DESENHOS SOBRE EFEITO ESTUFA: O QUE ELES NOS DIZEM?
Cláudia Nicolau Fernandes1/EACH-USP
[email protected]
Valéria Cazetta2/[email protected]
EACH-USP
DELINEANDO O PROBLEMA DE PESQUISA
Neste texto abordamos os resultados finais do Trabalho de Conclusão de Curso
(TCC), que versa sobre as concepções que os alunos e alunas de ciências do ensino
fundamental (4º ciclo – 7ª série)3 possuem acerca do efeito estufa. Partimos do
pressuposto de que a concepção que temos acerca deste tema contemporâneo e
interdisciplinar é multifacetada, oriunda dos mass media, da educação formal e nãoformal. Então, perguntamos: como as informações em imagens (ALMEIDA, 1999),
sobre o efeito estufa têm colonizado o imaginário dos nossos alunos e alunas? De que
maneira “mapear” este imaginário que não única e exclusivamente pela palavra escrita?
Desenhando!!
Não encontramos pesquisas sobre análise de concepções de efeito estufa por
meio de desenhos. Praticamente os trabalhos existentes que estão próximos a esse tema
sugerem questões técnicas. Assim, buscamos compreender as concepções vinculadas
aos conhecimentos que os escolares possuem acerca desta temática, com o intuito de
“mapeá-las”.
Para tanto, fomos buscar inspiração principalmente nas pesquisas dos geógrafos
Jörn Seemann (2003) e Wencesláo Machado de Oliveira Júnior (1994, 1999, 2006), os
quais têm se utilizado do desenho em suas pesquisas como linguagem que traz outros
1
Graduanda em Licenciatura em Ciências da Natureza – Escola de Artes, Ciências e Humanidades da
Universidade de São Paulo (EACH-USP).
2
Docente - graduação em Licenciatura em Ciências da Natureza – Escola de Artes, Ciências e
Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP).
“dizeres” acerca, por exemplo, do meio-ambiente, do espaço próximo ou distante. Além
disso, lançamos mão também dos escritos do poeta paulistano Mário de Andrade
(1984).
Oliveira Júnior tem se debruçado em suas pesquisas sobre as concepções que
estudantes da educação básica e do ensino superior possuem acerca de metrópoles,
como, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Belo Horizonte (lugares que aparecem
constantemente nos noticiários televisivos), bem como de temáticas vinculadas ao meioambiente.
Jorn Seeman (2003, p.8) ao conceber o mapa “como representação e não como
mero produto cartográfico”, afirma que “devem ser lembrados não apenas os mapas no
papel, mas também os pensamentos e expressões espaciais que podem ser ‘traduzidos’
em linguagem (carto) gráfica”. Nesse sentido, o autor abordou a percepção ambiental,
seja em escala local, seja em escala nacional, por meio de mapas confeccionados por
professores e estudantes universitários.
Para o poeta Mário de Andrade (1984, p.65) o que lhe “agrada principalmente,
na tão complexa natureza do desenho, é o seu caráter infinitamente sutil, de ser ao
mesmo tempo uma transitoriedade e uma sabedoria. O desenho fala, chega mesmo a ser
muito mais uma espécie de escritura, uma caligrafia, que uma arte plástica”. Além
disso, ele aprofunda nossos sentimentos, muitas vezes não identificados, ou até mesmo
ocultos sobre o quanto podemos acreditar que as imagens podem ser supostamente
representações fiéis, às vezes até mais do que a escrita, já que os desenhos não possuem
regras nem padrões. A forma de expressão se torna assim, mais simples e sutil, já que o
ato de desenhar não possui regras, sintaxe, permitindo maior liberdade de expressão.
Diante do exposto, delineamos os seguintes objetivos para esta pesquisa: analisar
as concepções do fenômeno efeito estufa por meio de desenhos e verificar a origem e o
grau de iconicidade presente nos mesmos.
No que diz respeito à metodologia, lançamos mão do desenho para a coleta de
dados. Por meio da solicitação “desenhe o que vocês sabem sobre o efeito estufa”, os
alunos não hesitaram e prontamente se colocaram a desenhar. Obtivemos um total de 39
desenhos.
Alguns alunos queriam questionar, até mesmo com o anseio de que
explicássemos alguma coisa ou sugeríssemos o que desenhar, mas não comentamos
3
Escola Estadual João Ramalho - Ensino Fundamental (Diadema – SP).
nada, pois não queríamos influenciá-los. Os alunos levaram cerca de 40 minutos para
entregar os desenhos; alguns levantavam, conversavam entre eles sobre o assunto e
depois voltavam a desenhar. Outros passaram praticamente o tempo inteiro desenhando
concentrados no que faziam. Observamos que para os alunos o desenho era algo inédito.
Eles, a princípio, até estranharam e questionaram como trabalhar com desenhos.
Olhando os desenhos um a um, conseguimos extrair características ao mesmo
tempo gerais e peculiares. Essa riqueza dá-se pelo fato de que cada aluno traz em si uma
essência do que conhece juntamente com aquilo que descobre e deduz através de suas
experiências espaciais e visuais cotidianas.
