EDUCAÇÃO EM UNIÃO DA VITÓRIA: DO PROJETO PARA A ESCOLA PÚBLICA COMO DIREITO DE TODOS À ESCOLA NORMAL SECUNDÁRIA FORMANDO PROFESSORES STENTZLER, Márcia Marlene [email protected] Resumo Ao abordarmos a história da educação com enfoque na cultura regional, explicitamos aspectos sobre a organização da sociedade na região do vale do Iguaçu, particularmente, em União da Vitória. Para compreender tal desenvolvimento, faz-se necessário apontar alguns aspectos da história, povoamento, economia, política e lutas para garantia de interesses específicos locais, porém dialeticamente relacionados ao contexto nacional. A última década do século XIX e primeiras décadas do século XX foram marcadas por discussões em nível nacional acerca do papel da educação na formação do novo trabalhador que o capitalismo exigia para o contexto industrial nascente. Considerando o desenvolvimento da sociedade atrelado a fatores de ordem sócio/educacional, político/econômico, no âmbito local também a educação e cultura adquiriram nova configuração. Reunimos aqui informações, que permitem compreender como foi o processo na sociedade local em estreita relação às políticas educacionais em nível nacional e estadual. A educação da população apresentou-se, historicamente, vinculada a uma concepção de sociedade e de cultura, como parte do processo de manutenção da hegemonia pelas classes dominantes. A implantação da “Escola Pública” foi reivindicada em momentos distintos na história, culminando com o sentido atual, ao ser mantida e organizada pelo Estado, direcionada para transformação ou manutenção da ordem social. Mas, para executar esse ideal, foi necessário pensar em quem seria o professor, logo, sua formação também esteve atrelada aos ideais de transformação ou manutenção da ordem social vigente. Neste trabalho, reunimos e apresentamos informações, ainda que preliminares, sobre a conformação do projeto para a Educação Pública na região de União da Vitória, relacionado a uma breve discussão teórica sobre conceitos que possibilitaram essa efetivação. Abordamos aspectos referentes à instalação humana no Vale do Iguaçu, à Educação Pública, especialmente no século XX, sua gênese no município analisado e em 1949, a criação da Escola Normal Secundária de União da Vitória. Introdução Ao analisar aspectos da história da educação nas cidades “Gêmeas do Iguaçu”, (União da Vitória, no Paraná e Porto União, em Santa Catarina, após o Acordo de Limites em 1917), somos conduzidos, pelos fatos registrados por pessoas preocupadas em manter vivos aspectos 3318 particulares da organização social local. Consideramos para este estudo, ainda de forma incipiente, o desenvolvimento da sociedade em nível local mediada por atos legais municipais e do governo do Estado do Paraná que possibilitaram a efetivação da educação pública, assim como aspectos da organização desta sociedade, desde o início do século XX até a criação da Escola Normal Secundária, em 1949. Tendo como foco a história cultural Bloch (1976), defende que o historiador necessita circunscrever na imensa realidade o ponto particular de aplicação dos seus instrumentos, bem como, fazer escolha do problema de ação que o acompanhará ao longo do estudo. Com base em fontes primárias, com pesquisa documental e também bibliográfica, buscamos, neste estudo, compreender: Como se caracterizou a ocupação humana na região do Vale do Iguaçu? Como foi organizada a Escola Pública em União da Vitória no início do século XX? Qual o contexto que permitiu a criação Escola Normal Secundária? Bloch (1976, p.30), alerta a quem trabalha com dados históricos, a necessidade de considerar o tempo histórico, como a “ciência dos homens no tempo”, buscando nele a inteligibilidade dos fenômenos, pois, como tempo, apresenta-se contínuo e em perpétua mudança. Desta continuidade e ruptura “[...] procedem os grandes problemas da investigação histórica”. Investigar a organização escolar em União da Vitória requer compreensão da cultura e de aspectos específicos de organização da sociedade