Resolução 2ª etapa UFMG 2005
GEOGRAFIA
UFMG 2005 - 2ª ETAPA
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Resolução 2ª etapa UFMG 2005
Analise esta seqüência de imagens, em que se
representa, esquematicamente, a evolução de um
fenômeno meteorológico ocorrido no Brasil, em 2004:
O Catarina dia-a-dia
FONTE: Folha de S. Paulo. 30 mar. 2004. Folha
Cotidiano, p. C1. (Adaptado)
Com base nas informações dessas imagens e em
outros conhecimentos sobre o assunto,
1. DESCREVA a evolução desse fenômeno no tempo.
2. CARACTERIZE esse fenômeno, ressaltando em
que ele difere de uma frente fria.
3. EXPLIQUE por que esse fenômeno, além das
graves conseqüências que implicou para o homem e
suas
atividades, causou tanto espanto e polêmica, mesmo
entre especialistas.
Resposta:
Agora, analise este bloco-diagrama, que mostra,
esquematicamente, as diferentes etapas do ciclo
hidrológico representado no fluxograma:
Observe os círculos em branco no bloco-diagrama.
A partir da análise do fluxograma e do bloco-diagrama,
faça o que se pede.
1. ESCREVA, em cada um dos círculos em branco no
bloco-diagrama, o número correspondente às etapas
do ciclo hidrológico representadas no fluxograma.
2. Suponha que a bacia hidrográfica em análise foi
ocupada por cultivos agrícolas anuais, o que resultou
em impactos ambientais – X, Y e Z –, conforme
indicado neste fluxograma:
1. O furacão Catarina teve seu centro de formação na
costa oriental do sul do Brasil, no oceano Atlântico, no
final do verão, onde foi monitorado permanentemente
por técnicos do Brasil e dos EUA, durante dias.
Apresentando desde o princípio um olho na faixa
central e com deslocamento para o continente, à
medida que se aproximava do continente, expandia em
área e violência. Ao atingir a costa RS/SC provocou
enormes danos físicos e perdas humanas.
2. Esse fenômeno é resultado de um centro de Baixa
Pressão (BP) oceânica com águas, quentes (+ 27°) que
promove ascensão de grande volume de vapor de água
na atmosfera, que ao alcançar altas altitudes gera um
centro de Alta Pressão (AP) descendente que é
alimentado pelo ar quente ascendente. Uma frente fria
resulta do encontro de massa de ar frio com uma
massa de ar quente, em que a primeira (a fria) se
desloca ou avança sobre a segunda (a quente). Essa
zona de contato é marcada por instabilidade
atmosférica.
3. Porque é o único caso de furacão no hemisfério sul.
Até então não havia registro de tal evento climático.
Meteorologistas brasileiros não entraram em consenso
sobre se o fenômeno era um furacão ou um ciclone
extra-tropical e técnicos americanos afirmaram desde
o principio ser um furacão de grau 1, o que tende a ser
o evento verdadeiro. Para outros um fenômeno
climático híbrido, com características que variavam
entre os dois fenômenos.
Analise este fluxograma, que representa parte do ciclo
hidrológico de uma bacia hidrográfica brasileira:
2
Resolução 2ª etapa UFMG 2005
IDENTIFIQUE e EXPLIQUE um dos possíveis
impactos ambientais que ocorrem em cada uma das
situações indicadas.
Impacto ambiental X
Impacto ambiental Y
Impacto ambiental Z
3.Indique dois procedimentos que podem minimizar os
efeitos negativos desses impactos ambientais.
Procedimento1:
Procedimento2:
chuva diretamente sobre o solo e reduzindo a
necessidade
de
grandes
volumes
de
agrotóxicos.
Analise este perfil biogeográfico, em que está
representado o quadro ambiental de uma unidade de
relevo da Região Norte brasileira:
Resposta:
1.
