HELENA: A QUE HÁ DE SER MORTA
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Valdiney Valente Lobato de Castro 1
RESUMO
A obra Helena foi publicada primeiramente em folhetins e só depois foi publicada em romance, ganhando
grande aceitabilidade do público. A excelente receptividade é resultado de a obra apresentar o
espelhamento dos padrões morais e sociais da classe burguesa da metade do século XIX. A chegada de
Helena, suposta filha bastarda, no seio de uma família patriarcal é palco de inquietação pelos personagens
que simbolizam o preconceito burguês. Nasce o amor entre os supostos irmãos: Estácio e Helena e mesmo
depois de dissolvido o impedimento fraternal, a relação é impossibilitada pela diferença de classes, o que
culmina com a morte inevitável da protagonista.
Palavras –chave: Helena. Leitores. Sociedade.
ABSTRACT
Helena's work was first published in serials and then was published in novel, gaining great public
acceptability. The excellent receptiveness is a result of the work present mirroring of social and moral
standards of the bourgeois class of half of the 19th century. The arrival of Helen, alleged illegitimate
daughter, within a patriarchal family is caring stage by characters who symbolize the bourgeois prejudice.
The love between the supposed brothers: Statius and Helena and even after dissolved the offside, the
fraternal relationship is unable by the difference of classes, which culminates with the inevitable death of
the protagonist.
Keywords: Helena. Readers. Society.
Introdução: o sucesso da obra
A obra Helena foi publicada em folhetins entre 06 de agosto a 11 de setembro de
1876 – 34 edições, mais ou menos um capítulo por dia – pelo jornal O Globo e reunida
1
Valdiney Valente Lobato de Castro é formado em Letras pela Universidade Federal do Pará e cursa Mestrado
em Estudos Literários, na Universidade Federal do Pará. E-mail: [email protected]
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em volume no mesmo ano, no mês seguinte, pelo editor Baptiste Louis Garnier. Machado
de Assis vendeu o romance, até, então, intitulado Helena do Valle, para a publicação de
1500 exemplares no valor de seiscentos mil réis, em 25 de agosto de 1876.
Na época Camilo Castelo Branco havia afirmado que os romances brasileiros
apresentavam todos a cor local, numa alusão às obras de Alencar até então publicadas. E
Helena surge para alterar essa norma, conferindo ao romance brasileiro o que de mais
moderno podia existir na época. O próprio Machado de Assis não escondia a satisfação
com a recepção do livro. Em carta a Salvador Mendonça acrescentou: Dizem aqui que dos
meus livros é o menos mau, não sei, lá verás. Faço o que posso e quando posso (ASSIS apud
GUIMARÃES, 2004, p.156) No prefácio – que Machado chama de advertência - à segunda
edição, ele afirma, analisando a primeira fase de sua publicação que: dos que então fiz,
este me era particularmente prezado (ASSIS, 1996, p.17 ).
A Ilustração Brasileira em 15 de outubro de 1876 comparou: Sem dúvida alguma
o primeiro [Ressurreição] é superior ao segundo [A mão e a luva], mas Helena, o terceiro
romance de Machado de Assis, é superior ao primeiro (GUIMARÃES, 2004, p. 322).