local no contexto histórico do período delimitado e co-relacionados ao contexto nacional. Miguel (1999, p.87), argumenta sobre a importância de se aprofundar pesquisas regionais, pois o território brasileiro, extenso, abriga diferentes culturas e com elas, conformações diferenciadas da educação, considerando-se também as condições e diversidade em que a legislação educacional foi aplicada. Um rio, um vau e o princípio da vila União da Vitória Riesemberg (1973, p.39), ao descrever sobre a instalação humana no vale do Iguaçu, busca os antecedentes históricos que favoreceram o povoamento e criação das vilas nesta região do Paraná. Cita que com a descoberta do “Campo dos Butiazeiros”, que passou a ser denominado de Palmas, e também do povoamento de Guarapuava, “[...] pensou-se em estabelecer uma povoação nas margens do Rio a fim de utilizá-lo como via de comunicação [...]” e também para o transporte do sal, necessário para os rebanhos criados nos campos. 3319 Em face dessas circunstâncias, deliberaram os fazendeiros de Palmas abrir uma estrada que os pusesse em comunicação direta e fácil com os mercados do sal. Com este objetivo, Pedro Siqueira Côrtes, em 1842, partindo de Porto Vitória, procurou um ponto em que o Iguaçu desse vau, indo encontrá-lo poucas léguas acima, onde surgiu, logo depois, o antigo Porto da União. (RIESEMBERG, 1973, p.40) Destaca ainda o autor citado que do Porto então criado, foram feitas picadas, uma ligando à Palmeira e outra à Palmas, caracterizando-se como o “[...] primeiro eixo de povoamento do vale [...] ao longo do mesmo, firmaram-se as primitivas posses de terra e constituíram-se os primeiros agrupamentos humanos.” Ao longo do Rio também foram registradas as posses, porém não garantiriam o povoamento, especialmente na margem esquerda pelo número reduzido de posses. No rio Iguaçu foi estabelecido um serviço de navegação por canoas, “[...] entre Porto da União e Caiacanga (Porto Amazonas), por meio do qual eram transportados os “gêneros”, para os fazendeiros”. Relata Riesemberg (1973, p.41), que em face da importância, “[...] daquela via de comunicação, em 1866, por determinação do Dr. André de Pádua Fleury, presidente da província do Paraná, os engenheiros Francisco e José Keller iniciaram a exploração do rio, visando à navegação a vapor.[...]”. O ano de 1882 foi marcado pelo início da navegação com o primeiro barco a vapor, de propriedade de Amazonas de Araújo Marcondes, denominado “O Cruzeiro”. Foi também por meio do rio Iguaçu que chegaram os primeiros colonizadores europeus ao vale, no final do século XIX. Com a navegação a vapor substituindo as pesadas e lentas canoas, apresentavam-se novas oportunidades de trabalho. Mostra Riesemberg (1973, p.54) que por sua “[...] especialização profissional, representariam um tipo tão curioso quanto o tropeiro.” Além desse aspecto, o desenvolvimento regional foi marcado pelo difícil acesso por terra, especialmente até Palmas, dificultando o deslocamento da produção. Silva apud Fagundes e Ribas (2002, p.22), descreve que no ano de 1860, União da Vitória gozava das regalias de ser um povoado com a “[...] primeira Capela de Nossa Senhora das Vitórias, em chão doado para a então paróquia de Palmas [...]” e em 1876, já existia no povoado cerca de duas dúzias de casas habitadas, na proximidade do Porto do Iguaçu. Em 1886, Visconde de Taunay realizou excursão pelo rio Iguaçu, fazendo o seguinte relato: “A nascente povoação do Porto de União da Vitória está sendo edificada à margem esquerda do Iguaçu [...]”. 3320 O desenvolvimento de União da Vitória dependia da economia extrativista da região com base na erva mate. Wachovicz (2001, p. 34) mostra que essa foi a expressão econômica das elites paranaenses, atingindo o auge no final do século XIX e início do século XX. Isto fez com que “[...] a economia da província dependesse de outras províncias, produzindo uma formação social tímida e voltada para si mesma, isolada dos centros decisórios do país e dependente deles [...]”