A TRAJETÓRIA DE UMA PROFESSORA-LEITORA: PROCESSOS DE ACERCAMENTO DO TEXTO Luiz Ricardo Ramalho de Almeida Bolsista de Iniciação Científica CNPq-PIBIC Neste trabalho discutem-se às estratégias de leitura de professor-leitor participante do experimento. A análise e discussões dos dados nos quais está fundamentado esse trabalho foram realizadas através das transcrições das sessões de leitura, especificamente na turma A. Foi observado o comportamento longitudinal do sujeito Helena. Darei ênfase à sessão onde foi trabalhado o texto Flor, telefone, moça de Carlos Drummond de Andrade e destacarei alguns aspectos de outras sessões. Helena é professora da rede pública de ensino, graduada em pedagogia e profissional engajada em estudar e se atualizar. Conhecendo um pouco do sujeito passamos a analisar sua interação com o texto literário. Durante as quinze sessões Helena demonstrou ser uma leitora participativa na construção de significados da obra literária. A cada sessão ela apresenta traços de uma leitora ativa, pois utiliza estratégias como: identificação, relação texto-vida, repertório (intertextualidade), foco na estrutura do texto e foco no significado (previsões) que levaram-na a compreensão dos textos e, consequentemente, à concretização de sentidos, realizando assim a leitura, que segundo Smith (1989, p.17) é uma atividade construtiva e criativa. É dentro dessa perspectiva que Helena usa toda sua criatividade e argumentos ao acercar-se do sentido do texto caracterizando-se como uma leitora, o que para Nunes (1990, p.20-21) corresponde a um ser de imaginação ativa e criativa. E, ainda, que “[imagina] todo o universo cifrado [nos] sinais das letras, para poder preencher as entrelinhas do texto. O uso dessa imaginação está associado às estratégias cognitivas que, segundo Koch (2000, p.29) consistem em estratégias de uso do conhecimento. E esse uso, em cada situação, depende dos objetivos do usuário, da quantidade de conhecimento disponível a partir do texto e do contexto, bem como de crenças, opiniões e atitudes, o que torna possível no momento da compreensão, reconstruir não somente o sentido intencionado pelo produtor do texto, mas também, outros sentidos não previstos ou mesmos não desejados pelo autor. O desenvolvimento de Helena durante as sessões é variado pois, ao iniciar a discussão dos textos, ela busca caminhos como a identificação para aproximar-se do significado. Esta estratégia de leitura é característica de um leitor que se envolve com a temática abordada pelo autor, que desperta emoções como: ódio, amor, revolta e simpatia. Nas primeiras sessões, essa forma de acercamento é marcante no discurso de Helena. Os textos do experimento trazem uma carga de sentimentos que desperta em Helena identificação catártica, fazendo-a expressar de forma clara o seu grau de identificação. Para ilustrarmos essa atitude vejamos uma das falas de Helena durante as discussões do texto Arranjo em preto e branco de Dorothy Parker, onde ela diz: “Eu não gostei dessa mulher [personagem] Ela fala do Negro... assim, de uma forma preconceituosa. Eu não gostei desse jeito dela...” (Transc. p.8). Nessa fala, Helena deixa claro sua antipatia pela personagem, devido ao comportamento dela, da forma como ela fala. A revolta que o texto desperta em Helena é resultado da interação do sujeito com o enredo da história. Pois elementos descritivos dos personagens utilizados pela autora despertaram em Helena uma aversão pela personagem, fazendo com que ela mergulhasse no impacto psicológico ocasionado pela obra. Outra característica apresentada por Helena, nas sessões, é a relação texto–vida que se estabelece com o que se encontra armazenado na memória de cada indivíduo, quer se trate de conhecimento do tipo declarativo (proposições a respeito dos fatos do mundo), quer do tipo episódico (os “modelos cognitivos” socioculturalmente determinados e adquiridos através das experiências. (Koch, 2000, p.27). Ou seja, enfatiza a busca do repertório de mundo de cada leitor para que ele possa realizar comparações e previsões. Os contos trabalhados no estudo apresentam traços sociais que levam o leitor a se reportar a momentos de sua vida criando um quadro de relações texto-vida. As narrativas discutidas durante o experimento enquadram-se nos requisitos traçados por Iser (In: Lima, 1983, p.423), quando diz: [que] o texto é capaz de construir uma estrutura que leva o leitor ao ápice da curiosidade como também a fazer comparações. Para explicitarmos essa relação mostraremos um fato que chamou a atenção de Helena durante a discussão do texto Flor, telefone, moça de Carlos Drummond de Andrade trabalhado na segunda sessão que era o fascínio da