A utilidade da abordagem ética do desporto
Zélia MATOS
Faculdade de Desporto, Universidade do Porto, Portugal
Necessidade da ética
É corrente julgar-se que só se preocupa com a ética quem já
tendo tudo se pode dar a esse luxo: os países ricos, as actividades
intelectualmente importantes. Ora, a ética diz respeito a todas
as nações, a todos os cidadãos e a todos os aspectos do mundo.
Discutir o desporto no plano ético não é, portanto, um luxo de
quem já discutiu tudo o resto. Ao invés, é algo imperioso na
construção de um desporto promotor do Homem.
O interesse ético consiste em fundamentar racionalmente a
acção que escolhemos na plenitude de sentido do nosso querer
(SAVATER, 1995, p.5). Escolha que não se baseia em tal ou tal interesse
determinado mas se insere na tendência natural que nos impele para
o desenvolvimento e apela ao esforço para o esclarecimento racional
que nos permite dar conta da escolha feita e do seu porquê. O
compromisso da ética é com o explícito apesar do interesse ético,
contrariamente a todos os outros interesses, ser o único que não é
visível (SAVATER, 1995, p.25). O cunho do desporto é a sua relevância
humana e social, o que, inevitavelmente, nos remete para a necessidade
de equacionar a sua substância ética e moral (BENTO, 2004). A
abordagem ética é necessária para entender o desporto na plenitude
do seu sentido completo e complexo e o legitimar como totalidade.
Uma ética que nos livre de superstições e nos conduza a uma acção
(através do desporto) livre e criadora do homem. Optar pela ética é
renunciar ao direito de guardar silêncio sobre o que nos parece
essencial.
Dificuldades da ética do desporto
Perante muitos desenvolvimentos do mundo do desporto
muitas vezes parece que a ética surge como demasiado
inverosímil. Tanto em termos práticos como em termos teóricos.
A nível prático, porque o desporto também vive num mundo
lamacento de egoísmos, violências, mentiras e não só, parece
quase risível invocar a ética para nos ajudar num contexto assim.
A nível teórico muitas vezes existe a tentação de substituir o
discurso ético e a sua capacidade operativa por outros discursos
e sistemas, nomeadamente pelo discurso científico1.
A “crise de valores” é muitas vezes argumento da discussão da
dificuldade do discurso ético no desporto. Estará o discurso
ético do desporto ultrapassado numa sociedade marcada pela
“crise de valores”? Mas, é hoje pior do que antes? O desporto
global que emerge da sua expansão e da sua cada vez maior
ligação a outros sub-sistemas sociais é hoje mais manipulado
do que outrora? Na Grécia, em Roma, com Cobertin, vivia-se
numa sociedade onde o respeito pelos princípios morais era
maioritário e evidente? O mundo em que viveram era menos
propenso a abusos e barbaridades que o mundo actual? Ou será
que as limitações técnicas e as dificuldades de comunicação
desses tempos reduziram os problemas e a sua espectacularidade
à luz da nossa compreensão actual? Como afirma SAVATER (1995,
p.27) “a exigência ética sempre esteve em dramática minoria
perante a realidade histórica maioritária”. Acresce que a natureza
dos valores é ela própria crítica. A condição “mutante” do
homem e a sua tendência natural para realizar os esforços
necessários para se desenvolver remete-nos para o ideal. E o
ideal é o que nunca se pode considerar acabado.
Mesa Redonda
Filosofia, Ética e Moral no Esporte / Atividade Física
XI Congresso Ciências do Desporto e Educação Física
dos países de língua portuguesa
Necessidade e posições acerca da ética do desporto
O desporto é uma criação humana. Os animais jogam, mas nunca
se viu um animal a fazer desporto (SAVATER, 2000, p.98-99). O
desporto, pleno de corpo, movimento, sentido lúdico e rendimento,
inscreve-se no âmbito da acção (humana). A sua grande riqueza
permite ao homem preencher uma parte especial da sua existência.
