II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem:
Diversidade, Ensino e Linguagem
06 a 08 de outubro de 2010
UNIOESTE - Cascavel / PR
A RELEITURA DA NARRATIVA HISTÓRICA SOB O PONTO DE VISTA DO
DEGREDADO
SANTOS, Mara Terezinha (Professora PDE/UNIOESTE)
SOUZA, Wagner de (Professor Orientador/UNIOESTE)
RESUMO: Produção literária característica e representativa da pós-modernidade, pautada,
entre outros, nos Estudos Culturais e Pós-coloniais, a releitura de narrativas e fatos
históricos, contados por meio de vozes não oficiais, destoam e põem em xeque o discurso
canônico dominante. E, nesse contexto, de acordo com Coutinho (2003), as formas
literárias oficiais passam a conviver com vozes alternativas que haviam sido silenciadas
durante séculos de exploração. Desse modo, sob a ótica da inversão, surgem, no cenário da
literatura brasileira das décadas de 80 e 90, produções artísticas, cujo discurso reatualiza e
(re)apresenta os fatos por meio da voz das minorias, daqueles que, antes excluídos, tornamse, agora, foco de interesse. Assim, na consideração desses pressupostos, constitui-se como
objetivo central desse estudo uma proposta de análise do romance Terra papagalli, de José
Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, na releitura dos episódios históricos que
marcaram a história oficial do descobrimento do Brasil, contada sob o ponto de vista do
degredado. Para tanto, toma-se como aporte teórico, principalmente, os estudos de Bakhtin
(1981), Burke (1992), Menton (1993), Cândido (2000) e Coutinho (2003); os quais
fundamentam a análise proposta, na observância do modo como a (re)visão dos fatos, por
outro olhar e/ou leitura, atua na ressignificação do texto.
PALAVRAS-CHAVE: Literatura; pós-modernidade; releitura, discurso das minorias.
1- Introdução
O texto literário como atividade humana e, portanto, social institui-se na tríade
autor/obra/leitor e também nas relações que estabelece com outras obras, autores, épocas e
campos sociais, como a cultura, a economia, a história, entre outros.
E, especialmente, nas produções literárias da pós-modernidade torna representativo
o diálogo entre os textos por meio de releituras realizadas pelo recurso paródico, o qual
segundo Hutcheon (1985), caracteriza-se como “um processo integrado de modelação
estrutural,
de
revisão
reexecução,
„transcontextualização‟
de
obras
anteriores”
(HUTCHEON, 1985, p. 22).
Assim, narrativas históricas e ficcionais são retomadas, pela paródia, por vozes não
oficiais, que destoam do discurso canônico dominante e, nessa perspectiva, segundo
ISSN 2178-8200
II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem:
Diversidade, Ensino e Linguagem
06 a 08 de outubro de 2010
UNIOESTE - Cascavel / PR
Coutinho (2003), as formas literárias oficiais passam a conviver com vozes alternativas que
haviam sido silenciadas durante séculos de exploração.
.Esse revisionismo presente na produção literária pauta-se, principalmente, em
estudos decorrentes das décadas de 80 e 90, como os Estudos Culturais, por exemplo, os
quais reconfiguram o cenário da literatura ao dar destaque a textos até então excluídos e
que, reitera o autor “agora são vistos como uma prática discursiva entre outras, num campo
complexo, mutável e contraditório da produção cultural” (COUTINHO, 2003, p. 74).
Nesse sentido, os Estudos Culturais evidenciam a cultura popular e nesse intento,
segundo Culler (1999), “são movidos pela tensão entre o desejo de recuperar a cultura
popular como expressão do povo e de dar voz à cultura de grupos marginalizados, e o
estudo da cultura de massa como uma imposição ideológica, uma formação ideológica
opressora” (CULLER, 1999, p. 51).
Nessa direção, inúmeros estudos e teses abordam e questionam os valores e as
verdades até então inquestionáveis, propondo releituras de textos clássicos sob um outro
olhar, geralmente daquele que ficou esquecido e que ora se torna foco de interesse, pois
O desvio de olhar passa a ser uma constante na Historiografia Literária e
os mesmos episódios passam a ser relatados por personagens distintas.
