Artigo de Revisão Review Article Artículo de Revisión Riscos ocupacionais do enfermeiro na ESF Artigos de Revisão RISCOS OCUPACIONAIS DO ENFERMEIRO ATUANTE NA ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA OCCUPATIONAL RISKS OF NURSES WORKING IN THE FAMILY HEALTH STRATEGY RIESGOS LABORALES DEL ENFERMERO ACTUANTE EN LA ESTRATEGIA SALUD DE LA FAMÍLIA Maria Eliana Peixoto BessaI Maria Irismar de AlmeidaII Maria Fátima Maciel AraújoIII Maria Josefina da SilvaIV RESUMO: O enfermeiro, em sua atividade laboral, está sujeito a riscos ocupacionais. Este estudo objetivou discutir os riscos a que os enfermeiros da Estratégia Saúde da Família estão expostos, segundo a literatura. Pesquisa bibliográfica realizada na base de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde sobre a temática. Foram identificados e analisados 29 artigos publicados de 1998 a 2008. Os enfermeiros estão expostos a riscos físicos (temperatura elevada e ambiente pouco iluminado); químicos, biológicos (secreções oral, vaginal e de feridas), ergonômicos (mobiliário inadequado para a realização das atividades) e acidentes. Percebe-se que os riscos químicos, biológicos e os acidentes típicos são os temas mais evidenciados na literatura, entretanto, os riscos ergonômicos e os físicos são pouco explorados. Urge, portanto, a realização de estudos mais aprofundados sobre essa temática, a fim de que este profissional possa utilizar de maneira mais adequada as medidas de biossegurança e promover o autocuidado. Palavras-Chave: Enfermagem; risco ocupacional; saúde do trabalhador; programa saúde da família. ABSTRACT: Nurses are exposed to a variety of occupational risks at work. This study discusses the occupational hazards facing nurses who work in Brazil’s Family Health Strategy (Estrategia de Saúde da Família, ESF) as reported in the literature. A search on occupational hazards in nursing in the Caribbean and Latin-American Literature in Health Science (LILACS) database returned 29 articles published between 1998 and 2008. The risks facing such nurses are physical (high temperatures and poor lighting); chemical; biological (oral, vaginal and wound secretions); ergonomic (furniture unsuited to their work), and to accidents. It was observed that, while chemical and biological risks and typical accidents are the topics most highlighted in the literature, physical and ergonomic risks are less explored. Further studies on this issue are thus urgently needed so that nurses can use biosafety measures more properly and promote their self-care. Keywords : Nursing; occupational risks; occupational health; family health program. RESUMEN: El enfermero, en sus actividades de trabajo, se queda sujeto a riesgos laborales. Este estudio objetivó discutir los riesgos a que los enfermeros que trabajan en la Estrategia Salud de la Familia están expuestos. Estudio de la literatura realizado en la base de datos de América Latina y de Caribe en Ciencias de la Salud acerca de la temática. Fueron identificados y analizados 29 artículosA publicados de 1998 a 2008. Los enfermeros están sujetos a riesgos físicos (temperatura alta y ambiente con poca luz), químicos, biológicos (secreciones orales, vaginales y de heridas), ergonómicos (mobiliario inadecuado para llevar a cabo las actividades) y accidentes. Se observa que los riesgos químicos, biológicos y los accidentes típicos son los temas más evidentes en la literatura, pero los riesgos ergonómicos y físicos son poco explotados. Por lo tanto, es necesario llevar a cabo más estudios sobre este tema, de manera que este profesional pueda utilizar una serie de medidas de bioseguridad más adecuadas y promover el autocuidado. Palabras Clave: Enfermería; riesgo laboral; salud del trabajador; programa salud de la familia. I Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Especialista em Enfermagem do Trabalho. Professora Substituta do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, Ceará, Brasil E-mail: [email protected]. II Doutora em Enfermagem. Professora adjunta da Universidade Estadual do Ceará. Coordenadora do Curso de Especialização em Enfermagem do