ENSINO MÉDIO – 1ª Série
FILOSOFIA
___/___/2012
ALUNO: _____________________________________ N.º__________ TURMA ______
CAPÍTULO 2 – A ALEGORIA DA CAVERNA E A FILOSOFIA DE PLATÃO
Introdução
No livro VII de A República, um dos textos principais de Platão, o filósofo desenvolve sua teoria das ideias através
de uma exposição metafórica que nos permite compreender melhor a definição do mundo das ideias, a condição do
mundo sensível, a relação entre ambos e, por fim, a posição do ser humano em seu interior.
1.
A alegoria da caverna
A narrativa expressa dramaticamente a imagem de prisioneiros que desde o nascimento são acorrentados no
interior de uma caverna, de modo que olhem somente para uma parede iluminada pelo sol de dia e por uma fogueira
à noite. Essa ilumina um palco onde estátuas dos seres como homem, planta, animais etc. são manipuladas, como
que representando o cotidiano desses seres. No entanto, as sombras das estátuas são projetadas na parede, sendo
a única imagem que aqueles prisioneiros conseguem enxergar. Com o correr do tempo, os homens dão nomes a
essas sombras (tal como nós damos às coisas) e também à regularidade de aparições destas. Os prisioneiros fazem,
inclusive, torneios para se gabarem, se vangloriarem a quem acertar as corretas denominações e regularidades.
Imaginemos agora que um destes prisioneiros é forçado a sair das amarras e vasculhar o interior da caverna. Ele
veria que o que permitia a visão era a fogueira e que na verdade, os seres reais eram as estátuas e não as sombras.
Perceberia que passou a vida inteira julgando apenas sombras e ilusões, desconhecendo a verdade, isto é, estando
afastado da verdadeira realidade. Mas imaginemos ainda que esse mesmo prisioneiro fosse arrastado para fora da
caverna. Ao sair, a luz do sol ofuscaria sua visão imediatamente e só depois de muito habituar-se com a nova realidade,
poderia voltar a enxergar as maravilhas dos seres fora da caverna. Não demoraria a perceber que aqueles seres
tinham mais qualidades do que as sombras e as estátuas, sendo, portanto, mais reais. Significa dizer que ele poderia
contemplar a verdadeira realidade, os seres como são em si mesmos. Não teria dificuldades em perceber que o Sol é
a fonte da luz que o faz ver o real, bem como é desta fonte que provém toda existência (os ciclos de nascimento, do
tempo, o calor que aquece etc.).
Maravilhado com esse novo mundo e com o conhecimento que então passara a ter da realidade, esse ex-prisioneiro
lembrar-se-ia de seus antigos amigos no interior da caverna e da vida que lá levavam. Imediatamente, sentiria pena
deles, da escuridão em que estavam envoltos e desceria à caverna para lhes contar o novo mundo que descobriu. No
entanto, como os ainda prisioneiros não conseguem vislumbrar senão a realidade que presenciam, vão debochar do
seu colega liberto, dizendo-lhe que está louco e que se não parasse com suas maluquices acabariam por matá-lo.
A alegoria da caverna é uma metáfora muito significativa da filosofia platônica, indicando a variedade de questões
contempladas pelo filósofo e, sobretudo, o universo conceitual em que esses temas são propostos. Adotando-a como
referência, mencionaremos o dualismo ontológico, a paideia platônica – em suas necessárias relações com a teoria do
conhecimento – e a cidade ideal – incluindo a dimensão ética.
2.
O dualismo ontológico platônico
Na alegoria destacam-se dois mundos rigorosamente distintos, aquele percebido inicialmente pelos prisioneiros no
fundo da caverna e o outro, muito mais amplo, alcançado pelo personagem que sai da caverna. Pode-se dizer que os
dois mundos são reais, embora os níveis de realidade sejam incomparáveis.
A alusão aqui é justamente o dualismo ontológico, ou seja, aos dois níveis de realidade, o mundo das ideias e o
mundo sensível. O plano sensível remete ao mundo das sombras, da caverna, que é o mundo que, de fato, vivemos em
que existimos com nossas paixões e com nossa racionalidade segundo nossas tradições diferentes, hábitos diferentes,
culturas diferentes, valores e as leias que regulam nossas vidas.
A escolha de quem pensa!
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O mundo das ideias, representado na metáfora pelo prisioneiro que sai da caverna é o mundo real, que para Platão
é o mundo inteligível por possuir formas ou ideias que guardam consigo uma identidade indestrutível e imóvel, garantindo
o conhecimento dos seres sensíveis. O inteligível é o reino das matemáticas que são o modo como apreendemos o
mundo e construímos o saber humano.
No mundo das ideias, o bem é a ideia suprema, definindo-se como o fim para o qual tendem todos os modos de
vida, a condição do conhecimento e da verdade, a causa primeira de tudo o que existe. O bem está para as ideias e para
a razão assim como o Sol está para as coisas sensíveis e para a visão. Na ausência do Sol não se veem com clareza
os objetos ao redor, na mesma perspectiva em que, na ausência do bem, as ideias se tornam obscuras ao pensamento.
3.
Os estágios do conhecimento e a paideia platônica
Os estágios do conhecimento propostos por Platão são quatro, sendo os dois primeiros pertencentes ao mundo
sensível e os dois últimos, ao mundo das ideias.
O primeiro estágio do mundo sensível é preenchido por imagens, sombras e reflexos de corpos nas águas ou em
superfícies compactas. O nível de conhecimento é a suposição – aqui definida como sinônimo de imaginação ou ilusão.