A inovação da trama que apresentava a gradativa construção de um mistério em
torno da heroína ia conquistando o público:
Imagine-se um estudo psychologico do melhor quilate, uma delicadíssima
analyse do coração humano, sem toques realistas e ao mesmo tempo sem
subtilezas fóra da verdade; imagine-se uma série de episodios que promovem a
curiosidade sem, entretanto, um unico lance da escola inverossímel e das
surprezas melodramáticas; imagine-se o mais espirituoso de todos os diálogos
e as mais sentidas de todas as scenas apaixonadas, tudo isso em brilhante,
colorio, crystalino estylo, e ter-se-ha ideia do que seja o novo livro que nos dá o
poderoso e fecundo engenho a quem já devemos tantas páginas de boa poesia e
de excellente proza (ILUSTRAÇÃO BRASILEIRA apud GUIMARÃES, 2004)
A crítica da Ilustração Brasileira ocorre após a publicação do romance em
folhetins, quando o público já conhecia o destino da personagem e, certamente já havia
Estudo serio do coração humano, urdidura simples mas vibrante de interesse,
situações novas e habilmente desenlaças, linguagem poetica e nervosa,
sobriedade artística, e mil outras particularidades atestam que o Sr. Machado
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em crítica do dia 19.10.1876:
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se encantado pela narrativa. Recepção similar pode ser conferida no jornal A Reforma
de Assis pode sem receio deixar que o seu romance seja confrontado com os
melhores que nos chegam de Portugal (A REFORMA apud GUIMARÃES, 2004)
Essa popularização da obra, segundo Gilberto Freyre, teria inspirado muitas mães
a batizarem suas filhas com o nome da infeliz personagem. O romance se consagrou
marcando a publicação do escritor: em 1908, ao noticiar a publicação do Memorial de
Aires, o Diário Popular se refere a Machado de Assis como o festejado romancista
brazileiro e autor de Helena (GUIMARÃES, 2004, p. 321).
A celebrada recepção que a obra teve nos periódicos de seu tempo é resultado de
ter, através da maneira como a história foi tecida, alcançado o horizonte de expectativas
da sociedade da época.
Helena: a falsa moeda da sociedade burguesa
A história é ambientada em 1850, durante o Segundo Reinado, no seio da família
burguesa e, por isso, é marcada pelos valores patriarcais com padrões sociais e morais
rigidamente estabelecidos. A burguesia está em pleno desenvolvimento, marcada pelo
crescimento do capitalismo e pela urbanização do Rio de Janeiro, que cada vez mais
assemelha-se (ou espelha-se) às capitais europeias. Diante disso, a sociedade estruturase em classes sociais bem definidas, sem possibilitar a ascensão social. Esse contexto é
possível ser visto na obra Helena em que há:
da obra. Os fatores externos como a política, a psicologia ou a sociologia estão presentes
no texto literário e por isso não podem ser desprezados. Contrariando as teorias críticas
que negam a influência do contexto, o autor afirma que são esses elementos que
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Para Antonio Candido as questões sociais são importantes para a compreensão
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conciliação histórica, transação narrativa. Machado de Assis reuniu nesse
enredo de amor impossível a matriz intelectual, política e retórica de um
período brasileiro. Ofereceu ao folhetim jornalístico, de maneira
despretensiosa, um olhar dos anos setenta sobre os anos cinqüenta. No
momento da consolidação das classes proletárias, sempre temerosas de
alianças incertas, o mito da sedução incestuosa que perseguiu o romance e o
melodrama traveste-se em biografia política (BRAYNER, 1989, p. 54)
permitem a compreensão do texto: o externo (no caso, o social) importa, não como causa,
nem como significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na
constituição da estrutura tornando-se portanto, interno. (CANDIDO,2000, p. 4)
Ao aprofundar a importância do contexto para a compreensão do texto literário,
Candido, no texto A passagem do dois ao três: contribuição para o estudo das mediações
na análise literária apresenta duas possibilidades de análise: primeiramente ele
possibilita a leitura do texto literário para a compreensão dos fatores externos na leitura
de O Cortiço e em seguida ele parte de um dito humorístico (fator externo) para
compreender como ele se concretiza na obra O Cortiço. Após as duas análises, ele chega
à seguinte conclusão:
voltemos à análise interna, como ponto de partida para compreender melhor o
externo, não como paradigma genérico, mas enquanto mundo, vida que nutre a
obra. E uma vez chegado neste, podemos refazer o caminho inverso, como
procurei fazer pela análise do dito sentencioso [humorístico] (...) Há portanto a
possibilidade de um método reversível, que se move nos dois sentidos, e que
supere o formal e o não formal na medida em que chega a este partindo daquele
e àquele partindo deste (1974, p. 799)
Diante da possibilidade (da obra para o contexto ou do contexto para a obra) será
feita a leitura das questões internas da obra para a compreensão dos valores sociais e
morais da classe burguesa de meados do século XIX.