Trabalho. Fortaleza, Ceará, Brasil. E-mail: [email protected]. III Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, Ceará, Brasil. E-mail: fá[email protected]. IV Doutora em Enfermagem. Professora Associada da Universidade Federal do Ceará do Departamento de Enfermagem. Fortaleza, Ceará, Brasil. E-mail: [email protected]. p.644 • Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 out/dez; 18(4):644-9. Recebido em: 24/06/09 – Aprovado em: 21/09/10 Artigo de Revisão Review Article Artículo de Revisión INTRODUÇÃO As doenças profissionais constituem um grave problema de saúde pública. Historicamente, porém, os profissionais de saúde só foram considerados uma categoria de alto risco para acidentes de trabalho a partir do século XX, quando então a ocorrência dos riscos biológicos foi relacionada com as doenças que atingiam especificamente os trabalhadores da área da saúde1. Riscos ocupacionais são todas as situações de trabalho que podem romper o equilíbrio físico, mental e social dos trabalhadores e não somente as situações que originem acidentes e doenças2. Dessa forma, entende-se por condições de risco as que, devidas à natureza das próprias funções e em resultado de ações ou fatores externos, aumentem a probabilidade de ocorrência de lesão física, psíquica ou patrimonial3, sendo necessário que o enfermeiro conheça o processo de trabalho e os riscos potenciais a que está exposto. O exercício profissional da enfermagem na atenção básica, mais especificamente na Estratégia Saúde da Família (ESF), muitas vezes ocorre em cidades interioranas, necessitando, portanto, de deslocamentos diários para atendimento em distritos, com risco de vida para cada um dos que estão nesse mister. Muitos profissionais da saúde trabalham sem vínculo de trabalho com base na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), não podendo usufruir dos direitos profissionais. Além disso, estão sujeitos a pressões psicológicas decorrentes das inúmeras atribuições da ESF. Sabemos que a enfermagem é a profissão do cuidar, mas quem cuida desses profissionais que muitas vezes negligenciam o seu próprio autocuidado? Desse modo, este artigo teve como objetivo discutir os riscos ocupacionais a que os enfermeiros atuantes na ESF estão expostos, segundo a literatura. Bessa MEP, Almeida MI, Araújo MFM, Silva MJ teção individual e coletiva, condições e local de estocagem e procedimentos de emergência3. Já o grupo 3 está representado pela cor marrom, correspondendo aos riscos biológicos, isto é, à probabilidade da exposição ocupacional a agentes biológicos3,4. Agentes biológicos correspondem aos microorganismos, geneticamente modificados ou não; às culturas de células, aos parasitas, às toxinas e aos príons3. Os riscos ergonômicos estão representados pela cor amarela e estão englobados no grupo 4, sendo caracterizados pelo levantamento e transporte manual de cargas e peso, repetitividade, ritmo excessivo de trabalho, posturas inadequadas de trabalho e trabalho em turnos3,4. E por fim, o grupo 5, que são os riscos de acidentes, representados pela cor azul, e que correspondem ao arranjo físico inadequado, quedas, equipamentos sem proteção e acidentes perfurocortantes3,4. Assim, como em qualquer outra profissão, os trabalhadores de enfermagem também estão submetidos a esses riscos. No entanto, o que se percebe é uma negligência tanto por parte dos trabalhadores quanto por parte do empregador, no que diz respeito à saúde ocupacional dos enfermeiros. Nesse contexto, é necessário que o enfermeiro conheça o processo de trabalho e os riscos potenciais a que está sujeito, para, assim, garantir a sua segurança e a da equipe, durante o atendimento5. METODOLOGIA O presente estudo é uma pesquisa bibliográfi- nistério do Trabalho e Emprego (MTE) classifica os riscos ambientais em cinco grupos: físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e de acidentes2;3. O grupo 1 engloba os riscos físicos que estão representados pela cor verde e que correspondem ao ruído, calor, frio, radiações ionizantes e não ionizantes, vibrações, umidade, pressões ambientais3;4. O grupo 2 são os riscos químicos, representados pela