A ANIMAÇÃO EDUCATIVA COMO DISPOSITIVO DE FORMAÇÃO QUE PERMITE APRENDER A SENTIR E VER PARA ALÉM DA SUPERFICIALIDADE Maria José dos Santos Cunha A educação não pode resumir-se à instrução, tem de favorecer a análise, a síntese e a mudança dos comportamentos dos cidadãos. A escola deve ser por isso local de formação, reflexão e contribuição para o desenvolvimento da pessoa, sendo o papel do educador/professor fundamental nessa aprendizagem. À partida, o sucesso de um profissional de educação com os seus formandos não é inferior ao de outro, mas depende em muito do processo de formação inicial desenvolvido e a forma como este o ajudou a assumir a dimensão cívica e formativa das suas futuras funções e inerentes exigências éticas. Dele dependendo também a capacidade que o profissional tem para conquistar o saber, ir à luta e lidar com crianças e jovens. Foi a vontade de contribuir para que o futuro formador encontre na formação o seu sentido de vida, ajudando-o a que se sinta motivado, a gostar do que faz para que possa ajudar a despertar no educando o gosto pelo saber, que nos deu estímulo para investigar a Animação, nomeadamente a Educativa como dispositivo capaz de mobilizar o educador/professor para alcançar educação e formação através de práticas impulsionadoras do seu processo de desenvolvimento pessoal e social. Introdução A educação não pode resumir-se à instrução, tem de favorecer a análise, a síntese e a mudança dos comportamentos dos cidadãos, razões que justificam a necessidade dos profissionais de educação se sentirem cada vez mais capacitados para facultar às crianças e jovens condições propícias a esse desenvolvimento. A escola deve, por sua vez, ser espaço de convivência, reciprocidade e solidariedade, local de formação, reflexão e contribuição para o desenvolvimento da pessoa, local onde se crie uma dinâmica de bem-estar para todos, onde conhecer e compreender o que nos cerca se traduza em oportunidade para participar activamente na construção de um mundo melhor, mais fraterno e tolerante. Espaço onde se possa escutar o outro, dialogar, ter confiança e onde os profissionais de educação concedam a todos os educandos a oportunidade de viverem experiências educativas que lhes proporcionem aprendizagens significativas. Nesta aprendizagem, o papel do educador/professor é fundamental, daí a necessidade de lhe proporcionar na formação inicial, práticas educativas capazes de despertar nele motivações fortes e apelativas que levem a que se envolva, as siga e multiplique. Ao Ensino Superior compete formar profissionais capazes de actuar como cidadãos responsáveis, competentes e comprometidos com o desenvolvimento social, missão que não é compatível com os princípios do ensino tradicional, que centra a sua atenção no professor como transmissor de conhecimentos e valores que os seus alunos reproduzem de forma acrítica e 147 descontextualizada da prática. Porém, a formação dos cidadãos que a sociedade actual necessita só se tornará possível a partir de uma nova concepção do professor como pessoa, que acompanha o aluno no processo de construção de conhecimentos, atitudes e valores. Foi a vontade de contribuir para que o futuro formador se sinta motivado, goste do que faz, para assim poder assumir as suas novas funções que se expressam: na sua condição de gestor de informação; guia do processo de aprendizagem dos seus alunos; na sua actuação como modelo e no ajudar a despertar nos seus educandos o gosto pelo saber, encontrando desta forma na formação o seu sentido de vida, que nos deu estímulo para investigar a Animação, especificamente a Educativa, como dispositivo capaz de mobilizar o educador/professor para alcançar educação e formação através de práticas impulsionadoras do seu processo de desenvolvimento pessoal e social. Práticas que ao contribuírem para melhorar a sua forma de ser, sentir e agir, permitem que se utilize com os educandos a linguagem dos afectos e estabeleça com eles “uma relação em que o professor se entrega, se esquece de si e apaga; se disponibiliza e é solícito; se abre e dá ao amor, à amizade, à estima que dedica aos seus alunos” (Estrela, 1997: 171), em síntese, práticas que o predispõem a ter uma outra visão das coisas. A Animação Educativa como reforço do processo de sociabilização A Animação Educativa combina