A obra inicia com a morte do Conselheiro Vale e com a leitura de seu testamento.
É quando a família descobre que há uma herdeira, fruto de um relacionamento
extraconjugal. Diante da notícia, em nenhum momento se questiona a infidelidade do
conselheiro, mas sim a recepção da bastarda na casa e a explicação que se dará à
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D. Úrsula reprovou de todo o ato do conselheiro. Parecia-lhe que, a despeito
dos impulsos naturais e licenças jurídicas, o reconhecimento de Helena era
um ato de usurpação e um péssimo exemplo. A nova filha era, no seu
entender, uma intrusa, sem nenhum direito ao amor dos parentes: quando
muito, concordaria em que se lhe devia dar o quinhão da herança e deixá-la à
porta. Recebê-la, porém, no seio da família e de seus castos afetos, legitimá-la
aos olhos da sociedade, como ela estava aos da lei, não entendia Dona Úrsula ,
nem lhe parecia que alguém pudesse entendê-lo (ASSIS 1996, p. 56-7)
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socidade:
Para D. Úrsula, irmã do conselheiro, receber Helena como um membro da família
era um péssimo exemplo, por que iria legitimar a mácula do irmão diante da sociedade:
A vida do conselheiro, marchetada de aventuras galantes, estava longe de ser uma página
de catecismo (ASSIS, 1996, p.20). O não questionamento da infidelidade do patriarca
pode sugerir que eram plenamente aceitáveis pelas mulheres as aventuras amorosas
dos maridos ou irmãos. Importante comparar com outros textos de Machado de Assis
em que a aceitação plácida da infidelidade do marido está presente como em Missa do
Galo e em O Relógio de Ouro.
Esta aceitação ajuda a compreender o papel da mulher na sociedade oitocentista:
no romance, D. Úrsula é uma perfeita representante dos valores sacralizados pela
sociedade e Eugênia, prometida de Estácio, é um emblema da frivolidade da mulher
burguesa:
Eugênia era uma das mais brilhantes estrelas entre as menores do céu
fluminense. Agora mesmo, se o leitor lhe descobrir o perfil em camarote de
teatro, ou se a vir entrar em alguma sala de baile, compreenderá, — através
de um quarto de século, — que os contemporâneos de sua mocidade lhe
tivessem louvado, sem contraste, as graças que então alvoreciam com o
frescor e a pureza das primeiras horas. (ASSIS, 1996, p.32)
A ácida ironia Machadiana, no alerta ao leitor, desenha o perfil da mulher da
época. Contrária a essa futilidade, há a inusitada Helena que, com seu marcante
comportamento, beleza e inteligência, surpreende Estácio. A heroína é assim
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Helena praticava de livros ou de alfinetes, de bailes ou de arranjos de casa, com
igual interesse e gosto, frívola com os frívolos, grave com os que o eram,
atenciosa e ouvida, sem entorno nem vulgaridade. (...)Além das qualidades
naturais, possuía Helena algumas prendas de sociedade, que a tornavam aceita
a todos, e mudaram em parte o teor da vida da família. (...) Era pianista distinta,
sabia desenho, falava correntemente a língua francesa, um pouco a inglesa e a
italiana. Entendia de costura e bordados e toda a sorte de trabalhos feminis.
Conversava com graça e lia admiravelmente. Mediante os seus recursos, e
muita paciência, arte e resignação, — não humilde, mas digna, — conseguia
polir os ásperos, atrair os indiferentes e domar os hostis. (ASSIS, 1996, p. 29)
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apresentada ao leitor:
Essa idealização está muito distante da realidade das mulheres leitoras da época.
