© dos autores, 1991, 1992, 2003
© Ágalma para a língua portuguesa, 1991, 1992, 2003
1a. edição de Coisa de criança: julho de 1991
1a. edição de Desenho: por que não?: julho de 1992
2a. edição: novembro de 2003
Projeto gráfico da capa e primeiras páginas
Homem de Melo & Troia Design
Ilustrações das capas originais
Coisa de criança: Pieter Bruegel
Desenho:por que não?: Miguel Cordeiro
Editor
Marcus do Rio Teixeira
Organização da primeira edição
Angela Mendonça de A. Baptista
Direção desta coleção
Julieta Jerusalinsky
Organização desta reedição
Graziela Costa Pinto
Colaboram neste número
Angela M. de A. Baptista, Aura Lago Lopes, Eliana Sampaio de Cerqueira, Helson Ramos, Maria
Alice R. Ferreira Leal,
Marie-Christine Laznik, Martine Lerude, Octavia Martin,
Sandra Dias, Sonia Campos Magalhães
Tradução
Marlize Rego, Angela Baptista e Marcus do Rio Teixeira
Revisão
Agnaldo Alves
Todos os direitos reservados
Av. Anita Garibaldi, 1815
Centro Médico Empresarial, Bloco B, sala 401
40170-130 Salvador-Bahia, Brasil
Tels: (71) 3245-7883 (71) 3332-8776
e-mail: [email protected] Site: www.agalma.com.br acebook
APRESENTAÇÃO DESTA COLEÇÃO
A criança tem a propriedade de recuperar o jogo, jogo que
produz um saber com sabor de non-sens, descansado de sentido.1
Suscita assim questões, exige respostas, joga com o recalcado do
nosso desejo.
Incontáveis discursos buscam insistentemente transformar
esse imerso mundo, produzindo um saber que prova sua eficácia
ao calar o que aí nos diz respeito, o que aí toca as reminiscências
do infantil de nossa sexualidade.
Dar voz à criança, escutá-la, fazer tentativas de articulações.
Tudo isso como num jogo infantil, no qual a busca de sentido possa
ser desperdiçada, lançada adiante, no qual se possa voltar atrás,
inovar nas regras, começar tudo de novo.
Que seja esta a aposta2 desta coleção de Ágalma: um convite ao jogo.
Angela Baptista
Psicanalista, primeira diretora desta coleção.
1
BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 1980.
2
BALBO, Gabriel. Editorial. La psychanalyse de l’enfant, vol. 1. Paris: Joseph
Clims, 1985.
5
Sumário
Apresentação desta coleção 5
Angela Baptista
Editorial da segunda edição 11
Graziela Costa Pinto
Coisa de Criança
Editorial da primeira edição 19
Marcus do Rio Teixeira
Transferência e análise de crianças 21
Angela Baptista
Para bom entendendor... 29
Angela Baptista
Capa da
Primeira
edição
Ato e acting-out na análise com crianças 38
Maria Alice Ramos Ferreira Leal
O luto de um bebê – Nascimento e morte
em um circuito numa UTI neonatal 47
Maria Alice Ramos Ferreira Leal
A Adoção do ponto de vista da
posição materna 59
Martine Lerude
Verificação e observação ou
A missão de Anna Freud 74
Martine Lerude
Teorias implícitas e depressão 89
Martine Lerude
Desenho: por que não?
Editorial da primeira edição 109
Angela Baptista
Desenhar, repetir/atravessar 111
Sonia Campos Magalhães
O desenho e suas interpretações:
Quem sabe ler? 121
Sonia Campos Magalhães
Capa da
Primeira
edição
Do que é significante e gozo no desenho 128
Eliana Sampaio de Cerqueira
O patromínico de uma criança
como puro traço diferencial 133
Marie-Christine Laznik
Das vicissitudes dos traços gráficos ou
De como a estrutura se faz letra 153
Octavia Martin
A perversão na infância:
Sobre o diagnóstico 171
Sandra Dias
Seção Rumor 207
Títulos originais e locais de publicação
Textos publicados em Coisa de Criança, n. 1 da Coleção da
Psicanálise da Criança. Salvador: Ágalma, 1991
Transferência e análise de crianças. Angela Baptista. Inédito,
1987.
Ato e acting-out na análise com crianças. Maria Alice Ramos
Ferreira Leal. Inédito, 1987.
