O Ministro Como Pastor de Ovelhas Charles Jefferson editora batista regular “CONSTRUINDO VIDAS NA PALAVRA DE DEUS” Rua Kansas, 770 - Brooklin - CEP 04558-002 - São Paulo - SP 2013 O Ministro Como Pastor de Ovelhas Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida, armazenada em sistema de processamento de dados ou transmitida em qualquer forma ou qualquer meio – eletrônico, mecânico, fotocópia, gravação ou qualquer outro – exceto para citações resumidas com o propósito de rever ou comentar, sem prévia autorização dos editores. Revisão: Simone Granconato Supervisão de produção: Edimilson Lima dos Santos Diagramação / Capa: Edvaldo Matos Primeira edição em português: 2013 ISBN EDITORA BATISTA REGULAR DO BRASIL Rua Kansas, 770 - Brooklin - CEP 04558-002 - São Paulo - SP Telefone: (011) 5041-9137 – Site: www.editorabatistaregular.com.br Conteúdo 1. A ideia de pastor na escritura e na história.......................4 2. O trabalho do pastor de ovelhas.......................................28 3. A oportunidade do pastor..................................................52 4. As tentações do pastor........................................................77 5. A recompensa do pastor...................................................103 1 A Ideia de Pastor na Escritura e na História De todos os títulos que têm sido escolhidos para os embai- xadores do Filho de Deus, o de “pastor” é o mais popular, o mais belo e o mais amplo. Bispo, presbítero, pregador, sacerdote, clérigo, reitor, vigário, ministro, todos esses foram usados no passado, e ainda estão em uso, mas nenhum deles é tão satisfatório ou tão suficiente como o de “pastor”. O título de “bispo” entrou para a igreja através do mundo gentílico, e foi primeiramente separado para designar o posto especial de ministro — perdendo assim o campo de aplicação que anteriormente possuía. No sentido original da palavra, bispo é alguém que supervisiona e superintende. Sendo assim, o chefe de cada congregação poderia ser corretamente chamado de bispo. Tal uso, no entanto, dentro da atual conjuntura poderia dar uma impressão errada. “Presbítero” chegou à igreja por meio do judaísmo. Devido ao fato do nosso Novo Testamento refletir tanto o mundo dos judeus quanto o dos gentios, os termos presbítero e bispo encontram-se lado a lado em suas páginas. No início, bispo e presbítero eram títulos sinônimos conferidos ao mesmo oficial. Com o tempo, no entanto, os bispos da igreja A Ideia de Pastor na Escritura e na História 5 local foram perdendo o título de “bispo”, nome este que foi sendo depois atribuído exclusivamente aos chefes das dioceses ou distritos. Presbítero, o nome mantido pelo líder da congregação local, traz consigo a ideia de idade. Somente homens de idade poderiam ser anciãos na igreja judaica. Na igreja cristã, a idade não era a principal qualificação para o ofício, ou um atributo essencial para aqueles que lideravam. A palavra “ancião” não enfatiza aquilo que é primordial no trabalho cristão; ela chama mais atenção para os anos que um homem já viveu do que para a obra que ele foi chamado para fazer. “Sacerdote” é um título emprestado de ambos, judaísmo e paganismo, e, em torno dele, anos de controvérsia têm se arrastado. Tem sido sempre argumentado por muitos que a ideia de sacerdote é estranha à religião cristã, e que chamar de sacerdote o líder de uma igreja cristã é introduzir uma concepção que provoca o erro. É significativo que tanto Jesus quanto seus apóstolos cuidadosamente evitassem tal palavra. Somente as seitas ou facções da igreja de Cristo é que hoje fazem uso dela. “Pregador” é também um título regional confinado àquelas regiões do mundo cristão nas quais a pregação é considerada a principal, se não a única, obra ordenada dos céus para um embaixador de Cristo. O uso de tal título implica em que o chefe da igreja seja preeminentemente um orador, e que no ato da oratória ele esteja executando a função culminante de seu ofício. “Clérigo” é um nome um tanto indiferente, focando a atenção não sobre a personalidade do homem, mas sobre seu ofício. “Reitor” é para muitos um título repulsivo, já que enfatiza a ideia de governar, e traz consigo desagradáveis reminiscências dos dias em que os líderes eclesiásticos de temperamento tirânico eram senhores sobre os santos de Deus. 6 O Ministro Como Pastor de Ovelhas “Vigário”, o título favorito de George Herbert e de muitos outros, em nosso mundo moderno, tem adquirido um tom um tanto depreciativo. Quando querem falar jocosamente acerca do ministro, normalmente o chamam de “vigário”, com aquele tom familiar que ridiculariza