Será que eles sabem que sabem Língua Portuguesa? Christiane Jaroski Barbosa1 Intuição do sujeito falante: “a capacidade do sujeito falante, que interiorizou a gramática específica de uma língua, de formular sobre os enunciados emitidos nessa língua julgamentos de gramaticalidade, de sinonímia e de paráfrase” (DUBOIS, Jean et al., Dictionnaire de linguistique, Paris, 1973) Resumo: Nota-se um constante desconforto entre alunos do ensino fundamental, ensino médio e até mesmo do ensino superior com relação à Língua Portuguesa. Ficam angustiados porque terão que ler, escrever, interpretar textos e, o pior, decorar regras gramaticais. A impressão que dá é que tudo parece forçado, chato, ninguém sabe para que aprender “aquilo”. Consequentemente vêm perguntas e comentários como “Para que eu devo aprender isto?”, “Onde eu vou usar?”, “Português é difícil”, “Eu não sei português”. Afirma-se que raramente ou nunca foi explicado, mostrado e até mesmo provado para os alunos que eles sabem Língua Portuguesa e qual é a importância da língua. Essas questões deveriam ser consideradas no planejamento dos professores, através da elaboração de atividades que levassem o discente a perceber que, como falante nativo, é sabedor de sua língua, cujas regras estão internalizadas e socialmente compartilhadas por intuição. Com base no que foi exposto, objetiva-se relatar um trabalho realizado pelas alunas de Estágio Supervisionado no Ensino Fundamental, utilizandose fichas com situações concretas, além disso, far-se-á uma reflexão dos resultados. Teorizase a respeito do que é competência, gramática intuitiva e qual a importância do ensino de Língua Portuguesa. Palavras-chave: ensino, Língua Portuguesa, importância, conhecimento Abstract: We have notice some constant discomfort among Elementary School, High School and even Undergraduate students in relation to Portuguese Language. They have been worried about it because they will have to read, write, comprehend texts, and worst, memorize grammatical rules. Unfortunately everything seems forced, boring, so nobody knows what to learn "that." Consequently they are questions and comments like "What should I learn this for?", "Where will I use it?", "Portuguese is difficult," "I do not know Portuguese". In fact that is seldom or never explained, shown and even proved to students that they really know Portuguese and its importance. These issues should be considered in teacher’ planning, through developing activities would make students realize that, as native speakers, they know their language, whose rules are internalized and socially shared by intuition. Based on these ideas, the objective is to report a work accomplished by Supervised Internship in Elementary School students, using cards with concrete situations, moreover, there will be a reflection on the results. We have discussed with theoretical support about what competence is, intuitive grammar and the importance of Portuguese teaching. Keywords: teaching, Portuguese Language, importance, knowledge 1 Mestre em Lingüística Aplicada pela PUC-RS. Professora da Faculdade Cenecista de OsórioRS - [email protected] 1 Iniciando uma reflexão Qualquer pessoa que ouvisse ou lesse a pergunta acima, independente da idade ou do grau de instrução, verificaria que há falta de informação para esse “eles”. A primeira pergunta seria: “Eles quem?” Isso porque se sabe que o uso do pronome pessoal de 3ª pessoa refere-se a informações ditas anteriormente, solto e ainda sem contexto, é como se fosse uma informação caída do céu. Esse saber é inconsciente, o falante não saberia dar uma explicação utilizandose de metalinguagem, porém por estar em contato com uma língua, interiorizam-se suas regras, pois, segundo Luft (2007), tem-se uma gramática natural, aprendemos uma língua ou um sistema ou um sistema de regras, ao natural, sem ensino explícito, desde que o indivíduo esteja em condições biológicas e psicológicas normais. Pode-se dizer, então, que a criança apresentaria a mesma dúvida que o adulto. Bom, o leitor logo descobrirá