. A vida da cidade de União da Vitória, até o início do século passado dependia do Rio Iguaçu; constituía-se na principal via de acesso das pessoas e de transporte da erva mate e madeira, em vapores até o Porto Amazonas. Em 04 de maio de 1890, relata Silva (2002), foi solenemente instalada a “Intendência Municipal da Vila de União da Vitória” e por muitos momentos em sua história a cidade foi palco de conflitos. O primeiro ocorreu final do século XIX, em 1893: [...] o movimento revolucionário que conturba os Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, muitíssimo sofre o município de União da Vitória. [...] o comércio paralisa totalmente; o sertanejo ganha as serras e assim escasseiam os produtos da lavoura; e, na localidade, ficam os lares também grandemente abandonados entre o furacão de ódios que cairia sobre as populações. (SILVA, 2002, p.70 -71) O ambiente de insegurança provocado pela guerra afetava toda população, interferindo no comércio e na rotina das famílias. Os contingentes militares atravessavam o Rio Iguaçu, em União da Vitória, em marcha para a batalha. O outro momento foi em conseqüência da luta armada do Contestado, que aconteceu entre 1914 e 1916, resultando no Acordo de Limites firmado em 20 de outubro de 1916, entre os Estados do Paraná e Santa Catarina, “[...] aprovado pela lei n. 1146, de seis de março de 1917” (SILVA, 2002, p.22). O principal legado deste Acordo para a população local foi a divisão da cidade, que passou a ser conhecida como Gêmeas do Iguaçu: União da Vitória, no Paraná e Porto União, em Santa Catarina. Também deixou suas marcas nas cidades Gêmeas, a Revolução de Outubro, que depôs o então Presidente Washington Luis. De acordo com Silva (2002, p.11), em apontamentos sobre a história de União da Vitória, nos anos de 1930 e 1932: 3321 [...] o primeiro da revolução de outubro que havia deposto o presidente Washington Luiz e o segundo, da revolta Paulista, não pude furtar-me a narrativa dos fatos que se desenrolam nas duas cidades que se defrontam – União da Vitória e Porto União – pois que, ambas, foram passagem das numerosas forças vindas do Sul em demanda do Norte e, por muitos dias, estiveram como se fosse uma só praça militar. A década seguinte, período pós-guerra, impulsionou União da Vitória ao crescimento. Desde 1906 contava com a ferrovia ligando São Paulo ao Rio Grande do Sul e na década de 40 ao Porto de São Francisco. Tornou-se local de referência, com o desenvolvimento econômico, indústrias madeireiras, frigoríficos, moinhos de trigo, entre outros. Também ganhava impulso a vida urbana, com cinemas, clubes, hotéis, comércio e empresa aérea que diariamente realizava vôos para outras cidades. Nesse período a educação em União da Vitória também cresceu, com investimento do Estado, houve a criação do Ginásio Estadual Túlio de França em 1945 e quatro anos mais tarde, em 1949, a criação da Escola Normal Secundária de União da Vitória, além de escolas primárias criadas pelo Município. Entendemos essa ampliação como parte de uma política nacional desenvolvimentista, implantada por Getúlio Vargas e, no Paraná adotada também por Manoel Ribas. O desenvolvimento do Paraná decorrente das políticas de migração e imigração dirigidas, plantio de café (norte) e pecuária (sudoeste) fizeram com que o governador seguinte, Moisés Lupion se tornasse conhecido como “semeador de escolas”, uma vez que as reivindicações da população pelos serviços sociais se fizeram ouvir. No âmbito municipal, tais políticas foram também adotadas pelos dirigentes por serem reivindicadas pela população. É sobre a organização da sociedade, em torno de um projeto para a escola pública, que se direciona a discussão a seguir. Início de escolarização e conformação de um projeto para a Escola Pública local Ao apresentarmos aspectos sobre a “escola pública” nos subsidiamos em estudos de Saviani (2005, p.2-4) para esclarecer como esta escola foi conceituada e compreender sua gênese e adequação na sociedade local, no contexto do final do império e nas primeiras décadas do