caracteres gerais da Animação com caracteres que têm a ver com a Acção Educativa, podendo esta sua característica ser considerada estratégia de intervenção favorecedora do desenvolvimento de aspectos da personalidade humana. Aprendizagem colectiva e, por conseguinte, mais motivadora do que a individual, a sua prática possibilita assimilar mais facilmente os conteúdos, explorar e questionar, o que a torna uma preciosa ajuda na melhoria das aprendizagens, na medida em que permite situações de descoberta através da partilha e do experimentar, para além de favorecer uma miríade de vivências determinantes para que os jovens assumam novas atitudes e comportamentos. Quando aliada ao teatro e seguindo uma metodologia em que o que mais importa é o processo criativo e não tanto o produto (espectáculo), a animação torna-se num veículo excelente para exercitar o relacionamento entre crianças, jovens e entre estes e os adultos, enriquecendo a sua formação. Processo este, que incentiva a transformar as dificuldades que surgem em novas oportunidades de aprendizagem e conduz ao estabelecimento de relações sociais e educativas, através da vivência, partilha de ideias e sentimentos, permitindo que se desenvolvam experiências que envolvem a mente, o corpo, a criatividade e a imaginação, essenciais para que se compreendam as pessoas e o mundo. Esta promoção dinâmica da Animação Educativa através de Práticas 148 Teatrais (recurso privilegiado de intervenção), que permite aos implicados no processo colocarem-se na pele do outro, inventarem uma vida e descobrirem novos gestos, traduz-se em transformações importantes. Assim, quando desenvolvida num contexto de formação inicial de formadores permite que se promova a amizade, o respeito mútuo, a colaboração, ao mesmo tempo que proporciona aos formandos amplas possibilidades de criatividade, liberdade e situações de descoberta, determinantes no assumirem novas atitudes, comportamentos e reforço da sua auto-estima. Desenvolve, segundo Cunha (2004a: 31), “competências de trabalho em grupo, estimula o conhecimento do próprio na relação com os outros, promove o reconhecimento, a confiança e a valorização do outro, a comunicação num espírito de interajuda e de mútuo apoio”. Contribui, de igual forma, para que os formandos se tornem mais activos, actores da própria aprendizagem e pesquisadores do saber interactivo. Capacidades que contribuem para o seu crescimento como pessoas, que enriquecem a sua prática pedagógica e os capacitam para a educação dos seus alunos, dado que à partida o sucesso de um profissional de educação com os seus formandos não é inferior ao de outro, mas depende em muito do processo de formação inicial desenvolvido e a forma como este o ajudou a assumir a dimensão cívica e formativa das suas futuras funções e inerentes exigências éticas. Dele dependendo também a capacidade do profissional para conquistar o saber, ir à luta e lidar com crianças e jovens. São estas potencialidades, resultantes da relação animação e teatro que possibilitam aos futuros educadores, para além de muitas outras coisas, o terem a capacidade de falar com os seus educandos uma linguagem que eles entendem e tornarem as aulas em espaços que os atraem, que nos levaram a assumir a animação como fundamental no reforço do processo de sociabilização dos futuros educadores/professores. A Animação Educativa como dispositivo novo de formação O estabelecimento de novas formas de relação com o saber e de estruturação da personalidade, onde o que conta é o grau de envolvimento, o tempo de autonomia e responsabilidade partilhada, é um processo de aprendizagem que requer estratégias de acção educativa. Nos dias que correm a realidade interna dos adolescentes tem muito a ver com a realidade externa que vivem no dia-a-dia. A ausência de ideais e perspectivas para o futuro fá-los sentir vítimas de injustiça e incompreensão, leva-os à descrença, ao desencanto e arrasta muitos deles para perigosas alternativas, do que decorre a dificuldade em promover aprendizagens para que se tornem bons cidadãos. Neste cenário, na opinião de Barbosa (2000: 354), “a educação para a cidadania não pode ser a ‘fabricação’ de indivíduos socialmente preparados para assumirem 149 mecanicamente as normas, regras e valores da sua comunidade”, bem pelo contrário, em