A PRESENÇA DO FEMINISMO NA PERSONAGEM HELENA DE SOL DO MEIO- DIA: negação da maternidade e transformações em sua consciência Josefa Suely Rodrigues Prata1 RESUMO A noção de feminino na literatura, apesar de carregar traços do patriarcalismo, vem modificando-se. O referido artigo versa sobre a presença do feminismo no romance Sol do Meio-Dia da escritora sergipana Alina Paim, a partir de uma leitura lítero-sociológica da personagem Helena e da teoria do feminismo, buscando compreender que os entraves provocados pelo patriarcalismo leva a personagem a ter a sua maternidade negada e consciência destruída pela opressão. A pesquisa é de cunho bibliográfico. Constata-se que as revoluções feministas foram importantes para ressignificação da sociedade pósmoderna. Palavras-chave: Feminismo. Helena. Opressão. ABSTRACT The notion of feminism in literature, although carry, some traces of the patriarchalism, it has been changing itself, This article focuses on the presence of feminism on the novel: Sun of Midday (Sol do Meio-Dia) of the sergipana writer Alina Paim, through of a literarysociological reading of the character Helena, by the theory of feminism, trying to understand which barriers caused by patriarchy leads the character having their motherhood denied and conscience destroyed by oppression. The research is bibliographical. And, it contests that feminist revolutions were important to reframe the postmodern society. Keywords: Feminism. Helena. Oppression. A noção de feminino na literatura, apesar de carregar, ainda, traços do patriarcalismo, vem cautelosamente se modificando, ora para atender as modificações da sociedade pós-moderna, ora para atender a luta paradoxal perante a dominação masculina. O referido artigo objetiva discutir alguns aspectos sobre a presença do feminismo no romance Sol do Meio-Dia da escritora sergipana Alina Paim, a partir de uma leitura lítero-sociológica da personagem Helena e da teoria do feminismo, buscando compreender que os entraves provocados pelo modelo de família patriarcal leva a 1 Professora de Literatura Brasileira II, Literatura Sergipana e Orientação de TCC do Curso de Letras Português / Inglês da Faculdade José Augusto Vieira – FJAV; professora de Língua Portuguesa e Arte do 2º e 3º Ano do Ensino Médio do Colégio Estadual Prof. Abelardo Romero Dantas e de 8º e 9º ano da Escola Municipal Adelina Maria de Santana Souza, Lagarto-SE. E-mail: [email protected] 245 personagem a ter a sua maternidade negada e sua consciência destruída pela opressão. Para tanto, faz-se necessário situar a autora e a obra literária, como também alguns aspecto da escrita feminina e teoria da personagem. A obra escolhida faz parte da Literatura Sergipana. Apesar de alguns séculos de existência, ainda continua sendo pouco estudada e carente de pesquisas. Muitos leitores tem um contato mínimo com este tipo de literatura, a saber, desconhecem nomes de escritores e suas respectivas obras que deram uma significativa contribuição para a formação da Literatura de Sergipe, mas também a nacional. Alina Paim é um bom exemplo para que se compreenda essa realidade. O estudo da história da mulher a partir da teoria do feminismo e da personagem ocorre em diferentes campos da pesquisa e apoia-se em várias disciplinas, a exemplo da literatura, linguística, história e psicanálise, que colaboram interdisciplinarmente para o entendimento e ampliação da discussão sobre a identidade feminina. Este discurso é marcado por palavras-chave como: opressão, perda da identidade, rebeldia, ruptura, vítima e justificado pelo fato de a mulher viver em função do outro 2 e a serviço do patriarcado. A metodologia constitui-se de natureza exploratória, sendo realizada por intermédio de levantamentos bibliográficos. Assim, os estudos teóricos e pesquisas de autores como Antonio Candido (2010), Xavier (1998), Del Priore (2011), Bordo (2000), Ana Leal (2009) dentre outros, contribuíram significativamente para o desenvolvimento e sustentação dos argumentos da pesquisa. Ponderando-se, ainda, que Sol do Meio-Dia é uma obra