personagem por lugares sombrios como cemitérios. Isso levou Helena a declarar: Eu também gostava de ver os enterros passarem por minha casa. Quando eu era pequena ficava vendo... Eu achava interessante ir ao cemitério e ficar olhando as coisas... (Transc. p.6). O envolvimento do sujeito, no campo real e ficcional, desenvolve sua criticidade, levando-a a questionar os valores enfocados no texto como também, os valores do mundo real, alterando assim sua visão de mundo. Isso nos remete ao conceito de leitura racional de Martins (1994, p.66), quando diz: a leitura racional estabelece uma ponte entre o leitor e o conhecimento, levando-o a reflexão, a reordenação do mundo objetivo, possibilitando-lhe no ato da leitura atribuir significado ao texto e questionar tanto a própria individualidade como o universo das relações sociais. Na busca do significado do texto, Helena recorre também a estrutura textual, que consiste na organização das informações do texto e o jogo de linguagem utilizada pelo autor. As estratégias textuais segundo Koch (2000, p.31) dizem respeito às escolhas que os interlocutores realizam, desempenhando diferentes funções e tendo em vista a produção de determinados sentidos. A utilização desse veículo ocorre a partir do sexta sessão. A curiosidade de Helena é instigada pela discussão do texto Arranjo em preto e branco, de Dorothy Parker, onde a autora usa elementos comparativos que levaram-na a enfatizar: Ela [autora] vai criando situações que me levaram a ficar curiosa em conhecer [personagem]... Eu fiquei imaginando qual seria a reação dela quando conhecesse o Negro [outro personagem]. (Transc. p.3). Nesse discurso de Helena está explícita a forma como a autora constrói o texto, levando-nos a Iser quando diz: Ele [o texto] tem que ser capaz de construir uma estrutura constante com termos de comparações para as diferentes concretizações...:”. O conto despertou em Helena o poder de projetar um final para a história. Isto é, a capacidade [ que o ] texto tem de reconstruir os procedimentos literários perceptíveis, como estímulo para a recepção dos leitores... (Iser, 1983, p.417). Na décima sessão, onde foi trabalhado o texto O dedo de Lygia Fagundes Telles, Helena demonstra claramente em uma de suas falas a utilização da estrutura textual como suporte para acercar-se do significado da obra. Vejamos o trecho: A – O que você achou do texto Helena ? H – Eu gostei. Assim... Eu achei interessante a forma como ela [autora] narra, mostra os episódios, como a pessoa encontrou o dedo... Eu achei curioso... (transc. p. 1). Helena apresenta uma evolução na forma de acercamento do texto. Como característica desse avanço ela recorre a intertextualidade, que diz respeito ao modo como a produção e recepção de um texto depende do conhecimento que se tem de outros textos com os quais eles de alguma forma se relaciona. (Beaugrande & Dressler apud Koch, 2000, p.46). Com isso, pode-se dizer que a intertextualidade é a relação ou comparação que o sujeito faz entre textos usando paráfrase ou outros veículos. Durante as discussões dos textos, Helena buscou no seu repertório de leitura fatos que tinham ligações com a história que estava sendo discutida no momento com outras já conhecidas por ela. Isso nos leva a uma de suas falas na nona sessão onde foi trabalhado o conto “Famigerado” de Guimarães Rosa, onde ela diz: Há um contraste no texto, o autor deteve-se só nas características do jagunço... me levou a pensar no conceito que eu já conhecia... e também eu me lembrei do texto que trata do preconceito onde a escritora faz a mesma coisa... (transc. p.17) . Nesse trecho da fala do sujeito percebe-se que ele utiliza a intertextualidade de duas formas: faz comparação com o seu conhecimento em torno do conceito de jagunço e realiza uma intertextualidade mais marcante ao citar o texto Arranjo em preto e branco de Dorothy Parker. Assim, constatamos que todas as manifestações de intertextualidade permitem apontá-la como fator dos mais relevantes na construção da coerência textual. (Koch,2000, p.50) que possibilita a construção do sentido. As mudanças de estratégias do sujeito estão associados à variedade dos textos envolvidos no experimento. Pois a cada sessão era lido e discutido um texto com temática diferente. Isso proporcionou uma variação no relacionamento leitor – texto, fazendo com que ele apresentasse avanços e recuos a cada discussão. Pois como afirma Bakhtin (1992, p.294), o sujeito ao receber e compreender a significação de um enunciado, adota uma atitude responsiva. Essa atitude trata de um estado de constante elaboração de réplicas durante o processo de audição. É nessa visão que a obra literária desenvolve