século XX. Usamos como referência a acepção que o autor explicita como sendo a que prevaleceu por quase todo o século, sendo a escola “[...] organizada e mantida pelo estado, abrangendo todos os graus e ramos do ensino”. O autor descreve que o adjetivo “público” surge com a idéia de “ensino coletivo”, em oposição ao individual. Mas, foi no século XX que a escola pública que hoje conhecemos, 3322 passou a ser organizada e mantida pelo Estado, com o poder público ocupando-se de sua implantação, regulamentação, materiais pedagógicos, estrutura física, normas, processos seletivos e avaliações. A definição de escola pública assume determinados significados conforme o sentido da mesma na história e na região de União da Vitória assumiu características específicas, pois, a implantação esteve relacionada à cultura local, ao povoamento da região e condicionada a fatores relacionados ao desenvolvimento econômico. Na segunda metade do século XIX, apesar de haver poucas famílias residindo na vila de União da Vitória, foi organizada a primeira escola. De acordo com Silva (2002, p. 40-41) entre 1868 e 1876, havia a: [...] escola do mestre Raimundo Colaço, que foi o primeiro do povoado, era onde hoje está o Colégio Santos Anjos [...] dos alunos da Escola do Mestre Raimundo Colaço, o aluno mais velho era o Sr. Manuel Gaspar de Miranda, que ainda agora (1933), é vivo e reside no Distrito de S. João dos Pobres, onde tem exercido vários cargos púbicos de eleição e nomeação. Acredita-se que se tratava de uma escola de iniciativa privada, onde um professor ensinava os meninos do povoado, porém, o caráter público residia no sentido da mesma oportunizar ensino para quem desejasse que seus filhos aprendessem a ler, escrever e contar. Esta idéia remete aos escritos de Miguel (1999, p.92), quando argumenta que a “educação pública” no período imperial brasileiro não apresentava “[...] conotação de educação popular [...]” como meio para disseminar conhecimentos fundamentais imprescindíveis à formação do cidadão e para construir a nacionalidade. Entre 1877 e 1879, destaca Silva (2002, p.41), chegava a Porto União da Vitória o segundo Mestre-Escola, pois, “o mestre Raimundo Colaço, a esse tempo já havia sido substituído na escola primária, por Cipriano Mendes Sampaio, que lecionou a Domingos Pacífico e outros ‘piás’ da povoação.” Além dos acima citados Silva (2002, p.12), destaca ainda outros professores “[...] todos, na ânsia de mestre, difundindo o ensino primário aos filhos deste rincão bendito.” Em 31 de março de 1891, o Governador do Estado do Paraná, General José Cerqueira de Aguiar Lima, 3323 [...] aprovou o quadro do pessoal da Instrução Pública, creando, em União da Vitória, uma escola promiscua, que já vinha sendo regida pela professora D. Amélia Schleder de Araújo. [...] essa distinta professora ocupava o 5. lugar entre os professores que ensinavam as creanças em União da Vitória. (SILVA, 2002, p.64) A escola pública no Estado do Paraná e em União da Vitória, estava dando seus primeiros passos na direção da acepção que predominou no século XX. Miguel (1999, p. 91), relata que em 1884 “[...] a Província do Paraná publicou o regulamento que tornava o ensino obrigatório [...] dispunha sobre o arrolamento da população escolar [...] e previa as sanções penais aos quais não cumprissem a obrigatoriedade do ensino.” Enfatiza que a população paranaense, ainda não sentia a necessidade da escolarização, ou seja, a instituição escolar não era considerada como necessária. Em 1895, segundo Silva (2002, p. 73), o “[...] professor José Cleto da Silva, funda um colégio em União da Vitória: Internato e externato - nele sendo matriculados, além dos alunos aqui residentes, outros de Palmas, São Mateus, Ponta Grossa e alguns de Curitiba.” Em nível nacional com a imensa massa de analfabetos dos ofícios e das letras, a instrução foi tratada como um problema nacional e a população deveria ser “[...] vitalizada pela educação e pela higiene”. A idéia de progresso da nação vinculava-se ao preparo intelectual, logo conforme Carvalho (1989, p.26), “[...] não bastava ensinar: era preciso saber ensinar.