As recordações infantis surtiram efeito
Não era católico… Mas descobriu que tinha saudades das
180 missas que tinha ouvido
por compromisso
Brantly Millegan com a sua mulher e os seus dois filhos.
Actualizado 7 de Outubro de 2013
C.L. / ReL
Pode quantificar-se o número de missas que "custa" uma conversão?
No caso de Brantly Millegan, sim.
Ele mesmo o fez ao dar testemunho de como passou de ser um protestante
evangélico a um católico que ingressou na Igreja, junto com a sua mulher Krista,
na Vigília Pascal de 2010.
A sua é uma dessas histórias que justificam a existência da educação católica e a
sua abertura a pessoas que não o são. Uma dessas histórias nas quais a semente recebida na infância frutifica tempo depois, quando e como a graça e a
vontade querem.
Metodista primeiro, baptista depois
Como conta no seu blogue, Brantly foi educado numa igreja metodista de Springfield, no Oregon (Estados Unidos), onde ele e os seus cinco irmãos adquiriram as
suas primeiras noções sobre a Bíblia, que a sua mãe lhes costumava ler antes de deitá-los, exortando-os a cumprir a lei de Deus.
Mas, procurando uma educação melhor que a que ofereciam as escolas públicas,
os pais de Brantly decidiram que os dois irmãos mais novos começassem o colégio numa escola católica, a São Paulo.
Os seus pais não lhes tinham falado do catolicismo nem de porquê eles não eram
católicos, e deixaram que o colégio fizesse a sua tarefa. Na escola ensinaram-nos
a rezar o rosário, rezavam ao começar cada aula e antes de comer, havia crucifixos em todas as salas e dependências, e o sacerdote que ia ao colégio era "tinha
uma presença visível e amistosa".
E, o que posteriormente resultou ser decisivo, o colégio celebrava uma missa
corporativa por mês para os alunos.
Brantly assistia a essa missa, mas aos domingos ia aos serviços metodistas e,
anos depois, aos de uma igreja baptista para a qual decidiram mudar-se os seus
progenitores. Ele gostava das actividades e dos sermões de ambas, que o convidaram "a tomar a sério a sua fé".
Aparece a Bíblia
Continuou os seus estudos primários nessa escola católica com poucos alunos
não católicos, e logo começou os secundários com os maristas, num contexto no qual o número de alunos não católicos como ele era já significativo: o prestígio académico do centro atraía a todos por igual.
O caso é que os maristas necessitavam alguém que tocasse o piano na missa
mensal... E alguém "soprou" ao professor que Brantly tinha recebido lições durante anos: "Não tinha nenhuma vontade de apresentar-me como voluntário,
mas quando o professor veio pedir-me, desesperado, acedi a tocar só na
primeira missa do curso".
"Bom, o caso é que gostei", confessa: "E acabei tocando piano em quase todas
as missas que houve durante a minha estadia no colégio de secundária".
Ao mesmo tempo, Brantly implicava-se cada vez mais no grupo de jovens da
igreja baptista à qual ia aos domingos... E começou a ler a Bíblia por si mesmo. Tinha-a escutado na igreja e nas aulas, mas a sua aproximação pessoal era
nula.
"Nocauteou-me completamente", reconhece: "Lia a Bíblia todo o dia, em qualquer pedaço livre que tivesse. Os meus pais chegaram inclusive a preocupar-se e
sugeriram-me que tinha que fazer outras coisas. Assegurei-lhes que não me estava tornando louco... Mas que Deus estava mudando a minha vida".
Começando a planear coisas...
E no Verão antes do seu último ano de bacharelato, quando pedia a Deus que
lhe mostrasse "novas formas de servi-lo", recebeu uma chamada: uma senhora da paróquia católica de Santa Maria, que o tinha visto tocar o piano no colégio.
Na paróquia necessitavam alguém para tocá-lo nas missas de jovens. Ele disse-
lhe que não era católico, mas a mulher respondeu que isso não era um problema.