em que a mulher ganha um espaço considerável, marcado pela luta do seu reconhecimento, ampliação dos seus direitos e denúncia da opressão torna-se significativa a referida produção. A que se deve essa opressão? Por que dentro de um painel vasto de personagem é Helena que merece atenção? Ela representa uma feminista limitada, oprimida? Em torno dessas questões norteadoras, há várias discussões, mas dúvidas permanecem. Acredita-se que a educação patriarcal recebida pela mulher venha a ser um dos problemas que contribui para a difícil luta em busca do respeito e liberdade para as suas escolhas. Além do mais, assegura-se que a educação matriarcal também não foge a esses preceitos. 2 Termo retirado da obra O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. (1967). 246 A escritora sergipana nasceu em Estância, cidade onde se encontra o alicerce da formação da Literatura Sergipana, em 10 de outubro de 1919. É filha de Manuel Portela de Andrade Leite e Maria Portela Leite e tem uma vida marcada pela morte de pessoas significativas para sua vida, mas também por problemas existenciais. Quando completa três meses de vida, muda-se para Salvador com sua família, porém, a morte da mãe faz Paim voltar para Sergipe e passar a viver em Simão Dias sob a responsabilidade dos avós paternos e demais membros da família, que lhes dão uma educação moral e religiosa rígidas. É também nesta cidade que tem início sua formação estudantil. A morte da tia Laurinha, faz com que Paim volte aos cuidados do pai em Salvador. Seu diálogo com as letras teve início na infância e aos dezoito anos recebeu o seu diploma de professora, logo passou a ensinar em uma escola da periferia de Salvador. Seu primeiro relacionamento é marcado por estresse e em consequência é internada em um sanatório. Lá se apaixona pelo psiquiatra Isaias Paim e casam-se em 1943. Tão logo se mudam para o Rio de Janeiro em busca de melhores perspectivas de vida, mas descobre que seu diploma de professora não tinha validade no novo estado, passa então a lecionar na periferia e ao mesmo tempo começa a escrever seu primeiro romance: Estrada da Liberdade. A exemplo de outros escritores filia-se ao partido comunista. De lá para cá, com apoio do marido, escreve com muita frequência. Em suas obras a autora busca compreender o universo de suas personagens. Também escreve literatura infanto juvenil. No final da década de oitenta, divorcia-se. Passa a residir com sua filha Maria Tereza até o dia da sua morte, primeiro de março de 2011. Em linhas gerais, Ana Leal, sobre a escrita de Alina Paim, escreve: Sua obra literária, extremamente complexa, pode ser divida em dois seguimentos: o primeiro apresenta grande teor social, característico de seu engajamento político junto ao PC do B; o segundo voltado para a introspecção. O fato é que seus romances priorizam as personagens femininas, mostram a problemática da mulher em diferentes situações, e, portanto, as consequências desta no contexto social e psicológico. Sua escritura se identifica pela consciência de uma tradição de predecessoras, no estabelecimento de um discurso próprio, transgressor, do ponto de vista da sociedade ocidental androcêntrica. (LEAL, 2010, p. 125). Sol do Meio-dia, romance escolhido para este trabalho, apresenta várias histórias de pessoas derrotadas por um contexto social e político de repressão. A maior parte da obra é narrada por Ester, moça do nordeste, leitora, tradutora e ativista que passa a viver 247 em uma pensão no Rio de Janeiro. Como expectadora, passa a narrar à vida passiva dos moradores dessa estalagem que representam as mais diferentes faces e ao mesmo tempo rememora a sua vida, desde os momentos com o pai e o professor Virgílio até a sua decepção amorosa com Rafael e o seu amor idealizado por Osvaldo que atravessa toda a narrativa. Ela procura não repetir o destino das mulheres de sua terra natal: casar para cuidar do marido e dos filhos. A narrativa que representa uma coletividade carrega os valores e o modo de pensar do seu tempo, porque a partir do momento que a narradora recorda a história se percebe a presença cada vez maior do coletivo na obra e a nulidade da narradora personagem ou testemunha: “[...] Por quantas vidas cruzara na colmeia das pensões? Assistira ao nascimento do que chamava ‘indústria da casa.’ Vira donas de pensão empenhadas de corpo e alma na conquista de espaços [...] muitas histórias tinham desfilado nesses dez anos sem moradia fixa (PAIM, 1961, p. 12-13). A maneira particular de enxergar o mundo e as pessoas - baseadas em circunstâncias concretas - faz com que a narradora que passa representá-las por cada personagem na obra. Com efeito, Ester mostra a difícil e lenta transformação do papel de tipos femininos na sociedade pós-moderna3. Ela tece com mais propriedade um painel de vidas sofridas e mentes perturbadas das mulheres que moram nesse espaço e lutam contra a opressão e preconceito materializados na obra pela dona da pensão: D. Beatriz, a beata. Ela sente-se como uma promotora da vida alheia, como se observa no fragmento que segue: [...] D. Beatriz havia chamado seu Fausto, relatado o procedimento de d. Sílvia e, depois, pedira as chaves do quarto, dando o prazo de saída até segunda feira. Prestara contas de telefonemas e recados, somando suspeitas e concluindo que em sua casa, uma casa de respeito, não comportava a presença de mulher duvidosa. (PAIM, 1961, p. 127) Como se pode observar, toda a verdade é revelada ao marido de Sílvia através de um referencial subjetivo organizado pela dona da pensão. A vontade de contrariar é 3 Entenda-se Sociedade Pós-Moderna como um período histórico mais ou menos delimitado em que as pessoas adotam uma linha de pensamento em que o conceito de verdade, identidade, objetividade, entre outros, passa a ser justificado, pelas “ideias de progresso ou emancipação universal, os sistemas únicos, as grandes narrativas ou os fundamentos definitivos de explicação.” (EAGLETON, 1998, p.2) 248 objeto de catarse da beata. A voz da acusação pode ser “uma procura do lugar do feminino.” (COSTA. Exílio: o mundo da transgressão. In: XAVIER, 1991, p. 109) Apenas com Helena, sua irmã, D. Beatriz fala sem autoridade. Ester, enquanto narradora, segue instigando o leitor a pensar sobre o porquê dessa falta de autoridade da Beata perante a irmã e ao mesmo tempo apresenta uma justificativa para a mudança do comportamento de Helena quando declara: “ – Os tempos mudaram, dona Beatriz. As moças de hoje são autoritárias, têm suas razões: conhecem trabalho e conhecem dinheiro. Não precisam de ninguém”. (PAIM, 1961. p. 25) Não era exatamente esse o motivo da rebeldia de Helena. Antes, porém, de falar a respeito da personagem Helena, é pertinente escrever sobre dois aspectos: um parágrafo sobre a maternidade negada e outro sobre a teoria da personagem. A respeito do primeiro, sabe-se que a história da negação da maternidade no Brasil vem desde o século XVI, no período Colonial, quando muitas mulheres enfrentavam obstáculos ao tentar criar a prole gerada fora dos confins matrimoniais, num país em que o modelo de família estabelecido é o patriarcal e persiste até hoje. Durante a colonização do Brasil, a criança gerada era sempre fruto do contato entre colonizadores e indígenas ou negras, que tinham na maioria das vezes que abandonar seus filhos para continuar atendendo aos seus patrões. O filho era abandonado das mais variadas formas e quando o auxílio a ele chegava, era de forma precária, traumática e por intermédio de membros da igreja ou programa do governo. No romance pós-moderno, Sol do Meio-Dia, o abandono traz outra face. Na obra, a negação da maternidade de Helena não está relacionada as questões trabalhistas e, sim, ao fato de a personagem não atender aos padrões normativos do patriarcado e/ou matriarcado, vez que é dado a figura feminina de D. Beatriz o papel de gerenciar a família. Já sobre o segundo aspecto, é pertinente compreender que a escrita de uma obra literária ultrapassa a construção histórica representada pela época, espaço, personagem e sua textualidade. Assim, fatores sociais atuam concretamente nas artes, em