Na inauguração do monumento a Afonso Soares
Discurso de Alberto de Almendra Valente
“Afonso Soares era a encarnação viva de cidadania”
"Ex. mas Autoridades Eclesiásticas, Militares e Civis, Minhas Senhoras e Meus
Senhores:
Delegou em mim a Ex.ma Comissão do Monumento a Afonso Soares, a alta
missão, de nesta ocasião transcendentemente espiritual para a gente da Régua, proferir
algumas palavras sobre o digno homenageado.
Agradeço, desvanecido, a honra que me quiseram dar, sobretudo manifestamente
conhecido como é, que, em meios a tantos títulos ilustre, não hesitaram em rejeitar o
brilho da palavra de muitos, para dar preferência a elemento que, somente, poderia
igualá-los, pondo o coração a falar. Aceitei porque estou sempre pronto a todo o serviço
que me ordenem em prol desta sagrada terra, mas antes, rogo a Deus que lhes perdoe o
mau gosto de preferência, que poderá resultar brutalmente para a sua generosidade,
visto que os olhos do meu espírito se negam, por vezes, a colaborar nestas lidas,
mergulhando-me, quando menos espero numa treva horrível.
Fujo quando posso a trabalhos que exijam cogitações, estudos ou confrontos,
receando ser obreiro da Torre de Babel, vencido quando menos se previa!
De resto, a luz da minha exigência foi sempre de camarada e brilho e de
intensidade, e paz, portanto de uma surpresa clara.
Ex.ma Comissão:
Parafraseando Vergílio: Falta-me força para apreciar jóia de tão pouco puro
quilate!
Eis o que valho. Todavia, como sou, aqui estou às ordens de V. Excias!
Senhoras e Senhores...
No remanso do seu lar, pequeno e humilde, se fez e cresceu a grande figura que
a colaboração de muitos, aproveitada por dois, manterá eternamente neste formoso
recanto, como Reguense de Lei.
Alma Angelical!
Amigo Extraordinário!
Nunca sua boca se abria que não fosse para aconselhar ou ensinar, ou para numa
linguagem pessoalíssima, nos deliciar com as mais interessantes narrações.
Tinha no olhar a expressão dulcíssima do sol que aquece e ilumina a alma dos
desgraçados!
Afonso Soares era a encarnação viva de cidadania; e dispunha sensibilidade tão
fina que parecia animar todas as imagens que o cercavam.
Nos últimos anos da sua vida e à medida que a decrepitude lhe diminuía a
estatura, ia-se agigantando, progressivamente, e de modo tal que chegava a convencer já
detentor de expressão, palavra e olhar de ser pairando alto, na vizinhança do Senhor!
Escreveu a História da Régua: Trabalho honesto e perfeito, fruto de estudo e
observação, ao longo dos anos, e realizando em meio ingrato, como o nosso, onde
correntes acentuadamente comerciais e agrícolas, consomem todas energias aos seus
habitantes.
Desempenhou,
com
mestria,
vários
cargos
e,
alguns,
de
manifesta
responsabilidade.
Comandou os bombeiros, dirigiu jornais, havendo-se sempre como homem de
equilíbrio e irrepreensível.
Como pintor, marcou admiravelmente.
E, como já em tempos afirmei, não creou escola. Tão modesto nunca realizou
“salões”.Seu nome não transpôs fronteiras, nem, tampouco, sua terra deixou.
Valasquez, Murrillo e tantos outros, ganharam asas e procuraram grandes
centros de arte, onde se agigantaram.
Todavia, Afonso Soares, seguiu a trajetória de grandes mentalidades Universais,
que dispensam escola para se manifestarem génios!
Essa expressão magnífica de mármore e bronze, que passa a ser um padrão de
glória da nossa terra, esse grito de arte, concebido por um homem que legará à Pátria
Portuguesa uma obra imortal, mostrará aos que passarem, o interesse, o carinho que
merecem aos reguenses os triunfos dos seus filhos!
Fez vibrar, de lés- a-lés, quem se interessa pelas nobres manifestações do
espírito, numa hora de conturbação demoníaca, que tudo parece subverter!
Ó Régua, Régua! Coração das montanhas doiradas, trono esplendoroso do Vinho
do Porto, altar de Nossa Senhora do Socorro, doce lar dos meus filhos, ninho dos meus
amigos! Acabas de escrever mais uma das famosas páginas da História que Afonso
Soares principiou!
Que a lição sirva de exemplo a quantos se propuseram à direcção da tua vida,
dos teus anseios, para que os vindouros possam dizer-se filhos da terra mais rica e bela
do Universo.
Peso da Régua, 17 de Abril de 1950
Notas: A cópia deste discurso foi cedida pelo Senhor José Stuart Torrie, Cônsul
Honorário em Rouen, na França, um dos netos de Afonso Soares. Também nos cedeu várias
fotografias, alguns registos biográficos da família e dos descendentes de Afonso Soares, um
precioso recorte da notícia do jornal “Primeiro de Janeiro” (com a informação alusiva à
inauguração do monumento da autoria do escultor Henrique Moreira), cópia de outros discursos
manuscritos e alguns comentários dactilografados sobre o cidadão, jornalista, artista, escritor,
autor da História da Vila e do Concelho do Peso da Régua e inesquecível Comandante dos
Bombeiros da Régua.
Sobre a inauguração do monumento à memória de Afonso Soares destaca-se da notícia
publicada pelo extinto diário portuense ainda o seguinte: “A comissão que tomou a feliz
iniciativa da erecção do monumento, era constituída pelos antigos alunos da sua escola de
pintura, Srs. António Teixeira e Armindo Mesquita. Nas cerimónias realizadas, colaborou
a Associação de Bombeiros, de cujo corpo activo Afonso Soares foi também digno
comandante. Essas cerimónias foram as seguintes: Romagem ao cemitério; Missa na
Igreja Matriz, bênção e baptismo das 2 novas viaturas da Associação de Bombeiros. O
pronto-socorro de que foi “madrinha” a Sr.ª Zélia Fernandes de Carvalho, senhora ilustre
e bondosa, viúva do importante proprietário Sr. António Fernandes e irmã do prestigioso
duriense que foi o Dr. Antão Fernandes de Carvalho, recebeu o nome de “Santo António”.
A ambulância, de que foi «madrinha» a Sr.ª D. Maria da Conceição Soares Torrie, em
representação da Sr.ª D. Maria Estefânia Monteiro Guedes, recebeu o nome de “Santa
Maria”, em homenagem à mãe do benemérito Sr. Feliciano Monteiro Guedes.
Organizou-se depois um grande cortejo, em que se incorporaram bombeiros, escuteiros da
Régua e de Godim, autoridades, representantes dos organismos locais, etc., cortejo que
acompanhado de uma banda de música se dirigiu ao pequeno jardim do Cruzeiro, onde se
fez a inauguração do monumento que se encontrava coberto pelos estandartes de várias
agremiações, cujos emblemas obedeceram ao desenham do artista notável que o
homenageado foi. Estavam presentes as suas filhas, Sras. D. Fausta Soares Osório de
Almeida e D. Maria da Conceição Soares Torrie e netos Sr. José Afonso Soares Osório de
Almeida e meninos José e Isabel Maria Soares Torrie. Por parte da comissão promotora,
usou da palavra o Sr. António Teixeira, tendo-se seguido o Sr. Alberto Almendra Valente.
Após a inauguração, a corporação de Bombeiros desfilou em continência, tendo as filhas e
os netos de Afonso Soares recebido os cumprimentos”.
Download

Noticia completa