A adoção do ponto de vista da posição materna. Martine Lerude,
Le Discours Psychanalytique, n. 1. Paris: Joseph Clims/ Association Freudienne, fevereiro de 1989.
Verificação e observação ou a missão de Anna Freud. Martine
Lerude. In revista La Psychanalyse de l’ Enfant, n. 2 (dedicada ao
tema “A mulher analista só teoriza pela boca da criança?”). Paris:
Joseph Clims, 1986.
Textos publicados em Desenho: por que não?, n. 2 da Coleção
da Psicanálise da Criança. Salvador: Ágalma, 1992.
Do que é significante e gozo no desenho. Eliana Sampaio de
Cerqueira. Inédito, 1992.
O patronímico de uma criança como puro traço diferencial
(Como romper os encantos maléficos da relação especular com
o outro fraterno). Marie-Christine Laznik. In revista Le Trimestre
Psychanalytique, ano 5, n. 1. Paris: Éditions de l´Association
Freudienne, 1992.
Desenhar, repetir/atravessar. Sonia Campos Magalhães. Inédito,
1992. Posteriormente publicado em Magalhães, S. A criança em
nós. Salvador: Campo Psicanalítico/Ágalma, 2013.
Textos acrescentados nesta reedição
O desenho e sua interpretação: quem sabe ler? Sonia Campos
Magalhães. Inédito, 1997. Posteriormente publicado em
Magalhães, S. A criança em nós, op. cit.
O luto de um bebê – nascimento e morte em circuito numa UTI
neonatal. Maria Alice Ramos Ferreira Leal. Inédito, 2001.
A perversão na infância: sobre o diagnóstico. Sandra Dias. Inédito, 2003.
Das vicissitudes dos traços gráficos ou de como a estrutura se faz
letra. Octávia Martin. Inédito, 2003.
Para bom entendedor.... Angela Baptista. Inédito, 2003.
Teorias implícitas e depressão. Martine Lerude. In: Journal Français de Psychiatrie, n. 9. Paris: Érès, 2000.
Editorial da segunda edição de
Coisa de Criança e Desenho por que não?
Graziela Costa Pinto
Aninhado na praia dos escombros, observo o giro do astro
enquanto a sombra do rosto foragido repõe a questão: E se a
criança jamais existiu?
(Pensamento inabitável, Juliano Garcia Pessanha)
A clínica com crianças – mais do que com adultos – propõe
aos psicanalistas o desafio de ultrapassar os limites da fala, das
palavras muitas vezes ainda não formuladas, sequer imaginadas,
para se alcançar a voz, as marcas vivas da constituição do sujeito,
o traço de sua significação.
Desde os primórdios desta clínica, os psicanalistas apoiaramse no brincar e nos desenhos como vias de acesso ao inconsciente
infantil, utilizando-os na maioria dos casos como “locais” de
aplicação dos conceitos teóricos, de hipóteses imaginárias sobre
a infância; a interpretação de sentido antecipando-se à produção
propriamente dita, significando-a.
A máxima lacaniana – o inconsciente estruturado como uma
linguagem –, que tantas controvérsias gerou no meio psicanalítico
de sua época, trouxe um novo olhar sobre a direção do tratamento,
especialmente, sobre a interpretação – para Lacan, usada pela
maioria indiscriminadamente, de forma estereotipada, com ênfase
no significado e, consequentemente, imaginária, alienante.
11
EDITORIAL
É da escuta da cadeia de significantes que o analista deriva
sua interpretação, tomada aqui como enigma ou citação de
algo dito pelo próprio analisante que, por correlação, marca as
repetições, mantendo aberta a báscula do discurso, introduzindo
novas significações.
Mas não cabe apenas escutar o inconsciente, é preciso lê-lo.
Ler sua estrutura, sua escrita fonemática que tem no real da letra
(“litoral entre gozo e saber”, palavras de Lacan em Lituraterre),
o suporte material do significante, tomado não como significação,
mas como imagem.
A leitura é, portanto, a marcação do inominável, visando
levar o sujeito a gozar não mais com o seu corpo para um Outro
suposto e subjetivado, mas com a letra tornada escritura – metáfora
da construção de um saber particular sobre a subjetividade.
É como tal que as produções da criança (a fala, o desenho,
o brincar como ato) são tomadas na clínica lacaniana. É preciso
saber lê-las estruturalmente, possibilitando ao sujeito tecer os
liames de sua amarração subjetiva, construir uma teia simbólica
sobre a qual poderá vir a sustentar seu desejo.
