PALESTRA – ADOLESCENTES E PRISÕES NA REALIDADE
BRASILEIRA
HISTÓRIAS NA MEDIDA – para um novo olhar da sociedade sobre os
jovens que cumprem medida socioeducativa
Carmen Silvia Carvalho[1]
RESUMO
A autora conta histórias vividas e ouvidas por/sobre os jovens internos da
Fundação Casa que evidenciam sua sensibilidade, inteligência, alegrias,
esperanças, dores e desilusões na busca de aproximá-los do leitor ao mostrar
seu lado humano. Espera que, ao narrar essas histórias, as pessoas possam
percebê-los como pessoas de direitos, fruto da desigualdade social e com
potencial para transformar sua vida caso deixem de encontrar na sociedade a
rejeição e as portas fechadas.
[2]Em 2012 vi um vídeo no You Tube de uma escritora nigeriana chamada
Chimamanda Achie, sobre os “Perigos de uma história única”. Nele, ela nos
alerta que ao mostrarmos um povo ou um grupo como uma coisa, como
somente uma coisa, repetidamente, as pessoas passarão a vê-lo apenas daquela
forma e aquela história passará a ser sua história definitiva.
A história única cria estereótipos e o problema com os estereótipos não é que
sejam mentirosos, mas que são incompletos. Ao superficializar a experiência e
o conhecimento, produzem afastamento e roubam das pessoas sua dignidade.
Fazem o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada difícil.
Enfatizam como somos diferentes ao invés de como somos semelhantes.
E não é possível falar sobre uma história única sem falar sobre poder. Quem
conta a história, como a conta e quantas vezes a repete, tudo isso tem a ver
com o poder. Poder não é só a habilidade de contar a história de outra pessoa,
mas de fazê-la a história definitiva.
É exatamente isso que a mídia faz com os jovens da Fundação. Ela conta
apenas diferentes versões da mesma história, a do ato infracional, e a repete
tanto, que a torna a história definitiva deles. Ao fazer isso coisifica-os,
transforma-os em “bandidos”, que devem ser temidos e afastados do convívio
da sociedade. E rouba-lhes qualquer chance de mudança de vida. As leis que
garantem a igualdade de direitos não tem, então, validade, porque as pessoas
não conseguem fazer o reconhecimento de sua humanidade compartilhada e
fecham as portas para eles. A escola não os quer, ninguém oferece emprego,
as pessoas atravessam a rua quando se aproximam.
Por isso hoje não vou falar de números. Meu desejo é trazer para vocês as
outras histórias dos jovens da Fundação, aquelas que a mídia não conta e que
nos permitem perceber o que há de comum entre eles e qualquer jovem,
aquelas que nos ajudam a ver quanto há de responsabilidade da sociedade em
cada uma delas e estabelecer com eles a conexão humana. São histórias que
ampliaram meu olhar, que me ajudaram a romper a história única que a mídia
havia construído em meu imaginário, e que quero partilhar aqui com vocês.
Assim que entrei na Fundação como Gerente de Arte e Cultura fiquei sabendo
dessa história que acontecia naquele momento. Era final de novembro,
contaram-me sobre um jovem que recebeu a comunicação de que havia sido
desinternado e pediu para falar com o juiz. Quando chegou na frente do
magistrado disse: “Senhor, daqui a 10 dias são os exames de final de ano e,
pela primeira vez na vida eu estou aprendendo. Eu sei que vou conseguir
passar de ano, porque eu sei a matéria. Se o senhor me desinternar eu perco os
exames e vou repetir como sempre. O senhor pode me deixar mais 10 dias
internado e me soltar só depois que os exames acabarem, por favor!”
Eu venho da educação e essa história me tocou porque comprova que não
existe quem não queira aprender. Em meus 24 anos de clínica nunca encontrei
ninguém que não quisesse. Havia os que desistiam, os que fingiam não querer,
mas todos, quando conseguiam, evidenciavam que sempre desejaram
aprender. E não foi só ele. No Guarujá havia um jovem que era exímio ladrão
de carros. Tanto fez que acabou detido e veio parar na Fundação. Como era
um rapaz muito inteligente, organizou uma fuga para os colegas, mas na hora
H ele não fugiu com os outros. Quando foram perguntar ele disse: “É que eu
estou indo bem na escola, se fugisse não ia conseguir estudar, então preferi
ficar aqui mesmo.”
Em outro dia fui visitar um Centro. Andando pelo pátio chamou minha
atenção o nome Beatriz tatuado no braço de um dos jovens. Sorri para ele, fiz
um olhar meio maroto e perguntei: Quem é a Beatriz? Ele parou, me olhou, os
olhos brilharam e ele disse: “Minha irmãzinha de 3 anos” e continuou seu
caminho. Acho que nunca vou esquecer aqueles olhos brilhando e sorrindo...
