HELENA WONG E IVAN SERPA: TRAJETORIAS OBSTINADAS.
Clediane Lourenço (Pqe-UNICENTRO) e-mail: [email protected].
Universidade Estadual do Centro-Oeste/Setor de Ciências Humanas, Letras
e Artes/DEART.
Palavras-chave: Processos criativos, Comparatividade, Arte brasileira.
Resumo:
O presente trabalho aborda o processo artístico de Helena Wong e do
também artista Ivan Serpa, operando uma relação entre eles, tendo como
fator relevante a semelhante trajetória e o encontro que tiveram como
professor e aluna.
Introdução
Helena Wong, assim como Ivan Serpa, possui um vasto acervo de obras e
também uma trajetória de vida muito semelhante: ambos foram figurativos,
depois pioneiros no abstracionismo e depois retornaram para o figurativo
expressionista. Serpa fez parte do grupo Frente, foi professor (inclusive de
Helena Wong), conviveu com Mário Pedrosa, Lygia Clarck e Hélio Oiticica; já
Helena tornou-se conhecida no Paraná, devido a sua ousadia no criar,
buscando sempre inovar sua arte e explorando novos meios que surgiam.
Possui obras até mesmo fora do eixo Rio - São Paulo, mas a decadência
física a impossibilitou de ir mais longe, ocasionando uma fragilidade no que
diz respeito à visibilidade do seu trabalho.
Assim, percebendo a inexistência de uma análise mais concreta da
obra de Helena Wong e tendo em Ivan Serpa um elo artístico, esta pesquisa
propõe constatar como o encontro entre esses artistas, ou a semelhante
trajetória artística, pode colaborar para o conhecimento mais profundo de
ideologias e/ou concepções existentes em suas obras. A pesquisa se
justifica, ainda, por suprir uma lacuna na historiografia da arte brasileira, que
não dá visibilidade a Ivan Serpa e Helena Wong. O interesse aqui não é
fazer apologia do artista brasileiro, mas afirmar o caminho próprio e singular
de cada um, apontando as coerências entre discurso e obra.
Materiais e Métodos
Para o levantamento do tema foi utilizado material bibliográfico de referência
remissiva, com abordagem qualitativa e técnicas de coletas de dados de
observação direta intensiva, o que permitiu a obtenção de uma grande
parcela de informações sobre os processos criativos dos artistas. Trata-se
de dados coletados em matérias de jornais, catálogos de exposições, livros
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acerca do tema e diário inédito de Helena Wong, além de entrevistas com a
família e artistas paranaenses da década de 1960.
As fontes em sua maioria são primarias e secundarias, justamente
pela falta de material cientifico sobre os artistas. Assim, a análise
compositiva das obras tornou-se também parte primordial da pesquisa,
encontrando nelas o suporte relacional para o processo artístico. Os
elementos como o traço caligráfico, as cores vivas e fortes, o desenho
apenas esboçado foram fatores importantes para a investigação
comparativa entre as obras, bem como o levantamento biográfico tanto de
Helena quanto de Serpa.
Resultados e Discussão
Mie Yuan (1938 – 1990), que significa em português “Beira d’Água de
Jardim”, nasceu em Pequim, China e viveu 40 anos no Brasil. Autora de uma
obra bastante própria chegou ao Brasil em 1951, quando adotou o nome de
Helena Wong. Viveu quase sempre em Curitiba e por um período de sua
vida no Rio de Janeiro. Vítima de uma doença reumática desde criança,
Helena lutou a vida toda contra a moléstia tendo como apoio a pintura.
A obra de Helena Wong é bastante variada, em se tratando de estilos.
Quando ela retoma novamente à figuração, traz um toque de
expressionismo e surrealismo fantástico, com jogos de cores fortes. Nesta
fase de sua produção teve como professor Ivan Serpa, desenhista,
gravador, ilustrador, que “entre pinturas, desenhos e gravuras, os trabalhos
exibem seu apuro técnico, seu cuidado indelével com o fazer e sua perfeita
harmonia entre forma e cor, figura e fundo, alma e técnica” (FERREIRA,
2004, p. 16). Foi nesse momento que a obra de Helena, ganha força e
vitalidade, agressividade e expressividade
Ivan Serpa também passou por várias fases, começando com alguns
trabalhos que foram chamados informais, em seguida encontrou-se nas
fases “Mulheres e Bichos” e ainda “Crepuscular” ou “Fase Negra” como
chamavam, referência ao seu expressionismo. Depois se seguiram a série
“Anti-Letra” e a fase “Op-Erótica”. Sua carreira contou também, com um
breve retorno a geometria na fase “Amazônica” onde mescla tons verdes e
efeitos óticos, por fim dedicou-se a fase “Geomântica”, que a partir do seu
misticismo criou pinturas geométricas, fase que deixou inacabada por uma
doença cardiológica que o assombrava desde criança.
Diante a ampla produção de Ivan Serpa, é necessário fazer um
recorte do período em que teve contato com Helena Wong, que data de
1965 em diante. Nesse momento, Ivan Serpa estava entre as fases:
“Mulheres e Bichos” e “ Fase Negra” e nos fins da década de 60 entrou em
sua fase “Op-erótica”.