Surge também não só uma quantidade de histórias não oficiais, que vem a
por em xeque a autoridade da versão canônica, como passam a integrar a
Historiografia literária tanto a produção de grupos até então excluídos por
essa vertente, como os chamados grupos étnicos minoritários, quando
ainda outros registros, como o „popular‟, tradicionalmente contraposto ao
„erudito‟. (COUTINHO, 2003, p. 78).
Nesse contexto, surgem produções literárias, cujo discurso revela a voz das
minorias, aqueles que nas narrativas oficiais atuaram como coadjuvantes e ora tomam o
discurso para si, ao narrarem os fatos sob o seu ponto de vista. E, sob essa perspectiva é que
se propõe a análise do romance Terra papagalli, de José Roberto Torero e Marcus Aurelius
Pimenta, na releitura dos episódios que marcaram a história oficial do Brasil narrados, entre
outros documentos, pela Carta de Achamento do Brasil, de Pero Vaz de Caminha. Nesse
propósito, pretende-se verificar como a (re)visão dos fatos, pelo viés da paródia, atua na
ressignificação do texto.
ISSN 2178-8200
II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem:
Diversidade, Ensino e Linguagem
06 a 08 de outubro de 2010
UNIOESTE - Cascavel / PR
2 - A voz das minorias nas produções literárias da pós-modernidade.
As releituras dos textos clássicos pelo uso do recurso paródico apresentam-se
como produções características e recorrentes na pós-modernidade. Entretanto, já nas
produções das décadas de 20 e 30 e, segundo o que aponta Cândido (2000), o Modernismo
vem romper com o tom de idealização na literatura, dado pela herança cultural europeia
presente na arte nacional. Isso se dá, ressalta o autor, principalmente, por meio dos
seguintes aspectos: a destruição dos tabus formais, a libertação do idioma literário, a paixão
pelo dado folclórico, a busca do espírito popular e a irreverência como atitude. Nessa
revisão acerca da história e da literatura importa, destaca Cândido, uma série de recalques
históricos, sociais, étnicos que são trazidos à tona da consciência literária. E, assim “o
mulato e o negro são definitivamente incorporados como temas de estudo, inspiração,
exemplo. O primitivismo é agora fonte de beleza e não mais empecilho à elaboração da
cultura” (CÂNDIDO, 2000, p. 135).
A partir dessa reconfiguração da produção literária no cenário nacional, nas
décadas seguintes, entre 80 e 90, a (re)visão dos fatos históricos e das narrativas literárias
contadas pela voz dos grupos minoritários torna-se recorrente, visto que, segundo Souza
(2005)
A literatura pós-moderna denota certa necessidade de recontar o passado.
Neste sentido, busca desmistificar a história e sugerir uma versão mais
justa para dar voz aos esquecidos, excluídos e todos aqueles que ficaram
fora do foco de atenção. (p. 120)
Assim, narrativas cujos protagonistas ou narradores recontam os fatos sob o viés dos
grupos marginalizados como a mulher, o negro, o índio, por exemplo, fazem parte de textos
recentes na literatura da América Latina. De acordo com Coutinho (2003), em Literatura
comparada na América Latina, é a partir da década de 70 que se começa a considerar
outras obras, que não as canônicas, como textos literários. Tal fato se deve, segundo o que
dispõe o autor, aos chamados Estudos Culturais e Pós-coloniais, entre outros, os quais
trazem ao cenário literário a voz dos grupos minoritários, que, até então, estavam
marginalizados, visto que os estudos dos clássicos na América Latina pautavam-se nos
moldes europeus, os quais eram representados como modelos universais.