Certo dia fui visitar um Centro de jovens com múltiplas passagens pela
Fundação. São geralmente os Centros com adolescentes mais estruturados e
mais velhos. Também os que tem os internos mais temidos. Quando cheguei
lá fiquei sabendo que havia um jovem que era o escritor do Centro, e pedi que
me levassem até ele. Imaginem um rapaz alto, de 1.85, magro e muito tímido,
que nem me olhava de frente. Puxei uma conversa sobre escrever, escritores,
contei que também era escritora etc e tal e perguntei se ele me mostraria algo
que havia escrito. Dias depois recebi uma carta com um texto muito bem
escrito por ele. Fiquei encantada e respondi o quanto havia ficado
impressionada com a profundidade da reflexão que ele fazia naquele texto.
Que nunca havia imaginado alguém tão jovem discutindo a questão do livre
arbítrio como ele discutia e do dom para escrever que ele tinha e que poderia
usar de formas muito importantes. Sua resposta foi nova surpresa. A carta
começava com a palavra SAUDADES em letras garrafais e dizia do quanto
minha carta havia chegado no momento certo, quando ele já estava desistindo
de tudo...e me pedia que mandasse uma carta desejando feliz aniversário para
ele junto com uma fotografia, porque ele também queria ter uma, “como todo
mundo”! Ele estava completando 18 anos. Fui conhecer sua história de vida e
entendi. Ele não tinha absolutamente ninguém esperando por ele quando
saísse dali.
No dia em que foi desinternado me ligou e com a voz mais feliz contava como
estava e perguntava: será que vou conseguir uma namorada???
Um dia fui acompanhar o trabalho feito pelo Palas Athena sobre o Gandhi em
um dos Centros de internação provisória. Para conhecê-los e estabelecer o
contato, o João pediu que cada um falasse o nome e algo que gostava muito de
fazer. É claro que jogar bola foi a atividade campeã, seguida de skate,
namorar, fumar e outras mais. Um dos meninos, um garotinho minúsculo,
irrequieto na cadeira levantava o braço e falava: o que eu mais gosto é de
fazer lição de casa; eu adoro! Acreditem. Vocês não imaginam a raiva que eu
senti do juiz que mandou aquela criança para a Fundação. Nada do que ele
possa ter feito justificava para mim aquela criança naquele lugar.
Algumas histórias são mais tristes, mas é importante vocês conhecerem,
porque elas nos desequilibram e fazem pensar. Foi uma psicóloga que atendia
os jovens que viveu e me contou. Ela disse que estava em casa quando um
jovem que havia atendido no Centro e que havia sido desinternado ligou. Ele
estava muito mal e pedia ajuda. Dizia que a mãe havia posto um revólver em
sua mão e dito que ele só voltasse para casa com comida. Não havia mais nada
para comer, mas ele não queria fazer isso, ele não queria roubar de novo, mas
não sabia o que fazer, que ela o ajudasse, por favor. Ela pediu que ele se
livrasse correndo do revólver e os dois se encontraram em uma estação do
Metrô. Enquanto ia para lá foi ligando para todos que conhecia pedindo um
emprego para ele, até que conseguiu. Essa história é igual à de muitos jovens.
É preciso sempre muito cuidado antes de julgá-los...
Há histórias que me deixam pensando muito o quanto a realidade é um
prisma, pode ser olhada de muitos ângulos diferentes... Esta foi uma agente
educacional que viveu e me contou. Disse que conversava com um jovem e
falava do mal que havia feito ao roubar a casa que havia roubado, que não se
deve fazer isso e todas as coisas moralistas que os funcionários costumam
dizer para eles, quando o jovem respondeu: Senhora, a senhora diz isso porque
não conhece a casa que eu entrei. Ela era enoooorme, tinha uns 10 quartos, na
garagem tinha não sei quantos carros, era muuuuiiiito rica. Na minha casa não
tinha nada. O que eu peguei foi só um pouquinho, não vai fazer falta para eles,
mas na minha casa fez toda a diferença... eu até agora escuto suas palavras e
me pergunto o que é justo e o que é justiça.
