UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
29ª ENCONTRO NACIONAL DA ANPOLL 2014
PROGRAMAÇÃO DO GT HOMOCULTURA E LINGUAGENS
DIA 9 DE JUNHO
SEGUNDA-FEIRA
HORÁRIO: 14:00H ÀS 16:00H
ATIVIDADE: APRESENTAÇÃO DE TRABALHOS
Homocultura e testemunho nas literaturas argentina e brasileira
Prof. Dr. André Luis Mitidieri Pereira (UESC)
Uma voz feminina a (re)significar os afetos em tempos de AIDS: a
ficção de Sarah Schulman Aprovado
Prof. Dr. Anselmo Peres Alós (UFSM)
João Silvério Trevisan: O Escritor do Desejo
Mestrando Samuel Lima da Silva (UNEMAT)
Eros em flor: a escrita erótica de algumas meninas
Profa. Dra. Alessandra Leila Borges Gomes Állex Leilla (UEFS)
Olga e Cláudio, de Mário Cláudio: uma fábula sutil da diferença
Prof. Dr. Jorge Vicente Valentim (UFSCAR)
DIA 10 DE JUNHO
TERÇA-FEIRA
HORÁRIO: 8:00H ÀS 10:30H
ATIVIDADE: APRESENTAÇÃO DE TRABALHOS
Expressões do Homoerotismo na Literatura Baiana da
Contemporaneidade.
Prof. Dr. Paulo César Souza García (UNEB)
Descolonizando representações - uma experiência do teatro
nordestino contemporâneo.
Prof. Dr. Djalma Thürler
Aquilo nem parece mulher fêmea: a ambiguidade na narrativa
construída sobre Luzia-Homem.
Profa. Dra. Suely Aldir Messeder (UNEB)
O sexo da palavra
Prof. Dr. Fábio Figueiredo Camargo
DIA 11 DE JUNHO
QUARTA-FEIRA
HORÁRIO: 8:00H ÀS 10:00H
REUNIÃO INTERNA DO GT
1- Relatório das atividades do biênio 2012/2014
2- Eleição do Coordenador e do Vice-coordenador
3- Perspectivas de planejamento para o próximo biênio
RESUMOS DOS TRABALHOS
Aquilo nem parece mulher fêmea: a ambiguidade na narrativa construída sobre
Luzia-Homem Aprovado
Profa. Dra. Suely Aldir Messeder
E-mail: [email protected]
Titulação Doutor
Filiação: Universidade do Estado da Bahia
Resumo: Este artigo versará sobre como a masculinidade é vivida no corpo de
Luiza-Homem, personagem protagonista do romance de Domingos Olímpio,
escrito em 1903. Neste romance narra-se a história insólita de Luzia-Homem, cujo
destino foi colorido de forma drástica por conta da sua aparência física. A
ambiguidade do corpo destina-se a morte do ininteligível. Desta forma, ao longo do
texto será apresentado como os personagens e o narrador refere-se ao jeito de ser
de Luzia-Homem. No romance, o narrador não borra a natureza da mulher em
Luzia; ele usa o pincel mostrando os traços que a coloca no lugar de mulher,
enquanto que a sociedade enfatiza o lado viril. A leitura aparentemente paradoxal
é bastante interessante porque a aparência importa, e ela importa de
sobremaneira. O desejo incontrolável por um corpo ambíguo é o desespero da
ordem binária, portanto, a morte é o destino da existência do ser-corpo que a
interpela não mais nas regiões sombrias, mas sim, na ordem da matriz
heterosexista. O desconforto e aspereza promovida pela presença de mulheres
com atos performativos de gênero masculino tem sido a nossa companhia desde
que debruçamos na pesquisa sobre a vivência das mulheres masculinizadas, não
somente
nos
personagens
literários.
