Tânia Maria de Oliveira Bertotti
Quem sou eu? A angústia de uma adoção velada
The present article approaches a lived therapeutical experience in the clinic-school
where a patient questions her origin and her history, bringing the hypothesis of an
adoption hidden by her family, in a picture of much anguish and permeated by the
feeling of abandonment.
In this way it is intended to correlate the affects which arose from what the patient
has lived with the investigation that the patient carries about her existence.
> Key words:: Anguish, adoption, feeling of abandonment, respiratory disturbance
Introdução
O tema desse artigo científico pretende abordar a angústia vivida por uma paciente que
sustenta a hipótese de uma adoção velada
e que se questiona a respeito da sua origem
e da sua história.
A palavra “velada” tem a conotação de incerteza, já que se trata de algo não revelado,
podendo levar o leitor a se questionar do
porquê da investigação. Contudo, no papel
de terapeuta, devemos considerar o que nos
mobiliza e o sofrimento apresentado pela
paciente, uma vez que ao longo das sessões
a narrativa da mesma ampara as suas suspeitas.
Desta maneira, abordo a angústia vivida por
essa paciente na busca da sua história e da
resposta à pergunta que não cala: “Quem
sou eu?”.
A proposta deste artigo se embasa na abordagem psicanalítica, tendo como eixo alguns
conceitos do campo da psicossomática. Essas
pulsional > revista de psicanálise > artigos > p. 7-13
número especial, maio de 2005
O presente artigo aborda uma experiência terapêutica vivida na clínica-escola em
que uma paciente questiona sua origem e sua história, trazendo a hipótese de uma
adoção velada pela família, em um quadro de muita angústia e permeado por um
sentimento de abandono.
Dessa maneira pretende-se correlacwionar os afetos advindos dessa vivência com
a indagação que a paciente realiza em termos da sua existência.
> Palavras-chave:: Angústia, adoção, sentimento de abandono, distúrbios respiratórios
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pulsional > revista de psicanálise > artigos
número especial, maio de 2005
questões serão tratadas por meio da articulação entre o referencial teórico e os conteúdos obtidos durante o atendimento
clínico realizado na área de estágio: psicossomática.
Para discorrer a parte teórica do artigo recorro aos seguintes autores: Sigmund Freud e
Franz Alexander.
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Caso clínico
Ressalto que os dados de identificação da
paciente foram alterados como forma de
preservar seu caráter confidencial.*
Ao encontrá-la pela primeira vez na recepção, Helena estava sorridente e notadamente ansiosa pelo início do processo
terapêutico. A minha impressão foi de que
ela estava com o pescoço rígido como se estivesse com torcicolo.
Helena se apresentou dizendo ter 35 anos,
solteira e com um filho de 12 anos. Trabalha
e é graduada em Letras. Pareceu-me ser
uma pessoa reservada, embora fosse muito
simpática e sorridente. Ela mora com a mãe
e o filho. O pai faleceu quando Helena tinha
15 anos.
Quando questionei sobre a sua expectativa
em relação ao atendimento, alegou ter procurado auxílio para conseguir estabelecer
um relacionamento afetivo. Ressaltou seu
desejo em ficar com alguém, porém sente-se
insegura, com medo de ser abandonada.
Apresenta em sua biografia uma gravidez na
qual o pai da criança a abandonou durante
a gestação, fato que contribuiu para intensificar sua insegurança em iniciar outro relacionamento, sempre tendo como eco a
certeza do abandono, presente em seus vínculos afetivos. Ressalta que sentiu-se culpada por não ter se cuidado mais para evitar
a gravidez.
Helena relatou que sofreu crises de apnéia
seguida de taquicardia. Chegou em alguns
momentos, a comparar a apnéia com crises
de asma.
Quando a paciente descreveu esse sintoma
eu o associei com a minha primeira impressão ao vê-la com o pescoço rígido.
A paciente alegou que algumas vezes acordou durante a noite sem conseguir respirar,
sufocada, o que deixou sua mãe em pânico
porque não podia fazer nada para ajudá-la.
Até então nunca havia procurado um médico, em razão desse sintoma.