nosso entender, há que ter presente que esta é uma tarefa exigente e de enorme responsabilidade. Ressalta do que foi dito, a necessidade e pertinência de repensar práticas que se constituam como facilitadoras de desenvolvimento pessoal e social, uma vez que “é através de movimentos educativos capazes de provocar mudança que se garante e estimula a iniciativa e a participação activa” (Cunha, 2000: 60) de todos no seu próprio processo de desenvolvimento. Foi o forte desejo de poder contribuir para que isso aconteça que nos levou a investigar a animação educativa, aliada a práticas teatrais, como terreno de aprendizagem capaz de mobilizar os futuros profissionais de educação para uma resposta educativa. Da simbiose, animação com práticas teatrais, não resulta uma mistura, mas sim uma complementaridade que entre elas se estabelece. Relação dual, que no início dos anos setenta deu lugar “a uma experiência pioneira dirigida por Franco Passatore nas escolas de Turim” (Ventosa, 2004: 91), com vista ao desenvolvimento de acções orientadas no sentido da melhoria da escola, embora tais experiências se centrassem nessa época mais no teatro do que na animação. Relação que foi por nós utilizada com a intenção de podermos oferecer aos futuros formadores melhores condições de desenvolvimento pessoal e social no processo de aprender a ser e estar, nos seus espaços de relação/actuação/formação e meios conducentes ao desenvolvimento de determinadas competências e a um efectivo desempenho profissional (entendido este não só como conjunto de conhecimentos e destrezas, mas também de comportamentos, atitudes e valores). A investigação levada a cabo através da implementação de uma oficina de teatro possibilitou a aprendizagem de uma série de destrezas e competências e permitiu-nos concluir que a animação aliada a práticas teatrais pode, de facto, melhorar a forma de ser, sentir e agir dos futuros formadores, levando-os a encarar os seus formandos de forma diferente. Havendo, pelos motivos apontados que fazem com que se sintam e vejam as coisas para além da superficialidade, todo o interesse em mobilizar consciências no sentido de a legitimar como um novo dispositivo educativo, com capacidade para avançar no sentido da melhoria da formação inicial de formadores e, desta forma, encurtar o caminho a percorrer na promoção de um maior sucesso educativo. Novos espaços ao serviço da educação/formação Levar a cabo actividades propícias à experimentação e desenvolvimento humano de determinadas competências, requer espaços favoráveis a esse desenvolvimento. Espaços onde se possa criar um ambiente de respeito e aceitação mútua, propício ao desafio para os benefícios do trabalho em equipa, à negociação, à discordância, ao levantamento de questões e à formulação 150 de hipóteses, para que o jogo nesses espaços seja possível, neles se possa compartilhar o gosto pelas práticas que aí se desenvolvem e atraiam pelas vivências que facultam. Requisitos que a oficina de teatro e a teatroteca permitem, desde que: se verifique formação científica e pedagógica por parte de quem transmite a formação; os recursos que se utilizam sejam de qualidade; haja tempo para programar, prever, seleccionar, organizar, favorecer a exploração e a descoberta. Só então, estes espaços se transformam em espaços privilegiados para que a expressão surja como uma dialéctica equilibrada entre a criatividade e a técnica, o jogo possa ser utilizado como suporte de uma atitude activa e dinâmica e a formação neles levada a cabo “propicie uma relação estreita entre o formador e a sua realidade experimental, os formandos; conduza a uma formação interactiva, consideradas as perspectivas cognitiva, social e humanista e se traduza em resultados significativamente satisfatórios” (Cunha, 2004b: 132). São todas estas razões que justificam o contributo significativo destes espaços para uma intervenção eficaz na formação de futuros formadores e, por conseguinte, na educação. 151 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARBOSA, M. (2000). A formação de professores face às novas prioridades da escola. Inventário de competências para promover a aprendizagem da cidadania. Revista GalegoPortuguesa de psicologia e educación, 4, 352-358. CUNHA, M. J. S. (2000). 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