O Olho Mágico e o fazer tecnológico
Eliane Patrícia Grandini Serrano1
Guiomar Josefina Biondo2
Nelyse Ap. Melro Salzedas3
Resumo: No relógio do tempo, na imagem memória, acertamos os ponteiros em Magritte (1868- 1967) que
buscou as ambigüidades relacionadas com objetos reais através de Espelho Falso (1935) e Traição das
imagens (1929); o olho que via espaços e objetos que, indagam a visão do real. Também Duchamp (18871968) com Grande Vidro ou A Noiva Despida por seus Celibatários criou uma linha tênue que separa o real
da ficção. No final do século XX, a tecnologia concorre com as telas e pincéis na produção da obra de arte,
porém, em muitas delas estão presentes como fontes e conceitos, textos teóricos e plásticos que nos fazem
refletir sobre o olhar. Hoje, como escreve Cristina Costa (2002-p.67) “a funcionalidade dessa cultura que se
instala, é reforçada pela produção técnica das mensagens”. (2002 p. 75).
Palavras-chave: História da arte, realidade, olhar, tecnologia.
“Eu achava que a visão fosse um ato poético do olhar”.
“A gente não gostava de explicar as imagens porque explicar afasta as falas da imaginação”.
M. de Barros
“Pensar é estar doente dos olhos”.
Fernando Pessoa.
O texto que vai se costurando aborda questões de lingüistas, críticos, semiólogos, artistas plásticos sobre
diferentes posicionamentos do olhar. Em primeiro lugar aparece Claude Lévi-Strauss em Regarder Écouter
Lire (1993) no capítulo En regardant Poussin, lê-se: Il n´y a ni temps perdu ni temps retrouvé dans le temps
propre de la création artistique“(p.9); e encaminha o seu « regarder » para Poussin que, de certa forma,
discute a proposta da imitação e criação a partir da observação. “Poussin avait coutume de dire que c´est en
observant les choses que les peintres devient habiles plutôt qu´en se fatiguant à les copier . Oui, mais il faut
que le peintre ait des yeux. “ (p,39).
Depois de vermos os posicionamentos de Strauss (1993), teremos os de Gandelman (1986), e Alfredo Bosi
(1995) que, em seu artigo no livro Olhar, organizado por Adauto Novaes, levanta questões semelhantes às
visões dos dois teóricos citados. Da mesma forma, Leyla Perrone-Moisés (1995), também inserida no
mesmo livro, analisando os heterônimos de Fernando Pessoa, discorre sobre a mesma questão.
Bosi, na Fenomenologia do Olhar, mergulha na etimologia para buscar a diferença entre o olhar e o ver.
Assim, temos: “A cultura grega, acentuadamente plástica, enlaçava pelos fios da linguagem o ver ao pensar.
Eidos, forma ou figura, é termo afim à Idea. Em latim, com pouca diferença de sons: vídeo (eu vejo) e Idea. E
os etimologistas encontram na palavra historia (grega e latina) o mesmo étimo id, que está em eidos e em
Idea. A história é uma visão-pensamento do que aconteceu.” (p.65). Nas páginas subseqüentes propõe
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Doutora, Docente do Departamento de Artes e Representações Gráficas da Universidade Estadual Paulista “ Julio de
Mesquita Filho”- UNESP/ Bauru - SP. [email protected], (14) 3103-6058.
2
Doutora, Docente do Departamento de Artes e Representações Gráficas da Universidade Estadual Paulista “ Julio de
Mesquita Filho”- UNESP/ Bauru - SP. [email protected], (14) 3103-6058.