cor vermelha, constituídos pelas poeiras, gases e vapores3,4. A Norma Regulamentadora no 32/MTE (NR32) recomenda uma ficha descritiva que contenha, no mínimo, as informações sobre as características e a forma de utilização do produto, os riscos à segurança e saúde do trabalhador, bem como as medidas de pro- co-documental que traz à luz da literatura conhecimentos acerca da problemática de riscos ocupacionais dos profissionais da enfermagem. A busca bibliográfica, realizada no mês de janeiro de 2009, compreendeu as bases de dados LILACS, inclusas na Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), utilizando os descritores: riscos ocupacionais e enfermagem. Considerou-se essa base de dados, pois o Scientific Eletronic Library on Line (SCIELO) e Base de dados de Enfermagem (BDENF) já estão incluídos na mesma. O estudo abrangeu os últimos 11 anos (1998 a 2008). Foram encontradas inicialmente 163 referências bibliográficas. Considerou-se como critério de inclusão artigos na integra disponível na base de dados pesquisada com um total de 29 artigos2,4-31. No período da pesquisa, não foram encontrados artigos sobre riscos ocupacionais na enfermagem atuante na atenção básica. Após a análise dos artigos encontrados, foi localizado um artigo32 sobre atenção básica, produzido no Rio de Janeiro, que contribuiu para a discussão dos achados. Recebido em: 24/06/09 – Aprovado em: 21/09/10 Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 out/dez; 18(4):644-9. REFERENCIAL TEÓRICO A Norma Regulamentadora no 5 (NR5) do Mi- • p.645 Artigo de Revisão Review Article Artículo de Revisión Riscos ocupacionais do enfermeiro na ESF Após a seleção, os artigos foram impressos e lidos em sua íntegra. O primeiro passo foi registrar, em instrumento elaborado para esse fim, o nome do autor, o título do artigo, o ano de publicação, o tipo de metodologia e o local do estudo. A seguir, os artigos foram organizados em riscos ocupacionais – conforme a NR5/MTE: físicos, químicos, biológicos e ergonômicos – e riscos de acidentes, dando-se ênfase aos riscos ocupacionais dos enfermeiros que atuam na área de saúde da família, valendo-se, portanto, da experiência vivenciada por uma das autoras. Os dados foram analisados à luz da literatura específica e dos documentos legais que legislam sobre a temática. RESULTADOS E DISCUSSÃO O enfermeiro tem o direito de desenvolver suas atividades profissionais em condições de trabalho que promovam a própria segurança e dispor de material e equipamentos de proteção individual e coletiva, segundo as normas vigentes, cabendo a ele recusar-se a desenvolver atividades profissionais na falta de material ou equipamentos de proteção individual e coletiva definidos na legislação específica33. As atividades de saúde são classificadas com grau de risco 3, sejam elas hospitalares ou ambulatoriais3. Desse modo, considerando que a maioria das atividades dos enfermeiros atuantes em ESF é de nível ambulatorial, também esses estariam expostos a riscos em suas atividades laborais e não apenas os que trabalham em hospital, como apontam os artigos lidos para a elaboração deste estudo. Riscos Físicos As cargas físicas a que os trabalhadores de enfermagem estão expostos na ESF são: exposição à iluminação precária, o que dificulta a realização de procedimentos; a falta de arejamento nos consultórios de enfermagem, tornando o ambiente impróprio para o trabalho, e as instalações elétricas inadequadas, propiciando o risco de choque elétrico, especialmente durante a realização do exame papanicolau, já que é necessário o foco de luz elétrica. Apesar da relevância da temática para a enfermagem, os riscos físicos são pouco discutidos na literatura2,5,14,15,21,19,32. Riscos Químicos Os riscos químicos, aos quais os enfermeiros estão submetidos, “são os gerados pelo manuseio de uma variedade grande de substâncias químicas e também pela administração de medicamentos que podem provocar desde simples alergias até importantes neoplasias” 7:351. p.646 • Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 out/dez; 18(4):644-9. As principais cargas químicas às quais estão expostos são: medicamentos, soluções, desinfetantes, desencrostantes ou esterilizantes, antissépticos, quimioterápicos, gases analgésicos, ácidos para tratamentos dermatológicos, látex (do contato com materiais de borracha) e a fumaça do cigarro7, com manifestações físicas como tontura, dispneia, urticária e irritação da mucosa nasal6,8. Alguns riscos químicos que podemos encontrar nas UBS são: uso de luvas, obrigatória nos procedimentos; uso do hipoclorito de sódio, no ato de realizar educação em saúde para a população; o iodo e o éter, substâncias presentes na realização dos curativos. Além disso, a própria administração de medicamento pode gerar risco de sensibilidade alérgica32. A falta de rotulagem adequada das substâncias químicas comercializadas leva à deficiência de informações sobre os riscos a que os trabalhadores estão expostos, contribuindo para que doenças ocupacionais e acidentes do trabalho com elas relacionados fiquem muitas vezes fora das estatísticas10,11,20,21,22,26 por desconhecimento das causas. Riscos Biológicos Os riscos ocupacionais estão amplamente distribuídos nas unidades de saúde, sofrendo variações proporcionais aos contatos mais intensos e diretos com os pacientes. Podem ser transmitidos pelas mãos ou pela utilização de materiais não limpos, não desinfetados ou esterilizados, e pelo contágio indireto, por objetos contaminados do paciente ou por intermédio do ar9-11,34,35. Os agentes mais importantes de transmissão parenteral são os vírus da hepatite B (HBV), da hepatite C (HCV) e da imunodeficiência adquirida humana (HIV)14,36. É certo que o enfermeiro da ESF não tem oportunidade frequente de aplicar uma injeção endovenosa. Entretanto ele corre o risco de contaminação parenteral ao administrar vacinas e medicamentos por via intramuscular32. Ao executar atividades que envolvem o cuidado direto e indireto com os pacientes, os enfermeiros estão frequentemente expostos às infecções transmitidas por microorganismos presentes no sangue ou outros fluidos orgânicos11,14. Cabe lembrar que esses profissionais devem estar imunizados contra tétano, difteria e hepatite36,37. Enfe rme iros da ESF realizam o e xame papanicolau, entrando em contato com secreção vaginal da paciente. Também entram em contato com doenças infectocontagiosas, tais como tuberculose (TB), viroses, além das parasitoses. Podem ainda entrar em contato com a secreção de feridas, ao realizar procedimentos invasivos, como sondagem vesical de demora. Recebido em: 24/06/09 – Aprovado em: 21/09/10 Artigo de Revisão Review Article Artículo de Revisión Esses profissionais estão expostos a parasitas ao cuidar de clientes portadores de pediculose e/ou escabiose, com grande possibilidade de infestação11. E isso é frequente, pois geralmente as mães procuram o ambulatório de enfermagem para o tratamento dessas afecções. Percebe-se uma vasta literatura sobre esta temática 9-11,14,16,18-20,24,27-30,32,34-36. Riscos Ergonômicos A ergonomia focaliza um sistema formado por um complexo relacionamento de componentes que interagem entre si12. Na atenção básica, um dos principais problemas ergonômicos está relacionado com o mobiliário: as mesas e cadeiras para o atendimento ambulatorial são inadequadas para utilização por um período longo. Apesar de os enfermeiros se dedicarem a outras atividades, tais como atendimento em grupos e visitas domiciliárias, esses profissionais passam boa parte do tempo realizando atividades ambulatoriais32. Como essa análise tem base na vivência profissional de uma das autoras, descrevemos um local de atendimento típico de unidades de atenção básica em um município do interior do Ceará, com vistas a ilustrar neste estudo as más condições de trabalho do enfermeiro em UBF: em atendimentos realizados em escolas, as prescrições feitas em cadeiras escolares, que, em razão do desgaste, são instáveis; realização de pré-natal em camas comuns ou em macas improvisadas no solo; o papanicolau realizado em macas inapropriadas, precisando de um auxiliar para evitar acidentes como quedas. Em tais situações, frequentemente o enfermeiro faz o exame em pé. A essa situação, descrita e vivenciada