CBS
Ciências Biológicas e da Saúde
Residência e área de vida da população
de toninhas, Pontoporia blainvillei,
na Baía da Babitonga
Renan Lopes Paitach
Camila Meireles Sartori
Marta Jussara Cremer
Resumo: A toninha, um pequeno cetáceo endêmico do Atlântico
sul ocidental, está ameaçada de extinção. Conhecer os padrões
de ocupação de uma espécie no ambiente é determinante para a
elaboração de estratégias de conservação. O objetivo deste estudo foi
estimar o nível de residência e a área de vida das toninhas na Baía da
Babitonga. A coleta de dados ocorreu entre fevereiro de 2011 e agosto
de 2012. A técnica utilizada foi a fotoidentificação. Calculou-se o nível de
residência da seguinte maneira: meses de avistagem de cada indivíduo
/ total de meses de esforço * 100. Estimaram-se as áreas de vida
pelos métodos mínimo polígono convexo (MPC) e densidade Kernel
50% e 95%. Foram fotoidentificadas e acompanhadas 21 toninhas. O
nível de residência variou entre 6,7% e 93,3%, e 38,1% dos indivíduos
apresentaram nível de residência superior a 50%. A área de vida da
população foi estimada em 17,17 km² pelo MPC e em 4,10 km² pelo
Kernel 95%, com uma área nuclear estimada pelo Kernel 50% em 0,79
km². Os resultados indicam que a população apresenta alto nível de
residência e área de vida restrita. São necessárias medidas de gestão
das atividades de pesca e tráfego de embarcações no local, visando
à conservação da espécie.
Palavras-chave: Pontoporia blainvillei; Baía da Babitonga; residência;
área de vida.
Acadêmico do curso de Ciências Biológicas da Univille, voluntário de iniciação científica.
Aluna do�������������������������������������������������������������
Mestrado em Saúde e Meio Ambiente da Univille, colaboradora.
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rofessora do departamento de Ciências Biológicas da Univille, orientadora.
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Introdução
A toninha – Pontoporia blainvillei –, um pequeno cetáceo endêmico do Oceano Atlântico
sul ocidental, está ameaçada de extinção. Sua coloração críptica, tamanho reduzido e
comportamento discreto dificultam seu avistamento em ambiente natural (CREMER;
SIMÕES-LOPES, 2008). A maior parte do que se conhece sobre a toninha vem de indivíduos
encalhados em praias ou capturados acidentalmente em redes de pesca, que é a principal
causa de mortalidade da espécie (CRESPO, 2002).
A Baía da Babitonga representa uma oportunidade especial para estudar toninhas na
natureza, sendo o único ambiente de águas protegidas em que a espécie se mantém ao
longo do ano. A presença de áreas de concentração e a ausência de registros na entrada da
baía sugerem que as toninhas sejam residentes desse estuário (CREMER; SIMÕES-LOPES,
2008). A residência pode ser interpretada como o tempo despendido pelos indivíduos de
uma população em determinada área geográfica (WELLS; SCOTT, 1990). Considera-se
área de vida aquela utilizada para realização das atividades diárias (BURT, 1943). A área
de vida de um animal não é usada de forma homogênea, apresentando locais de maior
intensidade de uso, conhecidos como áreas nucleares (LAVER, 2005).
Algumas atividades humanas constituem ameaças diretas ou indiretas às populações de
cetáceos que habitam na Baía da Babitonga (CREMER, 2007). O objetivo deste trabalho foi
estimar o nível de residência e a área de vida das toninhas em tal estuário. O monitoramento
mostra-se fundamental para subsidiar o ordenamento das atividades humanas no local, de
maneira a promover a conservação da espécie.
Metodologia
A Baía da Babitonga, localizada no litoral norte de Santa Catarina, sul do Brasil (26º02’26º28’S e 48º28’-48º50’W), com uma área de aproximadamente 160 km2, possui em seu
interior 58 ilhas, lajes e planícies que ficam expostas em função da maré. As embarcações
de pesca, turismo e transporte de cargas e passageiros utilizam intensamente a área de
estudo (CREMER, 2007).
A coleta de dados foi ocasional entre fevereiro e maio de 2011 e semanal de setembro
de 2011 a agosto de 2012. As buscas aconteceram nas áreas de maior concentração de
toninhas, de acordo com Cremer e Simões-Lopes (2008). Recorreu-se a uma embarcação
de alumínio, com 5,5 metros e motor de popa de 60Hp, e a uma embarcação inflável,
com 6,2 metros e motor de popa de 200Hp, ambas equipadas com GPS. Não foram feitas
saídas em condições de mar acima de 1 na escala Beaufort. A técnica empregada foi a
fotoidentificação, que permite o reconhecimento individual dos membros de uma população
por meio de marcas naturais (WÜRSIG; JEFFERSON, 1990). Obtiveram-se as fotos com
uma Canon EOS 7D, de 19 megapixels e lente de 100-400 mm.