Palavra(s) chaves(s): masculinidades,, teoria queer
Expressões do Homoerotismo na Literatura Baiana da Contemporaneidade
Aprovado
Prof. Dr. Paulo César Souza García
E-mail: [email protected]
Titulação Doutor
Filiação: Universidade do Estado da Bahia
Resumo: As composições de gênero determinam os valores e os modelos de
corpos sexuados, suas aptidões e possibilidades, criando paradigmas físicos e
morais cujas associações tendem a homogeneizar o ser homem, ser mulher,
desenhando em múltiplos registros a generificação do perfil do verdadeiro homem,
da verdadeira mulher. Além do papel social definido e construído na desinência o e
no a, em masculino e feminino, retrospectivamente, as representações de gênero
empreendem, por essa identificação, constructos e modelações do sujeito social
que, também, se oferecem na modalidade do corpo, não somente via o sexo, mas
igualmente moldando-os e assujeitando-os sob as práticas discursivas normativas
que muito se encontram disseminadas nos parâmetros culturais da sociedade
ocidental. Diante dos contextos dessas leituras, partindo da legitimação dos
conceitos e das fronteiras que realocam a posição indecidível do outro que somos
em face das normatividades sexuais, autores e obras da literatura à margem do
cânone mostram diálogos férteis e expressões que reavaliam posturas enfeixadas
e definitivas sobre as sexualidades, limites e definições de masculinidade e
feminilidade. O objetivo deste texto é abordar questões conceituais e pontuais para
os caminhos de estudos que desenvolvo sobre a homoerotismo e literatura,
trazendo algumas contribuições epistemológicas já concebidas e pelos presentes
debates a respeito de gênero e identidades sexuais. Algo instigante para o crivo
atual da crítica literária é procurar dialogar com esses discursos, como se
apresentam embasados pela temática e as leituras construídas referentes aos
textos ficcionais, quando apostam e retratam a cultura de gênero e sexualidades.
Buscar os lugares em que os sujeitos se enunciam e como se revelam, os choque
com os ecos heteronormativos, os regimes de disciplina e intolerância são bases
históricas que permitem interpretar as materialidades de corpos, condutas,
conceitos e referências ao poder masculino heterossexista. Entre os desejos, as
dicotomias, as polaridades e práticas que solicitam reaver os controles, as
resistências, as margens, as narrativas, autores da ficção contemporânea colhem
esses lugares de discursos. Com as textualidades baianas, viso apresentar de
modo analítico as devidas abordagens, aqui, propostas que permitem pensar a
orientação sexual dos personagens ficcionais, como se enunciam e constroem a
subjetividade homoerótica, questionam as ordens binárias do conhecimento,
problematizam discurso, poder, identidades. Analisar a identidade homoerótica, a
partir de estereótipos marcados e alicerçados culturalmente, tem grande
importância política porque trata de cristalizar a representação de vozes que ecoa
na contramão da cultura do centro, de vozes se permitem na posição de poder
falar e de como poder falar. Podendo aventar o papel da literatura por esse
sentido, é possível validar a recepção e a existência do Outro, como forma de
repensar
o
seu
estar-no-mundo
e
suas
práticas.
Palavra(s) chaves(s): Crítica literária, Literatura baiana
Descolonizando representações - uma experiência do teatro nordestino
contemporâneo Aprovado
Prof. Dr. Djalma Thürler
E-mail: [email protected]
Titulação Pós-Doutor
Filiação: Universidade Federal da Bahia
Resumo: Apoiado em conceitos advindos dos Saberes Subalternos, que envolvem
estudos sobre a Teoria Queer, os Estudos Pós-Coloniais e os Subalternos, na
Teoria da Literatura e na História do Teatro, o texto reivindica, como num
manifesto contemporâneo, o surgimento e a necessidade de um ?teatro de
abjeção?. O autor se vale da experiência da ATeliê voadOR Companhia de Teatro,
de Salvador (BA) e da montagem do espetáculo Sob os paralelepípedos, a praia,
sobre o pensamento político e os 30 anos de morte do pensador francês Michel
Foucault.
Palavra(s) chaves(s): Teatro contemporâneo, Pós-Colonialismo
Olga e Cláudio, de Mário Cláudio: uma fábula sutil da diferença Aprovado
Prof. Dr. Jorge Vicente Valentim
E-mail: [email protected]
Titulação Pós-Doutor
Filiação: Universidade Federal de São Carlos
Resumo: Partindo do conceito de « leveza », proposto por Ítalo Calvino (1994),
propomos uma leitura do texto do escritor português Mário Cláudio, Olga e Cláudio
(1984), onde as diferenças e as diversidades sexuais são apresentadas a partir de
uma sutileza, entretecida nas malhas discursivas. Ao contrário do que se poderia
esperar, em virtude da nomenclatura utilizada no título, os protagonistas são dois
gatos cujos donos (Manuel e Giovanni) trocam cartas entre si. De forma sutil, as
falas, as expressões de carinhos, as retribuições sentimentais e as saudades,
numa primeira instância, poderiam ser entendidas como diálogos entre os dois
animais, o que apontaria o texto para a categoria narrativa da fábula. No entanto,
em vários momentos, as mesmas sensibilidades afetivas também poderiam ser
lidas como trocas entre os dois donos, sugerindo assim, uma possibilidade de
leitura pelo viés da homoeroticidade, ainda que indireta e não explícita.
