A Era Vitoriana em A Noiva Cadáver The Victorian Age in Corpse Bride Ana Cláudia Arruda de Carvalho Centro de Comunicação e Letras – Universidade Presbiteriana Mackenzie Rua Piauí, 143 – 01241-001 – São Paulo – SP [email protected] Resumo. A análise comparativa entre o período histórico denominado Era Vitoriana e a animação “A Noiva Cadáver”, de Tim Burton e Mike Johnson, se propõe a identificar algumas características vitorianas presentes no filme. Com o enfoque nas semelhanças e diferenças apresentadas pelas personagens cinematográficas e históricas, buscar-se-ão os possíveis motivos dessa influência, tendo como base a teoria da personagem de Antonio Candido e em estudos sobre os costumes e o contexto histórico da época que será retratada. A animação aproveita-se de aspectos da Era Vitoriana para criticar seu moralismo e a sociedade de “aparências”. Palavras-Chave: Personagens. Era Vitoriana. A Noiva Cadáver. Abstract. The comparative analysis between the historical period called Victorian Age and the animated movie “Corpse Bride”, by Tim Burton and Mike Johnson, proposes to demonstrate some Victorian characteristics shown in the animation. Considering the differences and similarities between the cinematographic and historical characters, it intends to reveal possible reasons for this influence. This work will be based on Antonio Candido’s fiction character theory and on studies about the customs and the historical context of the period that will be portrayed. The movie embraces aspects of the Victorian Period to criticize its moral and the society of “appearances.” Keywords: Characters. Victorian Age. Corpse Bride. 1. Influências vitorianas em A Noiva Cadáver Pensar na Europa do século XIX costuma trazer à mente imagens de reis e rainhas, nobres, burgueses; casamentos arranjados; retratos a óleo dos familiares expostos nas paredes das casas, entre outros ícones. Na animação A Noiva Cadáver notam-se muitas semelhanças com um período desse século denominado Era Vitoriana. É exatamente a influência vitoriana que será analisada no filme acima citado. Considerada como o auge da Revolução Industrial inglesa e do Império Britânico, segundo Burgess (1996), a Era Vitoriana é freqüentemente definida como o período em que a rainha Victoria assumia o reinado da Grã-Bretanha e da Irlanda, ou seja, entre 1837 e 1901. As invenções científicas nunca modificaram tanto os costumes, idéias, paisagens e a vida das pessoas como aconteceu durante a Era Vitoriana. A Revolução Industrial foi um dos maiores causadores das mudanças na Inglaterra. A Inglaterra estava no auge de sua autoconfiança e poder. Após a Revolução Industrial, a Inglaterra do século XIX era a oficina do mundo. Até o último quarto desse século, a produção das fábricas inglesas era maior do que a de qualquer outro país. Durante a Era Vitoriana, principalmente em seu começo, ocorreu um grande crescimento das cidades. O rápido crescimento da classe média – classe beneficiada com a Revolução – fez parte do enorme crescimento da população, que, em 1815, era de 13 milhões, o dobro em 1871 e, em 1914, já era de 40 milhões. O controle da política e do governo pertencia cada vez mais à classe média. A aristocracia e a Coroa detinham pouquíssimo poder no ano de 1914. Havia uma “classe média” na Inglaterra há séculos: era uma pequena classe de comerciantes, negociantes e pequenos proprietários de terra. Na segunda metade do século XVIII, essa classe crescera, acompanhando o crescimento dos industriais e dos industriários. No século XIX, em contrapartida, a classe média cresceu muito mais rápido do que havia crescido antigamente, inclusive com algumas diferenças de riqueza, posição social e tipos de trabalho. 