Calculou-se o nível de residência como: meses de avistagem de cada indivíduo / total de
meses de esforço * 100. Estimaram-se as áreas de vida mediante os métodos do mínimo
polígono convexo (MPC) e da densidade Kernel (50% e 95%) (POWELL, 2000). Considerase o MPC o método mais simples para estimação de áreas, em que as coordenadas
geográficas mais extremas são reunidas formando um polígono (POWELL, 2000). O
estimador de densidade Kernel, por outro lado, leva em consideração a heterogeneidade da
amostra (Kernel 95%), destacando as áreas nucleares (Kernel 50%) (LAVER, 2005). Apenas
os indivíduos com no mínimo dez posições geográficas registradas tiveram a área de vida
estimada. Para a área de vida da população, consideraram-se todos os pontos geográficos
de todos os indivíduos fotoidentificados. As áreas foram estimadas com a extensão Animal
Movement Analyst, no programa ArcView 9.3.
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Resultados e discussão
Foram realizadas 97 saídas a campo, distribuídas em 15 meses de coleta, totalizando
98 horas e 57 minutos de observação direta de toninhas. Foram fotoidentificadas e
acompanhadas neste estudo 21 toninhas. O nível de residência variou entre 6,7% e 93,3%,
e 38,1% das toninhas apresentaram nível de residência superior a 50%. O indivíduo PbB-03
foi o que apresentou maior número de registros, totalizando 14 meses de captura. Apenas
os indivíduos PbB-17, PbB-18, PbB-19 e PbB-21 não foram recapturados. Assim, 80,9% dos
indivíduos tiveram recapturas (tabela 1).
Tabela 1 – Níveis de residência e área de vida das toninhas identificadas na Baía da Babitonga
pela técnica de fotoidentificação – período de fevereiro de 2011 a agosto de 2012
Fonte: primária
As toninhas da Baía da Babitonga apresentaram elevados níveis de residência, indicando
que a população é residente no estuário, como já havia sido sugerido (CREMER; SIMÕESLOPES, 2008). Ao longo de sua distribuição, o entorno de estuários e as desembocaduras
de rios caracterizam-se como importantes áreas de uso para a espécie, graças à grande
abundância de alimento (CRESPO, 2002). Na Baía Anegada, Bordino, Wells e Stamper
(2008) verificaram que a espécie possui variações sazonais na residência, possivelmente
associadas com a presença de predadores. Assim, a ausência de predadores naturais da
toninha na Babitonga, além da grande abundância de recursos, pode contribuir para que
a espécie seja residente no estuário (CREMER, 2007).
A área de vida foi estimada para oito toninhas. Considerando o MPC, as áreas variaram
entre 1,08 e 8,49 km²; pelo Kernel 95% a variação ficou entre 3,67 e 14,12 km². As áreas
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nucleares, representadas pelo Kernel 50%, variaram de 0,68 a 1,67 km² (tabela 1). A área
de vida da população foi estimada em 17,17 km² pelo MPC e 4,10 km² pelo Kernel 95%,
com uma área nuclear estimada pelo Kernel 50% em 0,79 km² (figura 1).
Figura 1 – Mapa da Baía da Babitonga contendo a área de vida da população de toninhas estimada
pelo MPC e pela densidade Kernel 50% e 95%
Fonte: primária
Outros estudos já apontaram a importância da mesma área para a população de
toninhas da Baía da Babitonga (CREMER; SIMÕES-LOPES, 2008; CREMER, 2007). Entre
os anos de 2004 e 2006 Cremer (2007) estimou, por meio do MPC, a área de vida dessa
população em 26 km². Embora não se deva descartar a possibilidade de ter ocorrido uma
diminuição da área de vida das toninhas, acredita-se que a área estimada no presente estudo
esteja subestimada, pois os esforços foram concentrados nas principais áreas de uso da
população. Por outro lado, foi possível confirmar que as toninhas continuam ocupando a
mesma área, sendo identificada a área nuclear dentro da área de vida.
A preferência dos animais por determinadas regiões dentro de sua área de vida é
uma tendência vista em diversas populações costeiras de cetáceos (e.g. DAURA-JORGE,
2007). Características oceanográficas do ambiente determinam a distribuição de presas e
indiretamente de golfinhos (WELLS; IRVINE; SCOTT, 1980; DAURA-JORGE, 2007). Porém
observou-se que as toninhas evitam áreas antrofizadas, mesmo quando apresentam grande
abundância de recursos (CREMER, 2007).
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Conclusão
Em virtude dos padrões de residência encontrados, a população de toninhas foi
considerada residente na área de estudo, confirmando o que havia sido sugerido pela
literatura. A área de vida da população concentrou-se na região central da baía, como já
indicado em outros estudos, confirmando que as toninhas têm se mantido na mesma área.
É necessário ampliar os esforços para obter uma amostragem mais homogênea da baía,
pois se acredita que as áreas estimadas estejam subestimadas.
A área utilizada pelas toninhas na baía possui intenso tráfego de embarcações, além de
servir para a pesca com rede de emalhe. Nesse sentido, é preciso adotar medidas urgentes
para reduzir as ameaças a tal população.
Este estudo está inserido no Projeto Toninhas/Univille, que recebe o patrocínio da
Petrobras por intermédio do Programa Petrobras Ambiental.
Referências
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