Gestão Florestal - Agir antes que seja tarde Terça, 04 Agosto 2009 09:11 - Actualizado em Terça, 04 Agosto 2009 09:19 Este ano, os incêndios florestais ainda não ocuparam diariamente as páginas dos jornais. Mas isso não significa que o problema esteja resolvido…A questão da gestão florestal coloca-se na linha de ponta dos desafios para o sector que, para além das mais valias económicas não pode esquecer os benefícios ambientais que inegavelmente se associam ao verde da floresta. O recurso florestal pode agora ser certificado garantindo a marca da sustentabilidade. Mas mais do que uma certificação, é preciso tornar a gestão florestal uma realidade. Floresta: um recurso económico, um valor ambiental A floresta é parte indissociável da “imagem de marca” do nosso País. A cada região conseguimos corresponder um tipo de árvore, a cada paisagem conseguimos atribuir o “tom de verde” apropriado. Para além de ser um elemento marcante na paisagem portuguesa, a floresta tem também um valor ecológico mensurável quer pela biodiversidade associada quer pela importância na protecção do solo, produção de oxigénio e regulação climática. Por sua vez, as actividades associadas à exploração florestal como a produção de madeira e de cortiça, ocupam um lugar de destaque na economia portuguesa. Feitas as contas, os cerca de trinta e oito por cento de floresta que ocupam o nosso território deveriam estar no “centro das atenções”. Espécies como o pinheiro bravo, o sobreiro e o eucalipto ocupam, por esta ordem, as áreas florestais de maior importância em termos da sua dimensão. Segundo os dados consultados na página Internet dedicada ao Programa para o Reconhecimento de Sistemas de Certificação Florestal, “o potencial de crescimento da área arborizada é de cerca do dobro caso sejam aproveitadas as áreas de incultos e improdutivos”. Este é um dado importante na perspectiva de, a longo prazo, se apostar na criação de mais floresta como factor de desenvolvimento económico e de protecção ambiental. A forma de concretizar esta aposta foi 1/4 Gestão Florestal - Agir antes que seja tarde Terça, 04 Agosto 2009 09:11 - Actualizado em Terça, 04 Agosto 2009 09:19 um dos desafios lançado por uma iniciativa recente da Associação Nacional de Empresas Florestais, Agrícolas e do Ambiente (ANEFA) nas Jornadas “A Floresta em Debate”, realizadas em Maio deste ano. Com o objectivo de “criar um momento de debate do valor do mundo rural no mercado e economia nacional, com reflexo em todos os sectores abrangentes: Floresta, Agricultura e Ambiente”, um dos pontos de partida para estas Jornadas foi precisamente o reconhecimento de que a floresta portuguesa contribui para um número significativo de postos de trabalho associados, para o PIB (Produto Interno Bruto) nacional e para o combate à desertificação. Segundo a ANEFA, “o cluster florestal representa 5,3 por cento do VAB (Valor Acrescentado Bruto) total da economia, quatorze por cento do PIB industrial, nove por cento do emprego industrial e doze por cento do total das exportações nacionais. A indústria da transformação associada ao sector florestal representa quatrocentos mil proprietários florestais e cento e sessenta mil postos de trabalho, ou seja, três por cento da população activa. Na base da criação da Estratégia Nacional para a Floresta, cuja implementação é da responsabilidade da Autoridade Florestal Nacional (AFN), a questão ambiental foi uma das preocupações tidas em consideração para a elaboração da estratégia. As consequências das alterações climáticas e a sua elevada correlação com o aumento da ocorrência de incêndios, foi um dos factores considerados já que é expectável o aumento da extensão e severidade da época de incêndios. Em Portugal, a probabilidade de uma área florestal arder é superior a dois por cento, um valor quatro vezes superior a essa mesma probabilidade calculada para outros países do Sul da Europa. As despesas com incêndios calculadas para o nosso País resultam em vinte e sete euros por hectare, um valor cinquenta por cento superior à média obtida para as despesas com incêndios no sul da Europa. As variações climáticas também poderão também ter influência directa no ataque de pragas e doenças. Considerando estes dados e previsões, é por isso importante existirem mecanismos que possam de forma eficaz proteger e gerir a floresta enquanto recurso. Gestão florestal sustentável O conceito de sustentabilidade aplicado à gestão florestal pode ser a resposta às questões ambiental e económica. Há dez anos que são aplicáveis em Portugal critérios e indicadores para a gestão florestal sustentável (ao nível da unidade de gestão) que se baseiam, em linhas gerais, num conjunto de orientações europeias que visam “a manutenção e aumento apropriado dos recursos florestais e o seu contributo para os ciclos globais do carbono, a manutenção da saúde e vitalidade dos ecossistemas florestais, a manutenção e fomento das funções produtivas das florestas (lenhosas e não lenhosas), a manutenção, conservação e fomento apropriado da diversidade