UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS CURSO DE BIBLIOTECONOMIA DIRETÓRIO ACADÊMICO DE BIBLIOTECONOMIA XIV Encontro Regional de Estudantes de Biblioteconomia, Documentação, Ciência da Informação e Gestão da informação Os novos campos da profissão da informação na contemporaneidade 16 a 22 de janeiro de 2011 O CRAV COMO LUGAR DE MEMÓRIA E PRESEVAÇÃO DO AUDIO VISUAL MINEIRO E SUA RELAÇÃO COM A POPULAÇÃO DA CIDADE DE BELO HORIZONTE¹ Junio Martins Lourenço* Marcos Vinícius Rodrigues ** RESUMO Este trabalho visa identificar O CRAV - Centro de Referência Áudio Visual – como lugar de memória e seu relacionamento com a população da cidade de Belo Horizonte. O CRAV iniciou as suas atividades em 1995, e foi o primeiro espaço voltado para a preservação, fomento e discussão sobre o áudio visual em Minas Gerais. Atualmente o acervo fílmico sob sua guarda, conta com aproximadamente 20.000 películas e 8.000 títulos em vídeo. Alem de criar condições ambientais e técnicas adequadas, para o recebimento e acondicionamento de acervos, o CRAV cumpre um papel relevante, no sentido de mediar à coexistência do passado histórico com o contemporâneo, visando preservar e difundir a memória do estado de Minas Gerais através do áudio-visual. Ao mesmo tempo, busca absorver a modernidade tecnológica proposta pelas novas mídias, possibilitando e incentivando a experimentação de diferentes linguagens. A preservação da memória de uma comunidade é de fundamental importância para sua evolução cultural e política. É de suma importância aproximar os moradores da cidade de Belo Horizonte 1 e o acervo acumulado pelo CRAV ao longo de quinze anos de existência, promovendo discussões teóricas e difundindo a memória de Belo Horizonte e Minas Gerais. Palavras-chave: CRAV. Áudio visual. Memória. Belo Horizonte. 1 Comunicação oral apresentado ao GT - 05 –Cultura e direito a informação. Martins Lourenço é graduando em Biblioteconomia pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. E-mail: [email protected] ** Marcos Vinícius Rodrigues é graduando em Biblioteconomia pela Universidade Federal de Minas Gerais UFMG. E-mail: [email protected] * Junio 1 INTRODUÇÃO No decorrer do desenvolvimento humano, guardar e transmitir saberes e fazeres conquistados por meio da experiência tornou-se uma especialidade exercida pelo narrador de histórias, de um tempo e espaço distantes, e também pelo narrador das tradições de sua própria comunidade, aquele que figura entre o mestre e o sábio porque recolhe suas histórias na experiência individual e coletiva. Desde tempos imemoriais o ser humano cria representações realistas ou hipotéticas sobre a vida coletiva do grupo ao qual pertence. Inscritas em suportes primórdios, tais representações são acompanhadas pela narração oral e pela encenação de mitos: oralidade e imagem a serviço da memória, na transmissão de saberes e fazeres de geração a geração. Estes registros variam tanto quanto a diversidade e inventividade humana. A câmera cinematográfica e a internet entre outros suportes são dádivas da memória, com sua faculdade de relembrar o passado no tempo presente, eles contam a história humana no planeta Terra. Assim como o livro, a imagem (pintura, escultura, fotografia, cinema e vídeo) é outra forma de registrar, guardar e transmitir os saberes e fazeres de uma comunidade. Desta forma surgiram os museus, com a finalidade de guardar as obras de arte para sua apreciação. Assim como nas bibliotecas, não cabia aos museus produzir as obras de seu acervo, pois sua função precípua era guardá-las e preservá-las. A partir do século XIX, as bibliotecas e museus se especializaram: as bibliotecas abrigaram acervo de materiais bibliográficos (livros, documentos manuscritos, gravuras, cartas, mapas e periódicos) enquanto cada museu se responsabilizou por uma área do conhecimento. Desta especialização, entre outros, surgiu no século XX o Museu da Imagem e do Som. No século XXI, as instituições de memória (museus, bibliotecas, arquivos e cinematecas) guardavam obras e objetos (livros, filmes, documentos, plantas, esqueletos) considerados representativos de tempos outros, a fim de garantir a sobrevivência do passado no presente, pois a história é uma das maneiras de reconhecer o passado, para poder fixá-lo. Seu desenvolvimento enquanto campo de conhecimento se deu muito mais com fontes escritas em detrimento das fontes orais, do