ISSN 2178-8200
II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem:
Diversidade, Ensino e Linguagem
06 a 08 de outubro de 2010
UNIOESTE - Cascavel / PR
Entretanto, especificamente, a partir dos Estudos Culturais e do Multiculturalismo, a
Literatura latino-americana, segundo Coutinho (2003), passa-se a incluir a produção de
diversas “nações” que integram cada país do continente, desde a burguesa, oficial, às
populares, operárias e étnicas e, desse modo, desmascara-se, entre outras coisas,
O domínio exercido pela palavra escrita sobre a produção cultural do
continente, e as formas literárias eleitas pelo discurso oficial passam a
conviver com vozes alternativas que haviam sido silenciadas durante
séculos de exploração e dominação (p. 52)
Em decorrência desse novo cenário histórico e literário, advindo da pósmodernidade, cujas obras e discursos tendem, conforme Coutinho (2003), do coeso,
unívoco e universal para o plural e descentrado, as produções artísticas e os fatos históricos
passam a ser contados sob o ponto de vista das pessoas comuns. Em A escrita da história:
novas perspectivas, Peter Burke (1992), ao falar da história vista de baixo, assinala as suas
funções principais, as quais são dadas primeiramente para servir como um corretivo à
história da elite e, em segundo lugar, para abrir possibilidade de uma síntese rica da
compreensão histórica. Nesse aspecto, destaca
A importância da história vista de baixo é mais profunda do que apenas
propiciar aos historiadores uma oportunidade para mostrar que eles podem
ser imaginativos e inovadores. Ela proporciona também um meio para
reintegrar sua história aos grupos sociais que podem ter pensado tê-la
perdido, ou que nem tinham conhecimento da existência de sua história.
(p. 59).
Nessa mesma direção, Mignolo (2001), ao tratar das semelhanças e diferenças que
se estabelecem entre a literatura e a história, reitera que a ficcionalidade e a veracidade,
respectivamente, difere uma da outra. Destaca, porém, que a semelhança entre esses dois
campos reside na oposição às formas literárias „cultas‟ e da necessidade de dar voz aos que
os processos de colonização reduziram ao silêncio, visto que
No caso do romance contemporâneo, a imitação do discurso
historiográfico e antropológico provém de uma oposição aos discursos
antropológicos e historiográficos que criaram uma imagem da história ou
das comunidades marginalizadas que o romancista procura corrigir, ou,
pelo menos, enfrentar. (MIGNOLO, 2001, p.133).
ISSN 2178-8200
II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem:
Diversidade, Ensino e Linguagem
06 a 08 de outubro de 2010
UNIOESTE - Cascavel / PR
Sob essa ótica, no romance Terra papagalli, ao se retomar os episódios do
descobrimento do Brasil, pelo viés literário, se faz por meio da voz do degredado e, assim,
revisita-se o passado histórico pelo enfoque dado (in)versão do discurso oficial.
Para Menton (1993) tais produções constituem-se em textos representativos do que
o autor denomina de nueva novela histórica, decorrentes do período de 1979 a 1992, as
quais apresentam seis faces características: a) la subordinación a la reproducción de cierto
periodo histórico, b) la distorsión consciente de a historia mediante omisiones,
exageraciones y anacronismos, c) la ficcionalización de personagens históricos, d) la
metaficción o los comentários del narrador sobre el proceso de criación, e) la
intertextualidad, e f) los conceptos bajtinianos de lo dialógico, lo carnavalesco, la parodia y
la heteroglosia.
Em Terra papagalli as faces da nova novela histórica, descritas por Menton (1993)
aplicam-se, principalmente, aos seguintes aspectos:
a)
a subordinação a um período histórico – o romance faz a releitura
dos fatos históricos do descobrimento do Brasil e, desse modo, vincula-se
tanto ao texto que parodia – a Carta de Achamento – como aos fatos por
ele narrados, no caso o passado histórico brasileiro.
b)
A distorção consciente da história – no texto de Torero e Pimenta,
os episódios oficiais do descobrimento são, pela parodia, (re)apresentados
e invertidos pela ótica do degredado.
c)
A ficcionalização de personagens históricos – no romance,
personagens reais do passado histórico brasileiro são trazidos à narrativa
ficcional, como, por exemplo, o papel de Caminha, o escrivão da frota de
Cabral, é retomado pelo personagem-narrador, Cosme Fernandes, na
narração acerca dos episódios da descoberta da nova terra. Nesse aspecto,
conforme defende Menton (1993), destaca-se o trabalho dos novelistas do
século XIX, que escolhiam como protagonistas os cidadãos comuns,
aqueles que não tinham história, pois “los historiadores de orientación
sociológica de fines del siglo XX se fijan em los grupos que
aparentemente insignificantes para ampliar nuestra comprensión del
pasado” (MENTON, 1993, p. 43).
d)
A intertextualidade – aqui, se estabelece no diálogo entre o
romance e o texto da Carta de Achamento, assim como na referência que
faz, no interior do romance, por exemplo, ao poema Canção do exílio, de
Gonçalves. E, ainda, na retomada e na referência aos fatos históricos do
descobrimento.