[...]”. A difusão do ensino era prioridade naquele momento, em detrimento a qualidade. “[...] O sistema escolar era racionalizado de modo a conciliar a alegada exigüidade de recursos financeiros governamentais às metas democráticas de generalização dos benefícios escolares [...]”. (CARVALHO, 1989, p.42). A educação na Primeira República foi determinada por uma elite, com autoridade para promover as mudanças necessárias a fim de “regenerar” as massas brasileiras, tendo como conceito de educação integral a tríplice base: moral, higiênica e econômica, ou seja, concebia-se dar o mínimo de educação, por uma escola disciplinadora, com o currículo selecionado conforme a classe social, havendo preparo do professor de diferentes maneiras e para diferentes escolas, com diferentes clientelas. Dos Grupos Escolares à Escola Normal Secundária A escola passou a ser considerada o lugar que irradiava “luz” por meio do saber e os edifícios escolares deveriam simbolizar essa grandeza. A segunda década do século XX nas 3324 Gêmeas do Iguaçu foi marcada pelos encaminhamentos em relação à educação com base nesta concepção, tanto pela iniciativa pública quanto pela privada. Em União da Vitória, o primeiro Grupo Escolar foi construído pelo governo do Estado do Paraná em 1913. O “Grupo Escolar Professor Serapião” era o único estabelecimento público que oferecia ensino primário, tendo quatro salas de aula e uma pequena sala para administração. Com o Acordo de Limites, o prédio ficou do lado catarinense, onde passou a funcionar a “Escola Reunidas”. Ambos até os dias atuais existem, um na área central de Porto União, hoje denominado “Colégio Estadual Balduino Cardoso” e o outro “Escola Professor Serapião”, em prédio tombado como patrimônio histórico, junto à Praça Coronel Amazonas, região central de União da Vitória. No ano de 1917, iniciou-se atividades no educandário feminino mantido pela Ordem Religiosa das Servas do Espírito Santo. Fagundes e Ribas (2002, p.79), conforme apontamentos de Hermínio Millis descrevem que: “Fundado, quando este território estava ainda sob a jurisdição do Estado do Paraná, (1917), sob a denominação de Colégio ‘Santos Anjos’ e constituído de um curso primário com Jardim de Infância, esse estabelecimento [...] em 1929 era o Colégio com um Curso Normal equiparado [...]”. Mantido por uma ordem religiosa, o Colégio era tido como referência às famílias do interior de Santa Catarina e do Paraná, que nele buscavam educação para suas filhas. Por ser uma escola particular limitava o ingresso quem tivesse condições financeiras para os estudos. Outra escola vinculada a Igreja Católica teve início em 1932, quando Frei Clemente, pertencente a “Congregação dos Irmãos Pobres de São Francisco Saráfico”, decidiu organizar em Porto União a “Escola Paroquial São José”, com um curso de ensino primário, destinado à educação de meninos, funcionando inicialmente na residência do próprio Pároco. Sendo um estabelecimento de ensino primário bem conceituado “[...] pela sua equiparação ao ensino estadual e pouco depois, com a criação do curso Normal Primário (Escola Complementar), que também logrou a mesma equiparação, formando diversas turmas de alunos.” Segundo Fagundes e Ribas (2002, p.77), em 1938 foi transferido para um novo prédio edificado nas proximidades da igreja Matriz: 3325 Instalado num vistoso edifício de três andares, funcionam no térreo, dois amplos refeitórios, a cozinha, a dispensa, duas salas de recreio, sala de banhos e todas as instalações sanitárias. No pavimento imediato a esse, estão instaladas as salas de aula de 1. à 4. séries, os gabinetes de Física e Química, de História Natural, do Inspetor, do Diretor, da Secretaria, a sala de Geografia e Desenho e mais o gabinete Médico-Biométrico, a Biblioteca e as salas de Visitas e dos Professores. No 3. andar acham-se localizadas a Capela e sua respectiva Sacristia, três grandes dormitórios, (esses tidos à conta