Assim Brantly viu-se de novo trazendo a uma missa católica o seu talento
musical. Entre as missas para jovens e alguma outra em exercícios espirituais
ou Semana Santa, havia semanas, comenta, em que assistia a quatro missas.
"Então comecei a pensar seriamente no catolicismo. Ainda não tinha tendência católica em absoluto, mas a Igreja parecia demasiado importante, influente e poderosa para ignorá-la. Ainda que tenha estado indo a escolas católicas
desde o princípio da primária, havia muitas coisas que não compreendia ou que
me pareciam mal", explica, e também outras que preguntava e perante as quais
recebia respostas "vagas, incompletas o contraditórias".
O ponto decisivo é histórico
Brantly meditava sobre um ponto interessante: "O cristianismo é uma religião de
factos históricos, assim que o que surgisse da Igreja primitiva tinha que ser
o cristianismo real. A História protestante que me haviam ensinado é que os
primeiros cristãos eram basicamente protestantes nas suas crenças e costumes.
Logo, lentamente, durante séculos, o cristianismo tinha sido corrompido pelo catolicismo até que tudo se endireitou com a Reforma, quando os cristãos voltaram
a ser o cristianismo autêntico da Igreja primitiva".
A história católica que lhe tinham ensinado era, logicamente, a oposta: os primeiros cristãos eram católicos, e a Igreja católica actual era a continuação da
Igreja fundada pelo mesmo Jesus Cristo.
"Parecia-me que aquilo podia ser resolvido mediante a investigação histórica. Só
necessitava ler os textos da Igreja primitiva e ver se eram católicos ou
protestantes": nessas estava quando começou a ir ao Wheaton College de
Chicago, o chamado "Harvard das escolas evangélicas", que o ano passado tinha
sido notícia por expulsar um professor que se tinha convertido ao catolicismo.
O Catecismo
Ali Brantly continuou encontrando um ambiente no qual se encontrava a gosto,
com alunos e professores sinceramente empenhados no serviço de Deus: "Mas
continuei pensando no catolicismo, e finalmente comprei o Catecismo da Igreja
Católica. A frase da contracapa, de João Paulo II («uma norma segura para
o ensinamento da fé»), fez-me ver com alívio que finalmente poderia saber o
que crêem exactamente os católicos".
Que pensavam antes da Reforma?
Ao mesmo tempo, durante as suas aulas começou a conhecer os escritos cristãos
anteriores à Reforma: Santo Agostinho, Santo Anselmo, São Tomás de
Aquino: "Comprovei que todos eles eram, por suposto, católicos. Santo Agostinho e Santo Anselmo eram bispos, São Tomás de Aquino, um monge dominicano. Acreditavam nos sacramentos e na autoridade da Igreja".
A nostalgia
E começou a sentir algo mais: "Agora que estava indo a uma instituição acadé-
mica evangélica, já não assistia habitualmente à missa católica, como tinha
feito quase toda a minha vida. Cada vez com mais frequência surpreendiame a mim mesmo com saudades da profundidade da missa e desejando
ir a uma". Começou a frequentar igrejas protestantes "não denominacionais",
onde em ocasiões se rezava o Credo niceno, mas comprovou que se dizia nele
"Igreja universal" em vez de "católica" ("ainda que eu sabia que católico significa
universal") e que - como em Wheaton - se omitia o "apostólica". Também foi a
algum culto anglicano conservador.
E, sobretudo, empenhou-se em conhecer os textos dos Concílios: "Assinalei cada
vez que se referiam à Tradição, a Escritura e o Papa. Tinham a sua própria
autoridade e citavam a autoridade dos Concílios anteriores. Era una forma muito
diferente de pensar que a sola Scriptura protestante".
Encorajamento para a conversão
Conversou sobre o catolicismo com vários professores, e encontrou alguns muito
favoráveis à Igreja. Um confessava inclusive que não estava em comunhão com
o Papa, "como deveria"... E que confiava em que a sua própria igreja se reintegrasse a Roma! Animava-o a converter-se.
