ARTE E RETRATO DA CRISE DE VALORES DO SER HUMANO CONTEMPORÂNEO: A FALTA DE SENTIDO DE VIDA EM “BELEZA AMERICANA” Cátia Cilene Lima Rodrigues Resumo O presente trabalho pressupõe a compreensão da arte como interpretação da realidade humana, manifestada de forma simbólica, e considera o cinema uma das suas expressões sobre existência na atualidade. Assim, o texto que se desenvolve tem a pretensão de introduzir a discussão sobre o vazio existencial e a superficialidade das relações humanas observados como contexto da Modernidade, a partir da análise do filme “Beleza Americana", de San Mendes (1999). Aponta a alienação e a simulação da realidade, frutos da ilusão da perfeição e da felicidade plena na vida imanente da ética utilitarista da Modernidade, como propulsores e banalização da vida e, sem apresentar soluções fáceis para o atual problema da crise de valores e de identidade, afirma a angústia como condição na natureza humana, que necessita ser integrada de forma criativa e construtiva para a elaboração de uma nova ética para o atual panorama em que existimos. Palavras Chaves: modernidade, simulação, ilusão, ética, valores. 163 Não é novidade que a arte é uma das mais puras formas de expressão da realidade humana. Através desse meio, desde a pré-história, a humanidade tem manifestado seus medos, seus anseios, suas dúvidas. Seja por meio de mitos, de lendas, seja por meio de narrativas, de cânticos, por esculturas, pinturas ou teares, o ser humano utiliza linguagem simbólica para expressar a sua realidade concreta e subjetiva. Atualmente, uma das formas de fazê-lo – e das mais populares – é a sétima arte: o cinema. O cinema, em seus diferentes estilos, tem projetado terrores, angústias, sonhos que a humanidade carrega em seu desenvolvimento. Espírito humorístico, agressividade, senso de justiça, a busca pela verdade e pela felicidade, seja em comédias, romances, ou policiais, são temas recorrentes. Enfim, o cinema pode ser interpretado como o modo contemporâneo de criar e elaborar a existência, assim como já o fizeram as grandes narrativas, as fábulas, os mitos no passado. Nele, vemos um retrato de nós mesmos, um espelho em que podemos refletir sobre o eco de nossas próprias vidas, da nossa existência e da nossa história enquanto indivíduos, sujeitos e humanos. Citemos o filme “Beleza Americana” (American Beauty), de 1999 (EUA), dirigido por Sam Mendes e ganhador de 5 Oscar: é a história de pessoas comuns na contemporaneidade, que vivem suas vidas como a maioria. Acordam, tomam café com sua família desejando que ninguém lhes fale, trabalham pensando em enriquecer, não usufruem o que ganham para serem felizes. Nascer, viver, morrer. No bojo de toda alienação possível de uma vida sem sentido, Lester Burham, personagem principal, vive um casamento de aparências, sem diálogo com a filha adolescente e sem reconhecer a esposa superficial. Tem um emprego que despreza, que não o realiza e que também não lhe faz razão de ser, a não ser pela remuneração – mesmo assim, continua cedendo às pressões que nele enfrenta, e a fingir o prazer que há muito não sente. Na casa ao lado à sua, muda-se uma família fechada, cuja esposa é uma perturbada mulher submissa ao autoritário, agressivo e obsessivo marido, este ex-fuzileiro naval que tenta reger a casa como se ali fosse um quartel, e ao filho como o soldado mais raso. Preconceituoso e homofóbico, tal sujeito acredita educar o filho com atitudes violentas – que, no entanto, só fizeram com que o rapaz passasse a enganá-lo para evitar problemas, fingindo trabalhar como garçom quando na realidade é um traficante de drogas. A história tem sua reviravolta quando Lester começa a questionar a razão de sua existência e, cansado de tantas máscaras sociais que tem representado como se fossem estas a sua expressão, resolve mudar sua vida. Motivado por uma paixão ilusória por uma colega de sua filha adolescente, Lester passa a fazer exercícios físicos e a experimentar experiências 164 novas, como usar drogas. Pressionado mais uma vez pela empresa em que trabalha, resolve usar chantagem para ter um período de afastamento do “trabalho altamente responsável”. Passa a vivenciar um período para reavaliar sua existência, o que gera transtornos em sua família, pela mudança de seu padrão comportamental – ou seja, de sua conduta. O filme é a interpretação da realidade atual nas grandes metrópoles capitalistas como