Abaixo é interessante nos atentarmos aos dados quantitativos dos elementos que
apareceram nos desenhos, isto é, os desenhos são completamente interpretados através
de ícones (OLIVEIRA JÚNIOR, 1994 e LINCH, 1999). Analisemos então as
quantidades de elementos presentes em cada categoria:
Tabela 1: Quadro interpretativo
Elementos
Quantidade
Indústrias
12
Carros
11
Poluição do ar
16
Animais
8
Humanos
4
Rios e lagos
4
Geleiras
3
Sol
23
Desenhos que engloba o todo
3
Árvores inteiras
18
Árvores degradadas
5
Org.: Fernandes e Cazetta, 2009.
Que conversas podemos estabelecer com os desenhos?
A primeira delas é a participação do “humano” nos desenhos, raramente
presente. Mas qual seria o motivo dessa ausência já que o ser humano está supostamente
ligado à intensificação do Efeito Estufa? A princípio podemos pensar que os alunos não
estão conseguindo fazer a relação entre homem e ambiente. Oliveira Júnior (1994), em
sua dissertação de mestrado, também discute isso em sua pesquisa ao notar que o ser
humano raramente estava incluído nos desenhos feitos pelos alunos, isto é, o espaço
geográfico era apresentado, porém sem a presença do humano.
É interessante ressaltar que os quatro desenhos abaixo, onde a figura humana
está presente, apresentam os efeitos da poluição; as pessoas foram desenhadas de
maneira separada da natureza. Levantamos, assim, a hipótese de que o aluno ou aluna,
como ser humano, não se sente como parte integrante do ambiente. Em conversa com os
escolares também não identificamos a presença de humanos. Eles falam sobre as
indústrias constantemente, mas é como se a indústria fosse totalmente independente do
homem.
Em vários outros desenhos, mesmo que não apareça a figura do humano, nos é
apresentada essa separação, isto é, pessoas vivendo de um lado, e, por sua vez, a
natureza de outro, isso pode ser observado no desenho abaixo.
Antes de solicitar aos alunos e alunas (do quarto ciclo do ensino fundamental) a
realização dos desenhos, imaginávamos que fosse aparecer em grande medida o
derretimento das geleiras, já que esse é um assunto dentro do tema que é muito
comentado na televisão, em jornais, revistas entre outros meios de comunicação. Mas
nos surpreendemos com os resultados. Apenas três alunos fizeram esse tipo de desenho.
Em um deles é interessante observar a dramatização, já que um navio choca-se com
icebergs que flutuam sobre a água. Podemos levantar a hipótese por meio destes
desenhos da influência dos mass media em suas concepções sobre efeito estufa, já que
isso não é o do cotidiano do aluno.
No que diz respeito à concepção que cada aluno e/ou aluna possui acerca desta
temática, cabe ressaltar o número de desenhos em que aparecem indústrias (12) e
automóveis (11), conforme já apresentado na tabela 1. Comprovadamente os carros são,
sem dúvida, os maiores poluidores da atmosfera urbana (CETESB, 2008), mas para
esses alunos, as indústrias são as grandes vilãs. Nos desenhos em que aparecem carros e
indústrias é notável como o aluno apresenta muito mais a poluição vinda das fábricas do
que dos automóveis.
A região onde a escola está inserida é altamente industrializada. Ao redor da
escola existem inúmeras fábricas/indústrias, afinal estamos no grande ABCD (Santo
André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Diadema) paulista. Podemos
afirmar desta maneira que os alunos e alunas desenharam a partir de suas experiências
espaciais e visuais cotidianas (OLIVEIRA JÚNIOR, 2006; CAZETTA, 2005 e 2007).
Se esses desenhos fossem aplicados em uma zona central da cidade de São Paulo o
destaque continuaria sendo as indústrias? Ou os carros predominariam o contexto
bidimensional do desenho?
Nos desenhos seguintes, temos uma diferenciação intensa de contextos.
Primeiramente, temos a centralidade do sol, aparecendo em 23 desenhos. Tal fato nos
possibilita dizer que os escolares fazem relações entre Efeito Estufa e o sol. Em alguns,
aparecem onomatopéias para ilustrar o sol sofrendo a ação da poluição. Tal concepção é
equivocada, pois a poluição está confinada à atmosfera terrestre e não atinge o sol, mas
sim interfere diretamente no ser humano. Uma outra concepção recorrente também diz
respeito àqueles desenhos em que o efeito estufa nada mais é do que a aproximação do
planeta Terra com o Sol.
As árvores também foram bastante desenhadas, ou seja, para os escolares a
poluição afeta as plantas de um modo geral, porém a liberação de Gás Carbônico na
atmosfera é benéfica às plantas que se utilizam do gás carbônico (CO2) para a realização
da fotossíntese. O que tem ocorrido realmente é o desmatamento. Com a diminuição na
quantidade de árvores há um desequilíbrio na quantidade de CO2, e este atinge o ser
humano de outras formas, como mudanças climáticas acarretando uma série de
desequilíbrios ambientais (IPCC, 2001 e MARENGO, 2006).
