A PRESENÇA DO FEMINISMO NA PERSONAGEM HELENA DE SOL DO MEIO- DIA:
negação da maternidade e transformações em sua consciência
Josefa Suely Rodrigues Prata1
RESUMO
A noção de feminino na literatura, apesar de carregar traços do patriarcalismo, vem
modificando-se. O referido artigo versa sobre a presença do feminismo no romance Sol
do Meio-Dia da escritora sergipana Alina Paim, a partir de uma leitura lítero-sociológica da
personagem Helena e da teoria do feminismo, buscando compreender que os entraves
provocados pelo patriarcalismo leva a personagem a ter a sua maternidade negada e
consciência destruída pela opressão. A pesquisa é de cunho bibliográfico. Constata-se
que as revoluções feministas foram importantes para ressignificação da sociedade pósmoderna.
Palavras-chave: Feminismo. Helena. Opressão.
ABSTRACT
The notion of feminism in literature, although carry, some traces of the patriarchalism, it
has been changing itself, This article focuses on the presence of feminism on the novel:
Sun of Midday (Sol do Meio-Dia) of the sergipana writer Alina Paim, through of a literarysociological reading of the character Helena, by the theory of feminism, trying to
understand which barriers caused by patriarchy leads the character having their
motherhood denied and conscience destroyed by oppression. The research is
bibliographical. And, it contests that feminist revolutions were important to reframe the
postmodern society.
Keywords: Feminism. Helena. Oppression.
A noção de feminino na literatura, apesar de carregar, ainda, traços do
patriarcalismo, vem cautelosamente se modificando, ora para atender as modificações da
sociedade pós-moderna, ora para atender a luta paradoxal perante a dominação
masculina. O referido artigo objetiva discutir alguns aspectos sobre a presença do
feminismo no romance Sol do Meio-Dia da escritora sergipana Alina Paim, a partir de uma
leitura lítero-sociológica da personagem Helena e da teoria do feminismo, buscando
compreender que os entraves provocados pelo modelo de família patriarcal leva a
1
Professora de Literatura Brasileira II, Literatura Sergipana e Orientação de TCC do Curso de Letras
Português / Inglês da Faculdade José Augusto Vieira – FJAV; professora de Língua Portuguesa e Arte do 2º
e 3º Ano do Ensino Médio do Colégio Estadual Prof. Abelardo Romero Dantas e de 8º e 9º ano da Escola
Municipal Adelina Maria de Santana Souza, Lagarto-SE. E-mail: [email protected]
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personagem a ter a sua maternidade negada e sua consciência destruída pela opressão.
Para tanto, faz-se necessário situar a autora e a obra literária, como também alguns
aspecto da escrita feminina e teoria da personagem.
A obra escolhida faz parte da Literatura Sergipana. Apesar de alguns séculos de
existência, ainda continua sendo pouco estudada e carente de pesquisas. Muitos leitores
tem um contato mínimo com este tipo de literatura, a saber, desconhecem nomes de
escritores e suas respectivas obras que deram uma significativa contribuição para a
formação da Literatura de Sergipe, mas também a nacional. Alina Paim é um bom
exemplo para que se compreenda essa realidade.
O estudo da história da mulher a partir da teoria do feminismo e da personagem
ocorre em diferentes campos da pesquisa e apoia-se em várias disciplinas, a exemplo da
literatura, linguística, história e psicanálise, que colaboram interdisciplinarmente para o
entendimento e ampliação da discussão sobre a identidade feminina. Este discurso é
marcado por palavras-chave como: opressão, perda da identidade, rebeldia, ruptura,
vítima e justificado pelo fato de a mulher viver em função do outro 2 e a serviço do
patriarcado.
A metodologia constitui-se de natureza exploratória, sendo realizada por intermédio
de levantamentos bibliográficos. Assim, os estudos teóricos e pesquisas de autores como
Antonio Candido (2010), Xavier (1998), Del Priore (2011), Bordo (2000), Ana Leal (2009)
dentre outros, contribuíram significativamente para o desenvolvimento e sustentação dos
argumentos da pesquisa.