especial na literatura, entretanto eles não são os únicos. (CANDIDO, 2010, p. 47). É pertinente compreender, ainda, que, o texto artístico torna-se cada vez mais híbrido. Nesse sentido, a discussão atual sobre a personagem torna-se mais intricada, pois vai incorporar as contribuições apresentadas “pela Psicanálise, pela sociologia, pela 249 semiótica e, principalmente, pela Teoria Literária moderna centrada na especificidade dos textos”. (BRAIT, 1985, p. 47) Um texto ficcional é organizado em torno de um plano que não tem função específica na sua constituição. Entretanto, dentro desse plano a personagem merece destaque, vez que é em torno dela que a narrativa se desenvolve. A personagem se diferencia de uma pessoa real. No caso do gênero romance, vários eventos são organizados em torno de um enredo. E este só existe por causa das personagens. Desse modo, pode-se dizer que: A personagem é um ser fictício, – expressão que soa como paradoxo. De fato, como pode uma ficção ser? Como pode existir o que não existe? No entanto, a criação literária repousa sobre este paradoxo, e o problema da verossimilhança no romance depende dessa possibilidade de um ser fictício, isto é, algo que, sendo uma criação da fantasia, comunica a impressão da mais legítima verdade existencial. (CANDIDO, 2005, p.55) Para o autor, afinidade e diferença entre o ser vivo e o de ficção é importante para o sentimento de verossimilhança da obra literária. Entretanto, a elaboração de um ser por outro ser, é sempre fragmentada. Daí o porquê de a personagem de ficção ser tão complexas e passíveis de análises. Quando a personagem é de uma narrativa de escrita feminina, ela ganha características diferentes e se desenvolve a partir da quebradura das normas que regem as concepções de sociedade patriarcal vigente, porém muitas são punidas no final da história. Nessa perspectiva encontra-se a personagem Helena de Sol do Meio-Dia. Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo: experiência vivida (1967) afirma que dentro do mundo social existem aqueles que ocupam uma posição especial ou universal e aqueles que são marcados pela diferença (sexual, racial, religiosa) em analogia a norma. Estes são considerados como O outro. “Assim, a alteridade tem portanto muitas faces. Na verdade o insight de Beauvoir é provavelmente o de aplicação mais ampla, profunda e duradoura do feminismo contemporâneo. E vem dando forma a inúmeras discussões [...]” (BORDO, 2000, p. 12) O papel da mulher pós-moderna presente em obras literárias é muito semelhante ao papel da do século anterior, mesmo com o crescimento das cidades, melhoria na formação educacional e desenvolvimento do feminismo. Também nota-se que as próprias personagens provam a vigência do patriarcalismo, mesmo que novas teorias tenham 250 defendido a sua decadência. A esse respeito a Dra. Sylvia L. de Mello que escreve o prefácio do livro Declínio do Patriarcado: a família no imaginário feminino afirma: “O olhar da mulher é puro olhar da alteridade derramado sobre o mundo construído essencialmente pelo olhar masculino.” (XAVIER, 1998, p.11). Assim, poucas conseguem libertar-se por meio da leitura, tomar conta si mesma e assumir o preço de suas decisões. Contudo, de forma tímida, a família começa a ser mostrada com configuração diferente na obra literária. Essa variação é consequência das mudanças sociais. Em Sol do Meio-Dia, Paim consegue traçar o painel das famílias que moram na pensão e, ao mesmo tempo, mostrar alguns dilemas vividos por todas que se fazem presentes na obra. D. Beatriz, dona da pensão, é filha de uma família patriarcal e usa a sua linguagem para mascarar um modelo de família fragmentada. Os conflitos de caráter familiar marcaram a narrativa brasileira depois da Semana de Arte Moderna 1922. Historicamente pode-se lembrar de alguns exemplos de romances produzidos por mulheres: O Quinze, de Rachel de Queiroz, produzido no segundo momento do modernismo brasileiro e dentre outros, a obra A Sombra do Patriarca produzida por Paim que carrega traços da opressão, mas também, Perto do