Daniel Ferro admitiu que tem sido «novamente difícil» segurar os profissionais com a
abertura do Hospital de Loures, tal como aconteceu aquando da abertura da unidade de
Cascais. O administrador, ladeado na foto por Ana França, teme que o mesmo volte a ac
Daniel Ferro diz que unidade consegue resolver mais de 99% dos casos
HGO «está preparado para reforçar» o seu papel
Na reorganização do parque hospitalar na região de Lisboa, a administração do Hospital
Garcia de Orta diz que a unidade deve manter a actual diferenciação. Contudo, não nega
que o quadro de recursos humanos do hospital tem sido alvo de uma ofensiva das novas
unidades.
Quando se vive um momento de transição, com a possibilidade de encerramento de
algumas unidades, Daniel Ferro quer marcar a posição do Hospital Garcia de Orta
(HGO) no parque hospitalar da região de Lisboa e Vale do Tejo, pois, para o
administrador da unidade, o hospital «está preparado para servir e reforçar» o papel que
tem
desempenhado
desde
que
abriu
portas
há
20
anos.
Falando na conferência promovida pela Associação Portuguesa de Engenharia e Gestão
da Saúde (ApegSaúde) no passado dia 28 de Fevereiro, em Almada, Daniel Ferro
assegurou que «o papel do hospital pode ser melhorado» para que o HGO possa servir
de «tampão da zona Sul» no que respeita às transferências para as unidades da capital.
Afinal, assegurou o responsável, há muitas situações que actualmente são transferidas
para unidades na margem direita do Tejo que podem ser resolvidas nos serviços de
Almada. Os politraumatizados, cuja transferência é «dispensável» atendendo aos
recursos do hospital, são, para Daniel Ferro, apenas um exemplo: «O Hospital Garcia de
Orta tem plateau técnico e tecnológico para resolver 99,5% dos casos».
Mas essa diferenciação técnica pode funcionar em dois sentidos: pode ajudar a captar e
manter os profissionais da casa, mas também é a «grande ameaça» à estabilidade ao
corpo clínico, pois as novas unidades hospitalares da coroa de Lisboa procuram recrutar
os profissionais mais experientes e diferenciados. A abertura do novo Hospital de
Cascais foi disso exemplo e Daniel Ferro admitiu que tem sido «novamente difícil»
segurar os profissionais com a abertura do Hospital de Loures no passado mês de
Janeiro. Um cenário que o administrador antevê que volte a acontecer aquando da
abertura da nova unidade em Vila Franca de Xira.
CRI precisam de sair do papel
Para fazer frente à cada vez maior pressão assistencial de que a unidade é alvo e para
cativar e manter os profissionais mais diferenciados, a administração apostou na criação
de dois centros de responsabilidade integrada (CRI) e os «resultados têm sido muito
bons», assegura o administrador. No caso da Oftalmologia, que corria o risco de sair do
hospital, com um investimento de apenas mais 5% no orçamento a equipa conseguiu um
retorno
de
mais
25%
em
produtividade.
E para fazer face à dependência externa para a realização de exames radiológicos foi
igualmente criado um CRI nessa área com resultados igualmente positivos. «Os
colaboradores reagem muito bem a pequenos incentivos e a mais autonomia», sublinhou
o responsável, que reconheceu ter mais «serviços interessados neste modelo».
Contudo, o caminho não tem sido fácil e isso ficou patente nas palavras de António
Goulão, responsável pelo CRI que congrega a Radiologia e a Neurorradiologia, para
quem há uma «dissociação entre o que se escreve e o que se pode fazer» na prática. É
que embora assegure que a transformação em centro de responsabilidade foi
«extremamente positiva», o médico reconhece que não basta dizer que este existe, é
preciso
«efectivamente
fazer»
a
concretização
no
terreno.
António Goulão sublinhou que tem sido «extremamente difícil gerir» e conseguir
ultrapassar os problemas com que o CRI se depara, como a recuperação da lista de
espera, que neste momento chega aos 1750 doentes, sem que possa contratar
profissionais. E nos últimos tempos esta matéria tem sido particularmente difícil, já que
dos sete profissionais que estavam afectos ao CRI, três saíram para o Hospital de
Loures.
Atenção às necessidades da população
Presente esteve também Ana Jorge, anterior ministra da Saúde que voltou à casa onde
estava antes da passagem pelo Ministério. E quando se prepara a reforma dos hospitais
que pode encerrar algumas portas assistenciais, a médica, apesar de reconhecer que «há
respostas a mais», frisou a importância de «ter em atenção as necessidades da
população» antes da tomada de qualquer decisão. E recordou que há 20 anos, quando o
HGO abriu portas, logo seguido do Hospital Amadora-Sintra, a intenção foi
precisamente satisfazer as necessidades das populações da cintura da capital e levar os
cuidados
de
saúde
para
um
nível
de
mais
proximidade.
Um dos rostos da reforma dos hospitais também foi convidado pela organização, José
Mendes Ribeiro, actual quadro da Fundação Francisco Manuel dos Santos e
coordenador do Grupo de Trabalho para a Reforma dos Hospitais. O especialista
sugeriu à administração do HGO que, no âmbito da reestruturação que se avizinha,
procure comparar-se com outros hospitais no sentido de procurar «oportunidades de
melhoria» em matérias como a demora média, a cirurgia de ambulatório, a integração
com os outros níveis de cuidados, primários e continuados, e na utilização da
tecnologia.
Rita Vassal
… CAIXA …
Recursos humanos serão desafio para o sector da Saúde
José Mendes Ribeiro deu nota no encontro daquele que será um dos mais importantes
«desafios» para o sector da Saúde: os recursos humanos. É que, segundo lembrou o
especialista, neste momento existem «64 mil pessoas a estudar» em cursos relacionados
com a Saúde, seja em Medicina, Enfermagem ou Farmácia, seja em áreas técnicas de
várias tipologias de diagnósticos.
Para José Mendes Ribeiro, já vai sendo tempo de esta matéria ser alvo da atenção das
entidades competentes, até porque, sublinha, «não vejo que o País vá ter capacidade de
absorção destas pessoas», não só no sector público, mas também no sector privado e
social. Além do mais, a reestruturação das unidades hospitalares que está em curso
levará também, nalguns casos, à redução de recursos humanos.
O responsável considera então imperioso dar um «enquadramento futuro a estes
jovens» e fazer saltar para a opinião pública a discussão de matérias tão importantes
neste tema como a «exclusividade no SNS», debate que tem sido «sucessivamente
adiado».
TEMPO MEDICINA 1.º CADERNO de 2012.03.051214711C6112RV09A
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