vazia, descrita por Derridá como simulacra: máscaras e alienação de si. A obra é uma crítica à conduta, à moral e à ética da humanidade atualmente, apontando a falta de valores referenciais para a vida prática. Demonstra que certamente a idéia de ética imposta por leis é falha, uma vez que segue o caminho oposto ao da liberdade existencial constituída a partir de consciência e responsabilidade. Aponta o discurso vazio, a dicotomia entre a teoria e a prática nos diferentes pesos e medidas que a humanidade tem se baseado para julgar e discernir seus problemas de ordem moral para a vida objetiva. Marca a banalização dos valores humanos substituídos pelo utilitarismo consumista, mas também o problema da relatividade dos valores para se avaliar a ação pessoal ou do outro. Permissividade e culpabilidade. Manutenção da alienação pela falsa idéia de liberdade. Muita informação, pouca integração; muita tecnologia, pouco conhecimento. Assinada a tensão entre a relativação comercial e o fundamentalismo opressor que marca o tempo moderno. Aponta, de acordo com a análise de Dupas (2001) sobre a sociedade tecnológica e o problema da ética, a dificuldade de encontrar os princípios perdidos e as orientações sobre o certo e o correto em nossa sociedade: “A incerteza é a regra; nada está sobre pés firmes e crença sólida: resta a convicção de que toda a fé, todo julgar verdadeiro é necessariamente falso. Não há nada a fazer com a verdade. Também não há nada a fazer com a moral; ela anuncia princípios éticos, mas a ação não se orienta por eles. Afirma-se o niilismo, a fé na absoluta falta de valores e de sentido”. (DUPAS, 2001, 50). Deste modo, o filme é o pretexto para discutir a crise de valores e de identidade da Modernidade. Não porque falar mal da Modernidade esteja em alta – e me parece que está. Mas para indicar que, diante da crise de identidade do Ser Humano no tempo atual, a Modernidade nos indica um novo desafio: reavaliar e/ou re-estabelecer os referenciais e os valores que orientam a prática da vida cotidiana, visando o equilíbrio pessoal e harmonia social por um claro motivo, a sobrevivência digna da humanidade. 165 “Sente-se um mundo fragmentado, seu estilo se perdendo nessas fraturas, com múltiplos significados, orientações e paradoxos” (DUPAS, 2001, 49). Tenho observado pessoas muito inteligentes, mas muito angustiadas com suas vidas. Vejo pessoas muito talentosas, mas sem direcionamento e objetivos definidos. Vejo gente engajada na coletividade, com muito sucesso financeiro ou profissional, mas sem sentido existencial. Conheço histórias de pais e mães que muito dedicados, trabalham muito e procuram ser muito competentes naquilo a que se propõem profissionalmente, mas que despercebidamente educam crianças egoístas, utilitaristas e consumistas, quando só demonstram afeto com presentes. Vejo muita gente ausente de si mesmo para estar presente para o outro – seja o trabalho, o dinheiro, o status, a sociedade. “Para Lipovevetski, a era contemporânea apresenta como sintoma mais significativo dos problemas existenciais do homem pós-moderno o vazio emotivo, que se manifesta na impossibilidade de sentir a vida, e na desubstanciação dos valores, isto é, no esvaziamento dos significados das coisas” (GIOVANETTI, 2002, 92) Por outro lado, também posso observar pessoas que – talvez para se defenderem de tamanha crise de valores e de identidade – afiliam-se a credos, ideologias, grupos com verdades específicas de forma tão unilateral em seus próprios valores que demonizam quem quer que seja que não professe a mesma fé – seja religiosa, científica ou política – de forma desumana e cruel, ao julgar o que o outro é sem conhecer sua pessoa de fato. Atentados terroristas, assassinatos, guerras: vidas humanas perdidas, desvalorizadas sem motivo. Lester Burham, personagem central em “Beleza América”, no início de sua narrativa sobre o último ano de sua vida, anuncia: “Daqui a um ano estarei morto. Na realidade, já estou morto”. E o que mais poderia ser uma vida vazia? Daí a preocupação com o tema Identidade, Valores e Modernidade. A questão da ética hoje está no bojo da discussão do futuro da humanidade e, paradoxalmente, é a questão menos resolvida para o ser humano moderno. O filme “Beleza Americana” não faz menção somente à realidade dos EUA, mas do mundo ocidental capitalista, mostrando de forma lúdica, criativa, entretenimentada a realidade da vida da pessoa comum, questionando sobre o motivo e direção da própria história - o que pode ser usado como ponto inicial para a reflexão sobre liberdade para escolher e responsabilidade no viver, auxiliando a profunda reflexão epistemológica sobre onde está a verdade. 