3
Livre docente, Pós-Graduação da Faculdade de Arquitetura,Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista “
Julio de Mesquita Filho”- UNESP/ Bauru – SP. [email protected]. (14) 3103-6000
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ainda, preso à etimologia e à grafia, discutir os etmos de olho e olhar. “Nessa interpretação supera-se, por
diferenciação, o nexo entre olho e olhar. Se em português os dois termos aparentemente se casam, em
outras línguas a distinção se faz clara ajudando o pensamento a manter as diferenças. Em espanhol: ojo é o
órgão; mas o ato de olhar é mirada. Em francês: oeil é olho; mas o ato é regard/regarder. Em inglês: eye
não está em look. Em italiano, uma coisa é o occhio e outra é o sguardo. Creio que essa marcada
diversidade em tantas línguas não se deva creditar ao mero acaso: trata-se de uma percepção, inscrita no
corpo dos idiomas, pela qual se distingue o órgão receptor externo, a que chamamos “olho”, e o movimento
interno do ser que se põe em busca de informações e de significações, e que é propriamente o olhar.” (p. 66)
Somando as pesquisas sobre o tema proposto trabalharemos agora com Gandelman em Le regard dans le
texte (1986) “mais si l´écrivan se « mire » dans les mots qui deviennent images, lê peintre lui aussi se mire:
dans les images qui deviennent mots et actes de « langage ». ”(p.10) O eixo do capítulo I, do texto de
Gandelman, é o ” toque do olho”, a que ele chama de olho tátil. A epígrafe, uma dedicatória a Loius Marin, é
significativa: « A Louis Marin, dont lê séminaire sur L’Atelier du peintre m’a donné l’idée de cette étude. »
Em Gandelman, tem-se o papel-espelho e a tela-espelho que tratam da constituição do “moi”, que não é
senão o “je” pelo aparecimento de sua imagem no papel/tela. Há sempre, como ele coloca, um “toucher de
l´óeil”.(1986, p.11). Inicia seu texto, diacronicamente, remetendo-se ao Egito antigo e a sua escrita
hieroglifa. Este sinal (Fig.01) representa o deus divino, autogerado, o criador do céu e da terra, é o
“fazedor”.
Fig.01
Esse mesmo sinal (Fig.02), aparece igualmente com o verbo fazer – Ele fez.
Fig. 02
Outros olhos vão aparecer em sua escrita, como olho esquerdo de Horus. (Fig.03).
Fig.03
O mesmo olho pode aparecer com uma mão introduzindo a luz na sombra (Fig.04) que pode ser visto como
símbolo da vida.
Fig.04
Por estas figuras, nota-se uma evolução do olho, acrescentado de pequenos detalhes que lhes dão outra
função. Outros desenhos (Fig. 05), fundem olho e mão – o que vê e o que faz, juntos não se separam e
configuram a criação e a produção artística.
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Fig.05
Pegando carona com o sentido do parágrafo anterior, beliscamos uns versos de Manuel de Barros (2010):
“Eu nem sabia que a nossa visão é um ato poético”(p.65)
“A gente não gostava de explicar as imagens porque explicar afasta os valos da imaginação” (p. 12)
“Era uma visão que destampava a natureza do seu olhar” (p. 14)
“ Eu gosto do absurdo divino das imagens’ (p. 35)
Com estas considerações tecemos e costuramos os sentidos do olhar com algumas telas e fotografias, para
sequenciar as nossas idéias.
Vejamos, o que pensar de dois trabalhos de Magritte “A traição das imagens” (Fig.06) e o “Espelho Falso”
(Fig.07)? No primeiro, quando o pintor lança uma provocação no espaço pictórico, onde se vê um cachimbo,
e insere a frase “isto não é um cachimbo?” A relação entre o texto e a imagem sugere um confronto, ou
seja, o texto verbal de Magritte permite refletir, que o que se vê é uma pintura do objeto, ou seja uma
ilusão, uma representação, um olhar do artista sobre o cachimbo, daí o título.
(Fig. 06) A traição das imagens, 1929
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(Fig. 07) Espelho Falso, Magritte, 1935
Em “O espelho falso” ocorre, novamente, a provocação pela ambigüidade do olhar, o jogo reflexivo do
objeto espelho lança-se sobre o órgão humano – olho, o que nos indica uma leitura duplicada do exterior
lançado no interior da pupila. O olho deixa de ser um olho e passa a ser uma representação do mesmo,
porém metaforizado pela forma especular. A natureza, refletida no centro do olho, relaciona-se com a
natureza interna do indivíduo, refletindo o externo – o céu com nuvens - reforça o conceito de o significado
nem sempre é a representação de um objeto em si, mas como este objeto é viso e/ou sentido.
