PATRÍCIA DOS SANTOS AS MANCHETES SENSACIONAIS E O INFOTENIMENTO: UMA ANÁLISE DO JORNAL MEIA HORA Viçosa – MG Curso de Comunicação Social/ Jornalismo da UFV 2013 PATRÍCIA DOS SANTOS AS MANCHETES SENSACIONAIS E O INFOTENIMENTO: UMA ANÁLISE DO JORNAL MEIA HORA Monografia apresentada ao Curso de Comunicação da Social/ Jornalismo Universidade Federal de Viçosa, como requesito parcial para obtenção do título de Bacharel em Jornalismo. Orientadora: Profa. Laene Mucci Daniel. Viçosa – MG Curso de Comunicação Social/ Jornalismo da UFV 2013 Universidade Federal de Viçosa Departamento de Comunicação Social Curso de Comunicação Social/ Jornalismo Monografia intitulada As manchetes sensacionais e o infotenimento: Uma análise do jornal Meia Hora, de autoria da estudante Patrícia dos Santos, aprovada pela banca examinadora constituída pelos seguintes professores: ______________________________________________________ Profa. Ms. Laene Mucci Daniel Curso de Comunicação Social/ Jornalismo da UFV ______________________________________________________ Profa. Ms. Mariana Lopes Bretas Curso de Comunicação Social/ Jornalismo da UFV ______________________________________________________ Profa. Dra. Mariana Procópio Ramalho Xavier Curso de Comunicação Social/ Jornalismo da UFV Viçosa, 10 de abril de 2013 AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente aos meus pais, por todo amor e apoio que eles dedicaram a mim na minha decisão de cursar jornalismo na UFV. Agradeço também às minhas irmãs, que sempre estiveram ao meu lado, mesmo que distantes, com palavras de carinho e de força nos momentos mais difíceis da minha graduação. À minha avó, por ser um exemplo de vida para mim e por ter sempre acreditado no meu potencial, me incentivando a ser uma pessoa cada vez melhor. Aos amigos que fiz em Viçosa, por terem me proporcionado grandes alegrias e momentos inesquecíveis nesta jornada. À professora Laene Mucci, pelas orientações e pelos ótimos conselhos. Aos demais professores, pela minha graduação. Enfim, a todos que contribuíram durante estes quatro anos na minha formação pessoal e profissional. Obrigada! RESUMO O jornalismo de infotenimento se tornou uma das grandes tendências da atualidade graças às mudanças sociais e tecnológicas pelas quais o mundo passou. Atualmente, ele pode ser observado em diversos meios de comunicação, inclusive o impresso. Para exemplificar suas características e formas, escolhemos o jornal carioca Meia Hora como o objeto de estudo desta pesquisa, demonstrando a presença do infotenimento nas capas e manchetes sensacionais de um jornal popular. Assim, também apresentamos como o jornalismo infotenimento pode estar ligado ao jornalismo popular impresso, voltado para as classes C e D, e como ele pode influenciar este público, especificamente. Para atingir tais objetivos, foram feitas tabelas que analisam qualitativamente e quantitativamente as características do Meia Hora, a partir de bases teóricas que conceituam o infotenimento e o jornalismo popular. PALAVRAS-CHAVE: jornalismo de infotenimento; jornalismo popular; impresso; manchetes; humor; sensacionalismo. ABSTRACT The infotainment journalism has become one of today’s major trends thanks to the social and technological changes the world has passed through. Currently it can be seen in many media outlets, including newspaper press. To illustrate its features and shapes, Rio’s newspaper Meia Hora was chosen as the object of this research, demonstrating the presence of infotainment and sensational headlines on the covers of a popular newspaper. Thus, we also present how infotainment journalism can be connected to the popular printed journalism, facing the social classes C and D, and how it can influence this audience specifically. To achieve these objectives, charts were made to analyze qualitatively and quantitatively the characteristics of Meia Hora, using theoretical bases to conceptualize popular infotainment and journalism. KEY-WORDS: infotainment journalism; popular journalism; newspaper; headlines; humor; tabloid press. LISTA DE ILUSTRAÇÕES FIGURAS 1 e 2: Capas dos dias 17/01/2013 e 07/01/2013, página 25 FIGURAS 3 e 4: Capas dos dias 28/10/2008 e 28/07/2010, página 27 FIGURAS 5 e 6: Capas dos dias 19/08/2010 e 20/08/2010, página 28 FIGURA 7: Capa do dia 12/05/2010, página 29 FIGURA 8: Capa do dia 11/01/2013, página 30 FIGURA 9: Ilustração da Zona Óptica Primária, página 31 FIGURA 10: Comentários no Facebook, página 33 FIGURA 11: Capa do dia 15/01/2013, página 35 FIGURA 12: Capa do dia 12/01/2013, página 38 FIGURA 13: Capa do dia 18/01/2013, página 40 FIGURA 14: Capa do dia 03/01/2013, página 42 FIGURAS 15 e 16: Capas dos dias 05/01/2013 e 20/01/2013, página 44 FIGURA 17: Capa do dia 26/01/2013, página 47 FIGURAS 18 e 19: Capas dos dias 04/01/2013 e 28/01/2013, página 51 LISTA DE TABELAS TABELA 1: Disposição dos elementos na capa, página 36 TABELA 2: Tamanho da manchete, página 38 TABELA 3: Valores-notícia do jornalismo popular, página 41 TABELA 4: Capacidade de entretenimento, página 43 TABELA 5: Critérios de presença de entretenimento na manchete, página 46 TABELA 6: Natureza da manchete, página 48 TABELA 7: Conteúdo de infotenimento, página 50 SUMÁRIO INTRODUÇÃO………………………………………………………………………...... 8 CAPÍTULO 1: O ENTRETENIMENTO NO JORNALISMO..................................... 11 1.1 – A imprensa popular e o jornalismo de infotenimento................................................. 15 1.2 – Histórico do jornalismo de infotenimento................................................................... 18 1.3 – O jornalismo de infotenimento no Brasil.................................................................... 21 CAPÍTULO 2: O JORNAL MEIA HORA.................................................................... 23 2.1 – As capas do jornal Meia Hora.................................................................................... 27 CAPÍTULO 3: CLASSIFICANDO AS CAPAS E AS MANCHETES DO MEIA HORA................................................................................................................................. 32 3.1 – Classificação quanto à disposição dos elementos na capa......................................... 36 3.2 – Classificação quanto ao tamanho das manchetes....................................................... 37 3.3 – Classificação das manchetes pelos valores-notícia do jornalismo popular................ 39 3.4 – Classificação por capacidade de entretenimento da manchete.................................. 42 3.5 – Classificação pela presença do entretenimento nas manchetes.................................. 45 3.6 – Classificação quanto à natureza da manchete............................................................ 47 3.7 – Classificação pelo conteúdo de infotenimento apresentado nas manchetes.............. 49 CONSIDERAÇÕES FINAIS........................................................................................... 53 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS........................................................................... 59 INTRODUÇÃO Não há como ignorar as mudanças pelas quais a sociedade passou, principalmente nos últimos anos, afetando diretamente os hábitos e o modo de viver das pessoas. Atualmente, observa-se que os meios de adquirir informação e diversão podem estar mais interligados do que nunca, pois o entretenimento se tornou um dos principais recursos para atrair o olhar do público no jornalismo. Por isso, analisar e discutir de que forma essas novas tendências vão se assumindo na mídia é essencial para ver os rumos que o jornalismo, brasileiro e mundial, está tomando. Deste modo, escolhemos um jornal impresso e diário, extremamente popular e originário da cidade do Rio de Janeiro, como o objeto de estudo deste trabalho, o jornal Meia Hora. Neste trabalho, partimos do pressuposto de que o Meia Hora pratica o jornalismo popular em suas publicações diárias e procuramos confirmar a hipótese de que há neste veículo características do jornalismo de infotenimento (informação + entretenimento), comprovando a tendência da mídia atual. A idéia é observar também como as características do entretenimento, que estão conquistando cada vez mais espaço nos meios de comunicação, podem ser englobadas em um jornal, sem com que ele perca a sua raiz principal: a de informar e de prestar serviço à população, no caso, carioca. Para isso, utilizamos de bases teóricas que dão embasamento aos argumentos utilizados nas análises e nas considerações finais. Algumas dessas bases são de autoria da Márcia Franz Amaral, que explica os conceitos e caminhos para o jornalismo popular, da autora Fabia Angélica Dejavite, que fala sobre o surgimento e a consolidação do jornalismo de infotenimento na mídia, identificando suas especialidades, e do autor Danilo Angrimani, que especifica o que é o sensacionalismo e como ele pode atuar no jornalismo impresso e diário. Além dessas bases teóricas, também foram utilizados os conhecimentos dos autores José Ferreira Júnior e Antonio Celso Collaro sobre os métodos de diagramação das capas de jornal e o modo como isto pode influenciar na visão que leitor terá do veículo de comunicação. Nas análises deste trabalho, foram utilizadas as manchetes principais das capas do Meia Hora do mês de janeiro, ou seja, do período de 01/01/2013 a 31/01/2013. Em cada uma dessas capas, foi observada, portanto, a manchete principal, que teria o maior poder de atração do olhar dos leitores e o maior grau de importância quanto ao conteúdo; e como essas manchetes se encaixam nos conceitos que foram apresentados sobre o jornalismo popular, o 8 jornalismo de infotenimento, sobre a diagramação das capas, e até mesmo, sobre a natureza do conteúdo das manchetes, o qual diz sobre a intenção delas (ser séria ou fazer rir). A partir daí, procuramos mostrar de que forma essas características são trabalhadas para chamar a atenção do público, a fim de garantir as vendas e a sobrevivência do veículo no mercado, e como elas podem influenciar o cotidiano e a qualidade de vida dos seus leitores. Todas as análises foram feitas a partir de tabelas realizadas no programa Excel, que incluem a descrição da manchete analisada, as categorias nas quais ela se encaixa e o total do número de manchetes observadas. Essas tabelas estão disponíveis somente em formato digital no CD-ROM incluso no trabalho, juntamente com as capas em PDF, devido à sua dificuldade de impressão. Os resultados obtidos a partir dessas tabelas foram colocados no decorrer do capítulo 3. Além das análises, traçamos também um histórico do entretenimento no jornalismo mundial e brasileiro para mostrar que desde o início da prática jornalística, esse gênero se fez presente de diversas formas. Atualmente, ele se assume como um dos mais importantes gêneros no jornalismo em geral, isto é, de todos os meios (impresso, audiovisual, digital). Também contextualizamos o início do jornal Meia Hora no mercado, as questões que envolveram o seu surgimento e, até mesmo, a conquista do seu sucesso no Rio de Janeiro, apresentando quais medidas foram tomadas para manter o jornal funcionando e atraindo cada vez mais público. Um importante passo nesta pesquisa foi a realização de uma entrevista com o atual editor-chefe do jornal Meia Hora, Humberto Tziolas, que, desde o início do jornal, esteve presente na redação, assumindo diversos cargos desde então. A partir desta entrevista, foi possível extrair informações valiosas sobre as intenções do veículo e suas opiniões quanto à prática de um jornalismo popular e de um jornalismo de infotenimento. Assim, abordamos assuntos como a importância da utilização do humor e do sensacionalismo nas manchetes, o processo criativo diário das capas do jornal e os objetivos mercadológicos por trás de todas essas decisões, que acabam por influenciar a política editorial do jornal. Através dessa entrevista, tivemos a oportunidade de responder muitas questões sobre o posicionamento do jornal em relação às suas práticas, esclarecendo dúvidas e enriquecendo a pesquisa. Em grande parte das análises, as informações passadas pelo editor foram utilizadas, complementando e, às vezes, contradizendo os resultados obtidos quantitativamente pelas tabelas. Isso foi importante, pois mostra a contradição do que o próprio jornal deseja e tem como ideais e como ele age na prática. 9 Durante este trabalho, também foi possível observar como o jornal acredita estar influenciando os seus leitores, em seus hábitos e em seus conhecimentos, e como ele imagina estar fazendo diferença na sociedade em que está inserido, no caso, a cidade do Rio de Janeiro. Através destas opiniões e das análises, foi possível tirar conclusões que irão nos dizer sobre os desejos do jornal Meia Hora (se apresentar ao público como um jornal de qualidade e credibilidade ou como um jornal voltado, principalmente, ao entretenimento e diversão) e sobre o que é o jornalismo de infotenimento na prática, traçando o objetivo principal deste trabalho, que é mostrar, em um veículo impresso de grande circulação, como o infotenimento pode aparecer na parte mais importante de um jornal: a manchete de capa. 10 CAPÍTULO 1 O entretenimento no jornalismo O surgimento do entretenimento no jornalismo está intimamente relacionado com o início do sensacionalismo. De acordo com Angrimani (1995), os primeiros registros de notícias sensacionais, que traziam fait divers1 com histórias fantásticas e fatos curiosos que agradavam a todos, surgiram entre 1560 e 1631 na França, em jornais como o Nouvelles Ordinaires e o Gazette de France. Também há registros de notícias sensacionalistas no primeiro jornal dos Estados Unidos, o Publick Occurrences, em 1690. Este jornal, que só teve apenas uma edição, trazia termos coloquiais em suas matérias e, algumas vezes, uma cascata, que significa uma história inventada usada para preencher jornal (ANGRIMANI, 1995). Mas foi a partir do final do século XIX que o gênero sensacionalista conquistou a imprensa. Com as novas tecnologias que aperfeiçoaram as técnicas de impressão e com o aprimoramento do telefone e do telégrafo, foi possível desenvolver novos métodos de produção que facilitaram a publicação de fatos inéditos com uma maior rapidez. Assim, muitos jornais que antes priorizavam temas considerados mais sérios, como política e economia, se transformaram em veículos mais preocupados em dar espaço a assuntos relacionados aos dramas das pessoas comuns, ou seja, daqueles que são os seus leitores diretos (AMARAL, 2006; BARBOSA, 2007). Dejavite (2006) comenta sobre o primeiro jornal que realmente abordou o entretenimento como um fator importante para o jornalismo impresso. Fundado por Benjamim Day, o New York Sun de 1833, se diferenciou dos demais e chamou a atenção de classes menos letradas, abordando temas sensacionais e polêmicos, como assassinatos, crimes, curiosidades, bizarrices, entre outros assuntos. Sua linha editorial era dedicada essencialmente às massas que estavam iniciando sua vida em sociedade, aprendendo a ler e começando a serem incluídas em eventos sociais, após a Revolução Industrial (DEJAVITE, 2006). O New York Sun era um típico penny press2, ou um “jornal de tostão”, como é traduzido no Brasil, possuindo o formato de tabloide e trazendo notícias que divertiam e que eram empolgantes para os seus leitores. 1 Fait Divers são notícias que implicam em um acontecimento insólito ou extraordinário, e que seja circunstancial. 2 Penny press eram tabloides sensacionalistas destinados ao público popular e que custavam centavos (penny em inglês). 