Há uma história muito trágica, mas que eu acho importante contar para vocês,
porque ela deixa muito claro o quanto é difícil saber, quando olhamos além da
superfície, quem é vítima e quem é ofensor. É a história de um jovem que
estava internado por haver abusado de uma menina de 5 anos de idade. Eu
imagino que todos vocês estejam com o estomago embrulhado, assim como eu
fiquei quando ouvi isso. Esse jovem era muito calado e educado, sempre
fechado em si mesmo. Aos poucos foi abrindo espaço com sua psicóloga e
começou a falar do quanto tinha culpa pelo que havia feito, que tinha dó da
menina, que achava que ela nunca iria se recuperar do que aconteceu e que ele
queria fazer alguma coisa por ela, mas que ela nunca o perdoaria. Na tentativa
de ajudá-lo a se aliviar de tanta dor a psicóloga sugeriu que ele escrevesse
cartas para a menina, dizendo o que gostaria de dizer para ela. Ele escreveu
muitas cartas com pedidos de perdão, com sugestões de coisas que gostaria de
fazer para aliviá-la da dor, como levá-la para passear e comprar bonecas. Sua
mãe, quando vinha visita-lo dizia que a mãe da menina, que morava no
mesmo bairro, já havia perdoado a ele e que ela os ajudava, que era uma
mulher maravilhosa.
Um dia ele caiu em prantos e contou sua história, que ninguém conhecia.
Disse que desde pequeno sua mãe saía para trabalhar e o deixava com essa
vizinha, mãe da menina de 5 anos e que essa mulher abusava dele todos os
dias. Um dia ele ficou sozinho com a menina e enlouqueceu, quis se vingar
daquela mulher e fez o que fez. Como contar para a mãe o que tinha
acontecido, se ela achava a vizinha tão maravilhosa? Ele tinha a sensação de
que nunca iria se perdoar pelo que havia feito.
E há também histórias que revelam a solidariedade e a capacidade que eles
tem de construir vínculos. Escutem só essa. Essa mesma psicóloga me contou
de um jovem, já mais velho e ‘estruturado” que foi desinternado e ia se casar.
Ele subiu no poste, fez uma ligação de telefone para ela convidando-a para ir
ao casamento dele. Como ela não sabia chegar, disse que ele mesmo iria
buscá-la no Metrô. Acreditam? Ela era tão importante que ele sairia na hora de
se casar para garantir que ela pudesse estar lá!
Há outras que não vivi, e que os próprios jovens me contaram. Eu explico.
Quando eu estava como Gerente de Arte e Cultura, impactada pelo vídeo da
Chimamanda, resolvi tomar uma atitude.
Pedi a todos os Centros que passassem o vídeo para os jovens, conversassem
com eles sobre o conteúdo e lessem uma carta que eu havia escrito contando
que queria fazer um grande evento para contar suas outras histórias. Nela eu
pedia que quem quisesse me escrevesse uma carta com a história que gostaria
que eu contasse para a sociedade. Em 10 dias recebi aproximadamente 1.000
cartas. Ainda não as li todas, mas trouxe alguns fragmentos para que vocês,
representando a sociedade, as conheçam. Aqui vão elas!
Em quase todas as histórias os jovens relatam sua vida desde a infância. Há
relatos de infância feliz e cuidada e outros de enfrentamento de dificuldades
desde muito pequenos.
No entanto, por volta dos 11 a 13 anos todas as histórias se encontram:
deixam de obedecer e ouvir os pais, envolvem-se com amigos “errados” que
os apresentam às drogas e dela ao tráfico e roubo, saem da escola e muitas
vezes de casa também, por escolha ou porque os pais os colocam para fora.
Penso muito nas políticas públicas para essa faixa etária, dos 10 aos 14 anos.
A maior parte delas está voltada para a infância e outra parte para a juventude,
ou seja, esta faixa etária, a mais vulnerável de todas, parece não estar sendo
tão observada e cuidada quanto precisaria.
O grupo que se referiu a uma infância feliz trouxe coisas simples dessa
felicidade como ir à igreja, ajudar os outros, obedecer aos pais, ir à escola, os
pais gostarem deles, os professores serem amorosos. Referem-se a terem uma
“vida normal”,
“Quando eu era criança eu tinha muitos planos, eu lia muitos livros
ilustrados, eu gostava de admirar as figuras. Me lembro uma vez, minha mãe
tinha uma mobilete (uma bicicleta antiga) e andávamos nós 5 em cima dela,
ela, minha irmã na garupa, meu irmão no guidão e o outro irmão no tanque,
minha mãe dirigindo, quando parávamos no semáforo todos riam de nós...”
“Os momentos bons da minha vida foi quando eu vim ao mundo para dar
alegria a minha coroa...”