Ponderando-se, ainda, que Sol do Meio-Dia é uma obra em que a mulher ganha
um espaço considerável, marcado pela luta do seu reconhecimento, ampliação dos seus
direitos e denúncia da opressão torna-se significativa a referida produção. A que se deve
essa opressão? Por que dentro de um painel vasto de personagem é Helena que merece
atenção? Ela representa uma feminista limitada, oprimida? Em torno dessas questões
norteadoras, há várias discussões, mas dúvidas permanecem. Acredita-se que a
educação patriarcal recebida pela mulher venha a ser um dos problemas que contribui
para a difícil luta em busca do respeito e liberdade para as suas escolhas. Além do mais,
assegura-se que a educação matriarcal também não foge a esses preceitos.
2
Termo retirado da obra O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. (1967).
246
A escritora sergipana nasceu em Estância, cidade onde se encontra o alicerce da
formação da Literatura Sergipana, em 10 de outubro de 1919. É filha de Manuel Portela
de Andrade Leite e Maria Portela Leite e tem uma vida marcada pela morte de pessoas
significativas para sua vida, mas também por problemas existenciais. Quando completa
três meses de vida, muda-se para Salvador com sua família, porém, a morte da mãe faz
Paim voltar para Sergipe e passar a viver em Simão Dias sob a responsabilidade dos
avós paternos e demais membros da família, que lhes dão uma educação moral e
religiosa rígidas. É também nesta cidade que tem início sua formação estudantil. A morte
da tia Laurinha, faz com que Paim volte aos cuidados do pai em Salvador.
Seu diálogo com as letras teve início na infância e aos dezoito anos recebeu o seu
diploma de professora, logo passou a ensinar em uma escola da periferia de Salvador.
Seu primeiro relacionamento é marcado por estresse e em consequência é internada em
um sanatório. Lá se apaixona pelo psiquiatra Isaias Paim e casam-se em 1943. Tão logo
se mudam para o Rio de Janeiro em busca de melhores perspectivas de vida, mas
descobre que seu diploma de professora não tinha validade no novo estado, passa então
a lecionar na periferia e ao mesmo tempo começa a escrever seu primeiro romance:
Estrada da Liberdade. A exemplo de outros escritores filia-se ao partido comunista. De lá
para cá, com apoio do marido, escreve com muita frequência. Em suas obras a autora
busca compreender o universo de suas personagens. Também escreve literatura infanto
juvenil. No final da década de oitenta, divorcia-se. Passa a residir com sua filha Maria
Tereza até o dia da sua morte, primeiro de março de 2011.
Em linhas gerais, Ana Leal, sobre a escrita de Alina Paim, escreve:
Sua obra literária, extremamente complexa, pode ser divida em dois
seguimentos: o primeiro apresenta grande teor social, característico de seu
engajamento político junto ao PC do B; o segundo voltado para a
introspecção. O fato é que seus romances priorizam as personagens
femininas, mostram a problemática da mulher em diferentes situações, e,
portanto, as consequências desta no contexto social e psicológico. Sua
escritura se identifica pela consciência de uma tradição de predecessoras,
no estabelecimento de um discurso próprio, transgressor, do ponto de vista
da sociedade ocidental androcêntrica. (LEAL, 2010, p. 125).
Sol do Meio-dia, romance escolhido para este trabalho, apresenta várias histórias
de pessoas derrotadas por um contexto social e político de repressão. A maior parte da
obra é narrada por Ester, moça do nordeste, leitora, tradutora e ativista que passa a viver
247
em uma pensão no Rio de Janeiro. Como expectadora, passa a narrar à vida passiva dos
moradores dessa estalagem que representam as mais diferentes faces e ao mesmo
tempo rememora a sua vida, desde os momentos com o pai e o professor Virgílio até a
sua decepção amorosa com Rafael e o seu amor idealizado por Osvaldo que atravessa
toda a narrativa. Ela procura não repetir o destino das mulheres de sua terra natal: casar
para cuidar do marido e dos filhos.
A narrativa que representa uma coletividade carrega os valores e o modo de
pensar do seu tempo, porque a partir do momento que a narradora recorda a história se
percebe a presença cada vez maior do coletivo na obra e a nulidade da narradora
personagem ou testemunha: “[...] Por quantas vidas cruzara na colmeia das pensões?