11 Isso demonstra que desde o início da prática jornalística no mundo, temas populares que despertam a curiosidade e o interesse humano, principalmente aqueles que provocam sensações no leitor como horror, choque e diversão, foram bastante explorados para atrair atenção das pessoas e, consequentemente, promover o aumento de vendas destes jornais. Um exemplo disto é a circulação espantosa que o Sun teve quando ele surgiu no cenário comunicacional destoando dos outros jornais que possuíam um caráter editorial mais sério e complexo. Em 1837, o New York Sun distribuía cerca de 30 mil exemplares diariamente pela cidade, número maior que a soma de tiragens de todos os outros jornais diários de Nova York da época (DEJAVITE, 2006). No entanto, Angrimani (1995) lembrou de um ponto histórico onde o jornalismo sensacionalista se tornou ainda mais conhecido. Foi no final do século XIX que também surgiram dois jornais americanos que tiveram grande sucesso de público. São eles o New York World, editado por Joseph Pulitzer, o criador do prêmio de jornalismo mais famoso do mundo, o Pulitzer, e o Morning Journal, editado por William Hearst. Marcados pelo forte sensacionalismo e pela rápida ascensão, os dois jornais concorriam entre si pelo maior número de vendas (chegando a alcançar o número de um milhão de exemplares por dia) e passaram a ser designados como imprensa amarela3, que aqui no Brasil acabou se transformando na expressão “imprensa marrom”. Estes dois jornais conseguiram deixar como legado alguns de seus atributos para outros veículos com a mesma proposta editorial que ainda surgiriam, como a tipografia exagerada, com letras garrafais e cores fortes, o uso de muitas imagens e de uma linguagem coloquial que pretendia imitar a oralidade. Já Amaral (2006) acredita que as raízes do jornalismo popular e sensacional, voltado para a massa e com características do entretenimento, estão no melodrama e no folhetim. É a partir das particularidades do melodrama que os jornais reuniram as ferramentas para alcançar e chamar a atenção de um público menos letrado e menos acostumado à leitura. Em sua origem, na França e na Inglaterra do século XVIII, o melodrama é um espetáculo popular com narrativas inspiradas na literatura oral e que precisa render financeiramente. Ou seja, ele lembra a base da política editorial de um jornal sensacionalista e popular. Sua estratégia é o apelo aos sentidos, seguindo uma direção totalmente contrária aos jornais destinados à burguesia da época, onde reinavam ideologias políticas e assuntos complexos. Mas a partir da metade do século XIX, com o desenvolvimento da imprensa, o melodrama se transforma no folhetim e torna-se a peça essencial da industrialização da 3 A imprensa amarela ou imprensa marrom são expressões utilizadas para designar veículos que buscam elevar sua audiência através do exagero ou, até mesmo, da invenção de fatos e acontecimentos. 12 imprensa na Europa. Em seu início, era destinado principalmente ao entretenimento (com piadas, críticas e até dicas de beleza) e localizava-se no rodapé da primeira página dos jornais. Mais tarde, dramaturgos franceses como Alexandre Dumas e Eugene Sue, conseguiram tornar esse modelo de escrita em uma verdadeira febre da população, criando histórias seriadas. O folhetim representa a conquista de novos públicos para os jornais, pois traz elementos do cordel, com o herói todo-poderoso e situações que demonstram a luta entre o bem e mal, e faz críticas diretas ou indiretas a problemas sociais, vivenciados pelos leitores dos jornais. Entre as suas características estão a linguagem acessível, o suspense e os diálogos breves (AMARAL, 2006). Essa incorporação do folhetim, que retrata bem a classe popular a partir de suas particularidades, já estava relacionada com a necessidade do mercado de ampliar o seu público e, consequentemente, vender mais. Dessa forma, o jornalismo que era feito, no início de sua existência, com uma matriz ideológica de valores iluministas e que privilegiava a formação intelectual do seu leitor, sofre transformações que irão trazer consequências possíveis de serem vistas até os dias de hoje em toda a mídia. É o jornalismo que busca trazer a informação junto com a leveza do entretenimento, proveniente da estética melodramática, atraindo cada vez mais a atenção de públicos variados (em vez de privilegiar a elite), e marcando o que seria um início do jornalismo de infotenimento (AMARAL, 2006; DEJAVITE, 2006). Ainda assim, mesmo com tanta popularidade e sucesso de vendas, os jornais de penny press eram vistos como maus exemplos do jornalismo por intelectuais da época, exatamente por apelar aos instintos mais baixos do homem (GABLER, 1999, p. 72 apud DEJAVITE, 2006, p. 58). No Brasil, segundo Amaral (2006), o sensacionalismo surge, justamente, através dos folhetins, a partir de 1840. Inicialmente, eles também ocupavam o espaço do rodapé da primeira página e, mais tarde, na década de 1920, o espaço dedicado para o gênero aumenta e surgem as notícias sensacionalistas, especialmente as que se dedicavam aos casos policiais, ganhando destaque na maioria dos jornais diários do Rio de Janeiro. As redações eram divididas em dois setores: um destinado a informações locais e outro ao serviço de telégrafo que recebia informações do interior dos estados e do estrangeiro. O trabalho do repórter se tornou o mais importante de toda a redação, pois ele sempre estava em busca do ineditismo, do furo que faria da sua narrativa uma história cativante, capaz de atrair a atenção para aquela edição do jornal e que emocionaria o público. Ainda assim, como observa Barbosa (2007), 13 mesmo naquela época, o repórter deveria estar sempre comprometido com a verdade, mesmo que ele se utilizasse de alguns recursos para mexer com as emoções do leitor. A edição fantasiosa deve, entretanto, ser apresentada dentro de determinados parâmetros, onde a verossimilhança é o principal deles. É preciso construir narrativas atendendo a esses dois aspectos: a realidade e a fantasia. Os elementos passionais não podem ser ocultados, sob a pena de não despertar o interesse do leitor, mas ao mesmo tempo não é possível exagerar nas tintas descritivas, sob a pena de transportar a notícia para o lugar do folhetim. (BARBOSA, 2007, p. 50). Alguns exemplos de impressos que foram importantes nesta época de transição e de valorização do sensacionalismo foram o Jornal do Brasil, o Correio da Manhã e o O Paiz. Todos estes adaptaram o seu estilo narrativo ao gosto do leitor, multiplicando sua estratégia para atingir um público com menor grau de instrução e, sobretudo, menor poder aquisitivo (BARBOSA, 2007). A partir daí, outros jornais se inspiraram no estilo de narrativa sensacionalista, sendo possível ver exemplos até atuais. É necessária, entretanto, a consciência de que o jornalismo popular não é sinônimo de sensacionalismo. De acordo com Marcondes Filho (apud AMARAL, 2006, p. 20 -21), sensacionalismo é: O grau mais radical da mercantilização da informação. Na verdade, vende-se nas manchetes aquilo que a informação interna não irá desenvolver melhor. [...] As notícias da imprensa sensacionalista sentimentalizam as questões sociais, criam penalização no lugar de descontentamento e constituem-se num mecanismo reducionista que particulariza os fenômenos sociais. Algo que se faz necessário ressaltar é que o jornalismo popular não se resume às características do sensacionalismo, como o exagero na carga emocional das reportagens, a valorização de informações pouco contextualizadas, a exploração do extraordinário, entre outros atributos que são utilizados nesse gênero especialmente para atrair a atenção dos leitores e aumentar as vendas de exemplares. Na realidade, o termo “sensacionalismo”, hoje, possui uma carga bastante pejorativa, justamente pelo seu histórico em jornais do passado, que se tornaram conhecidos entre o público graças à banalização da violência, da sexualidade e do bizarro em suas manchetes. Assim, caracterizar um jornal de sensacionalista implica que o mesmo é um meio dedicado a somente provocar sensações, e esta definição não se aplica obrigatoriamente ao trabalho do jornalismo popular (AMARAL, 2006; DEJAVITE, 2006). É como Amaral (2006, p. 24) afirma, “atualmente, os jornais preocupam-se com que o leitor 14 tenha um sentimento de pertencer à determinada comunidade, percebendo que o jornal faz parte do seu mundo”. Dessa forma, o importante no jornalismo popular não está ligado necessariamente à informação exagerada e chocante, ou, até mesmo, à curiosidade por assuntos tabus, mas sim em estar próximo à realidade do seu público-alvo, seja ele das classes A e B ou C e D, às vezes, dando visibilidade para os sentimentos e particularidades dos personagens, mas não exclusivamente a isso. 1.1 – A imprensa popular e o jornalismo de infotenimento Definir o que pode ser notícia e o que não pode, a partir da noção de valor-notícia, depende muito de como o jornal ou o meio comunicativo enxerga o seu público-alvo. O veículo de comunicação, por sua vez, realiza pesquisas mercadológicas ou segue algumas normas que foram preestabelecidas por manuais para formar uma ideia de como é o seu público, conseguindo de uma forma geral informações que traduzem o que ele deseja e necessita (AMARAL, 2006). Ainda assim, os veículos de comunicação acabam por considerar, mesmo que automaticamente, alguns estereótipos daquele público que ele acredita ser o seu alvo principal. Por exemplo, no jornalismo popular, considera-se que o público, ou seja, o povo das massas, está muito ligado à sua realidade. Isso quer dizer que os impressos dirigidos a essa camada social tendem a priorizar o que pertence ao cotidiano do leitor e aquilo que afeta diretamente a ele. É como diz Amaral, Os jornais imaginam que o leitor gosta de se ver, contar suas histórias e as injustiças cometidas contra si, mas é alguém a quem os assuntos públicos e coletivos só importam enquanto estiverem concretamente relacionados ao seu quintal (2006, p. 62). A partir desse pressuposto, a autora estabelece alguns critérios que serviriam como base para a imprensa popular designar o que pode vir a ser notícia, sendo eles fatos que teriam maior probabilidade de agradar o leitor da “massa”. O primeiro critério seria a capacidade de entretenimento do fato, o que Amaral (2006, p. 63) explica dizendo que “tudo o que prende e atrai o olhar, seja uma cena escandalosa, ridícula ou insólita tem potencial para ser notícia”. Amaral faz uma relação estreita da capacidade de entretenimento com o sensacionalismo, afirmando que o gênero de entretenimento não provoca somente o prazer por parte do leitor, mas também a sensação e a 15 emoção. Assim, ela classifica em, pelo menos, quatro categorias as histórias que possuem capacidade de entretenimento para se transformarem em notícia. São elas: “a) Histórias de gente comum encontrada em situações insólitas ou histórias de homens públicos surpreendidos no dia-a-dia da sua vida privada (Bala perdida mata menino após sua festa de aniversário – Extra, 05/09/2005 ou Malu Mader teve medo de morrer – Diário de S. Paulo, 29/08/2005). b) Histórias em que se verifica uma inversão de papéis (Policial deu sua farda para ladrão – O Dia, 05/09/2005). c) Histórias de interesse humano (Pitbull ataca menina de três anos – Diário de S. Paulo, 23/09/2005 ou Doméstica envenena bebê de três meses com água sanitária – Agora São Paulo, 06/09/2005). d) Histórias de feitos excepcionais e heroicos (Menino herói: Ramão não perdeu totalmente a visão de um olho – Diário Gaúcho, 17/04/2002)”. (AMARAL, 2006, p.64) Amaral (2006) também afirma que a proximidade, seja ela pelo conteúdo, pelos personagens ou pela linguagem, é um fator importante, já que um dos objetivos mais contundentes da imprensa popular é conseguir estar próximo do seu leitor, trazendo elementos que estejam dentro do seu cotidiano e promovendo uma identificação. Assim, Amaral (2006) categoriza a proximidade: a) Pelo conteúdo: São as classes C, D e E que caracterizam o público-alvo da imprensa popular, e como já foi citado antes, os temas que dizem respeito ao dia-a-dia dessas pessoas são os que mais interessam. Dessa forma, a informação local vem primeiro em relação à informação nacional, sendo esse “local” aquele em que se vive e não necessariamente um espaço geográfico. b) Pela proximidade com os personagens: É importante que o fato noticiado tenha impacto na vida de uma pessoa comum, podendo tornar-se comentário (alimento das relações sociais) entre o público. Por isso, não é incomum ver a personalização de problemas e soluções, dando um caráter pessoal à matéria. O único cuidado que se deve ter, nesses casos, é o de não se individualizar demais a história, fazendo com que ela perca seu contexto social e, consequentemente, sua relação com as vidas de outras pessoas. c) Pela linguagem: Muitas vezes a imprensa popular se preocupa em se comunicar com o leitor da forma mais simples e próxima à oralidade possível. A utilização de recursos como o discurso direto e de um vocabulário que não seja o formal, mas sim, um reconhecido pela população, servem para dar mais autenticidade ao jornal. Além disso, criam a impressão de uma situação similar a que foi vivida, dando um caráter mais palpável às pessoas presentes no texto. 16 Por fim, Amaral (2006) também classifica a utilidade que uma matéria jornalística possui na vida do leitor como um valor-notícia, pois matérias que trazem informações que possam servir às pessoas como manual de sobrevivência estão sendo requisitadas cada vez mais. Assim, questões nas quais as pessoas são alienadas socialmente, como os direitos básicos na saúde, segurança ou educação, e também referências de como é possível viver melhor (como estar em forma, ser um profissional competente e etc.) entram como pautas imprescindíveis para satisfazer as necessidades do público. Além da importância de definir o que são valores-notícia na imprensa popular, é interessante também designar quais são as características do jornalismo de entretenimento, ou melhor, de infotenimento (informação + entretenimento), pois este tipo de jornalismo está cada vez mais presente na mídia atual, graças à concorrência do impresso com outras mídias e à busca incessante pelo interesse do leitor alvo (DEJAVITE, 2006). Assim, Dejavite (2006) tenta definir os conteúdos que podem ser considerados como jornalismo de infotenimento, porém essa é uma questão complexa, já que o conceito de infotenimento é especificamente uma junção de duas funções, podendo englobar diversos gêneros que contém ambos os elementos. De qualquer forma, Dejavite (2006) traça alguns fatores que caracterizam a presença do entretenimento no jornalismo. São eles o sensacionalismo, a personalização, a dramatização de conflito e, geralmente, o uso de fotos, infográficos, tabelas, entre outros recursos visuais nas matérias. Para ser mais específica quanto às editorias que podem ser classificadas como de infotenimento, Dejavite (2006) detalha quais são os temas que estão relacionados com o gênero: Arquitetura; Artes; Beleza (cuidados com o corpo); Casa e Decoração; Celebridades e Personalidades (perfil dos artistas, fofocas); Chistes e Charges (matérias pequenas com caráter caricatural que satirizam um acontecimento); Cinema; Comportamento (atitudes do indivíduo no meio social); Consumo (lançamentos, novidades, promoções); Crendices (religiões, mitos); Cultura (patrimônio, folclore, datas comemorativas, etc.); Curiosidades (tragédias, acidentes, crimes, catástrofes, atentados, assassinatos, etc.); Espetáculos (tudo que chama a atenção publicamente); Eventos; Esportes; Formação Pessoal (matérias relacionadas a empreendedorismo, exemplo: “Faça você mesmo”); Gastronomia; Fotografia (informa, emociona e distrai o leitor sem a necessidade do texto); Indústria editorial (literatura); Ilustrações/Infográficos/Tabelas/Boxes/Gráficos; Informática; Jogos e diversões; Moda; Música; Previsão do tempo; Publicidade; Rádio; Revista; Televisão e Vídeo (produção, 17 minisséries, telenovelas, etc.); Turismo/Lazer/Hotelaria; Vendas e Marketing (tanto de produtos quanto de empresas). Mesmo se utilizando dessa classificação, Dejavite (2006) deixa claro que há conteúdos tidos como “sérios” (matéria que aprofunda, investiga, critica e transmite informações novas), e isso também serve para os veículos de comunicação, que podem conter características do infotenimento. [...] Por exemplo, quando uma charge de um jornal satiriza um assunto que está na manchete da primeira página, dando-lhe uma nova exterioridade por meio de dados acrescidos pelo ponto de vista do chargista ou, então, por um ângulo não explorado. Aparentemente, neste caso, aquilo que se denominou conteúdo sério (a política) apresenta-se com uma roupagem não-séria (a charge) (DEJAVITE, 2006. p. 95). Dessa maneira, Dejavite (2006) deixa clara a sua intenção em desmistificar quaisquer preconceitos quanto ao caráter jornalístico de uma reportagem de infotenimento. Mesmo abordando assuntos que se classificam como notícias leves e divertidas, esse gênero também é sinônimo de um jornalismo ético e de qualidade e, por isso, não deve ser tomado como um jornalismo menor somente por explorar o entretenimento. 1.2 – Histórico do jornalismo de infotenimento Após a chegada do século XX, a insatisfação com o conteúdo dos jornais mais populares tornou-se ainda mais evidente por parte das classes alta e média da sociedade (DEJAVITE, 2006). A autora afirma que a imprensa que se considerava respeitável deixou clara a distinção das funções entre um jornalismo de “qualidade”, dedicado a criar cidadãos bem informados, e o jornalismo popular ou sensacionalista, que procura o espetáculo ou fatos com características incomuns para escandalizar. Porém, o desenvolvimento tecnológico, que trouxe novos meios de comunicação como o rádio, a televisão e a internet, mudou por completo esse cenário, forçando os jornais impressos a se adaptarem para continuarem sobrevivendo e sendo consumidos pelos seus leitores. A televisão trouxe uma nova direção para a notícia. O entretenimento foi o discurso escolhido para caracterizar-se. A partir disso, converteu tudo que aparecia na tela em diversão, inclusive a notícia. Em pouco tempo, tornou-se um dos mais importantes meios de diversão e entretenimento nas sociedades ocidentais (DEJAVITE, 2006, p.60). 