A mulher da época recebia poucas instruções e passava a maior parte do tempo
recolhida em sua residência. Fruto de uma alta taxa de analfabetismo, à mulher era dada
instrução básica, algumas lições de francês e aula de piano:
O universo da leitura da mulher brasileira é dos mais restritos. Iletrada na
maioria dos casos faz parte de uma sociedade para a qual o livro, a leitura e a
cultura não parecem apresentar maior significado. Quando recebe educação
formal, esta prima pela superficialidade (ZILBERMAN,1993, p.33)
No entanto, essa idealização da heroína está longe de significar uma proposta de
emancipação da figura feminina na obra. Muitas falas da personagem coadunam-se às
convenções sociais. A gratidão e submissão dela em ser recebida na família Vale
demonstram o quanto ela também se sente inferiorizada quando afirma:“Minha dívida
não tem limites” (ASSIS , 1996, p.83) ou ainda:
Oh! Não é vão melindre. É a própria necessidade da minha posição. Você pode
encará-la com olhos benignos; mas a verdade é que só as asas do favor me
protegem... Pois bem, seja sempre generoso, como foi agora; não procure violar
o sacrário da minha alma (ASSIS, 1996, p. 110).
A construção: “minha posição” fortalece a dupla marginalização da personagem:
por ser bastarda e não se inserir na família do conselheiro e por ser mulher e tendo
sempre de ser submissa às decisões dos homens, no caso, de seu irmão Estácio. Vale
lembrar que Estácio, como homem da família, não permite que Helena se case com
Mendonça, o que demonstra a passividade da mulher na época que além de depender
financeiramente do homem tinha seu espaço claramente limitado: Estácio (...) discutiu
fazer passeios a cavalo sozinha, o que acentua o tratamento preconceituoso comum à
mulher da época.
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1996, p.45). Em outro momento da trama Helena é tratada como Andorinha Viajante por
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gravemente o assunto da candidatura. Era pesado demais para cabeça feminina (ASSIS,
Assim, embora a personagem seja mostrada em diversos momentos como
idealizada, ela é o reflexo do seu tempo. Algo do qual o autor não pode fugir. Antonio
Candido em Literatura e Sociedade aponta:
O publico dá sentido e realidade à obra, e sem ele o autor não se realiza, pois ele
é de certo modo o espelho que reflete a sua imagem enquanto criador (...) o
público é fator de ligação entre o autor e a sua própria obra (...) O autor é
intermediário entre a obra, que criou, e o público, a que se dirige.
(CANDIDO,2000, p. 38)
A citação é um recorte do final do capítulo Literatura e Vida Social em que o autor
mostra a relação de interdependência entre autor, público e a obra. A obra não existe
sem o público e é exatamente a recepção deste que vai definir o valor da produção, o que
pode acontecer logo após a publicação ou anos após. Candido mostra a relação entre os
três elementos, fazendo várias composições entre os termos a fim de analisar qual dos
três é o fator de ligação. A terceira, e última, série apresentada é obra-autor-público, em
que fica transparente a posição do autor em relacionar a obra ao público.
Os percursos que a personagem segue são, dessa forma, um espelho da sociedade
da época, com seus rígidos padrões morais. A apresentação da burguesia patriarcal
enriquecida pode ser percebida, em diversos momentos do texto na fala do Estácio,
como no seguinte trecho:
Valem muito os bens da fortuna, dizia Estácio; eles dão a maior felicidade da
Terra, que é a independência absoluta. Nunca experimentei a necessidade; mas
imagino que o pior que há nela não é a privação de alguns apetites ou desejos,
de sua natureza transitórios, mas sim essa escravidão moral que submete o
homem aos outros homens. A riqueza compra até o tempo, que é o mais
precioso e fugitivo bem que nos coube (ASSIS, 1996, p. 38)
Para Estácio, o herói da narrativa, a ausência dos bens materiais não lhe causaria
preocupação da heroína com a herança recebida. No entanto: no momento em que Helena
tem a sua situação consolidada e circula como boa moeda na sociedade fluminense
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Helena, ao contrário, não há a preocupação com a riqueza; não há registro no texto da
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tanto pesar; mas, sim, a subordinação que a pobreza lhe imporia a outros homens. Para
executando o testamento de seu pai, o enredo se complica (TELLES, 1997, p. 64). A
ascensão social promoveu Helena a uma moça burguesa aceita na sociedade e a
revelação final de que ela não era filha legítima do Conselheiro Vale retorna à heroína a
condição inferior, o que impossibilita a relação com a família de Estácio. Como na obra a
presença de situação econômica percorre todo o texto, Helena pode ser considerada a
moeda falsa da sociedade burguesa.