o referente para esse pronome catafórico, o uso foi intencional para que houvesse curiosidade e interesse na leitura do trabalho. Teorizando sobre gramática O termo gramática pode ser visto dentro de três concepções: normativa, descritiva e internalizada, sendo que a ênfase, neste trabalho, será para a última. A gramática normativa dita as regras do bem falar e do bem escrever, as quais regem, de modo bastante autoritário, a Língua Portuguesa considerada culta. Tudo o que foge a esse padrão é considerado “errado” e o que atende a esses padrões é “certo”. Dessa forma, as normas de bom uso da língua são baseadas no uso dos bons escritores, ignorando a língua oral e depreciando as outras variedades da língua, havendo certo preconceito lingüístico. Chomsky (1973) lamenta que a gramática é, em geral, ensinada como um sistema essencialmente fechado e acabado, de um modo bastante mecânico. O que é ensinado é um sistema de terminologia, um conjunto de técnicas para dividir orações. A gramática descritiva propõe-se a descrever a estrutura e o funcionamento da língua de uma comunidade linguística, trabalha com qualquer variedade da língua e não apenas com a variedade culta e dá preferência para a forma oral desta variedade. Como a língua sofre mudanças, muito do que é prescrito na 2 gramática normativa já não é mais usado pelos falantes de uma língua. A gramática descritiva não tem o objetivo de apontar erros, mas sim identificar todas as formas de expressão existentes e verificar quando e por quem são produzidas. Dentro dessa visão, frases como “Nós fumo”, “Esta é a profesora que eu briguei com ela”," Ele beijou a boca dela” seriam consideradas gramaticais, porque atendem a regras de funcionamento de uma das variedades da língua. Segundo Travaglia(2000), são representantes dessa concepção, as gramáticas feitas de acordo com as teorias estruturalistas que dão prioridade a descrição da língua oral e as gramáticas baseadas na teoria gerativa- transformacional cujo trabalho é com enunciados ideais, produzido por falante-ouvinte ideal. Como terceira concepção de gramática, tem-se a internalizada. A mente do homem ao nascer não é, portanto, um vazio. Nem um papel em branco que a vida se encarregará de encher ao acaso. Dentro da visão dos transformativistas, o homem nasce falante em potência, dotado de um mecanismo gerador de conceitos-frases. Para que esse mecanismo funcione é necessário que se esteja em contato com uma determinada língua, havendo assim a interiorização da gramática dessa língua. Segundo Chomsky (1986, p.3), “O dispositivo de aquisição de linguagem (DAL) é um componente inato da mente humana que produz uma língua particular através da interação com a experiência presente, um dispositivo que converte a experiência em um sistema de conhecimento alcançado: conhecimento de uma ou de outra língua” (citação retirada http://www.veramenezes.com/gu.pdf) Qualquer conhecedor de uma língua, ao ouvir frases como “A girafa desconsertou o estômago da cadeira” ou “Uma guri chegaram ontem de amanhã”, saberá dar pareceres sobre elas, sem, necessariamente, ter frequentado a escola. Antes de estudar gramática nas escolas ou nos livros, os falantes vão se apropriando de gramática por via auditiva na comunicação cotidiana. A audição continuada de frases vai reforçando a gramática, estrutura lingüística desta língua. De acordo com Humboldt (apud LUFT, 2007, p. 38), “uma língua não se pode propriamente ensinar, mas apenas despertar na mente”. Sabe-se que gramática é um conjunto de regras que possibilita a comunicação verbal; regras documentadas naturalmente nas frases que as pessoas 3 constroem. Neste sentido natural de linguagem, não há falar sem regras, sem gramática. Segundo Luft (2007), os membros de uma comunidade linguística se definem como “condôminos” de uma gramática, a qual não se aprende em livros, pois suas regras já estão interiorizadas e socialmente compartilhado por intuição constituindo a competência lingüística do falante. Pelo fato de existir uma gramática natural ou