Coração Selvagem (1944) de Clarice Lispector e, Alice e Ulisses (2012) de Ana Maria Machado, um de seus romances para adulto. Retirando o primeiro exemplo, os demais traçam o perfil da família pós-moderna – multifacetada –, procurando alcançar diferentes esferas do espaço social. Nestas esferas, encontram-se, concomitantemente, dimensões da dominação e da resistência. A história da personagem secundária, Helena, do romance Sol do Meio-dia começa fora da pensão, e traz uma concepção contraditória de história da mulher. Ela consiste na vida de uma moça comum que desejava constituir uma família e foi impedida pela irmã que julgou o pretendente como alguém que não atendia aos princípios morais e patriarcais almejados. Essa passagem permite um retorno ao modelo de família burguesa do século XIX. D. Beatriz revela que a irmã extrapolou a condição de mulher antes de contrair casamento quando responde ao questionamento: “Helena não estava noiva? – Estava, mas mamãe era fraca e satisfazia todas as vontades de Helena. Deixava que os dois saíssem sozinhos para cinemas, chá e viagens de bondes, sem destino certo.” (PAIM, 1961, p. 228-229) O fragmento mostra que Helena tinha um comportamento diferente das 251 moças do seu tempo e não obedecia o papel secundário que cabe a uma filha. A esse respeito As moças de família eram as que se portavam corretamente, de modo a não ficarem mal faladas. Tinham gestos contidos, respeitavam os pais, preparavam-se adequadamente para o casamento, conservavam sua inocência sexual e não se deixavam levar por intimidades físicas com os rapazes. Eram aconselhadas a comportarem-se de acordo com os princípios morais aceitos pela sociedade, mantendo-se virgens até o matrimônio enquanto aos rapazes era permitido ter experiências sexuais. (PINSKY. Mulheres dos anos dourados. In: PRIORI org. 2011, p. 610) Para uma das autoras da obra História das mulheres no Brasil (2011), nos anos 50 do século passado ainda se guardava um modelo conservador de moça de família. Por esse modelo, a personagem Helena é classificada como leviana. A moral sexual exigida dela por beata não fora atendida. Ignorando o estado de saúde da mãe Etelvina, D. Beatriz atribui a morte da mãe aos desgostos proporcionados pela filha transgressora da ordem social. Entretanto, essa desobediência não é suficiente para caracterizá-la como uma personagem pós-moderna. Ainda sobre a educação feminina, pode-se afirmar que atender a esses valores significa levar a mulher a um conflito existencial, pois ela deixa de ser ela o tempo todo para agradar o outro ou “ser o outro”. Essa falta de autonomia ao contrário do que parece, fragmenta cada vez mais o ser ficcional. Mesmo assim, se consegue montar as peças que compõe o mosaico da personagem Helena a partir das imagens que a escritora vai desenvolvendo. Dando seguimento, a beata acrescenta que Nelson não tratava bem Helena e, em consequência, transformou-a numa mulher submissa, irrequieta, exigente... Além do mais, a engravida. Como forma de corrigir a transgressão da irmã, D. Beatriz obriga-a a viver no exílio durante a gestação e assume a criança como se fosse sua. Entender a obediência de Helena a irmã e a entrega do seu filho Jorginho a mesma é mais complexo do que parece, pois não se trata de um caso de abandono simplesmente. O que estaria por trás dessa atitude? Sabe-se, como já fora descrito, que D. Beatriz é filha de uma família patriarcal, cheia dos preceitos morais e ao mesmo tempo não tinha filho. Sendo assim, a atitude dela leva o leitor a pensar de forma ambígua, ou seja, que ela não queria apenas salvar o nome da família de um escândalo, mas também 252 ficar com o filho da irmã significaria a realização de um sonho seu: ter um filho que ela não pode ter. Durante a leitura do romance, D. Beatriz narra várias vezes o parto que não teve e até tenta enganar o leitor, mas ela se perde em suas narrações, como observa Ester na seguinte passagem: “– Dona Beatriz não teve filhos do primeiro casal? E a voz suavizada de ternura continuara enchendo a sala, enquanto olhos