E também, o que pensar de Duchamp (Fig.08), com “O Grande Vidro ou A Noiva despida por seus
Celibatários?” Ao usar um suporte frágil e transparente como o vidro, Duchamp reorganiza o espaço
pictórico através de um olhar que expande-se, não ficando limitado a bidimensionalidade de uma pintura
sobre a tela. Com isso o espectador também se sente desafiado a descobrir que imagens decodificam aquela
pintura, ou melhor, que imagens são aquelas que representam um tema proposto pelo título, que sugere
um erotismo, mas que se concretizam em idéias estéticas, totalmente diferentes e singulares.
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(Fig.08) O Grande vidro ou A noiva despida pelos seus celibatários , 1915-1923
E ainda, o que pensar de Lygia Clark (Fig.09), e seu interesse na participação efetiva do espectador, ou
melhor, seu interesse na ação humana direta, através de suas propostas sensoriais como “Óculos”, que não
apenas aguçam a visão, mas provocam uma outra maneira de ver, através de uma lente.
(Fig.09) Óculos, Lygia Clark, 1968
Se os críticos de arte se preocuparam com a questão do olhar, a literatura igualmente dedicou-se a este
pensamento. Leyla Perrone-Moisés, em seu artigo do livro no O Olhar (1995, p. 327,333, 337 e 340)
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considera os múltiplos olhares de Fernando Pessoa através de seus heterônimos, uma reflexão constante
sobre sujeito-objeto e analisa como cada um trata o tema do olhar.
1. Fernando Pessoa: O olhar Velado
A escrita sem um heterônimo revela uma névoa constante, um intervalo de bruma que desrealiza o real:
“Pensar é estar doente dos olhos”
E a terra é verde, verde...
Porque então minha vista
Por meus sonhos se perde?
De que é que a minha alma dista?
(apud in OP, p.22)
2. Alberto Caieiro: O olhar Nítido
Nesta fase, o olhar de Alberto Caieiro é simples, sem interrogações metafísicas. Ao olhar de conhecer ele
opõe o olhar de ver:
O meu olhar é nítido como um girassol....
(apud in OP, p.204)
3. Ricardo Reis: O olhar Distante
Como Caieiro, pretende ver claramente o mundo exterior; mas seu olhar é frio e desencantado:
O mundo exterior claramente vejo –
Coisas, homens, sem alma
(apud in OP, p.287)
4. Álvaro de Campos: O olhar Caleidoscópico
O olhar de AC é o olhar do homem moderno, adequado às novas circunstâncias: as metrópoles, a multidão,
os meios de transportes mais velozes.
Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo....
(apud in OP, p.301)
Ainda, Leyla Perrone-Moisés, citando a biografia de Fernando Pessoa, reproduz suas últimas palavras: “Dême os óculos”, desta forma perguntamos: até onde a questão da lente interfere na questão do olhar?
Retornemos a Magritte: a sua imagem provoca uma traição? O que significa para o artista a janela
quebrada? Seria o olhar nítido de Fernando Pessoa? E os óculos? O olhar caleidoscópico?
Todo nosso texto centrou no olhar, no processo criativo da arte, seja ela literária, seja ela plástica. O
caminho da leitura percorrido abraçou autores de formação cultural diversa: críticos, antropólogos,
semioticistas e artistas plásticos. O texto de Alfredo Bosi, Fenomenologia do Olhar, sintetiza bem tais idéias,
ao separar o substantivo olho do ato verbo verbal: olhar. Os versos de Manuel de Barros aguçam a
poetização das imagens enfatizando o sentido de “regarder’.
Referências
COSTA, Cristina. Ficção, comunicação e mídia: SENA: São Paulo, 2002.
GANDELMAN, Claude. Lê regard dans le texte. Méridiens- Klincksieck: Paris, 1986.
MACHADO. Arlindo. Máquina e Imaginário: O desafio das Poéticas Tecnológicas. EDUSP: São Paulo, 2011.
NOVAES. Adauto (org.). O olhar. Companhia das Letras: São Paulo, 1995.
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STRAUSS, Claude Lévi. Regarder Ècouter Lire.Plon: Paris, 1993.
PESSOA, Fernando. Obra Poética. Companhia Aguilar Editora:São Paulo, 1965
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