2.1. As personagens 2.1.1. Victoria Era Vitoriana recebe esse nome por causa da rainha que estava no poder nessa época, ou seja, a rainha Victoria. Há uma personagem em A Noiva Cadáver com o mesmo nome. A semelhança entre as duas não está presente apenas no nome, senão poderia ser mero acaso. Elas possuem muito mais em comum. O casamento da rainha Victoria foi arranjado. Ela deveria se casar com o príncipe Albert de Saxe-Coburg-Gotha. No entanto, a Rainha preferia que seu marido fosse escolhido por suas afinidades afetivas. Em seu primeiro encontro com Albert, Victoria se apaixona e acaba concordando com o matrimônio. A Victoria do filme também está receosa de se unir a um homem que não conhece. Enquanto se arruma para o ensaio da cerimônia, Victoria diz para sua dama de companhia, Hildegarde: E se Victor e eu não gostarmos um do outro?; depois, quando encontra seu noivo, Victor, pela primeira vez, revela: Desde criança sonho com o dia do meu casamento. Sempre esperei encontrar alguém por quem me apaixonasse perdidamente. Alguém com quem passar o resto da vida. Tolice, não é?. Ao perceber que Victor está retraído, talvez envergonhado com a presença dela, e que é muito educado, Victoria se apaixona por seu futuro marido, o que pode ser confirmado pelo modo como ela passa a olhar para o noivo. Victor, ao conhecer Victoria, a chama de Srta. Everglot, modo como um homem deveria se dirigir às mulheres no século XIX. Victoria sugere a ele que, já que estariam casados no dia seguinte, a chame de Victoria, sem as formalidades exigidas na época. A rainha Victoria também preferia se referir ao seu marido utilizando apenas o primeiro nome, que transmitia afeto e intimidade. O relato de Victoria a Victor sobre o matrimônio (Desde criança que sonho com o dia do meu casamento. Sempre esperei encontrar alguém por quem me apaixonasse perdidamente. Alguém com quem passar o resto da vida.) reforça a idéia vitoriana de que “Para as mulheres a única ambição devia ser a de se tornarem boas esposas e boas mães” (PERROT, 1999, p. 77), uma vez que a personagem diz que desde a infância tem sonhado com o casamento. Em A Noiva Cadáver vê-se que a mulher era criada para ser boa esposa e mãe, e que o casamento era seu grande objetivo na vida, pensamento tipicamente vitoriano. Victoria percebe que Victor está em sua casa ao ouvir o som do piano. Ao abordá-lo diz: Mamãe não me deixa chegar perto do piano. A música não é coisa para uma jovem. Ela diz que é muito passional. A habilidade musical não era bem vista para uma jovem, como diz Victoria Everglot, pois a música desperta sentimentos e as mulheres eram tidas como sexualmente perigosas, logo, a mulher que tivesse desenvolvido habilidades musicais era encarada como vulgar e imoral. Verifica-se, então, mais um traço vitoriano que, desta vez, diz respeito à educação das moças. Tendo em vista que a mulher era criada e educada para a vida matrimonial, era melhor que ela não possuísse estudos desnecessários, ou seja, que aprendesse apenas o suficiente para cuidar de uma casa – dirigir empregados, ser a interlocutora do marido e educar os filhos. Para isso, não era necessário o domínio de conhecimentos técnicos especializados nem de latim, somente a formação prática e teórica em economia doméstica. A intenção pela qual o nome da Rainha foi mantido no filme pode ter sido para afirmar que a personagem Victoria Everglot realmente foi baseada na Rainha, uma vez que a foi criada a partir de documentos históricos sobre a rainha Victoria, uma pessoa que efetivamente existiu e que provavelmente serviu de “molde” para a criação da personagem animada, como se pode perceber pelas características em comum. 2.1.2. Emily – Noiva Cadáver Emily havia se apaixonado por Lorde Barkis quando garota – como diz a caveira que canta a música sobre a vida dela –, e, como seus pais não a deixaram casar com ele, ela decide fugir com o homem que ama. Emily e Barkis combinam de se encontrar na floresta durante a madrugada. Instruída pelo noivo a levar as jóias da família, Emily põe o vestido de casamento de sua mãe e vai para o local do encontro. No horário combinado de se encontrarem, Emily vê uma sombra na escura floresta. Esta é sua última visão antes de morrer. Barkis a mata e toma como suas as posses da noiva. Por ser descrita como uma garota na música sobre sua vida, Emily provavelmente era uma adolescente – o que pode ser notado também pela seleção lexical da música, que remonta a tratamentos afetivos ou infantis: mamãe, papai, olhinhos – quando decidiu se casar com Lorde Barkis. A adolescência é o período que Rousseau entende como o momento do murmúrio