18 Dessa forma, o impresso se viu obrigado a modificar algumas de suas estratégias para não sucumbir ao poder de distração da televisão. O emprego cada vez maior de recursos artísticos e visuais, principalmente nas capas dos jornais, tornou-se comum e, hoje em dia, é possível ver claramente como a utilização de cores, gráficos, tabelas e imagens trabalham para atrair a atenção do leitor e para fazê-lo se interessar pelo conteúdo. Isso também se reflete na configuração das páginas, que se tornou um importante modo de direcionar a atenção do leitor da informação mais interessante para a menos relevante. É através do layout4 que também se traduz a intenção do que o veículo deseja comunicar (DEJAVITE, 2006). [...] O jornal tem empregado, com maior ênfase, alguns recursos que deixam a notícia mais fácil de ser entendida e ainda agradável ao ser lida, como a fotografia, os gráficos, os infográficos e as ilustrações, cujo objetivo também é entreter (DEJAVITE, 2006, p. 61). Essa intenção em entreter pode ser também observada na mudança de paradigma quanto às classificações por editorias e nos valores-notícias de um jornal. Assuntos que antes eram considerados desinteressantes ou, até mesmo, fúteis, passam a ganhar cada vez mais espaço nas páginas. Exemplos disso são as colunas sociais, que tendem a aumentar de tamanho todos os anos, com informações sobre a vida e o trabalho das celebridades, especialmente as provenientes da TV. Até mesmo os jornais considerados de maior prestígio já se renderam à cobertura de assuntos do gênero, muitas vezes dando o destaque nas capas a esses temas (DEJAVITE, 2006). Desse modo, a fronteira que separa o jornalismo do entretenimento nunca esteve tão difícil de ser observada, pois as duas ações, a de informar e a de entreter, tornaram-se essenciais para a prática jornalística atual, em qualquer meio comunicativo da mídia. Isso aconteceu devido às transformações culturais e tecnológicas da sociedade que permitiram mudanças significativas no meio de trabalho, como a entrada da mulher no mercado, a flexibilidade dos horários e a facilidade de se realizar tarefas com a ajuda da tecnologia atual. Essas mudanças acabaram por proporcionar mais tempo livre aos empregados e mudaram as “visões de mundo” das pessoas (AMARAL, 2006; DEJAVITE, 2006). Em seu tempo livre, as pessoas desejam se distrair e romper, pelo menos por um pequeno momento, com a sua realidade, através da leitura de informações leves e divertidas, como a vida das celebridades, receitas culinárias, matérias sobre turismo ou lazer, etc. É o que diz a autora: 4 Layout é o plano de trabalho tipográfico que prevê os tipos, medidas, ilustrações etc., da composição. 19 [...] O entretenimento é retratado pela função de escape. Para os autores dessa corrente, o receptor recorre aos meios de comunicação para fugir das rotinas mundanas, dos problemas e das frustações da vida real, liberando emoções interiorizadas (DEJAVITE, 2006, p. 54). Mas não é por causa da necessidade de ser entretido que o receptor será impedido de absorver informações que sejam importantes para o seu cotidiano. É aí que surge o conceito de infotenimento para determinar como essas duas funções, a de informar e a de entreter, podem ser englobadas. De acordo com Dejavite (2006, p. 72), “o jornalismo de INFOtenimento é o espaço destinado às matérias que visam informar e divertir como, por exemplo, os assuntos sobre o estilo de vida, as fofocas e as notícias de interesse humano – as quais atraem, sim, o público”. Ou seja, uma matéria pode ao mesmo tempo informar entretendo ou entreter passando alguma informação. Uma das grandes preocupações de intelectuais, que vão contra a tendência do jornalismo de infotenimento, é a crença de que estas duas vertentes, o jornalismo e o entretenimento, são de éticas completamente distintas e que sua fusão não seria possível por essa razão. Sabe-se que, tradicionalmente, o jornalismo tem a função de formar a opinião pública a partir da veracidade de informações e o entretenimento destina-se a chamar a atenção das pessoas e divertir, além de permitir a exploração da ficção (RAMOS, 2003). Mas Dejavite (2006) contrapõe essa afirmação dizendo que o jornalismo de infotenimento é acima de tudo uma prática jornalística e, portanto, necessita seguir os valores éticos que a prática exige. Além disso, não há separação ética entre o jornalismo e o entretenimento nesses casos, pois cada vez mais é possível observar que a preferência das pessoas é justamente a mistura dos dois, o que configura o infotenimento. “[...] É inútil tentar definir se dada comunicação é informativa, persuasiva ou tem meramente a função de entreter, já que a comunicação de massa possui todas essas características”. (BERLO, 1999 apud DEJAVITE, 2006, p. 74 – 75). Ainda de acordo com Dejavite (2006) ao consumir um conteúdo, as pessoas estão sempre buscando se distrair. Sendo assim, separar a informação da diversão não faz nenhum sentido, já que o entretenimento é simplesmente a ausência de tédio. Ou seja, o oposto do entretenimento não é o conhecimento informativo, e sim, o conteúdo que não agrada ou interessa ao leitor. 20 1.3 - O jornalismo de infotenimento no Brasil Segundo Sodré (1983, apud DEJAVITE, 2006, p. 82) e Bahia (1990, apud DEJAVITE, 2006, p. 82), é provável que assuntos relacionados ao entretenimento tenham sido encontrados já em alguns dos primeiros jornais brasileiros, como o Correio Brasiliense ou Armazém Literário, em sua grande parte, como textos literários e notícias direcionadas ao público feminino. Desde então, foi notável o crescimento desse tipo de conteúdo em diversos veículos, aparecendo como editorias diferentes nas páginas dos jornais, trazendo textos mais leves e criações literárias, e promovendo a publicação de poemas, contos, crônicas e críticas de manifestações artísticas. O objetivo do desenvolvimento desse novo segmento na imprensa brasileira era atrair a atenção de outros públicos, principalmente de mulheres e jovens (DEJAVITE, 2006). Assim, provavelmente as seções de variedade e literatura foram os embriões dos atuais conteúdos do jornalismo de INFOtenimento, sendo, portanto, marcadas por duas características básicas: de um lado, como entretenimento, caracterizando um jornalismo em busca de um novo tipo de leitor e, de outro, como um valor de distinção de classe, capaz de contribuir para a formação de um gosto estético e cultural (DEJAVITE, 2006, p. 83). Dejavite (2006) ainda aponta algumas mudanças do jornalismo que demonstram a evolução do entretenimento passando, aos poucos, a ser um assunto necessário nos jornais. Isso pode ser visto no final do século XIX, com o aperfeiçoamento das edições ilustradas e com a incorporação da prestação de serviço nas páginas durante as décadas de 1920 e 1930. A partir daí, a ideologia da cultura de massa chegou até o Brasil e trouxe consigo novas técnicas que ajudariam a ampliar a cobertura cultural e de entretenimento na mídia brasileira. “O próprio tratamento da notícia passa a ser mais voltado para o estético, tanto na linguagem quanto na forma” (DEJAVITE, 2006, p. 85). Após os anos 90, foi possível notar uma verdadeira inclusão da categoria de entretenimento no jornalismo do país, associando-se principalmente a responsabilidades sociais e culturais. Isso se refletiu e ainda reflete até os dias de hoje em pesquisas5 que demonstram que houve um aumento da veiculação de notícias no estilo soft news6 em 5 6 Baseada na pesquisa realizada pelo Committee Of Concerned Journalist (CCJ) nos Estados Unidos, 1998. Soft News são notícias breves, sem ligação com o factual. 21 comparação ao estilo hard news7. Para Dejavite (2006), isso não quer dizer que o jornalismo atual está se tornando cada vez mais superficial ou somente voltado para o lucro. Na verdade, ele está em mutação, já que uma das maiores preocupações que o jornalismo tem, hoje em dia, é a de atender aos interesses do público. Esse interesse pelo entretenimento e o aumento de sua relevância para a população se deve, principalmente, à mudança ocorrida com valores como o tempo. Este está cada vez mais fracionado (graças às evoluções tecnológicas que permitem realizar quase tudo simultaneamente) transformando o cotidiano das pessoas e deixando-o mais flexível para estas realizarem atividades como comprar produtos, assistir TV, ler livros, revistas, jornais, a qualquer momento do dia. No Brasil, cálculos realizados por Théo Azevedo (apud DEJAVITE, 2006, p. 34) da Folha de São Paulo demonstram que o mercado de entretenimento é crescente e movimenta algo em torno de cinco bilhões de reais por ano. Dessa forma, se torna evidente que o entretenimento é um dos valores emergentes, se não um valor já consagrado, da atual realidade (DEJAVITE, 2006). 7 Hard News são notícias importantes que se referem ao relato dos fatos fundamentais para a vida política, econômica e cotidiana. 22 CAPÍTULO 2 O Jornal Meia Hora Lançado em setembro de 2005, o jornal Meia Hora, desde o seu início, apresentou-se no cenário midiático da cidade do Rio de Janeiro como um jornal extremamente popular, trazendo informação e distração como sua principal proposta. O jornal Meia Hora pertence ao grupo O Dia, do qual fazem parte um jornal impresso que leva o mesmo nome, a rádio FM O Dia, um portal na internet, com as notícias do impresso em formato digital, uma agência de notícias e o Instituto Ary Carvalho (IAC), que tem com objetivo desenvolver projetos e atividades culturais, atendendo principalmente a comunidades carentes. Desde 1983, a família Carvalho foi proprietária do grupo O Dia, promovendo mudanças editoriais e criando novos veículos para concorrer com outras corporações midiáticas, como as Organizações Globo. Atualmente, os jornais O Dia e Meia Hora fazem parte do monopólio da Empresa Jornalística Econômico S.A. (EJESA), que adquiriu os direitos dos dois e de suas gráficas e distribuidoras em 2010. Mas foi com Gigi de Carvalho, em 2005, que o jornal Meia Hora foi projetado, ganhando fama e sucesso junto à população brasileira. A ideia do jornal surgiu após a criação do Extra, jornal das Organizações Globo que foi amplamente divulgado pelas emissoras do grupo, para concorrer com O Dia. Nessa época, o jornal O Dia amargou um grande prejuízo e uma das formas de alavancar o grupo da família Carvalho foi a criação de uma nova tática empreendedora. Para isso, Gigi de Carvalho contratou o responsável pela concepção do Extra, o jornalista Eucimar de Oliveira. Ele teve a ideia de criação do Meia Hora, um jornal que seria voltado para as classes mais populares e destinado a trazer polêmicas e sensacionalismo para o cenário midiático do Rio de Janeiro. Desde então, o tabloide popular, que começou com uma tiragem diária de 50 mil exemplares, tornou-se um verdadeiro fenômeno de vendas na cidade e, no ano de 2011, segundo a pesquisa divulgada pela Associação Nacional de Jornais 8, o jornal Meia Hora atingiu o número de 140 mil tiragens diárias. O jornal Meia Hora é composto por diversas seções que trazem, normalmente, reportagens mais resumidas e uma linguagem simples, que possam ser entendidas por todos 8 Pesquisa sobre os maiores jornais de circulação paga do Brasil, sendo o jornal Meia Hora o décimo colocado no quadro geral. Informação obtida no site <http://www.anj.org.br/a-industria-jornalistica/jornais-nobrasil/maiores-jornais-do-brasil>. 23 os públicos, desde os menos letrados aos com maior nível de estudo. Entre as editorias estão a de “Polícia”, que costuma vir no início do jornal; a de “Geral”, que traz informações variadas sobre acontecimentos da cidade; a de “Negócios”; a de “Saúde”; a de “Esportes”; a de “Vida e Meio Ambiente”; a de “Televisão”, com informações sobre as celebridades e sobre as telenovelas; e a seção “Voz do Povo”, que traz a participação dos leitores com a publicação de suas opiniões e denúncias. O jornal também presta serviços, na segunda página, informando telefones de emergências, dicas de economia e divulgando ofertas de empregos disponíveis na cidade. A grande atração ou o que poderia ser chamado de “carro-chefe” do jornal Meia Hora são suas manchetes de capa. Sempre dispostas em letras garrafais e cores quentes, como vermelho, amarelo e laranja, elas são escritas de forma objetiva e direta, e, em sua grande maioria, apresentam algum tipo de humor, interagindo com a imagem publicada. Para o atual editor-chefe do Meia Hora, Humberto Tziolas, em entrevista concedida pessoalmente no dia 7 de janeiro de 20139, as manchetes são do jeito que são justamente porque servem para atrair a atenção do público e, para conquistar o leitor, fazendo-o se divertir e incentivando-o a ter interesse em ler o que está dentro do jornal. Além disso, as capas funcionam como vitrines, ou seja, convencem o leitor a comprar o jornal e, portanto, devem atraí-lo da melhor maneira. Para Tziolas (2013), pensar em capas que sejam criativas e divertidas é essencial quando se quer chamar a atenção do público e, por isso, as manchetes e ilustrações do Meia Hora costumam vir recheadas de humor. Tziolas (2013) também afirma ser primordial o compromisso com a ética jornalística, ou seja, é preciso usar do recurso humor sem nunca comprometer a veracidade dos fatos, noticiando, assim, somente fatos previamente apurados. Além de cumprir com a ética jornalística, é preciso ter também bom senso durante o processo de construção dessas manchetes. Nem sempre cabe fazer uma piada ou utilizar-se de humor, como mostrado na figura 1, para atrair a atenção do leitor pela capa. Segundo Tziolas (2013), há dias em que a manchete principal retrata um acontecimento tão trágico que não cabe fazer nenhuma brincadeira (Figura 2). Por isso, é preciso saber quando é possível utilizar o humor de uma forma que não ofenda os leitores. Ainda assim, Tziolas (2013) afirma que podem ocorrer situações em que a piada ou o trocadilho acabam por ultrapassar esses limites, pois a probabilidade de um jornal popular como o Meia Hora errar no bom senso acaba sendo 9 A entrevista que foi realizada no dia 07/01/2013 se encontra completa nos anexos deste trabalho. 24 maior do que a de um jornal voltado para as classes A e B, como o O Globo ou a Folha de São Paulo, que possuem uma linha editorial mais séria. Figura 1: Exemplo de uma manchete divertida. Figura 2: Exemplo de uma manchete séria. Fonte: Site <http://www.meiahora.ig.com.br/capas>. O Meia Hora possui um formato gráfico considerado prático, já que ele tem um tamanho menor comparado a outros jornais, de grande prestígio no país. Além disso, ele é mais resumido, o que facilita o seu manuseio e o tempo de leitura. Como o próprio Tziolas (2013) explica, o nome “Meia Hora” é, justamente, o período de tempo necessário para se ler todo o jornal, mantendo-se informado e atualizado do que vem acontecendo no mundo e, principalmente, na cidade. É um jornal que pode ser lido a caminho do trabalho, enquanto o leitor estiver utilizando algum dos transportes públicos da cidade (ônibus, metrô), sem que várias páginas se desprendam das mãos. Além da vantagem de ser um jornal menor e mais fácil de ser lido, um dos fatores que torna o Meia Hora tão popular é o seu preço. Inicialmente, ainda no seu período de adaptação no Rio de Janeiro, o preço estipulado foi de 50 centavos. Hoje em dia, ele já teve o seu valor aumentado para 70 centavos, mas ainda é um dos jornais mais baratos do mercado, possibilitando que qualquer classe social tenha acesso. Para Humberto Tziolas (2013), esse novo estilo de se fazer notícias, com muito humor e utilizando-se de uma linguagem próxima aquela falada pelo seu público-alvo, acabou transformando o mercado dos impressos, fazendo com que outros jornais populares adotassem 25 a mesma estratégia. Em um dos exemplos citados por Tziolas (2013) está o antigo jornal O Povo: O Povo é um jornal aqui do Rio que tratava muito de cadáver, daquele jeito popular dos anos 70 e 80, e que deixou o cadáver de lado e foi mais pra essa linha divertida do Meia Hora. Então, eu acho que quando o Meia Hora chega ele provoca uma mudança. Muitas vezes o jornal mais popular da cidade acaba sendo uma porta de entrada da literatura para pessoas leigas, que antes não tinham o costume da leitura e passam a se interessar em ler justamente por ser algo simples de ser compreendido. Essa leitura também configura em um meio de distração e diversão para o público, já que ela, normalmente, se realiza nos pequenos períodos de tempo livre que os leitores possuem durante o dia. Por isso, Tziolas (2013) considera tão importante a utilização no jornal de uma linguagem que seja mais leve e despojada, seguindo a ideia do estilo de vida do carioca, para que os leitores se sintam sempre estimulados à leitura. Essa forma de se fazer notícias (com um caráter mais divertido) é pensada nas reuniões de pauta, que acontecem durante o dia, com os profissionais de redação do próprio Meia Hora e, também, com os profissionais do jornal O Dia, já que eles trabalham no mesmo ambiente. Assim, todos os editores e subeditores dos dois jornais ficam sabendo do que está acontecendo de factual na cidade de uma só vez para que possam direcionar os seus repórteres e diagramadores na produção do dia. Porém, no jornal Meia Hora, grande parte das indicações de pauta e das sugestões para manchetes partem de pessoas comuns, que muitas vezes não possuem relação com o jornalismo. Às vezes são sugestões enviadas por amigos de quem trabalha na redação e que são repassadas aos editores como ideias. Outras vezes são sucessos da internet, fatos que foram muito comentados em redes sociais como Facebook e Twitter, e, que possuem potencial para serem transformados em uma matéria. De qualquer forma, Tziolas (2013) afirma que as principais sugestões surgem em conversas informais entre os profissionais da redação, sem a influência da pressão do deadline e do nervosismo. Como já foi dito, o Meia Hora é um jornal popular, destinado a um público de uma classe social mais baixa e com pouca escolaridade, mas, segundo Tziolas (2013), isso não quer dizer que ele interessa somente a essas pessoas, sendo possível encontrar verdadeiros fãs do impresso e outros leitores fiéis com alta escolaridade e que tenham o costume de ler outros periódicos com uma política editorial diferente do Meia Hora. 26 Atualmente, prestes a completar oito anos, o jornal continua chamando atenção pelas polêmicas criadas em suas manchetes, utilizando-se do humor e de recursos característicos do jornalismo de infotenimento para se tornar referência no mercado jornalístico brasileiro. 