e)
Os conceitos bathinianos de dialogia, carnavalização, paródia e
mistura – em Terra papagalli a (re)visão e a (in)versão da história sob o
olhar do degredado, pela paródia, estabelece o diálogo entre os textos e os
ISSN 2178-8200
II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem:
Diversidade, Ensino e Linguagem
06 a 08 de outubro de 2010
UNIOESTE - Cascavel / PR
fatos e, assim, na releitura, a narrativa recebe nova significação, visto que,
conforme Bakhtin (1981), na carnavalização da literatura, como na festa
carnavalesca, revela-se o mundo invertido, pois
As leis, as proibições e restrições, que determinavam o sistema e a ordem
da vida comum, isto é, extracarnavalesca, revogam-se durante o carnaval:
revogam-se antes de tudo o sistema hierárquico e todas as forma conexas
de medo, reverência, devoção, etiqueta, etc., ou seja, tudo o que é
determinado pela desigualdade social hierárquica e por qualquer outra
espécie de desigualdade (inclusive etária) entre os homens. (BAKHTIN,
1981, p. 105).
Aqui, como recorte de análise, tomar-se-á o recurso paródico como princípio de
inversão que se institui na releitura dos fatos históricos pela narrativa ficcional.
3 - A releitura da historiografia oficial pelo viés da paródia.
Embora não se constitua enquanto um efeito de linguagem característico da
modernidade, o termo paródia, de acordo com Sant‟Anna (2006), institucionalizou-se no
século XVII e consiste num recurso que vem se tornando cada vez mais presente nas obras
contemporâneas. Para o autor, significa que “a frequência com que aparecem textos
parodísticos testemunha a arte contemporânea que se compraz num exercício de linguagem
onde a linguagem se dobra sobre si mesma num jogo de espelhos” (p. 29).
Assim, por meio do processo dialógico, os textos, especialmente os literários, são
retomados sob diferentes perspectivas, seja de época, sociedade ou ponto de vista. E, nesse
sentido, a paródia configura-se como um momento de descontinuidade, de inversão, de
ambiguidade e de contradição, ou seja, “a paródia foge ao jogo de espelhos denunciando o
próprio jogo e colocando as coisas fora do seu lugar „certo‟” (SANT‟ANNA, 2006, p. 29).
Bakhtin (1981) ao tratar do uso do recurso paródico na releitura dos textos
clássicos, o aborda sob a ótica da carnavalização da literatura, cujo caráter simbólico, tal
qual a festa carnavalesca permite “uma vida desviada da ordem habitual, em certo sentido
uma „vida às avessas‟, um mundo invertido” (p.105), e ressalta que, nesse contexto, a
paródia institui-se em uma criação ambivalente, “às avessas”, assim
O parodiar carnavalesco era empregado de modo muito amplo e
apresentava formas e graus variados: diferentes imagens (os pares
ISSN 2178-8200
II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem:
Diversidade, Ensino e Linguagem
06 a 08 de outubro de 2010
UNIOESTE - Cascavel / PR
carnavalescos de sexos diferentes, por exemplo) se parodiavam umas às
outras de diferentes maneiras e sob diferentes pontos de vista, e isto
parecia constituir um autêntico sistema de espelhos deformantes: espelhos
que alongam, reduzem e distorcem em diferentes sentidos e diferentes
graus (1981, p. 109).
Sob esse mesmo enfoque, Sant´Anna (2006), reitera, ainda, que a paródia consiste
num efeito de linguagem que se estabelece no jogo de confronto, no choque de
interpretação, pois, “o que o texto parodístico faz é exatamente uma re-apresentação
daquilo que havia sido recalcado. Uma nova e diferente maneira de ler o convencional. É
um processo de liberação do discurso. É uma tomada de consciência crítica” (p. 31).
Hutcheon (1985) reitera, porém, que a paródia define-se além da inversão e da
ironia, suas características ampliam-se para a reatualização e reverência aos textos com os
quais dialoga, assim
A paródia é, pois, a repetição, mas repetição que inclui diferença, é
imitação com distância crítica, cuja ironia pode beneficiar e prejudicar ao
mesmo tempo. Versões irônicas de „transcontextualização‟ e inversão são
seus principais operadores formais, e o âmbito do ethos pragmático vai do
ridículo desdenhoso à homenagem reverencial. (HUTCHEON, 1985, p.