1
2
5
3
4
2. X: Erosão / esgotamento dos solos / assoreamento
dos rios (erosão laminar)
A água ao escoar sobre os solos remove sedimentos
que são transportados para as partes mais baixas do
terreno ou cursos d’água, assoreando-os, pois as
águas transportam sem muita resistência o horizonte
superficial dos solos. Em áreas de maior declividade e
sem vegetação tal processo se acentua.
Y: Contaminação do lençol freático por agrotóxicos.
O uso intensivo de agrotóxicos nos sistemas agrícolas
resulta em graves problemas aos recursos hídricos
subterrâneos, que podem ser contaminados devido à
infiltração da água contaminada nesses ambientes.
Além de acentuar a retirada de nutrientes do solo por
lixiviação.
Z: aumento da poluição / resíduos tóxicos nos rios,
córregos e lagos.
A água que alcança os rios e córregos carregados de
elementos tóxicos, comprometem a vida aquática e o
homem que retira dos sistemas hídricos, parte do seu
sustento. Além de gerar ambientes eutróficos para
determinadas espécies, que consomem muito oxigênio
da água (que já se encontra comprometida)
eliminando outras espécies.
3.
!
!
!
!
FONTE: SCHÄFER, Alois. Fundamentos de ecologia e
biogeografia das águas continentais. Porto Alegre:
Editora da UFRGS. p. 381.
A partir dessa análise, faça o que se pede.
1. NOMEIE a unidade de relevo retratada nesse perfil.
JUSTIFIQUE sua resposta.
Unidade de relevo:
Justificativa
2. IDENTIFIQUE o aspecto climático que justifica as
variações espaço-temporais do nível das águas que
ocorrem nesse tipo de relevo.
3. As características mostradas nesse perfil
possibilitam a delimitação de três zonas ambientais
distintas.
DELIMITE, no perfil representado, com traços
verticais, os limites dessas três zonas.
JUSTIFIQUE a delimitação que você fez.
Resposta:
1. Planície de inundação ou várzea. Corresponde a
parte mais baixa do terreno onde é comum o
transbordamento da água na época de cheias, onde se
acumulam sedimentos transportados pelos rios.
2. Regime de chuvas marcada por certa sazonalidade
das chuvas na região amazônica durante o ano.
3.
Manutenção de áreas verdes nativas em parte
do terreno;
O
plantio
em
curvas
de
nível
ou
terraceamento;
O cultivo orgânico em substituição ao uso de
agrotóxicos;
Técnica de plantio direto onde serão utilizados
os restos do cultivo anterior (que são picados e
deixados sobre o solo, protegendo-o da
erosão) e ao diminuir o impacto da gota de
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Resolução 2ª etapa UFMG 2005
B
C
A
A: Corresponde a calha do rio, ambiente de água
corrente sem a ocorrência de vegetação.
B: Mata de igapó. Sempre inundada pela água
estagnada, e que funciona como fator de seleção, onde
poucas espécies são encontradas.
C: Mata de Várzea. Sujeita a inundações periódicas,
onde há maior diversidade de espécies, destaque para
a seringueira.
contraposição com o dinamismo econômico das demais
áreas.
2. Porque a divisão atual do IBGE obedece o conceito
de macrorregiões, definidos a partir de uma
combinação
de
características
econômicas,
demográficas
e
naturais,
desconsiderando
as
peculiaridades das micro e mesorregiões. Assim
dificilmente seriam corrigidos os elementos marcantes
dessa diversidade espacial.
Analise esta afirmativa:
Até os anos 1980, a Geografia da Fome Mundial
assinalava que a Ásia, sobretudo China e Índia, sofria
com
graves problemas de desnutrição de suas populações.
Na atualidade, essa configuração transferiu-se para
o Continente Africano.
A partir dessa análise, CITE e EXPLIQUE dois
processos que justificam a modificação da Geografia da
Fome no Mundo, nesse período,
1. ocorridos no Continente Asiático.
2. ocorridos no Continente Africano.
Resposta:
Para caracterizar as diferentes divisões do Brasil em
regiões, o IBGE procurou adotar o critério de
homogeneidade – ou seja, de prevalência de um fator
físico, humano ou econômico.