passado em detrimento do tempo presente, principalmente por acreditar-se que tais escolhas garantem a objetividade das pesquisas históricas. As primeiras entidades responsáveis pela guarda de filmes eram conhecidas como arquivos de filmes e posteriormente, ganharam o nome de cinematecas, existentes a partir da década de 1930 nos EUA e Europa. Como afirma Véray, As cinematecas são lugares de memória, no sentido definido por Pierre Nora, que conservam milhares de quilômetros de arquivos fílmicos salvos do desaparecimento. Inumeráveis visões documentárias, de atualidades do passado. Registros de acontecimentos quaisquer ou excepcionais públicos ou privados. Traços, fragmentos da vida cotidiana de nossos predecessores. Tantos instantes únicos e sombras projetadas da realidade subtraídas do tempo que passa. Mergulhar nessas imagens variadas, com sua quantidade de detalhes infinitamente realistas (os famosos “efeitos de realidade” de que falamos após as visões Lumiére), mas também suas numerosas lacunas (nem tudo é “visível”, longe disso), suas representações convencionais de autenticidade duvidosa (a parte da encenação pode ser importante e manipuladora), sempre me provoca o mesmo júbilo. Sobretudo porque elas constituem formidáveis terrenos de exploração e de experimentação para possíveis abordagens fílmicas da história contemporânea. (VÉRAY, 2004, p.55) Inspirados nas cinematecas, Paulo Emilio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado e Antonio Candido de Mello e Souza, então jovens estudantes da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, criaram o clube de cinema, que posteriormente se transformou na Filmoteca do Museu de Arte de São Paulo e atualmente, é a Cinemateca Brasileira que foi incorporada ao governo federal em 1984. Seguindo a trilha aberta pela Cinemateca Brasileira, os Museus da Imagem e do Som foram implementados no Brasil a partir da década de 1970, concomitantemente ao aparecimento da História Oral no país, como instituição de memória cuja especificidade é guardar, preservar e difundir as imagens (fotografias, cartazes, cinema e audiovisual) e as músicas produzidas pela sociedade. No Brasil, as fontes orais passaram a ser usadas precisamente em 1975, quando a Fundação Ford trouxe pesquisadores dos EUA e México que ministraram cursos aos historiadores e cientistas sociais na Fundação Getúlio Vargas. Seu emprego aumentou a partir da abertura política nos anos 1980. Mas sem atingir os resultados esperados, pois, muitas experiências não passavam de um amontoado de fitas gravadas, sem uma pesquisa como espinha dorsal dos projetos. Junte-se a isso a resistência dos historiadores e indiferença dos sociólogos e antropólogos quanto à utilização da História Oral. Dois motivos principais contribuíram para essa conjuntura. O primeiro é de ordem política: num regime militar é perigoso dar depoimentos, pode-se, no limite, colocar em risco a integridade física do depoente. O segundo é de ordem acadêmica: o paradigma hegemônico era o estruturalismo que por sua vez, valorizava as estruturas em detrimento do sujeito, o que significa dizer que os depoimentos são mais relacionados aos sujeitos que com a estrutura. O regime militar com sua visão desenvolvimentista e ufanista, que possuía o intuito de inserir o país no contexto internacional como uma nação moderna e em crescimento, só considerava relevante preservar o passado à medida que este respaldasse o presente. Nessa perspectiva foram criados os MIS’s de São Paulo e Rio de Janeiro, cuja função não era apenas ser um guardião do passado, mas principalmente registrar a vida cultural das metrópoles. Para efetivar tal objetivo, foi utilizada a metodologia da História Oral para criar coleções incorporadas ao acervo. Logo esta prática foi seguida por outros MIS’s, tais como de Pernambuco e Campinas. Atualmente, além dos MIS, há o Museu da Pessoa, específico para depoimentos de pessoas conhecidas ou anônimas. A partir da década de 1990, várias mudanças históricas vividas pelo país colaboraram para o crescimento do uso da metodologia da História Oral. O paradigma estruturalista não era mais hegemônico; havia a aceitação de que o passado pode ser constantemente reinterpretado, seja a partir de fontes seriais, quantitativas ou orais; havia a concepção de que o sujeito tem mais autonomia nas transformações históricas do que se imaginava; e ainda que o passado é