O(s) casamento(s) impossível(is) e a morte necessária
Em outro momento da obra, Camargo, uma personagem que é mais próxima do
vilão dentro da narrativa, ao conversar com sua filha Eugênia, assim pondera: A riqueza
não deve ser dissipada, mas é certo que impõe obrigações imprescindíveis, e seria da maior
inconveniência viver a gente abaixo de seus meios. (ASSIS, 1996, p. 66)
A preocupação com a manutenção da riqueza e com o conforto que ela
proporciona está transparente. No trecho, Camargo alerta Eugênia que está prestes a
casar com Estácio. O casamento, como passo primordial para a estruturação da família
burguesa, está presente em quatro momentos da trama: o de Angela e de Salvador, no
passado da trama, que é recuperado em flashback; o de Mendonça e Helena, que é
desfeito; o de Estácio e Eugênia, que fica por se concretizar e o de Helena e Estácio, que é
Esse casamento de Angela e Salvador não se concretiza pelas dificuldades
financeiras. E Salvador, mesmo não pertencendo à classe abastada, tem consciência da
necessidade do casamento para legitimar a relação amorosa diante da sociedade:
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Mesmo insistindo sobre a questão, os quatro casamentos vislumbrados
permanecem impossíveis. Estácio não pode se casar com Eugênia, pois não
sente nenhum amor por ela. Impossível também se casar com Helena, sua
amada, em razão dos laços ilegítimos (e mesmo escandalosos) que os une em
família. O mesmo se aplica à Helena, cuja união com Mendonça seria totalmente
arranjada. Enfim, o não casamento de Salvador e Ângela é o aspecto mais
interessante da narrativa. Com efeito, mesmo se amando perdidamente, nos
primeiros anos de sua ligação, os dois amantes são vítimas da fatalidade da
vida, seus destinos parecem voltados a outros horizontes. ( DURAND, 2011, p.
25)
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impedido:
Nos primeiros dias da nossa fuga do Rio Grande, a própria embriaguez da
felicidade desviou qualquer idéia de santificar e legalizar uma união consentida
pela natureza. Depois vieram os trabalhos e as necessidades. Estávamos ligados
pela miséria e pelo coração, não pretendíamos o respeito da sociedade; triste
desculpa; e ainda mais triste recordação, porque o casamento teria talvez
obstado os acontecimentos posteriores. (ASSIS, 1996, p. 122)
Salvador afirma que se o casamento entre ele e Angela tivesse ocorrido, ela talvez
não o abandonasse. O respeito ao matrimônio é mais um aspecto na obra que
caracteriza, não só a sociedade burguesa, mas o século XIX.
Exatamente em respeito aos ditames sociais é que se torna impossível o
casamento entre Helena e Estácio no final da trama. No início do romance a protagonista
vive sob o ônus de usurpadora, de aventureira, alcunha que irrevogavelmente lhe
perseguirá por completo em detrimento das representações características da sociedade
oitocentista, marcada pela rígida divisão de classes e, em consequência, por uma
impossibilidade de ascensão social de camadas economicamente inferiores. Para
Zilberman (1989, p. 85);
(...em Helena) representa-se uma sociedade rigidamente dividida e
hierarquizada, com opções muito restritas de trabalho, ascensão e realização
pessoal. De certa maneira, todos são vítimas dessa estratificação e estreiteza, pois
mesmo Estácio perde sua oportunidade de ser feliz. Sob este aspecto o livro
esboça uma crítica sutil; ao mesmo tempo, antecipa o final desse mundo, já que
sua superação está em vias de acontecer, a narrativa principia.
