O Anúncio do Natal
A Igreja Católica crê que o conjunto de ritos, sinais, símbolos, a liturgia num
todo, atualiza, ou seja, torna atual um evento salvífico que haja ocorrido em um tempo
anterior ao nosso. As celebrações litúrgicas são o meio pelo qual se pode vivenciar e
aderir de forma plena algo que, dos eventos salvíficos da vida de Cristo, não tivemos
oportunidade de presenciar em “tempo real”. Todos os símbolos e gestos concorrem,
portanto, para que todo fiel, que toma parte das ações litúrgicas, possa entender,
vivenciar e tomar parte naquilo que ocorreu há dois milênios.
Nós, monges do Mosteiro da Ressurreição, como manda a Tradição católica e
monástica, celebramos sete orações ao dia, chamadas Ofício Divino. A Primeira Oração
do dia, Vigílias, é feita durante a madrugada (4hs20min) e a última, Completas, por
volta das 19hs30min. Às 17hs30min celebramos o Ofício chamado Vésperas. Esta
celebração, que ocorre ao pôr do sol, é para a Igreja - herança judaica - o início do novo
dia. As 17hse30min do dia 24 de Dezembro celebramos as, assim denominadas,
Primeiras Vésperas do Natal, o que quer dizer que já estamos celebrando o Natal de
nosso Senhor Jesus Cristo.
O Nascimento de Jesus, Filho de Deus, que se fez carne, não é um evento solto
no tempo ou sem fundamento algum, senão uma realidade histórica, que mudou o curso
da Humanidade. É por isso que nós católicos nas Primeiras Vésperas do Natal ou na
Missa da madrugada (“Missa do Galo” ou Vigílias do Natal), escutamos um canto
muito antigo chamado Canto das Kalendas, Cantus Martyrologii ou Anúncio do Natal.
Esse canto tem por objetivo anunciar que hoje nasceu Jesus, além de situar no
tempo e no espaço o nascimento do Cristo.
O anúncio principia assim: “Octavo Kalendas ianuarii. Luna…” (Literalmente:
Oitavo dia das Kalendas de Janeiro. Lua…). Inicia-se tal anúncio dizendo em que dia do
calendário solar dos romanos, “ocorreu” o nascimento de Jesus. Os romanos contavam
os dias não por números, mas por nomes. Kalendas, daí calendário, referia-se sempre ao
primeiro dia do mês; Kalendas Ianuarii, por conseguinte, primeiro de Janeiro. Octavo:
oito dias antes. Dizer Octavo Kalendas Ianuarii significava 25 de Dezembro ou oito
dias antes de 1º de Janeiro. Após o anúncio do calendário solar, cita-se no calendário
lunar dos judeus, a lua em que ocorre o Natal. Observemos que, tal como dissemos
acima, a liturgia torna atual o evento da salvação. Anteriormente, empregamos, entre
aspas, a palavra ocorreu, para lembrar que se desconhece a data exata do nascimento de
Jesus Cristo. Faz-se aqui o emprego do verbo ocorrer no presente (ocorreu-ocorre)
porque o número de luas é contado para o ano atual, com o fim de advertir-nos que o
Natal está acontecendo hoje, neste dia, neste momento. Por conseguinte, o número de
luas, em cada ano, é variável. Em 2013, por exemplo, diz-se: “No oitavo dia das
Kalendas de Janeiro. Vigésima Segunda Lua”. Esta introdução é como se disséssemos:
“Jesus nasceu há mais de dois mil anos, em uma data que nós não temos exatidão.
Contudo, nasce para nós hoje, aqui e agora”.
Logo após, dá-se início à citação de datas a fim de situar o nascimento de Jesus
no Tempo, lembrando a todos que a Salvação é Universal: “De uma época muito
remota desde que Deus Criou o Céu e Terra. No 21º século do nascimento de Abraão.
Na 194ª Olimpíada. 752º ano da Fundação de Roma…”. Observemos que o anúncio
contém datas históricas e memoráveis para os judeus, bem como para os Romanos e
para os Gregos; isto porque, acreditamos que a Encarnação do Verbo deu-se para a
salvação de todas as gentes, raças e povos, e não restritamente para o povo de Israel.
Por fim, ouvimos: “nasceu da Virgem Maria em Belém da Judéia. FEZ-SE
HOMEM”. Aqui, está contido o mistério central da celebração do Natal. A Segunda
Pessoa da Santíssima Trindade, Deus Onipotente, Onisciente e Onipresente, o Deus que
não teve início e nem terá fim, Aquele que é, que era e que há de vir, assume a
fragilidade humana para resgatar aqueles que estavam perdidos nas trevas. São Paulo,
ao escrever para os filipenses, no capítulo 2, 6-7 demonstra-o bem, dizendo que “Jesus,
embora fosse Deus, esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante
aos Homens”, emprega a expressão Kénosis, ou seja, esvaziamento total, inclusive da
própria vontade. Nada poderia ser mais ínfimo para o Criador de todas as coisas, do que
assumir a natureza criada da sua própria criatura. É por isso, que neste momento, ao
ouvirmos “fez-se Homem” o presidente da celebração, juntamente com seus assistentes,
prostra-se no chão - os demais se ajoelham - significando, justamente, esse
rebaixamento total que Deus assume.
Após breve pausa de silêncio, todos se levantam e ouvem: “Natal de Nosso
Senhor Jesus Cristo, segundo a Carne”.
Celebrar a Páscoa do Senhor, sob o prisma do início de nossa salvação, quando
da encarnação do Verbo, pois, “o Verbo era Deus e estava em Deus, tudo foi feito por
Ele, nada sem Ele se fez” (Jo 1,1ss), é colocar diante dos olhos o grande amor de Deus
Pai por nós, que não poupou nem seu Filho amado para que nós pudéssemos ser
poupados.
Que Jesus Cristo, nascido Hoje para nós e por amor de nós possa iluminar-nos
com sua Luz, Ele que é o Caminho a Verdade e a Vida!
Ir. Anselmo Giaretta, OSB
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O Anuncio do Natal. - Abadia da Ressurreição