construído segundo as necessidades do presente e, portanto, pode-se fazer uso político do mesmo, o que coloca em cheque os quesitos de objetividade e distanciamento em relação ao objeto de pesquisa. Os principais argumentos contrários à História Oral são: em primeiro lugar a subjetividade das entrevistas, ou seja, não é um relato fidedigno de uma época ou de um grupo social, e, sobretudo que se trata de uma visão particular; a segunda questão é, por estar situada na história do tempo presente, isto é, pesquisar temas contemporâneos, estando o pesquisador e seu objeto em um mesmo tempo histórico, o que não produziria o distanciamento necessário entre os mesmos, e assim, comprometendo a objetividade da pesquisa histórica. Em outro contexto político, o poder público municipal de Belo Horizonte implementou políticas públicas para preservação da memória da cidade por meio da proteção de seu patrimônio material e imaterial. A Lei Municipal n° 5553 de 09 de Março de 1989 autoriza a criação da Fundação do Museu da Imagem e Som em Belo Horizonte. O Plano Diretor de Belo Horizonte de 27/08/96 na subseção IV da política cultural, no artigo 38, item II, determina como uma das diretrizes da política cultural a implantação do Museu da Imagem e do Som. Desta forma, Belo Horizonte também seguiu a tradição de criar instituições para a guarda, preservação e difusão de imagens e sons, com a implementação do Centro de Referência Audiovisual - CRAV. É na interface entre Museu da Imagem e do Som, entidade responsável pela guarda, preservação e difusão destas imagens e sons, e a História Oral que a Coordenação de Projetos e Pesquisa do CRAV desenvolve seu trabalho. 2 O CRAV: HISTÓRICO E DESENVOLVIMENTO A cidade de Belo Horizonte e o cinema deram os seus primeiros passos simultaneamente. Inaugurada em 1897, dois anos após a invenção desta forma de documentação, a cidade tem um dos registros mais antigo do cinema brasileiro: o filme Reminiscências, de 1909, dirigido por Aristides Junqueira, que já traz em seu título emblemático, muito da função de registro de uma época e de uma sociedade, que o cinema, como documento audiovisual, pode significar. No mesmo ano, Igino Bonfioli, nosso pioneiro do cinema natural, documentou sua família e o material está depositado no CRAV. Por volta de 1897, o pedreiro Francisco Soucassau foi o primeiro a revelar o talento desta terra, ele construiu além de paredes cultura, registrando e exibindo as primeiras imagens de minas através da “lanterna mágica”. Humberto Mauro foi um dos mais expressivos cineastas mineiros. Influenciado pelo italiano Pedro Comello, se tornou um gênio, inovador e com isso rompeu as barreiras do estado. Uma imagem só se torna eterna se registrada. Ela é exibida, conservada e disponibilizada ao público e, se isso não ocorre, ela vai se perder ou ficar restrita à memória de quem a viu. Assim, é mais que imprescindível a sistematização de digitalização de imagens que fazem a nossa memória e que contam a nossa própria história. Inaugurado em 16 de novembro de 1995 pela Prefeitura de Belo Horizonte, o CRAV é desde 2005 uma unidade da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte e vem ampliando sua atuação, dando maior projeção às ações culturais e educativas voltadas à formação de uma cultura audiovisual em Belo Horizonte. Ele tem como especificidade utilizar-se de sons e imagens em movimento como suporte para a construção e a preservação da memória da cidade, além de produzir depoimentos, gravados em suporte audiovisual para serem incorporados ao acervo da instituição. Consolida-se como a primeira instituição destinada a ser um centro de excelência em preservação, pesquisa, produção, capacitação e difusão cinematográfica, com o foco sobre o audiovisual em Minas Gerais, mas também sempre em sintonia e diálogo com organismos situados em outros locais, tanto nacionais quanto internacionais. O CRAV passou por quatro fases distintas, que serão apresentadas a seguir: a primeira fase inicia-se em 1992 e estende-se até fins de 1995, contando com uma equipe mínima, e sem sede própria, iniciou-se o cadastramento de acervos audiovisuais públicos e privados existentes na cidade. Na segunda fase, que vai de 1995 a setembro 2001, as atividades passam a ser desenvolvidas já em uma sede própria. Neste período, com a equipe técnica constituída e contando com condições objetivas de trabalho, a instituição