Considerando o contexto em que a obra foi escrita e publicada (os primeiros anos
da década de 1980), época crucial para o despertar das reflexões sobre as
minorias sociais e as diversidades sexuais em Portugal, acreditamos que o texto
ficcional de Mário Cláudio não se esquiva das inquietações epocais e traz à tona
uma reflexão atenta e sensível sobre elas, além de suscitar instigantes
considerações sobre o fazer literário, aliado ao fazer artístico, em virtude da
composição textual vir aliada a quadros e colagens da artista plástica Maria
Antónia
Pestana.
Palavra(s) chaves(s): Sutileza, Mário Cláudio
João Silvério Trevisan: o escritor do desejo
Ms. Samuel Lima da Silva
E-mail: [email protected]
Titulação Mestrando
Filiação: Universidade do Estado de Mato Grosso - UNEMAT
Resumo: RESUMO: A presente comunicação almeja tecer considerações acerca
do processo de escrita que o paulista João Silvério Trevisan constrói em duas
narrativas específicas, o conto Testamento de Jônatas deixado a David (1976) e o
romance memorialístico Em nome do desejo (1982). Ambos são textos que
abordam a temática do homoerotismo vivido em um ambiente restrito, o seminário,
onde se desenvolvem personagens nos quais o desejo homoerótico se manifesta
de forma a pô-los em situações que abarcam, além da descoberta do corpo e da
presença divina, também a força que o espaço opressor exerce sobre o ser
humano. Como teoria, o foco será centrado no russo Mikhail Bakhtin e nos
franceses Roland Barthes e Georges Bataille, primordialmente. Palavras-chave:
João
Silvério
Trevisan,
Desejo
Homoerótico,
Narrativas.
Palavra(s) chaves(s): João Silvério Trevisan, Narrativas
O sexo da palavra Aprovado
Prof. Dr. Fábio Figueiredo Camargo
E-mail: [email protected]
Titulação Doutor
Filiação: Universidade Federal de Uberlândia
Resumo: O presente projeto de pesquisa tem como objeto o estudo de uma
produção literária ainda marginalizada pelo cânone literário: a literatura de temática
homoerótica tanto masculina quanto feminina, produzida por sujeitos
homoeroticamente orientados ou não, mas tendo como tema central, em sua
maioria, relações afetivas de sujeitos homoeroticamente orientados. Muitas vezes
vista como literatura produzida por marginais para um público marginalizado e
falando desse mesmo público, essa literatura foi relegada a um lugar de excentricidade e, muitas vezes, salvo raras exceções, excluída da chamada literatura
séria. Além de se interessar por essa literatura pouco considerada, este trabalho
pretende estudar questão ainda mais espinhosa, as cenas de descrição de
relações sexuais dentro desses textos específicos produzidos entre os séculos XIX
e XXI. Além dessa marginalização interessamo-nos pelas relações entre essa
produção e a sociedade que as produz, levando em consideração seu contexto
histórico, bem como as representações dessas relações apresentadas nesses
textos. Sabemos que essas representações estão ligadas diretamente a códigos
de conduta de seus escritores e do público leitor o que motiva ainda mais este
projeto, pois a quantidade de preconceito que os sujeitos homoafetivos ainda
sofrem podem ser minimizados a partir da análise dessas representações, pois
estudar sobre elas é um modo de entender e produzir discussões acerca da
possibilidade de reduzir os danos perpetrados pelo patriarcado com relação a
esses
sujeitos.