166 Atualmente, a humanidade vivencia um episódio de crise geral sobre a verdade em sua conduta, em suas escolhas, retratada no filme em todo momento, por diferentes ângulos e aspectos, numa crítica à alienação do indivíduo comum diante de sua própria existência, mesmo sendo este alguém letrado, culto, bem empregado e inserido na sociedade. Ou seja, o filme retrata a condição contemporânea da humanidade, em que as pessoas estão estranhas a si mesmas, fechadas no individualismo que impede a promoção coletiva e o desenvolvimento social. “(...) a vida emocional do sujeito é ignorada. Ele terá de ser ‘profissional’ diante das injustiças e opressões. Mesmo que não adote em seu íntimo os valores do sistema, deverá praticá-los, pois é constantemente vigiado: o padrão ético é o da sobrevivência do menos sensível, chamado, ideologicamente, de ‘mais forte’” (CARVALHO In: DI MANNO, 2002, 130). A princípio, o filme retrata a alienação do indivíduo pelo trabalho, em que as pessoas produzem o que não lhes faz sentido, ou passam a acreditar que seu valor pessoal e existencial depende exclusivamente do resultado e do desempenho de seus negócios. Cenas em que alguém trabalha no que não o desenvolve como pessoa, ou que não lhe diz nada, ou em que alguém se agride fisicamente porque não concluiu negócios da forma lucrativa como desejava, ficam evidente a desumanização do sujeito pelo trabalho rotineiro e irreflexivo, que torna a vida profissional torturante por não espelhar a criatividade humana, mas também a desumanização da pessoa pela idéia de valer o quanto ganha. “As organizações controlam a tal ponto os corpos dos trabalhadores que sua saúde biológica, emocional e espiritual passa a depender do emprego e da empresa. Maior que o medo da morte, o trabalhador tem outro, mais consciente: além de amanhecer vivo no dia seguinte, depois de uma jornada de trabalho, ele pensa se acordará empregado. Nessa situação patológica, ele perde a individualidade. Não pensa para a organização, mas lhe pertence totalmente” (CARVALHO In: DI MANNO, 2002, 127). A vinculação do valor do trabalho à quantia de remuneração por ele recebida é discutida, ainda, com a questão do tráfico de drogas: a legitimação da atividade, neste retrato da sociedade, liga-se ao quanto ela rende e gera poder de consumo, e não mais ao valor efetivo do que é produzido; assim, o comércio de psicotrópicos ilegais por sua capacidade de dependência química e depreciação psíquica, mesmo com os prejuízos físicos ou morais 167 alheio, é mais valorizado que o trabalho que promova a dignidade humana, mas que rende menos poder de consumo. Há ainda uma crítica ao culto da aparência desassociado do valor da essência, com referências à ausência de valores existenciais como orientação para conduta pessoal. O filme, com uma personagem adolescente que declara fazer qualquer tipo de coisa para ter o corpo em evidência e concentrar neste aspecto o seu valor pessoal, sugere a venda do corpo por sucesso, e a alienação pessoal pelo consumo e superficialidade da imagem (já que não é verdadeiro, e nem expressa a identidade da pessoa). O próprio Lester, personagem central da obra, mantém um casamento de dissimulação, e passa a realizar-se sexualmente por meio de fantasias eróticas com a amiga de sua filha que, como esta, é uma adolescente. E busca concretizar a relação sonhada a partir do desenvolvimento do corpo perfeito dos moldes modernos, ou seja, com musculatura tão desenvolvida a ponto de ser hipertrofiada. Nestas figuras, a obra apresenta a tensão entre a imagem e a ‘coisificação’ do ser, ou seja, o culto e a transformação obsessiva do corpo como se o valor da pessoa residisse exclusivamente no que ela parece ser, e não no que efetivamente é moral e humanamente. “Outro traço típico de uma sociedade centrada no eu é o culto do corpo, levado ao extremo com o fenômeno denominado corpolatria, uma valorização sem precedentes do corpo. É bem verdade que o corpo representa nossa identidade, isto é, ele é o nosso cartão de visita, ele expressa o que somos. É por meio dele que marcamos nossa presença no mundo, mas o que fica patente é o investimento maciço no corpo