passa a desenvolver ações correspondentes à tríade proposta em seu projeto de criação: o programa de história oral (contemplando diversos temas da memória sociocultural da cidade), a constituição de acervo e o desenvolvimento de ações educativas e de difusão cultural. Em sua terceira fase o CRAV promove em 2001, o evento “Belo Horizonte Revisitada”, projeto composto por mostras, exposições e debates que retomaram o conceito original da instituição e sua atuação na política pública para o resgate da memória do audiovisual na cidade. Ainda em sua terceira fase, já instalado na atual sede da FMC, as ações do órgão se multiplicaram, a partir da elaboração do seu Planejamento Estratégico. Foram implantadas as Coordenações de Acervos, Projetos e Pesquisa e Produção Técnica, além da Assessoria e Diretoria. Esta fase é marcada pela grande ampliação do acervo, pelas instalações da videoteca, mini-laboratório para revisão de filmes e uma estação de trabalho equipada. E por fim a quarta fase, que pretendia ser a implantação da Mediateca e teve seu início em julho de 2004 e vai até os dias atuais, quando a instituição passou a ocupar uma casa situada na Av. Álvares Cabral, n• 560, região central de Belo Horizonte. O imóvel, de 456 m2, é um belo exemplar da arquitetura residencial que se fazia na década de 1920 em Belo Horizonte. A nova sede (FIGURA 1) é um exemplo típico dos sobrados de uso misto ou “palecetes-comércio”, que disseminaram na cidade neste período. Esta edificação, de 1927, faz parte de um conjunto tombado pelo Patrimônio Histórico e Urbano de Belo Horizonte. Dentro deste contexto, ele está integrado ao traçado da cidade, compondo um importante corredor cultural. Num raio de circunferência de 2 Km estão concentrados bibliotecas, centros culturais, museus, teatros, mercado central, palácio das artes, parque municipal e outros relevantes patrimônios culturais. Desta forma, o casarão compõe um conceito básico que integra a coexistência do passado histórico com a modernidade tecnológica proposta pelas novas mídias, representando uma oportunidade ímpar para a revitalização de todo um conjunto urbano tombado. FIGURA 1 – Inauguração da nova sede do CRAV. FONTE: Arquivo do CRAV. O casarão é composto por dois pavimentos, o térreo e o porão. O primeiro é onde funciona o serviço administrativo, técnico e de pesquisa, bem como espaço para consulta, atendimento ao público, exibição de mostras e exposição de objetos. No segundo, funciona a Coordenação de Acervo, responsável por guardar, preservar, catalogar e divulgar o acervo da instituição, além de receber e orientar pesquisas externas que são solicitadas por estudantes, professores, pesquisadores e realizadores. Conta ainda, com espaços devidamente climatizados, além de todo o acervo do órgão agrupado de acordo com suas características arquivísticas. Assim, a instituição pretendia passar de um Centro de Referência Audiovisual para ser o Museu da Imagem e do Som (Mediateca) da capital mineira. 3 O CRAV: ESTRUTURA ADMINISTRATIVA E DIÁLOGO COM A POPULAÇÃO A dinâmica hoje estabelecida pelo CRAV aponta a seguinte ordem de trabalho e está estruturada em três coordenações, que são a Coordenação de Acervo, a Coordenação de Produção Técnica e a Coordenação de Projetos e Pesquisa. Na Coordenação de Acervo, são alimentadas todas as ações museológicas processadas pela Instituição. O acervo por ela administrado guarda em seus diversos suportes: 556 cartazes, aproximadamente 20.000 rolos em película (super-8, 16 e 35mm), 8.000 títulos em fitas magnéticas de áudio e vídeo, além de CDROM, DVD, CD Áudio, discos e 3.142 fotografias, informações que precisam receber o tratamento adequado para se preservar e difundir estes em números de dados aos pesquisadores. O trabalho interno integra um processo que qualifica cada documento audiovisual como um patrimônio cultural. Têm-se etapas realizadas de forma simultânea que dão vida ao mesmo tempo em que atribuem a noção de conjunto ao processamento destes documentos. Assim, apresenta-se a seguinte dinâmica: registro de entrada dos documentos na Instituição, o trabalho de inventariar todo o material, incorporação ao acervo, revisão física, catalogação, classificação, lançamento das informações em base de dados específica e encaminhamento para o tratamento adequado deste suporte (restauro, digitalização, copiagem, e outros). Realizando este ciclo constrói-se