úmidos passavam de um rosto a outro. Não era ilusão: havia mentira. Quando? Naquela noite ou ali, [...]” (PAIM, 1961, p. 222). Pode-se observar nas personagens – D. Beatriz e Helena – o modelo da personagem não de costume, mas de natureza, vez que as duas são apresentadas pelo seu modo íntimo de ser, o que impede que as duas tenham a regularidade das outras. Elas não são fáceis de serem caracterizadas e por isso, a escritora precisa utilizar novas características. Tal evento leva o leitor a classificá-las na categoria de esférica pela capacidade que tem cada uma de surpreender o leitor em cada no quadro que é apresentado. (CANDIDO, 2005) a relação de “intimidade” e distância entre as duas irmãs cria uma situação privilegiada para o entendimento dos eventos descritos. Por certo, as peças começam a serem montadas e Ester vai levando o leitor a compreender o porquê de o sonho de Helena em constituir uma família deixara de ser sempre lembrado na obra. A sua trajetória muda totalmente, pois além de ter o seu filho arrancado não encontra também mais o seu namorado, o Nelson que recebeu de D. Beatriz algumas concessões e saiu totalmente da vida dela. Indubitavelmente, vê-se uma Helena que perde seu ideal num momento em que as mulheres estavam lutando por seus direitos. Esse momento de desespero é descrito assim: “Helena emerge da agonia para ter noção confusa de luz, de claridade sufocada pelo nevoeiro. Toma consciência de roubo e essa visão do mundo arrasta-a de novo ao passado.” (PAIM, 1961, p. 106) Ao contrário desse episódio, no capítulo XII, há uma passagem curiosa envolvendo D. Beatriz, Jorginho e Helena. Nela a criança convida a tia que é mãe para sair com eles e demonstra certo carinho: “- Se titia ficar não vô... não vôôo... A cabeça derreada, os lábios franzidos, teimou. – diga qualquer coisa, criatura [...] Helena chamou a criança [...] Quando ficar boa, a gente vai passear de ônibus e comer pipoca na Praça Paris.” (Op. cit., p. 136-137). 253 A narrativa revela que implicitamente há carinho entre mãe e filho. A conversa que Helena tem com Jorginho para convencê-lo a sair com a beata provoca alegria e satisfação na criança, que se materializam no texto pelo uso de frases curtas, reticências... Ao mesmo tempo é perceptível o ciúme que sente a d. Beatriz ao ouvir o diálogo entre os dois, pois ela percebe que havia entendimento e aquela ação fazia com que ela temesse uma atitude futura da irmã: “Tinha dúvidas sobre os instintos de Helena. As carnes lhe tremeram no dia em que vira o pé da irmã avançar e atingir o menino, quando minutos antes ela o apertava nos braços até fazê-lo gritar meio sufocado.” (Op. cit., p. 136-137). Além do mais, a criança pergunta a tia-mãe se poderia levar o pai no momento do passeio prometido. Essa pergunta faz a beata aumentar a sua raiva. Compreende-se que Helena fica emocionada e orgulhosa ao sentir-se preferida pela criança que sempre a tratava com atenção e carinho e, ao mesmo tempo, perplexa da forma grosseira como a irmã tratava Jorginho, principalmente antes ou depois que os dois se comunicavam. Infelizmente, Helena adormece e não continua essa reflexão. A escrita de Paim vai revelando a condição da mulher que tem seus quereres dominados pelo outro. A esse respeito As narrativas de autoria feminina falam sobretudo de mulheres e a primeira, pessoa é a dominante. O tom confessional chega a confundir o leitor: narradora ou autora? Confissão ou autobiografia? Quando isso não ocorre, a intimidade entre narradora e personagem é tão grande que a introspeção fica garantida. Suas personagens têm dificuldades de sair de si mesmas, estão em busca de sua identidade, à procura de um espaço de autorrealização. (XAVIER, 1991, p.12) Esse evento ocorre na vida de Helena que perde a sua identidade e ao tentar sair do mundo de mentiras criado pela irmã se perde. A personagem é mulher e por isso a sociedade vai cobrar dela muito. “A passividade que caracterizará essencialmente a mulher ‘feminina’ é um traço que se desenvolve nela desde os primeiros anos.” (BEAUVOIR, 1967, p. 