intuitiva que crianças demonstram saber gramática, pois conjugam verbos, fazem concordância, estruturam frases, escolhem e dispõem adequadamente as palavras. Dizem, por exemplo, “eu fazi”, produções que se deve a generalização das regras morfológicas, seguem o paradigma dos verbos da segunda conjugação – beber/bebi, correr/corri, entre outros. De acordo com Martuscelli (2009), pelo fato de qualquer falante dominar a gramática intuitiva de sua língua, tem capacidade de identificar o que pertence e o que não pertence ao sistema linguístico, do ponto de vista fonético, morfológico e sintático. Assim, por exemplo, do ponto de vista sintático, qualquer falante do português admitiria serem portuguesas construções como “nós vimos os meninos” ou “nóis viu us mininu” – a despeito do emprego ou não do padrão culto -, mas esse falante certamente rejeitaria “nós vimos meninos os” ou “os vimos meninos nós”. Situações essas fora dos padrões da sintaxe da Língua Portuguesa. Dessa forma, como diz Franchi (1991:54 apud LUFT, 2007), Gramática corresponde ao saber linguística que o falante de uma língua desenvolve dentro de certos limites impostos pela sua natureza social e antropológica. Saber gramática não depende, pois, em princípio de escolarização, ou de quaisquer processos de aprendizado sistemático, mas da ativação e amadurecimento progressivo na própria atividade lingüística, de hipóteses sobre o que seja linguagem e de seus princípios e regras.” Tem-se, então, uma competência lingüística que é intuitiva, não é um saber racionalizado que se consiga explicar o porquê de determinada estrutura e, principalmente, utilizar-se de uma metalinguagem para explicá-la. Tanto adultos como crianças ao ouvirem ou lerem enunciados agramaticais como “Uma guri chegaram ontem de amanhã” ou como os citados acima, todos farão algum comentário nem que seja “porque dói no ouvido”, “ Eu sinto que alguma 4 coisa tá estranha”. Intuição lingüística também pode estar no lugar de “ouvido” ou sentimento lingüístico governado, orientado por regras. A psicolinguista Tatiana Slama-Cazacu(1980) afirma: “Expressão que, pessoalmente não subscrevemos porque não nos diz nada e parece, mesmo incorreta: os fatos aqui incluídos de hábito não decorrem da domínio”sensorial”( intuição sensitiva) ou afetivo (intuição psicológica, emotiva), mas do pensamento, ou, mesmo de uma consciência linguística”. Ressalta-se que essa consciência lingüística é inconsciente. Com relação às palavras pobre e coitado, todos, com certeza, falariam “pobre criança”,” pobre da criança”, “coitada da criança”,” pobrezinha”, e nunca, pobrezinha criança, coitada criança, coitadinha criança (exemplos retirados do livro do Luft). Não saberiam explicitar as regras, por ser um saber prático e não teórico, por isso a gramática natural, não pode ser ensinada. E agora sobre competência No livro Aspectos da teoria da sintaxe, Chomsky (1975, p. 84) apresenta a famosa dicotomia competência/performance. Competência é definida como “o conhecimento que o falante-ouvinte possui de sua língua” e performance como “o uso efetivo da língua em situações concretas”, sempre focando num falante ideal dentro de uma comunidade lingüística ideal. Chomsky (1971, apud BALTAR, 2004) diz: A teoria lingüística diz respeito primeiramente a um falanteouvinte ideal, em uma comunidade de falantes completamente homogênea, que conhece perfeitamente sua língua e não está afetada por condições gramaticalmente irrelevantes como limitações de memória, distrações, falta de atenção e de interesse, erros fortuitos, etc., ao aplicar seu conhecimento da língua numa performance atualizada. Dell Hymes aponta problemas na teoria Chomskyana, pelo fato desta competência estar apenas voltada à gramática, só que para que haja interação entre falantes, muitas outras competências estão em jogo. Foi a partir dos estudos de Hymes que surgiu o termo competência comunicativa, dando assim um enfoque sociológico ao estudo da língua. Essa competência engloba conhecimentos lingüísticos, psicolingüístico, sociolingüísticos