) [37]. Estudos demonstram [37,38] que a massa específica de óleos, por sua vez, varia linearmente com o aumento da temperatura absoluta, através da equação (6) (6) Onde α e β são constantes empíricas. Os valores dos parâmetros α e β para o óleo de soja foram retirados da literatura [37], Tabela 6, e utilizados para estabelecer a relação entre a massa específica do óleo de soja e a razão de tempo de voo. Tabela 6 - Valores das constantes α e β para Eq.(6) para óleos vegetais puros. Óleo α(kg/m³) β(kg/m³ K) r² Canola 1204.8 -0.991 0.9980 Soja 1197.0 -0.959 0.9978 Girassol 1239.8 -1.098 0.9985 Fonte: adaptado de NGUYEN (2011) [37]. 24 É importante esclarecer que todos os óleos utilizados puderam ser reutilizados em outras atividades do Laboratório de Ultrassom do Inmetro (Labus), pois não houve desnaturação dos mesmos. 4.2- Software Foi desenvolvido um software utilizando a ferramenta LabView para calcular a viscosidade e massa específica dos óleos e suas respectivas incertezas de medição. O Labview (abreviação para Laboratory Virtual Instrument Engineering Workbench) é uma linguagem de programação gráfica originária da National Instruments. Os principais campos de aplicação do Labview são a realização de medições e a automação. A programação é feita de acordo com o modelo de fluxo de dados, o que oferece a esta linguagem vantagens para a aquisição de dados e para a sua manipulação. Os programas em Labview são chamados de instrumentos virtuais ou, simplesmente, Vis São compostos pelo painel frontal, que contém a interface,Figura 11 e pelo diagrama de blocos, que contém o código gráfico do programa, Figura 12. O programa não é processado por um interpretador, mas sim compilado. Deste modo o seu desempenho é comparável à exibida pelas linguagens de programação de alto nível. A linguagem gráfica do Labview é chamada "G". [39] Figura 11 - Painel frontal que contém a interface do programa. 25 Figura 12 - Parte do diagrama de blocos utilizado no programa desenvolvido. 4.3- Teste de normalidade É necessário analisar o tipo de distribuição dos dados obtidos com o objetivo de se julgar a possibilidade de aplicação de métodos de interferência estatísticos. Os testes paramétricos assumem que a distribuição seja conhecida e uma das condições que deve ser satisfeita é que os dados amostrais pertençam a uma população distribuída normalmente. [40,41] Existem testes quali e quantitativos para analisar o comportamento de um conjunto de dados de uma amostra. Os testes quantitativos estatísticos mais utilizados são: Teste de Kolmogorov-Smirnov [42]: utilizado para grandes amostras (n>30) e quando a média e o desvio-padrão da população são desconhecidos. Teste de Lilliefors [43]: adaptação do anterior e aplicado quando médica e desvio-padrão da população são conhecidos. Teste de Shapiro-Wilk [40,41]: utilizados em amostras que variam o tamanho entre 3 e 50. 26 4.3.1-Teste de Shapiro Wilk A estatística do teste de Shapiro-Wilk, Wcalculado, é calculada a partir das equações 11, 12 e 13, (11) onde b= (12) (13) onde n é o tamanho da amostra, xi é o valor da medição da amostra sendo analisado ordenada em ordem crescente, é a média aritmética dos n resultados de medições e an-i+1 é o coeficiente calculado por Shapiro Wilk, obtido na Tabela A.1 em anexo. Os valores críticos da estatística W tabelado ou W crítico são extraídos da tabela A.2 em anexo. A condição para que o conjunto de dados da amostra seja considerado uma distribuição normal é que W calculado≥ W tabelado. 27 5 - RESULTADOS E DISCUSSÃO Este capítulo se destina a elucidar o que foi realizado durante o trabalho proposto e além de expor os resultados obtidos, discuti-los também. 