Estácio empreende uma procura que culmina em duas revelações centrais: a
primeira é a de que Helena, embora reconhecida como herdeira pelo Conselheiro Vale,
não é filha dele , mas de Salvador, logo, esvaem-se as amarras de parentesco e
permanecem as diferenças de classe; e a segunda é a de que, na verdade, a heroína foge
alimenta a questão principal do romance, ou seja, como referenda (MORAES, 2008, p.89)
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“a fatalidade que irremediavelmente separa os protagonistas: o amor frustrado pelas
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do “amor incestuoso” que nutre pelo “meio irmão. Com isto, a ocultação de Helena
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conveniências”, isto é, por impedimentos ora atrelados ao impasse fraternal, ora à
distância social inabalável.
Esse respeito às convenções também pode ser percebido pela ausência de
declaração de amor entre Estácio e Helena. Há falas em que os discursos de amor ficam
silenciados e há atitudes em que o ciúme de Estácio fica evidente (como quando
Mendonça se diz apaixonado por Helena), Apenas no final Padre Melchior aparece como
testemunha do amor de Estácio por Helena fazendo a esperada revelação do amor:
Melchior inclinou-se e encarou o moço. Os olhos, fitos nele, eram como um
espelho polido e frio, destinado a reproduzir a imagem do que lhe ia dizer.
— Estácio, disse Melchior pausadamente, tu amas tua irmã.
O gesto mesclado de horror, assombro e remorso com que Estácio ouvira
aquela palavra, mostrou ao padre, não só que ele estava de posse da verdade,
mas também que acabava de a revelar ao mancebo (ASSIS, 1996, p. 96)
É importante analisar que essa fala não é uma pergunta, mas uma constatação e
não foi dita por nenhum dos amantes, mas por um padre. O clérigo a partir de então
exerce uma importância fundamental na história. Em seguida ele afirma que houve um
desvio da lei social e religiosa, mas desvio inconsciente (ASSIS, 1996, p.97) o fato de ser
um padre quem profere sobre o amor, já evidente para os leitores, atenua o delito tão
condenável. No final do capítulo 23 o padre pede a Estácio para não conversar com
Helena. No outro dia se descobre que eles não são irmãos. Importante notar que não há
uma conversa entre os dois enquanto culpados do suposto incesto. Só depois de desfeito
o incesto é que há a primeira demonstração concreta de amor entre eles:
Esvaíra-se-lhe o sorriso, e o olhar tornara a ser opaco. Estácio teve medo
daquela atonia e concentração; travou-lhe do braço; a moça estremeceu toda e
olhou para ele. A princípio foi esse olhar um simples encontro; mas, dentro de
alguns instantes, era alguma coisa mais. Era a primeira revelação, tácita mas
consciente, do sentimento que os ligava. (ASSIS, 1996, p 112.)
ou como lhe chamavam nos salões: andorinha viajante. Diante da impossibilidade do
amor – marcada pelo respeito às convenções sociais – e para manter a ausência de
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amor se realizar. Helena diz a Estácio que ela sempre será considerada uma aventureira,
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Mesmo diante da certeza de que não há culpa na relação deles seria impossível o
mobilidade social, comum no final do século XIX, a morte é a única alternativa para a
protagonista. A morte resolve o problema apresentado no início da obra, também
marcado por outra morte, a do Conselheiro Vale e produz um apaziguamento do
problema social apresentado.
Essa morte já estava prenunciada na obra:
Fui procurar um livro na sua estante.
— E que livro foi?
— Um romance.
— Paulo e Virgínia?
— Manon Lescaut.
— Oh! exclamou Estácio. Esse livro...