biológica nos ecossistemas florestais, a manutenção e fomento apropriado das funções protectoras na gestão das florestas (principalmente solo e água), e a manutenção de outras funções e condições sócio – económicas”. Relativamente ao objectivo económico, o aumento da produtividade dos recursos associados à floresta é um dos resultados visíveis de uma gestão florestal sustentável recorrendo a mecanismos como a diversificação das actividades nas explorações florestais e agro-florestais para assim aumentar 2/4 Gestão Florestal - Agir antes que seja tarde Terça, 04 Agosto 2009 09:11 - Actualizado em Terça, 04 Agosto 2009 09:19 a contribuição da cinegética, da silvo-pastorícia e de outros produtos não lenhosos no valor económico da floresta. Outra medida que se enquadra neste tipo de gestão sustentável é providenciar um maior acompanhamento aos produtores florestais e órgãos de gestão de baldios. A implementação das medidas do Plano Nacional de Defesa da Floresta Contra Incêndios é fundamental no que respeita à prevenção e minimização dos efeitos dos incêndios florestais. O aumento da resiliência do território aos incêndios, a redução da sua incidência, a gestão da disponibilidade de “combustível” através do pastorio e o aumento do valor dos produtos florestais através do aproveitamento da biomassa para a energia são algumas das medidas que podem ser postas em prática. Alguns destes aspectos acima mencionados constam da Estratégia Nacional para a Floresta que, entre outros valores, procura reduzir a redução do risco de mercado e aumentar o valor dos produtos florestais para assim valorizar a gestão florestal. Para melhorar a eficiência e competitividade do sector, a estratégia em vigor propõe, entre outros pontos, a organização da gestão dos baldios a fim de assegurar a sua sustentabilidade económica, e a criação de novas formas de parceria entre o Estado e os órgãos de gestão dos baldios de forma a flexibilizar a sua gestão. O uso dos Planos de Directores Municipais, como repositório de todas as orientações visando a gestão florestal, é outras das soluções avançadas ao nível deste documento estratégico. Mas, tal como noutros sectores, é através do processo de certificação que se procurar demonstrar e validar a aplicação da sustentabilidade às florestas. E os objectivos traçados são ambiciosos: certificar em 2013 mais de vinte por cento dos produtos lenhosos e cortiça. Certificação florestal Cabe à AFN, enquanto organismo do Estado responsável pela política florestal, colocar em prática os princípios e requisitos dos dois sistemas de certificação mais relevantes na Europa: o PEFC Council, (Program for the Endorsementof Forest Certification Scheme) e o FSC (Forest Stewardship Council). Neste contexto, a certificação assume-se como um processo voluntário, em que participam os representantes das fileiras – produtores florestais, empresários de exploração florestal e indústrias florestais – e também, em sede de consulta pública, todas as partes interessadas na gestão da floresta – ONG’s, autarquias, prestadores de serviços e público em geral. Este processo permite evidenciar, através da emissão de certificados e da justaposição de um logo nos produtos florestais, que estes tiveram origem numa floresta bem gerida, de acordo com determinados princípios, critérios ou indicadores de gestão florestal. Apesar de estarem reunidos todos os “ingredientes” para uma gestão promissora do espaço florestal, a ANEFA alerta para o facto de “a complexidade da legislação florestal ser, talvez, um dos maiores constrangimentos do sector, favorecendo o não cumprimento sistemático por parte dos proprietários, acompanhado de um sistema fiscal que não estimula a florestação, nem 3/4 Gestão Florestal - Agir antes que seja tarde Terça, 04 Agosto 2009 09:11 - Actualizado em Terça, 04 Agosto 2009 09:19 sequer a gestão dos espaços, aumentando o risco de incêndios e contribuindo para o abandono dos terrenos florestais. Prova disso é o novo Código Florestal que, não vertendo a opinião dos agentes do sector, apenas se traduz num conjunto de leis de carácter penalizador, ao invés da vertente de incentivo que deveria transparecer”. Ainda no seu parecer emitido como conclusão das Jornadas “A Floresta em Debate”, a ANEFA alertou para o facto de que “a manutenção da biodiversidade, a capacidade regenerativa, a vitalidade dos povoamentos, o aumento da eficácia e eficiência das operações e o aumento da rentabilidade das actividades florestais são, assim, alguns dos desafios às soluções técnicas para o desenvolvimento da floresta que, ao longo dos últimos anos, tem apresentado um recuo significativo… é de realçar que, com excepção do sobreiro, a floresta regrediu entre 1995 e 2006 cerca de onze por cento, dez anos que representam uma redução de trinta e dois por cento do volume e de vinte e sete por cento da área, só para o caso do pinho”. Fontes de Informação www.anefa.pt http://www.pefc-portugal.cffp.pt/ http://www.quercus.pt/scid/webquercus/defaultArticleViewOne.asp?categoryID=636&articleID= 1940 ´ 4/4