Assistira ao nascimento do que chamava ‘indústria da casa.’ Vira donas de pensão
empenhadas de corpo e alma na conquista de espaços [...] muitas histórias tinham
desfilado nesses dez anos sem moradia fixa (PAIM, 1961, p. 12-13).
A maneira particular de enxergar o mundo e as pessoas - baseadas em
circunstâncias concretas - faz com que a narradora que passa representá-las por cada
personagem na obra.
Com efeito, Ester mostra a difícil e lenta transformação do papel de tipos femininos
na sociedade pós-moderna3. Ela tece com mais propriedade um painel de vidas sofridas e
mentes perturbadas das mulheres que moram nesse espaço e lutam contra a opressão e
preconceito materializados na obra pela dona da pensão: D. Beatriz, a beata. Ela sente-se
como uma promotora da vida alheia, como se observa no fragmento que segue:
[...] D. Beatriz havia chamado seu Fausto, relatado o procedimento de d.
Sílvia e, depois, pedira as chaves do quarto, dando o prazo de saída até
segunda feira. Prestara contas de telefonemas e recados, somando
suspeitas e concluindo que em sua casa, uma casa de respeito, não
comportava a presença de mulher duvidosa. (PAIM, 1961, p. 127)
Como se pode observar, toda a verdade é revelada ao marido de Sílvia através de
um referencial subjetivo organizado pela dona da pensão. A vontade de contrariar é
3
Entenda-se Sociedade Pós-Moderna como um período histórico mais ou menos delimitado em que as
pessoas adotam uma linha de pensamento em que o conceito de verdade, identidade, objetividade, entre
outros, passa a ser justificado, pelas “ideias de progresso ou emancipação universal, os sistemas únicos, as
grandes narrativas ou os fundamentos definitivos de explicação.” (EAGLETON, 1998, p.2)
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objeto de catarse da beata. A voz da acusação pode ser “uma procura do lugar do
feminino.” (COSTA. Exílio: o mundo da transgressão. In: XAVIER, 1991, p. 109)
Apenas com Helena, sua irmã, D. Beatriz fala sem autoridade. Ester, enquanto
narradora, segue instigando o leitor a pensar sobre o porquê dessa falta de autoridade da
Beata perante a irmã e ao mesmo tempo apresenta uma justificativa para a mudança do
comportamento de Helena quando declara: “ – Os tempos mudaram, dona Beatriz. As
moças de hoje são autoritárias, têm suas razões: conhecem trabalho e conhecem
dinheiro. Não precisam de ninguém”. (PAIM, 1961. p. 25) Não era exatamente esse o
motivo da rebeldia de Helena.
Antes, porém, de falar a respeito da personagem Helena, é pertinente escrever
sobre dois aspectos: um parágrafo sobre a maternidade negada e outro sobre a teoria da
personagem. A respeito do primeiro, sabe-se que a história da negação da maternidade
no Brasil vem desde o século XVI, no período Colonial, quando muitas mulheres
enfrentavam obstáculos ao tentar criar a prole gerada fora dos confins matrimoniais, num
país em que o modelo de família estabelecido é o patriarcal e persiste até hoje.
Durante a colonização do Brasil, a criança gerada era sempre fruto do contato
entre colonizadores e indígenas ou negras, que tinham na maioria das vezes que
abandonar seus filhos para continuar atendendo aos seus patrões. O filho era
abandonado das mais variadas formas e quando o auxílio a ele chegava, era de forma
precária, traumática e por intermédio de membros da igreja ou programa do governo. No
romance pós-moderno, Sol do Meio-Dia, o abandono traz outra face.
Na obra, a negação da maternidade de Helena não está relacionada as questões
trabalhistas e, sim, ao fato de a personagem não atender aos padrões normativos do
patriarcado e/ou matriarcado, vez que é dado a figura feminina de D. Beatriz o papel de
gerenciar a família.
Já sobre o segundo aspecto, é pertinente compreender que a escrita de uma obra
literária ultrapassa a construção histórica representada pela época, espaço, personagem
e sua textualidade. Assim, fatores sociais atuam concretamente nas artes, em especial na
literatura, entretanto eles não são os únicos. (CANDIDO, 2010, p. 47).