2.1 – As capas do jornal Meia Hora Conhecidas por todo o Brasil graças ao seu estilo peculiar que estampa trocadilhos e ironias em suas manchetes, as capas do jornal Meia Hora podem ser consideradas um espetáculo à parte. Em menos de uma década, já é possível listar algumas delas, exemplificadas nas figuras 3 e 4, que se transformaram em símbolos do novo jornalismo popular e que ficaram na memória dos leitores cariocas. Figura 3: Capa do dia 28/10/2008. Figura 4: Capa do dia 28/07/2010. Fonte: Site <http://www.meiahora.ig.com.br/capas>. Essas capas repercutiram em toda a mídia, principalmente na internet através das redes sociais. Atualmente, as capas do Meia Hora se tornaram ícones importantes do jornalismo popular e do humor, sendo disponibilizadas diariamente no site oficial do veículo e em páginas da internet, como o Facebook, para que todos possam ter acesso às suas manchetes. Além do uso constante do humor e de recursos visuais, como a realização de montagens com as figuras, é também comum ver diferentes capas se referenciarem, usando o assunto de uma manchete passada, que, provavelmente, fez muito sucesso entre o público, 27 para criar outra manchete, que vem normalmente no dia seguinte. Exemplos disso são as capas do dia 19 de agosto de 2010, com a manchete “Macumba da sogra faz homem perder o pinto e ganhar periquita” (Figura 5), e a de 20 de agosto de 2010, que trazia a manchete “Travestis também querem macumba que faz pinto sumir” (Figura 6). Figura 5: Capa do dia 19/08/2010. Figura 6: Capa do dia 20/08/2010. Fonte: Site <http://www.meiahora.ig.com.br/capas>. Um recurso gráfico que também é utilizado pelo jornal Meia Hora são as capascartazes, nas quais, “somente um ou pouco mais de um elemento gráfico toma conta da página, assemelhando-se aos cartazes” (FERREIRA JUNIOR, 2002, p. 79). Nesse caso, o elemento utilizado deve sintetizar pelo menos o assunto de maior importância na capa, ao qual a edição será dedicada. Por isso, fotos ou ilustrações são os recursos mais usados nesta situação juntamente com as manchetes e os leads, se forem necessários (COLLARO, 1996). É o que acontece na capa do dia 12 de maio de 2010 (Figura 7), que traz a notícia da convocação do jogador de futebol Adriano para a Copa do Mundo de 2010, ao mesmo tempo em que utiliza do humor na imagem representada, fazendo uma referência ao bairro de Copacabana ao invés do campeonato esportivo. 28 Figura 7: Capa do dia 12/05/2010. Fonte: Site <http://www.meiahora.ig.com.br/capas>. Segundo a classificação por tipos de capas de jornais descrita por Ferreira Junior (2002), grande parte das capas do jornal Meia Hora poderia ser classificada como uma capa ordenada, onde há a distribuição de textos verbais e recursos visuais de forma equilibrada. Normalmente, essas capas vêm com algum recurso visual em destaque (uma fotografia ou uma montagem entre foto e ilustração, e etc.) e, ao mesmo tempo, trazem outros elementos em sua composição gráfica, sejam esses mais imagens ou textos. Mas esta não é uma regra absoluta do jornal. Como foi mostrada na figura 7, o Meia Hora também abre exceções, fazendo capas-cartazes, com um só elemento de destaque. Este tipo de capa é classificado por Ferreira Junior (2002) como capa orgânica. Ao pensar nos recursos visuais e verbais que são utilizados para compor as capas do jornal, é imprescindível falar sobre o design gráfico que as configuram dessa forma. Segundo Villas-Boas, “o design gráfico é uma subárea da programação visual que, juntamente com o projeto de produto, é uma habilitação do design ou desenho industrial, atividade profissional exercida por designers” (1998, apud FERREIRA JUNIOR, 2002, p. 59). Portanto, o design gráfico acaba sendo a apresentação visual que o meio impresso necessita para atrair atenção de leitores e mostrar o seu caráter editorial, mesmo que de forma não-intencional, e por isso, ele exerce um papel tão essencial nos jornais. Desde os elementos mais destacados aos de menor importância, incluindo também os não-elementos (espaços em branco na 29 diagramação), todos possuem algum significado para o jornal (VILLAS-BOAS, 1998 apud FERREIRA JUNIOR, 2002). O jornal Meia Hora possui o formato de jornal tabloide, com uma mancha gráfica de 28 x 31,5 centímetros. Nesse formato, uma característica essencial para uma diagramação moderna é a simplicidade, ou seja, não se utilizar de muitos elementos, boxes, imagens e textos, na capa, para que ela não fique muito confusa. No caso do Meia Hora a separação dos espaços acontece por módulos, o que, segundo Collaro (1996), facilita a distribuição das manchetes e dos boxes na capa. De acordo com os tipos de diagramações possíveis no formato tabloide, descritos por Collaro (1996), o jornal Meia Hora segue a diagramação modular, utilizada mais recentemente pelos impressos, e que possui características mais dinâmicas, mesclando elementos na horizontal e na vertical. Dessa forma, a leitura é melhor apreciada pelo leitor, já que não há monotonia na disposição dos elementos. É importante lembrar que o foco visual da página pelo leitor começa no lado superior esquerdo da mancha gráfica, o que é chamado por Collaro, como zona óptica primária (ZOP). Figura 8: Exemplo de capa com diagramação modular. Fonte: Site <http://www.meiahora.ig.com.br/capas> 30 Figura 9: Ilustração da Zona Óptica Primária. Fonte: COLLARO, Antonio C, 1996. Outro fator que Collaro (1996) também aborda é o título que compõe a manchete, seu formato, tamanho e até o contraste que causa no resto da página. No caso do Meia Hora, os títulos das manchetes vêm normalmente em uma fonte10 simples, sem serifas11, sempre em caixa alta, ou seja, em letra maiúscula. Todas as partes escritas da capa aparecem com a mesma fonte, seja ela em negrito ou não. A legibilidade e o contraste ficam claros nas cores que normalmente são escolhidas para estampar a capa: vermelho, preto e branco, com algumas exceções em tons pastéis, como amarelo claro ou bege, que costumam aparecer nos boxes. Assim, o jornal Meia Hora apresenta capas que possuem uma diagramação moderna, com o formato de tabloide e um projeto gráfico modular, que condiz com a sua própria proposta: ser um jornal popular, de fácil leitura e com grande poder de atração de leitores. Isso se deve, principalmente, às manchetes, que são os elementos mais importantes dessa diagramação, sempre aparecendo em destaque, seja no tamanho, nas cores ou na fonte utilizada, sendo primeira coisa a ser vista nas capas. Dessa forma, seu conteúdo fica também em evidência e a utilização do humor e de polêmicas para os seus títulos e subtítulos só intensificam o interesse do leitor no jornal. Por este motivo, será dada uma ênfase maior às manchetes durante as análises, justamente por serem os elementos que mais se destacam em toda a diagramação e que são da maior importância para o conteúdo geral das capas. 10 11 Fonte é um conjunto de caracteres, todos no mesmo estilo, tamanho e face. Serifas são pequenos traços ou espessamentos nas extremidades das letras. 31 CAPÍTULO 3 Análise das capas e das manchetes do Meia Hora As capas do jornal Meia Hora são um marco na história do jornalismo brasileiro justamente pela sua popularidade, que foi conquistada graças ao seu estilo jornalístico de se dar notícias, fazendo piadas e sempre trazendo polêmicas em suas manchetes. Dessa forma, o Meia Hora também mostrou a influência que um jornal super popular e com um baixo preço pode ter em uma sociedade conhecida pelo glamour12 televisivo, como o Rio de Janeiro, ficando famoso não somente entre o seu público-alvo de início, as classes C e D, mas também em todos os setores da sociedade, agradando a diversos gostos. Isso se deve, principalmente, ao fato de que o jornal assume uma linguagem e um estilo de escrita que combina muito com a personalidade do carioca, uma pessoa descontraída e bem humorada. Apesar de este ser um estereótipo do carioca, é inegável que a alegria e diversão fazem parte desse “jeitinho” que caracteriza o morador do Rio de Janeiro. “O carioca é, antes de tudo, e acima de tudo, um lúdico, alguém que visa o divertimento antes de qualquer coisa.” (FERNANDES, Millôr, 1978). Tziolas (2013) ainda afirma que é este o desejo do Meia Hora, o de conquistar todo mundo, todos os “tipos” de públicos para o jornal, fazendo uma coisa divertida e que agrade a todos. Por isso, o Meia Hora foi um marco na história do jornalismo brasileiro, pois quando ele chegou ao mercado midiático carioca em 2005, mostrou um jornalismo popular diferente daquele essencialmente ligado à violência exacerbada e à imprensa marrom. Apesar da maioria das manchetes trazerem notícias sérias ou tristes, como assassinatos e dramas do cotidiano, sempre que possível, o Meia Hora traz como destaque alguma informação que possa ser apresentada como uma brincadeira, seja em forma de piada ou com uma montagem que traga imagens divertidas. Esse estilo do Meia Hora inspirou diversos outros jornais populares, transformando o cenário do jornalismo popular impresso no Brasil. Por esse motivo, e por outros, que as capas do Meia Hora se tornam um objeto de estudo tão interessante para um trabalho como este. Elas são os objetos de estudo que podem representar o jornalismo de infotenimento, já que sua configuração é a clara união da informação com o entretenimento ou a diversão. Assim, é possível exemplificar de maneira clara como este gênero vem se assumindo no jornalismo atual, consolidando-se em tabloides 12 Glamour é encanto, charme. 32 populares que desejam agradar o leitor, atendendo as suas necessidades. Por isso, transformam-se em veículos de rápida leitura e fácil entendimento. Ainda que o entretenimento tenha grande valor e importância para o Meia Hora, o jornal deixa claro que o seu objetivo principal é, e sempre foi, informar os leitores, trazendo, quando necessário, o tom da seriedade para relatar alguns dos acontecimentos e abordando assuntos considerados importantes, como economia e política. Ou seja, o entretenimento e a diversão são interesses secundários. Para Humberto Tziolas (2013), o editor-chefe do jornal, o Meia Hora é um jornal para quem tem o gosto mais popular, mas isso não significa que ele não possa agradar a diferentes públicos ou que tenha uma qualidade pior, trazendo pouca informação. É durante a semana que o jornal vende mais exemplares, ao contrário da maioria dos jornais que têm sua maior tiragem no domingo, dia de descanso e distração, afirma Tziolas (2013). Isso significa que, na verdade, as pessoas estão procurando a informação e não o entretenimento do Meia Hora. De qualquer forma, é inegável a capacidade de diversão do jornal e a sua fama quanto a isso, notavelmente retratada na reação dos leitores em redes sociais, conforme a figura 10, e na repercussão, principalmente das capas, em toda a mídia. As manchetes de capa do Meia Hora são as principais responsáveis por essa grande popularidade, com seus trocadilhos, piadas e uma tipologia atrativa, que prende o olhar do leitor de forma imediata. Figura 10: “Comentários de leitores na rede social Facebook sobre a manchete do dia 28/12/2012: A manchete derreteu com o calor”. Fonte: Facebook oficial do jornal Meia Hora <https://www.facebook.com/meiahora>. 33 Quando perguntado sobre o processo de criação das manchetes, Tziolas (2013) afirma que a ideia é realmente chamar a atenção em primeiro lugar, para depois despertar o interesse de leitura no assunto. Desta forma, atraindo o olhar do leitor, o jornal venderia mais exemplares e ajudaria a mantê-lo funcionando. Tziolas (2013) diz que esta prática, a de atrair atenção para vender mais, é questionada por muitas pessoas como antiética, mas esse julgamento é uma atitude hipócrita, pois qualquer setor comercial da sociedade necessita de resultados nas vendas para sobreviver, e o jornalismo do Meia Hora acaba entrando também nessa classificação já que ele é um produto de uma empresa particular. O editor-chefe chega a comparar a atitude do Meia Hora com a de uma padaria ou de uma loja de sapatos, que têm o objetivo de criar produtos com melhor qualidade e com mais atrativos, justamente, para vender mais. Portanto, ainda que o Meia Hora tenha em sua proposta inicial características de um jornalismo popular e de um jornalismo de infotenimento, há também uma lógica de mercado que influencia a criação das manchetes para as capas do jornal e que serve como um dos valores-notícia para a realização e disposição de matérias na diagramação diária do veículo. Apesar disso, neste trabalho, iremos analisar somente os fatores relacionados à capacidade de entretenimento do Meia Hora e a sua capacidade de popularidade, além de ver como estes fatores se configuram para transformar o jornal naquilo que ele é hoje: um veículo de alta tiragem e de grande fama em sua cidade de origem. Para comprovar essas capacidades, sejam elas completamente intencionais ou não por parte da edição do jornal, foi promovido um estudo quantitativo e qualitativo das capas do Meia Hora no mês de janeiro de 2013, mostrando, com base nas teorias e métodos de análise de diferentes autores (apresentados no capítulo 1), como o infotenimento e as características do jornalismo popular se fazem presentes neste meio. Como já foi dito, as capas do jornal Meia Hora são pensadas com o objetivo de chamar a atenção do seu público-alvo e, para isso, diversos recursos são utilizados com esse intuito. Um deles é a sua diagramação moderna, onde a tipografia, as cores e as imagens usadas nas manchetes são os fatores básicos para prender o olhar do leitor. Dejavite (2006, p. 95) já dizia que “é no grafismo e no design que a diagramação assume o papel de destaque”. A diagramação no jornalismo evoluiu bastante nos últimos anos com a editoração eletrônica, permitindo que mudanças tipográficas sejam feitas com grande facilidade. A preocupação com o caráter estético da notícia se reflete, principalmente, na forma como as imagens aparecem junto da manchete, quais as fotografias e/ou ilustrações que têm o 34 poder de chamar mais a atenção do leitor, despertando o seu interesse em ler o conteúdo do jornal. É possível observar exemplos disso no uso excessivo de montagens com fotografias e ilustrações nas capas do Meia Hora. Elas, normalmente, fazem uma brincadeira com a situação que está sendo noticiada (piada ou trocadilho), dando um caráter ainda mais divertido à informação, como mostrado na figura 11. Figura 11: Capa do dia 15/01/2013. Fonte: Site <http://www.meiahora.ig.com.br/>. Dejavite (2006) ainda afirma que a fotografia jornalística também pode “falar”, ou seja, informar com mais precisão do que um texto, além de ser uma maneira mais light ou amena de fazer isso com credibilidade. É necessário observar que alguns desses fatores gráficos que compõem a capa do jornal Meia Hora fazem parte das características do jornalismo de infotenimento que são citadas por Dejavite (2006), como a utilização de cores, que criam um grande contraste e, portanto, chamam ainda mais a atenção do leitor e o uso excessivo de recursos visuais em detrimento do textual. As características que condizem com a diagramação das capas do Meia Hora foram analisadas quantitativamente em tabelas criadas através do programa “Excel” para observar o tipo de página que caracteriza a capa do jornal, ordenada ou orgânica, a partir da teoria apresentada por Junior Ferreira (2003), e o tamanho que a manchete principal ocupa em cada uma das capas de janeiro de 2013. A partir dessas análises será possível estabelecer o quanto a 35 diagramação do jornal condiz com sua proposta editorial e a importância que é dada aos diferentes tipos de manchetes. Também foram elaboradas tabelas qualitativas que analisam o conteúdo das principais manchetes do mês de janeiro. Nelas foram observados seus valores-notícia, a capacidade de entretenimento que possuem, de acordo com Amaral (2006), e as características de infotenimento que apresentam, de acordo com Dejavite (2006). A partir dessas análises, e também da opinião obtida por entrevista do editor-chefe do jornal Meia Hora, Humberto Tziolas, será possível identificar se há presença de um jornalismo de infotenimento no veículo e mostrar como essa presença se realiza, identificando através dos recursos visuais apresentados, do conteúdo textual das capas e dos valores-notícia utilizados, como o discurso é direcionado para a informação e para o entretenimento do público. Dessa forma, será possível concluir se, mesmo com características extremamente populares e utilizando-se de recursos que, às vezes, são considerados eticamente questionáveis para o jornalismo, o trabalho realizado pelo Meia Hora pode ser considerado um jornalismo de qualidade para a população. 