54)
Assim, sob o enfoque da reverência, da inversão e transcontextualização dos textos
do passado histórico brasileiro, em Terra papagalli reconta-se a viagem e a chegada de
Pedro Álvares Cabral às terras brasileiras, em 22 de abril de 1500, cuja data, segundo
Olivieri e Villa (1999) representa a tomada de posse do território brasileiro pelo Reino de
Portugal, bem como, o momento da inclusão do Brasil na história universal.
Esses fatos, de acordo com os autores, relatados pelos viajantes que aqui
estiveram, constituíram-se em documentos históricos acerca do nascimento do país e,
devido à sua importância, tornaram-se também os primeiros textos da literatura brasileira,
ou seja, a literatura de informação.
Um dos primeiros desses textos, A Carta de Achamento do Brasil, escrita por Pero
Vaz de Caminha ao Rei de Portugal, em maio de 1500, relata o descobrimento da terra,
descrevendo seus aspectos físicos e os contatos com os nativos.
ISSN 2178-8200
II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem:
Diversidade, Ensino e Linguagem
06 a 08 de outubro de 2010
UNIOESTE - Cascavel / PR
Na releitura desses acontecimentos, pela paródia, o protagonista de Terra
papagalli, Cosme Fernandes, um dentre os vários degredados que estavam na frota de
Cabral, narra, em forma de diário de bordo, os episódios do descobrimento ao Conde de
Ourique. E, assim, (re)assume o papel de Caminha, agora sob um outro viés, o olhar do
degredado, que revela uma outra face acerca da história. Nesse propósito, o personagemnarrador destaca como uma das finalidades de seu relato a seguinte questão
E digo que não vos servirei descabidas mentiras e gigantescos exageros,
como fazem alguns escritores pensando em tirar dinheiro dos tolos, mas
antes alimentarei vossa mente com fatos verdadeiros que, por serem reais,
nos atiçam mais a curiosidade que a mais fantástica das lendas. (TORERO
e PIMENTA, 2000, p. 07)
Aqui, por meio da ironia, refere-se aos escritores da “história oficial” e propõe-se,
ao contrário destes, mostrar a verdade dos fatos. Nesse intento, narra a saída de Portugal e
os sofrimentos vividos por ele e seus companheiros durante a viagem. Narra, também, que
fora condenado ao degredo por, acidentalmente, confessar, quando noviço, ao Padre
Videira,que tivera uma relação amorosa e sexual com a jovem Lianor. E, assim como ele,
os outros degredados ali estavam como punição a crimes que cometeram, sobre os quais
cita nomes e respectivos delitos, dentre eles destacam-se
Simão Caçapo por ter roubado e vendido um mapa secreto;
Afonso Ribeiro por ter abusado de uma freira;
Rui Quintal por ter declarado seu sítio em Taveira independente de
Portugal;
Jácome Roiz, que se dizia boticário, por ter inventado um laxante que
matou mais de vinte pessoas em Torres Videas. (...) (TORERO e
PIMENTA, 2000, p. 28)
Condenados por crimes religiosos, políticos e morais, os degredados são, agora,
personagens que a paródia põe em cena e que tem Cosme Fernandes como narrador e portavoz dessa nova história. E, nessa função, no romance, é ele o heroi do descobrimento, é ele
que, em 22 de abril, avista a nova terra. Sobre isso relata
Logo de manhã alguns fura-buxos voaram sobre as naus e com isso
agitaram-se todos, por serem estes sinais da proximidade da terra.
ISSN 2178-8200
II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem:
Diversidade, Ensino e Linguagem
06 a 08 de outubro de 2010
UNIOESTE - Cascavel / PR
Isto era por volta da hora nona e aconteceu que um soldado deu-me um
pontapé e mandou-me ir consertar uma vela que tinha rasgado. Subi até o
cesto da gávea e então aconteceu algo de que muito me orgulho e
demonstra que o Altíssimo, ao menos uma vez, voltou seus grandes olhos
para mim. E foi isso que avistei ao longe o cume de um monte e depois
dele, logo atrás, uma serras. Com toda a força gritei então: “Terra à vista!”