O segundo estágio consiste nos seres que formam o mundo animal e vegetal, assim como nos objetos fabricados
pelos homens, sendo a crença o tipo de conhecimento peculiar a este estado. Prevalece em ambos o conhecimento
envolvido pelos sentidos, a opinião.
O terceiro é ocupado por objetos matemáticos, sendo o momento em que se dá a transição do conhecimento
sensível ao conhecimento inteligível. Aqui, procede-se com o raciocínio por meio de hipóteses.
O último estágio, finalmente, pertence às ideias, e o conhecimento nesse nível é absoluto, pois transcorre no
encontro do pensamento com os seres em si. É o conhecimento que não sofre qualquer intercorrência dos sentidos,
verificando-se apenas pela via da intelecção.
Os prisioneiros da caverna são, na verdade, uma clara alusão de Platão à condição humana, pois os homens
encontram-se absorvidos pelas opiniões, formadas simultaneamente pelas convenções sociais e pela confiança
depositada nas sensações. Estão um tanto acima da ignorância absoluta, mas, principalmente, muito longe da sabedoria.
Aquele que se libertou dos sentidos e alcançou o conhecimento absoluto é a concretização da excelência humana, o
homem em sua areté.
4.
A república ideal: justiça e bem comum
Na filosofia de Platão, política e natureza são plenamente integradas ao dualismo ontológico, ou seja, estão
fundamentadas na hierarquização da realidade em níveis articulados, o plano inteligível e o plano sensível.
Política, interessante destacar, abrange o conjunto da organização social, a regulamentação do domínio publico,
os direitos e deveres cívicos, as regras das instituições públicas e as leis em geral. Assim sendo, envolve também os
problemas relativos à moralidade, pois noções de valor acerca das ações que têm consequências sobre outras pessoas
– implicando normas sobre o que deve ou não ser feito, o que é permitido e o que é proibido – são parte importante do
domínio público, ou melhor, político.
A filosofia moral (ética) está desse modo, extremamente ligada à filosofia política e, ambas, dizem respeito ao bem
comum. Portanto, não é exagero dizer que o conjunto da filosofia platônica é um sistema ético que, em seu dualismo
ontológico, consagra o bem como ideia suprema. Mais elevada das ideias, o bem é também aquilo para o qual se inclina
a vida, finalidade última de todas as aspirações, finalidade da própria política.
Na perspectiva ideal, a moralidade é política, e a política, direcionada ao bem comum, é a realização da moralidade.
Dentro da filosofia de Platão aprendemos que a república ideal é o governo da razão conforme a verdade, o
que, segundo o sistema platônico, é a garantia da superioridade. O exercício do poder pelos filósofos tem um aspecto
vantajoso adicional, pois os seres humanos que, depois de delicada ascensão dialética, puseram-se na contemplação
da essência das coisas, assim gostariam de permanecer, sem envolver-se com as situações do mundo sensível. Não
tem, assim, especial apreço pelo exercício do poder, mas o fazem em nome da razão que neles predomina e que deve
também prevalecer na cidade.
Nesse esquema geral de organização política, destacam-se:
a)
A sabedoria – específica dos magistrados
b)
A coragem – dos guerreiros
c)
A temperança – abrangendo todos os grupos, uma vez que essa qualidade consiste na harmonia entre as
classes, na aceitação de que o comando da pólis é atribuição natural dos superiores, aqueles que governam
com a razão.
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A escolha de quem pensa!
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5.
A natureza humana
De maneira extremamente resumida, é razoável afirmar que a justiça na pólis se realiza na hegemonia da razão,
verificando-se idêntico princípio nos seres humanos singulares.
Assim, da mesma maneira que na cidade a justiça se efetiva com cada classe executando a função que é prescrita
pela natureza, a alma humana é justa se as suas diferentes faculdades são empregadas em seus fins pertinentes,
prevalecendo a hierarquia natural em que a razão conforma o que é irracional, sendo o homem, nessas condições
senhor de si.
A identidade da razão com as realidades puras – as ideias – é a condição do conhecimento ou, em outras palavras,
o ser humano tem em si a possibilidade do conhecimento porque sua alma racional pertence às ideias e, como estas,
é eterna e indestrutível.
Conclusão
Em que pese, porém, a identidade entre a alma racional e as ideias, de acordo com o que acompanhamos acerca
da teoria política de Platão, poucos seres humanos atingem a autocracia da alma – o domínio racional de si próprios
– cabendo a estes, por sua sabedoria, o comando de toda sociedade. Guerreiros e trabalhadores, incapazes de, por
si só, regular sua vida em conformidade com as ideias, dependeriam de uma razão que lhes é exterior, quer dizer, o
conhecimento ordenador dos governantes-filósofos, os raros seres humanos que conseguissem completar a difícil e
longa jornada das sombras do fundo da caverna à luminosidade absoluta do Sol.
Descer à caverna é a vontade ou a obrigação moral do homem esclarecido para ajudar os seus semelhantes a
saírem do mundo da ignorância e do mal para construírem um mundo (Estado) mais justo, com sabedoria. Portanto, a
alegoria da caverna é um modo de contar imageticamente o que conceitualmente os homens teriam dificuldade para
entenderem, já que, pela própria narrativa, o sábio nem sempre se faz ouvir pela maioria ignorante.
Atividade de Reflexão
01. O que representa a alegoria da caverna para você?
02. Onde observamos nesta alegoria “o mundo sensível” e o “mundo inteligível”?
03. Explique os quatro estágios do conhecimento propostos por Platão.
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04. Qual a ligação entre filosofia moral e filosofia política?
05. Qual é a república ideal segundo Platão?
06. Por que o homem esclarecido deve descer à caverna?
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capítulo 2 – a alegoria da caverna e a filosofia de platão