Palavra(s) chaves(s): Literatura brasileira, Teoria queer
Eros em flor: a escrita erótica de algumas meninas Aprovado
Profa. Dra. Alessandra Leila Borges Gomes (Állex Leilla)
E-mail: [email protected]
Titulação Doutor
Filiação: Universidade Estadual de Feira de Santana
Resumo: EROS EM FLOR: A ESCRITA ERÓTICA DE ALGUMAS MENINAS
Alessandra Leila Borges Gomes (Állex Leilla) (Universidade Estadual de Feira de
Santana UEFS; ([email protected]) Este trabalho surge de uma ramificação de
meu projeto de pesquisa ? desenvolvido na UEFS há cerca de três anos ?, com o
qual venho mapeando e analisando as reinvenções do mito do amor em narrativas
contemporâneas. No meu recorte, procuro privilegiar os espaços alternativos das
experiências amorosas, dando preferência a textos que trazem questões
homoeróticas (masculinas e femininas) ou que tensionam de alguma forma aquilo
que se convencionou chamar no mundo ocidental de (hetero)normalidade. Dentro
dessa proposta, há um ano e meio, senti a necessidade de traçar uma linhagem
para alguns artistas e escritores que tendem a misturar biografia e criação,
estabelecendo uma atmosfera de intimidade com o leitor, a que Ana Cristina
Chiara (2007) chamou de delicada confusão entre vida e escrita. Trata-se de um
processo de sedução e entrega do vivido, que nos leva a dois elementos
complexos e culturalmente decodificados como atributos femininos: a captura da
atenção do outro e a confissão íntima. Dessa forma, comecei a ligar a
predominância da atmosfera de confissão do desejo ou da experiência amorosa de
certos autores e autoras com a tendência em problematizar os limites tênues entre
vida e arte. Para analisar o uso dessa escrita erótica e confessional, escolhi alguns
textos de Violette Leduc, Hilda Hilst, Maria Teresa Horta, Sophie Calle e Ana
Cristina Cesar. Quero com isso explorar a manipulação da prática daquilo que,
normalmente, adjetivamos como postura feminina traduzida por alguns teóricos,
como Rieth (2000) e Araújo (2003), enquanto uma apreensão, por parte das
mulheres, de que o amor deve fundamentar-se num híbrido de amizade, erotismo
e alegria. A essa decodificação não compreendida aqui enquanto verdade, mas,
antes, problematizada, eu acrescento certa delicadeza entre os(as) parceiros(as) e
uma busca da total transparência dos pactos firmados entre os amantes, uma vez
que a maioria dos teóricos afirma ser próprio das mulheres vincular a pessoa ideal
com a experiência do amor e do sexo, enquanto os homens tenderiam a dissociar
experiência sexual de namoro, casamento ou relacionamento fixo. Neste recorte,
escolhi analisar apenas textos de meninas, entretanto, o jogo ou manipulação que
aqui se problematiza não é exclusivo da escrita de mulheres, está presente,
também, nas estratégias discursivas de meninos como André, Gide, Jean Genet,
Caio Fernando Abreu, Al Berto, João Gilberto Noll, entre outros. Busco, assim,
compreender o jogo proposto por esses textos artísticos que, em muitos
momentos, deslocam a ideia comum de biografia e confissão, manipulando e
incorporando estratégias discursivas à teia criativa, e rasurando, dessa forma, as
noções do real e do verdadeiro. Palavras-Chave: Amor. Erotismo. Intimidade.
Escrita.
Jogo.
Palavra(s) chaves(s): amor, intimidade
Homocultura e testemunho nas literaturas argentina e brasileira Aprovado
Prof. Dr. André Luis Mitidieri Pereira
E-mail: [email protected]
Titulação Pós-Doutor
Filiação: UESC
Resumo: REPRESENTAÇÕES DA HOMOCULTURA NAS LITERATURAS
ARGENTINA E BRASILEIRA (PERÍODO DITATORIAL) André Luis Mitidieri
(UESC, [email protected]) Nossa comunicação tem por objetivo apresentar
resultados da fase inicial de um dos projetos que desenvolvemos na Universidade
Estadual de Santa Cruz (UESC), intitulado Homocultura e testemunho nas
literaturas argentina e brasileira. Esse projeto destina-se a articular os conceitos
teóricos de biografema homocultural e de literatura de testemunho, a fim de
analisar as relações de configuração da violência física e simbólica na produção
narrativa e poética realizada tanto na Argentina quanto no Brasil durante a
segunda metade do século XX. Buscamos constituir, em um primeiro momento, um
corpus com produções escritas que, nessa área conceitual, foram publicadas à
época ou posteriormente e que dialoguem em perspectiva crítica com a referida
temática, por conseguinte, com o ambiente repressivo vigente na sociedade latinoamericana, especificamente, a do Cone Sul. As pesquisas atuais na Argentina e no
Brasil em torno das relações entre literatura e violência se confundem
positivamente com a própria redemocratização dos dois países, em especial,
desde o final dos anos de 1980, quando começa a se restabelecer, no campo civil
e institucional, um ambiente mais propenso à discussão de ideias de modo mais
constante e sistemático no interior das universidades. Assim, o corpus selecionado
permite discutir vínculos entre crítica cultural, crítica literária e espaço biográfico a
partir do momento em que se contrapõe aos mecanismos de apagamento e de
silenciamento dos rastros traumáticos da história recente de ambos os países
focados na pesquisa. A presente proposta abre espaço à compreensão de vozes
sociais às margens do cânone literário e da história oficial latino-americana,
relacionadas sobremaneira aos períodos ditatoriais e pós-ditatorial na Argentina e
no Brasil. No momento de fixação do corpus, realizamos um trabalho de leitura
desse material com vistas ao entendimento e à análise de problemas trazidos à
tona pelos textos eleitos para a pesquisa. Conclusões parciais permitem-nos
estabelecer referenciais de forma a indicar abordagens diversas das tradicionais e
possíveis relações entre a repressão política e a opressão às subjetividades
marginais
aos
regimes
autoritários
e
totalitários.
