Ano 2 | Nº 8 | Jan 2014
ISSN 2316-8102
A ESCURIDÃO QUE NOS OLHA
por Arthur Moreau
Marcelo Evelin e Demolicion Inc., De repente tudo fica preto de gente, 2013. Bienal Sesc de Dança 2013, Sesc
Santos, Santos, SP, Brasil. Fotografia de Caroline Moraes/ 7X7
Eles são sujos. Gosmentos. Devoram-se. Eles são vis. Asquerosos. Babam-se.
Empurram e atrapalham quem está por perto. No geral, são despercebidos. Mas, em alguns
casos, podem alterar tudo. Marcelo Evelin os coloca em um ringue, cujo parapeito ilumina o
interior, e o resto do ambiente se assemelha a essa gosma ignóbil. Menos o público.
As pessoas que comparecem para assistir dentro do ringue ficam no canto delas, mas
são apertadas pelo vai-e-vem do grupelho. Mesmo sem se deslocarem e discretas, elas são
incomodadas por essa massa que se move de modo extremamente junto, aglomerado, e que
anda ao léu. A curiosidade que emana desse muco coletivo cobra dos que o rodeiam que se
desvie dele, ao risco de ter a roupa manchada pela gentalha. Seria o menor dos males perante
o embate sensível de reflexão posto no ringue.
Marcelo Evelin e Demolicion Inc., De repente tudo fica preto de gente, 2013. Bienal Sesc de Dança 2013, Sesc
Santos, Santos, SP, Brasil. Fotografia de Caroline Moraes/ 7X7
Esses seres, que se juntam e se separam e se juntam sem alterações significativas, são
a sobrevida da escuridão. Há, neles, muitas poucas evidências de particularidades. É uma
dança tosca, talvez a única possível, da rebelião moral dos escravos. O alemão Friedrich
Nietzsche (1844-1900) afirmava que a moral do escravo é que venceu na sociedade ocidental
moderna, em que o bom é aquele que é igual e o diferente causa ojeriza. Ele criticava a falta
de ímpeto emotivo, de vida audaciosa na sociedade de seu tempo. Isso causava a ausência de
um corpo que determinasse seu desejo que desdobraria na transformação daquele para ser
exaltado. O humano deveria ter sede de força e sobressair-se dos demais e, assim, dançar uma
dança desintegradora dos códigos, dos lugares-comuns, da normalidade. Seria a experiência
de si como transgressão. Mas a civilização gerou um mar de iguais medíocres que não
dançam com êxtase. Como afirmou Christine Greiner (professora da PUC-SP), essa obra nova
é o negativo de Matadouro (2011), do mesmo grupo. A “massa”, tema tão estudado por
Evelin, tende à reprodução diluída de códigos mais sofisticados e à homogeneização
coreográfica social. Mas, por vezes, sua parte enigmática contradiz isso. Podendo, inclusive,
despertar boa parte do mundo massificado, mesmo que por poucos dias. Mais ou menos como
na música Rosa-dos-ventos (1970), de Chico Buarque.
Talvez essa revelação esteja em nós. O colorido está em posse do público em De
repente. Esse visual é desafiado pelo seu negativo. Se o público é, aqui, um coletivo maior, de
independência entre suas partes, os pretos são poucos, mas sempre conectados uns aos outros,
mesmo quando desgrudados. Mas se eles parecem estar em menor número, são suas ações que
causam as revoluções de todos no cenário e esse, por sua vez, se confunde com os pretos.
Além do mais, talvez essa confusão esconda outros muitos pretos escondidos. Presenças sem
presença. Uma arte escondida, à espreita, mas exposta e ativa. Talvez ninguém escape de se
contaminar, mesmo se de repente sair do ringue.
Marcelo Evelin e Demolicion Inc., De repente tudo fica preto de gente, 2013. Bienal Sesc de Dança 2013, Sesc
Santos, Santos, SP, Brasil. Fotografia de Caroline Moraes/ 7X7
Então, nesse lugar, esse ruído visual das cores aparentes, que são sujadas e sugadas
pelo carvão moído besuntado grudado nos corpos dos performers, esta invisível, apesar de
iluminado. Esses entes escuros são também obscuros: sugam a luz e as diferenças que os
rodeiam. Por mais que os olhemos, não é possível ver tudo. Seus movimentos, em sua maior
parte tão inconvencionais, não são claros: se mexem quase como se estivessem pedindo
esmola, quase como se extorquissem por algo, ou quase como se observassem seus opostos
com ódio. Seus gestos são muito incertos. Talvez porque o dialeto corporal deles seja de outra
natureza.
A leitura fica muito borrada, pois é desconhecida a profundidade deles. A mente
registra que os olhos estão olhando. Todavia, mais não enxerga do que enxerga [1]. Uma
demência que pode confundir e atordoar. Causar, quem sabe, gracejos escapistas. Mas que,
com os olhos abertos e despertos, ao se observar deliberadamente as complexidades e as
tragédias de mundo, pode-se reparar na pequeneza do nosso conhecimento e na fragilidade da
nossa força, sejam elas no âmbito pessoal ou coletivo.
O mundo apresentado por Evelin e companhia é diretamente o que podemos projetar
quando nos apoiamos no futuro para nos alienarmos do presente. Se o preto pode ser uma cor
para os excluídos, das ovelhas negras sociais, também é a mesma que é possível enxergar – e
que provoca injúria – quando se pretende entender e compreender efetivamente a dinâmica da
vida social humana no mundo real. Uma realidade por demais inalcançável.
Nota
[1] Referência à metáfora de Giorgio Agamben, do seu ensaio O que é o contemporâneo? (2009).
Arthur Moreau é bacharel em Comunicação das Artes do Corpo, na PUC-SP, e estudante de Filosofia,
na USP. Também é integrante do 7X7.
© 2014 eRevista Performatus e o autor
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