das paixões nascentes, em que os jovens estão mais vulneráveis à paixão. É isso que acontece com Emily. Apaixonada por Barkis, ela não ouve os conselhos da família e decide sozinha – sem o apoio dos pais – unir-se ao homem que julgava amar. A opção errônea de Emily seria, pois, a concretização do perigo a que Rousseau alude. O perigo aqui é a atitude ingênua e impensada de Emily, que foi guiada apenas pela emoção, o que a levou à morte. No século XIX havia uma doença muito comum entre as mulheres. Naquela época, não sabiam como tratá-la nem designar seu nome. Hoje se sabe que essa doença “misteriosa” era a loucura. Como a sociedade ainda era centrada no homem, a loucura era geralmente atribuída às mulheres, que eram consideradas seres inferiores aos homens, além de serem posse deles. Em A Noiva Cadáver, Lorde Barkis acusa Emily de ter alucinações (Essa mulher está tendo alucinações) quando ela diz que ele não a havia deixado, ele a tinha matado. Para se abster de sua culpa, Barkis insinua que a Noiva estava louca. Entre os mortos, a Noiva Cadáver não era louca, mas sim Barkis, que havia matado sua noiva. Já que “A delinqüência nem sempre – pelo menos não em todas as suas formas – é motivo de escândalo. As fronteiras da respeitabilidade se deslocam ao longo do tempo e variam segundo os meios sociais” (PERROT, op cit., p. 271), o Lorde não estava mais em seu meio social habitual – entre os vivos –, estava entre as personagens do Mundo dos Mortos, logo, o julgamento destes seguiria outras normas de conduta. Neste caso, o imoral era o Lorde, que assassinou a Noiva enquanto ela o esperava para fugirem juntos. No final da animação, Victor diz que se casaria com a Noiva Cadáver, como havia prometido, ao invés de se casar com quem ele amava. A Noiva diz que ele cumpriu sua promessa: libertou-a da espera de um noivo para casar, condição para que ela fosse livre. Ela sai da igreja e, sob a luz (símbolo de purificação e liberdade) do luar, transforma-se em várias borboletas. A Noiva Cadáver teria encontrado a sua liberdade porque havia pagado por seus pecados, já que não se casou com Victor e nem com Lorde Barkis. Como ela tinha pagado por seus pecados e o Lorde havia morrido, ela poderia recomeçar a sua vida, estava livre de sua promessa de esperar por um marido, poderia, enfim, ser livre. Esta personagem também traz grande carga cultural. A Noiva Cadáver pode representar no filme a liberdade e a inocência juvenil. 2.1.3. Victor Esta personagem aparece no filme desenhando uma borboleta presa em uma redoma de vidro. Após terminar o desenho, ele a liberta, deixando-a sair pela janela. Essa primeira cena parece bastante significativa em relação ao processo pelo qual Victor passa no decorrer do filme. Victor, inicialmente, é um rapaz tímido e desajeitado, o que pode ser notado em seu primeiro encontro com Victoria. Até o momento em que vai para a floresta, Victor está sempre em companhia de seus pais: mora com seus pais; vai com seus pais para a casa de sua futura esposa e, até em seu primeiro encontro com Victoria, Victor conta com a presença de seus pais, ainda que estivessem em diferentes cômodos. Na floresta, Victor treina seus votos matrimoniais para poder se casar com Victoria. Contente por ter conseguido se lembrar de todos os seus votos, Victor simula a cerimônia de seu casamento e coloca a aliança em um galho com formato de dedo. Surge a Noiva Cadáver e Victor encontra-se casado com um cadáver. Ainda que Victor tente parecer valente ao ameaçar os mortos com uma faca – atravessada no corpo de um anão – para descobrir o que tinha acontecido com ele, até o momento em que ganha um presente de casamento da Noiva Cadáver, Victor parecia assustar-se com tudo o que via de inesperado ou desagradável. A mudança de Victor acontece quando a Noiva pergunta se sua sogra gostaria dela. Victor aproveita a pergunta para descobrir se seria possível voltar para o Mundo dos Vivos. A Noiva Cadáver parece ficar triste por não poder visitar a família de seu marido. Scraps, cão de Victor, late para a Noiva sugerindo algo. A Noiva concorda com o cão e os três vão encontrar o Velho Gutknecht para descobrir como ir para o