Ao longo dos atendimentos, observei que a
paciente percebeu a gravidade dessas crises e o perigo que corria. Comunicou-me
que havia procurado um médico para investigar esse distúrbio, mas os exames não detectaram nenhum motivo físico para esse
sintoma.
Helena relatou que a primeira crise ocorreu
há três anos e a última em fevereiro de
2004, tendo um total, segundo ela, de dez
crises de apnéia.
Quando questionada a respeito de ter ocorrido algum fato que acompanhasse o distúrbio, ela não fez nenhuma associação, porém
no terceiro atendimento, notadamente angustiada, iniciou a sessão dizendo que precisava falar de um assunto que nunca havia
comentado com ninguém em sua vida e
relatou ter sido adotada, enfatizando não
ter dúvidas sobre essa hipótese, embora
*> O nome deste paciente e de todos os que aparecerem nos artigos subseqüentes são fictícios, para
preservar sua identidade.
uma realidade que nunca lhe foi esclarecida.
Em várias sessões, Helena relatou com tristeza e incomodo que gostaria de conhecer
sua história, “Quem sou eu?”, dizia ela.
Helena ressaltou que era muito importante
para ela saber de onde veio para obter algumas explicações. A paciente se questiona se
essa insegurança que sente, esse medo do
abandono, não teria ligação com o que a
mãe biológica sentiu na fase da gestação
passando esse sentimento para ela. Helena
tem curiosidades sobre a razão do abandono e mencionou três situações possíveis: que
a mãe morreu no parto, ou engravidou nas
mesmas condições que Helena e não pôde
criá-la ou realmente não a queria e a abandonou. Ela expressou de forma clara que
gostaria de ver sua mãe biológica, mesmo
que fosse à distância. Também gostaria de
saber como era o pai biológico.
Em sua narrativa percebo apenas a necessidade em conhecer a sua história para ter
uma referência e sanar suas dúvidas, porque eu sinto que Helena fala da sua família
com muito amor e respeito, tanto que não
insistiu muito em esclarecer esse fato com a
mãe, guardando-o para si.
A paciente comenta que sua mãe precisou
ficar com ela na escola ao longo da primeira série do primário, porque tinha medo que
sua mãe fosse abandoná-la no colégio, que
nunca mais fosse buscá-la. Na mesma sessão, a paciente relembra que quando era
criança, embora sentisse muita vontade, não
conseguia abraçar e beijar seus pais, como se
houvesse uma barreira entre eles.
No nono atendimento, ela comentou que
quando era recém-nascida ficou na UTI, por
um bom tempo. Disse que na ocasião tiveram que chamar o padre para batizá-la no
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sua família negue qualquer alusão a isso.
Essa certeza é fruto das evidências colhidas
desde os seus nove anos. A paciente mencionou três situações significativas para ela:
a primeira foi uma conversa em família, em
que sua avó comentou, sem notar a sua presença, que a mãe de Helena nunca havia
engravidado, mas que o corpo havia mudado mesmo assim; em outro momento sua
avó comentou seu sofrimento na gestação
dos filhos e que por isso desejou que sua filha não sofresse quando tivesse um filho, o
desejo foi tão forte que ela nunca ... (a avó
não finalizou a frase) e na ocasião em que
a paciente fazia pré-natal, a sua mãe encontrou uma amiga que lhe perguntou “e aquela menina?”, a mãe, desconcertada, prontamente respondeu abraçando Helena, “está
aqui”. A paciente questionou o porquê da
pergunta “e aquela menina?”, em vez de “e
a sua filha?”. Além disso, sua mãe nunca comentou nada a respeito da sua gravidez, se
Helena nasceu de parto normal ou não, se
enjoou etc.
Baseada nessas evidências, Helena, em certa ocasião, questionou a mãe e a avó a respeito da adoção. As duas prontamente
negaram e não deram continuidade ao assunto. Quando questionada da razão de tal
ocultação por parte da mãe, Helena relatou
que talvez sua mãe temesse ser abandonada por ela, para ir em busca da mãe biológica, uma vez que os cuidados maternos
foram realizados sem o pai, em virtude do
seu falecimento.