e pragmáticos, além das habilidades que os falantes devem desenvolver a fim de comunicar5 se através da língua (habilidade para falar em diferentes contextos, para reconhecer diferentes tipos de textos e lê-los adequadamente). Segundo Baltar (2003), Hymes assevera que o termo competência de comunicação é um termo indispensável para efeito de generalização. Competência de comunicação deveria, então, ser entendido como competência NA comunicação e competência PARA comunicação. A comunicação não é apenas um objetivo da linguagem, mas um atributo. Toda utilização da linguagem coloca em jogo esse atributo. Com essa mudança de visão, a concepção de competência, de acordo com Hymes, está relacionada à comunicação e à ação, contribuindo muito na compreensão do que é linguagem e seu uso por falantes individuais dentro de comunidades lingüísticas não mais homogêneas e sim heterogêneas. A linguagem é vista, então, como fruto da experiência social aproximando assim os estudos lingüísticos a uma perspectiva social e concreta das relações humanas. Noção refutada por Chomsky, cujo propósito era desenvolver gramática ancorada em abstrações. A gramática internalizada dá forma à competência lingüística ou gramatical, por ela ser inata, permite ao usuário produzir e compreender toda a frase gramaticalmente bem feita na sua língua. Segundo Travaglia (2000), isso é verdade, mas dizer que ela só atua no nível frasal é esquecer de todos os princípios que permitem fazer uso da língua através de textos: construção, interpretação, uso do texto em diferentes situações de interação comunicativa, as regras de conversação, as escolhas lingüísticas na interação social e os efeitos dessas sobre as pessoas (ex. normas de polidez). O usuário da língua sabe muito mais do que apenas regras de formação e frases, pois tem competência comunicativa, a qual leva em consideração outras três competências: lingüística ou gramatical, textual e discursiva. Além disso, esse usuário, mesmo com essas competências, é afetado por distrações, falta de memória, erros fortuitos, deslocamentos de intenções ou de atenção, reforçando a idéia de que não existe um falante ideal. Percebe-se, então, que a idéia de gramática internalizada e competência é muito mais ampla, mesmo porque os usuários não são robôs “decoradores” de frases soltas e perfeitas. Com certeza, dessa forma, não existiriam interações 6 sociais, práticas sociais e nem comunidades linguísticas. Hymes (1984, apud BALTAR, 2004) fala que “os membros de uma comunidade lingüística partilham, ao mesmo tempo, de uma competência de dois tipos: um saber lingüístico e um saber sociolingüístico, ou ainda, um conhecimento conjugado das normas gramaticais e das normas de emprego”. De acordo com Baltar (2004), Um falante normal de uma comunidade lingüística possui um saber tocante a todos os aspectos do sistema de comunicação de que ele dispõe. Ele manifesta este saber quando interpreta e avalia a conduta de seu interlocutor e de si próprio. Neste sentido pode-se admitir a equação saber=competência; mas, normalmente, competência vai além do saber. Poderia ser um termo genérico para designar as capacidades dos indivíduos. Se a competência inclui o saber, ela inclui também uma capacidade de utilizar este saber, de mobilizar e colocar em prática este saber. Segundo Bronckart, este conjunto de capacidades pode ser denominado de domínio da língua ou manejo da língua. Cabe, então, aos educadores a tarefa de entender essas competências para explicar aos educandos como funcionam as relações sociais de uma comunidade linguística, em lugar de retringirem, ao ensino de língua materna, o conhecimento estanque de uma gramática. Como já foi falado, é apenas mais um elemento a ser levado em consideração, no quadro das competências que se atualizam quando os falantes entram em interação através da linguagem. No momento da fala, apossa-se dessa gramática, ou seja, de um conjunto de procedimentos necessários para, através de elementos lingüísticos, produzirem significados em situações reais