Mundo dos Vivos. A partir desse momento, Victor começa a tentar solucionar os seus problemas. De volta ao Mundo dos Vivos, Victor vai à casa de Victoria contar o que sentia por ela e informá-la sobre o que havia acontecido. A Noiva Cadáver fica com ciúme e diz a palavra que os levaria de volta para o Mundo dos Mortos. Neste mundo, Victor explica à Noiva que o ocorrido entre eles era um engano e que ele deveria se casar com Victoria. Quando o Velho Gutknecht descobre que Victor e a Noiva Cadáver não estão casados, Victor decide casar-se com a Noiva Cadáver, já que não poderia casar-se com Victoria, que havia se casado com Lorde Barkis. Durante a cerimônia de casamento, Barkis ameaça Victoria e Victor a defende, não só com palavras, como também duela com o Lorde. Quando o Lorde Barkis morre, o casamento de Victoria e Victor torna-se possível. Este, porém, diz que se casará com a Noiva Cadáver, pois havia prometido isso a ela e deveria manter sua palavra. A transformação de Victor na animação e a metamorfose da borboleta são muito parecidas simbolicamente. No começo da trama, Victor está em seu casulo, ou seja, em sua casa ou com seus pais, que decidem o futuro de Victor por ele. O arrastar incessante da lagarta ao sair do casulo é notado em Victor quando ele tem que resolver situações e tomar suas decisões sozinho. A fase em que Victor pode ser comparado à borboleta já formada é quando ele assume riscos, sabendo quais podem ser as conseqüências, como faz ao concordar em casar com a Noiva Cadáver ou ao desafiar Lorde Barkis. A borboleta também representa a ressurreição para uma vida nova e gloriosa, livre de conceitos materiais e repressões, que é o que acontece com Victor no final do filme, uma vez que ele tem a oportunidade de um “novo recomeçar” com Victoria. Essa personagem pode ter sido inspirada em Albert, o Príncipe Consorte, casado com a rainha Victoria, pois a descrição que a rainha faz de Albert – alto, cabelos escuros, pele branca e roupa preta – também se aplica às características físicas de Victor. A relação da rainha com seu marido era harmoniosa, eram os fatores externos que perturbavam a vida deles; o relacionamento de Victor e Victoria é atrapalhado sempre por outras personagens, quando estão juntos parecem amar um ao outro. Uma outra razão para a escolha desse nome para Victor seria em decorrência do seu significado em latim – vencedor –, que confirmaria que sua “metamorfose” foi bem sucedida. Possivelmente, a personagem de Victor Van Dort foi criada através da vida de Albert, mas com um outro nome, que possui um significado em latim condizente com a personagem final. 2.1.4. Família O lar vitoriano era o lugar onde os familiares se sentiriam confortáveis com os demais, era um refúgio seguro frente às pressões do mundo exterior, era a base da sociedade moral do século XIX. O dever familiar dos homens era o de serem um bons pais e bons maridos, proprietários de negócio próprio e chefes de família; o homem seria o detentor da autoridade. Em A Noiva Cadáver, a autoridade familiar do homem não está presente. Tanto William Van Dort quanto Finis Everglot parecem ser submissos a suas mulheres. O primeiro, por exemplo, deixa-se humilhar por sua esposa quando visitam os Everglot e ela pede para que esqueçam da presença do marido. O segundo, ainda recebe ordens de sua esposa para ir para a cama. Portanto, pode-se admitir que a inversão dos valores da Era Vitoriana presente na caracterização dos casais é uma crítica a esse período histórico. O pai de Victor é um novo burguês, faz parte da classe média inglesa do período vitoriano. Isso se comprova pelo fato de William Van Dort ser dono de seu negócio – uma peixaria – e por possuir uma casa própria, imóveis que só os ricos conseguiam manter no século XIX. De um lado está a família Van Dort, novos ricos a quem, para pertencerem a nobreza, só falta o título. Do outro lado estão os Everglot. Descendentes de nobres, Maudeline e Finis Everglot só possuem o título de nobreza, mas não possuem bens materiais. Para salvar a família da falência, os Everglot planejam casar sua filha Victoria com um burguês para garantir o futuro da família. A vida social na