dos bem mais aparelhados, que se conhecem em todos os estabelecimentos congêneres do Estado), com 79 leitos, bem como Enfermaria e os dormitórios dos membros da Congregação. A escola pública também estava sendo organizada em Porto União, utilizando-se de edifício erguido pelo Governo do Paraná. Relatam Fagundes e Ribas (2002, p.80): Um ano depois de estar Porto União jurisdicionado à Unidade Catarinense (28 de setembro de 1918), criava o Governador Felippe Schmidt, aqui, as “Escolas Reunidas”, que foram instaladas no prédio, mandado construir pelo Governador do Estado do Paraná, (pouco antes do “Acordo de Limites”), para nele funcionar o Grupo Escolar Professor Serapião, daquele Estado. Em 1927, as Escolas Reunidas foram elevadas à categoria de Grupo Escolar, passando então a denominar-se “Grupo Escolar Professor Balduino Cardoso”. No ano seguinte, anexo ao Grupo, passou a funcionar o Curso Complementar. “[...] Tem esse Curso prestado bons serviços à mocidade estudiosa de Porto União, cujo número de alunos é, anualmente, bem elevado, tendo-se em vista os demais cursos, existentes não só nesta cidade, como na de União da Vitória.” (FAGUNDES e RIBAS, 2002, p.82). Em 1940, o referido Grupo deixou de funcionar no prédio acima mencionado, ganhando, por meio de investimento do Estado de Santa Catarina em pról do ensino primário, nova estrutura, com 854,25m2, conforme nota transcrita por Fagundes e Ribas (2002, p.82): É o prédio desse estabelecimento servido de várias e bem instaladas salas, numa das quais está a respectiva Biblioteca, com um acervo de 250 obras, dentre as quais, consultadas no decurso de 1943, 216. [...] O edifico está situado na zona urbana, numa colina, para leste da cidade, em terreno amplo e em condições recomendáveis pela sua natureza, topografia em vizinhança. [...] a escola possui um campo de Educação Física de 4.840 metros quadrados, que está em ótimo estado de conservação; além disso, existe uma pista, cuja área mede 1.310 metros quadrados, toda gramada ao centro, onde está instalado o pórtico de Educação Física. Um pouco acima está em construção do “Gymnasium” [...] dispondo de seis chuveiros e um quarto para guardar o material de esporte. A escola dispõe de uma piscina de natação de 14x8,50m [...] com água corrente. [...] 3326 Os investimentos em educação na vizinha cidade de Porto União foram significativos e no mesmo ano, em 14 de junho de 1940, o prefeito municipal de União da Vitória, Astolpho Macedo Souza, [...] usando dos poderes que lhe são conferidos pelo Decreto n.34 de 09 de abril do corrente ano, concerne ao Governo do Estado do Paraná, para o fim previsto no citado Decreto a presente carta de data, com uma área de cinco mil, seiscentos e noventa e sete metros quadrados [...] situada na Praça coronel Amazonas, desta cidade, de acordo com a planta elaborada pela sessão técnica da prefeitura. (UNIÃO DA VITÓRIA, 1940). Com o prédio já construído, o Interventor Federal no Paraná, Manoel Ribas, por meio do Decreto-Lei n.309 de 17 de fevereiro de 1945, cria na Diretoria geral da Educação dois Ginásios Estaduais: um com sede em Guarapuava e outro em União da Vitória. Em 1946, Portaria Ministerial concede equiparação a Ginásio Estadual de União da Vitória e no ano seguinte, passa a denominar-se Ginásio Estadual Túlio de França. A mesma estrutura física abrigou, inicialmente, o Ginásio Estadual Túlio de França com os Cursos Científico e Clássico; Escola Normal Secundária e Escola de Aplicação José de Anchieta. No ano 1953 o Colégio Estadual Túlio de França mudou-se para um novo prédio em lugar distante do centro, permanecendo a Escola Normal Secundária e a Escola de Aplicação no prédio da praça Coronel Amazonas. Somente em 1949 foi criada a Escola Normal Secundária em União da Vitória. Uma escola pública, que desde sua origem estava comprometida com a proposta de educação como projeto de construção da nacionalidade, adotando a prática racionalizadora, seguia métodos, técnicas, idéias educacionais renovadas com base na psicologia, biologia