mediante várias atitudes e práticas cotidianas. (...) Atualmente, as grandes figuras femininas da mídia estão procurando apresentar sempre a imagem de que possuem um corpo perfeito (...).” (GIOVANETTI, 2002, 95). Não só a imagem física é debatida na produção, como também o status social. A excessiva preocupação com a imagem social, ainda que desvinculada da realidade pessoal é apresentada com a personagem da esposa de Lester, denominada Caroline. Esta mulher não preocupa-se se é feliz de fato, ou se aquilo que com seu trabalho conquistou como padrão de vida traz felicidade verdadeira a si e à sua família: o que lhe importa é se ela e sua família projetam socialmente uma imagem de satisfação e felicidade por deter quilo que a sociedade estabelece como ideal de felicidade – de música à alimentação, passando pela realização de sua afetividade e sexualidade, bem como relação com os que ama. 168 “A perda do sentido aparece no momento em que começamos a perder contato com a vida, no momento em que o contato com os outros seres humanos deixa de ser primordial, e passa a ocupar um lugar secundário na nossa existência”.(GIOVANETTI, 2002, 97) Em contrapartida, uma das personagens do filme apresenta-se com uma consciência pessoal libertária em primeira instância. Não se preocupa com a possível perda do emprego ou com as imposições estéticas sociais. Parece estar preparado para assumir a responsabilidade por suas escolhas de não querer trabalhar conforme a solicitação do empregador. Busca a beleza das coisas simples da vida. No entanto, essa figura é apenas aparente: esconde, na realidade, seu descompromisso social, uma vez que sua despreocupação com o trabalho justifica-se por sua renda alternativa extra, neste caso, proveniente do tráfico de drogas que pratica. Desse modo, há nesta personagem a referência à preservação da consciência pessoal, à identidade e segurança de si por viver a vida desprezando a opinião alheia, e centrado na sua própria reflexão sobre sua conduta. Aliás, justamente por essa ética pessoal desvinculada dos valores simulacros da modernidade, e assim como um casal homossexual que autenticamente assume a posição sexual com discrição e naturalidade, tal personagem é considerado ‘estranho’, pois não cede ao apelo contemporâneo do consumismo e valorização da imagem alienante. Contudo, por tal imagem, o filme também critica a relatividade dos valores e discute a fragilidade ética atual, com o imperialismo do utilitarismo e do individualismo das pessoas: a personagem vive bem assim, centrando sua conduta pela referência de sua felicidade exclusiva, sem a preocupação da conseqüência social do tráfico de drogas que lhe traz o conforto desejado. Aliás, essa é uma das genialidades desta obra: a crítica da hipocrisia e alienação social, em que as relações são estabelecidas a partir dos interesses financeiros ou de viabilidade de sucesso social, sem valores existenciais de referência que leve à liberdade, consciência e felicidade das pessoas enquanto coletividade – além da citação das relações de opressão, como a relação do visinho obsessivo com a esposa submissa e o filho hipócrita. Uma das ambigüidades que a produção aponta é demissão solicitada por Lester em seu emprego sem sentido: denota sua tomada de consciência, de sua valorização pessoal, aponta a um recomeço, talvez mais simples ou humilde, mas mais significativo para ele enquanto pessoa. Contudo, seu pedido é permeado por engodo e chantagem. Não usa o seu poder pessoal de liberdade com responsabilidade pelas conseqüências das escolhas realizadas. Ao 169 contrário, faz uso do poder pelo constrangimento e força sobre o outro para obter benefícios não merecidos. Uma vez que não há a responsabilidade sobre as escolhas, não há pleno uso da consciência pessoal ou de sua liberdade existencial. Demonstra a busca atual por uma conduta politicamente correta que esconde a superficialidade dos valores atuais. No pólo oposto, a produção discute a rigidez e severidade dos princípios, que esconde a fragilidade egóica e insegurança sobre as verdades referenciais para a vida. O visinho, exfuzileiro naval homofóbico e preconceituoso, controlador obsessivo de sua família e de suas posses, sistemático com sua conduta, revela-se ao fim do filme com desejos homossexuais. Arrependido por manifestar seu desejo com um beijo na boca do visinho - que acreditava ter assumido também sua homossexualidade – o assassina após a rejeição dele por este tipo de relação. Obviamente, seu segredo continuaria guardado a qualquer preço; aliás, com a morte do sujeito, morreria também sua perda de controle. Não há verdade nenhuma em tudo isso, está é a realidade. São formas elaboradas de mascarar a verdade. (...). O que temos são imagens de imagens. Simulacros e simulações, não mais o real. (...). A verdade torna-se elástica, atendendo a interesses. Assistimos TV não para ver, mas para não ver, ou seja, escolhemos a ilusão. Cada dia que passa estamos mais imersos nela.”