Era Vitoriana deveria ser privada, logo, não era permitida a entrada de estranhos nas casas. Durante o ensaio de casamento de Victor, os Everglot permitem que um estranho, talvez por possuir o título de “lorde” entre em sua casa e se instale lá enquanto permanece na cidade. A estada de Lorde Barkis na casa dos Everglot demonstra que, embora nobres, eles não eram seletivos em relação às pessoas que incluíam em seu convívio social. Após a invasão dos mortos no Mundo dos Vivos, enquanto Finis está preocupado com a tradição, com o nome da família e com o que seu avô pensaria ao ver tantos mortos em sua casa, seu avô surge em cena perguntando Onde guarda as bebidas?. Nota-se aqui uma crítica aos valores morais da Era Vitoriana, já que o avô de Finis não parece preocupado com a nobreza de seu nome, mas sim com sua satisfação pessoal. A bebida, no século XIX, não era indicada ao lar e à família, porque poderia desenvolver o alcoolismo e, conseqüentemente, destruir a união familiar. 2.1.5. Mensageiro Após certo período em que a vida familiar era tida como privada, as pessoas passaram a se interessar pela vida alheia, a tecer intrigas sobre os outros, a querer saber o que acontecia com as pessoas. Qualquer desvio moral era motivo para um escândalo público. Esse problema, a invasão da privacidade, está bastante claro em A Noiva Cadáver através da personagem do mensageiro, que informa toda a cidade sobre o clima, o casamento de Victor, o fracasso do ensaio da cerimônia de casamento, o “romance” de Victor com uma mulher misteriosa, entre outros fatos. O mensageiro provavelmente representa no filme a invasão de privacidade que ocorria na época por causa da proximidade das janelas das casas e dos criados, que poderiam contar a vida privada de seus patrões para outras pessoas. 2.1.6. Os criados Mayhew, empregado dos Van Dort, além de trabalhar na peixaria, também é o cocheiro da carruagem da família. Apesar de a senhora Van Dort dirigir-se a ele de forma grosseira, Victor e William o tratam bem. Ao se encontrarem no Mundo dos Mortos, Victor conversa com Mayhew como se fossem íntimos. A rainha Victoria, em seu diário, escrevia sobre seus criados como se fizessem parte da família. É assim que os homens da família Van Dort parecem ver Mayhew. Victoria Everglot também demonstra afeto por sua dama de companhia, chamada Hildegarde. Esta demonstra uma certa “devoção servil” à Victoria. É a criada quem tenta convencer Victoria de que seu casamento com Lorde Barkis poderia ser bem sucedido e é ela quem chora no casamento da jovem. Victoria aparenta carinho e confiança em Hilde, apelido carinhosa dado à criada. Emil, mordomo dos Everglot, é um exemplo de uma minoria de criados que ousavam desafiar os seus senhores na Era Vitoriana. Após servir à família por determinado tempo, as ordens ministradas aos criados já não eram tão bem-vindas. Quando os mortos invadem o Mundo dos Vivos, Finis ordena que Emil pegue sua espingarda. Preocupado consigo mesmo, o criado diz ao senhor Everglot que ele pegue a arma e depois sai correndo para fugir dos mortos. 2.1.7. Pastor Galswells Uma das vertentes religiosas mais influentes durante a Era Vitoriana foi o evangelismo, que buscava reformar a igreja e difundir sua mensagem principal: a do pecado, da culpa e da redenção. O pastor Galswells parece representar esses ideais na animação. Única personagem relacionada à igreja em A Noiva Cadáver, o pastor Galswells, primeiramente, mostra-se imponente por causa de sua voz grossa, interpretada por Christopher Lee. Em sua primeira aparição no filme, o pastor faz o ensaio da cerimônia de casamento de Victor e Victoria. No ensaio Victor não consegue acertar os votos matrimoniais, o que irrita o pastor. Já impaciente, após inúmeras tentativas desperdiçadas por Victor, Galswells ordena que o noivo aprenda os votos, caso contrário, não haveria casamento. Victor, assustado, sai da casa dos Everglot – onde foi realizado o ensaio – e vai para a floresta. Na floresta Victor lamenta-se por ter estragado o ensaio, demonstrando que se sente culpado pelo que aconteceu. Ao descobrir que Victor havia se casado com um cadáver, Victoria tenta buscar ajuda. Ela