3.1 - Classificação quanto à disposição dos elementos na capa De acordo com Ferreira Junior (2003), as capas de jornais podem se classificar em dois tipos de páginas em relação à sua diagramação: capa ordenada, que apresenta uma distribuição equilibrada de recursos textuais e ilustrativos; e a capa orgânica, que destaca um elemento gráfico ou pouco mais de um, assemelhando-se aos cartazes e aos pôsteres. Nessa tabela, foram analisadas as trinta e uma capas de janeiro de 2013 e calculado quantas se classificaram como ordenada ou orgânica. Tabela 1: Disposição dos elementos na capa Classificação Total Percentagem (%) Ordenada 25 80,64 Orgânica 6 19,35 Número Total/ Base de manchetes 31 100 No resultado, é notável a preferência do Meia Hora pelas capas ordenadas, já que elas trazem mais recursos e dão mais espaço para a divulgação de outras manchetes, em formatos 36 menores. As capas orgânicas, apesar de representarem quase 20% do total de capas que o Meia Hora faz, acabam por limitar o espaço que poderia ser utilizado para boxes com textos, imagens, anúncios, entre outros elementos. Além disso, as capas orgânicas são adequadas quando o assunto retratado tem o poder de causar um grande impacto na sociedade. Aí, ele acaba por ocupar a capa inteira (ou quase inteira) sendo o destaque, para atrair a atenção das pessoas. Nem sempre há um assunto que se encaixe nessa descrição e, portanto, não seria lógica a utilização diária deste tipo de página. Mesmo assim, o número de capas orgânicas do mês de janeiro (6) foi bastante significativo se for levado em consideração os requisitos necessários para publicação de uma capa assim. Isso mostra que chamar a atenção do leitor, seja como for, é realmente um dos principais objetivos do jornal Meia Hora e que a utilização de outras estratégias para isso, como o sensacionalismo das manchetes ou a linguagem mais próxima do público, também fazem parte deste objetivo, como veremos nas tabelas em seguida. 3.2 - Classificação quanto ao tamanho das manchetes Nesta tabela foi medido o tamanho que as manchetes principais ocupam nas capas de janeiro de 2013. Para isso, alguns parâmetros foram traçados, facilitando a classificação. São eles: uma página inteira, meia página, um terço da página, um quarto da página, dois terços da página ou três quartos da página. É necessário ressaltar que as medidas em relação ao espaço ocupado pelas manchetes não foram feitas com uma precisão exata. Elas foram realizadas a partir de uma noção de tamanho, baseada na percepção, que a manchete principal ocupa na capa comparado com o tamanho total da página. Desta forma, não foram utilizadas réguas, nem outros instrumentos de medição para chegar aos resultados que serão apresentados, sendo todas as medidas das manchetes aproximadas. Também não foram considerados os espaços ocupados por anúncios, pois só entraram na análise os elementos que fossem de conteúdo jornalístico. Essas medidas foram tomadas devido à necessidade de se utilizar as capas somente em formato digital, já que havia a dificuldade em conseguir os exemplares impressos do Meia Hora em outro estado. Dessa forma, a medição exata dos elementos da capa também se tornou difícil de ser executada. 37 Tabela 2: Tamanho da manchete Classificação Total Percentual (%) Página inteira 2 6,45 Meia página 6 19,35 1/3 5 16,12 ¼ 4 12,9 2/3 11 35,48 ¾ 3 9,67 Número Total/ Base de manchetes 31 100 Neste caso, o tamanho mais comum para as manchetes do Meia Hora é o de dois terços, o que demonstra, mais uma vez, a necessidade de dar um grande destaque para um elemento (que seria a manchete principal) na capa, já que essa é uma estratégia que pode ser considerada eficiente para atrair a atenção das pessoas. Na figura 12 observa-se o que foi considerado como uma manchete de tamanho de dois terços da página. Nela, é possível notar também o contraste que a imagem, em diferentes tons de azul, cria com o título em branco, aumentando ainda mais o destaque da manchete. Figura 12: Capa do dia 12/01/2013. Fonte: Site < http://www.meiahora.ig.com.br/>. 38 Normalmente, esse espaço consumido pela manchete se inicia logo após o cabeçalho da capa, onde se encontram a logo do jornal, o preço e pequenos boxes com promoções realizadas pelo veículo ou chamadas de outras notícias. Mas no caso da figura 12, um box com uma promoção do jornal ocupa um espaço que poderia ser utilizado para outras manchetes com um grau de importância menor, com fotos ou imagens. A preferência por manchetes com o tamanho de dois terços da capa também pode estar relacionada com o que fica visualmente melhor para um jornal do formato tabloide, que possui somente 28 cm x 31,5 cm de mancha gráfica, como é o caso do Meia Hora. Um destaque como esse da manchete da figura 12 cria uma organização para a capa e ainda consegue permitir um espaço para outros recursos textuais, como os boxes que estão logo abaixo da fotografia. Além disso, esse formato é simplista, pois não traz um grande número de elementos na capa e organiza bem todos os recursos utilizados. Desta forma, a leitura da capa fica ainda mais fácil e rápida, cumprindo o desejado pelo próprio jornal e podendo ser consumido por qualquer público. 3.3 - Classificação das manchetes pelos valores-notícia do jornalismo popular Por querer ser tão popular, o Meia Hora utiliza-se de alguns critérios que determinam o que convém ser publicado pelo jornal ou não, pois a ideia é conseguir atingir o seu públicoalvo, criando uma identificação. Ou seja, são os valores-notícia utilizados para pautar as matérias e os destaques de capa. Neste caso, é Amaral (2006) quem dita os valores-notícia característicos do jornalismo popular e que servem como parâmetro para a análise da tabela 3. Assim, os critérios utilizados para análise das manchetes principais, de janeiro de 2013 do Meia Hora, são aqueles que já foram explicados anteriormente no capítulo 1.2: a capacidade de entretenimento de uma notícia; a proximidade da informação com o leitor pelo conteúdo; a proximidade da informação com o leitor pelos personagens; a proximidade da informação com leitor pela linguagem utilizada; e a utilidade da informação para a população. É importante ressaltar que esses critérios não são exclusivos. Isso quer dizer que a manchete de qualquer um dos dias analisados pode ser capaz de entreter, aproximar e ser útil ao mesmo tempo. Ou seja, as manchetes podem ser classificadas em mais de um valornotícia, o que muda um pouco o resultado das contas, excedendo a 100%. 39 Durante esta análise não foi levado em consideração somente o sentido literal das manchetes, mas também, no caso de manchetes irônicas ou com algum trocadilho, a sua semântica, a interpretação daquela expressão de acordo com o contexto apresentado. Um exemplo disso é a chamada de capa do dia 18 de janeiro, mostrada na figura 13, que traz a letra de uma música popularmente conhecida: “É o bicho, é o bicho, vou te devorar, crocodilo eu sou!”. Neste caso, a letra se referia ao boneco gigante de jacaré (retratado na foto) achado em locais onde o tráfico atuava (Arará e Rato Molhado), simbolizando a aliança desses morros com o tráfico do morro do Jacarezinho. Assim, a ideia de utilizar a letra de uma música conhecida para dar a notícia da ocupação destes morros e da aliança que eles tinham com o Jacarezinho foi uma forma bem humorada de atrair a atenção dos leitores e retratar a agressividade dos tráficos que atuavam na região, conforme mostra o trecho “vou te devorar” que serviu de título. Figura 13: Manchete do dia 18/01/2013. Fonte: Site <http://www.meiahora.ig.com.br/>. Observar o sentido literal e interpretativo das manchetes permite enxergar as intenções do jornal e a sua política editorial, que determina também o que deve ser publicado e de que forma deve ser publicado. Isso é importante para tentar identificar se os valores do jornalismo popular se fazem presentes nessa política, que influenciam a opinião do jornal. 40 Tabela 3: Valores-notícia do jornalismo popular Classificação Total Percentagem (%) Capacidade de entretenimento 22 71 Proximidade pelo conteúdo 10 32,25 Proximidade pelos personagens 8 25,8 Proximidade pela linguagem 14 45,16 Utilidade 1 3,22 Número Total/ Base de manchetes 31 RM RM = Respostas múltiplas com percentagem excedendo a 100. Vendo esses resultados, fica clara a ideia de que o entretenimento é uma parte importante da política editorial do Meia Hora, mesmo não sendo a sua principal função, como relatado pelo seu editor-chefe. Mais da metade das capas do mês de janeiro (71%) tinham como valor-notícia a capacidade de entretenimento, ou seja, eram capazes de trazer prazer, emoção ou sensação para o leitor, além de conseguirem atrair o olhar deste para a capa, seja por causa dos recursos visuais utilizados ou pelo conteúdo escolhido para estampar a manchete. Também teve destaque (45,16%) como valor-notícia a proximidade da informação com o leitor pela linguagem, uma característica básica do jornalismo popular. A ideia é se comunicar com o leitor de forma simples e próxima à oralidade, para que a informação seja entendida por todos, independente de nível intelectual. Por isso, recursos como discurso direto e um vocabulário popularmente conhecido são muito utilizados pelo Meia Hora. Um exemplo é a manchete do dia 3 de janeiro, conforme mostrado na figura 14, que diz: “Tirou onda na rua com novinha e ex meteu a peixeira”. 41 Figura 14: Manchete do dia 03/01/2013. Fonte: Site <http://www.meiahora.ig.com.br/>. Já a proximidade da manchete com o leitor pelo conteúdo, que traz a informação local em detrimento da nacional ou mundial, aparece somente em 10 chamadas (32,25%) do total em janeiro, sendo um fator importante, mas sem se caracterizar como um dos mais significativos para inspirar as manchetes de capa. Assim como a proximidade pelos personagens, que apareceu apenas em oito manchetes (25,8%), e a utilidade da informação, que só esteve presente em uma manchete, representando 3,22% do total de manchetes em janeiro de 2013. 3.4 - Classificação por capacidade de levar ao entretenimento da manchete Após a identificação do entretenimento como valor-notícia mais influente das manchetes que saem nas capas do jornal Meia Hora, se fez necessária a classificação destas chamadas de acordo com Amaral (2006), que aprofunda o estudo, conforme mostra o capítulo 1.2 desta pesquisa, classificando esse valor-notícia em quatro categorias de histórias que seriam capazes de entreter o leitor e que possuem potencial para serem destaques no jornal: pessoas comuns em situações insólitas ou pessoas públicas em situações cotidianas; histórias de inversão de papéis; histórias de interesse humano; e histórias de feitos excepcionais ou heroicos. 42 Ao especificar quais seriam os tipos de histórias capazes de entreter mais publicadas pelo jornal, podemos ter uma noção também de quais histórias seriam as mais rentáveis para o veículo, além de estabelecer uma ideia do que o jornal pensa sobre o interesse do seu públicoalvo. É necessário observar que essa capacidade de entretenimento não é, necessariamente, um sinônimo da capacidade de fazer rir ou de apresentar algum tipo de humor. O entreter, no caso, está no sentido de deter a atenção da pessoa, de distraí-la com a informação publicada, atraindo sua curiosidade, independente de ser uma notícia triste ou feliz. Portanto, ao falar em histórias capazes de entreter, é possível falar em situações de tragédia, de bizarrices, de acontecimentos incomuns, entre outras coisas, que são algumas das classificações abaixo. Amaral (2006) mesmo diz que o entretenimento provoca, sobretudo, a sensação nas pessoas, seja choque, horror, diversão, carinho, pena, etc. Tabela 4: Capacidade de levar ao entretenimento Classificação Total Percentagem (%) 9 40,90 Histórias de inversão de papéis 1 4,54 Histórias de interesse humano 11 50 Histórias de feitos excepcionais ou heroicos 1 4,54 Número Total/ Base de manchetes 22 100 Histórias de pessoas comuns em situações insólitas ou pessoas públicas em situações cotidianas É importante reparar que essa conta, diferentemente da tabela 3, não excede os 100% do total, pois cada manchete só pode se classificar como um tipo de história capaz de entreter. Aqui, cada uma das categorias dispostas é excludente de outra, ou seja, se uma manchete foi identificada como uma história de interesse humano, ela é somente desta categoria, não podendo ser classificada como uma história de outro tipo. Isso porque as categorias apresentadas por Amaral (2006) já são bem específicas quanto às suas características e não seria possível enquadrar uma manchete em mais de uma delas. Em relação ao resultado desta tabela, é possível notar, como dito anteriormente, que os dois tipos de histórias com capacidade de entreter mais publicadas pelo jornal são as histórias de interesse humano e as histórias de pessoas comuns em situações insólitas (o que configura em acontecimentos estranhos ou incomuns com pessoas comuns) conforme exemplificado na 43 figura 15, ou pessoas públicas em situações cotidianas, conforme exemplificado na manchete da figura 16, que traz a afirmação que uma recém-eliminada de um reality show. Figura 15: Manchete do dia 05/01/2013. Fonte: Site <http://www.meiahora.ig.com.br/>. Figura 16: Manchete do dia 20/01/2013. Fonte: Site <http://www.meiahora.ig.com.br/>. Todas as categorias estabelecidas por Amaral (2006) são histórias que despertam o interesse do público, pois esta é uma das características do entretenimento, a de atrair o olhar 44 do leitor. Como diz Amaral, “as regras de um bom show passam a valer para o jornalismo” (2006, p. 63). Mas as duas categorias que foram selecionadas como os tipos de histórias mais publicadas nas capas do Meia Hora são as que mais se relacionam, entre as quatro, com o cotidiano do público, já que normalmente trazem personagens ou situações que podem fazer o leitor se identificar ou trazem personagens que são conhecidos e adorados/odiados popularmente, e, por isso, despertam a curiosidade das pessoas quanto ao seu estilo de vida e seus afazeres. Saber que um grande ídolo nacional também gosta de comer arroz com feijão, por exemplo, pode ser uma curiosidade que interesse grande parte do público-alvo do jornal, dependendo de como esse público é identificado. Assim, além de entreter e divertir o leitor, essas manchetes também fazem uma relação direta ou indireta com a vida desse público, seja através da retratação própria nas histórias ou da satisfação de curiosidades de pessoas que o interessam, sendo esta uma fórmula perfeita para atrair a atenção e aumentar o número de vendas do jornal: a identificação do leitor com os personagens publicados. É possível identificar uma relação entre a capacidade de entretenimento dessas duas categorias com a proximidade que elas estabelecem com o leitor, através da identificação pessoal do público com o que está sendo noticiado. Como foi dito acima, as duas categorias são histórias que agradam o público-alvo, e quando essas histórias se relacionam diretamente com a vida do leitor, ele se sente representado e incluído, fazendo com que ele se sinta importante para o jornal. O caráter pessoal da matéria ou da manchete é o que promove a identificação do leitor, pois ele se vê no personagem ou na situação que está sendo reportada. Dessa forma, ele está sendo entretido pelo conteúdo e próximo do jornal, que reconhece e retrata pessoas como ele e seus interesses. 