No curso 2008-09, Brantly conheceu um companheiro que estava nesse processo, ao qual tinha chegado também estudando o cristianismo anterior à Reforma.
Ingressou na Igreja na Vigília Pascal daquele ano, e ajudou-o no seu próprio caminho, pois então Brantly já tinha claro, a partir da leitura dos primeiros escritos
cristãos, que "a Igreja primitiva era católica": "O Papado não era uma invenção do século VI, como muitos protestantes sustinham. Já no século II, ao rebater a heresia gnóstica, Santo Ireneu destacava a autoridade preeminente da Igreja de Roma e o dever das demais Igrejas de concordar com ela".
Amor, matrimónio... Contracepção
Paralelamente a este processo, Brantly tinha uma namorada, Krista, que o
acompanhava nesse caminho, e a quem propôs matrimónio sendo ainda estudantes. Ao começar a preparar-se, falaram pela primeira vez de contracepção.
"Ambos assumíamos que utilizaríamos algum tipo de anticonceptivo. Não estávamos preparados para ter filhos, e queríamos algum tempo de matrimónio antes de tê-lo", confessa. Mas Brantly recordou que a Igreja católica o considerava
imoral, e Krista e ele decidiram ler a encíclica Humanae Vitae, escrita por
Paulo VI em 1968.
Os dois a encontraram estimulante, mas o que terminou por decidi-los a adoptar
essa posição da Igreja foi que "todas as denominações protestantes em toda a
história tinham condenado a contracepção até meados do século XX". Logo
"claramente as igrejas protestantes, e quase todos os protestantes a título individual, tinham escolhido o caminho equivocado num assunto moral tão
grave como a vida conjugal: isso sacudiu a minha confiança no protestantismo
e fortaleceu a minha confiança e a de Krista na Igreja católica".
Casamento, gravidez... Iniciação
Quase todo o caminho estava percorrido já. Nesse Verão casaram-se e em seguida estavam esperando o seu primeiro filho. Inscreveram-se num cursilho de
iniciação na paróquia de São Miguel de Wheaton (Illinois). E continuaram estudando. Brantly descobriu além disso a beleza doutrinal da Igreja: "A teologia católica é formosa, as palavras da sua teologia são formosas, o espírito no
qual está escrito é formoso também, como a sua forma de interpretar a Escritura".
Na Vigília Pascal de 2010 entraram na Igreja. Graduaram-se ambos em
Wheaton pouco antes, ele em Filosofia, ela em Francês. Ele continuou estudando
Teologia na Universidade de São Tomás em St Paul (Minnessotta), e ela cuida em
casa dos seus dois filhos, Elías e Adelaida.
"Ambos temos o coração evangélico", afirma, pelo seu desejo de seguir Jesus
com tudo o que tem, e esperam que o ecumenismo avance entre evangélicos e
católicos. E na sua tarefa apostólica insistem muito em denunciar a anticoncepção: a coerência da Igreja nesse ponto foi o empurrão final até à sua conversão.
Somando missas
Brantly trabalha como editor adjunto da edição do Aleteia em inglês, e num artigo publicado recentemente no dito portal incidia na importância que tiveram para
a sua conversão as missas, mensais primeiro e semanais depois, às quais assistiu
só por compromisso (como aluno de um colégio católico primeiro, como músico
depois) quando não era católico: cifra-as em 180... Suficientes para marcá-lo.
"Foi o separar completamente a missa da minha vida quando compreendi
quanto importante se tinha tornado para mim", insiste. E conclui: "Provavelmente aprendi mais sobre a doutrina católica no Wheaton College que em doze anos de escola católica. Mas foi durante a minha etapa na escola católica
quando me submergi no mundo misterioso e transformador da missa, que me
deixou uma experiência que não me pode arrancar. A missa manteve-me vinculado à Igreja católica enquanto tentava responder às questões doutrinais e históricas. E quando finalmente recebi o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor, depois
de dezasseis anos vendo como o faziam os demais, soube que, finalmente, estava em casa".
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