As obras de Ivan Serpa trazem como tema o homem, o
existencialismo, da mesma forma que Helena Wong. Ambos possuem
muitas características em comum que podem ser identificadas em suas
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obras. Como a relação com as cores que Ivan acredita serem “não
exatamente as cores, mas suas intensidades podem determinar à indecisão,
a euforia, a depressão” (apud FERREIRA, 2004, p 33), portanto, suas obras
possuem vigor cromático que muitas vezes chega a chocar o espectador; e
Helena tem uma relação intensa com as cores, trazendo nas obras um
mundo misterioso envolto por massas de tintas, que parecem que a
qualquer momento irão saltar do quadro.
Outros pontos em comum entre esses dois artistas também são a
relação com a gestualidade e expressividade. Tanto Helena quanto Serpa
não são expressionistas por completo, pois as obras não possuem temas
narrativos, o que eles fazem é “buscar valores plásticos nos territórios mais
diversos da expressividade humana. (...) cambiando esses valores
espontâneos para uma construção plástica consciente e racional”
(FERREIRA, 2004, p. 64), demonstrando uma gestualidade comandada pela
emoção do artista.
Nas figuras I e II, o íntimo da mulher está representado de maneira
despojada, sem a preocupação do gosto pelo público. São pinturas fruto do
olhar investigador do artista sobre a realidade do sentimento humano.
Figura I – Mulher e Bichos 1965
(Ivan Serpa)
Figura II – sem título, s/d (Helena
Wong)
Há ainda o caráter erótico que permeiam as obras de Helena Wong,
que segundo Regina Casillo: “Por causa de uma decadência física e os
fatores afetivos, a angústia permanente existencial que Helena tinha, a fez
partir para uma arte erótica e nessa temática eram mais desenhos,
desenhos soltos” (Informação verbal)1. Ivan Serpa também na sua fase “Operótica” trabalhou mais com desenhos, são trabalhos com grande
sensibilidade e suavidade, geradas através do traço, que no trabalho de
Helena Wong, possui a leveza da caligrafia oriental; e no trabalho de Ivan
Serpa a ornamentalidade gráfica.
Serpa tinha a idéia de que o “Erotismo é válido quando autêntico;
quando deixa de ser, vira pornográfico” (apud FERREIRA, 2004 p. 36). E
1
Depoimento de Regina Casillo em 05 de junho de 2008 - Curitiba.
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tanto Helena quanto Ivan são autênticos em suas obras, o que os permitiu
dar ao corpo elevação, à categoria de descoberta.
Conclusões
Sobre a influência de Ivan Serpa na obra de Helena Wong, Adalice Araújo
(1990, p. 5) diz que esse contato “provoca, numa primeira etapa, uma
linguagem de uma dramaticidade brutal”. E relata também que através do
contato com Ivan Serpa, “opera-se uma substancial transformação em seu
trabalho que oscila desde uma tendência surrealista, onde triunfam visões
subjetivas e sonhos oníricos, até uma violenta volta a figuração
expressionista”. Podemos notar que temos em Ivan Serpa um elo não só
artístico de Helena Wong, mas uma chave interpretativa para a obra desta
artista. A analise visando a interpretação das obras desses artistas, a partir
da relação estrutural e de vivências, contribuiu para um conhecimento mais
consolidado a respeito das suas produções visuais o que contempla também
a recepção e a fortuna critica de ambos.
Ivan Serpa deixou em Helena, marcas, criou como diz ele uma
“identidade”, assim como o contato com o Rio de Janeiro. O procedimento
de realizar uma relação entre os artistas revelou uma possibilidade
interpretativa para a obra da Helena Wong e refletiu sobre a influência das
varias poéticas de Ivan Serpa em seu trabalho. Assim, como também
conduziu a reflexões sobre o processo criativo de cada um, e propôs uma
relação dinâmica e dialógica entre artistas e obras.
Agradecimentos
A irmã de Helena Wong, Shou Wen Alegretti pela entrevista e pelo acesso
ao acervo particular de obras; a Regina Casillo e aos artistas Ênnio Marques
e Estela Sandrini, pelos depoimentos fornecidos que também foram de
grande relevância para o desenvolvimento da pesquisa.
Referências
Araujo, A. Adeus à Helena Wong. Gazeta do Povo, 29 de abr. de
1990.
Ferreira, H. M. D. Ivan Serpa. Rio de Janeiro: FUNARTE, 2004.
Helena Wong Meio Século de Sensibilidade e Obstinação. Catálogo
MAP. Curitiba, out. de 1990.
Lourenço, C. A auto-referencialidade nas obras de Helena Wong das
décadas de 70 e 80. TCC de especialização em História da Arte –
Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, 2008.
Zanini, W. org. História geral da arte no Brasil. São Paulo: Instituto
Walther Moreira Salles, 1983.
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helena wong e ivan serpa: trajetórias obstinadas