Palavra(s) chaves(s): Ditaduras argentina e brasileira, Homocultura
Uma voz feminina a (re)significar os afetos em tempos de AIDS: a ficção de Sarah
Schulman Aprovado
Prof. Dr. Anselmo Peres Alós
E-mail: [email protected]
Titulação Doutor
Filiação: Universidade Federal de Santa Maria
Resumo: Sarah Schulman, atualmente professora de Inglês da City University of
New York, foi uma das primeiras escritoras estadunidenses que se deteve a
trabalhar ficcionalmente o advento da pandemia de HIV/AIDS, ainda no final da
década de 1980. Lésbica assumida, e uma das militantes mais ativas do ACT UP!,
entre 1987 e 1991. Autora de dez romances, a ficção de Schulman ocupa um lugar
importante na ficção estadunidense a articular os complexos vínculos entre AIDS,
pobreza e homossexualidade no contexto nova-iorquino do final do século XX.
Propõe-se aqui a realização de uma investigação acerca de Rat Bohemia,
romance de 1990, única obra ficcional da autora traduzida para o português
(Boêmia dos ratos, 1995). Para tanto, pretende-se articular a discussão proposta
por Marcelo Secron Bessa (1997, 2002) acerca da epidemia discursiva de
HIV/AIDS ao longo das décadas de 1980 e 1990 no campo literário, cruzando-as
com questões pertinentes que vem sendo discutidas pela própria autora de Rat
Bohemia em sua obra não ficcional, tais como as noções de homofobia familiar
(Schulman, 2009) e gentrificação da mente (Schulman, 2012). Ademais destes
pontos, este trabalho avaliará igualmente o impacto, frente ao público leitor
brasileiro, da perspectiva de uma mulher lésbica estadunidense no interior de um
filão da ficção das duas últimas décadas do século XX que foi dominado pela
autoria masculina. Caio Fernando Abreu e Herbert Daniel (Brasil), Daniel Link e
Pablo Pérez (Argentina), Hervé Guibert (França) e Michael Cunningham (Estados
Unidos) são escritores reconhecidos em escala internacional que se
preocupa(ra)m com a ficcionalização da AIDS em suas narrativas. Entretanto,
quando se pensa na literatura de autoria feminina, poucas são as mulheres com
obra de grande circulação no Brasil. Muito provavelmente, além de Sarah
Schulman, apenas a obra de Susan Sontag tenha circulado entre o grande público
leitor brasileiro (seja com seu ensaio AIDS and its metaphors [AIDS e suas
metáforas], publicado em inglês em 1988 e traduzido para o português em 1989,
seja como a novela The way we live now [Assim vivemos agora], publicada em
1986 no The New Yorker, e traduzida para o português em 1986, por Caio
Fernando Abreu). Qual o impacto de uma voz feminina a problematizar
ficcionalmente a epidemia de HIV/AIDS, em um período no qual a infecção era
vista como um anátema do pecado e da licenciosidade a punir homossexuais e
usuários de drogas? Estaria Schulman apenas fazendo eco às discussões dos
homens que trataram ficcionalmente da questão da AIDS, ou ela provocaria uma
ruptura e um deslocamento nos princípios que regem a epidemia discursiva da
textualização da AIDS na literatura. Estas são algumas das questões que se busca
responder com esta investigação. Este trabalho configura-se como a primeira
divulgação científica dos resultados parciais do projeto de pesquisa por mim
coordenado junto à Universidade Federal de Santa Maria, intitulado Poéticas da
masculinidade em ruínas, ou: o amor em tempos de AIDS, que conta com auxílio
financeiro
do
CNPq
(Chamada
43/2013).
Palavra(s) chaves(s): AIDS e literatura, Sarah Schulman
Download

Homocultura e Linguagens