a função de estimular no receptor o poder cognitivo para que possa desempenhar o seu papel de comunicabilidade e produtividade (Amarilha, 1996, p.23). Com todo o envolvimento que Helena apresentou durante o experimento pode-se dizer que sua participação no processo de interação leitor –texto e construção de sentido da obra literária, não limitou-se apenas ao uso isolado das estratégias apresentadas anteriormente, mas, sim, ao uso de todas habilidades cognitivas do sujeito, levando-a a uma educação para a leitura literária [que] pressupõe uma educação para mudanças de percepção sobre o mundo factual e sobre sua própria linguagem (Amarilha,1996, p.4). Para fazer uma síntese dessa análise podemos mostrar o quadro das estratégias de leitura utilizadas pelo sujeito Helena no acercamento do texto. PROCESSOS DE ACERCAMENTO DO TEXTO (Com apoio de pares) Categorias Sessão 1ª 2ª 3ª 4ª 5ª 6ª 7ª 8ª 9ª 10ª 11ª 12ª 13ª 14ª 15ª Identificaç ão Foco na estrutura do texto Foco no significado X X X X E X X X X X X X X X X LI X X X X X X X X X X X MI X X X X X X X X X X Relação Repertório Texto-vida (intertextual idade) X X X X NA X X X X X X X X X X DA X X X - Aspectos gráficos - Diante da exposição do quadro acima, pode-se dizer que o sujeito analisado apresentou um comportamento variado durante a pesquisa. Helena como professora graduada em Pedagogia mostrou-se interessada em estudar para assim manter-se sempre atualizada. Por apresentar essas características inferimos que o seu envolvimento com os textos seria mais fluente e dinâmico. Entretanto, ela manifestou alguns avanços e recuos nas discussões dos contos. Nas primeiras sessões, ela mostrou-se envolvida com a leitura, manifestando a identificação catártica, categoria essa que esteve presente durante todo o experimento. Na quarta e décima terceira sessão, Helena não manifestou autonomia em suas colocações, limitou-se a reafirmar as falas de sua interlocutora Valéria usando termos como: ...eu concordo com Valéria..., ...eu penso assim... , entre outras formas. Isso nos levou a caracterizar como um recuo no processo de discussões na construção de sentido da obra literária. Também apresentou dificuldades em transitar nos textos envolvidos na pesquisa. Na nona sessão Helena ao se deparar com o texto “Famigerado”, de Guimarães Rosa, declarou: Eu senti dificuldade em entender o texto. Ele é um pouco confuso... Como também, durante a discussão do texto “A noiva inconsolável” , de Maria Judite Carvalho, quando ela diz: [estou] procurando! Aqui tem umas coisas que eu fiquei assim meio sem entender, eu [estou] assim... (Transc. p.01). Diante dessas declarações, vimos que a dificuldade de Helena está associado ao enredo da história, a estrutura textual entre outras categorias. Pois o texto da Maria Judite de Carvalho, apresenta uma temática muito familiar as mulheres que é o papel da mulher socialmente, o casamento... por isso foi considerado pelos sujeitos como difícil. Esse fato está associado ao impacto psicológico causado pela obra e, ao não distanciamento do mundo factual e real pelos sujeitos. Nas demais sessões, Helena demonstrou avanços significativos recorrendo à estrutura do texto, observando a semântica, o enredo das histórias, fez intertextualidade, propriamente dita, com outros textos do experimento. Mas, não declarou outras leituras feitas previamente. Também, percebemos que durante o desenvolvimento do experimento manifestou prazer nas leitura mediante o seu envolvimento o que nos leva a confirmar a afirmação de Silva quando diz que o prazer do texto não é apenas poder sorrir, gargalhar com os personagens, é também compactuar com situações vividas por eles. É descobrir conflitos, impressões e soluções existenciais do ser humano e, ao mesmo tempo poder esclarecer as próprias dúvidas. Assim, o prazer estético traz na sua essência sentimentos diversos que ora podem ser de alegria, ora de tristeza, onde os antônimos (amor e ódio, aceitação e repugnância, aprovação e rejeição e etc.) podem conviver com harmonia, dependendo do enredo e do nível de envolvimento do leitor neste (1996, p.99). Portanto, concluímos que foi a partir dessa interpretação que ter vivido momentos de ludicidade, momentos de mudanças, de reflexão da sua postura de leitora, além da aquisição de novas estratégias de leitura para a construção de sentido do texto foi de grande importância para Helena. Dessa forma, concordamos com à afirmação de Silva quando o trabalho de formação do leitor de forma dinâmica é lúdica encontra justificativa na premissa de o homem é um ser que tem todo o seu desenvolvimento em atividades lúdicas (1996, p.102). 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