E é justamente sob este viés estrutural que os artigos deste
volume, reedição revista e ampliada dos dois primeiros números da
Coleção Psicanálise da Criança, tratam da emergência do infantil
na clínica psicanalítica com crianças.
As primeiras edições de Coisa de Criança e Desenho: Por
que não? já lançavam importantes questões sobre o tema a partir
de variados recortes: das produções gráficas infantis à posição
feminina, passando por questões referentes à mulher analista – no
caso, Anna Freud e sua teoria sobre a infância.
Na presente edição, o leitor encontrará tanto os textos
incluídos naqueles títulos quanto novos ensaios, escritos
especialmente para este volume.
12
EDITORIAL
Os textos sobre o desenho ocupam boa parte do livro,
indicando, como já apontado anteriormente, seu lugar “escritural”
na clínica com crianças, sua importância para o diagnóstico e
condução clínica do tratamento – fato demonstrado, por exemplo,
por Sônia Magalhães em Desenhar, repetir/ atravessar e em O
desenho e sua interpretação: quem sabe ler?. No âmbito estrutural,
ela destaca a equivalência feita por Soler entre desenho-escrita/
fala-gozo e desenho-palavra/fala-significante, e atenta para o fato
de tanto nas produções gráficas quanto no caso do brincar, “o que
importa não é o desenho em si, mas a insistência com que retorna
e as mudanças que nele ocorrem”, cabendo ao analista a tarefa de
decifrá-lo, operando sobre letra do sintoma.
Dentro desta lógica, encontra-se o texto de Eliana Sampaio
de Cerqueira – Do que é significante e gozo no desenho – no qual
apresenta uma série de desenhos que, construídos sob transferência,
como campos de leitura, levantam “questões teóricas relativas ao
surgimento de um significante novo, sua função de criação de
significado e ao que é possível ser decifrado como característica
de certo gozo”.
Já em Das vicissitudes dos traços gráficos ou de como a
estrutura se faz letra, Octávia Martin, analisa, por meio de dois
casos de crianças, a produção gráfica pelo viés da estruturação
psíquica, buscando verificar se na conjunção primitivista dos
traços é possível ler “a passagem do infans ao sujeito”, tomá-los na
transferência como “efeitos de uma passagem à escritura daquele
que está sujeito ao ‘jogo da letra no Outro’”, desta forma, abrindo
a possibilidade de se erigir um sujeito barrado onde se fez letra,
ou seja, de se exercer um trabalho de intervenção precoce.
Sob determinados aspectos, é nesta mesma vertente que
encontra-se o texto de Sandra Dias, A perversão na infância: sobre
o diagnóstico. As produções gráficas de uma criança, realizadas
no encontro com a analista, confirmam a hipótese diagnóstica de
uma perversão, servem de coordenadas para se identificar o lugar
do sujeito na estrutura, os modos de articulação da fantasia com
o ato. No caso, “sua posição de gozo a partir de sua recusa ao
13
EDITORIAL
saber na transferência, da recusa da fala enquanto enunciação que
viria dividir o sujeito, recusa expressa em suas produções gráficas
que, estruturalmente, localizam o sujeito fixado numa relação com
um objeto”.
No caso do ensaio de Marie-Cristine Laznik, O patronímico
de uma criança como puro traço diferencial, podemos depreender
os ecos de sua larga experiência com a clínica do autismo. Neste
texto, a analista discute por meio da comparação de dois casos
de crianças de origem muçulmana e “exilados” de seus países –
Nadia, uma menina com sintomas de depressão e sono e Hallil,
um menino autista – os modos como o patronímico pode (ou
não) vir a funcionar como puro traço diferencial (por ser ou não
portador da metáfora fálica para suas mães), suas influências na
relação especular com o outro fraterno e, consequentemente, na
relação analítica.
A aridez do exílio está retratada também em O luto de
um bebê – nascimento e morte em circuito numa UTI neonatal.