e sociologia. Estas características são apontadas por Miguel (1997), quando analisa a organização da escola de professores em Curitiba, mas podem ser observadas nesta escola, em estudo. A repercussão da criação da mesma junto à sociedade local foi grande e continua viva na memória de pessoas que participaram do Ato, no ano de 1949. Comunicou-se oficialmente o Ato de Criação da Escola Normal, por meio do Livro de Registro de Editais da Prefeitura Municipal de União da Vitória: 3327 Encontra-se nesta cidade em missão oficial do governo do Estado, o Exmo. Sr. Prof. Dr. Fernando Corrêa Azevedo, Diretor do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação, o qual presidirá a inauguração solene, sábado próximo, dia 12, da Escola Normal Secundária, anexa ao Colégio Estadual Túlio de França. (UNIAO DA VITÓRIA, 1949, p.25). Pelo que representou para a cidade e região, o referido evento foi divulgado e transmitido ao vivo pela Rádio União, tendo matéria no jornal “O Comércio” na primeira edição que circulou após o fato. Na Ata de criação, pode-se constatar o empenho do representante do Governo em relação à formação de professores e o compromisso educacional das normalistas para o desenvolvimento nacional, como professoras do ensino primário: “[...] Ministrando a aula inaugural, o Senhor Professor Fernando Correia de Azevedo, com a erudição que lhe é peculiar, discorreu sobre o tema: Origens e formação da Língua Portuguesa”, sendo, ao terminar, muito aplaudido [...]”. (ESCOLA NORMAL SECUNDÁRIA, 1949, p.2). Necessitamos considerar que nesta região havia várias colônias de imigrantes, cujas escolas haviam sido fechadas há mais de uma década. O analfabetismo apresentava-se também, como um fator de grande preocupação, sendo que, durante a catalogação de materiais, pode-se constatar que em grande parte das edições de jornais da década de 40 e 50 havia apelos para sensibilizar a população leitora no sentido de ser um alfabetizador. O analfabetismo no período era considerado o grande mal da sociedade, sendo as normalistas as principais responsáveis por atuarem junto à comunidade e trabalharem pela alfabetização, como se pode constatar na Ata de Colação de Grau da Escola Professora Amazília (1958, p.1) em discurso da oradora da turma: “[...] aluna Ligia Grunner em palavras coloridas proferiu brilhante oração, dizendo da finalidade da alfabetização do povo brasileiro e que essa missão está ao encargo das professoras.[...]” A escola caracterizava-se como uma escola altamente seletiva, tendo exame de admissão e cuja preparação exigia um “cursinho” específico. Nas atas dos exames, compreendendo o período de 1949 a 1970, é possível verificar o extremo cuidado nas referidas provas, sendo que o exame “[...] vestibular nos dias 13, 14, 15 e 16 de março de 1949”, para a primeira turma a ingressar na Escola Normal Secundária de União da Vitória, foi nas disciplinas de: Português, Matemática, Anatomia e História, nas modalidades oral e escrita. (ESCOLA NORMAL SECUNDÁRIA, 1949, s.p.) 3328 Esta escola permaneceu como Escola Normal até a implantação da Lei n. 5692/71. No ano de 1955, passou a denominar-se “Escola Normal Secundária Professora Amazília” e em 1969, “Escola Normal Colegial Professora Amazília”. A mudança de nome foi em homenagem à primeira professora normalista que veio residir no ano de 1904 em União da Vitória, aos dezenove anos, com a mãe, a avó materna, seus três irmãos menores, uma prima e uma tia. Havia concluído a Escola Normal no ano de 1903, na Escola Normal Secundária de Curitiba e atuou durante toda sua vida no ensino público em União da Vitória. Em entrevista, a Professora Rosa Maia Filha, ex-aluna, professora e diretora da Escola Normal, fala sobre sua experiência naquela Escola: [...] foi uma escola que cumpriu com o objetivo [...] que era formar professores da 1º à 4º série [...] foi uma escola que, formou para a vida, porque não se preocupava [...] que a gente fosse para outro ensino, imediatamente superior [...] não se preocupava com isso [...] Se preocupava em formar o professor primário. (MAIA FILHA, 2009) Miguel (2005, p.318), descreve que o educador “[...] era preparado para exercer seu trabalho como agente do progresso social, ou seja, alfabetizador, mediador da cultura geral mais elaborada, líder comunitário e formador do melhor trabalhador rural [...]”