. (IRNVIN, s/d, 36). De acordo com Giddens (1991), penso que o momento atual, para além da discussão se ainda Modernidade que soluciona sua crise ou se Pós-Modernidade pelo deslocamento dos fundamentos epistemológicos e da fé no progresso humano, caracteriza-se por uma profunda crise de valores para a humanidade. De fato, as conseqüências da Modernidade tornam-se mais e mais radicalizadas, as descontinuidades são preocupantes em sua velocidade e conseqüente dificuldade de interpretação. Paradoxalmente, a Modernidade cria sistemas seguros, gera tecnologias que em tese facilitariam a vida humana, mas, simultaneamente, oferece o perigo da má utilização da tecnologia, com desdobramentos degradantes ao ser humano, ao meio ambiente, ao uso do poder político. Ao invés de formar uma ordem social feliz e segura, a Modernidade gera a perda na crença do progresso. A falta de identidade gerada pela ausência de valores referenciais que possibilitem uma dinâmica autônoma de experiência, livre da alienação pelo consumo ou da heteronomia, é um grande mal estar da cultura da nossa época e, pior, é o próprio contexto da Modernidade. Gostando ou não da produção de Sam Mendes, algo fica muito claro: “Beleza Americana” é o retrato, o espelho do nosso tempo. Discute os principais temas e problemas práticos da vida cotidiana da pessoa comum, mas que nem sempre se está disposto a encarar. 170 A centralização heterogênea no próprio indivíduo, o fechamento do indivíduo ao outro, o culto ao corpo, perda de identidade e de valores, a falta de sentido de vida, o vazio existencial e o esvaziamento das relações interpessoais são a própria crise ética que é a base dos conflitos do mundo moderno. O desenho que “Beleza Americana” nos faz da atualidade denota a necessidade de ressignificar o mundo e superar o vazio humano, aponta a necessidade concreta e urgente da construção de referências orientadoras do projeto de vida para o nosso tempo, no que se refere às ações concretas, ou seja, à própria ética. A consciência da realidade a que esta obra nos convida é brutal e, inevitavelmente, leva à questão: como e onde buscar uma ética para os novos tempos? Deveras angustiante, uma vez que não me parece existirem respostas claras. Contudo, apenas a consciência dessa realidade, de perceber a humanidade como um exército de sonâmbulos robotizados, pode levar à compreensão e revalorização do humano (e de tudo que a ele se refere) no contexto tecnológico consumista e narcisista atual. Talvez, por menos, lembrar-se que entre tanta tecnologia, tanto conhecimento, tantas possibilidades de consumo, existe ainda um sujeito para onde isso tudo deve se convergir: o próprio Ser Humano. 171 Bibliografia Básica: BOFF, L. Ética e moral: a busca dos fundamentos. Petrópolis (RJ): Vozes, 2003. CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2004. DI MANNO, Danilo. Existência e Saúde. SBC: UMESP, 2002. DUPAS, Gilberto. Ética e poder na Sociedade da Informação. São Paulo: Unesp, 2001. GIDDENS, Antony. A Transformação da Intimidade: Sexualidade, Amor e Erotismo nas sociedades Modernas. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1993. ____. As Conseqüências da Modernidade São Paulo: UNESP, 1991. GALLO, S. (org). Ética e Cidadania: Caminhos da Filosofia. Campinas: Papirus, 2003. GIOVANETTI, José Paulo. Pós-Modernidade e o vazio existencial. In: DI MANNO, Danilo. Existência e Saúde. São Bernardo do Campo: UMESP, 2002 HOLANDA, Sérgio B. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia da Letras, 1995. MARDONES, José Maria. Adónde va la religión? Cristianismo y religión em nuestro tiempo. Santander: Editorial Sal Terrae, 1996. MENDES, Sam. Beleza Americana (American Beauty). EUA:1999. PINSK, J. e PINSKY, C. A história da cidadania. São Paulo: Contexto, 2003. VASQUEZ, A.S. Ética. São Paulo. Civilização Brasileira, 1975.