Aqui, Maria Alice Ferreira Leal demonstra, por meio de um
surpreendente caso, o efeito devastador da não realização do luto
de um bebê recém-nascido por parte dos pais. Na experiência
desta clínica depara-se com o episódio de uma gestação como
passagem ao ato: uma jovem mãe dá a luz sem saber que estava
grávida, perdendo seu filho alguns dias depois e reeditando a perda
do anterior, do qual não chegou a realizar o luto. O vazio deixado
pela criança morta, extinguida, retirada do mundo sem direito à
lápide, nem inscrição, será preenchido tempos depois com um
novo ato (de gestação) que a relança, por seu trágico desfecho,
em direção à sua “falta-a-ser”.
A mesma autora comparece nesta edição com um outro
artigo, Ato e acting-out na análise com crianças, este mais antigo
e anteriormente publicado nesta Coleção, em que trata do manejo
da transferência na análise infantil, indagando-se sobre suas
particularidades (tendo em vista que o acting out é representação
dominante na análise de criança) e concluindo que ela deve ser
14
EDITORIAL
tomada “como significante na sequência de um jogo, equivalente
à cadeia associativa de um adulto”.
Angela Mendonça de Assis Baptista do Rio Teixeira aborda
o mesmo tema em Transferência e análise de crianças, porém,
sob um outro viés. Para pensar a particularidade da escuta nesta
clínica, remete-se ao texto “Análise de uma fobia em um menino
de cinco anos”, de Freud, especificamente, ao fato de as crianças
serem trazidas à análise sob a demanda de seus pais e de que para
elas os analistas, em geral, ocupam o lugar do sujeito suposto
adivinhar – fato que se pode “observar na própria análise de
Hans, quando este pergunta se o professor conversa com Deus”.
Seguindo a trilha crítica de Attal, a autora aponta o risco de se cair
numa dimensão imaginária quando os analistas permanecem nesta
posição, “de quem sabe de antemão”, destacando a importância de
levar à clínica com crianças a dimensão simbólica do tratamento,
já apontada por Lacan.
A autora, em texto mais recente, Para bom entendedor...
volta a tratar do lugar da infância, desta vez, especificamente
do imperativo ético da leitura do infantil, da sutileza de seu
deciframento no cenário analítico, que deve levar em conta o “duro
trabalho executado pelos pequenos falasseres nos instantes de ver,
compreender e concluir”.
O saber imaginário sobre a criança, sobre o qual ancoram-se
teorias psicanalíticas e comentado por Baptista é, aliás, o mote do
artigo de Martine Lerude, Verificação e observação ou a missão
de Anna Freud. Nele, a autora se propõe a fazer uma leitura
minuciosa das primeiras conferências de Anna Freud para capturar
“o lugar da teoria e da criança na sua elaboração” e refletir sobre
a constituição do saber sobre a criança transformado em teoria
pelas analistas mulheres, apontando que a passagem da teoria
freudiana para a pseudoteoria pedagogizante de Anna é o reflexo
de seu sintoma histérico: “por ser suportada pela criança, a teoria
que ela recebe do Pai (Freud é ao mesmo tempo o pai real e o pai
simbólico fundador) torna-se a sua própria, como se a criança
15
EDITORIAL
confirmasse ao mesmo tempo a cientificidade da teoria freudiana
e a legitimidade da sua filiação”.
Em outro texto, A adoção do ponto de vista da posição
materna, a autora trata das vicissitudes da adoção, chamando a
atenção para a maternidade como “processo subjetivo”, distante
da fisiologia, que “coloca, de maneira urgente, as questões acerca
do reconhecimento simbólico de cada um dos parceiros do casal”.
Nesta linha, encontra-se também Teorias implícitas e
depressão, seu ensaio mais recente. Nele, ela aborda a depressão
na adolescência como forma de recusa fálica e de evitação da
castração (como uma maneira de adiamento de sua entrada
no mundo), mas também um tempo necessário: um tempo de
compreender. É neste tempo em que “o adolescente é instigado
a inventar um novo laço amoroso e social que restitui ao desejo
toda a vetorização libidinal, privada pela banalidade sexual ... que
temos muito a aprender”.
E, de fato, diante do criançamento das palavras temos ainda
muito o que nos deixar aprender. Só assim a criança poderá advir.
Sobre a Organizadora
Psicóloga de formação psicanalítica, foi editora da revista
Insight (Lemos Editorial) de 1999 a 2002. Nos anos seguintes,
trabalhou como coordenadora de projetos sociais na TV Globo e
depois como editora de revistas e projetos especiais de psicologia
e psicanálise para a Duetto Editorial. Atualmente é coordenadora
editorial de literatura infantojuvenil em Edições SM.
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