É pertinente compreender, ainda, que, o texto artístico torna-se cada vez mais
híbrido. Nesse sentido, a discussão atual sobre a personagem torna-se mais intricada,
pois vai incorporar as contribuições apresentadas “pela Psicanálise, pela sociologia, pela
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semiótica e, principalmente, pela Teoria Literária moderna centrada na especificidade dos
textos”. (BRAIT, 1985, p. 47)
Um texto ficcional é organizado em torno de um plano que não tem função
específica na sua constituição. Entretanto, dentro desse plano a personagem merece
destaque, vez que é em torno dela que a narrativa se desenvolve. A personagem se
diferencia de uma pessoa real. No caso do gênero romance, vários eventos são
organizados em torno de um enredo. E este só existe por causa das personagens.
Desse modo, pode-se dizer que:
A personagem é um ser fictício, – expressão que soa como paradoxo. De
fato, como pode uma ficção ser? Como pode existir o que não existe? No
entanto, a criação literária repousa sobre este paradoxo, e o problema da
verossimilhança no romance depende dessa possibilidade de um ser
fictício, isto é, algo que, sendo uma criação da fantasia, comunica a
impressão da mais legítima verdade existencial. (CANDIDO, 2005, p.55)
Para o autor, afinidade e diferença entre o ser vivo e o de ficção é importante para
o sentimento de verossimilhança da obra literária. Entretanto, a elaboração de um ser por
outro ser, é sempre fragmentada. Daí o porquê de a personagem de ficção ser tão
complexas e passíveis de análises.
Quando a personagem é de uma narrativa de escrita feminina, ela ganha
características diferentes e se desenvolve a partir da quebradura das normas que regem
as concepções de sociedade patriarcal vigente, porém muitas são punidas no final da
história. Nessa perspectiva encontra-se a personagem Helena de Sol do Meio-Dia.
Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo: experiência vivida (1967) afirma que
dentro do mundo social existem aqueles que ocupam uma posição especial ou universal e
aqueles que são marcados pela diferença (sexual, racial, religiosa) em analogia a norma.
Estes são considerados como O outro. “Assim, a alteridade tem portanto muitas faces. Na
verdade o insight de Beauvoir é provavelmente o de aplicação mais ampla, profunda e
duradoura do feminismo contemporâneo. E vem dando forma a inúmeras discussões [...]”
(BORDO, 2000, p. 12)
O papel da mulher pós-moderna presente em obras literárias é muito semelhante
ao papel da do século anterior, mesmo com o crescimento das cidades, melhoria na
formação educacional e desenvolvimento do feminismo. Também nota-se que as próprias
personagens provam a vigência do patriarcalismo, mesmo que novas teorias tenham
250
defendido a sua decadência. A esse respeito a Dra. Sylvia L. de Mello que escreve o
prefácio do livro Declínio do Patriarcado: a família no imaginário feminino afirma: “O olhar
da mulher é puro olhar da alteridade derramado sobre o mundo construído
essencialmente pelo olhar masculino.” (XAVIER, 1998, p.11). Assim, poucas conseguem
libertar-se por meio da leitura, tomar conta si mesma e assumir o preço de suas decisões.
Contudo, de forma tímida, a família começa a ser mostrada com configuração
diferente na obra literária. Essa variação é consequência das mudanças sociais. Em Sol
do Meio-Dia, Paim consegue traçar o painel das famílias que moram na pensão e, ao
mesmo tempo, mostrar alguns dilemas vividos por todas que se fazem presentes na obra.
D. Beatriz, dona da pensão, é filha de uma família patriarcal e usa a sua linguagem para
mascarar um modelo de família fragmentada.
Os conflitos de caráter familiar marcaram a narrativa brasileira depois da Semana
de Arte Moderna 1922. Historicamente pode-se lembrar de alguns exemplos de romances
produzidos por mulheres: O Quinze, de Rachel de Queiroz, produzido no segundo
momento do modernismo brasileiro e dentre outros, a obra A Sombra do Patriarca
produzida por Paim que carrega traços da opressão, mas também, Perto do Coração
Selvagem (1944) de Clarice Lispector e, Alice e Ulisses (2012) de Ana Maria Machado,
um de seus romances para adulto. Retirando o primeiro exemplo, os demais traçam o
perfil da família pós-moderna – multifacetada –, procurando alcançar diferentes esferas do
espaço social. Nestas esferas, encontram-se, concomitantemente, dimensões da
dominação e da resistência.