Compare estes mapas, em que estão representadas
duas divisões regionais do Brasil elaboradas e
modificadas em diferentes momentos do século
passado e em vigor nas datas indicadas:
1. Fator 1: Expansão da modernização econômica
asiática.
Explicação: A partir de meados dos anos 70, a
expansão econômica com base industrial, possibilitou
maior acesso aos alimentos, devido as melhores
condições de vida da população.
Fator 2: Expansão da importação de alimentos.
Explicação: O crescimento econômico dos paises da
Ásia possibilitou aos governos e setores privados o
expressivo aumento das taxas de importação de
alimentos, garantindo alimento a um número maior de
pessoas.
2. Fator 1: O baixo índice de investimentos ao setor
agrícola.
Explicação: O expressivo incremento demográfico da
África, não é acompanhado por um crescimento
proporcional da produção de alimentos, resultando em
um percentual de alimentos per cápita inferior à
década de 70.
1. A partir da comparação dessas divisões regionais,
A) CITE um espaço geográfico em desacordo com a
homogeneidade física no mapa I.
JUSTIFIQUE sua resposta.
B) CITE um espaço geográfico em desacordo com a
homogeneidade humano-econômica no mapa II.
2. EXPLIQUE por que a divisão regional vigente na
atualidade não corrigiu os problemas relativos à
heterogeneidade de espaços incluídos em uma mesma
região.
Resposta:
1. A)Espaço geográfico: Bahia.
Justificativa: As condições climáticas da região
predominantemente semi-árida em contraposição com
o regime regular das chuvas das demais áreas da
região
leste.
Pode-se
associar
também
às
características vegetacionais.
B) Espaço geográfico: A faixa do estado MG.
Justificativa: As precárias condições sócio-econômicas
da população e o baixo crescimento industrial em
Fator 2: Os constantes conflitos civis, étnicos ou
separatistas.
Explicação: O aumento expressivo dos conflitos na
região comprometeu o frágil sistema agrícola regional,
ao desintegrar a frágil economia agrícola de
subsistência tribal.
Fator 3: Expansão das áreas de seca/desertificação
região-SAHEL.
Explicação: O avanço da desertificação comprometeu a
área disponível para a agricultura. O avanço constante
do Saara agrava ainda mais a produção de alimentos
na África.
Observe as regiões subcontinentais I e II, mostradas
nestas figuras:
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Resolução 2ª etapa UFMG 2005
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Resolução 2ª etapa UFMG 2005
As regiões I e II abrigam países considerados, hoje,
economias emergentes. Em ambas, o processo de
industrialização deu-se no século XX, mas, em cada
uma
delas,
optou-se
por
um
modelo
de
industrialização,
o que levou a resultados significativamente distintos.
1. ASSINALE com um X, no mapa, um país de cada
região cuja economia se pode caracterizar como
emergente.
2. IDENTIFIQUE o país que você assinalou em cada
uma das regiões e CITE o modelo de industrialização
nele adotado.
3. A) RESPONDA:
Qual dos modelos de industrialização citados foi mais
bem-sucedido?
B) APRESENTE duas razões que expliquem o sucesso
desse modelo.
Resposta:
1. Vide figura.
2. País assinalado na região I: Brasil (poderia ser a
Argentina ou México)
Modelo de industrialização adotado: O modelo de
substituição das importações
País assinalado na região II: Coréia do Sul (poderia
ser Cingapura, Taiwan...)
Modelo de industrialização adotado: O modelo de
plataforma de exportação.
3. A) O modelo da região II: Plataformas de
exportação.
B) Razão 1: A estruturação das suas economias
voltadas para o mercado externo. O mercado externo
mais exigente obrigou esses países a investir em
tecnologias dinamizando suas economias.
Razão 2: A implantação de corporações transnacionais
nesses países, onde essas empresas criaram seus
quartéis-generais para a Ásia, atraindo fortes
investimentos para a região.
Leia este trecho:
Os simplificadores não desapareceram no século XXI.