21). Nas entrelinhas da pesquisadora, pode-se perceber que a sociedade contribui com seus valores morais e religiosos muito mais com essa formação. Por isso, ela abandona a questão biológica. Diferente de Ana, personagem do conto Amor de Clarice Lispector, Helena sai para a transcendência, para a mutilação e não consegue voltar. Em momentos de devaneio 254 deseja a morte, a saber: “Os pensamentos se fechavam como círculos, cada vez menores: era Nelson chegando, Nelson apertando-a contra o peito, o desaparecimento em Nelson. Esquecia-se de tudo.” (PAIM, 1961, p.173). O fantasma de Nelson rondava o tempo todo no consciente de Helena. Ela não o esquecia. Ora trazendo uma lembrança boa, como se pode ler no fragmento que segue, [...] Somente Nelson descobriu que para alcançar a mulher precisava antes fazer feliz a criança que se escondia nela, compensar a adolescente que mentia sempre. Nelson sabia adivinhar, captar-lhe as fantasias para satisfazê-las. Deixara-lhe marcas nos sentimentos. (Op. cit., p. 104) Ora uma lembrança triste e sofrida, a saber: “Sentia-se magoada por estar ali naquela cama e, no entanto, o coração lhe saltava de alvoroço quando ele lhe pediu entrega sem reservas.” (op. cit., p. 139) O excerto mostra um momento paradoxal da vida de Helena: a realização de estar com o homem que ama x a perda do sonho de outrora, o de constituir uma família. Além do mais, o sentimento de culpa é presente em suas lembranças, mesmo que na prática ela não o demonstre e haja perante a sociedade de forma transgressora. Cada momento de crise vivido por Helena é causado pela dúvida, pelo que não foi e justificado pela opressão familiar e alienação da irmã que também perde o controle do seu senso de justiça. Para a saída desse problema é preciso vencer essa luta contra a irmã, revelar as mentiras dela, assumir sua maternidade e começar uma vida nova, sem o fantasma do Nelson e do Veloso, o seu cunhado, que a deseja e a perseguia. Para tanto, a personagem precisaria ceder, perdoar e assumir papeis que vem sendo deixados para trás. Além do mais, seria preciso edificar duas mudanças: “A mulher reprimida transforma-se na mulher liberal, mais instintos que consciência; e a repressão paterna dilui-se de marcá-la tão profundamente.” (MENDONÇA. A busca da identidade na ficção feminina contemporânea. In: XAVIER, 1991, p.26) É o que o leitor espera o tempo todo de Helena, que ela saísse daquele quarto, arrumasse um emprego, esquecesse Nelson e se tornasse uma mulher livre. Observa-se que Helena põe em prática apenas a primeira mudança, mas como forma de se vingar da irmã, contudo a segunda, seria muito difícil, vez que Helena não faz esforço para reergue-se, para desprender-se de seus complexos e culpas. Então vive uma crise sacralizada entre o real e o irreal porque já não consegue reconhecer o seu eu. 255 Nas últimas páginas do romance, lê-se: “era uma Helena que nunca soube enxergar quando viva, uma jovem despojada do amor e do filho, um coração em que a esperança foi estrangulada, um pensamento de onde baniram até a sombra de um sonho.” O amor obsessivo por Nelson acorrenta Helena e sua ausência deixa-a cega e incapaz de perceber coisa boas da sua vida, a exemplo de revelar que era a verdadeira mãe de Jorginho. Em resumo, Helena fica sozinha, prefere o silêncio e torna-se uma mulher que não deveria ser. Seu comportamento, modo de falar com a irmã e autoabandono passam a ser materializados pelo uso de bebidas alcoólicas, pela busca de Nelson em outros homens, que nunca encontrou e as sequentes doenças culminadas pela depressão. A história da personagem Helena mostra novamente que o feminino sofre entraves e preconceitos de pessoas do mesmo gênero. A própria mulher pode ser um entrave na transformação do feminino. Na obra Sol do Meio-Dia, a beata assume o papel de patriarca, oprime o tempo todo a irmã e as inquilinas que moram em sua pensão. Ela chega até a expulsar àquela que ela suspeita não seguir as regras morais da sociedade. Por essa razão tanto Helena quanto Sílvia representa feministas limitadas e