A história da personagem secundária, Helena, do romance Sol do Meio-dia começa
fora da pensão, e traz uma concepção contraditória de história da mulher. Ela consiste na
vida de uma moça comum que desejava constituir uma família e foi impedida pela irmã
que julgou o pretendente como alguém que não atendia aos princípios morais e
patriarcais almejados. Essa passagem permite um retorno ao modelo de família burguesa
do século XIX.
D. Beatriz revela que a irmã extrapolou a condição de mulher antes de contrair
casamento quando responde ao questionamento: “Helena não estava noiva? – Estava,
mas mamãe era fraca e satisfazia todas as vontades de Helena. Deixava que os dois
saíssem sozinhos para cinemas, chá e viagens de bondes, sem destino certo.” (PAIM,
1961, p. 228-229) O fragmento mostra que Helena tinha um comportamento diferente das
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moças do seu tempo e não obedecia o papel secundário que cabe a uma filha. A esse
respeito
As moças de família eram as que se portavam corretamente, de modo a
não ficarem mal faladas. Tinham gestos contidos, respeitavam os pais,
preparavam-se adequadamente para o casamento, conservavam sua
inocência sexual e não se deixavam levar por intimidades físicas com os
rapazes. Eram aconselhadas a comportarem-se de acordo com os
princípios morais aceitos pela sociedade, mantendo-se virgens até o
matrimônio enquanto aos rapazes era permitido ter experiências sexuais.
(PINSKY. Mulheres dos anos dourados. In: PRIORI org. 2011, p. 610)
Para uma das autoras da obra História das mulheres no Brasil (2011), nos anos 50
do século passado ainda se guardava um modelo conservador de moça de família. Por
esse modelo, a personagem Helena é classificada como leviana. A moral sexual exigida
dela por beata não fora atendida. Ignorando o estado de saúde da mãe Etelvina, D.
Beatriz atribui a morte da mãe aos desgostos proporcionados pela filha transgressora da
ordem social. Entretanto, essa desobediência não é suficiente para caracterizá-la como
uma personagem pós-moderna.
Ainda sobre a educação feminina, pode-se afirmar que atender a esses valores
significa levar a mulher a um conflito existencial, pois ela deixa de ser ela o tempo todo
para agradar o outro ou “ser o outro”. Essa falta de autonomia ao contrário do que parece,
fragmenta cada vez mais o ser ficcional. Mesmo assim, se consegue montar as peças que
compõe o mosaico da personagem Helena a partir das imagens que a escritora vai
desenvolvendo.
Dando seguimento, a beata acrescenta que Nelson não tratava bem Helena e, em
consequência, transformou-a numa mulher submissa, irrequieta, exigente... Além do mais,
a engravida. Como forma de corrigir a transgressão da irmã, D. Beatriz obriga-a a viver no
exílio durante a gestação e assume a criança como se fosse sua.
Entender a obediência de Helena a irmã e a entrega do seu filho Jorginho a mesma
é mais complexo do que parece, pois não se trata de um caso de abandono
simplesmente. O que estaria por trás dessa atitude? Sabe-se, como já fora descrito, que
D. Beatriz é filha de uma família patriarcal, cheia dos preceitos morais e ao mesmo tempo
não tinha filho. Sendo assim, a atitude dela leva o leitor a pensar de forma ambígua, ou
seja, que ela não queria apenas salvar o nome da família de um escândalo, mas também
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ficar com o filho da irmã significaria a realização de um sonho seu: ter um filho que ela
não pode ter.
Durante a leitura do romance, D. Beatriz narra várias vezes o parto que não teve e
até tenta enganar o leitor, mas ela se perde em suas narrações, como observa Ester na
seguinte passagem: “– Dona Beatriz não teve filhos do primeiro casal? E a voz suavizada
de ternura continuara enchendo a sala, enquanto olhos úmidos passavam de um rosto a
outro. Não era ilusão: havia mentira. Quando? Naquela noite ou ali, [...]” (PAIM, 1961, p.