— Esquisito, não é? Quando percebi que o era, fechei-o e lá o pus outra
vez.
— Não é livro para moças solteiras...
— Não creio mesmo que seja para moças casadas, replicou Helena
rindo e sentando-se à mesa. Em todo ocaso, li apenas algumas páginas. (ASSIS,
1996, p 35)
Nos dois romances citados as personagens principais Manon e Virgínia morrem e
a impossibilidade é fruto da questão social que permeia os dois romances: essa negação
social é representada, tanto em Helena, de Machado de Assis quanto em Paul et Virginie
(1787) e Manon Lescaut (1731), pelos casamentos iminentes sobre os quais se fala sem
cessar, mas que jamais se realizarão. DURAND (2011, p. 25).
Para Lukacs, ao contrário da epopéia em que havia uma harmonia entre o mundo
interior do personagem e o mundo exterior em que ele habitava, o romance apresenta
um herói em conflito: ele é problemático porque geralmente está em luta contra um
mundo que ele não conhece e não consegue dominar.
patriarcal burguês, isto porque segundo Lukacs o indivíduo torna-se instrumento, cuja
posição central repousa no fato de estar apto a revelar uma determinada problemática
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É o que pode ser visto com Helena, que é silenciada porque não cabe no mundo
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O processo segundo o qual foi concebida a forma interna do romance é a
peregrinação do indivíduo problemático rumo a si mesmo, o caminho desde o
opaco cativeiro na realidade simplesmente existente, em si heterogênea e vazia
de sentido para o indivíduo, rumo ao claro autoconhecimento. (LUKACS, 2000,
p. 79)
do mundo. O casamento com Estácio torna-se assim impossível, visto que estaria
promovendo algo incomum à sociedade da época: a ascensão social, o que, certamente
afastaria o público leitor.
Antonio Candido propõe uma distinção possível da obra literária em obra de
agregação (aquela que pretende ser bem recebida pelos leitores e por isso não rompe
com as estruturas padronizadas pela sociedade) e obra de segregação (aquela que
pretende inovar com as estruturas padronizadas pela sociedade, rompendo os padrões
estabelecidos). Candido diz que os dois processos não ocorrem de forma distinta, mas a
fim de manter os rígidos padrões sociais na obra há a predominância da agregação:
toma cuidado para não inovar demais, ela
se inspira principalmente na experiência coletiva e visa a meios comunicativos
acessíveis. Procura, neste sentido, incorporar-se a um sistema simbólico
vigente, utilizando o que já está estabelecido como forma de expressão de
determinada sociedade (CANDIDO, 2000, p. 23)
Goldmann, discípulo de Lukacs, analisa exatamente essa questão ideológica na
obra de arte. Para ele as obras não devem ser vistas como uma criação do indivíduo, mas
sim de “estruturas mentais transindividuais” de um grupo social, isto é a obra é reflexo
do grupo social a que o autor pertence:
O que Goldmann busca é, portanto, um conjunto de relações estruturais entre o
texto literário, a visão de mundo e a própria história. Ele deseja mostrar como a
situação histórica de um grupo ou de uma classe social é transposta, por meio
da mediação da sua visão de mundo, para a estrutura de uma obra literária.
Para fazer isso não é suficiente começar com o texto no centro e se afastar até
chegar à história, ou vice-versa, é necessário um método dialético de crítica que
se desloca constantemente entre o texto, a visão de mundo e a história,
ajustando cada um deles de acordo com os outros. (EAGLETON, 2011, p. 66)
pertenciam a nenhum desses dois tipos:
tinham que optar entre a miséria ou a cooptação, os recursos do melodrama
tout court, baseado na forte polarização de interesses nos enfrentamentos
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retratar uma sociedade dividida entre proprietários e escravos, e onde aqueles que não
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A transposição que o autor cita pode ser claramente vista em Helena, devido
entre personagens de estratos sociais desiguais e na afirmação da autonomia
do indivíduo tornam-se inaplicáveis. Este é o beco sem saída em que está
colocada Helena, a personagem, e também o romance: afirmar a
individualidade e a autonomia do pobre seria uma falsificação; negá-la
significava enfraquecer o melodrama (GUIMARÃES, 2004, p.215.)
