n. 415, 15 de dezembro de 2015. Ano IX.
o que será?
O movimento de ocupação das escolas em São Paulo reacendeu a luta estudantil entre os
secundaristas. A reação do governo e a resistência dos estudantes expuseram os dois monopólios
do Estado: o da violência e o da educação. No entanto, ele vive uma disputa em seu interior entre
grupos partidários que pretendem instrumentalizar a luta para fins eleitorais e os jovens que vivem
sua primeira experiência de enfrentamento ao governo. Os primeiros querem fazer política, os outros
lidam com suas lutas imediatas, dispersas e descontínuas. Entre uns e outros instalam-se práticas
de governo pelas acomodações das negociações. Diante dessa disputa, cabe aos jovens decidirem
como continuarão sua luta.
política em movimento
Na última quarta-feira, 9 de dezembro, uma nova manifestação levou milhares de jovens as ruas de
São Paulo. Mesmo em meio aos cartazes que exigiam o não fechamento de escolas ou “melhorias”
na educação governada pelo Estado, alguns jovens empunharam bandeiras negras da anarquia e
outros, vestidos de preto, circulavam livres pelas ruas da cidade. Em determinado momento, no meio
do trajeto, um pequeno bando expôs a um jovem a história de massacres e extermínios cometidos
pelo Estado, convencendo-o a abandonar a bandeira do Brasil que carregava junto ao corpo. A ação
no meio da rua lembrou que mesmo no país que assassinou e mata sistematicamente os índios,
neste território que a todo instante executa os jovens, ainda há espaço para vitalidade guerreira.
a polícia da política
No final da noite, a manifestação foi brutalmente reprimida pela polícia. Pouco tempo depois, a
Secretaria de Segurança Pública emitiu uma nota na qual condenou a "clara motivação política e
criminosa, com diversos black blocs com o rosto encoberto". O insuportável para o governo é o que
escapa às possibilidades de acomodações e não pode ser respondido com a queda e troca de
secretários ou com a instalação de novos planos de reorganização. Seguimos na mesma situação
alertada pelo anarquista Pedro Catallo no começo do século XX, em São Paulo: “a questão social se
trata a patas de cavalo”.
política e punição
A nota do Comando das Ocupações condenou a ação da polícia e exigiu, além da queda dos
secretários da educação e segurança, a punição dos policiais responsáveis pela violência. Em torno
das punições se refaz constantemente o campo da política. Assim, pavimenta-se o campo das
negociações e toda autonomia reivindicada pelo Comando cumpre sua função servil. Comando,
autonomia, unificação da luta e punições organizam a revolta dos estudantes que, mesmo negando,
temporariamente, os partidos, não recusam a política. Ao se dirigirem ao Estado a partir de sua
linguagem comum (as punições e as negociações), perdem a possibilidade de colocar em xeque o
próprio monopólio da educação e da violência.
juventude reativa e convencional
Em busca de “empoderar líderes estudantis” reativos no Brasil, o grupo neoliberal Estudantes Pela
Liberdade (EPL) convoca, pela internet, estudantes escolares e universitários a participar de seu
programa de formação/formatação e avançar na carreira do EPL, para se tornar uma liderança
convencional. No corpo, eles vestem camisetas descoladas com tags que fazem referência a
pensadores liberais e ao capitalismo. Frente a tanto empreendedorismo, por quê os jovens
neoliberais, empoderados e emparedados, não criam suas próprias palavras? Simplesmente porque
são a atualização plastificada da velharia.
palhaçada!
Comissão de ética, tapas e berros, substituições de relatores, cassa-não-cassa procedimental,
definição justa do rito de impeachment... Tem chapa de situação e de oposição para dar
prosseguimento aos negócios éticos na Câmara? Tem autoridade que reclama não desejar mais ser
decorativa, líderes que se reúnem para vomitar nas mídias o que é legítimo, e outro que leva com
uma taça de vinho na cara. A presidenta vai de lá para cá e de cá para lá rearranjando suas forças.
O PMDB se divide em a favor e contra para depois se unificar a favor (ou por favores?) de qualquer
governo. Declarou uma liderança de expressão internacional: “é uma loucura essa insanidade!”. As
mídias bombardeiam com a retórica favorável ao Sr. Mercado. Poluem com coberturas ao vivo de
mobilizações que se parecem com ensaio inicial de escola de samba do grupo de baixo... Até
quando esse povo cordial, mulato e alegre seguirá na sola de fantoches que aspiram ser ídolos?
acordo
Os 195 Estados integrantes da COP-21 aprovaram o documento final relativo ao acordo sobre a
limitação do aquecimento global. Dizem que é preciso compensar a emissão de gás carbono; que é
necessário fazer boa gestão do efeito estufa; que a avaliação contínua garantirá o funcionamento do
programa com as devidas resiliências... Enfim, seja em 2020, 2030, 2050, 2100, etc. só é possível
viver com capitalismo sustentável. Você crê nisso?
aplausos
Os chefes de Estado aplaudiram longamente; os empresários, as ONGs e os manifestantes pela
gestão climática aplaudiram e também reiteraram que “vigiarão” constantemente os novos acordos e
pressionarão por metas cada vez mais ambiciosas; o presidente dos EUA celebrou a sua liderança
no combate às mudanças climáticas; cidadãos se disseram confiantes em melhores condições do
planeta para as futuras gerações. E todos eles seguem governando a renovação de ambientes cada
vez mais seguros e eficientes para o mercado. Diante de tanta adaptação e flexibilidade, quem não
estiver disposto a melhorar o capitalismo são os perturbadores necessários e imprescindíveis.
Portanto, que o número de perturbadores cresça!
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