222).
Pode-se observar nas personagens – D. Beatriz e Helena – o modelo da
personagem não de costume, mas de natureza, vez que as duas são apresentadas pelo
seu modo íntimo de ser, o que impede que as duas tenham a regularidade das outras.
Elas não são fáceis de serem caracterizadas e por isso, a escritora precisa utilizar novas
características. Tal evento leva o leitor a classificá-las na categoria de esférica pela
capacidade que tem cada uma de surpreender o leitor em cada no quadro que é
apresentado. (CANDIDO, 2005) a relação de “intimidade” e distância entre as duas irmãs
cria uma situação privilegiada para o entendimento dos eventos descritos.
Por certo, as peças começam a serem montadas e Ester vai levando o leitor a
compreender o porquê de o sonho de Helena em constituir uma família deixara de ser
sempre lembrado na obra. A sua trajetória muda totalmente, pois além de ter o seu filho
arrancado não encontra também mais o seu namorado, o Nelson que recebeu de D.
Beatriz algumas concessões e saiu totalmente da vida dela.
Indubitavelmente, vê-se uma Helena que perde seu ideal num momento em que as
mulheres estavam lutando por seus direitos. Esse momento de desespero é descrito
assim: “Helena emerge da agonia para ter noção confusa de luz, de claridade sufocada
pelo nevoeiro. Toma consciência de roubo e essa visão do mundo arrasta-a de novo ao
passado.” (PAIM, 1961, p. 106)
Ao contrário desse episódio, no capítulo XII, há uma passagem curiosa envolvendo
D. Beatriz, Jorginho e Helena. Nela a criança convida a tia que é mãe para sair com eles
e demonstra certo carinho: “- Se titia ficar não vô... não vôôo... A cabeça derreada, os
lábios franzidos, teimou. – diga qualquer coisa, criatura [...] Helena chamou a criança [...]
Quando ficar boa, a gente vai passear de ônibus e comer pipoca na Praça Paris.” (Op.
cit., p. 136-137).
253
A narrativa revela que implicitamente há carinho entre mãe e filho. A conversa que
Helena tem com Jorginho para convencê-lo a sair com a beata provoca alegria e
satisfação na criança, que se materializam no texto pelo uso de frases curtas,
reticências...
Ao mesmo tempo é perceptível o ciúme que sente a d. Beatriz ao ouvir o diálogo
entre os dois, pois ela percebe que havia entendimento e aquela ação fazia com que ela
temesse uma atitude futura da irmã: “Tinha dúvidas sobre os instintos de Helena. As
carnes lhe tremeram no dia em que vira o pé da irmã avançar e atingir o menino, quando
minutos antes ela o apertava nos braços até fazê-lo gritar meio sufocado.” (Op. cit., p.
136-137). Além do mais, a criança pergunta a tia-mãe se poderia levar o pai no momento
do passeio prometido. Essa pergunta faz a beata aumentar a sua raiva.
Compreende-se que Helena fica emocionada e orgulhosa ao sentir-se preferida
pela criança que sempre a tratava com atenção e carinho e, ao mesmo tempo, perplexa
da forma grosseira como a irmã tratava Jorginho, principalmente antes ou depois que os
dois se comunicavam. Infelizmente, Helena adormece e não continua essa reflexão.
A escrita de Paim vai revelando a condição da mulher que tem seus quereres
dominados pelo outro. A esse respeito
As narrativas de autoria feminina falam sobretudo de mulheres e a
primeira, pessoa é a dominante. O tom confessional chega a confundir o
leitor: narradora ou autora? Confissão ou autobiografia? Quando isso não
ocorre, a intimidade entre narradora e personagem é tão grande que a
introspeção fica garantida. Suas personagens têm dificuldades de sair de
si mesmas, estão em busca de sua identidade, à procura de um espaço de
autorrealização. (XAVIER, 1991, p.12)
Esse evento ocorre na vida de Helena que perde a sua identidade e ao tentar sair
do mundo de mentiras criado pela irmã se perde. A personagem é mulher e por isso a
sociedade vai cobrar dela muito. “A passividade que caracterizará essencialmente a
mulher ‘feminina’ é um traço que se desenvolve nela desde os primeiros anos.”