Hélio Guimarães ratifica que a personagem está em um beco sem saída, pois ao
mesmo tempo em que a obra afirma a individualidade da mulher também precisa estar
atrelada à sociedade da época.
Considerações finais
Helena é uma personagem condenada por antecipação, pois adentra, na família,
que é um espelho da sociedade patriarcal do século XIX: uma sociedade com base na
continuidade e na estabilidade dos ritos sociais, que pertencem aos modelos
hierarquizados para a perpetuação do poder. Daí a transgressão precisar ser punida,
pois cria possibilidade de mudança, o que não está previsto nas regras e convenções
morais e sociais claramente apresentadas em vários momentos do texto.
Mesmo com as desamarras dos laços consaguíneos, ainda é impossível a relação
entre o casal, visto por todos como frutos da incompatibilidade social, uma mácula que
mancharia a sociedade. Há dois planos distintos a que pertence cada um dos amantes:
liberdade e riqueza, que caracterizam Estácio e pobreza e rebaixamento moral, que se
projetam em Helena.
Vale inferir ainda que Helena é sufocada para
permitir a manutenção e
estabilização da classe burguesa, bem de acordo com a expectativa do público leitor,
como se verifica na boa receptividade que a obra teve no período de sua publicação.
Autores posteriores, distantes das amarras sociais do século XIX não legaram à obra a
dominante, por isso acusa a obra de ser inferior em detrimento aos romances
posteriores do autor. Lúcia Miguel Pereira afirma que Helena é
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protegem” – afirma que a obra é lida enquanto defesa e justificação da ideologia
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mesma consideração. Schwarz – na sua interpretação intitulada “Só as asas do favor me
intencionalmente a maior encarnação do passado pessoal secreto do autor.
Como a personagem,que abandona o pai miserável para ser filha falsa do
Conselheiro Vale, Machado,em início de carreira,casando-se com mulher de
família fina,cortou laços para sempre com sua pobre e amorosa mãe de criação
(PEREIRA apud BREUNIG, 2012, P. 220)
Regina Zilberman em seu texto Helena: um caso de leitura pondera que Machado
de Assis vendeu a obra como romance no primeiro mês em que ele saía como folhetim,
por isso é provável que o final, com a morte da protagonista já estava planejado desde o
início pelo autor. O início com a morte do conselheiro, as leituras intertextuais de Paulo
e Virgínia e Manon Lescaut e a própria apresentação da heroína inferiorizada em uma
família patriarcal já revelam indícios desse final inescapável.
Juca Pirama, de Gonçalves Dias (publicado em 1851), mostra um índio Tupi que
foi capturado por uma tribo antropófaga (Timbiras) e por isso deve ser morto como um
costume entre as tribos. Ele é considerado aquele que deve ser morto para manutenção
dos hábitos sociais entre os índios. Em Helena, o fato de ela não pertencer à classe social
em que foi inserida já anuncia, desde o inicio, o final trágico da personagem, portanto ela
também é aquela que deve ser morta. Mas como o próprio Machado de Assis ressaltou
no prefácio à segunda edição do romance: cada obra pertence ao seu tempo. Assim, a
morte de Helena precisa ser compreendida considerando os fatores externos que
influenciam a construção da obra, retomando Antonio Candido a relação indissolúvel
entre público autor e obra fica bem evidente.
Referências
Revista de Letras Dom Alberto, v. 1, n. 3, jan./jul. 2013
Página
______. Helena. (Notas e posfácio) Rodrigo Breunig; (coordenação editorial, biografia do
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Página
359
Artigo aceito em julho/2013
Revista de Letras Dom Alberto, v. 1, n. 3, jan./jul. 2013
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