uma ação museal que aplica no documento toda uma logística de preservação e tratamento que busca por fim uma nova disponibilização deste suporte para melhor fruição das mensagens nele contidas. O conjunto de documentos deste arquivo o qualifica como um acervo especial, uma vez que os variados suportes de registro sob sua guarda possuem formas físicas diversas, que merecem tratamento diferenciado não apenas no que se refere ao seu armazenamento, como também no registro, acondicionamento, controle e conservação. A climatização funciona como a mais eficiente forma para o retardo da ação do tempo sobre os materiais guardados na Instituição, uma vez que proporciona condições ideais de temperatura e umidade para a preservação desses documentos. Considerando o acervo fílmico do CRAV, hoje composto por películas em suporte de acetato, o projeto está em conformidade com as normas técnicas de preservação deste material estabelecidas pela FIAF – Federação Internacional de Arquivos Fílmicos. Este sistema, gerenciado por esta coordenação, fica responsável pelo monitoramento das condições ideais de guarda. Aliando esta ação de preservação à disponibilização da guarda dos documentos em suas devidas salas (conforme piano museográfico), torna-se concreta uma eficiente proposta de preservação para a natureza deste acervo. Pesquisar e preservar ganha um sentido mais amplo quando se pensa na difusão de todo este trabalho que é pautado pelo tratamento da informação. Para disponibilização interna a coordenação desenvolve o trabalho de atendimento monitorado ao acervo, demanda recebida diariamente pela Instituição. O público atendido engloba do estudante do ensino fundamental ao pesquisador de doutorado, passando por realizadores da área audiovisual. Por se construir como único espaço de memória com acervo audiovisual sobre a cidade de Belo Horizonte, recebe uma intensa demanda de consultas. Já a Coordenação de Produção Técnica privilegia a busca pelo constante aperfeiçoamento de sua equipe, procurando capacitá-los para melhor desenvolver sua atuação frente aos avanços apresentados pela tecnologia, que dita diariamente novas possibilidades de uso de equipamentos de captura, tratamento, edição, pós-produção, masterização e copiagem de documentos audiovisuais. O desafio é dominar os complexos processos de preservação, valendo-se da tecnologia como ferramenta para deter a ação do tempo sobre os mais variados suportes de informação. É necessário manter em vigília constante a preocupação com a manutenção e obsolescência de equipamentos. Poder acessar o processo de restauro por meio de computadores, não justifica deixar de lado o uso da moviola para verificação de uma película. Assim, outro pressuposto desta coordenação é o constante trabalho na manutenção dos equipamentos, que com o passar do tempo deixam de ser produzidos pela indústria de eletrônicos. Exercer um papel de consciência preservacionista de “drives” de leitura significa poder dar acesso às informações contidas nos documentos que possuem estes formatos, evitando a perda de conteúdos pelo simples fato de não se ter mais acesso a estes equipamentos. É uma ação de preservação que se dá paralelamente ao processo de reflexão sobre os impactos da tecnologia sobre o viver social. Já a difusão da informação é desenvolvida em uma ação de principio coparticipativo com os demais setores da instituição, apoiando a geração de novos documentos audiovisuais que surgem das pesquisas internas e dos projetos desenvolvidos em parcerias pelo CRAV. Prima-se por potencializar às inúmeras formas de fruição de conhecimento proporcionadas pela difusão do audiovisual, como, por exemplo, mostras, festivais e programas de formação de novos públicos. Produzir novos documentos audiovisuais torna possível a difusão ilimitada da informação à medida que você pode fazer uma fita de vídeo, ou um DVD chegar onde seja desejada a veiculação das informações contidas neste produto. Ao se voltar para a produção não somente no sentido do fazer para socializar, mas acreditando também no poder de realização da população, a coordenação é parceira do poder publico municipal em projetos de difusão do conhecimento que promovem a capacitação de jovens utilizando o suporte audiovisual como forma de aprendizagem. Assim, o CRAV participa dos projetos BH Cidadania, que em 2003 implementou em nove áreas de maior vulnerabilidade social da