5.1 - Viscosidade A partir dos dados da literatura [37], tabela 5, e pelo processamento dos sinais ultrassônicos obtidos dos 5 ensaios de cada óleo foi possível estabelecer curvas capazes de precisar a relação entre a viscosidade e a razão de tempo de voo acústico. Tomando-se como referência o valor de tempo de voo acústico em 20°C para cada uma das cinco medidas, calculou-se para as subsequentes temperaturas, que variaram até 50°C, uma razão denominada razão de tempo de voo, equação 7, (7) Onde rtf é a razão de tempo de voo, ToFmed é o tempo de voo medido em determinada temperatura e ToFref é o tempo de voo de referência, nesse caso a 20°C. É importante dizer que a escolha de se medir rtf evita que seja necessário conhecer o espaçamento entre o transdutor e o alvo refletor, podendo-se repetir o experimento para quaisquer distâncias. A Figura 13, a Figura 14 e a Figura 15 ilustram os resultados obtidos para canola, soja e girassol, respectivamente. 28 70 Medida 1 r² = 0,99724 Medida 2 r² = 0,99717 Medida 3 r² = 0,99673 60 Medida 4 r² = 0,99775 Viscosidade(mPa.s) Medida 5 r² = 0,99836 50 40 30 20 0 2 4 6 r 8 10 12 tf Figura 13 - Relação entre viscosidade dinâmica e razão de tempo de voo para o óleo de canola. 65 60 Medida 1 r² = 0.99537 Medida 2 r² = 0.99844 55 Medida 3 r² = 0.99432 Medida 4 r² = 0.99693 Viscosidade (mPa.s) 50 Medida 5 r² = 0.99711 45 40 35 30 25 20 0 2 4 6 r 8 10 tf Figura 14 - Relação entre viscosidade dinâmica e razão de tempo de voo para o óleo de soja. 29 60 Medida 1 r² = 0.99861 55 Medida 2 r² = 0.99809 Medida 3 r² = 0.99638 Viscosidade (mPa.s) 50 Medida 4 r² = 0.99691 Medida 5 r² = 0.99668 45 40 35 30 25 20 0 2 4 6 r 8 10 tf Figura 15 - Relação entre viscosidade dinâmica e razão de tempo de voo para o óleo de girassol. As figuras 13-15, que descreveram o comportamento da viscosidade em função da razão de tempo de voo acústico (rtf), ilustram como as cinco medições realizadas para cada óleo obtiveram resultados próximos, mostrando repetibilidade em todas as repetições. Diante do exposto, pôde-se estabelecer curvas que melhor se ajustassem aos dados obtidos, com coeficientes de determinação (r²) muito próximos a 1. O modelo matemático que melhor se ajustou para todos os óleos estava baseado na equação (8) (8) onde A e B são constantes encontradas a partir repetições do experimento para cada óleo. 30 A Tabela 7 traz os valores obtidos para as constantes A e B através de suas médias aritméticas para a curva de cada óleo, bem como o desvio padrão (σA e σB) e o coeficiente de variação (cvA e cvB) das duas constantes determinadas. Tabela 7 - Valores das constantes A e B para Eq.(8)e dados de ajustes estatísticos para óleos vegetais. A(mPa.s) σA cvA(%) B σB cvB(%) Canola 69,28 0,22 0,3 -0,10049 0,001724 1,7 Soja 58,75 0,64 1,1 -0,09864 0,000934 0,9 Girassol 57,30 0,77 1,3 -0,10477 0,003068 2,9 Óleo Para a determinação de cvA e cvB utilizou-se a equação 9. (9) Onde σi é o desvio padrão calculado para cada parâmetro e é a média aritmética de cada parâmetro. 5.2-Massa específica Da mesma forma como feito para a viscosidade, a partir dos dados da literatura [37], tabela 6, e pelo processamento dos sinais ultrassônicos obtidos dos 5 ensaios de cada óleo, foi possível estabelecer curvas capazes de precisar a relação entre a massa específica e a razão de tempo de voo acústico. Tomou-se como referência o valor de tempo de voo acústico em 20°C para cada uma das cinco medidas e calculou-se para as subsequentes temperaturas, que também variaram até 50°C, uma razão denominada razão de tempo de voo, equação 7. A Figura 16, a Figura 17 e a Figura 18 ilustram os resultados obtidos para canola, soja e girassol, respectivamente. 