Como no passado, eles operam por meio do que
poderíamos chamar de distorção holística, a tendência
a ver o todo como um conjunto indiferenciado,
sem perceber que qualquer totalidade é tensa, que
qualquer harmonia é aparente, que todo conjunto é
fraturado por forças contraditórias. É preciso opor a
esses simplificadores o que [o filósofo francês]
Edgar Morin chama de pensamento complexo.
No que diz respeito à segunda frente – a atitude com
relação a Israel –, a distorção holística tem uma
extensão amplíssima. Ela consiste na criação de um
todo metafísico, sem articulações internas, que
compreende o governo de Israel, a sociedade
israelense e o povo judeu.
ROUANET, Sérgio Paulo. Os terríveis simplificadores.
Folha de S. Paulo. 4 jan. 2004. Caderno
Mais, p. 4-5.
1. Com base na leitura desse trecho e em outros
conhecimentos sobre o assunto, INDIQUE duas
simplificações que ocorrem no tratamento do conflito
do Oriente Médio
A) em relação à situação de Israel.
B) em relação à situação do mundo muçulmano.
2. EXPLIQUE o que significa aplicar o “pensamento
complexo” à situação atual do Oriente Médio.
Resposta:
1. A) Simplificação1: Associar a causa do conflito
exclusivamente às questões religiosas, uma disputa
eterna do judaísmo pela terra dos ancestrais.
Simplificação 2: A condenação do governo de Israel e
dos próprios judeus pela esquerda mundial, podendo
gerar uma nova onda anti-semita.
B) Simplificação 1: Todo o individuo que professa o
islamismo é anti-americano e por extensão antisemita.
Simplificação 2: A postura norte-americana de declarar
guerra no mundo islâmico, sem considerar que a vasta
maioria da população muçulmana não está associada
ao terrorismo.
Simplificação 3: Considerar heróis os jovens suicidas
palestinos sem avaliarem as causas reais do ato de
atrocidade por eles cometidos.
2. Aplicar o pensamento complexo ao Oriente Médio,
significa olhar a diversidade humana, cultural que
caracteriza a região. Não enxergar o Oriente Médio,
apenas como uma região rica em petróleo, como uma
população que professa o fanatismo religioso. Mas uma
região marcada por uma riqueza de cultura, de um
passado glorioso, que não soube acompanhar o ritmo
da humanidade e se perdeu em seus clãs, tribos e se
afastaram de um padrão de nação que os povos
buscam alcançar. É necessário se inspirar nos
aviadores israelenses que se recusam a atacar
territórios palestinos. Eles sabem que a complexidade
que envolve a região não se resume a ataques
recíprocos, nas necessidades de serem tolerantes com
suas diferenças e anseios.
Em 1989, a desintegração do bloco soviético, criou,
para os países da Cortina de Ferro, a possibilidade
de um “retorno à Europa”.
No caso da Alemanha Oriental, esse retorno deu-se
quase imediatamente. Os demais países, porém,
tiveram
que se empenhar, nos últimos 15 anos, para se
adaptar às exigências – burocráticas inclusive –, da
economia
do bloco mais maduro e bem-sucedido dos tempos
atuais.
Em maio de 2004, os ex-integrantes da Cortina de
Ferro e mais dois países passaram a fazer parte da
União
Européia (UE). Então, a julgar pelos indicadores
socioeconômicos, a UE empobreceu. No entanto sua
população cresceu em 30% e esse aumento não se
expressa apenas numericamente – ele é notável e
enriquecedor no que diz respeito à diversidade
humana.
1. CITE dois fatores que justificam a expressão
“retorno à Europa” para os ex-integrantes da Cortina
de Ferro.
Fator 1:
Fator 2:
2. CITE dois elementos constitutivos dessas
populações que se integraram à UE que podem ser
considerados
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como enriquecedores da diversidade humana nesse
bloco.
Elemento 1:
Elemento 2:
Respostas:
1.
Fator 1: A volta à órbita econômica capitalista
predominante no bloco europeu. Esses países tendem
a ser “europeizados”.
Fator 2: O distanciamento em relação à Rússia, mais
importante economia resultante da antiga URSS, que
encontra-se parcialmente na Ásia.