de comunicação. Ao adequarem-se esses procedimentos aos diferentes contextos de comunicação, pode ocorrer uma remodelagem nessa gramática, que, na prática, segundo Martelotta (2009), seria o resultado de um conjunto de princípios dinâmicos que se associam a rotinas cognitivas e interativas moldadas, mantidas e modificadas pelo uso. O autor vê uma relação de simbiose entre o discurso e a gramática, pois o discurso precisa dos padrões da gramática para se processar e, por outro lado, a gramática precisa desse discurso para que haja renovação e adaptação aos novos contextos de comunicação. Trabalhando com as fichas 7 Para Perrenoud (2002), os alunos deverão colocar em prática suas aquisições escolares dentro e fora da escola, para que isso aconteça, os educadores precisam propiciar momentos para que esses desenvolvam suas competências. O sociólogo diz: “Competência em educação é mobilizar um conjunto de saberes para solucionar com eficácia uma série de situações”. Objetivando a reflexão de Perrenoud, os alunos de Estágio Supervisionado em Língua Portuguesa no Ensino Fundamental do 1º semestre de 2009 foram orientados para que, no primeiro dia de aula do planejamento, fossem organizadas atividades com os seguintes objetivos: levar os alunos a perceberem a importância da Língua Portuguesa e, além disso, provar que são sabedores dessa língua. Sugeriu-se, então, um trabalho com situações concretas, muitas delas do dia-a-dia. Essas situações foram colocadas em fichas ou cartazes e apresentadas aos alunos para que refletissem, discutissem em grupos o que estava sendo pedido. Logo após, os resultados deveriam ser apresentados ao grande grupo. Com relação ao conteúdo das fichas, nem todas tiveram o mesmo foco, umas abordavam mais aspectos gramaticais, outras a produção escrita, a fala e até as variações lingüísticas. Desta forma, para facilitar a análise do leitor, abaixo serão apresentadas as várias atividades separadas por blocos. 1º Bloco: Erros ortográficos Você está almoçando em um restaurante e o garçom chega até a sua mesa com o cardápio: Cardápio Alaminuta Prato do dia Arroz caretero Strogonoff Filé de peixe R$ 14,90 R$ 9,90 R$ 10,00 R$ 15,00 R$ 18,00 Faça uma revisão nesse cardápio e justifique as alterações. Neste recado á quatro palavras escritas de forma incorreta. Quem descobrir quais são elas não conte para nehum um colega, apenas 8 deiche escrito num papel as palavras juntamente com seu nome em cima da minha meza. Vocês têm 10 min. Pense que você é um professor e corrija esta placa... SERVIMOS DIÁRIAMENTE COMIDA. APARTIR DE R$ 5,00, VOCÊ IRÁ SABORIAR UM GOSTOZO ALMOÇO. VENHA CONHECER NOSSO RESTALRANTE! TEMOS GRANDE PRAZER EM RECEBER VOCÊ. HOGE TEM PROMOÇÃO ESPECIAU: PRATO FEITO COM REFRIGERANTI: R$6,00. NÃO PERCA ESTA! 2º Bloco: Concordância Identifique se há problemas no convite abaixo: Hoje terá uma festa de despedida da Paulinha lá em casa. Conto com a presença das menina e dos gatinho também. Obs: Meninas não paga. Leia a frase. Reescreva-a, se achar preciso, e diga também o porquê a reescreveu: A cadeiras foram colacada no salão e os banco também. 3ª Bloco: Fala Você está em uma festa e aquela gatinha que você paquera há dias está dando mole para você. Qual a sua reação? Se você fosse chegar nela, o que falaria? Como você falaria para uma garota (o) que não está a fim de ficar com ela, sem magoá-la? Se você fosse a uma festa e lá encontrasse aquela pessoa que você estava a fim faz tempo, como você chegaria e conversaria com esta pessoa? 