31 915 Medida 1 r²=0.99818 Medida 2 r²=0.99757 Medida 3 r²=0.99817 Massa espec í fica (kg/m³) 910 Medida 4 r²=0.99847 Medida 5 r²=0.99941 905 900 895 890 885 880 0 2 4 6 8 10 12 rtf Figura 16 - Relação entre massa específica e razão de tempo de voo para o óleo de canola. 920 Medida 1 r²=0.99741 915 Medida 2 r²=0.99903 Massa espec í fica (kg/m³) Medida 3 r²=0.99779 Medida 4 r²=0.99796 910 Medida 5 r²=0.99790 905 900 895 890 885 0 2 4 6 r 8 10 tf Figura 17 - Relação entre massa específica e razão de tempo de voo para o óleo de soja. 32 920 Medida 1 r²=0,99922 Medida 2 r²=0,99868 915 Medida 3 r²=0,99741 í fica (kg/m³) Massa espec Medida 4 r²=0,99719 910 895 Medida 5 r²=0,99666 905 900 890 885 880 0 2 4 6 8 10 rtf Figura 18 - Relação entre massa específica e razão de tempo de voo para o óleo de girassol. As figuras 16-18, que descreveram o comportamento da massa específica em função da razão de tempo de voo acústico (rtf), demonstram que as cinco medições realizadas para cada óleo obtiveram resultados próximos, mostrando repetibilidade em todas as repetições. Diante do exposto, pôde-se estabelecer curvas que melhor se ajustassem aos dados obtidos, com coeficientes de determinação (r²) muito próximos a 1. O modelo matemático que melhor se ajustou para todos os óleos estava baseado na equação 10 (10) onde a e b são constantes encontradas a partir repetições do experimento para cada óleo. A Tabela 8 traz os valores obtidos para as constantes a e b através de suas médias aritméticas para a curva de cada óleo, bem como o desvio padrão 33 (σa e σb) e o coeficiente de variação (cva e cvb) das duas constantes determinadas. Tabela 8 - Valores das constantes a e b para equação(10) e dados estatísticos para óleos vegetais. Óleo a(kg/m³) σa cva(%) b(kg/m³) σb cvb(%) Canola 914,14 0,13 0,01 -2,8914 0,06611 2,30 Soja 915,32 0,28 0,03 -2,8604 0,04697 1,64 Girassol 917,51 0,42 0,05 -3,3325 0,10685 3,21 5.3- Teste de normalidade 5.3.1- Viscosidade Por meio dos dados obtidos a partir das5 repetições e dos anexos A.1 e A.2, pôde-se calcular o W calculado para os parâmetros de cada óleo. Para a equação da viscosidade, tem-se os dois parâmetros A e B, provenientes das repetições. Assumiu-se as seguintes hipóteses: H0 - A amostra provém de uma distribuição normal. H1 - A amostra não provém de uma distribuição normal. Para um nível de significância de 5% (α=0,05) e n =5, tem-se W crítico = 0,76. A Tabela 9 traz todos os valores de W calculado para a viscosidade. 34 Tabela 9 - Valores calculados para W para cada parâmetro da viscosidade dos óleos. Óleo Parâmetro Wcalc Canola A 0,95 Canola B 0,92 Soja A 0,77 Soja B 0,98 Girassol A 0,92 Girassol B 0,95 Assim, como todos os W calc>W (0,05:5) aceita-se a hipótese nula, que diz que os dados possuem distribuição normal. 5.3.2 -Massa específica Da mesma forma, através dos dados obtidos a partir da 5 repetições e dos anexos A.1 e A.2, pôde-se calcular o W calculado para os parâmetros de cada óleo. A equação da massa específica por sua vez, tem os dois parâmetros a e b, provenientes das repetições. Assumiu-se as seguintes hipóteses: H0 - A amostra provém de uma distribuição normal. H1 - A amostra não provém de uma distribuição normal. Para um nível de significância de 5% (α=0,05) e n =5, tem-se W crítico = 0,76. A Tabela 10traz todos os valores de W calculado para a massa específica 35 Tabela 10 - Valores calculados para W para cada parâmetro da massa específica dos óleos. Óleo Parâmetro Wcalc Canola A 0,80 Canola B 0,96 Soja A 0,86 Soja B 0,89 Girassol A 0,80 Girassol B 0,93 Dessa forma, como todos os W calc> W crítico aceita-se H0, na qual assumese que os dados possuem distribuição normal. 