“O momento que me marcou bastante e me fez feliz foi aos 4 anos de idade
quando eu ganhei uma bicicleta, aos 10 anos estava aprendendo a dirigir, aos
15 anos já tinha meu primeiro emprego de carteira registrada...foi
uma oportunidade boa que aconteceu em minha vida, a minha maior alegria
quando eu estava conhecendo pessoas novas, amizades boas e também foi o
primeiro salário trabalhando.”
“O dia mais feliz da minha vida foi o dia que a minha mãe adotou 3 pessoas,
mas não foi qualquer pessoa, foi duas primas e um primo...”
...quando tinha 7 anos de idade, essa lembrança foi de quando minha irmã
mais nova Dayane, nasceu, ela era tão pequena e fofinha.”
“Adorava quando minha mãe me chamava na rua, quando estava brincando
ou jogando bola...
A comida está pronta!
Logo eu corria pra casa. Os domingos que mais gostava era quando ia para a
casa do meu pai, ele me levava no campinho para soltar pipas.”
“Vim de uma família muito rica de amor, carinho e atenção...”
“Tive uma infância feliz. Lá onde eu morava não passava muitos carros, pois
a rua era de barro e eu gostava de morar lá. Tinha meus amigos, mas amigos
de verdade, não amigos que vou relatar para você mais para a frente.”
“Elas (as irmãs) tomaram banho, almoçaram, e ficamos conversando,
falamos de quando a gente ficava brincando de pega-pega em casa e a minha
mãe ficava correndo atrás de nós, era muito bom...”
“Eu já fiz muitas coisas legais e sempre gostei de ir para o sítio e andar a
cavalo e desde pequeno eu gostava de ir ao sítio. Gosto de tocar boi, andar a
cavalo, tirar leite, plantar verdura, sempre gosto de animais, mas com
o passar do tempo...”
Os relatos de uma vida difícil foram mais frequentes e muitas vezes os
momentos felizes foram entremeados de situações difíceis de vida, pais
usuários de drogas ou que bebiam, pais presos, separações que geram
afastamentos definitivos, sentimentos de abandono, violência doméstica, falta
de dinheiro, perdas. Enfim, situações de vida marcantes que desde muito cedo
eles tiveram que aprender a lidar e que, via de regra, estavam relacionados à
guinada da vida, à revolta, à aproximação das drogas e de amigos
indesejáveis.
“Quando eu fiz 8 anos de idade infelizmente tive a perda do meu pai, minha
mãe estava separada dele. Eu só fiquei sabendo que ele morreu 3 dias depois
do seu enterro e até hoje nem eu nem minha mãe sabe por que ele faleceu.
Depois que ele faleceu eu fiquei um pouco revoltado com a vida, não ia bem
na escola...”
“A minha vida sempre foi muito ótima, mas ao passar de um tempo começou
a acontecer muitas coisas até que um dia meu tio foi preso, aí depois foi o
outro, aí passou um tempo foi o outro e com mais um tempo foi minha tia,
meu pai e meu tio. Agora minha família está no sofrimento lá fora e a gente
que estamos presos também estamos no sofrimento e agora veio meu irmão
preso, mas logo eu saio se deus quiser.”
Relata que não conhecia o pai, até que um dia ele apareceu. “Mas eu estava
muito, muitooooooooo “feliz”. Chegamos em casa e minha mãe estava lá
cozinhando, e estava feliz, logo meu pai saiu para a rua, depois ele voltou
meio “estranho” e batia muito em minha mãe...nós fomos para o quarto
chorando e ouvíamos minha mãe gritar muito. Depois desse dia não vi mais
meu pai...”
Título do texto – um batalhador.
Jhony conta uma infância de muita dificuldade, mãe presa, avó com quem
ficou era boia fria e não podia cuidar dele, acabou indo para um abrigo aos
11 anos. “Eu fui aprendendo com a vida a batalhar por coisas que eu
pensava que iam me trazer um certo benefício e com isso comecei a me
envolver com as drogas” e a traficar.
” eu tinha uma vida boa, mas em uma parte não estava porque meu pai se
arriscava para sustentar eu porque ele fazia uma coisa errada, ele saia de
casa, deixava eu e minha mãe em casa para roubar e com o tempo ele foi
preso.”
“...o garoto falou: vamos por debaixo da ponte e eu e meu irmão fomos só
que debaixo da ponte era a pista bandeirantes. Nós fomos atravessar meu
irmão saiu correndo, eu tentei segurar, mas meu irmão foi atropelado e
morto. Minha mãe, muito abalada, mudou-se para outro bairro de Pirituba,
aonde eu comecei a fazer coisas erradas como usar drogas, roubar e vender
entorpecentes. Isso durante 1 ano...”