Então as coisas não são o que são? O desporto não é o que é?
Depende. As coisas são o que são e o que podem ser. Também o
homem e as suas acções. Somos as nossas possibilidades reais e o
imprevisível desabrochar das nossas possibilidades, seres híbridos
da realidade e da possibilidade, cidadãos divididos entre a realidade e
o desejo (MARINA, 1996, p.31). Ao homem não basta nascer é
necessário também aprender e, o que ainda não somos pode, pois, ser
de várias maneiras. Também no desporto. Se por toda a parte, o
próprio homem é o pior estorvo para o seu destino e o impulso que
leva os homens a pretenderem a sabedoria é do mesmo género que
o impulso que os desvia para o erro, a falsificação ou o disparate,
também no desporto nem sempre a sabedoria (para a qual a ética
concorre) tem acompanhado o homem no restaurar na sua
humanidade. E o desporto tem de ser humanamente digno!
Continua a ser verdade no desporto actual a perda de humanismo
(com destaque para o doping), a brutalidade crescente dos vários
actores (que tornam a agressão corrente), os sistemas de transferências
Rev. bras. Educ. Fís. Esp., São Paulo, v.20, p.149-51, set. 2006. Suplemento n.5. • 149
XI Congresso Ciências do Desporto e Educação Física
dos países de língua portuguesa
limitativos do direito de opinião dos atletas, a comercialização
crescente (tornando difícil harmonizar o desporto com a ideia de
bem), o desporto de rendimento de crianças; os episódios de
corrupção... Mas, como afirma LÉVI- STRAUSS (1996) “a barbárie é
antes de mais o homem que acredita na barbárie”. E se não basta
reconhecer esta aberração e declararmo-nos contrários, para
convencer os muitos que nela crêem, mesmo que não o manifestem
abertamente, também a mera defesa do desporto não assegura um
desporto digno. A ser assim, perante qualquer ameaça, prevaleceria a
defesa do desporto sobre a defesa da dignidade humana.
Basicamente podemos adoptar três posições (adaptando o
raciocínio de CHANGEAUX (1997, p.21):
1) Posição estritamente tecnicista, para a qual a questão da ética
não se coloca. É a tese do laissez-faire ético. Funda-se no elogio do
desporto considerado um bem em si mesmo e, muitas vezes, elevado
à possibilidade de salvar cada um, o seu clube e o país.
2) Posição abstencionista fundada numa heurística do medo.
Aposta numa ética que, por entraves livremente consentidos, impeça
o poder do homem de se tornar numa maldição para si próprio.
Não trata do progresso e do aperfeiçoamento, mas da conservação
do que existe, da preservação e até do impedimento. Mais não faz do
que chamar à “responsabilidade”. É de crer que esta posição
acompanhe a negação de um desporto capaz de realizar os valores
do homem e até de o satanizar a propósito de alguns rumos do seu
desenvolvimento. Depois, tomando a parte pelo todo e enfatizando
os aspectos mais negativos, convenientes a esta ética do medo, constrói
obstáculos de todo o tipo. Se o desporto pode ser “mau” o melhor
é impedi-lo de ser!
Seria talvez um instinto de suicídio ético partir da posição de
“laissez faire” ou abstencionista Parafraseando MARINA (1996,
p.218) é necessária uma ética da dignidade que fundamente a
(sobre)vivência do desporto. É por isso que não são os direitos
adquiridos que vêm de trás que nos movem. É nesta medida
que a justificação ética do desporto não vem do lugar social
importantíssimo já alcançado, mas sim do futuro que construir.
Dado que o homem não se pode descansar naquilo que já lhe é
dado, será no nível ético que terão de ser inventadas as
possibilidades do futuro do desporto.