(BEAUVOIR, 1967, p. 21). Nas entrelinhas da pesquisadora, pode-se perceber que a
sociedade contribui com seus valores morais e religiosos muito mais com essa formação.
Por isso, ela abandona a questão biológica.
Diferente de Ana, personagem do conto Amor de Clarice Lispector, Helena sai para
a transcendência, para a mutilação e não consegue voltar. Em momentos de devaneio
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deseja a morte, a saber: “Os pensamentos se fechavam como círculos, cada vez
menores: era Nelson chegando, Nelson apertando-a contra o peito, o desaparecimento
em Nelson. Esquecia-se de tudo.” (PAIM, 1961, p.173).
O fantasma de Nelson rondava o tempo todo no consciente de Helena. Ela não o
esquecia. Ora trazendo uma lembrança boa, como se pode ler no fragmento que segue,
[...] Somente Nelson descobriu que para alcançar a mulher precisava antes
fazer feliz a criança que se escondia nela, compensar a adolescente que
mentia sempre. Nelson sabia adivinhar, captar-lhe as fantasias para
satisfazê-las. Deixara-lhe marcas nos sentimentos. (Op. cit., p. 104)
Ora uma lembrança triste e sofrida, a saber: “Sentia-se magoada por estar ali
naquela cama e, no entanto, o coração lhe saltava de alvoroço quando ele lhe pediu
entrega sem reservas.” (op. cit., p. 139) O excerto mostra um momento paradoxal da vida
de Helena: a realização de estar com o homem que ama x a perda do sonho de outrora, o
de constituir uma família. Além do mais, o sentimento de culpa é presente em suas
lembranças, mesmo que na prática ela não o demonstre e haja perante a sociedade de
forma transgressora.
Cada momento de crise vivido por Helena é causado pela dúvida, pelo que não foi
e justificado pela opressão familiar e alienação da irmã que também perde o controle do
seu senso de justiça. Para a saída desse problema é preciso vencer essa luta contra a
irmã, revelar as mentiras dela, assumir sua maternidade e começar uma vida nova, sem o
fantasma do Nelson e do Veloso, o seu cunhado, que a deseja e a perseguia.
Para tanto, a personagem precisaria ceder, perdoar e assumir papeis que vem
sendo deixados para trás. Além do mais, seria preciso edificar duas mudanças: “A mulher
reprimida transforma-se na mulher liberal, mais instintos que consciência; e a repressão
paterna dilui-se de marcá-la tão profundamente.” (MENDONÇA. A busca da identidade na
ficção feminina contemporânea. In: XAVIER, 1991, p.26) É o que o leitor espera o tempo
todo de Helena, que ela saísse daquele quarto, arrumasse um emprego, esquecesse
Nelson e se tornasse uma mulher livre.
Observa-se que Helena põe em prática apenas a primeira mudança, mas como
forma de se vingar da irmã, contudo a segunda, seria muito difícil, vez que Helena não faz
esforço para reergue-se, para desprender-se de seus complexos e culpas. Então vive
uma crise sacralizada entre o real e o irreal porque já não consegue reconhecer o seu eu.
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Nas últimas páginas do romance, lê-se: “era uma Helena que nunca soube
enxergar quando viva, uma jovem despojada do amor e do filho, um coração em que a
esperança foi estrangulada, um pensamento de onde baniram até a sombra de um
sonho.” O amor obsessivo por Nelson acorrenta Helena e sua ausência deixa-a cega e
incapaz de perceber coisa boas da sua vida, a exemplo de revelar que era a verdadeira
mãe de Jorginho.
Em resumo, Helena fica sozinha, prefere o silêncio e torna-se uma mulher que não
deveria ser. Seu comportamento, modo de falar com a irmã e autoabandono passam a
ser materializados pelo uso de bebidas alcoólicas, pela busca de Nelson em outros
homens, que nunca encontrou e as sequentes doenças culminadas pela depressão.