9 Você é atendente de uma loja de roupas, de repente, você vê um cliente colocando na bolsa uma peça de roupa. Como você falaria para o cliente que o viu fazendo isso? Como você falaria para seu amigo que a maioria das palavras que tem “L” ele troca por “R”. Exemplo: Bicicreta Se você fosse ao supermercado e lá não encontrassem na prateleira as latas de azeite. Como você pediria para o gerente? Você vai ao supermercado e não encontra o produto que você gostaria. Como você falaria com um dos funcionários para solucionar o problema? Você está em uma reunião. Não está havendo um acordo entre as pessoas, elas estão brigando e falando ao mesmo tempo. O que você faria para resolver o problema? Como você falaria com o dono do restaurante que você percebeu alguns erros de Português no cardápio. Elabore em seu caderno sua resposta. Veja o cardápio. CARDÁPIO Porssão de arros ..........................................................R$ 3,90 Carne Asada kg.......................................................... R$ 10,80 Pitiza de Atum............................................................ R$ 14,50 Salada de Alfase...........................................................R$ 1,90 Está chovendo muito forte. Você combinou com seus pais uma visita, mas devido ao tempo, você está mesmo é com vontade de ficar em casa descansando, afinal, a semana é longa e cansativa. Então, você pega o telefone e não sabe como dizer, pois não quer magoar ninguém. Como você faria para resolver esta questão sem magoar seus pais? Você vendeu para um amigo um relógio e um tênis que recém havia comprado. Estava precisando de dinheiro, porém seu amigo deu somente a metade. Passou um mês da data prometida para pagar a outra metade. Você pega o telefone para cobrar. Como você vai fazer a cobrança? 10 4º Bloco: Adequação da linguagem à situação Cada dupla retirou uma ficha de um envelope: Mãe e filha, comprador e vendedor, prefeito e morador, professor e aluno, recepcionista (banca de informações) e turista perdido. A ordem era a seguinte: representar uma cena do quotidiano destes “profissionais”, adequando a linguagem à situação em que estavam inseridos. Quando cumprimentamos as pessoas, usamos gírias ou não, isso também depende da pessoa e da ocasião. Se você encontrasse essas pessoas abaixo como as cumprimentaria? o diretor de sua escola a sua (seu) namorada (o) o seu amigo do futebol a sua avó Se você precisa falar com o prefeito de sua cidade sobre alguns problemas que estão acontecendo na comunidade onde você mora. Qual a maneira mais apropriada para falar com o prefeito? 5º Bloco: Produção escrita Você está precisando de dinheiro e de repente se lembra que pode vender aquele vídeo game que está jogado em cima do armário. Onde e como você anunciaria? Elabore em seu caderno um convite para sua festa de formatura do Ensino Fundamental, convidando seu professor titular. Você vai se formar e foi liberada (o) pela direção da escola para elaborar o seu convite de formatura. Cada aluno poderá usar sua criatividade e seu estilo em seu convite. Como seria o texto do convite? Imagine: Você tem que sair, mas precisa avisar seus pais. Você tenta ligar e a ligação não é completada. Como você faria para avisá-los? Você está sozinho em casa no domingo, quando chega um amigo lhe convidando para dar uma volta na praia. Escreva um recado de geladeira para avisar seus pais aonde você foi e que horas irá retornar. 11 Imagine que você não sabe ler e você precisa ir a Porto Alegre visitar uma pessoa querida que esteja doente. Como você irá fazer para chegar até lá? Ah! Ninguém pode ir com você. Seus amigos e parentes estão todos ocupados neste dia. O que fazer? Você e seu colega foram selecionados (as) para produzirem uma carta solicitando melhores condições de vida para os moradores de seu bairro. Você está concorrendo com mais dois bairros próximos. A carta que apresentar melhores argumentos será escolhida e o bairro será beneficiado. Como você produziria esta carta? Qual o problema nesta frase? “Ela ganhou dois prêmio e colocou tudo lá fora. Aí ela pegou e tirou de lá e aí ela jogou nos latão.” Depoimento dos estagiários Com base nos depoimentos, percebe-se que os resultados foram bastante satisfatórios. Pensando num trabalho que privilegiasse a competência comunicativa, os estagiários levaram os alunos a refletirem sobre o uso da língua, mostrando que a língua é dinâmica e que o falante tem criatividade em adaptar as estruturas lingüísticas aos diferentes contextos de comunicação. “Após a elaboração da tarefa, os alunos interpretaram e apresentaram