(TORERO e PIMENTE, 2000, p. 37)
Depois desse acontecimento, prossegue a narrativa relatando a ancoragem, o
encontro com os nativos e também o fato de serem deixados, pelo próprio Cabral, ele e
mais outros seis degredados, em uma ilha brasileira. Aí narra seus feitos: as relações que
estabeleceram com os nativos, a colonização da terra, as guerras e o comércio que inicia na
ilha, que batizam como Terra dos papagaios, da qual Cosme é nomeado, por seus amigos,
rei e senhor.
Em um dos episódios com os nativos, Cosme Fernandes relata que ao sentirem-se
acuados, os enfrentam com o discurso próprio do colonizador, reiterando a sua missão de
paz naquela terra, como se pode observar na passagem que segue
„Senhores bárbaros, bem-aventurados sois por receberdes os emissários de
Sua Majestade, el-rei D. Manuel, o primeiro desse nome. Mesmo sendo
nós legítimos donos destes chãos, viemos em missão de amizade e para
fins de comércio pacífico entre o rei e a nação portuguesa; porém, sabei
que se rejeitardes essa prova de mansidão, tereis contra si a ira dos
exércitos de cuja valentia e destemor são testemunha os povos da Europa
e do Oriente. Aceita, pois, esta feliz submissão e tratai-nos com a
modéstia que cabe aos valentes cavaleiros de uma nação que só é
poderosa porque é humilde e temente a Deus.‟ (TORERO e PIMENTA,
2000, p. 57)
No relato desses fatos, revela a face humorística do texto que, de acordo com
Menton (1993), constitui-se como uma das características da paródia. E, pelo viés do
humor, Cosme Fernandes aproveita-se dos episódios que vive na Terra dos papagaios para
deles tirar lições, as quais chama de mandamentos para ali bem viver. Aponta, no decorrer
dos fatos que compõem a narrativa, dez mandamentos, dentre os quais destacam-se:
Disso que vos contei acima, acho que se pode tirar mais um aprendizado
das usanças que tem essa gente e é isto que, quando aparecer alguma
dificuldade, mesmo que seja de simples solução, é preciso fazer alarde,
ISSN 2178-8200
II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem:
Diversidade, Ensino e Linguagem
06 a 08 de outubro de 2010
UNIOESTE - Cascavel / PR
espetáculo e pompa, pois nessa terra mais vale o colorido do vidro que a
virtude do remédio” (TORERO e PIMENTE, 2000, p. 75)
É aquela terra um lugar onde tudo está à venda e não há nada que não se
possa comprar, seja água ou madeira, cocos ou macacos. Mas o que mais
lá se vende são homens, que se trocam por qualquer mercadoria e são
comprados com as mais diversas moedas. (p. 105)
E o resumo de meu entendimento é que naquela terra de fomes tantas e lei
tão pouca, quem não come é comido.
(p. 189)
Ao tomar o discurso e, assim, a condução da história, revela-se em Terra
papagalli, por meio do tom de humor e ironia, a questão da submissão do nativo ao invasor,
à sua cultura e religião. E, nessa relação de poder e serviência, criam-se as normas de
conduta, os mandamentos que, focados pelo olhar da história vista de baixo, revelam as
marcas hostis da colonização, muitas vezes, não lembradas e não ditas pela história oficial.
Nesse processo de inversão, o texto literário ao evidenciar as produções culturais
de massa, dos grupos sociais minoritários, evidencia o simbolismo da linguagem, as
matizes, as imagens, as diferentes vozes, a linguagem de massa: a carnavalização da
literatura. E, ao se evidenciar o vasto e alegórico universo que compõe o carnaval com suas
máscaras, seu efeito parodístico, suas antíteses, revela também o inconsciente social e as
práticas sociais. Nesse aspecto, o texto literário ao expor seu universo cultural de diferentes
matizes retrata, conforme Bakhtin (1981), a carnavalização da vida.
4 - Considerações finais
Ao (re)apresentarem-se os episódios históricos por um outro olhar, cujo foco
destoa do discurso oficial, recriam-se, também, em Terra papagalli, os seus sentidos e,
nessa perspectiva, a paródia, segundo Sant´Anna (2006), “é um ato de insubordinação
contra o simbólico, uma maneira de decifrar a Esfinge da Mãe Linguagem (...) Sendo uma
rebelião, a paródia é parricida. Ela mata o texto-pai em busca da diferença” (p. 32).