3.5 - Classificação pela presença e pelo índice de entretenimento nas manchetes Na tabela 3.4, foi visto como o entretenimento pode se classificar a partir dos critérios que regem o jornalismo popular. Agora, de acordo com o que Dejavite (2006) fala, será observado de que forma o entretenimento pode aparecer em uma manchete ou notícia, mostrando através dos critérios estabelecidos por ela como a sua presença pode ser identificada. São eles o sensacionalismo; a personalização; a dramatização de conflito; ou a utilização de recursos visuais, como ilustrações, fotografias, montagens com imagens, etc. 45 Tabela 5: Critérios de presença e índices de entretenimento na manchete Classificação Total Percentagem (%) Sensacionalismo 15 48,38 Personalização 7 22,58 Dramatização de conflito 11 35,48 Utilização de recursos visuais 25 80,64 Número Total/ Base de manchetes 31 RM RM = Respostas múltiplas com percentagem excedendo a 100. Nota-se também que nesta tabela, as categorias voltam a não ser excludentes uma das outras, ou seja, uma manchete pode se encaixar em mais de um desses critérios, que identificam o entretenimento. Portanto, o resultado da percentagem excede, mais uma vez, ao número 100. A utilização de recursos visuais nas manchetes, como é possível reparar, é uma das principais características utilizadas nas capas do Meia Hora, aparecendo em 25 (80,64%) das 31 manchetes analisadas. Esta característica é um dos indicativos mais significativos para a identificação do entretenimento no jornalismo, pois é o recurso mais utilizado para atrair a atenção do leitor, principalmente quando vem em uma capa do estilo orgânica, quase sempre ocupando toda a extensão da página. Além disso, o sensacionalismo também aparece como uma das características que mais marcam o entretenimento do Meia Hora, aparecendo em 15 manchetes de janeiro, quase 50% do total. Entende-se como sensacionalistas todas as manchetes que foram capazes de provocar sensação intensa no leitor, seja emocionando-o ou escandalizando-o de alguma forma, e não, necessariamente, praticando algo antiético ao jornalismo (divulgando mentiras ou informações que não foram apuradas corretamente). Essa ideia de atitude antiética que envolve o sensacionalismo é tão difundida na sociedade que até mesmo o editor-chefe do Meia Hora teve relutância em assumir que utilizava do sensacionalismo em seu jornal. De acordo com ele, as coisas divulgadas pelo jornal que podem ser consideradas como práticas sensacionalistas (como fotos de mulheres seminuas ou em poses sensuais) são utilizadas em diversos outros meios, que, por serem direcionados a um público-alvo diferente, não causam tanta polêmica quanto um jornal mais popular. Ou seja, há um claro receio em assumir a prática pela conotação negativa que esta poderia dar ao jornal. 46 De qualquer forma, é clara a utilização deste recurso, como é possível ver na figura 16: “Esses dois covardes mataram a pequena Geovanna”. Nela aparece uma foto do rosto da criança e mais duas fotos dos suspeitos procurados pela polícia, reforçando o caráter emocional da chamada. A ideia ali é justamente despertar sensações como indignação, tristeza e pena para motivar a leitura do caso. Além disso, a linguagem utilizada na manchete principal, que utiliza de um adjetivo (covardes) para expressar uma opinião, também ajuda a promover essa ideia. Figura 17: Manchete do dia 26/01/2013 Fonte: Site <http://www.meiahora.ig.com.br/>. E por último, ficaram a dramatização de conflito, com 11 manchetes (35,48%) e a personalização, aparecendo em sete das manchetes (22,5%) do total. Elas são fatores que dão mais humanidade ao assunto retratado e, consequentemente, também prendem a atenção do leitor. 3.6 - Classificação quanto à natureza da manchete As manchetes do Meia Hora estão sempre tentando impressionar as pessoas de alguma forma para convencê-los a comprar o jornal, como Tziolas (2013) mesmo afirma em sua entrevista, que “tudo que você faz em um jornal ou qualquer outra empresa, você tá pensando nas vendas”. Dessa forma, a opção de utilizar-se do humor ou do sensacionalismo para 47 reportar acontecimentos insólitos ou tragédias nas manchetes foi sempre feita com esse pensamento, sempre com o objetivo de atrair o leitor. Mas qual seria o tipo de manchete mais publicada pelo Meia Hora? Para responder a essa pergunta, classificamos as manchetes de janeiro de 2013 em duas categorias: manchete séria ou manchete divertida. A ideia de incluir essa classificação no estudo partiu de uma declaração que próprio editor-chefe do jornal Meia Hora, Humberto Tziolas, fez durante a entrevista. Segundo ele, nem sempre é possível fazer uma brincadeira na manchete, pois há momentos em que o assunto retratado é triste ou trágico demais. É importante saber aproveitar os momentos em que o acontecimento permite ser divertido, usando sempre o bom senso. Por isso, veremos, a partir da tabela 6, qual tipo de manchete é mais utilizada para as capas. Tabela 6: Natureza da manchete Classificação Total Percentagem (%) Séria 17 54,83 Divertida 14 45,16 Número Total/ Base de manchetes 31 100 Sempre que se pensa nas capas do Meia Hora, o que logo vem na cabeça é alguma capa que tenha ficado famosa na internet graças ao humor presente na manchete principal. Portanto, o resultado obtido na tabela, apesar de mostrar uma diferença pequena entre as duas categorias, é surpreendente e ajuda a pôr em questão resultados anteriores, como o da tabela 3, que designa o entretenimento como principal valor-notícia do Meia Hora. É importante ter a consciência de que entreter em uma manchete não é, obrigatoriamente, ser engraçado ou utilizar-se humor, como já foi dito anteriormente. De acordo com o Houaiss (2009), entreter é prender ou desviar a atenção de algo, distrair a pessoa. Essa distração pode fazer a pessoa rir e se divertir, mas o sentido utilizado neste trabalho é o da habilidade de segurar a atenção de alguém pela manchete apresentada ou pela notícia. Dessa forma, as manchetes sérias, que são 17 (54,84%) só em janeiro, podem ter tanta capacidade para entreter quanto as divertidas. O critério utilizado para caracterizar uma manchete em divertida foi quanto à utilização de humor, ironias, piadas, trocadilhos e, até mesmo, a utilização de imagens que fossem engraçadas por qualquer motivo. Já em relação à manchete séria, esta estaria dentre 48 aquelas que retratam uma situação triste, que causam horror ou que, simplesmente, não transmitem nada além da informação. Conforme mostrado na tabela 3.3, o número de manchetes consideradas sérias foi maior do que as divertidas no período de um mês, apesar de não haver uma discrepância muito grande entre as quantidades. Em todo o caso, é possível relacionar esse resultado com o que Tziolas (2013) já tinha dito anteriormente, que o objetivo principal do jornal é informar o público, sendo a diversão uma função secundária para o veículo. Essa postura demonstra que o jornal realmente deseja passar uma seriedade e credibilidade para os seus leitores, pois nem sempre eles verão capas engraçadas ou que sejam lights13 em seu conteúdo. Por isso, o Meia Hora dar mais importância para as notícias sérias e que sejam de interesse humano também pode ser uma comprovação de que o jornal não quer viver somente das brincadeiras feitas para chamar a atenção, e sim, de um jornalismo sério e feito com profissionalismo. 3.7 - Classificação pelo conteúdo de infotenimento apresentado nas manchetes Após analisar fatores como os valores-notícia das manchetes, a capacidade de entretenimento e a sua natureza, resta identificar, através das categorias impostas por Dejavite (2006), qual o tipo de conteúdo de jornalismo de infotenimento que as manchetes se encaixam. Em seu livro, Dejavite estabelece 32 formatos que estão diretamente envolvidos com a junção de informação com o entretenimento: Arquitetura; Artes; Beleza; Casa e Decoração; Celebridades e Personalidades; Chistes e Charges; Cinema; Comportamento; Consumo; Crendices; Cultura; Curiosidades; Espetáculos; Eventos; Esportes; Formação Pessoal; Gastronomia; Fotografia; Indústria editorial; Ilustrações/infográficos/tabelas/boxes/gráficos; Informática; Jogos e Diversões; Moda; Música; Previsão do tempo; Publicidade; Rádio; Revista; Televisão e Vídeo; Turismo/lazer/hotelaria; Vendas e Marketing. Dejavite (2006) diz que chegar a esses elementos específicos foi uma tarefa nada fácil. Por ser um conceito híbrido, que envolve duas características, é complicado estabelecer uma definição completa do jornalismo de infotenimento. Desta forma, entende-se que o infotenimento ainda pode aparecer em diversas situações e sobre diversas formas que aqui não estão descritas. 13 Lights = Algo simplificado; Não radical; Moderado. 49 Nem todos os temas apareceram nas manchetes do mês de janeiro, por isso só foram incluídos na tabela aqueles que tiveram um número significativo para a pesquisa. Tabela 7: Conteúdo de infotenimento Classificação Número Percentagem (%) Beleza e Estética 1 3,22 Celebridades e Personalidades 7 22,58 Comportamento 2 6,45 Crendices 1 3,22 Curiosidades 22 70,96 Espetáculo 1 3,22 Fotografia 21 67,74 Ilustração/gráficos/boxes/etc. 14 45,16 Televisão e Vídeo 3 9,67 Número Total/ Base de manchetes 31 RM RM = Respostas múltiplas com percentagem excedendo a 100. Na tabela 7, o elemento que se destaca, aparecendo em 22 manchetes (aproximadamente 71%), é o de Curiosidades, que Dejavite (2006) explica como temas pitorescos, prêmios, tragédias, acidentes, crimes, catástrofes, etc. Grande parte das manchetes do jornal Meia Hora traz como destaque notícias que tendem a chocar as pessoas, pois esta é também uma das formas de atrair a atenção do público. Portanto, manchetes que falam sobre crimes e/ou assassinatos, assim como catástrofes que assolaram a cidade do Rio (manchete do dia 04/01/2013 que fala sobre as chuvas que causaram destruição em Caxias) e que, às vezes, chocam o Brasil (manchete do dia 28/01/2013 que fala sobre a tragédia na boate em Santa Maria) são bastante comuns, conforme demonstrado nas manchetes das figuras 17 e 18, consideradas curiosidades. 50 Figura 18: Manchete do dia 04/01/2013 Fonte: Site <http://www.meiahora.ig.com.br/>. Figura 19: Manchete do dia 28/01/2013 Fonte: Site <http://www.meiahora.ig.com.br/>. Esse tipo de manchete é analisado como infotenimento justamente por se categorizar como espetáculo ou como matérias que despertam o interesse humano. Além disso, a forma como essas manchetes são elaboradas, através de sentimentos como a indignação ou a revolta, contribuem para que essas sensações sejam sentidas pelos leitores, incluindo-os no assunto. 51 Também se destacam como conteúdo de infotenimento as fotografias e as ilustrações/boxes/gráficos e etc., presentes em 45,16% das capas (14 ocorrências). Estes são assim considerados porque estão quase sempre acompanhando a manchete principal para acrescentar informação ou, até mesmo, sensacionalismo à notícia. Com o recurso visual, a informação que está sendo passada na manchete passa a ter mais credibilidade (pois está comprovando o fato com a foto) e, dependendo do que está sendo retratado, emociona o leitor, fazendo-o sentir o drama ou a felicidade do ocorrido. Já as celebridades aparecem em sete das manchetes do mês de janeiro (22,5% das capas), mostrando que são um assunto de crescente interesse para os leitores. Os que mais aparecem, principalmente nesta época, são os participantes do reality show Big Brother Brasil, da TV Globo. Por ser um programa com uma audiência altíssima, tudo o que acontece na casa e depois que os participantes saem tornam-se assuntos do interesse do público e acabam por ocupar as manchetes principais. A partir dessa tabela, foi possível observar que os assuntos que mais aparecem nas manchetes são aqueles que podem ser classificados como sensacionalistas, pois a prioridade é despertar a sensação no leitor, seja tristeza, choque ou alegria. Por isso, a categoria de curiosidades, que representa algumas manchetes com conteúdo violento, trazendo assassinatos, violência e até morte como destaque de capa, é a mais publicada pelo Meia Hora, já que ela consegue mexer com diversas emoções do público. Além disso, esse tipo de informação, que pode ser nomeado como um espetáculo da morte e da violência, acaba despertando o interesse – ou a curiosidade – de todos, independente de nível cultural ou econômico da pessoa. Isso porque essas notícias trazem certa satisfação ao leitor, mesmo que inconscientemente, dos instintos agressivos do ser humano (ANGRIMANI, 1995). 52 CONCLUSÕES Este trabalho propôs comprovar, desde o início, a hipótese de que o jornal Meia Hora possui características do jornalismo de infotenimento na parte mais importante de sua composição, as manchetes de capa. Este gênero vem assumindo grande espaço no meio jornalístico, mas ainda de forma discreta, e, por isso, identificar o infotenimento no veículo seria um jeito de mostrar que a prática vem se tornando cada vez mais comum do que se imagina. Dessa forma, trazer as capas e as manchetes do jornal Meia Hora para um estudo que envolva os valores de uma produção de conteúdo de infotenimento é, somente, uma das formas de tentar demonstrar como este gênero vem dominando o jornalismo no Brasil e de acabar com ideias ultrapassadas sobre a qualidade de um produto jornalístico que envolva entretenimento. Assim, foram analisadas todas as publicações de janeiro de 2013, observando também como o discurso editorial é direcionado para a satisfação dos interesses do público e como isto influencia na popularidade do veículo no estado do Rio de Janeiro. De qualquer forma, a grande questão deste trabalho é se o jornal Meia Hora pode ser classificado como jornalismo de infotenimento a partir das propriedades que ele possui, já que ele é, declaradamente, um jornal popular, voltado para as classes econômicas menos favorecidas do Rio. De acordo com o que a autora Angélica Dejavite (2006) afirma, o Meia Hora pode ser identificado também como um jornalismo do infotenimento, já que ele visa informar e entreter noticiando acontecimentos que têm a capacidade de atrair o olhar do público. Portanto, notícias de interesse humano (como catástrofes e crimes) e notícias lights, que distraem e divertem o leitor, são suas principais manchetes, aparecendo, na maioria das vezes, como destaque nas capas. Todas as análises realizadas neste trabalho são capazes de demonstrar de alguma forma essa constatação, mesmo que elas analisem somente as capas e as manchetes do jornal. É, principalmente, através destas que o jornal demonstra seus objetivos e suas ideias, refletindo na parte mais chamativa do veículo (as capas) o que ele realmente deseja, ajudando a promovê-lo. São nas capas e nas manchetes que se observa o esforço da política editorial em atrair a atenção dos leitores fiéis e de possíveis leitores, sendo quase todas as suas ações, inclusive a utilização de características do jornalismo popular, de muitos recursos visuais e de uma diagramação propícia, pensadas com esse intuito. Além disso, a identificação do 53 entretenimento como um dos atributos mais recorrentes do Meia Hora foi essencial para evidenciar a necessidade e a sua vontade em distrair o leitor, seja com humor ou com sensacionalismo. Como foi dito por Dejavite (2006) o jornalismo de infotenimento tende, cada vez mais, a conquistar seu espaço na mídia, já que ela atende às demandas de uma sociedade que vem desejando mais facilidade, rapidez e diversão nas informações que consome. Ainda assim, Tziolas afirma que independente das tendências do jornalismo atual, esta mistura de informação com diversão sempre foi e sempre será uma característica essencial do jornal Meia Hora, fazendo parte do seu “DNA”, sendo ele assim desde quando surgiu, garantindo também a sua sobrevivência no mercado. Portanto, mesmo sem saber que realiza um jornalismo considerado infotenimento, a edição do Meia Hora o pratica, antes de mais nada, por ser um estilo desejável desde o seu início, comprovando também que esse gênero jornalístico pode estar, muitas vezes, presentes em diversos meios comunicativos de forma subentendida. Isso porque o conceito de infotenimento ainda não foi difundido amplamente na área. Mas é possível citar algumas características, apontadas por Dejavite (2006), que se fazem presentes no conteúdo e na forma apresentada nas capas do jornal Meia Hora que são exemplos do jornalismo de infotenimento. Entre elas estão a preocupação com a estética da manchete/notícia, sendo a utilização de muitos recursos visuais, a realização de uma diagramação