e exprime riso. A palavra “vigário” é realmente a palavra “pessoa”, e, em épocas quando o representante da igreja era, na paróquia, aquela pessoa augusta e imperial, havia uma conveniência no título que se perdeu desde longa data. Nestes dias democráticos em que o ministro desceu de seu pedestal, é comum uma reverência zombeteira que brinca com o título de “vigário”. Vigário tem se tornado um tipo de piada. “Ministro” é, como um todo, um título mais amplo e mais adequado do que os sete supra mencionados, mas tem a desvantagem de ser o mesmo título pelo qual o estado nomeia os mais altos de seus oficiais. Quando alguém fala do “ministro”, é impossível ao ouvinte, a partir dessa palavra somente, identificar se é o ministro da igreja ou um ministro do governo. Uma das limitações do nome é sua ambiguidade, e outra é sua falha em discriminar. Ele não distingue o líder de seus seguidores. Ele não traça uma linha demarcante entre o general e seus soldados. É uma palavra que se estende a todos os seguidores de Jesus. Servir é a essência da vida cristã. Todos os cristãos são ministros ou servos. Falar de “o ministro” deve implicar que há somente um, ainda que possa haver tantos quantos são os membros da igreja. Alguém, às vezes, pode se perguntar se as pessoas comuns de nossas igrejas não teriam sido mais fervorosas em ministrar umas as outras e também à comunidade, se o nome “ministro” não tivesse sido monopolizado por um só homem. O uso exclusivo do título parece justificar os membros indolentes da igreja em seu hábito de considerar o pastor como o único obreiro compelido a trabalhar nela. A Ideia de Pastor na Escritura e na História 7 Mas quando nos deparamos com a palavra “pastor”, chegamos a um título sem mácula ou ruga ou outra coisa semelhante. Aqui está uma palavra que tem atravessado os séculos sem perda de significado e livre de difamação. É o único título que é estimado e reverenciado em todo aprisco do grande rebanho de Cristo. Nas comunidades grega, romana e anglicana, na luterana, reformada e em outras grandes partes do corpo de Cristo, “pastor” é um nome que não provoca nenhuma ofensa. Roma gosta da palavra. Seus sacerdotes encarregados de igrejas são chamados de “pastores”. A Igreja da Inglaterra gosta da palavra; ela chama seus reitores de “pastores”. Igrejas que geralmente chamam seus líderes de ministros e pregadores, também os chamam de “pastores”, relutantes de se desfazerem de tão glorioso nome. “Pastor” é uma palavra entendida em toda parte do mundo. A esse antigo título, a igreja de Cristo está belamente unida. Assim como a oração do Pai Nosso e os Dez Mandamentos, ele é um tesouro ao qual nenhum grupo de cristãos está disposto a abandonar. Divisões nunca ocorreram por causa dele. Muitas heranças preciosas têm sido despedaçadas, mas essa permanece intacta. Quando chegar o tempo da reunião da cristandade, e homens de bem começarem a perguntar qual nome será dado àqueles servos do Senhor que forem encarregados da direção das congregações locais, quem há de duvidar que a palavra sobre a qual se chegue a um consenso será a mesma palavra que o Senhor escolheu para si mesmo quando disse: “Eu sou o Bom Pastor”. Um dos segredos da fascinação de “pastor” como um título é que a palavra nos leva diretamente ao próprio Cristo. Esse nome nos associa automaticamente a ele. De acordo com o que o Novo Testamento nos diz, Jesus nunca chamou a si mesmo de sacerdote, ou de pregador, ou de reitor, ou de clérigo, ou de bispo, ou de ancião; mas ele gostava de pensar em 8 O Ministro Como Pastor de Ovelhas si mesmo como um pastor. A ideia de pastor estava frequentemente em sua mente. Quando ele contemplou as multidões na Galileia, veio à sua mente a imagem de ovelhas que não têm pastor. Ele disse aos homens, repetidas vezes, que havia sido enviado para reunir e salvar as ovelhas perdidas da Casa de Israel. Ele considerou seus seguidores como ovelhas, e, olhando ao longe, viu outras ovelhas que também eram suas. ”Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então haverá um rebanho e um pastor.” Quando Ele pensou acerca de si mesmo no mundo vindouro, assentado em um trono com todas as nações congregadas perante si, mesmo lá, ele ainda era um pastor, fazendo coisas que os pastores fazem. Logo no início da história hebraica, a palavra pastor tornou-se uma metáfora. O guarda das ovelhas era uma pessoa tão proeminente naqueles dias que se tornou um tipo de servo mais elevado de Jeová, um símbolo da expressão de altos ideais de serviço. Agradáveis recordações foram reunidas ao redor da palavra, e homens a ela associaram