cidade oficinas de arte e cultura, entre elas a de audiovisual. Jovens entre 15 e 21 anos puderam realizar vídeos e programas de rádio, desenvolvendo a criatividade no domínio das técnicas de produção. Onze vídeos e oito programas de rádio foram produzidos e amplamente divulgados. E o Projeto Arena da Cultura, em que a equipe técnica registra as atividades realizadas pela Gerência de Projetos Especiais – GEPEC – da Secretaria Municipal de Cultura, produzindo vídeos que sintetizam as oficinas, mostras e circuitos culturais das nove regiões da cidade. O material também é utilizado na capacitação da equipe responsável pelo trabalho desenvolvido junto aos jovens, permitindo uma melhor avaliação das atividades. Esta serie de registros integra o Projeto Memória, que pretende deixar para as administrações futuras uma documentação que exemplifique as ações já implantadas e que forneça subsídios para continuidade destes projetos nas próximas administrações. Por fim, temos a Coordenação de Projetos e Pesquisa, que constituí e disponibiliza ao publico, um acervo de dados e informações gerados por pesquisas da instituição, que privilegiam aspectos da vida cultural e social da cidade. Por meio do Programa de História Oral já foram desenvolvidos vários projetos temáticos que referenciam a cidade de Belo Horizonte, como por exemplo, Anônimos Notáveis, Memória do Jornalismo Mineiro, 100 Anos de Cinema em BH, entre outros. Em 2002 iniciam-se novas linhas de pesquisa, por meio do programa “Pesquisa e Registro Documental: Memória Social e Cultural da Cidade de Belo Horizonte em Suporte Audiovisual”, abordando três temáticas fundamentais: “História da Musica em Belo Horizonte”, “As religiões Afro-brasileiras em Belo Horizonte” e “A Memória Operaria”, aspectos da historia e do patrimônio imaterial da cidade ainda pouco pesquisado e documentado. Através do registro audiovisual de depoimentos – utilizando como suporte a metodologia da historia oral – e de locais e manifestações referentes aos diversos temas, será constituído acervo contemporâneo, enriquecendo ainda mais aquele existente na Instituição e mapeando os demais existentes em outros “lugares de Memória”. Essas pesquisas cumprem ainda o papel de relacionar diferentes períodos históricos de desenvolvimento da cidade a memória dos temas em tela. Assim, teremos a disponibilização da documentação coletada, a constituição de um banco de dados e a realização de documentários informativos e de formação. Os documentos produzidos sobre estes aspectos criam uma interação dialógica durante todo o processo de realização de uma obra, onde a informação fornecida pela coletividade retorna para ela mesma propiciando com este retorno, a formação de novos registros, de novas experiências. A preservação e valorização do patrimônio imaterial é também uma preocupação inerente a Coordenação de Projetos e Pesquisa. Ao registrar as falas, expressões e informações guardadas na memória de cada entrevistado, dando formas a esses relatos com a produção de novos registros, preserva-se contextos históricos formulado pelo próprio homem. Pesquisar assume aqui um sentido claro de conservação. Foram implementadas três ações com o objetivo último de formação de novos públicos junto à comunidade e não para a comunidade. Estas ações consistem nos seguintes projetos: Projeto BHIS; Circulando a Cidade: mostras de cinema, vídeo, debates e oficinas e o Prêmio Resgate do Cinema Mineiro. O Projeto BHIS realizou a produção de 10 VT’s em Mini DV, de 1 minuto cada. Os temas abordados estabelecem um paralelo entre a memória e a contemporaneidade de Belo Horizonte. O CRAV tem procurado elaborar novos produtos audiovisuais que estimulem a pesquisa sobre o passado e o presente iconográfico da cidade, abrindo portas para os novos realizadores ao mesmo tempo em que atualiza a produção da cidade diante da evolução tecnológica. O CRAV, em conjunto com os Centros Culturais do município de Belo Horizonte, desenvolveu o Projeto Circulando a Cidade: mostras de cinema, vídeo, debates e oficinas, que circulam nos centros culturais, com exibição de um filme por semana. A iniciativa tem por proposta atuar na formação de público para o cinema nacional; democratizar o acesso da população belorizontina, sobretudo a de baixa renda, à produção audiovisual; valorizar o espaço de exibição como lugar de entretenimento, convívio social e formação; difundir