Helena demonstrou ressentimento ao relatar esse assunto, pois gostaria que tivessem contado a verdade quando ela
perguntou e não negado um fato que ela ouviu claramente, pois considera essa versão
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hospital, porque os médicos achavam que
ela não sobreviveria.
O motivo da internação era uma desidratação grave. Essa história foi contada pela família dela. Quando questiona a mãe sobre o
motivo da desidratação, essa desconversa
ou alega que ela nasceu fraquinha, sem
maiores detalhes.
Sua fala estava carregada de emoção que
aumentava à medida que contava a história.
Ela chorou a sessão toda. Comentou que todos disseram que sua mãe não dormiu nenhuma noite, sempre ficou acordada
aguardando a recuperação da filha. Quando
se recuperou, também o seu pai fazia questão de acompanhá-la ao médico e seguia as
instruções corretamente, tanto que aos dois
anos ficou uma criança bem gordinha.
Nessa sessão pontuei a Helena que ela freqüentemente questionava-se a respeito da
sua origem, sobre sua história, sobre “Quem
era ela?”. Indaguei se ela já havia percebido quanta história tinha para contar sobre a
sua origem, sobre a sua vida. Acrescentei
que se houve, de fato, um abandono, o acolhimento veio e ela sempre teve ao seu lado
pessoas que lhe que r i am bem. Perguntei
novamente se ela ainda se sentia abandonada.
Helena continuou chorando com a cabeça
baixa. Verbalizou que vinha pensando muito no que falávamos em nossos encontros e
que percebeu cada vez mais o quanto foi
amada por esses pais, considerando-se
abençoada por fazer parte dessa família.
Nesse dia, por meio desse relato, houve uma
descarga emocional vivida na sessão, parecia ser algo semelhante ao que se entende
por “ab-reação”, definido por Zimerman
(2001) como
“uma descarga emocional de afetos ligados a
fantasias, desejos proibidos e lembranças penosas de fatos traumáticos que estão reprimidos no inconsciente ou no pré-consciente,
através de uma irrupção no consciente, provocada pela recordação e verbalização desses
acontecimentos”, desta maneira encaminhando parte desse acúmulo de excitação que não
podia antes ser nomeado.
A partir desse momento, inaugurou-se um
movimento psíquico, uma nova etapa do
atendimento em que a paciente pareceu dar
novos significados aos acontecimentos de
sua vida.
Atualmente, observa-se que Helena demonstra estar mais livre em seus relatos,
apresentando igualmente mudança na
forma de se arrumar e no seu vestir. Demonstra uma postura menos rígida, principalmente no pescoço – região em que o
distúrbio respiratório surgia, parecendo que
“sua garganta está destrancada”.
Na transferência demonstrava estar vinculada e confiante com o processo em andamento.
Recentemente Helena relatou que concluíra que em certas ocasiões sentia-se na posição de “vítima do abandono”, depositando
no outro toda a responsabilidade por sua felicidade, sem questionar a sua contribuição
na relação. Percebeu que realmente é impossível ter garantias de que um relacionamento será para sempre. Nesse dia coloquei
para Helena, de forma humorada, que em
nosso primeiro encontro parecia que ela
queria um “vale-namoro com garantias de
casamento eterno”. Demos risada.
Em várias ocasiões pontuei que ela se colocava como a abandonada nos relacionamentos, sem notar que ela mesma já
Abordagem teórica
Em “Recordar, repetir e elaborar”, Freud
(1914) afirma que o indivíduo não lembra coisa alguma do que esqueceu e reprimiu, mas
o expressa pela atuação ou o atua (acts it
out). A pessoa o reproduz não como recordação, mas como ação, o repete, sem saber o
que está repetindo.
É freqüente o fato do paciente se recordar
de algo que nunca poderia ter esquecido,
pois, de fato, o acontecimento não foi notado
em ocasião alguma, nunca foi consciente.
Ao consultar o livro Medicina psicossomática, de Franz Alexander (1989), pesquisei o
capítulo sobre fatores emocionais nos distúrbios respiratórios. Embora aborde a questão
da asma brônquica prossegui com a leitura e
obtive as seguintes informações, muito esclarecedoras, se fizermos a correlação com
os sintomas respiratórios descritos pela paciente.