significados raros e preciosos. O sacerdote era chamado de pastor, e assim também o profeta, e também, depois, o nome incidiu sobre o príncipe ou rei. Todo o homem em uma posição exaltada, confiado com uma responsabilidade pública, era coroado com o título de “pastor”. Tão bela era a figura e tão rico seu conteúdo, que logo alguém a aplicou até para Deus. Reis e príncipes, sacerdotes e profetas aqui sobre a terra eram os subpastores, e nos céus havia o pastor de todos — Jeová. Um gênio poético ensinou todos os seus conterrâneos a cantar: “O Senhor é o meu pastor, nada me faltará”. Quando a nação caía em dificuldades, e calamidades a tragavam, os santos clamavam: “Dá ouvidos, ó Pastor de Israel, tu que conduzes a José como um rebanho...”. Antes dos homens ousarem pensar em Deus como seu Pai, eles o chamavam de seu Pastor. O A Ideia de Pastor na Escritura e na História 9 pastoreio divino era um dos degraus na brilhante escadaria que o mundo escalava rumo à ideia de paternidade divina. Mas, embora houvesse um bom pastor nos céus, não havia nenhum bom pastor sobre a terra. Todos os pastores de Israel, um após o outro, trouxeram desapontamento. Eles não cumpriram suas responsabilidades. Falharam em alimentar o rebanho. Não conduziram-no sabiamente. Não o podiam salvar. Mas o coração hebreu não se desesperou. Ele se atreveu a sonhar com um pastor ideal que certamente viria. Um Messias havia sido prometido e ele seria um pastor. Ele iria guiar, alimentar e salvar as ovelhas. No decorrer de muitas gerações tal figura do Messias-Pastor passou rapidamente diante das mentes dos profetas de Israel. Eles o pintaram com cores que, no final, queimavam-se dentro da retina dos olhos da nação. Quando pintavam quadros de pastores maus, sempre penduravam um outro quadro, o quadro do pastor que era bom. Quando queriam criticar um rei indigno ou condenar um sacerdote infiel, eles o comparavam com o pastor que Deus havia prometido. Era o retrato do bom pastor que sustentava o coração da nação. “Como pastor, apascentará o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos e os levará no seio; as que amamentam ele guiará mansamente.” Desta forma eles contrastavam o Messias-Pastor com os pastores que haviam sido impacientes, egoístas e cruéis. Foi a homens cujos olhos estavam repletos desse belo quadro e cujos corações ficavam admirados por essa emocionante expectativa, que Jesus se referiu quando disse: “Eu sou o bom pastor. Antes de mim vieram roubadores e ladrões, homens que têm cometido todas as abominações que Ezequiel, Zacarias e outros narraram, mas eu sou o bom pastor. Conheço cada ovelha pelo nome. Dou segurança, liberdade e sustento para todas. Vou entregar minha vida pelas ovelhas.” Jesus tinha muitas metáforas pelas quais explicava sua pessoa e seu ofício, mas a 10 O Ministro Como Pastor de Ovelhas metáfora que ele mais gostava de usar para pintar seu retrato era a do “pastor”. Da mesma forma como ele escolheu esse título para si mesmo, ele também o deu ao líder dos apóstolos. Pedro era um pescador e poderia ter entendido melhor, presumivelmente, a linguagem nativa dos pescadores; mas Jesus, em sua incumbência final para o filho de Jonas, usou somente o vocabulário do aprisco: “Apascente minhas ovelhas. Pastoreie meu rebanho. Alimente minhas ovelhas.” Em outras palavras: “Seja um pastor e faça o trabalho de um pastor”. O grande pastor das ovelhas, ao conceber uma ordem a qual ele considerou suficiente para guiar e encorajar os líderes da igreja cristã até o fim dos tempos, usou somente a linguagem do pastor. A história da igreja começa com Jesus dizendo ao líder que estava encabeçando a obra de discipular as nações: “Eu sou um pastor; seja um pastor também”. Pedro jamais esqueceu o que o Senhor lhe disse aquela manhã na areia da praia. Assim como o Mestre, daquele momento em diante ele passou a olhar os homens sempre com os olhos de um pastor. “Estáveis desgarrados como ovelhas”, ele escreveu para uma congregação de convertidos seus, “agora, porém, vos convertestes ao Pastor e Bispo da vossa alma”. Foi o Bom Pastor que encontrou Pedro e que a ele confiou a sua obra. Este era o Bom Pastor por cujo retorno o apóstolo aguardava. O Supremo Pastor está voltando, por isso Pedro escreve para os pastores das igrejas: “Pastoreai o rebanho que há entre vós. Tornai-vos modelos do rebanho, e quando o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória.” Pedro fez todo o seu trabalho, não sob os olhos de um grande capataz, mas sob o gentil e gracioso reflexo do Pastor cujo deleite era buscar e salvar aquele que se havia perdido.