5.4 - Cálculo de incertezas O teste de normalidade foi realizado para garantir que os dados obtidos tivessem uma distribuição normal e o cálculo das incertezas de medição pudesse ser realizado com base nas fórmulas do GUM. 5.4.1 - Viscosidade Admitindo-se os tipos de incerteza, tipo A e tipo B e com base na equação 14 da literatura [13], desenvolveu-se as equações 15 e 16 para o cálculo das incertezas da viscosidade, (14) (15) 36 (16) Onde uµ é a incerteza padrão combinada, N é o número de repetições e urtf é a incerteza do tipo B devido à calibração do osciloscópio utilizado. De acordo com o fabricante do osciloscópio utilizado a incerteza é 25ppm + 5ppm por ano de uso multiplicado pela escala de medição, que nesse caso é a razão de tempo de voo acústico. Neste trabalho utilizamos um valor de incerteza de 60ppm, o equivalente a 7 anos de uso do osciloscópio. De acordo com o ISO-GUM (2008) [13] embora a incerteza padrão combinada possa ser universalmente usada para expressar a incerteza de um resultado de medição, em algumas aplicações comerciais, industriais e regulamentadoras, é muitas vezes necessário dar uma medida de incerteza, que defina um intervalo em torno do resultado da medição com o qual se espera abranger uma extensa fração da distribuição de valores que poderiam ser razoavelmente atribuídos ao mensurando. A medida adicional de incerteza descrita no parágrafo acima é chamada de incerteza expandida e aqui será expressa por Uexp. Seu cálculo é feito multiplicando-se a incerteza combinada (uc ou uµ) por um fator de abrangência k, equação 17. (17) O valor do fator de abrangência k é escolhido com base no nível da confiança requerido para o intervalo de medição. Geralmente k estará entre 2 e 3. Nesse trabalho, k foi determinado com base no número de graus de liberdade efetivo (ʋeff) e em uma probabilidade de abrangência de 0,95. De acordo com a literatura [13] para se calcular ʋeff utiliza-se a equação 18. (18) 37 A partir de ʋeff é possível calcular o valor de k com a ajuda da função INVT do excel. Essa função retorna o valor t da distribuição t de Student como uma função da probabilidade e dos graus de liberdade. Para usá-la basta digitar no excel "INVT(probabilidade; graus de liberdade)", onde probabilidade é a probabilidade associada à distribuição t de Student bicaudal, nesse caso utilizamos 0,95 e graus de liberdade é o número de graus de liberdade (ʋeff) que caracteriza a distribuição. A Tabela 11traz os valores das incertezas calculadas para cada óleo baseado num valor de razão de tempo de voo. Tabela 11 - Valores de incerteza para viscosidade calculados para cada óleo. Óleo Canola Soja Girassol µ(mPa.s) uµ Uexp(mPa.s) Urel(%) 0 69,3 0,1 0,3 0,4 2 56,7 0,1 0,4 0,5 4 46,3 0,2 0,4 0,9 6 37,9 0,2 0,5 1,3 8 31,0 0,2 0,5 1,8 10 25,4 0,2 0,6 2,2 0 58,7 0,3 0,8 1,3 2 48,2 0,2 0,7 1,4 4 39.6 0,2 0,6 1,4 6 32,5 0,2 0,5 1,4 8 26,7 0,2 0,4 1,4 10 21,9 0,1 0,3 1,5 0 57,3 0,3 1,0 1,7 38 Óleo µ(mPa.s) uµ Uexp(mPa.s) Urel(%) 2 46,5 0,3 0,8 1,7 4 37,7 0,3 0,7 1,7 6 30,6 0,3 0,7 2,4 8 24,8 0,3 0,8 3,1 10 20,1 0,3 0,8 3,9 Para se obter Urel dividiu-se o valor de Uexp pelo valor obtido de µ e multiplicou-se por 100 para se obter o resultado em porcentagem, equação 19. (19) A Figura 19, a Figura 20 e a Figura 21 trazem as curvas ajustadas para a viscosidade dos óleos de canola, soja e girassol, respectivamente, e suas incertezas. 70 Viscosidade (mPa.s) 60 50 40 30 20 0 2 4 6 8 10 rtf Figura 19 - Curva ajustada para viscosidade com barra de incertezas para o óleo de canola. 39 65 60 55 Viscosidade (mPa.s) 50 45 40 35 30 25 20 0 2 4 6 8 10 rtf Figura 20 - Curva ajustada para viscosidade com barra de incertezas para o óleo de soja. 60 55 50 Viscosidade (mPa.s) 45 40 35 30 25 20 15 0 2 4 6 8 10 rtf Figura 21 - Curva ajustada para viscosidade com barra de incertezas para o óleo de girassol. 