foge de casa e vai até a igreja falar com o pastor Galswells, que ela julga dever conhecer o que há após a morte, uma vez que ela fala ao pastor: O senhor é o único que sabe o que nos aguarda além do túmulo. Victoria demonstra acreditar que o pastor, um representante da Igreja, conhece a palavra de Deus e a ajudaria a anular o casamento de Victor com a Noiva Cadáver. O pastor diz à Victoria: O que faz aqui? Devia estar em casa sofrendo sua dor. Galswells parece querer induzir a moça a se sentir culpada de sua imoralidade, pois, ao invés de ficar em casa sofrendo, ela sai para pedir ajuda. O sofrimento a que o pastor se refere provavelmente diz respeito à auto-penitência (isolar-se do convívio social), que os evangélicos viam como uma forma de redenção. O pastor Galswells acaba representando, assim, a autoridade e imponência dos valores da igreja e dos valores vitorianos. Quando os mortos invadem a Terra para ir ao casamento da Noiva Cadáver, o pastor grita para eles, que queriam entrar na igreja: Vão embora, demônios do inferno! Voltem para o nada de onde vieram! Vocês não entrarão aqui. Voltem! Voltem!, mas o pastor recebe como resposta de um dos mortos: Fale baixo, estamos em uma igreja, o que demonstra claramente uma crítica ao autoritarismo imposto pela igreja durante a Era Vitoriana. Essa personagem foi, então, construída com base em modelos de pastores evangélicos que também aceitavam os valores vitorianos. O pastor Galswells representa no filme toda a classe evangélica da Era Vitoriana e, assim, exige que o telespectador conheça um pouco do cenário religioso do século XIX para melhor entender essa personagem. 2.1.8. Lorde Barkis Lorde Barkis aparece no começo do filme observando o que acontecia na casa dos Van Dort. É desta maneira que descobre sobre o ensaio de casamento de Victor e Victoria. Barkis aproveita essa desculpa para conseguir um lugar para ficar na cidade e, talvez, para tentar seduzir a noiva, como havia feito com Emily: casar-se-ia para conseguir os bens materiais da família e depois mataria a esposa, intenção que o próprio Lorde confessa ao ver o quadro de Victoria na parede da casa dos Everglot. A personagem de Lorde Barkis provavelmente foi construída para demonstrar que “A vigarice, a fraude, principalmente se praticada num Estado bastante exteriorizado, gozam de grande indulgência. A falência, em contraposição, é vista não só como um fracasso individual, mas como um erro, uma queda no sentido moral” (PERROT, 1999, p. 271). Sendo assim, Barkis seria o exemplo do andarilho em busca de novas aventuras para manter-se vivo. 2.1.9. Scraps Na primeira cena da animação, vê-se um quadro na parede do quarto de Victor em que ele é criança e está acompanhado de um cão. Esse cachorro, como se descobre mais adiante no filme, é Scraps, seu animal de estimação. A invenção da fotografia – ocorrida na Era Vitoriana – permitiu o registro de instantes, que poderiam ser preservados, o que possibilitou a percepção da passagem dos anos, a evolução dos filhos, da família e outros momentos importantes (PERROT, 1999). No quarto de Victor há apenas o quadro em que ele está com Scraps, sendo assim, pode-se perceber que o cachorro é bastante querido por seu dono. Outra expressão do carinho de Victor por seu cachorro é a felicidade que a personagem demonstra em ver o seu cachorro novamente no Mundo dos Mortos. Victor chega a acariciar Scraps, dizendo que sua mãe jamais permitiria que o cachorro pulasse em cima dele, que ela não gostava de nada. Aqui, o cão é apresentado como a companhia que Victor tinha quando Scraps estava vivo. A fala de Victor também demonstra que sua mãe não permitia muitas demonstrações de carinho, afinal, ela não gostava de nada, como diz seu filho. É possível que ele ache que a mãe não gostava dele e, por isso, não gostava que Scraps pulasse no colo do filho. Talvez a senhora Van Dort tivesse ciúme da devoção do filho ao seu cão; já que a mãe de Victor não parece ser muito dócil com o filho, é provável que ela se incomode com a relação afetiva de Scraps e seu dono, algo que a senhora Van Dort não consegue estabelecer com o filho em nenhuma parte da animação. Na Era Vitoriana, os animais de estimação faziam parte da família. Em um retrato da família real, vêem-se muitos animais com as pessoas. Nessa época, os animais de estimação eram vistos como parte da família. É assim que Victor demonstra seu carinho a seu cachorro, como se ele também fosse parte da família. 