3) Uma terceira via acredita na discussão, no debate ético e na
vontade esclarecida dos homens. Inscreve-se numa perspectiva
humanista e pluralista. A sua intenção é conciliar as enormes
contribuições que o desporto oferece ao indivíduo e à sociedade
com o respeito da dignidade do ser humano, do seu corpo e das suas
liberdades individuais. Esta via reclama o debate e a participação de
forma democrática, do conjunto do corpo social desportivo. Tentará
importar para o desporto entendimentos sábios que nos recordam
que nem tudo o que pode ser feito o deve irremediavelmente ser.
Retomamos SAVATER (1995, p.57) que nos recorda a este propósito a
virtude aristotélica da prudência. Trata-se então de “inventar” uma
nova ética do desporto assente no entendimento de MARINA (1997,
p.31) que nos diz que “conjugar a realidade e a possibilidade é a
grande arte da invenção. A sua integração impede-nos de cair na
mera fantasia”. Há sempre lugar para o que CHANGEAUX (1997, p.25)
chama inovação ética no decurso de um debate esclarecido e
constantemente actualizado. A invenção de uma terceira via que
apresente uma solução aceitável pela maioria, convergindo para um
acordo normativo, provisório (adjectivo de Descartes) que não deve
confundir-se com consenso mínimo ou com unanimidade sobre o
mal menor. O acordo será geral e não necessariamente unânime.
Como refere MCNAMEE (2002) muitos filósofos desistiram de
uma ética do desporto neutra e descritiva e apresentam propostas
normativas que partem da clareza e coerência razoáveis das
posições que desenvolvem. O progresso (se aceitarmos o termo)
das nossas sociedades (e do desporto) será função da “partilha
de oportunidades” historicamente criadas. A importância de uma
ética normativa do desporto (seja na perspectiva teórica que
conduz à ênfase dos deveres ou regras, ou ao utilitarismo que
enfatiza as consequências das acções ou à ética da virtude que
remete para os critérios de uma vida boa) releva da compreensão
de que a neutralidade ética não existe e qualquer norma parte de
um entendimento quanto ao que convém ao ser humano
(MCNAMEE, 2002).
Actualização dos temas da ética do desporto
Permanecem temas tais como: equidade; acesso ao desporto
(questões de raça, deficiência); sub-culturas e práticas desviantes tais
como o hooliganismo, a fraude no desporto, o abuso sexual, o
doping); desporto lugar de exploração e abuso de crianças; homofobia,
(MCNAMEE, 2002). A relação da fairness (ou da moral) com o desporto2,
estudada desde sempre, é tão complexa e multifacetada, que nos
convida a uma pluralidade de abordagens sempre renovada
(PAWLENKA, 2005, p.49). Actual ainda é a crítica às regras dos jogos
desportivos numa indicação clara de que exigimos sempre mais das
actividades comuns da vida e de que somos capazes de encontrar
sempre novos caminhos para as melhorar (KRETCHMAR, 2005, p.3637): os desportos não são perfeitos, têm falhas reveladoras da sua
criação pelo homem que se manifestam nas irregularidades que
acontecem durante a competição, nos enigmas éticos e nas questões
estéticas e na adequação das regras constitutivas de cada desporto.
Muitas críticas aos desportos permanecem: alguns são enviesados
em relação ao género, outros são perigosamente distorcidos pela
lógica da ideologia política ou dos imperativos da economia, outros
ainda, como o boxe, promovem valores no mínimo discutíveis.
Além de novas possibilidades de questionar problemas tradicionais
existem tarefas novas relacionadas com os novos problemas do
desporto cuja realidade se alterou. Se existe uma pluralidade de
contornos e sentidos no desporto actual, se existem diferentes culturas
desportivas, também temos de equacionar que existem diferentes
morais no desporto. A ética tradicional do desporto de competição
e do desportista tornou-se insuficiente. Acresce a esta ética co-
150 • Rev. bras. Educ. Fís. Esp., São Paulo, v.20, p.149-51, set. 2006. Suplemento n.5.
existencial um conjunto de novos tópicos: uso da engenharia genética
no desporto; lugar das actividades de aventura numa cultura que
previne o risco; papel do desporto no apoio e mudança de
comunidades; identidades e sexualidades; ética ecológica para o
desporto num mundo global; intervenções éticas das organizações
e culturas do desporto (MCNAMEE, 2002).