A história da personagem Helena mostra novamente que o feminino sofre entraves
e preconceitos de pessoas do mesmo gênero. A própria mulher pode ser um entrave na
transformação do feminino. Na obra Sol do Meio-Dia, a beata assume o papel de
patriarca, oprime o tempo todo a irmã e as inquilinas que moram em sua pensão. Ela
chega até a expulsar àquela que ela suspeita não seguir as regras morais da sociedade.
Por essa razão tanto Helena quanto Sílvia representa feministas limitadas e oprimidas.
O momento da morte de Helena, assim como a sua vida, é paradoxal e assim fora
descrito: “Helena teria chegado onde queria? Os pés nus e rijos não tinham encontrado os
chinelos. Havia algum lugar onde ir, alguma coisa que compensasse a vida, toda essa
miséria, sofrimento estúpido, desencontro de desejos e realidade, entre intenções e
consequências?” (PAIM, 1961, p. 321)
Observa-se que não só nessa obra, mas também em outras, a exemplo de A
Sombra do Patriarca (1950), Alina Paim expõem as vozes sufocadas da mulher e faz o
leitor perceber as atrocidades que elas sofrem frente o abandono familiar, a necessidade
de ser aceita e a de ter a sua maternidade garantida. Tais itens se relacionam com o
desejo de liberdade sempre podado pelo outro. Além do mais, as mulheres que
conseguem certo “poder” o exercem de forma opressora o patriarcado feminino. É o que
ocorre com as personagens D. Beatriz e Teresa de A Sombra do Patriarca.
O falecimento da personagem Helena atende, por certo, ao modelo de sociedade
patriarcal que entende merecer punição todos que não conseguirem obedecer ao seu
regime e limitações. Ao mesmo tempo observa-se na irmã da beata um comportamento
masoquista, egocêntrico e ultrarromântico. Sendo assim, Helena contraria, na obra, o
modelo da pós-modernidade deixando-o para a personagem Ester que representa traços
256
desse modelo quando sai de Paripiranga para não casar-se, busca viver do ofício de
tradutora e exerce função de secretária numa cidade grande e, engaja-se em atividades
políticas.
Ao longo do texto busca-se mostrar que, apesar de Helena não ser a personagem
principal do painel rico em personagens femininas apresentadas pela narradora Ester, ela
é significativa dentro do texto, cativa o leitor por apresentar um exemplo verossímil da
época em que a obra fora escrita, além de representar em suas passagens, incógnitas
pessoais pouco reveladas. Paim consegue manter o sentido de que suas personagens
são de ficção e o mistério enquanto as constrói. Particularmente com Helena usa a
memória, a invenção, a ambiguidade e até ciclo de vida para ela, mas não foge da lei que
rege a teoria da personagem.
Acredita-se e reafirma-se que a educação patriarcal que recebe a mulher real ou de
ficção de ficção, venha a ser de fato um dos problemas que contribui para a difícil luta em
busca do respeito e liberdade para as suas escolhas, mesmo quando se trata de uma
personagem intelectual, demonstrado em Sol do Meio-Dia pela protagonista Ester.
O caráter literário e sociológico presente em Sol do Meio-Dia se entrelaça e
colabora para a organização interna e
contexto de produção da obra. Com efeito, o
resultado leva o leitor a refletir sobre o estar no mundo.
Desse modo, apesar dos desencontros, polêmicas e todo o tipo de opressão e
abuso por parte do masculino e do próprio feminino, justificados pelas raízes sólidas do
patriarcalismo, as revoluções feministas foram importantes para ressignificação da
sociedade pós-moderna. A liberdade de escolha do outro, o direito a maternidade e o de
escolha da profissão devem ser respeitados. A mulher precisa se auto conhecer e se
valorizar para fazer uso desses dois pressupostos, adquirir forças e o espaço tão
merecido. Em consequência, as narradoras não precisaram matar as personagens
secundárias que sufocadas não conseguiram encontrar o fio condutor de suas vidas e no
ato covarde e ultrarromântico se entregaram a morte como forma de mostrar ao outro que
não suportava mais tanta opressão.
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Artigo Completo - FJAV – Faculdade José Augusto Vieira