Assim, sob a ótica da insubordinação, da inversão do texto-fonte e pela voz do
degredado, a releitura dos episódios do descobrimento, relatado, entre outros, pela Carta de
Achamento do Brasil, possibilita a (re)visão do discurso oficial/dominante e oferece uma
ISSN 2178-8200
II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem:
Diversidade, Ensino e Linguagem
06 a 08 de outubro de 2010
UNIOESTE - Cascavel / PR
outra possibilidade de leitura dos fatos, aquela que põe em foco outras vozes, cujo discurso,
outrora esquecido, revela agora a sua versão da história.
Nessa direção, embora a língua, conforme Barthes (2000), seja o local de
excelência em que o poder se instala e se constitui, também é por meio da língua,
especificamente da literatura, que se pode romper com o fascínio linguístico, pois, segundo
o que ressalta o autor, é no jogo das palavras, em que se institui o texto literário, é que a
língua deve ser combatida, desviada, pois “essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro
magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução
permanente da linguagem, eu a chamo, quanto a mim: literatura” (p. 16).
Desse modo, portanto, ao encenar a linguagem ao invés de simplesmente utilizá-la,
conforme defende Barthes (2000), a literatura possibilita o convívio e a expressão das
diferentes vozes sociais no discurso literário o que, segundo Bakhtin (1981), aproxima a
festa carnavalesca à literatura, a qual “nada absolutiza, apenas proclama a alegre
relatividade de tudo” (BARTHES, 2000, p. 107).
Referências bibliográficas
BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski. (Trad. Paulo Bezerra). Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 1981.
BARTHES, R. Aula. (Trad. Leyla Perrone-Moisés). São Paulo: Editora Cultrix, 2000.
BURKE, P. A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Editora UNESP, 1992.
CANDIDO, A. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. São Paulo: T.
A. Queiroz, 2000.
CAMINHA, P. V. A carta de Achamento do Brasil. In: OLIVIERI, A . C., VILLA, M. A .
(org.) Cronistas do descobrimento. São Paulo: Ática, 1999.
COUTINHO, E. Literatura comparada na América Latina: ensaios. Rio de Janeiro: UERJ,
2003.
CULLER, J. Teoria literária: uma introdução. (Trad. Sandra Vasconcelos) São Paulo:
Beca Produções Culturais, 1999.
ISSN 2178-8200
II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem:
Diversidade, Ensino e Linguagem
06 a 08 de outubro de 2010
UNIOESTE - Cascavel / PR
HUTCHEON, L. Uma teoria da paródia. Portugal: Edições 70, 1985.
MENTON, S. La nueva novela histórica de la América Latina 1979-1992. México: Fondo
de Cultura Económica, 1993.
MIGNOLO, W. Lógica das diferenças e política das semelhanças da literatura que parece
história ou antropologia e vice-versa. In: CHIAPPNI, L.; AGUIAR, F. (orgs.) Literatura e
história na América Latina: Seminário Internacional, 9 a 13 de setembro de 1991. Trad.
Joyce Rodrigues Ferraz (espanhol), Ivone Daré Rabello e Sandra Vasconcelos (francês).
São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001, p. 115-135.
OLIVIERI, A.C., VILLA, M. A.(orgs.). Cronistas do descobrimento. São Paulo: Ática,
1999.
TORERO, J. R., PIMETA, M. A. Terra papagalli: narração para preguiçosos leitores da
luxúria, irada, soberba, invejável, cobiçada e gulosa história do primeiro rei do Brasil. Rio
de Janeiro: Objetiva, 2000.
SANT‟ANNA, A R. Paródia, paráfrase & cia. 7 ed. São Paulo: Àtica, 2006.
SOUZA, W. A história das mulheres e a do Brasil em: a mãe da mãe da sua mãe e seus
filhos. In: Revista de Literatura, História e Memória/Grupo de Pesquisa em Educação,
Cultura, Linguagem e Arte. V. 1, n. 1, Cascavel: EDUNIOESTE, 2005.
ISSN 2178-8200
Download

a releitura da narrativa histórica sob o ponto de vista do