2.
Elemento 1: Com os novos membros uma pluralidade
maior de línguas, culturas, religiões e costumes
comporão bloco
Elemento 2: Os novos integrantes são vítimas de uma
experiência socialista devastadora imposta pela exURSS e suas populações apresentam condições de vida
precárias em relação à população dos membros
tradicionais do bloco europeu.
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Resolução 2ª etapa UFMG 2005
ANEXO
ESQUERDA E SIMPLIFICAÇÃO
Sergio Paulo Rouanet
"Os terríveis simplificadores", copyright Folha de
S. Paulo, 04/01/04
"Creio que foi o historiador Jacob Burckhardt que disse,
no final do século 19, que o século seguinte seria o dos
‘terríveis simplificadores’. A profecia de Burckardt se
realizou. Os dois principais simplificadores do século 20
chamaram-se Adolf Hitler e Josef Stálin. Ambos
simplificaram a história, reduzindo-a a um confronto
maniqueísta entre o bem e o mal, e o resultado foi a
produção em massa de seres humanos radicalmente
simplificados, convertidos em cinzas e ossadas. Os
simplificadores não desapareceram no século 21. Como
no passado, eles operam por meio do que poderíamos
chamar de a distorção holística, a tendência a ver o
todo como um conjunto indiferenciado, sem perceber
que qualquer totalidade é tensa, que qualquer
harmonia é aparente, que todo conjunto é fraturado
por forças contraditórias. É preciso opor a esses
simplificadores o que [o filósofo francês] Edgar Morin
chama de ‘pensamento complexo’, que tem entre suas
características a de evitar a formação dos falsos
universais,
das
generalizações
espúrias.
Os
simplificadores de hoje atuam em várias frentes, entre
as quais duas são especialmente importantes: a
relação com os Estados Unidos e a relação com Israel.
Totalidade abstrata
Na primeira frente, a distorção holística tem como foco
uma totalidade abstrata chamada ‘Estados Unidos’.
Com isso, os simplificadores se esquecem de que essa
totalidade é composta de governo e sociedade, de que
essas duas esferas muitas vezes se opõem e de que a
sociedade é altamente diferenciada, não podendo ser
julgada
como
um
todo
nem
positiva
nem
negativamente.
Os simplificadores não se inquietam com essas
diferenciações: para eles só existe um conjunto
homogêneo, que eles chamam de ‘os americanos’,
representado por um presidente chamado George W.
Bush. Essa identificação governo-país vale tanto para
os que atacam Bush quanto para os que os defendem.
A indignação contra o grupo de extrema direita que
tomou o poder na Casa Branca e no Pentágono,
composto por fanáticos religiosos, por acadêmicos
neoconservadores e por representantes de interesses
empresariais, se converte muitas vezes numa
condenação indiscriminada do país e do seu povo. A
posição anti-Bush passa a ser uma posição
antiamericana. Com isso, perdem-se de vista as
clivagens internas dentro da sociedade americana, que
inclui os que fizeram e apoiaram a guerra contra o
Iraque, mas também uma porcentagem crescente dos
que se opõem à ocupação daquele país. Identificar a
administração Bush com os EUA tem também o efeito
de tornar invisível o corte qualitativo que ela
representa com o passado.
Por maiores que sejam as continuidades entre o
unilateralismo de Bush e o velho intervencionismo de
estilo imperialista, há uma enorme diferença entre a
antiga política externa herdada do período da Guerra
Fria, que bem ou mal reconhecia a existência do resto
do mundo, e a nova doutrina estratégica dos EUA, que
proclama a legitimidade de todos os meios
considerados necessários para manter a hegemonia
mundial de Washington. Mas os piores simplificadores
vêm do campo dos que apóiam Bush, porque cometem
duas vezes a distorção holística, e não apenas uma.
Como seus adversários, seu objeto é um universal
vazio, chamado ‘Estados Unidos’, com a única
diferença de que têm uma atitude positiva com relação
a esse universal. Mas, além disso, aplicam aos
adversários de Bush a mesma visão distorcida, criando
um falsa totalidade, que mascara as diferenças reais.