específica, voltada para chamar a atenção, e o espaço dado à manchete principal comprovações disso; o emprego quase que constante do humor para promover a diversão dos leitores; e o uso excessivo de adjetivos e advérbios nos títulos das chamadas, dando a sensação de intimidade com o leitor, como se estivessem conversando. Além disso, os resultados das análises da tabela 5, que identifica a presença de entretenimento nas manchetes, e da tabela 3, que classificou a capacidade de entretenimento como o valor-notícia mais importante para o jornal, também comprovam a influência que o entretenimento tem no jornalismo praticado pelo Meia Hora. Nessas implicações, o sensacionalismo e o uso de ilustrações foram as características que mais apareceram nas capas, além da identificação de histórias de interesse humano como o tipo de conteúdo mais publicado pelo veículo. É interessante observar também que em uma das análises escolhidas para compor a pesquisa, observamos a natureza das manchetes, isto é, classificamos quanto ao conteúdo se elas são sérias (assuntos como tragédias, crimes ou que incitam tristeza e indignação) ou 54 divertidas (assuntos que permitem a utilização do humor, como trocadilhos e piadas). O resultado não poderia ser mais surpreendente: as manchetes mais utilizadas são as de natureza séria (54,83%), ou seja, aquelas que procuram passar a informação para o público sem diversão. Essa constatação mostra que o Meia Hora deseja obter também credibilidade e seriedade com o público, publicando capas, que mesmo utilizando do sensacionalismo em algumas das vezes, foram feitas para informar sobre o acontecido e não arrancar risadas e polêmicas com os leitores. Desta forma também, o jornal assume como objetivo principal trazer a informação para o público, independente do modo de abordagem utilizado para isso. Ainda que o editor-chefe Humberto Tziolas tenha receio em admitir a presença do sensacionalismo no jornal, é evidente que a prática, o ato de despertar sensações no leitor pela leitura da informação, é um dos atributos do veículo, talvez o mais importante. É através das manchetes sensacionais que o jornal garantiu sua fama e sucesso entre o público carioca e conseguiu estabelecer um número de tiragens que garante a sua sobrevivência no mercado. É como diz Amaral (2006), “o sensacionalismo é o grau mais radical da mercantilização da informação”. É por isso que, quando perguntado sobre a importância de criar chamadas para vender, Tziolas (2013) afirma que o Meia Hora é sim pensado comercialmente, assim como qualquer outro veículo que depende das vendas para continuar existindo. É importante deixar claro que consideramos o sensacionalismo praticado pelo Meia Hora um sensacionalismo diferente, que busca despertar a emoção no leitor, mas sem utilizarse de algumas características que no jornalismo popular dos anos 70 e 80 era comum, como “fotochoques” (fotos de imagens chocantes como corpos mutilados ou cadáveres) ou palavrões esdrúxulos para atrair a atenção do público. O que se vê nas publicações são, principalmente, expressões que estão na “boca do povo”, ou seja, expressões populares que, às vezes, apelam para a agressividade, mas que são comuns no dia-a-dia do leitor. Um exemplo é a chamada do dia 08/01/2013, que diz: “CV dá descarga em Cagão e toca o terror na Chatuba”. Neste caso, a palavra “Cagão” pode até trazer um caráter ofensivo e agredir a sensibilidade do leitor, mas ela é utilizada por ser um nome pelo qual o bandido era conhecido na favela e, portanto, como o público se referenciava a ele. Além disso, é possível constatar a presença de chamadas “inteligentes”, que tratam de um determinado assunto com um humor capaz de chamar a atenção e brincar comas palavras, referenciando a outras citações, como a manchete do dia 17/01/2013: “Família que vende pó unida permanece unida na cadeia”. Evitar publicações que tragam características da imprensa considerada “marrom” é essencial para um jornal que deseja ter credibilidade no meio comunicativo e obter 55 reconhecimento na área, pois esse tipo de prática sensacionalista possui, hoje em dia, uma reputação bem negativa com todos da sociedade. Repara-se claramente também nesta pesquisa o quanto o jornalismo popular pode estar ligado à prática do jornalismo de infotenimento, e vice-versa. Os dois gêneros possuem diversas características em comum, como a classificação de histórias de interesse humano como um valor-notícia e a utilização de uma linguagem que seja fácil e simples, e funcionam, portanto, muito bem quando misturados, que é o caso do Meia Hora. Outro exemplo que pode ser citado é quanto às funções dos dois gêneros. Amaral (2006) diz que se a função do jornal é “fazer saber” e “fazer crer”. O jornal popular acrescenta nessas atribuições o “fazer sentir”, levando o leitor a ter a sensação de pertencimento naquela sociedade. E essa é uma das funções em comum com o infotenimento, já que Dejavite (2006) também credita a ideia de que a notícia é um alimento social, ou seja, pauta para as conversas do dia-a-dia, como um quesito importante para o gênero. Mas é necessário ressaltar que nem sempre um conteúdo de infotenimento será popular, assim como o contrário, já que os dois gêneros podem aparecer de diversas formas e em diversos meios de comunicação diferentes. Uma das consequências que o gênero infotenimento pode trazer para a população é a sua capacidade em influenciar as pessoas para o hábito da leitura. Isso porque usa uma linguagem que pode ser facilmente entendida e o excesso de adjetivos e advérbios, para atrair a atenção do leitor e estimular a sua vontade e disposição para ler. Quem endossa esta ideia é o próprio Tziolas (2013), pois ele acredita que o Meia Hora possa ser um veículo que combina com quem tem o desejo de começar a ler um jornal impresso diariamente, sem nunca ter feito isso antes. Isso porque o jornal traz as informações com um jeito simples de ser compreendido. Além disso, o Meia Hora busca trazer, acima de tudo, as informações que o público tem interesse em saber, que despertam a curiosidade do leitor de classe C ou D. Isso envolve casos extraordinários, celebridades e seu estilo de vida, acontecimentos do bairro onde o leitor mora, crimes e assassinatos, entre diversas outras coisas que se encaixam no incomum. Sendo assim, fica claro que o jornalismo de infotenimento tem um valor importantíssimo para a sociedade atual, já que mostramos que é possível ele se fazer presente em vários meios e veículos comunicacionais do mundo, até mesmo em um meio impresso e de características populares, como o Meia Hora. O infotenimento também se mostrou capaz de influenciar os públicos, mudando alguns de seus hábitos (fazendo os ler mais) e alterando seu modo de ver as notícias, deixando de ser algo obrigatoriamente monótono e chato, e 56 passando a ser um passatempo interessante. Apesar de apresentar diversas iniciativas positivas para o público, é importante notar que nem todas as ações do jornal Meia Hora são boas. Ainda há um forte apelo sexual em suas capas e manchetes, muitas vezes desnecessário, que se faz presente mesmo que não haja nenhuma razão aparente para isso. Esse apelo vem principalmente de fotos de mulheres seminuas, algumas vezes para ilustrar uma matéria que não remete à sexualidade desta, e que tem o objetivo somente de chamar ainda mais atenção das pessoas, sem trazer um conteúdo significativo para isso. Além disso, como o próprio Tziolas (2013) afirmou em entrevista, um jornal como o Meia Hora, que tem o costume de utilizar o humor, seja ele de um gosto duvidoso ou não, possui muito mais chances de errar no bom senso do que outro jornal. Isso quer dizer que, algumas vezes, a manchete principal publicada não é bem vista pelo público ou pela crítica e que práticas, como a citada acima, ainda estão sujeitas a acontecer com frequência. Percebendo esses fatores positivos e negativos, é possível perguntar: o Meia Hora faz um jornalismo de qualidade? Considerando todas as suas características e, principalmente, o seu poder de persuasão para que o leitor se interesse na leitura do jornal, o Meia Hora produz um jornalismo que cumpre com o seu papel e seus objetivos claramente, atingindo um público popular e atraindo a atenção deste ao levar informações sobre a cidade, podendo ser, portanto, considerado um jornalismo de qualidade. Além disso, apesar dele brincar com o exagero e com a ambiguidade das palavras e frases publicadas nas manchetes de capa, o Meia Hora não infringe a ética jornalística que estabelece a divulgação de informações que sejam verídicas, trazendo sempre em subtítulos ou na evolução da notícia o sentido correto da informação que está sendo passada. A utilização do sensacionalismo nas manchetes, que muitas vezes brinca com as palavras para trazer humor à notícia, é mais uma das formas de buscar a atenção do leitor e de ser um diferencial frente à concorrência. Ele não impede que o jornal pratique o seu dever, que é o de informar e prestar um serviço ao seu público, por utilizar-se desse recurso. E em termos de prestar um serviço a seu público-alvo, o Meia Hora consegue cumprir esse dever, já que ele se preocupa em trazer as informações que o leitor deseja e precisa saber no dia-a-dia, além de criar colunas e cadernos especiais que atendem a algumas outras necessidades, como dicas de saúde, cursos de informática, etc. Ele se preocupa em informar o público sobre os acontecimentos da cidade e do mundo de uma maneira que mostre as consequências, diretas ou indiretas, para os leitores-alvo do veículo, alguém das classes mais populares, C, D e E. 57 Ou seja, o Meia Hora é um veículo que representa o que é o jornalismo popular e o que pode ser o jornalismo de infotenimento, pois ele pratica um pouco dos dois e é bem sucedido no mercado. É um jornal que tem potencial para agradar quem procura entretenimento e informação em um mesmo lugar, cumprindo o seu papel ao divulgar todos os fatos que sejam relevantes e de interesse para a sociedade e, ao mesmo tempo, entretendo com suas características chamativas e divertidas nas capas diariamente. Mesmo que o jornal, às vezes, peque no meio deste caminho, o essencial para se classificar como um veículo importante no cenário midiático carioca e, até, brasileiro, se faz presente e isto é refletido no que diz as últimas pesquisas14 sobre os veículos impressos do país: o Meia Hora já é um dos jornais mais importantes do Brasil. 14 Pesquisa sobre os maiores jornais de circulação paga do Brasil, sendo o jornal Meia Hora o décimo colocado no quadro geral. Informação obtida no site <http://www.anj.org.br/a-industria-jornalistica/jornais-nobrasil/maiores-jornais-do-brasil>. 58 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGUIAR, Leonel Aguiar. Informar ou entreter: questões sobre a importância e o interesse das notícias. In: INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, 32., 2009, Curitiba. Anais... São Paulo: Intercom, 2009. CD-ROM.; il. ; 4 ¾ pol. (recurso eletrônico). AMARAL, Márcia Franz. Jornalismo Popular. São Paulo: Contexto, 2006. 138 p. AMARAL, Márcia Franz. Os (des)caminhos da notícia rumo ao entretenimento. Estudos em jornalismo e mídia. Florianópolis: v. 5, n. 1., Jan./ Junho, 2008. p. 63 – 73. ANGRIMANI, Danilo. Espreme que sai sangue: Um estudo do sensacionalismo na imprensa. São Paulo: Summus, 1995. 156 p. ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE JORNAIS. Disponível em: <http://www.anj.org.br/a- industria-jornalistica/jornais-no-brasil/maiores-jornais-do-brasil>. Acesso em: 30 jan. 2013. BARBOSA, Marialva. História Cultural da Imprensa: Brasil – 1900 a 2000. Rio de Janeiro: Mauad, 2010. 247 p. CASTRO, Gisela G. S.; ROCHA, Rose de Melo. 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Entrevistador: Patrícia dos Santos. 61 ANEXOS Decupagem da entrevista feita por Patrícia dos Santos com o editor-chefe do jornal Meia Hora, Humberto Tziolas, no dia 7 de janeiro de 2013 *Arquivo de áudio disponível no formato MP3 no CD-ROM incluso no trabalho. Você conhece o termo infotenimento, que é informação mais o entretenimento? Talvez. Nunca tinha ouvido esse termo. É um termo novo. É mais ou menos você tentar passar a informação para o leitor de uma forma divertida. Você acredita que esse termo se encaixa na proposta do Meia Hora? Sim, não sei se todo dia. Tem uma série de coisas que o Meia Hora noticia e que são importantes e que muitas vezes não dá brincar. Quando você noticia alguma coisa mais trágica, mais triste. Uma enchente. Você deve tá acompanhando as capas dessa semana. Teve lá a enchente em Caxias que o Zeca Pagodinho foi ajudar. Aquele dia, por exemplo, não tinha nada assim de engraçado. “Um homem mata a ex a facadas dentro da Universal”, você não vai brincar com uma coisa dessas. Você que a manchete tá séria aqui. Então, quando é possível, eu acho que se encaixa sim... Mas até mesmo a linguagem, sendo mais coloquial, você vê uma forma de entretenimento? Eu acho que é a linguagem simples, pra todo mundo entender. O público do Meia Hora é bem popular. Ele é voltado pro público popular. Geralmente, é das primeiras coisas que esse público tá lendo. A gente tem uma pesquisa lá no começo do jornal que mostrava isso, que grande parte dos leitores não vinha necessariamente de outro jornal, era a primeira vez que ele tava lendo alguma coisa na vida dele, entendeu. Então, a gente procura fazer uma coisa bem simples e quando dá, quando é possível, com graça, com bom humor. Uma coisa assim, que é do Rio mesmo, de ter uma coisa mais engraçada, mais despojada. Nem todo dia é assim, mas certamente aqui também alguma outra coisa, na mesma página, que é engraçadinha. Acho que dá pra seguir nessa linha tranquila. É uma das principais propostas, agora às vezes a coisa é triste demais ou trágica demais, aí não dá pra fazer piada. Às vezes as manchetes vêm com umas polêmicas, umas brincadeiras, uns trocadilhos... Qual é o objetivo disso, conquistar o leitor que tem menos estudo? Não, é conquistar todo mundo. É chamar atenção, é fazer uma coisa divertida que, exatamente como você falou, que você possa informar e que possa divertir. Isso no caso do Meia Hora, cada jornal tem sua característica. A Folha de São Paulo, que é um ótimo jornal, mas é um ótimo jornal de outro tipo. Não estou dizendo que seja o certo, é o que se faz no Meia Hora. Então é uma forma de chamar a atenção, de atrair o leitor para aquele assunto, de atrair mesmo o cara para querer ler aquilo. Você acha que também é uma forma de ajudar nas vendas? Claro. Tudo que você faz num jornal ou qualquer outra empresa, você tá pensando em vendas. Claro, você não pode ultrapassar aí limites éticos, a verdade por conta de vendas, claro que não. Agora você não pode achar que é errado, como às vezes algumas pessoas... Não é o seu caso tá, mas de faculdade e tal e pensa “Mas faz a manchete pra vender!”