oprimidas. O momento da morte de Helena, assim como a sua vida, é paradoxal e assim fora descrito: “Helena teria chegado onde queria? Os pés nus e rijos não tinham encontrado os chinelos. Havia algum lugar onde ir, alguma coisa que compensasse a vida, toda essa miséria, sofrimento estúpido, desencontro de desejos e realidade, entre intenções e consequências?” (PAIM, 1961, p. 321) Observa-se que não só nessa obra, mas também em outras, a exemplo de A Sombra do Patriarca (1950), Alina Paim expõem as vozes sufocadas da mulher e faz o leitor perceber as atrocidades que elas sofrem frente o abandono familiar, a necessidade de ser aceita e a de ter a sua maternidade garantida. Tais itens se relacionam com o desejo de liberdade sempre podado pelo outro. Além do mais, as mulheres que conseguem certo “poder” o exercem de forma opressora o patriarcado feminino. É o que ocorre com as personagens D. Beatriz e Teresa de A Sombra do Patriarca. O falecimento da personagem Helena atende, por certo, ao modelo de sociedade patriarcal que entende merecer punição todos que não conseguirem obedecer ao seu regime e limitações. Ao mesmo tempo observa-se na irmã da beata um comportamento masoquista, egocêntrico e ultrarromântico. Sendo assim, Helena contraria, na obra, o modelo da pós-modernidade deixando-o para a personagem Ester que representa traços 256 desse modelo quando sai de Paripiranga para não casar-se, busca viver do ofício de tradutora e exerce função de secretária numa cidade grande e, engaja-se em atividades políticas. Ao longo do texto busca-se mostrar que, apesar de Helena não ser a personagem principal do painel rico em personagens femininas apresentadas pela narradora Ester, ela é significativa dentro do texto, cativa o leitor por apresentar um exemplo verossímil da época em que a obra fora escrita, além de representar em suas passagens, incógnitas pessoais pouco reveladas. Paim consegue manter o sentido de que suas personagens são de ficção e o mistério enquanto as constrói. Particularmente com Helena usa a memória, a invenção, a ambiguidade e até ciclo de vida para ela, mas não foge da lei que rege a teoria da personagem. Acredita-se e reafirma-se que a educação patriarcal que recebe a mulher real ou de ficção de ficção, venha a ser de fato um dos problemas que contribui para a difícil luta em busca do respeito e liberdade para as suas escolhas, mesmo quando se trata de uma personagem intelectual, demonstrado em Sol do Meio-Dia pela protagonista Ester. O caráter literário e sociológico presente em Sol do Meio-Dia se entrelaça e colabora para a organização interna e contexto de produção da obra. Com efeito, o resultado leva o leitor a refletir sobre o estar no mundo. Desse modo, apesar dos desencontros, polêmicas e todo o tipo de opressão e abuso por parte do masculino e do próprio feminino, justificados pelas raízes sólidas do patriarcalismo, as revoluções feministas foram importantes para ressignificação da sociedade pós-moderna. A liberdade de escolha do outro, o direito a maternidade e o de escolha da profissão devem ser respeitados. A mulher precisa se auto conhecer e se valorizar para fazer uso desses dois pressupostos, adquirir forças e o espaço tão merecido. Em consequência, as narradoras não precisaram matar as personagens secundárias que sufocadas não conseguiram encontrar o fio condutor de suas vidas e no ato covarde e ultrarromântico se entregaram a morte como forma de mostrar ao outro que não suportava mais tanta opressão. REFERENCIAIS BRAIT, Beth. A personagem. São Paulo: Ática. 1985. 257 BORDO, Susan. A feminista como o Outro. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v.8,n.1,p.10-29, 2000. BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo. Ed. 2. São Paulo: Dufusão Europeia do Livro, 1967. CÂNDIDO, Antônio [et al.]. A Personagem de Ficção. 11. Ed. São Paulo: Perspectiva. 2005. _______ . Literatura e Sociedade: estudos de Teoria e Histórias Literárias. Ed. 9. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul,2010. 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