A função respiratória, além de ser um componente importante da fala, sofre a influência da emoção na vida diária, conforme
destaca o autor. Por conta dessa íntima correlação entre as tensões emocionais e as
funções respiratórias é provável que fatores
psicológicos desempenhem um papel importante na maior parte das doenças dos órgãos
respiratórios.
Ao discorrer sobre a asma, o autor relata que
o fator psicodinâmico nuclear é o conflito
centralizado numa dependência excessiva e
não resolvida da mãe. A dependência reprimida da mãe é uma característica constante, ao redor da qual podem desenvolver-se
diferentes tipos de traços de caráter defensivos. Essa dependência tem uma conotação
não tanto de desejo oral de ser nutrido; é
mais o desejo de ser protegido – de ser circundado pela mãe ou pela imagem materna.
Tudo que ameaça separar a paciente da mãe
protetora tende a desencadear uma crise
asmática.
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havia rompido namoros.
Pelo andamento do processo, Helena vem
demonstrando posicionar-se frente a situações do cotidiano, isto é, de forma sutil vem
falando o que realmente pensa sem ter o
medo da desaprovação ou do abandono.
Avalia o que realmente quer sem levar em
consideração tanto o que os outros dizem,
mas dando maior importância a seu próprio
desejo.
Em relação à gravidez, percebeu que não
poderia ter feito nada de diferente na ocasião. A culpa por não ter se cuidado mais e
evitado a gravidez cedeu lugar ao orgulho de
ter conseguido cuidar do filho sozinha e ao
amor existente entre eles.
Segundo a paciente, seu objetivo hoje em
terapia é conhecer-se mais para ser uma
pessoa melhor e viver bem, dentro do possível.
Eu percebo que houve uma transferência
positiva em sentimentos de afeição e confiança da paciente para comigo. Helena
sempre colaborou muito com o processo,
empenhando-se em comparecer às sessões
e despertando curiosidades sobre si.
Esse “amor” à psicoterapia contribui para a
paciente expor questões mais árduas e íntimas, auxiliando a aliança terapêutica.
Os assuntos tratados numa segunda fase da
terapia estão mais relacionados ao encaminhamento da sua vida atual e não estão girando em torno unicamente da questão da
adoção e do medo do abandono, sendo que
esses assuntos viraram pano de fundo.
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Segundo as pesquisas do autor, a história de
rejeição materna é encontrada como uma
característica recorrente na vida de pacientes asmáticos. A criança, que ainda necessita do cuidado materno, naturalmente
responde à rejeição materna com o aumento do sentimento de insegurança e um maior
apego à mãe.
O autor menciona que E. Weiss, baseado em
um estudo psicanalítico de um caso, desenvolveu a teoria de que a crise de asma representa o choro reprimido, chamando a mãe.
Futuramente essa teoria será comprovada
pelo fato de que os pacientes asmáticos
sentem dificuldade para chorar. Observa-se
que há uma melhora após o paciente ter
confessado alguma coisa pela qual sentiase culpado e esperava rejeição. A confissão demonstra para o terapeuta a relação
conturbada entre os sentimentos de culpa e conseqüente rejeição esperada pelo paciente.
>12
Discussão
Correlacionando a leitura do texto “Recordar, repetir e elaborar”, Freud (1914), com o
caso clínico, observa-se que ao longo dos
atendimentos lembranças esquecidas da infância de Helena foram emergindo no encontro terapêutico. Helena, ao verbalizar a
respeito de sua internação, vivenciou uma
descarga emocional na sessão. A partir desse momento houve uma elaboração psíquica e inaugurou-se um movimento psíquico,
levando a paciente a dar novos significados
aos acontecimentos de sua vida.
De acordo com o texto seria possível levantar a hipótese de que Helena, ao engravidar
e ser abandonada pelo namorado, estivesse repetindo algo que pudesse ter aconteci-
do com a sua mãe biológica. Isto é, algo que
a paciente tenha reprimido expressando-o
por meio da atuação.