40 A partir dos dados anteriormente expostos é possível verificar que a relação entre a viscosidade e a razão de tempo de voo é exponencial. Dessa forma, ao diminuir-se a viscosidade do meio diminui-se a velocidade de propagação da onda ultrassônica, aumentando-se assim, o tempo necessário para se percorrer a mesma distância. Sabe-se que viscosidade é uma propriedade que está associada à resistência que o fluido oferece a uma deformação por cisalhamento. A força de coesão das moléculas, que é resultante da ação das forças de atração, consegue explicar a viscosidade. Dessa forma, em fluidos mais viscosos a onda ultrassônica encontra uma barreira mais resistente fazendo com que sua reflexão seja mais rápida, maior velocidade e menor tempo. Em contrapartida em fluidos menos viscosos, a onda acústica necessitará de um maior tempo para conseguir penetrar no meio e encontrar uma barreira para que ocorra sua reflexão. Dentre os três óleos utilizados nesse trabalho, o óleo de girassol é o que apresenta maiores valores de incertezas. E mesmo com esses valores, comparativamente, maiores, as incertezas obtidas não são altas o suficiente (máximo de 3,9% para a incerteza relativa) para considerar o modelo proposto inapropriado para aplicação. Atribui-se esse maior valor de incerteza a uma possível contaminação do lote testado, no qual os óleos não possuíam as propriedades físico-químicas bem estabelecidas. Diante do exposto, pode-se afirmar que a implementação desse sistema de medição e monitoramento da viscosidade dos óleos vegetais testados fornecerá resultados confiáveis e precisos na faixa de 20-50°C, variando no máximo 3,9%. É importante destacar que o maior valor da incerteza relativa do óleo de girassol apesar de significar uma incerteza de apenas 0,8 mPa.s no valor de 20,1 mPa.s da viscosidade, corresponde ao maior valor em porcentagem, 3,9%. Isso ocorre, pois o óleo de girassol é o que possui menores valores para a viscosidade e, como a equação (19) leva em consideração o valor da 41 viscosidade naquele ponto, isso acaba aumentando o valor da incerteza relativa. 5.4.2 -Massa específica Com o intuito de se obter resultados confiáveis, calculou-se as incertezas de cada medição para que os valores de massa específica pudessem ser expressos com os valores de suas incertezas. Admitindo-se os tipos de incerteza, tipo A e tipo B e com base na equação 20 da literatura [13], desenvolveu-se a equação 21 para o cálculo das incertezas da massa específica, (20) (21) Da mesma forma como calculado para a viscosidade, para a massa específica estabeleceu-se o fator de abrangência k baseado numa probabilidade associada à distribuição t de Student bicaudal de 0,95. A Tabela 12 traz os valores das incertezas calculadas para cada óleo baseado num valor de razão de tempo de voo. Tabela 12 - Valores de incerteza para massa específica calculados para cada óleo. Óleo rtf ρ(kg/m³) uρ Uexp(kg/m³) Urel(%) Canola 0 914,1 0,1 0,2 0,02 2 908,4 0,1 0,2 0,02 4 902,6 0,1 0,3 0,04 42 Óleo Soja Girassol rtf ρ(kg/m³) uρ Uexp(kg/m³) Urel(%) 6 896,8 0,2 0,5 0,06 8 891,0 0,2 0,7 0,08 10 885,2 0,3 0,8 0,10 0 915,3 0,1 0,4 0,04 2 909,6 0,1 0,4 0,04 4 903,9 0,2 0,4 0,04 6 898,2 0,2 0,4 0,05 8 892,4 0,2 0,5 0,06 10 886,7 0,3 0,6 0,07 0 917,5 0,2 0,5 0,06 2 910,8 0,2 0,5 0,06 4 904,2 0,3 0,6 0,07 6 897,5 0,3 0,8 0,09 8 890,9 0,4 1,1 0,12 10 884,2 0,5 1,3 0,15 A Figura 22, a Figura 23 e a Figura 24 trazem as curvas ajustadas para a massa específica dos óleos de canola, soja e girassol, respectivamente, e suas incertezas. 43 í fica(kg/m³) 915 910 905 Massa espec 900 895 890 885 0 2 4 6 8 10 rtf Figura 22 - Curva ajustada para massa específica com barra de incertezas para o óleo de canola. 