. Logo, atuar como professor exigia ser um pesquisador e profundo conhecedor da realidade de seu aluno, bem como suas possibilidades de desenvolvimento e aprendizagem. A autora mostra que esta concepção exigia a organização do currículo com disciplinas que contribuíssem para a “[...] formação básica e científica dos futuros mestres. [...]”. Em União da Vitória seguiu-se orientação semelhante, pois, no ano seguinte à criação da Escola Normal Secundária, iniciou-se a “Escola de Aplicação José de Anchieta”, onde as normalistas realizavam seus estágios e tinham atuação constante na elaboração de materiais, certificados de honra ao mérito e atividades diversas para as crianças que lá estudavam. Organizava-se, assim, a sociedade local, para proporcionar, por meio da “Escola Pública” e das normalistas, a educação para o povo. Nos livros de registros de exames da referida escola, estão preservados todos os registros, desde a pré-escola à quarta série, de 1950 até a década de 70, constando ao lado do nome de cada aluno a categoria em que foi aprovado: “Com distinção, plenamente ou simplesmente”, ou reprovado. Constatou-se que havia um alto índice de reprovações em todas as séries. 3329 Considerações finais É gratificante reunir e tornar conhecidas essas informações. Neste texto, discutiram-se aspectos da história da sociedade de União da Vitória, na região do “vale do Iguaçu”, como assim denomina Alvir Riesemberg (1973) em seus escritos. Considera-se uma tarefa de muita responsabilidade organizar e apresentar esses dados, analisados, ainda superficialmente sob a luz teórica de pesquisadores; ao mesmo tempo é gratificante, por desvelar como foi conformada a educação pelas pessoas que viveram nesta região do Paraná. As especificidades da cultura local permitem compreender mais detalhadamente o desenvolvimento desta região atrelada a um contexto nacional e internacional. Também a escola pública foi organizada conforme as potencialidades e limitações oriundas da organização da sociedade no âmbito local e nacional, sendo o grupo escolar o principal local onde a escolarização primária era efetivada. A Escola Normal Secundária foi muito respeitada e valorizada pela comunidade e até os dias atuais, apesar de não mais existir como tal, encontra-se viva na memória das professoras que lá tiveram sua formação ou que atuaram. Por meio desta reflexão, direcionamos um olhar mais apurado sobre a história da educação local. Mas, ainda se faz necessário outras reflexões que nos possibilitem estabelecer relações minuciosas para compreender este projeto para a Escola Pública no âmbito sócio/educacional, político/econômico e como construção cultural da população. Também, temos consciência que mesmo incorrendo em imprecisões, não podemos nos furtar à responsabilidade de tornar conhecida esta história que faz parte do desenvolvimento do Estado do Paraná. REFERÊNCIAS BLOCH, Marc. Introdução à história. Lisboa: Publicações Europa-América, 1976. CARVALHO, Marta Maria Chagas de. A escola e a república. São Paulo: Brasiliense, 1989. ESCOLA NORMAL SECUNDÁRIA. Ata de instalação da Escola Normal Secundária. In: Atas de exames vestibulares – Escola Normal Secundária. União da Vitória, 1949. p.1-4 ESCOLA PROFESSORA AMAZÍLIA. Ata de Colação de Grau, 1958. União da Vitória, 1958. 3330 FAGUNDES, José; RIBAS, Joaquim Osório. Monografia de Porto União: Hermínio Millis. Palmas: Kaygangue, 2002. (Coleção Vale do Iguaçu) MAIA FILHA, Rosa. Entrevista concedida: 04 de abr. de 2009. União da Vitória, Paraná. MIGUEL, Maria Elisabeth Blank. A formação do professor e a organização social do trabalho. Curitiba: Editora da UFPR, 1997. _____. 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