. Claro! Como o cara que é dono de uma padaria tenta fazer o melhor pãozinho pra vender, ou o cara que tem uma loja de calça jeans, ele faz uma calça jeans legal pra vender. Você não pode é claro mentir, inventar alguma coisa pra vender, aí é outro conceito. Mas é óbvio que quando a gente faz uma manchete que fica legal, interessante, acaba vendendo mais. A gente tem que pensar nisso sempre, senão o jornal fecha. Você tava falando que tem manchetes que não dá pra brincar porque é mais sério... Qual que é o limite moral de fazer a piada ou o trocadilho? Quando for engraçado. Eu acho que se você fosse fazer uma piada com isso aqui (manchete do dia 07/01: “Homem mata ex a facadas dentro da Universal”) não ia ter graça. Seria uma piada ruim. Então a gente não faria por isso, por respeito às pessoas e ninguém ia gostar disso. Eu acho que o limite é o bom senso, entendeu. Quando a gente faz uma manchete do dia que o Ronaldinho no meio do jogo chamou o Edmundo pra fumar maconha... Aí é um negócio que dá pra brincar a beça, que ficou pela internet o dia inteiro. Agora uma coisa como essa, se eu fizer uma piada aqui não vai ter graça nenhuma. Você acredita que utilizar das piadas, dos trocadilhos, dessas manchetes mais polêmicas, pode ser uma estratégia que o jornalismo impresso tem que usar pra sobreviver? Ele tá diminuindo, mas eu acho que não. Uma estratégia não. Eu acho que o Meia Hora seria assim, se ele existisse há 20 anos atrás, quando a internet tava começando, ele seria do mesmo jeito. Ele é assim, é uma característica dele. Talvez no caso do Meia Hora é questão sobreviver, vender, existir, fazer as pessoas comentarem. Agora ele não é assim porque o jornalismo impresso está ameaçado, não é. Agora pode ser até que sirva pra ele se manter, mas ele sempre foi assim, ele não passou a ser assim porque o jornalismo impresso está ameaçado. Tanto que o mais tem são coisas parecidas na internet. Até mesmo de humor, “Sensacionalista” e vários de notícias que são falsas e tá na internet. Então, eu acho que tem isso que você tá falando, mas o jornal vem antes disso. Mas pode ajudar? Pode. Como qualquer jornal impresso, por exemplo, O Globo, ele é da maneira que é e isso o ajuda a vender, a ter assinante pra caramba e a sobreviver. Se você quiser botar assim, é, mas ninguém pensou assim, “Ah, o jornal impresso está ameaçado, então vamos botar uma piada e tal”. O Meia Hora é assim, o DNA dele, se não for assim, não é o Meia Hora. Então ele vai ser assim em qualquer situação. E ele teve alguma inspiração, como o Notícias Populares de São Paulo? Talvez, talvez... É um pouco diferente, mas... Bom, pode ser. Eu e outras pessoas que estão desde o começo comentávamos que lembrava... Enfim, acho que pode ser uma inspiração sim. O Notícias Populares acabou em 2001. O que vocês acham que estão ou podem fazer para que o Meia Hora não tenha o mesmo fim? Mas o Notícias Populares eu não sei porque que ele acabou, não conheço detalhes da história. Ele não acabou porque que era assim, ele era um sucesso por ser assim, por algum motivo, provavelmente econômico, ele teve problemas que levaram a ele terminar... O Diário de São Paulo que é um jornal super sério, acabou de acabar. A revista Newsweek acabou de acabar, vai ficar só na internet... Então eu acho que jornal surge, jornal acaba, sempre teve isso pelos mais variados motivos. Mas vocês pensam nisso, no que vocês podem fazem pro Meia Hora não acabar? Mas o Meia Hora é um sucesso de vendas! A gente não tá pensando no Meia Hora acabar.. Do jeito que ele é, é um sucesso. Pode ser que em algum momento a gente perceba que tem que mudar alguma coisa, mas até hoje, ele vai fazer oito anos, o público adora. Então, você tem essa coisa do jornal impresso estar diminuído? Tem isso sim... Atinge também o Meia Hora. Mas acho que atinge até os jornais maiores, maiores que eu quero dizer os mais tradicionais do que o Meia Hora. A que você credita esse sucesso do Meia Hora? Porque eu acho que as pessoas gostam. A gente tenta fazer o que as pessoas gostam, a gente tenta explorar os assuntos que as pessoas gostam, a gente tenta sempre ter esse bom senso aí de quando é possível a piada e quando não é. A gente procura ficar ao lado das pessoas, defender, ter o jornal como serviço. Por exemplo, o Meia Hora tem diariamente uma página de empregos, você tem o cursinho de informática, que tem temas, segunda, terça, quarta, quinta e sexta, são cinco aulinhas. Você tem coisas de saúde, tá lá o roteiro pro cara fazer coisas de graça. Você tem uma série de coisas que eu acho que o leitor sentia falta antes de o Meia Hora ser lançado. Do tipo, um jornal menor, mais resumido, que não seja um “jornalão”. O próprio nome diz “Meia Hora”, quer dizer, em meia hora o cara fica informado, que ele pode ler a caminho do trabalho, numa condução, ele pode tá em pé e ler, não é aquele jornal que despenca todo na mão. Basta ver tudo o que aconteceu depois que o Meia Hora foi lançado aqui no Rio. Com seis meses O Globo lança o jornal O Expresso que é idêntico ao Meia Hora, cada sessão é a mesma coisa só que outro nome... E eu não estou condenando não, as coisas são assim mesmo. Outros jornais ganharam este formato, por exemplo, O Dia, o JB na época. Surgiram aí os gratuitos que têm este formato também, o Metro e o Destak. O Povo que é um jornal aqui do Rio, tratava muito de cadáver, aquele jeito popular, mais dos anos 70 e 80, deixou o cadáver de lado e foi mais pra essa linha divertida do Meia Hora. Então, eu acho que quando o Meia Hora quando chega ele provoca uma mudança. E como é este processo de criação das capas? O que vocês pensam primeiro? O que vocês pensam por último? Quais são os profissionais que participam deste processo? Olha, tem eu. Tem o diretor da redação que é o Ramiro, que tá lá dentro, que é o diretor de tudo do O Dia e Meia Hora. E o Meia Hora tem uma coisa legal que é que todo mundo, o tempo inteiro, está sugerindo alguma coisa. Às vezes a pessoa nem é jornalista nada... “Ah, isso é bom pro Meia Hora”, algum amigo, alguma coisa. Tem a editora do jornal mesmo que é a Joana, tem os subeditores e tem o resto todo aqui da redação e tem as pessoas de fora. Então, as sugestões vêm de todo o lado. Já teve manchete que a gente fez que foi uma piada que o porteiro fez na hora em que eu tava saindo. A capa sendo eu que faço, normalmente, eu e a Joana. A gente conversa, mas não é aquela coisa formal, a gente tem uma reunião de pauta, que é uma hora da tarde, que é a reunião de pauta do O Dia, e a gente toma pé mais ou menos dos assuntos que tão rolando, e depois a partir daí, fica de olho em como esses assuntos estão se atualizando, se vão surgir assuntos novos ou não. E a partir daí ver o que tem mais a ver com a cara do jornal, como que poderia ser, como fazer mais engraçado, por aí. Não tem assim uma coisa formal de criação, vamos sentar todos aqui agora e dar palpites. A gente fica o dia inteiro se falando, trocando email, alguém manda. Acabou de ligar agora, na hora que você tava subindo, um amigo que trabalhou aqui, mas que trabalha na Veja hoje, “Ahh, você viu não sei o que hoje? Tem um bandido que é cara de um jogador de futebol...”. Entendeu, o tempo inteiro tem alguém sugerindo alguma coisa pro Meia Hora. Os repórteres do O Dia vão pra rua e antes de escrever a matéria, às vezes, vêm sugerir. “Olha, isso aqui, lá na matéria do O Dia nem é importante, mas vê se não fica legal no Meia Hora”. Até que é um processo divertido, então. É, nem sempre... Mas as pessoas assim, eu sinto isso e é legal, elas sentem um carisma pelo Meia Hora, sabe? As pessoas gostam. “Pô, a minha sugestão virou a manchete”. Eu não sou muito de ficar vendo Facebook, eu esqueço e tal, aí o pessoal que é mais ligado fala “Aí, tá rolando isso aqui assim, é uma piada e tal”. Todo mundo sugere coisas. As editorias de economia, política, mundo, essas editorias que são consideradas mais sérias, acabam não aparecendo muito nas capas do jornal Meia Hora... Não, a página 2 aqui, que é a nossa economia, ela de vez em quando é até manchete, quando tem geralmente empregos ou coisas ligadas a salário mínimo. Ajuste do salário mínimo é sempre destaque. PEC das domésticas... A gente cobriu isso muito. A gente cobre economia bem e política, pra você ter uma ideia, a gente não tem um espaço grande no jornal pra semana inteira, mas quando tem... Quando tem eleições, a gente cobre bem. Coisas que a gente acha que seja do interesse do público. Por exemplo, pra você ter uma ideia, o jornal que mais vendeu do Meia Hora até hoje, nesses quase 8 anos, é uma manchete de política. Foi o dia seguinte à outra eleição pra prefeito, que era entre Eduardo Paes e Gabeira. E aí a gente deu um “listão” dos votos pra vereador e tal... Até hoje, nenhum assunto superou isso. Mas a maioria é polícia, é entretenimento, do tipo celebridades... Olha, eu diria que tem quatro coisas importantes, que estão mais presentes. É o Rio de Janeiro, que aí envolve Polícia, envolve coisas que não são Polícia também, coisas da cidade... Esporte, que tem muito. Futebol, principalmente. A parte aí de Celebridade, novela, cultura, entretenimento, se quiser chamar... E o quarto eu colocaria os serviços, que aí eu acho que entra a nossa economia, entre aquilo que eu te falei da aulinha de informática, das dicas de saúde de coisas gratuitas de saúde, que a gente faz muito. Empregos. Enfim, eu diria que são os quatro pilares. Mas a gente não deixa de dar outras coisas, entendeu. Se tiver outro assunto que a gente ache interessante, que valha a pena... Nessa eleição de 2012 teve um monte de matéria de serviço, listando onde que o cara vai votar, como que vota, quem são os candidatos, a gente fez quais as propostas de cada um, uma coisa bem didática. Mas cada jornal tem a sua característica. Realmente, não é uma característica forte do Meia hora ter um noticiário de política. Mas aí tem outros jornais pra isso. Acho que tem pra todo mundo, tem escolha a vontade na banca. O Meia Hora tem, mas não é o principal. Economia até tem mais, como você citou, mas também não é a economia convencional. Tipo, se a taxa CELIC mudou... A gente vai tentar ver qual é a consequência disso no dia-a-dia. Se a prestação ficou mais cara, se agora parcelar a sua compra tá valendo a pena ou não tá, a gente tenta traduzir. Ainda há uma polêmica no jornalismo. Como você falou, que até mesmo estudantes universitários não creditam o entretenimento como um gênero jornalístico... Eu falei isso? Não, eu não falei isso. O que eu disse foi que estudantes criticam a questão de fazer manchetes e capas para vender. Como se fosse um erro. Você pega o jornal mais sério, mais “caretão”, tipo o Estadão. Até o Estadão está pensando em vender, senão ele vai acabar. O que não pode é mentir, inventar alguma coisa, forçar uma barra com o único intuito de vender. Aí claro que não, dou toda razão. Agora às vezes falam “Ah, a manchete é só pra vender!”. É claro que é pra vender, se a manchete for legítima, verdadeira, que mal tem isso? Se a empresa não vender, a empresa fecha. Por isso que eu brinquei com o dono da padaria, o dono da sapataria... Qualquer dono está preocupado em vender. Isso não quer dizer que ele vai fazer um pão de qualquer jeito, só pra vender e dane-se. Não é isso... O que eu estava querendo dizer é que há alguns profissionais jornalistas que pensam que o entretenimento não é um gênero jornalístico legítimo. No caso eles acreditam que o jornalismo de verdade deveria ser de notícias mais sérias, como política, economia, mundo. E não gostam de sensacionalismo. Mas o que é sensacionalismo? É estar sempre tentando polemizar. Às vezes, dar ênfase a imagens chocantes também... É porque quando falam de sensacionalismo, as pessoas pensam logo naquilo que a gente tava falando agora pouco, de você inventar, de você criar coisas que você nem sabe direito se é mesmo e dane-se, joga lá. Eu não acho que o Meia Hora faça isso. Não necessariamente que sensacionalismo significa não ter ética. Mas há questão de polemizar mesmo. Acho que essas pessoas caracterizam isso como sensacionalismo. Não sei. O Meia Hora não traz imagens chocantes. Você tá falando de cadáver, sangue? Também. Nudez, coisas assim. Eu brinco sempre com a “Gata da Hora” (sessão do jornal que traz a foto de uma mulher seminua). Eu sempre falo o seguinte quando alguém pergunta: “Para na frente de qualquer banca e olha as revistas femininas mais caras, como Vogue, Elle, Nova, Marie Claire... O que tem na capa de todas? Não é uma mulher de biquíni?”. A “Gata da Hora” tá sempre de biquíni ou uma roupa mais sensual... Até que essa aqui que eu peguei (“Gata da Hora” do jornal do dia 07/01 – Está somente de calcinha e com as mãos nos seios) está mais quente que o normal, não foi um bom dia pra eu falar isso. Normalmente, elas estão sempre de biquíni. Mas aqui não tem nada aparecendo. E nessas outras revistas ninguém critica. E no Meia Hora, acho que as pessoas até elogiam muito. Mas uma vez que eu fui lá na UFF, veio alguém com um papo de que a sessão não respeita as mulheres... Pelo amor de deus, a gente mora no Rio, a gente vai a praia, você tá “queimadassa”, você vai à praia, não é possível que isso aqui choque alguém. Eu acho que não. E pra você ter uma ideia, a gente sempre bota, se você acompanha o Meia Hora, uma estrelinha, uma carinha, tampando a nudez. Uma vez tinha a Mulher Melancia, uma foto dela daquele jeito. Aí a gente botou tipo uma melancia, escondendo, entendeu? Eu não acho que há imagens chocantes... Ok, mesmo que você não ache que o Meia Hora tenha algum tipo de sensacionalismo. O que eu queria te perguntar é que ainda há profissionais que acreditam que o jornalismo sério é aquele que fala de assuntos considerados importantes. Eu te confesso que não vejo isso não. As pessoas mais sérias de economia, amigos meus que trabalham na Veja... Pelo contrário, eu vejo muito que as pessoas gostam do Meia Hora, de sugerir coisas. A minha irmã é jornalista também... Tá que é meio suspeito pra falar, mas ela tá lá no O Globo e ela sempre brinca que as pessoas chegam pra ela e falam: “Olha isso, isso é pro seu irmão!”. Eu não sei o que é isso que você tá falando. Eu mesmo conheço alguns jornalistas que pensam desta forma. No meio acadêmico, por exemplo. Sei, aqueles que em geral nunca entraram numa redação. É óbvio que a gente, em oito anos, pode ter feito alguma coisa que a gente errou. “Pô, aqui a gente errou a mão”. É muito mais fácil você errar num jornal como o Meia Hora, do que você errar ali num O Globo, Estadão, a Folha, que é aquela coisa seca, é a notícia... Não estou falando mal, claro, já trabalhei lá e posso voltar a trabalhar. É aquilo que eu falei, tem pra todo mundo. Tem de todos os jeitos. A gente procura não errar, claro. Quando você tem que fazer alguma coisa engraçada e você fica ali na fronteira, você pode errar. A gente procura acertar, mas, às vezes, não consegue. Mas é que se acredita que o jornal é feito para formar leitores intelectualmente... Então eu vou te dar um dado maravilhoso pra isso que você tá falando. Eu não vou ter os números certinhos agora... É uma pesquisa lá do início do jornal. Tem um ranking, que eu acho que é o MARPLAN que faz, que é do número de leitores das capitais do Brasil. Quando o Meia Hora surgiu, o Rio era terceiro lugar. E aí passou um tempo, depois que o Meia Hora foi lançado, e o Rio passou a ser o primeiro lugar do número de leitores de qualquer coisa, livro, jornal, revista, etc. E isso não é a gente que tá dizendo, é o MARPLAN que é um órgão sério. E um dos motivos pra isso é o lançamento do Meia Hora. É aquilo que eu te falei, 40%, 50% dos leitores do Meia Hora passaram a ler alguma coisa pela primeira vez com o surgimento do Meia Hora. Isso pra contribuir pra formação intelectual de alguém é uma coisa maravilhosa. A pessoa passa a ler alguma coisa na vida pela primeira vez porque apareceu alguma coisa que ela entendia. Essa pessoa não vai pegar a Folha de São Paulo, o Valor Econômico e vai ler... É uma porta de entrada. É uma coisa que até que orgulha a gente. O que também tava querendo dizer é que, como você falou, o Meia Hora é um jornal pra você ler no tempo livre, indo pro trabalho. Talvez, funcione como uma forma de escapismo do diaa-dia, você poder ler alguma coisa engraçada no jornal... Eu não sei, acho que isso não tá em primeiro lugar. O que tá em primeiro lugar é se informar. Tanto é que o Meia Hora, ao contrário de todos os jornais, ele vende muito mais durante a semana do que no fim de semana. Todos os jornais, se você pegar, o dia que mais vende é no domingo que é o dia que o Meia Hora menos vende. Porque aí no domingo talvez o cara queira alguma coisa mais profunda, uma revista... E aqui eu acho que é o cara mesmo sem tempo, que nem tem o hábito de ler, então ele quer uma coisa “menorzinha”. E ele é muito mais vendido em dia de semana. Normalmente, é o cara a caminho do trabalho, ele vem lendo dentro do trem. Mas ele informa e entretém. Não é aquela coisa maçante... Sim. É, aqui é pro cara se informar... Em meia hora de leitura, o principal tá aqui. Você fala: “Ah, política não tem muito”. Mas tudo que acontece, uma notinha tem lá! Pode não tá na primeira página. Então é isso, eu acho que existem tipos diferentes... Aquilo que eu falei, o cara que vai ler alguma coisa pela primeira vez se for pegar o Estadão, coitado, não vai conseguir ler aquilo. Eu vejo assim, eu acho que tem pra todo gosto. De repente o cara começa a ler o Meia Hora e tal, daqui a pouco ele pode ter conseguido um emprego porque a gente diariamente tem uma tabela de empregos disponíveis aqui, tem aula de informática... Quer dizer, daqui a pouco ele consegue um emprego e daqui a pouco pode estar até tá lendo outro jornal, de um nível... Não de um nível, mas que exija um intelecto um pouco mais a frente. Eu acho que são tipos de coisas, como você tem rádios mais populares, você tem uma coisa mais cabeça. Tem pra todo mundo. Ninguém tá certo nem errado, nem é bom nem ruim. Eu vejo assim. Capas do jornal Meia Hora de janeiro de 2013 *As capas também estão disponíveis em formato PDF no CD-ROM anexado a este trabalho. 1) 3) Capa: 01/01/2013 Capa: 03/01/2013 2) 4) Capa: 02/01/2013 Capa: 04/01/2013 5) Capa: 05/01/2013 7) Capa: 07/01/2013 6) 8) Capa: 06/01/2013 Capa: 08/01/2013 9) Capa: 09/01/2013 10) Capa: 10/01/2013 11) Capa: 11/01/2013 12) Capa: 12/01/2013 13) 15) Capa: 13/01/2013 Capa: 15/01/2013 14) 16) Capa: 14/01/2013 Capa: 16/01/2013 17) Capa: 17/01/2013 19) Capa: 19/01/2013 18) 20) Capa: 18/01/2013 Capa: 20/01/2013 21) Capa: 21/01/2013 22) Capa: 22/01/2013 23) Capa: 23/01/2013 24) Capa: 24/01/2013 25) 27) Capa: 25/01/2013 Capa: 27/01/2013 26) 28) Capa: 26/01/2013 Capa: 28/01/2013 29) 31) Capa: 29/01/2013 Capa: 31/01/2013 30) Capa: 30/01/2013 Tabelas As tabelas estão disponíveis em formato digital no CD-ROM anexado a este trabalho.