Para eles, todos os críticos não-americanos de Bush
são culpados de antiamericanismo. Do seu ponto de
vista, não deixam de ter razão, porque, se de fato o
governo Bush se identifica com o país, atacar Bush é
ser antiamericano. Mas, com isso, seu campo visual
exclui a percepção dos outros críticos, dos que não
somente não são antiamericanos, mas criticam Bush
exatamente por levarem a sério os valores de
liberdade e democracia embutidos no Iluminismo
norte-americano.
Esses
simplificadores
pró-Bush
floresceram na França, na esteira dos atentados do 11
de Setembro. Os ‘novos filósofos’, hoje não tão novos
assim, fizeram questão de dizer que as críticas à
invasão do Iraque nada mais eram que a ressurreição
dos velhos clichês do ‘antiamericanismo vulgar’,
endêmico entre os intelectuais europeus desde os
tempos da Guerra Fria. Jean-François Revel publicou
um livro deplorando o que ele considera a ‘obsessão’
antiamericana. A verdade é que, se muitos críticos de
Bush se enquadram nessa categoria, em sua maioria
os críticos da invasão do Iraque estavam simplesmente
condenando uma guerra imoral e ilegal, o que era seu
direito e, quase diria, seu dever. No que diz respeito à
segunda frente -a atitude com relação a Israel-, a
distorção holística tem uma extensão amplíssima. Ela
consiste na criação de um todo metafísico, sem
articulações internas, que compreende o governo de
Israel, a sociedade israelense e o povo judeu. Essa
homogeneização encerra o risco de que uma crítica em
si legítima ao governo de Ariel Sharon possa degenerar
numa contestação a Israel -e mesmo numa posição
anti-semita- e no risco simétrico de que qualquer
crítica a Sharon, mesmo sem essas características,
possa
ser
interpretada,
erroneamente,
como
antiisraelense e anti-semita. Os dois riscos estão
ficando cada vez mais concretos. Boa parte da
esquerda mundial está indo além da crítica a Sharon:
ela está demonizando o próprio Estado de Israel. E
está fazendo algo de infinitamente grave: pelo menos
por omissão, está sendo cúmplice de uma nova onda
anti-semita, a mesma que tem incendiado sinagogas
na França e na Turquia. Não é a primeira vez que
posições anti-semitas são defendidas por pessoas que
se acreditam de esquerda. Afinal, muitos socialistas
europeus da época do caso Dreyfus achavam estar
sendo progressistas quando denunciavam conspirações
de banqueiros judeus, comandadas pela família
Rotschild.
Anti-semitismo no Brasil
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Resolução 2ª etapa UFMG 2005
Mas é espantoso que essa tendência esteja renascendo
hoje, depois de Auschwitz. O Brasil não tem estado
imune a essas perversões. Desde o Estado Novo há
entre nós um anti-semitismo de cunho fascista
(prolongando o antijudaísmo religioso do período
colonial), difundida no tempo de Vargas por figuras
como Gustavo Barroso. Mas está se generalizando,
cada vez mais, uma variedade de anti-semitismo que
se pretende de esquerda.
Por exemplo, um partido socialista tem entre seus
quadros um editor neonazista que nega a realidade do
Holocausto. O direito desse neonazista de divulgar
suas opiniões foi defendido, em nome da liberdade de
expressão, por um juiz cuja origem ideológica era
aparentemente de esquerda. Tenho ouvido jovens
entusiastas, com impecáveis credenciais petistas,
exprimirem seu repúdio a Sharon dizendo coisas que
poderiam ter saído do Protocolo dos Sábios de Sion.