É marcante o número de jovens que tem filhos. Das 36 primeiras cartas que li,
cinco contam sobre a existência de filhos. Esses filhos assumem valores
importantes: são consciência de que eles, como pais, são importantes para
alguém; são a marca de que são capazes de fazer coisas positivas, de que
podem e precisam ser um exemplo. Enfim, são sinais de esperança de um
caminho diferente.
Quando saí fui trabalhar no magazine Luiza e “minha vida foi mudando para
melhor só tinha motivo para fazer minha família feliz e a minha namorada, a
pessoa que mais amo e ela e minha família que me deu força para sair dessa
vida.”
...” E já fiz a minha escolha porque tenho família para cuidar principalmente
meu filho que é tudo pra mim e a minha esposa que foi o motivo da minha
escolha.”
...” Com muita dor eu conto um pedacinho da minha história, que eu errei e
tô pagando um preço muito alto pra um adolescente que tá prestes a ser pai,
que é ficar longe do seu filho, eu não desejo isso pra ninguém.”
“...eu tinha que pensar mais por eu ter uma filha para nascer. Fiquei
pensando até que um belo dia minha filha nasceu, eu me emocionei ao vê-la e
ali eu vi que eu tinha que procurar uma melhora de vida por eu querer vê-la
crescendo e dar a ela um exemplo de um pai exemplar...”
Sua maior alegria foi quando conheceu a Eduarda, sua namorada de 15 anos
“que é tudo na minha vida”, mas “a maior alegria mesmo foi quando fiquei
sabendo que vou ser pai, essa sim foi a minha maior felicidade desde quando
me conheço como gente.”
“Então um dia ela me demonstrou amor, ela me pediu para não roubar mais
e nem usar drogas e eu percebi que ela se preocupava comigo realmente.
Então a beijei, eu já tinha beijado muitas garotas, mas aquele beijo foi com
amor, eu senti uma felicidade que droga, nem dinheiro nenhum me daria...”
“A Sara me ensinou a amar me ensinou a viver, me ensinou a lembrar, me
ensinou a sofrer, essa garota me trouxe a felicidade, mas me deixou a
saudade, às vezes quando estou dentro da cela eu fico lembrando, uma parte
de mim fica triste, mas a outra fica feliz, porque eu vivi esse romance.”
Para terminar quero ler para vocês só mais uma história. Acho que ela traz
com muita clareza a síntese das histórias e do sentimento deles.
Mesmo quando tinha 12 anos de idade já acreditava que seria alguém na
vida, então como toda pessoa bem na vida consegue as coisas de maneira
independente, eu também queria ser independente, até porque não poderia
exigir muito de meus pais, aliás, eles tinham se separado. Tentei por 2 anos
arrumar emprego, mas infelizmente a mesma sociedade que hoje me julga, foi
quem fechou as portas para mim das oportunidades de emprego. Me vendo
naquela situação, sem dinheiro e observando a necessidade de minha mãe
que foi minha responsável enquanto meu pai estava construindo uma outra
história com uma outra família, fui tentar da maneira mais fácil alcançar
minha meta. Fui independente por 3 anos até ser pego e levado para a
Fundação Casa,”
Quem sabe essas histórias tenham ajudado vocês a enxergá-los. A tirá-los de
sua invisibilidade como pessoas, filhos, cidadãos. Possam torná-los sujeitos de
direitos e os aproximem de cada um de nós.
Chama a atenção a naturalidade com que relataram suas vidas, os erros que
cometeram e suas emoções. Jovens com clara dificuldade de escrita
escreveram textos de três ou quatro páginas, passando por cima dos erros de
grafia, de pontuação, da letra trôpega, revelando um desejo muito grande de
dizer, de ser escutado. De sair da invisibilidade, que é sair da ausência de
valor, da insignificância, para conquistar um sentimento de pertencimento e de
reciprocidade.
Não é à toa que os jovens que estão na Fundação sejam em sua maioria
oriundos das camadas menos favorecidas da população, que sejam negros ou
pardos e com baixa escolaridade. Eles são o produto da desigualdade social
desse país. Mas reduzi-los a isso é negar sua capacidade de reescrever sua
história. É negar a eles o desejo e a possibilidade de se tornarem visíveis, de
serem protagonistas e atuarem apenas como jovens, como cidadãos e como
humanos.
_
[1] Carmen Silvia Carvalho – Assessora da presidência da Fundação Casa.
Mestre em Psicologia da Aprendizagem e do Desenvolvimento Humano pela
USP e MBA em Gestão e Empreendedorismo Social pela FIA.
[2] A autora optou pelo texto em primeira pessoa como foi proferido para
manter o tom de narrativa pessoal do discurso oral.
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