de forma criativa as situações problema. Foi uma atividade divertida com a turma, na qual todos interagiram.” “No início muitos se sentiram confusos, alguns perguntavam, mas logo compreenderam a proposta. A cada apresentação, interferia mostrado o quanto eles sabiam o português...” “O resultado foi surpreendente, eles mesmos escolheram um líder para o grupo na hora da apresentação, o líder explicava a tarefa dada dentro do seu envelope e cada um falou um pouquinho sobre os resultados.” “Foi muito bom, os alunos ficaram bem pensativos com relação às questões abordadas e se deram conta do quanto a Língua faz parte de nossas vidas.” “...eles perceberam as inadequações da escrita, os problemas de concordância, as repetições nos textos... e começaram a se questionar, se havia pessoas que falavam daquela maneira e alguns disseram é assim 12 que o meu pai fala professora...Alguns me perguntaram se todas as aulas de Língua Portuguesa seriam assim seriam maravilhosas.” “Discutimos a importância da Língua Portuguesa...Eles compreenderam bem a minha proposta, e foi mais fácil trabalhar assim. O que mais me marcou nesta aula foi o trabalho com as variantes lingüísticas, quando pedi para os alunos que eles simulassem situações quotidianas (mediante sorteio)... Ver os alunos se esforçando e compreendendo a importância dessa atividade é realmente muito bom.” “Este trabalho com as fichas foi muito interessante, porque os alunos mais tímidos se soltaram, e todos conseguiram cumprir a atividade proposta. Achei bem interessante porque consegui mostrar uma sistematização do que eles já sabiam, porque eles, mesmo inconscientemente, adequavam a linguagem à situação proposta.” “Ao receberem as fichas, os alunos ficaram ansiosos, queriam responder e discutir com os colegas... houve participação muito satisfatória dos alunos, que me questionavam bastante. Como foi importante dizer que eles sabem língua portuguesa e mostrar sua importância no cotidiano.” “... o que de mais importante eles perceberam foi que todos eles, sem exceção, conseguiam falar utilizando-se de todas estas variantes, ou seja, todos eles já sabiam a Língua Portuguesa.” Concluindo A disciplina de Língua Portuguesa, na maioria das vezes, é vista como muito difícil, chata, cansativa, “decorativa” e sem utilidade, pelo fato dos educandos sempre terem sido levados à decoreba e não terem sido levados a pensar sobre a língua para poder compreendê-la e utilizá-la apropriadamente às situações e aos propósitos definidos. Ensinar uma língua não consiste em fazer repetir frases mecanicamente, mas em estimular o aprendiz, desde cedo, a criar, porque linguagem é criação. Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (1998), O domínio da linguagem, como atividade discursiva e cognitiva, e o domínio da língua, como sistema simbólico utilizado por uma comunidade lingüística, são condições de possibilidade de plena participação social. Pela linguagem, os homens e as mulheres se comunicam, têm acesso à informação, expressam e defendem pontos de vista, partilham ou constroem visões de mundo, produzem cultura. Assim, um projeto educativo comprometido com a democratização social e cultural atribui à escola a função e a responsabilidade de contribuir para garantir a todos os alunos o acesso aos saberes lingüísticos necessários para o exercício da cidadania. 13 A idéia, então, foi realizar um trabalho que talvez nunca tenha sido feito com os estes alunos, provando que todos sabem a própria língua, pois são falantes nativos e têm uma gramática intuitiva. É claro que por serem alunos dos anos finais do ensino fundamental, muitas das suas experiências da escola também devem ter interferido na realização das tarefas, mas nada impediu que fosse mostrado a eles que realmente sabem Língua Portuguesa. Junto com o trabalho das fichas, os estagiários mostraram a importância da Língua Portuguesa, cujos depoimentos dados pelos educandos encontram-se abaixo. Através destes dados, percebe-se que há uma visão mais pragmática da língua, vêm-na como necessária