920 í fica(kg/m³) 915 910 905 Massa espec 900 895 890 885 0 2 4 6 8 10 rtf Figura 23 - Curva ajustada para massa específica com barra de incertezas para o óleo de soja. 44 920 Massa espec í fica (kg/m³) 915 910 905 900 895 890 885 880 0 2 4 6 8 10 rtf Figura 24 - Curva ajustada para massa específica com barra de incertezas para o óleo de girassol. Os resultados das regressões lineares para a massa específica de cada óleo demonstram que o modelo proposto se adéqua muito bem ao propósito de se medir massa específica em tempo real e com precisão. Verifica-se que a incerteza pode ser considerada baixa, uma vez que a maior tem o valor de 0,15% (884,2 ± 1,3 kg/m³). Da mesma forma como observado para a viscosidade o óleo de girassol apresentou os maiores valores de incerteza. Como utilizou-se os mesmos dados obtidos para viscosidade no cálculo da massa específica, propõem-se a mesma fonte de erro. Tendo-se em vista que os dados iniciais que relacionavam a viscosidade e massa específica com a temperatura foram retirados da literatura [37], e que o autor não especificou os valores das incertezas, menor que ±1%, os valores encontrados nesse trabalho podem ter sido influenciados pelos valores reais de incerteza, e por isso a massa específica ter obtido valores, relativamente, menores de incerteza que a viscosidade. 45 O uso da técnica proposta visa a expansão desse método para outros tipos de monitoramento como o de reações químicas. Tendo-se em vista as variações que ocorrem no meio reacional durante qualquer perturbação química, o trabalho desenvolvido tem a possibilidade de ser utilizado em diversas reações que envolvam óleos vegetais. Estudos preliminares realizados no laboratório de ultrassom do Inmetro demonstram o poder do ultrassom em perceber as variações ocorridas durante os processos de transesterificação de óleos. 46 6-CONCLUSÕES E PERSPECTIVAS Com o desenvolvimento deste trabalho foi possível propor uma metodologia utilizando o parâmetro ultrassônico tempo de voo, nesse caso expresso como razão de tempo de voo, em comparação com uma metodologia muito bem descrita na literatura que faz uso de densímetros e viscosímetros. O parâmetro de tempo de voo acústico mostrou-se eficiente na predição de viscosidade e massa específica de óleos, obtendo-se incertezas relativamente baixas e evidenciando a repetitividade do parâmetro. A importância de se utilizar o ultrassom em linhas de produção está não só na sua possibilidade de proporcionar uma automação ao processo, mas também, no baixo custo de aquisição e implementação da metodologia frente às metodologias hoje utilizadas. Assim, o uso da técnica proposta visa a expansão desse método para outros tipos de monitoramento como o de reações químicas. Tendo-se em vista as variações que ocorrem no meio reacional durante qualquer perturbação química, o trabalho desenvolvido tem a possibilidade de ser utilizado em diversas reações que envolvam óleos vegetais. Dessa forma, estudos preliminares realizados no Laboratório de Ultrassom do Inmetro vem avançando suas pesquisas demonstram o poder do ultrassom em perceber as variações ocorridas durante os processos de transesterificação de óleos 47 7- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS [1] NOUREDDINI, H; TEOH, B. C; CLEMENTS, L. D. Viscosities of Vegetable Oils and Fatty Acids. JAOCS,Nebraska, 69,12, 11891191,1992. [2] NOUREDDINI, H; TEOH, B. C; CLEMENTS, L. D. Densities of Vegetable Oils and Fatty Acids. JAOCS,Nebraska, 69,12, 1184-1188,1992. [3] NAZÁRIO, S.L.S. et al. Caracterização de leite bovino utilizando ultrassom e redes neurais artificias. 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