o cinema como suporte da memória social de um país e possibilitar aos cidadãos a apropriação da linguagem cinematográfica como forma de expressão estética, política e cultural, contribuindo para a democratização e descentralização da produção e fruição dos bens culturais. Já o Prêmio Resgate do Cinema Mineiro foi criado por meio de uma parceria entre o CRAV e o Festival Internacional de Curtas-Metragens de Belo Horizonte. A cada ano é restaurado e copiado um curta-metragem de destaque para o cenário cinematográfico do estado. Um membro da Coordenação de Acervo integra a comissão realizadora do evento colaborando na escolha da programação. Esta colaboração resulta na descentralização das exibições, com sessões sendo realizadas nos centros culturais de Belo Horizonte atingindo o publico da periferia urbana. Sem deixar de lado a preocupação com a preservação de filmes, o CRAV incentiva a realização de oficinas voltadas para este enfoque. 4 CONCLUSÃO A preservação da representação social se dá em lugares depositários da memória coletiva com seus acervos constituintes dessa representação, pois em um contexto pautado pela expansão da indústria cultural, decorrente da globalização, cabe a eles um papel relevante na formação e conservação do patrimônio cultural local, em seus diversos suportes. Estes, como parte do espaço urbano, tendem a refletir sua dinâmica e, assim, os diversos conflitos ali existentes. Cabe aos lugares de memória que trabalham com o audiovisual a complexa missão de preservar e disseminar seus acervos, de modo que a memória produzida em outros contextos não se perca mediante o cenário globalizado, permitindo assim a construção, promoção e salvaguarda da identidade cultural nacional. Ciente de que a especificidade do acervo audiovisual o torna passivo de um constante processo de construção e reconstrução, a equipe do CRAV tem a preocupação da ação ativa frente a esta realidade. Assim, formar cidadãos em um rico processo de reflexão sobre a utilização do patrimônio cultural audiovisual, motiva a todos no trabalho constante de desenvolvimento social para o exercício da cidadania amplamente possibilitado pelas práticas cinematográficas e pelo audiovisual. Todo este ciclo parte do principio da preservação dos documentos, sabendo-se que cada filme é um registro único, que exerce papel fundamental na guarda da memória, fator indispensável para a construção de uma nação. Desta forma, o CRAV assume o papel de lugar responsável pela preservação, memória e disseminação do audiovisual mineiro. Dentro desta perspectiva, ele recebe a incumbência de promover a conexão entre suas atividades e a população de Belo Horizonte, proporcionado a seus usuários uma efetiva apropriação deste vasto acervo, com o intuito de formar um publico atuante nesse processo - e não meros receptores de informações norteando através de suas demandas os caminhos a serem seguidos pelo CRAV. CRAV AS PLACE OF MEMORY AND PRESERVATION OF AUDIO VISUAL MINING AND ITS RELATION TO THE POPULATION OF THE CITY OF BELO HORIZONTE ABSTRACT This work aims to identify the CRAV - Audio Visual Reference Center - a place of memory and its relationship with the population of the city of Belo Horizonte. The CRAV started its activities in 1995, and was the first space toward the preservation, promotion and discussion of the audio visual in Minas Gerais. Currently the film collection under his care, has approximately 20,000 films and 8,000 video titles. In addition to creating environmental conditions and appropriate techniques for receiving and handling of collections, the CRAV fulfills an important role in order to mediate the coexistence of the past with the contemporary history, to preserve and spread the memory of the state of Minas Gerais with the audio-visual. At the same time, seeking to absorb modern technology proposed by the new media, enabling and encouraging experimentation with different languages. Preserving the memory of a community is of fundamental importance to its cultural and political evolution. It is of paramount importance to approach the residents of the city of Belo Horizonte and the collections accumulated by CRAV over fifteen years of existence, promoting and spreading the theoretical discussions memory of Belo Horizonte and Minas Gerais. Keywords: CRAV. Audio visual. Memory. Belo Horizonte. 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