2.2. Influência vitoriana na criação das personagens A Era Vitoriana está, sim, presente em A Noiva Cadáver. Através da elaboração das personagens, a animação consegue demonstrar a influência vitoriana. Victoria não herdou só o nome da rainha que o emprestou para caracterizar praticamente um século, essa personagem também possui diversos aspectos semelhantes aos da rainha Victoria. Seu noivo Victor, inclusive, parece-se muito com o marido da rainha, o Príncipe Consorte Albert. Como essas duas personagens – Victor e Victoria – foram baseadas em pessoas reais, mas através de documentos históricos; assim, elas se encaixam no tipo de personagem descrito por Candido (2005, p. 71) como “Personagens transpostas de modelos anteriores, que o escritor reconstitui indiretamente, – por documentação ou testemunho, sobre os quais a imaginação trabalha”, ou seja, as personagens são construídas a partir de documentos históricos, de depoimentos, representam uma pessoa que existiu efetivamente, mas reconstituindo esses modelos. A Noiva Cadáver pode ter sido criada segundo algum modelo conhecido; no entanto, como não há nenhum depoimento dos diretores do filme sobre uma pessoa ou personagem em quem a Noiva seja inspirada e levando-se em consideração apenas o conteúdo demonstrado no filme, ela provavelmente foi criada seguindo um modelo básico, que foi modificado de forma a explorar a fantasia, já que sendo ela um cadáver, distancia-se do que acontece na vida real. Assim como a Noiva, Scraps, o cão de Victor, também é representado de forma bastante peculiar, uma vez que ele é constituído de ossos e até consegue se comunicar com a Noiva Cadáver com seus latidos. Os criados presentes no filme podem ter sido criados através de documentos históricos também, porém, representam uma classe social. O mesmo ocorre com o mensageiro, com a Família, com Lorde Barkis e com o pastor Gaswells. Todos representam uma classe social diferente, generalizada através da personagem. Assim, esse conjunto de personagens segue, como a maioria das personagens do filme, o que Beth Brait chama de personagem referencial, que é uma personagem que traz consigo grande carga de cultura, de forma que o espectador só conseguirá entender plenamente a personagem se compartilhar da mesma cultura ou tiver conhecimento desta, o que, conseqüentemente, ajuda no entendimento geral da animação. Provavelmente, os Criados, o Lorde, a Família, o mensageiro e o pastor não foram criados a partir de um modelo único, mas sim de um grupo de indivíduos. Enquanto todas as outras personagens são referenciais, segundo a nomenclatura de Brait, Scraps, além de demonstrar informações culturais da época vitoriana, também é uma personagem anáfora - que só pode ser apreendida completamente na rede de relações formulada pelo tecido da obra (BRAIT, 1990) –; pois só pode ser compreendido em relação a Victor e sua família. Concluindo, as personagens do filme possuem características da Era vitoriana para criticar esse período, seja através da família nada convencional para o século XIX, já que é a mulher quem parece mandar na casa, ou de Lorde Barkis, aventureiro oportunista, aparentemente sem caráter. Barkis e os pais de Victoria são os maiores exemplos da sociedade de “aparências” que o filme tenta apresentar. As outras personagens parecem possuir certa carga da cultura vitoriana para que se possa ter certeza ou, pelo menos, suspeitar, de que o filme é uma crítica bem humorada aos valores morais vitorianos. Referências BRAIT, Beth. A personagem. 4ª ed. São Paulo: Editora Ática, 1990. BURGESS, Anthony. A literatura inglesa. Trad. Duda Machado. São Paulo: Editora Ática, 1996. CANDIDO, Antonio [et al.]. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 2005. PERROT, Michelle (org.). História da vida privada. Da Revolução Francesa à Primeira Guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.