Prosseguindo com a reflexão, quiçá o mais
importante não seja o que a mãe biológica
sentiu quando estava grávida, mas as fantasias construídas por Helena a partir da
idéia de que sua mãe “adotiva” temesse ser
abandonada por ela, por isso não lhe revelou a “verdade”. Com isto, a paciente projeta seu temor de ser abandonada na própria
mãe adotiva, ela parece construir uma fantasia que dê conta de ser abandonada.
A apnéia está relacionada a um distúrbio
respiratório em que há perda do ar e morte
por não conseguir respirar. Como uma
angústia da separação, quando o cordão
umbilical é cortado e o bebê precisa acionar os seus pulmões para sobreviver, isto
é, o primeiro corte que impulsiona para a
vida.
Percebe-se uma grande dificuldade da paciente em lidar com a questão do abandono,
da separação e da rejeição, o que leva a paciente a ter medo de se expor nos relacionamentos por considerar que a separação e
o abandono serão inevitáveis.
Como coloca Franz Alexander (1989) a
história da rejeição materna é encontrada
nos distúrbios respiratórios. Destaca que
a criança responde à rejeição materna com
o sentimento de insegurança e maior apego à mãe. Observa-se essa insegurança e
esse apego, quando a paciente relata que
sua mãe precisou permanecer na escola
enquanto ela estava em aula, porque sentia medo que sua mãe fosse abandoná-la.
Pode-se levantar a hipótese de que esse distúrbio respiratório simbolize o ocorrido no
espaço de tempo entre a separação da mãe
Considerações finais
A conversão, em sua definição psicanalítica
clássica de solução de compromisso para o
conflito desejo/repressão, se constitui no
aspecto central do sintoma histérico de base
simbólica e inconsciente, segundo Freud
(1896). Portanto, somatizar é exprimir o sofrimento emocional sobre a forma de queixas físicas.
Helena sofreu várias crises de apnéia e,
como já citado neste trabalho, chegou a comparar as sensações que tinha com a da asma
brônquica.
Ao analisarmos as teorias freudianas e as de
Franz Alexander (1989) é possível dizer que
a apnéia relatada pela paciente era um distúrbio psicossomático, cuja raiz repousa na
sua suspeita de ter sido adotada, dúvida
essa que nunca foi esclarecida gerando uma
grande angústia na paciente. Essa afirmação
é reforçada pelo fato dos médicos de Helena não terem encontrado nenhum motivo
físico para o seu problema.
Se considerarmos a interação do emocional
com os sintomas corporais de uma forma
mais ampla, podemos afirmar que não se
pode conceber o adoecimento desvinculado
da participação das esferas biológica, social/
cultural e mental/emocional.
A paciente aproveitou o espaço oferecido
a ela para verbalizar todas as suas angústias e medos que estavam armazenados
há muito tempo e que tanto a mobilizavam.
Ao longo dos atendimentos, as queixas iniciais tornaram-se pano de fundo e atualmente os assuntos estão mais relacionados
ao encaminhamento da sua vida atual.
Helena conseguiu refletir a respeito de
“Quem era ela” e dos acontecimentos de sua
vida, atribuindo a eles um novo significado.
Os resultados dessa reflexão puderam ser
notados no seu modo de vestir, na sua postura física e na suavização da rigidez na área
do pescoço, apresentada no início do processo terapêutico.
Vivenciar com a paciente a construção do
vínculo terapêutico, as descobertas feitas
pela paciente a respeito dela mesma, assim
como presenciar o seu movimento psíquico
representou uma experiência ímpar para a
minha formação.
Referências
ALEXANDER, Franz. Medicina psicossomática –
Princípios e aplicações. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1989.
FREUD, Sigmund. A etiologia da histeria. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. III.
_____ Recordar, repetir e elaborar (Novas
Recomendações sobre a técnica da psicanálise
II). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago,
1996. v. XII.
ZIMERMAN, David E. Vocabulário contemporâneo
de psicanálise. Porto Alegre: Artmed, 2001.
Artigo recebido em janeiro de 2005
Aprovado para publicação em março de 2005
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biológica e o encontro com a mãe adotiva;
de acordo com o autor a crise respiratória
representa o choro reprimido chamando pela
mãe. Talvez represente a falta de alimentação ou a falta de ar, o que justificaria a desidratação grave que levou a internação de
Helena em uma UTI.
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