para o ato de comunicação, e não apenas como um sistema de regras normativas, cuja metalinguagem deva ser memorizada. “A Língua Portuguesa para mim é uma das matérias que eu mais gosto, porque a gente lê, escreve, fazemos perguntas, e é divertido, mas português não é só isso, também temos conteúdos difíceis e sem a Língua Portuguesa ninguém vive. Mas por que eu gosto de Português? Porque eu gosto de fazer poesia, história.” “Sem a Língua Portuguesa, não saberíamos falar, escrever, ler, contar histórias. Já parou para pensar o que seríamos sem ela? Pois é, nós não seríamos nada.” “ É a Língua Portuguesa que nos ensina a ler, a escrever, a ser bom com os outros, respeitar os direitos, não brigar com ninguém e ter um mundo melhor, aproveitando a sabedoria dos mais velhos. E o meu melhor amigo é o livro, porque eu adora ler, pois lendo aprendemos coisas novas.” “ ...sem ela ninguém fala...porque quando falamos usamos o Português precisamos dele em todas as matérias, até na matemática. Sem ela...não teria nem palavras.” Para que haja um trabalho produtivo com relação ao estudo da língua materna, o professor deverá perceber que a gramática é bem mais do que estudar elementos da fonologia e da fonética, morfologia e da sintaxe. Travaglia (2000) enfatiza: “Importa, pois, registrar, reafirmar e destacar aqui que a gramática internalizada é a que constitui não só a competência gramatical do usuário, mas também sua competência textual e sua competência discursiva e, portando, a que possibilita sua competência comunicativa.” 14 A sugestão de Possenti (1998) é a de que, primeiro, a escola priorize o ensino de gramática, partindo da internalizada passando pela descritiva e, se necessário, findando na normativa; segundo, os alunos dominem efetivamente o maior número possível de regras, tornando-se capaz de expressar-se nas mais diversas circunstâncias. Porém, o que se tem observado, é que a escola, ainda prioriza o ensino da norma padrão, desconsiderando o potencial lingüístico que os alunos levam para o Ensino Fundamental. Acredita-se que esteja esclarecido o referente do pronome catafórico colocado no título. Essa prática, durante o período de estágio, foi só o início de um trabalho, que deverá ter continuidade pelos demais docentes, caso contrário, volta-se ao esquecimento de que são sabedores da língua e voltam-se as famosas falas: “Eu não entendo nada de português”, “Eu não sei nada de português”, “Eu odeio português”. Dentro de tudo que foi exposto, pergunta-se: Será que os professores sabem que eles sabem Língua Portuguesa? Talvez essa estrutura levasse o leitor à dúvida. Não se sabe se todos responderiam que há ambigüidade, mas que surgiriam questionamentos como “Eles quem? Os professores ou os alunos?”, isso é certo. Então, muda-se a pergunta: Será que os professores sabem que seus alunos sabem Língua Portuguesa? Bom, a resposta poderia constar num próximo artigo. Referências BALTAR, Marcos Antônio Rocha. A Competência Discursiva através dos Gêneros Textuais. Caxias do Sul: EDUCS, 2004. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Terceiro e quarto ciclos do Ensino Fundamental: Língua Portuguesa. Brasília: MEC/SEF, 1998. CAZACU, Tatiana Slama. Psicolinguística aplicada ao ensino de línguas. São Paulo: Pioneira, 1980. LUFT, Celso Pedro. Ensino e aprendizado da língua materna. São Paulo: Globo, 2007. MARTELOTTA, Mário Eduardo (org). Manual de linguística. São Paulo: Contexto, 2009. p. 43-70. 15 MODELO da Gramática Universal. Disponível em <http://www.veramenezes.com/gu.pdf >Acesso em: 20 set. 2009. MARTUSCELLI, Sonia Mariza. Gramática normativa e Gramática intuitiva. Disponível em< http://personalescritor.blogspot.com/2009/06/gramatica- normativa-e-gramatica.html> Acesso em: 20 jun. 2010. PERRENOUD, Philippe. Construir as competências desde a escola. Porto Alegre: Artes Médicas, 2002. POSSENTI, S. Por que (não) ensinar Gramática na escola. Campinas: Mercado de Letras/ALB, 1998. TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática. 5 ed. São Paulo: Cortez, 2004. 16