Mas não faltam também simplificadores no campo
oposto. De novo, entra em jogo nossa velha conhecida,
a distorção holística. Do fato de que alguns adversários
de Sharon sejam também inimigos de Israel e antisemitas, muitos defensores de Israel concluem que
qualquer crítica às atuais políticas governamentais
daquele país tem características antiisraelenses e antisemitas. Vêem anti-semitas em toda parte, como os
anti-semitas vêem judeus em toda parte. Esses
simplificadores podem ser perfeitamente capazes de
pensamento complexo em outras áreas, mas o tema
do judaísmo é demasiadamente sensível, evoca
associações excessivamente doloridas, para que nessa
questão eles consigam fazer as diferenciações
necessárias.
Essas simplificações não constituem apenas obstáculos
ao conhecimento da realidade: são também direta ou
indiretamente responsáveis por terríveis catástrofes
humanas. Foi uma simplificação desse tipo, inspirada
por um antiamericanismo primário, que levou ao
atentado contra as torres gêmeas, que alimentou a
alegria obscena com que milhares de pessoa
comemoraram esse ato de barbárie, e que fez com que
muitos intelectuais no fundo se regozijassem com o
ataque.
É uma simplificação assim, inspirada pelo ódio contra
Israel, que está na raiz dos abomináveis atentados
suicidas praticados pelos palestinos e que faz com que
muitos brasileiros que se dizem racionais dêem
estatuto heróico aos ‘mártires’, ao invés de
lamentarem a atrocidade do seu ato de fanatismo.
São também simplificadores ‘terríveis’, ‘schrecklich’, no
exato sentido que Burckardt deu à palavra, os
americanos que na prática declararam guerra ao
mundo islâmico, sem se darem conta de que a vasta
maioria da população muçulmana se dissociou do
terrorismo, e os membros do governo israelense que
tratam toda a população palestina como se fosse
composta
de
terroristas.
São
terrivelmente
simplificadores,
enfim,
os
que
rotulam
de
antiamericanos e anti-semitas todos os críticos de Bush
e de Sharon. Pensamento complexo Chegou a hora de
recuperar a capacidade de fazer distinções. Chegou a
hora de acabar com as simplificações. Chegou a hora
do pensamento complexo.
No caso da relação com os Estados Unidos, uma
esquerda mundial que se deixe guiar pela lógica do
pensamento complexo saberá distinguir entre o
governo Bush e os segmentos crescentes da população
americana que se opõem à política belicista da atual
administração. Seus interlocutores serão Noam
Chomsky, Susan Sontag e Michael Moore, e não os
pastores fundamentalistas e os magnatas do petróleo
que hoje em dia circulam nos corredores de
Washington.
No caso da relação com Israel, essa mesma esquerda
saberá também distinguir entre governo e sociedade e,
portanto, não verá esse país apenas em sua fachada
estatal, monolítica, e sim em sua realidade social,
fragmentada, amálgama de diferenças culturais e
políticas,
em
que
comunidades
tradicionalistas
coexistem com as elites culturais mais sofisticadas do
mundo. Saberá também fazer a distinção entre Israel e
o judaísmo e, portanto, não imaginará que os
interesses do Estado de Israel sejam representados
pelos
partidos
religiosos
ultra-ortodoxos,
que,
invocando as promessas feitas por Deus a Abraão, se
opõem a qualquer retirada dos territórios ocupados.
Em consequência, ela se identificará com os grupos de
mentalidade secular que desejam sinceramente o
entendimento com os árabes, e não com a coligação de
partidos de direita e de extremistas religiosos, dirigida
pelo primeiro-ministro Sharon. Seus interlocutores
serão pessoas como o romancista Amos Oz e o
cineasta Amos Gitai ou os aviadores que se recusaram
a atacar territórios palestinos. Seu modelo poderá ser
o plano de paz conhecido como Iniciativa de Genebra,
recém-negociado entre pessoas de boa vontade, com
participação de políticos israelenses.
Essa iniciativa, mesmo simbólica, mostra que ainda há
lugar para a razão, num conflito complexo que duas
intolerâncias rivais parecem condenar à mais extrema
das formas de simplificação -o extermínio mútuo."
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Equipe de Correção
Prof.(a) Suely
Projeto Gráfico e Coordenação de Produção
Rafael Tunes
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Antônio A. Vitor
Diagramação
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Débora Watanabe
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