por muitos enfermeiros que labutam nos locais mais distantes das sedes municipais, os gestores não estão sensíveis, nem dispostos a promover melhorias. Consideram, apenas, o atendimento de qualidade para o paciente e não se preocupam com as condições de trabalho do profissional38. Daí a necessidade de realizar estudos sobre os aspectos ergonômicos não só em hospitais, mas também em UBF, pois nesse contexto só foram encontrados dois artigos32,38. Entre os riscos ergonômicos destacam-se os riscos psicossociais que são desencadeados pelo contato com o sofrimento do paciente15. Alguns agentes estressores são: o rígido controle do tempo; forma como o setor é organizado; falta de materiais e equipamentos adequados; conflitos nos relacionamentos entre os membros da equipe; estado crítico de saúde do paciente; dupla jornada de trabalho (decorrência também da má remuneração), a que tanto homens como mulheres estão expostos, e trabalho nos finais de semana e feriados13,15-19,39. Além disso, os trabalhadores de enfermagem apresentam sentimentos de desvalorização por parte Recebido em: 24/06/09 – Aprovado em: 21/09/10 Bessa MEP, Almeida MI, Araújo MFM, Silva MJ das chefias, o que os leva ao desânimo, desinteresse, fadiga e a uma relação desumanizada com o paciente 16,29,31,32,40,41. Os profissionais de enfermagem vivenciam situações de risco cotidianamente, deixando de se proteger, deixando de se cuidar, como se isso fosse uma atitude natural, essencial para o exercício de uma profissão cujo objeto é a prática do cuidar40. Observa-se que, muitas vezes, a atenção da equipe no ambiente de trabalho concentra-se no cuidar, mas no cuidar apenas dos outros. Na ESF encontram-se também riscos psicossociais. Muitos que trabalham nesse tipo de atendimento passam a semana no local de trabalho, ficando distante da família e do seu ciclo social. As pressões sofridas pelos profissionais não advêm apenas das chefias, mas da própria clientela, que não entende essa nova proposta de assistência à saúde e ainda prefere os modelos curativos ao enfoque preventivo. A natureza do fator psicossocial é complexa e envolve questões relativas ao indivíduo (personalidade), ao ambiente de trabalho (demandas e controle sobre a tarefa) e ao ambiente social (fatores culturais)41. Riscos de Acidentes Acidente de trabalho é aquele que ocorre em função do exercício do trabalho a serviço da instituição empregadora, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte, ou perda ou redução permanente ou temporária da capacidade para o trabalho; sendo acidente típico aquele que ocorre no local de trabalho e durante o exercício do mesmo3. Dos acidentes com trabalhadores de enfermagem pode-se enumerar os gerados por más condições de trabalho, cargas no desenvolvimento do processo de trabalho, desconhecimento de medidas preventivas, em especial os acidentes provocados pelos materiais perfurocortantes, expondo a riscos biológicos como relatado7,9,11,14;23-28,30,34,39. Os trabalhadores da ESF estão sujeitos a riscos de acidente, tanto típico quanto de trajeto. Esses profissionais podem sofrer acidentes com material perfurocortante, ao realizar procedimentos como vacinas, injeções e retirada de pontos; ao acidente de trajeto, ao se deslocarem diariamente para o distrito em que trabalham, viajando por veredas e estradas sem sinalização e estrutura viária. Deslocam-se em veículos velhos, enferrujados, com pneus gastos pelo uso, bancos soltos, sem cintos de segurança e, frequentemente, com excesso de lotação. É importante destacar, ainda, que muitos profissionais têm contrato temporário, isto é, não têm vínculo empregatício de acordo com a CLT, não tendo os direitos reconhecidos em casos de acidentes de trabalho, sendo esse um grande fator estressor para os enfermeiros atuantes na ESF42. Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 out/dez; 18(4):644-9. • p.647 Riscos ocupacionais do enfermeiro na ESF CONCLUSÃO Diante da magnitude dos problemas decorrentes da falta de biossegurança no campo de trabalho do enfermeiro, ainda são poucos os estudos que buscam conhecer com maior profundidade a temática. E, embora tenham sido identificados estudos abrangendo os tipos de riscos a que estão sujeitos os profissionais de enfermagem, mesmo esses trabalhos ainda desenvolvem o tema de forma incipiente, direcionando os objetivos na perspectiva de explorar e descrever os cenários onde os problemas ocorrem. Para avançar no conhecimento sobre riscos ocupacionais no trabalho de enfermagem e ter condições de apresentar evidências sobre estes riscos, devemos aprofundar estudos com bases estatísticas sólidas, de modo a oferecer aos enfermeiros e demais membros da equipe de saúde informações que levem ao autocuidado e à capacidade de reivindicar melhores condições de trabalho e qualidade de vida profissional. REFERÊNCIAS 1.Mastroeni MF. Biossegurança aplicada a laboratórios e serviços de saúde. São Paulo: Atheneu; 2004. 2.Miranda EJP, Stancato K. Riscos à saúde de equipe de enfermagem em unidade de terapia intensiva: proposta de abordagem integral da saúde. Rev Bras Ter Intensiva. 2008; 20:68-76. 3.Reis RS. Segurança e medicina do trabalho: normas regulamentadoras. 2a ed. São Caetano do Sul (SP): Yendes; 2007. 4.Silva LD, Zeitoune RCG. Determinando os riscos na enfermagem intensivista. Esc Anna Nery Rev Enferm. 2002; 6:81-7. 5.Castro MR, Farias SNP. A produção científica sobre riscos ocupacionais a que estão expostos os trabalhadores de enfermagem. Esc Anna Nery Rev Enferm. 2008; 12:364-9. 6.Xelegati R, Robazzi MLCC. Riscos químicos a que estão submetidos os trabalhadores de enfermagem: uma revisão de literatura. Rev Latino-am Enfermagem. 2003; 11:350-6. 7.Ribeiro EJG, Shimizu HE. Acidentes de trabalho com trabalhadores de enfermagem. Rev Bras Enferm. 2007; 60:535-40. 8.Rocha FLR, Marziale MHP, Robazzi MLCC. Perigos potenciais a que estão expostos os trabalhadores de enfermagem na manipulação de quimioterápicos antineoplásicos: conhecê-los para preveni-los. Rev Latino-am Enfermagem. 2004; 12:511-7. 9.Damasceno AP, Pereira MS, Souza ACS, Tipple AFV, Prado MA. Acidentes ocupacionais com material biológico: a percepção do profissional acidentado. Rev Bras Enferm. 2006; 59:72-7. 10.Mafra DAL, Santana JCB, Fonseca IC, Silva MP, Viana JX. Percepção dos enfermeiros sobre a importância do uso dos equipamentos de proteção individual para riscos biológicos em um serviço de atendimento móvel de urgência. Mundo Saúde. 2008; 32:31-8. 11.Carvalho MB, Felli VE. A. O trabalho de enfermagem psiquiátrica e os problemas de saúde dos trabalhadores. Rev Latino-am Enfermagem. 2006; 14:61-9. 12.Alexandre NMC. Aspectos ergonômicos relacionados com o ambiente e equipamentos hospitalares. Rev Latino-am Enfermagem. 1998; 6:103-9. p.648 • Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 out/dez; 18(4):644-9. Artigo de Revisão Review Article Artículo de Revisión 13.Leite PC, Merighi MAB, Silva A. A vivência de uma trabalhadora de enfermagem portadora de lesão “De Quervain”. Rev Latino-am Enfermagem. 2007; 15:253-8. 14.Balsamo AC, Felli VEA. Estudo sobre os acidentes de trabalho com exposição aos líquidos corporais humanos em trabalhadores da saúde de um hospital universitário. Rev Latino-am Enferm. 2006; 14:346-53. 15.Santos JM, Oliveira EB, Moreira AC. Estresse, fator de risco para a saúde do enfermeiro em centro de terapia intensiva. Rev enferm UERJ. 2006; 14:580-5. 16.Cavalcante CAA, Enders BC, Menezes RMP, Medeiros SM. Riscos ocupacionais do trabalho em enfermagem: uma análise contextual. Ciênc Cuid Saúde. 2006; 5:88-97. 17.Correa CF, Donato M. Biossegurança em uma unidade de terapia intensiva: a percepção da equipe de enfermagem. Esc Anna Nery Rev Enferm. 2007; 11:197-204. 18.Lima FA, Pinheiro PNC, Vieira NFC. Acidentes com material perfurocortante: conhecendo os sentimentos e as emoções dos profissionais de enfermagem. Esc Anna Nery Rev Enferm. 2007; 11:205-11. 19.Marziale MHP, Nishimura KYN. Programa preventivo para a ocorrência de acidentes com material pérfuro-cortante entre trabalhadores de enfermagem de um hospital do Estado de São Paulo. Acta Paul Enf. 2003; 16:59-68. 20.Contrera-Moreno L, Monteiro MS. Resgate da produção científica sobre riscos à saúde no trabalho em enfermagem na década de 90. Acta Paul Enf. 2003; 16:81-7. 