A poluição do ar também foi retratada nos desenhos e geralmente a imagem da
fumaça, agindo sobre o sol, o céu, as árvores e os animais. Nesse sentido, o desenho não
traz aspectos apenas visuais, mas também aspectos ligados a sensação térmica que é
bastante característico do efeito estufa, como, por exemplo, aumento de temperatura.
(desenho do homem suando e derretimento das geleiras). De acordo com Maria Emília
Rehder Xavier e Américo Sansigolo Kerr (2004):
A atmosfera terrestre é constituída de gases que são relativamente
transparentes à radiação solar, enquanto absorvem grande parte da
radiação emitida pela superfície aquecida da Terra. Isso faz com que
a sua superfície tenha uma temperatura maior do que se não
houvesse a atmosfera. Tal processo é conhecido como Efeito
Estufa.
Os rios e lagos aparecem em apenas quatro desenhos sendo que em três deles os
mesmos aparecem poluídos, ou seja, para o aluno, aquela água que ele apresentou
poluída não parece ser a mesma que as pessoas do bairro podem ter contribuído para
sujar, ou seja, a “água” que vai servir de abastecimento para sua própria casa.
Uma aluna fez um desenho bastante fragmentado dos demais. Desenhou um
vaso, com várias flores. De certa forma, ela representou sim o Efeito Estufa, aliás, é a
partir disso que vem o nome Efeito Estufa, isto é, como se o planeta Terra fosse uma
estufa (COSTA, 2007). Em conversa com a aluna foi exatamente isso o que ela
apresentou em seu desenho. Disse já ter escutado na escola sobre a origem do nome
Efeito Estufa, onde o professor usou como exemplo tanto de uma estufa de plantas
como de uma estufa que pode ser criada dentro de um automóvel.
Um outro desenho que despertou grande curiosidade foi um em que o aluno
representou uma floresta em chamas. Em conversa com ele, descreveu-nos a forma e a
ordem em que criou o desenho. Primeiro ele fez a floresta, com todos os elementos que
sua criatividade lhe permitiu; em seguida rabiscou por cima de quase tudo o que havia
desenhado. Esses rabiscos eram a sua concepção da floresta em chamas. E segundo ele
mesmo afirmou-nos: “é o Homem que está fazendo isso com a natureza”.
De modo geral os desenhos apresentam nuvens. Qual relação os alunos fazem
entre as nuvens e o Efeito Estufa? Levantamos a hipótese de que tal concepção possa
ser tributária das representações sobre efeito estufa presente nos materiais didáticos.
Nos três desenhos em que os alunos utilizam uma escala global é interessante
destacar um em específico. O aluno desenha o planeta Terra envolto a camada da
atmosfera, com várias divisões, “quebras”, por onde entram a maior parte dos raios
solares. Seu desenho teve um detalhamento e uma visão que nenhum outro aluno
apresentou.
Considerações Finais
Embora tal prática educativa tenha sido realizada com alunos de ciências da
sétima série do ensino fundamental, a mesma poderia também ser realizada com alunos
de geografia, visto que esta temática é comum não tão somente à disciplina escolar de
geografia. Nesse sentido, vimos que o desenho constitui-se numa linguagem tão
importante quanto o mapa entre outras, seja para ensinar ciências4, seja para ensinar
geografia, pois permite-nos “mapear” sobre quais concepções os jovens e adolescentes
estão sendo formados no período contemporâneo, o que tem implicações diretas nas
decisões tomadas por eles no uso que fazem do território em suas diversas dimensões e
4
Por meio da disciplina optativa Práticas Educativas com Mapas, Cartas Topográficas e Cartas
Geológicas, oferecida no segundo semestre do ano de 2008 para os graduandos em Licenciatura em
Ciências da Natureza da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACHUSP), observamos a importância atribuída por estes futuros profissionais da docência à cartografia no
processo de ensino e aprendizagem de temas ligadas à disciplina escolar Ciências.
manifestações.
Referências Bibliográficas
ALMEIDA, Milton José de. Cinema: Arte da memória. Campinas (SP): Autores
Associados, 1999.
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CAZETTA, Valéria. Práticas educativas, processos de mapeamento e fotografias
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colaborativa. Biblio3W, Barcelona, v. 11, p.1-15, 2007.
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CETESB, 2008.
COSTA, F. A. P. L. Memória: Primórdios do aquecimento global. Ciência Hoje, vol.
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LINCH, Kevin. A imagem da cidade. 2ª edição, São Paulo, 1999.
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Dissertação (Mestrado em Educação).
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SEEMANN, Jörn. Mapas e percepção ambiental: do mental ao material e vice-versa.
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XAVIER, M. E. R. e KERR, A. S. A análise do efeito estufa em textos paradidáticos e
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