Em suma
Será a ética o reino da dificuldade? A ética é o “reino do manterse em voo” (MARINA, 1996, p.194). E, o que nos mantém em voo, é
o ânimo razoável para empreendermos coisas elevadas, nos
afastarmos da animalidade, não fugirmos de um projecto reconhecido
como bom devido ao esforço que nos custa realizá-lo. Tal como no
desporto, na ética do desporto não podemos ser preguiçosos ou
desleixados. O progresso material não pode ser o único critério de
valor. O núcleo essencial do ímpeto ético assentará na construção
de um desporto que reconheça o humano, se reconheça no humano
e o torne parte de uma vida boa.
Notas
1) Discurso científico que também nas ciências do desporto, não está isento de problemas Como nota ESTES (2003, p.270) estamos
perante um conhecimento científico baseado em pressupostos metafísicos que excluem áreas significativas da experiência humana, que confiando nas perspectivas tradicionais das subdisciplinas dificilmente conduzirá a soluções para os problemas
complexos e que é marcado por uma desacentuação da prática e das profissões apesar da tradição histórica enfatizar estas áreas.
2) Como relembra LOLAND (2006) a primeira justificação para o desporto e para a EF é de natureza moral.
Referências
BENTO, J. Ética e desporto: tradições e contradições. In: DESPORTO: discurso e substância. Porto: Campo das Letras, 2004. p.91-101.
(Saberes do desporto, 2).
CHANGEUX, J-P. O debate ético numa sociedade pluralista. In: CHANGEUX, J-P. (Ed.). Uma mesma ética para todos? Lisboa:
Instituto Piaget, 1999. p.13-44. (Epistemologia e Sociedade).
ESTES, S. Knowledge and physical activity in higer education. Quest, v.55, p.268-78, 2003.
FRALEIGH, W. Intentional rules violations: one more time. Journal of the Philosophy of Sport, v.30, p166-76, 2003.
KRETCHMAR, R.S. Game flaws. Journal of the Philosophy of Sport, v.32, p.36-48, 2005.
LEVI-STRAUSS, C. Race et histoire. Paris : Gonthier, 1996.
LOLAND, S. Morality, medicine, and meaning: toward an integrated justification of physical education. Quest, v.58, p.60-70, 2006.
MARINA, J.A. Ética para náufragos. Lisboa: Editorial Caminho, 1996.
MCNAMEE, M.J. Ethics of sport. [S.l.: s.ed.], 2002. Disponível em: <http://www.hlst.heacademy.ac.uk/resources/ethics.pdf>.
MEINBERG, E. Die Moral im Sport: Bausteine einer neuen Sportethi. Aachen: Meyer & Meyer Verlag, 1991.
PAWLENKA, C. The idea of fairness: a general ethical concept or one particular to sports ethics? Journal of the Philosophy of Sport,
v.32, p.49-64, 2005.
SAVATER, F. O conteúdo da felicidade: uma alegação reflexiva contra superstições e ressentimentos. Lisboa: Relógio d’ Água, 1995.
______. O meu dicionário de filosofia. Lisboa: Publicações D. Quixote, 2000.
SIMON, R.L. The ethics of strategic fouling: a reply to fraleigh. Journal of the Philosophy of Sport, v.32, p.87-95, 2005.
Mesa Redonda
Filosofia, Ética e Moral no Esporte / Atividade Física
XI Congresso Ciências do Desporto e Educação Física
dos países de língua portuguesa
Rev. bras. Educ. Fís. Esp., São Paulo, v.20, p.149-51, set. 2006. Suplemento n.5. • 151
Download

A utilidade da abordagem ética do desporto