21.Tuesca-Molina R, Iguarán-Urdaneta M, Suárez-Lafaurie M, Vargas-Torres G, Vergara-Serpa D. Síndrome de desgaste profesional en enfermeras(os) del área metropolitana de Barranquilla. Salud UNINORTE. 2006; 22:84-91. 22.Costa TF, Felli VEA. Exposição dos trabalhadores de enfermagem às cargas químicas em um hospital público universitário da cidade de São Paulo. Rev Latino-am Enfermagem. 2005; 13:501-8. 23.Nishide VM, Benatti MCC, Alexandre NMC. Ocorrência de acidente do trabalho em uma unidade de terapia intensiva. Rev Latino-am Enfermagem. 2004; 12:204-11. 24.Marziale MHP, Nishimura KYN, Ferreira MM. Riscos de contaminação ocasionados por acidentes de trabalho com material pérfuro-cortante entre trabalhadores de enfermagem. Rev Latino-am Enfermagem. 2004; 12:36-42. 25.Sêcco IAO, Gutierrez PR, Matsuo T. Acidentes de trabalho em ambiente hospitalar e riscos ocupacionais para os profissionais de enfermagem. Semina cienc. biol. saude. 2002; 23:19-24. 26.Almeida CB, Pagliuca LMF, Leite ALAS. Acidentes de trabalho envolvendo os olhos: avaliação de riscos ocupacionais com trabalhadores de enfermagem. Rev Latino-am Enfermagem. 2005; 13:708-16. 27.Sêcco IAO, Gutierrez PR, Matsuo T, Robazzi MLCC. A equipe de enfermagem de hospital escola público e os acidentes de trabalho com material biológico. Semina Cienc Biol Saude. 2003; 24:21-36. 28.Canini SRMS, Gir E, Hayashida M, Machado AA. Acidentes perfurocortantes entre trabalhadores de enfermagem de um hospital universitário do interior paulista. Rev Latinoam. Enfermagem. 2002; 10:172-8. 29.Silva DMPP, Marziale MHP. O adoecimento da equipe de enfermagem e o absenteísmo-doença. Ciênc Cuid Saúde. 2002; 1:139-42. 30.Brevidelli MM, Cianciarullo TI. Análise dos acidentes com agulhas em um hospital universitário: situações de ocor- Recebido em: 24/06/09 – Aprovado em: 21/09/10 Artigo de Revisão Review Article Artículo de Revisión Bessa MEP, Almeida MI, Araújo MFM, Silva MJ rência e tendências. Rev Latino-am Enfermagem. 2002; 10:780-6. 31.Carvalho DV, Lima FCA, Costa TMPF, Lima EDRP. Enfermagem em setor fechado: estresse ocupacional. REME rev min enferm. 2004; 8:290-4. 32.Farias SNP, Zeitoune RCG. Riscos no trabalho de enfermagem em um centro municipal de saúde. Rev enferm UERJ. 2006; 13:167-74. 33.Conselho Federal de Enfermagem. Resolução COFEN311/2007. Aprova a reformulação do Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Rio de Janeiro: COFEN; 2007. 34.Gomes AC, Agy LL, Malaguti SE, Canini SRMS, Cruz EDA, Gir E. Acidentes ocupacionais com material biológico e equipe de enfermagem de um hospital-escola. Rev enferm UERJ. 2009; 17:220-3. 35.Ministério da Saúde (Br). Recomendações para atendimento e acompanhamento de exposição ocupacional a material biológico: HIV e hepatites B e C. Brasília(DF): Ministério da Saúde; 2004. 36.Pinheiro J, Zeitoune RCG. O profissional de enfermagem e a realização do teste sorológico para hepatite B. Rev enferm UERJ. 2009; 17:30-4. 37.Silva MKD, Zeitoune RCG. Riscos ocupacionais na perspectiva da enfermagem. Esc Anna Nery Rev Enferm. 2009; 13:279-86. 38.Silva ACB, Athayde, M. O Programa de Saúde da Família sob o ponto de vista da atividade: uma análise das relações entre os processos de trabalho, saúde e subjetivação. Rev Bras Saúde Ocup. 2008; 33:23-35. 39.Mauro MYC, Veiga AR. Problemas de saúde e riscos ocupacionais: percepções dos trabalhadores de enfermagem de unidade materna infantil. Rev enferm UERJ. 2008; 16:64-9. 40.Molinier P. A dimensão do cuidar no trabalho hospitalar: abordagem psicodinâmica do trabalho de enfermagem e dos serviços de manutenção. Rev Bras Saúde Ocup. 2008; 33:6-16. 41.Magnago TSBS, Lisboa MTL, Griep RH. Estresse, aspectos psicossociais do trabalho e distúrbios musculoesqueléticos em trabalhadores de enfermagem. Rev enferm UERJ. 2009; 17:118-23. 42.Silva SM, Robazzi MLCC, Marziale MHP, Haas VJ. Los trabajadores de enfermería y las informaciones sobre sus derechos laborales. Rev enferm UERJ. 2008; 16:357-63. Recebido em: 24/06/09 – Aprovado em: 21/09/10 Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 out/dez; 18(4):644-9. • p.649